O cartógrafo, poema de José Paulo Moreira da Fonseca

26 06 2012

Mapa antigo, Janssonius, América do Sul.

O cartógrafo

José Paulo Moreira da Fonseca

No azul desse mar distante

Porei uma nau feito as que de lá me trouxeram novas

De serpentes entre as algas

Que à sombra dos mastros igualmente vou desenhando

E ainda uma diurna costa com verdes palmas,

Flores rubras, pássaros e lagartos

Que sejam ornamento e nos fale da estranheza.

E porei, além, uma póvoa de aborígenes

E mais além, porque tudo ignoramos,

Cumpre-me deixar a carta em branco,

Sem palavras nem contornos,

Tão-só indagação, casta e silenciosa,

Como a do papel em que escrevo.

Em: Antologia Poética, José Paulo M. F., Rio de Janeiro, Leitura: 1968





Feira moderna de Caruaru, poema de Domingos Pellegrini, Jr.

21 06 2012

Cabras, arte africana, sem autoria.

Feira moderna de Caruaru

Domingos Pellegrini Jr.

1

A carne-de-sol na sombra

das barracas de alvaiade

Quarenta cachorros magros

Ninguém pode ter piedade

C’uma costela de vaca

a fome toca rabeca

no coração da cidade.

A feira dura três dias

não deixa sobra nenhuma

Cada velho cada menino

é doutor de economia.

Um cego vendendo um bode

garante que produz leite

coalhada até requeijão

— Mas, cego, como é que pode?

O cego apenas responde:

— Hoje quem faz propaganda

não aceita discussão.

2

Mas cadê aquela feira

que irmão abraçava irmão

Fateira entregava a concha

pra mexer no caldeirão

Feirante botava a fruta

na boca do cidadão

Se não gostou, não comprava

Se azedou, devolvia

Se não vendia, era dado

Freguês pagava outro dia

Morria, era perdoado

Hoje são outros 500

São outros tempos, meu mano

O cego vendeu o bode

— Vendi, e sem garantia

Tinha mais de 30 anos

não vive mais 30 dias

Negócio tipo moderno.

Hoje aqui ninguém mais fia.

Quem pode, financia.

Quem não pode, vá pro inferno.

Em: Poesia viva 2: a diversidade de nosso tempo na visão de cada poeta, coord. e sel. Moacyr Félix, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira:1979





Quadrinha do meio ambiente

15 06 2012

Chico Bento prepara a terra para plantar, ilustração Maurício Sousa.

Que o mister da agricultura
não traga, em nenhum momento,
mesmo gerando fartura,
selvagem desmatamento!

(Wanda de Paula Mourthé)





Os três companheiros, conto folclórico brasileiro

8 06 2012

Três homens num bote, ilustração Paul Rainer.

Os três companheiros

Conto folclórico, texto de Luís da Câmara Cascudo

Um bombeiro, um soldador  e um ladrão eram muito amigos e resolveram viajar por esse mundo para melhorar a vida. Tinham eles um cavalo encantado que respondia todas as perguntas. Chegaram a um reinado onde toda gente estava triste porque a princesa fora furtada por uma serpente que morava no fundo do mar.  Os três companheiros acharam que podiam fazer essa façanha e consultaram o cavalo.  Este mandou o soldador fazer um bote de folhas de Flandres. Meteram-se nele e fizeram-se de vela.

Depois de muito navegar deram num ponto que era o palácio da serpente. Quem ia descer? O bombeiro não quis nem o soldador. O ladrão agarrou-se na corda que os outros seguravam e lá se foi para baixo. Pisando chão, viu um palácio enorme guardado por uma serpente que estava de boca aberta. O ladrão subiu depressa, morrendo de medo. Voltaram para casa e foram perguntar ao cavalo o que era possível fazer. O cavalo ensinou que a serpente dormia de boca aberta e quando estava acordada ficava com a boca fechada. Debaixo da cauda tinha a chave do palácio. Quem tirasse a chave, abrisse a porta, encontrava logo a princesa.  Os três amigos tomaram o bote de folha de Flandres e lá se foram para o mar.

Chegando no ponto os dois não queriam descer. O ladrão desceu e, como estava habituado, furtou a chave tão de mansinho que a serpente não acordou. Abriu a porta, entrou, foi ao salão, encontrou a princesa, disse que vinha buscá-la e saíram os dois até a corda. Agarraram-se e os dois puxaram para cima. Largaram vela e o bote navegou para terra.

Quando estavam no meio dos mares a serpente apareceu em cima d’água, que vinha feroz. Que se faz? Era a morte certa. – Deixa vir, disse o bombeiro. Quando a serpente chegou mais para perto, o bombeiro tirou uma bomba e jogou em cima da serpente. A bomba estourou e a serpente virou bagaço. Na luta, o bote fura-se e a água estava entrando de mais a mais, ameaçando ir tudo para o fundo do mar.

Que se faz? Morte certa! Deixe comigo – disse o soldador. Tirou seus ferros e soldou todos os buracos e o bote navegou a salvamento até a praia.

Chegaram no reinado recebidos com muitas festas pelo rei e pelo povo. O rei deu muito dinheiro aos três mas o ladrão, o bombeiro e o soldador queriam casar com a princesa.

— Se não fosse eu a princesa estava com a serpente! Dizia o ladrão.

— Se não fosse eu a serpente devorava todos, dizia o bombeiro.

— Se não fosse eu iam todos para o fundo do mar! Disse o soldador.

Discute, discute, briga e briga, finalmente a princesa escolheu o ladrão, que era seu salvador e este pagou muito dinheiro aos dois companheiros. O ladrão casou e mudou de vida e todos viveram satisfeitos.

Em: Contos Tradicionais do Brasil (folclore) de Luís da Câmara Cascudo, Rio de Janeiro, Ediouro:1967





Uma seleção: melhores frases de abertura de romance em língua portuguesa

6 06 2012

Habitante de Patópolis, lendo na biblioteca, ilustração Walt Disney.

No dia 29 de abril publiquei aqui uma listagem, por voto popular das melhores frases de abertura de romances em lingua inglesa, como saiu publicado no jornal The Guardian:

As melhores frases de abertura de romance em língua portuguesa? Dê o seu palpite!

Logo amigos e conhecidos do blog deram alguns palpites e hoje posto essa listagem.  Gostaria de ressaltar, no entanto, que os autores teriam que ser de língua portuguesa.  Alguns se lembraram de obras de Camus e de Flaubert.  Já mais alguém reclamou da lista original não incluir a frase de abertura de Moby Dick, de Herman Melville: “Chamai-me Ismael“.  Mas a brincadeira foi justamente para livros na nossa língua para que pensássemos naquilo que lemos de literatura em português.  A grande surpresa foi o número de autores não brasileiros listados e sobretudo a popularidade dos autores africanos na nossa pesquisa que não tem nada de científica.  Então sem mais delongas, aqui vão as sugestões, lembrando que estarei sempre à disposição de aumentar essa lista a qualquer momento.

Alice sugeriu:

As palavras, como os seres vivos, nascem de vocábulos anteriores, desenvolvem-se e fatalmente morrem.

Em: Milagrário Pessoal, de José Eduardo Agualusa.

A minha vida se resume a uma larga e sinuosa curva para o amor”.

Em O Planalto e a Estepe, de Pepetela

Elizete sugeriu:

‎”Quem és tu que danças descalço na noite escura?”

Em: Não Te Deixarei Morrer David Crockett, de Miguel Souza Tavares.

‎” Não basta morrer para conhecer o sorriso de Deus – mesmo que, como foi o meu caso, se tenha vivido abismada nele uma vida inteira.”

Em: Fazes-me Falta de Inês Pedrosa.

Hira sugeriu:

A morte é como o umbigo: o quanto nela existe é a sua cicatriz, a lembrança de uma anterior existência.

Em: Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra, de Mia Couto

Ladyce sugeriu:

 “Algum tempo hesitei se devia abrir estas memórias pelo princípio ou pelo fim, isto é, se poria em primeiro lugar o meu nascimento ou a minha morte”.

Em:  Memórias Póstumas de Brás Cubas, Machado de Assis.

“Embora os descaminhos futuros, Sandro Lanari nasceu pintor.”

Em: O pintor de retratos, Luiz Antonio de Assis Brasil

Luca sugeriu:

Tudo no mundo começou com um sim“.

Em: A hora da estrela, de Clarice Lispector

Marilda sugeriu:

“Era uma noite fria de lua cheia.”

Em: O Continente, de Érico Veríssimo.

Nonada”.

Em: Grande Sertão:Veredas, de Guimarães Rosa.

Nanci

A TUA CABEÇA RODOU na direcção do meu rosto, os teus olhos fecharam-se e a tua boca avançou para a minha, através de uma lenta rota de luz, risos e lágrimas”.  Em: Nas tuas mãos, de Inês Pedrosa

Ricardo, do blog O Último Abencerragem:

Arcóbriga e Meríbriga são cidades mortas desde que os habitantes foram obrigados a descer para o vale”.  Em: A Voz dos Deuses — Memórias de um Companheiro de Armas de Viriato, de João Aguiar.

“(Sei que andas por aí, oiço os teus passos em certas noites, quando me esqueço e fecho as portas começas a raspar devagarinho, às vezes rosnas, posso mesmo jurar que já te ouvi a uivar, cá em casa dizem que é o vento, eu sei que és tu, os cães também regressam, sei muito bem que andas por aí.)” Em: Cão como Nós, de Manuel Alegre.

Sempre que do portão se avizinhava mero turista ou descobridor de mistérios e o sino ficava longo tempo a retinir pela ribeira, ouviam-se pesados bate-lajedos de caseiro em movimento”. Em: A Torre de Barbela, Rubem A.

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NOTA:  As citações acredito que estejam todas corretas.  O que estava a meu alcance verifiquei, mas não tenho acesso a todos esses romances.





E lá vai Vênus, passando em frente ao sol…

5 06 2012

Nesta terça e na quarta poderá ser visto o raríssimo trânsito de Vênus:  o trânsito de Vênus ocorre quando o planeta passa em frente ao Sol. A próxima vez que ele ocorrer vai ser em 2117. O evento é um dos mais aguardados no calendário astronômico.No Brasil, apenas o extremo noroeste (Acre, Roraima e oeste da Amazônia) poderá ver, hoje ao por do sol.

Sobre essa ocasião, o astrônomo Gustavo Rojas, encarregado do observatório da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) disse:  “Ele tem uma frequência que é meio estranha. A última vez que aconteceu foi oito anos atrás, em 2004, e a próxima será em 2117. O ciclo todo demora 243 anos. Acontece uma vez, acontece oito anos depois, daí se passam 121 anos e meio, aí acontece mais dois com oito anos de diferença e depois mais uma pausa de 105 anos e meio; é um  fenômeno periódico, mas não de uma periodicidade do tipo a que estamos acostumados.”

Podemos ver apenas os trânsitos de Vênus e de Mercúrio. O motivo é muito simples: só vemos passar na frente do Sol corpos que estão entre nós e a nossa estrela. O trânsito do primeiro planeta do Sistema Solar é bem mais frequente, tivemos um em 2006 e depois teremos em 2016, 2019 e 2032, afirma Rojas.

O trânsito de Vênus já foi usado para medir a distância média da Terra ao Sol – a famosa unidade astronômica (UA), uma das unidades de distância usadas pelos cientistas. Além disso, o tamanho desse planeta já foi calculado com um desses eventos e até foi descoberto que ele tem atmosfera. Contudo, hoje temos métodos mais precisos para descobrir esses dados. “Não tem mais relevância científica (…) mas você continua investigando, porque, de repente, pode ocorrer um evento que você não está prevendo“, diz o pesquisador.

Contudo, os trânsitos de planetas fora do Sistema Solar hoje são utilizados exatamente para descobri-los. A passagem desses corpos em frente as suas estrelas causa mudanças no brilho, o que permite aos astrônomos registrá-los. A Agência Espacial Europeia (ESA, na sigla em inglês) vai observar o evento de terça-feira para tentar melhorar ainda mais essa técnica.

Fonte: TERRA





Pequenos gestos, novos hábitos e um mundo melhor para todos!

5 06 2012

Vamos nos mobilizar, trocar os nossos próprios hábitos para dar exemplo a quem ainda não faz:

LIXO é para A LATA DE LIXO!

Lixo é:

Ponta de cigarro,  aquela parte do cigarro que ninguém fuma, filtro, bituca.

Embalagens de papel, plástico, metal ou vidro, canudinhos, tampinhas

Papelzinho de bala, long-neck, latinha de refrigerante, de cerveja.

Copos de água e garrafas de plástico de água, refrigerante, suco.

Chiclete, papelzinho dado na rua com telefone de cartomante, de  compra de joias, de ouro, etc.

Tudo isso aí acima pertence à lata de lixo.

Carregue esses itens até a lata de lixo mais próxima.





Fábula: A rã e o boi, texto de Monteiro Lobato

2 06 2012

A rã e o boi, ilustração de Bernard Salomon, 1547

A rã e o boi

Monteiro Lobato

Tomavam sol à beira dum brejo uma rã e uma saracura.  Nisto chegou um boi, que vinha para o bebedouro.

— Quer ver — disse a rã — como fico do tamanho deste animal?

— Impossível, rãzinha. Cada qual como Deus o fez.

— Pois olha lá! — retorquiu a rã estufando-se toda. Não estou “quase” igual a ele?

— Capaz!  Falta muito amiga.

A rã estufou-se mais um bocado.

— E agora?

— Longe ainda!…

A rã faz novo esforço.

— E agora?

— Que esperança!…

A rã, concentrando todas as forças, engoliu mais ar e foi-se estufando, estufando, até que PLAF! Rebentou como um balãozinho de elástico.

O boi que tinha acabado de beber lançou um olhar de filósofo sobre a rã moribunda e disse:

Quem nasce para dez réis não chega a vintém.

Em: Fábulas, Monteiro Lobato, São Paulo, Ed. Brasiliense:1966, 20ª edição.

José Bento Monteiro Lobato, (Taubaté, SP, 1882 – 1948).  Escritor, contista; dedicou-se à literatura infantil. Foi um dos fundadores da Companhia Editora Nacional. Chamava-se José Renato Monteiro Lobato e alterou o nome posteriormente para José Bento.

Obras:

A Barca de Gleyre, 1944

A Caçada da Onça, 1924

A ceia dos acusados, 1936

A Chave do Tamanho, 1942

A Correspondência entre Monteiro Lobato e Lima Barreto, 1955

A Epopéia Americana, 1940

A Menina do Narizinho Arrebitado, 1924

Alice no País do Espelho, 1933

América, 1932

Aritmética da Emília, 1935

As caçadas de Pedrinho, 1933

Aventuras de Hans Staden, 1927

Caçada da Onça, 1925

Cidades Mortas, 1919

Contos Leves, 1935

Contos Pesados, 1940

Conversa entre Amigos, 1986

D. Quixote das crianças, 1936

Emília no País da Gramática, 1934

Escândalo do Petróleo, 1936

Fábulas, 1922

Fábulas de Narizinho, 1923

Ferro, 1931

Filosofia da vida, 1937

Formação da mentalidade, 1940

Geografia de Dona Benta, 1935

História da civilização, 1946

História da filosofia, 1935

História da literatura mundial, 1941

História das Invenções, 1935

História do Mundo para crianças, 1933

Histórias de Tia Nastácia, 1937

How Henry Ford is Regarded in Brazil, 1926

Idéias de Jeca Tatu, 1919

Jeca-Tatuzinho, 1925

Lucia, ou a Menina de Narizinho Arrebitado, 1921

Memórias de Emília, 1936

Mister Slang e o Brasil, 1927

Mundo da Lua, 1923

Na Antevéspera, 1933

Narizinho Arrebitado, 1923

Negrinha, 1920

Novas Reinações de Narizinho, 1933

O Choque das Raças ou O Presidente Negro, 1926

O Garimpeiro do Rio das Garças, 1930

O livro da jangal, 1941

O Macaco que Se Fez Homem, 1923

O Marquês de Rabicó, 1922

O Minotauro, 1939

O pequeno César, 1935

O Picapau Amarelo, 1939

O pó de pirlimpimpim, 1931

O Poço do Visconde, 1937

O presidente negro, 1926

O Saci, 1918

Onda Verde, 1923

Os Doze Trabalhos de Hércules,  1944

Os grandes pensadores, 1939

Os Negros, 1924

Prefácios e Entrevistas, 1946

Problema Vital, 1918

Reforma da Natureza, 1941

Reinações de Narizinho, 1931

Serões de Dona Benta,  1937

Urupês, 1918

Viagem ao Céu, 1932

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Esta fábula de Monteiro Lobato é uma das centenas de variações feitas através dos séculos da fábulas de Esopo, escritor grego, que viveu no século VI AC.  Suas fábulas foram reunidas e atribuídas a ele, por Demétrius em 325 AC.  Desde então tornaram-se clássicos da cultura ocidental e muitos escritores como Monteiro Lobato, re-escreveram e ficaram famosos por recriarem estas histórias, o que mostra a universalidade dos textos, das emoções descritas e da moral neles exemplificada.  Entre os mais famosos escritores que recriaram as Fábulas de Esopo estão Fedro e La Fontaine.

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Bernard Salomon — Foi um pintor, desenhista e gravador francês.  Nasceu  por volta de 1508 em Lyon e faleceu próximo a 1561. Foi um grande ilustrador, seus trabalho ulusttrando  Fábulas de Esopo, em 1551; Histórias ilustradas da Bíblia, em 1553, 1555;  Ilustrações do Novo Testamento, em 1556;  Metamorfose de Ovídio, em 1557, tornaram-se padrões para ilustrações posteriores não só na França mas em toda a Europa.





Instrumentos musicais de 43.000 mil anos!

26 05 2012

Clarabela e Pateta tentam a vida como músicos, ilustração de Walt Disney.

Novas descobertas na Gruta Geißenklösterle ao sudoeste da Alemanha documentam a chegada antecipada dos humanos modernos e aparecimento precoce de arte e música. Pesquisadores das universidades de Oxford (Reino Unido) e de Tübingen (Alemanha) descobriram os instrumentos musicais mais antigos até agora conhecidos. As novas datas foram ajustadas pela melhora dos métodos, que eliminou a contaminação e  sinalizou para a data de 42.000 a 43.000 anos, o início da Época Aurignacense, a primeira cultura a produzir uma ampla gama de arte figurativa, música e outras inovações importantes. O espectro completo de essas inovações foi estabelecido na região, o mais tardar 40 000 anos atrás.

Estas são as datas mais antigas de radiocarbono de depósitos aurignacianos, anteriores mesmo a datação aurignaciana na Itália, França, Inglaterra e outras regiões da Europa.  Estes resultados são consistentes com a hipótese do Corredor Danúbio, que sugere que os humanos modernos migraram para a Europa e rapidamente acompanharam o curso do rio Danúbio.

Flauta de 42.000 anos.  Foto: Universidade de Tübingen, Alemanha.

Esses resultados são coerentes com uma hipótese feita anos atrás de que o rio Danúbio foi um corredor-chave no movimento de humanos e nas inovações tecnológicas na Europa central entre 40 mil e 45 mil anos atrás“, diz o professor Nick Conard, de Tübingen, que participa das escavações. Anteriormente pensava-se que os humanos só haviam chegada ao alto Danúbio entre 40 mil e 39 mil anos atrás.

A Caverna Geißenklösterle é uma das várias cavernas na Suábia que têm produzido importantes exemplos de ornamentos pessoais, arte figurativa, imagens místicas e instrumentos musicais. . Se as muitas inovações documentadas na Suábia foram estimuladas pelo estresse climático, pela concorrência entre os seres humanos modernos e Neandertais ou por outras dinâmicas socioculturais continua a ser um dos focos centrais para a pesquisa dos arqueólogos.  É essencial  que se possa entender melhor o que acontecia na época para estabelecer uma cronologia mais precisa que explique a expansão dos humanos modernos na Europa, os processos que levaram a uma ampla gama de inovações culturais, incluindo o advento da arte figurativa e música, além da extinção dos Neandertais.

Flauta [dois ângulos] de marfim de presa de mamute, encontrada na Gruta Geißenklösterle.

Entre os objetos dessas inovações culturais estão as flautas de osso ou marfim de presas de mamutes. Essas flautas primitivas foram encontradas  exatamente nessa  região que se acredita ser a primeira ocupada por humanos modernos na Europa.

FONTES: SCIENCE DAILY, TERRA

 





Um tesouro de joias encontrado em Tel Megiddo, Israel

23 05 2012

Joia encontrada em Tel Megiddo, Israel, em um jarro de cerâmica, enterrado há 3.000 anos.

Arqueólogos da Universidade de Tel Aviv apresentaram ao público, no início dessa semana, um tesouro encontrado em um jarro envolto em tecidos e escondido em uma casa no norte de Israel  há mais de 3.000 anos atrás.  O jarro, escavado de uma casa em Tel Megiddo, no Vale de Jezreel no norte de Israel, é um lugar incomum para encontrar joias, de acordo com os arqueólogos da Universidade de Tel Aviv. Entre as peças está um belo par de brincos decorados com cabras selvagens.

Primeiro foi encontrado o jarro de cerâmica, em 2010.  Datando de aproximadamente  1100 a.C.  O jarro havia provavelmente pertencido a uma mulher cananéia, que talvez morasse na casa. Canaã era uma região histórica formada pelo que hoje é  Israel, Palestina, Líbano e partes da Síria e da Jordânia. Tel Megiddo era uma importante cidade-estado nesta região até o século X a.C.

Vasilha de cerâmica em que as joias estavam escondidas, século X a.C. Foto cortesia Megiddo Archological Team.

Segundo o Prof. Israel Finkelstein, do Departamento de arqueologia e culturas do oriente médio da Universidade de Tel Aviv, o jarro foi encontrado em 2010, mas permaneceu por limpar, enquanto aguardavam uma análise molecular do seu conteúdo. Quando  a equipe foi finalmente capaz de lavar a sujeira, encontrou peças de jóias, incluindo um anel, brincos e pérolas, escondidas no bojo do vaso.

Os pesquisadores acreditam que a coleção, que foi descoberta nas ruínas de uma casa particular na zona norte de Megiddo, pertence a um período de tempo chamado “Idade do Ferro  I,” e que pelo menos algumas das peças podem ter sua origem no Egito. Alguns dos materiais e desenhos apresentados nas joias, incluindo contas feitas de cornalina, pedra semi preciosa, são consistentes com desenhos egípcios da mesma época.

Tel Megiddo, Foto: Rafael Ben-Ari.

Quando os pesquisadores removeram o jarro de cerâmica a partir do local da escavação, eles não tinham ideia de que havia alguma coisa dentro. As joias foram bem preservadas e haviam sido envoltas em tecidos, mas as circunstâncias que as rodeiam são bastante misteriosas.  É quase certo de que o jarro não fosse o lugar de guardar as joias normalmente. “É claro que as pessoas tentaram esconder a coleção, e por algum motivo eles não foram capazes de voltar para buscá-lo.” — concluiu  o Prof Ussishkin que notando que os proprietários poderiam ter morrido ou sido obrigados a fugir.  Ele acredita que esta tenha sido uma coleção de joias de uma mulher de Canaã, que morava nessa casa.

Contas de ouro e cornelia encontradas junto às joias. Foto cortesia Megiddo Archological Team.

A variedade das joias também é fora do comum. Embora a coleção inclua um número brincos comuns, em forma de lua crescente, de origem de Canaã, os arqueólogos encontraram também  conjunto de itens de ouro e um número de contas feitas de cornalina, pedras semi preciosas cujo uso era frequente na fabricação de joias egípcias naquela época. Isso aponta para uma forte conexão egípcia, seja em influência ou origem. Essa conexão não seria surpreendente, segundo o professor Cline, que afirmou que as interações entre o Egito e Tel Megiddo são bem conhecidas durante a Idade do Bronze e a Idade do Ferro.

Quatro pares de brincos de ouro em forma de crescente.

O item mais notável, de acordo com os pesquisadores, é um brinco de ouro com padrão de peças moldadas na forma de cabras selvagens. “Para itens exclusivos, como esse, trabalhamos para encontrar paralelos para ajudar a colocar os itens em suas corretas configurações culturais e cronológica, mas, neste caso, ainda não encontramos nada“, dizem os pesquisadores.

Anel com um desenho gravado de peixe. Foto cortesia Megiddo Archological Team

Este achado adiciona outro aspecto fascinante a este sítio arqueológico: Tel Megiddo era uma  importante cidade-estado de Canaã,  até o início do século X a.C.  e um centro muito importante do Reino do Norte de Israel nos séculos IX e VIII a.C.  Esse é um sítio arqueológico com multicamadas, de vários períodos de tempo claramente diferenciados, e neste período, existem de 10 a 11 estratos bem datados através da análise de radiocarbono. “Essa sequência de datas de radiocarbono não existe em nenhum outro lugar na região“, diz o professor Finkelstein.

Outro ângulo do espetacular brinco de cabras encontrado no vasilhame.

A camada em que a joia foi encontrada já foi datada do século XI a.C., logo após o fim do domínio egípcio no século XII a.C. Ou a joia foi deixada para trás na retirada egípcia ou as pessoas que possuíam as joias foram influenciadas pela cultura egípcia. Os pesquisadores esperam que a análise dos tecidos em que as joias foram embrulhadas e das joias propriamente ditas, possam dizer-lhes mais sobre as origens da coleção. Se o ouro é puro em vez de uma mistura de ouro e prata, por exemplo, será mais provável que essas joias tenham vindo do Egito, uma região que era pobre em recursos de prata, mas rico em ouro.

FONTE: SCIENCE DAILY