Dinah Silveira de Queiroz — trecho de Floradas na Serra

22 05 2012

Paisagem na Mata Atlântica, Petrópolis, RJ

Carlos Oswald (Brasil, 1882-1971)

óleo sobre tela colado em eucatex, 70 x 95cm

“Cobria-se a Serra de flores.  Correu primeiro um balbucio de primavera. Seria já a florada?  Botões, aqueles pequenos sinais? No meio dos bosques escondidos entre os montes, o amarelo e o vermelho salpicavam, abriam no verde sorridente espanto. Em lugares mais resguardados, mais favorecidos, em breve surgia a neve florida cobrindo as pereiras e transformando, enriquecendo a paisagem.  E logo também floriam os pessegueiros.  Junto das favelas, nos parques dos sanatórios, rodeando os bangalôs, à beira das águas mansas, a florada em rosa e branco apontou finalmente, luminosa, irreal.

Perto do pequeno lago em que se debruçavam as pereiras alvas, encantadas, o pintor armou o cavalete.  Tocados de primavera, os galhos roçavam a água que reproduzia a fila das árvores. Amarrada à margem a pequena canoa envernizada, vazia, estava juncada de flores que o vento carregara.”

Em: Floradas na Serra, Dinah Silveira de Queiroz, Rio de Janeiro, José Olympio:1984, 23ª edição. Prêmio Antônio de Alcântara Machado, da Academia Paulista de Letras. Originalmente publicado em 1939.





Perguntas sobre o cosmos para mentes investigadoras

19 05 2012

Astronomia, ilustração de Margret Boriss [cartão postal].

A revista Smithsonian  Magazine publicou uma lista com dez das questões mais intrigantes sobre o cosmos, perguntas que os cientistas ainda não conseguiram responder, cujas respostas encontradas ainda não foram  satisfatórias.  Listo essas questões abaixo para que nós todos possamos pensar nas soluções, cada qual usando suas habilidades.  Mas ainda não sabemos as respostas certas.  Ativem suas imaginações, seus conhecimentos e mãos à obra:

1 – O que são as bolhas de Fermi?

As bolhas são enormes estruturas misteriosas que emanam do centro da Via Láctea e se expandem por aproximadamente  20.000 anos-luz ou  acima e abaixo do plano galáctico. O estranho fenômeno, descoberto pela primeira vez em 2010, é composto de emissões de super-alta energia de raios gama e raios-X , invisíveis a olho nu.

2 – A galáxia retangular

Este ano, os astrônomos avistaram um corpo celeste, a cerca de 70 milhões de anos-luz de distância, com uma aparência que é única no universo visível, formada mais ou menos como um retângulo. É a LEDA galáxia 074886.  Enquanto a maioria das galáxias tem  forma de disco, elipses tridimensionais ou bolhas irregulares, esta parece  ser retangular ou formar  um losango.

3 – Campo magnético da lua

Um dos maiores mistérios da lua: por que apenas algumas partes da crosta lunar parecem ter um  campo magnético?  Esta questão  tem intrigado astrônomos por décadas.  Seria  o magnetismo  uma relíquia de um asteroide de 120 quilômetros de largura que colidiu com o polo sul da Lua cerca de 4,5 bilhões de anos?  Ou esse campo magnético pode ser relacionado a outros pequenos, os impactos mais recentes?

Tintin no espaço, ilustração Hergé.

4. Por que os pulsares pulsam?

Os pulsares são estrelas de nêutrons distantes, que giram rapidamente.  Elas emitem um feixe de radiação eletromagnética em intervalos regulares, como um raio de um farol marítimo rotativo no litoral.   Esse fenômeno conhecido desde de a descoberta do primeiro pulsar, em 1967, ainda está sem resposta.  E a pergunta é composta: o que faz o pulsar pulsar?  E o que faz um pulsar ocasionalmente parar de pulsar?  Para voltar a pulsar centenas de dias mais tarde?  Qual a razão de uma oscilação nas correntes magnéticas de um pulsar?

5. O que é a matéria escura?

O que é exatamente essa energia escura, que compreende 70 por cento do universo? O que é a matéria escura?  A energia escura não é o único material escuro no cosmos: cerca de 25 por cento do universo é composto por outro material, totalmente separado desse, também escuro, a que chamamos matéria escura. Completamente invisível para os telescópios e ao olho humano, não emite nem absorve luz visível (ou qualquer forma de radiação eletromagnética), mas tem efeito gravitacional evidente nos movimentos de aglomerados de galáxias e estrelas individuais.

6. Reciclagem Galáctica

As galáxias se proliferam formando novas estrelas a um ritmo que parece consumir mais matéria do que elas realmente têm dentro de si. A Via Láctea, por exemplo, parece transformar, a cada ano, o equivalente a  um sol em poeira e gás, em estrelas novas, mas sem ter matéria livre suficiente para continuar com esse processo por longo prazo. Será que as galáxias reciclam gás expelido para produzirem novas estrelas?  É assim que suprem a matéria-prima que parece faltar?

7. Onde está todo o lítio?

Modelos do Big Bang indicam que o elemento lítio deve ser abundante em todo o universo. O mistério, neste caso, é bastante simples: não é abundante coisa nenhuma! Observações de estrelas antigas, formadas a partir de material semelhante ao que é produzido pelo Big Bang, revelam quantidades de lítio duas a três vezes mais baixa do que a prevista pelos modelos teóricos. Para onde foi todo o lítio?

Céu estrelado, autoria: M.D.

8. Tem alguém aí?

Em 1961, o astrofísico Frank Drake criou uma equação altamente controversa: Multiplicou toda uma série de elementos relacionados à probabilidade de vida extraterrestre [a taxa de formação de estrelas no universo, a fração de estrelas com planetas, a fração de planetas com condições adequadas para a vida, etc], isso feito,  ele chegou à conclusão que é muito provável a existência de vida inteligente em outros planetas.  As recentes descobertas de planetas distantes, que poderiam teoricamente abrigar vida, aumentaram as esperanças de detectarmos extraterrestres, se apenas continuarmos procurando.  Mas onde eles estarão?

9. Como será o fim do Universo?

Agora acreditamos que o universo começou com o Big Bang. Mas como isso vai acabar? Baseado em uma série de fatores, teóricos não têm uma única resposta.  O destino do universo pode tomar uma de várias formas diferentes. Se a quantidade de energia escura não é o suficiente para resistir à força de compressão da gravidade, o universo inteiro pode entrar em colapso em um único ponto, como uma imagem espelhada do Big Bang, conhecido como o Big Crunch.  Mas recentemente,  há indicações de que um Big Crunch é menos provável do que um Big Chill, quando a energia escura obrigará o universo em uma expansão lenta, gradual e tudo o que restar serão  estrelas e planetas mortos, pairando em temperaturas pouco acima do zero absoluto . Se a energia escura está presente o suficiente para sobrepujar todas as outras forças, um cenário de Big Rip poderia ocorrer, em que todas as galáxias, estrelas e até mesmo átomos são dilacerados.   Alguma sugestão diferente?

10. Em todo o Multiverso

Os físicos teóricos especulam que nosso universo pode não ser o único de sua espécie. A ideia é que o nosso universo existe dentro de uma bolha, universos alternativos e vários estão contidos dentro de suas próprias bolhas distintas. Nestes outros universos, as constantes-  e mesmo as leis da física, podem diferir drasticamente daquilo que conhecemos. Apesar da semelhança da teoria à ficção científica, os astrônomos estão agora à procura de evidências físicas que poderiam indicar colisões com outros universos.





O mundo geek se agita: seríamos uma imagem holográfica?

16 05 2012

Origami, década de 1990

Yuli Geszti (Hungria, 1953- no Brasil desde 1957)

acríica sobre tela, 80 x 80 cm

Para quem se interessa por ficção científica, sugiro a fascinante entrevista na revista Wired : Theoretical Physicist Brian Greene Thinks You Might Be a Hologram,  [Brian Greene, o teórico da física, acredita que você possa ser um holograma] com  Brian Greene autor de The Fabric of the Cosmos, livro que serviu de base para o programa da televisão pública nos Estado Unidos [PBS], com o mesmo título.  Sem deixar de lembrar o quanto essas ideias são difíceis de ser entendidas, até mesmo por físicos que trabalham com isso no dia a dia, Brian Greene explicou que só levou adiante as pesquisas de Leonard Susskind e Gerard’t Hooft , que ao considerarem  alternativas para o que acontece com informações que entram nos buracos negros, desenvolveram a ideia de que  o objeto que cai num buraco negro pode ser representado por dados em duas dimensões.  Brian Greene então  questionou se o reverso também não seria verdadeiro.

No programa televisivo The Fabric of the Cosmos Brian Greene considera algumas das propostas da física moderna que têm estranhas características, mas que são de fato ideias que com base sólida na pesquisa matemática e em dados tirados da observação.  Entre essas estão a definição do que é o tempo, um conceito que afeta toda a nossa vida mas do qual sabemos pouco;  o conceito de espaço, isso tudo que nos cerca;  comunicação entre objetos distantes entre si; ele aborda também a mecânica quantum e como ele mesmo diz, o que ainda pode ser considerado mais revolucionário, o conceito de que o nosso universo não seja único e sim parte de um grupo de universos a que se dá o nome de multiverso.

Perguntado sobre suas preferências no mundo da ficção científica, Brian Greene listou Isaac Asimov como seu autor favorito, seguido de  Ray Bradbury.  Ele prefere a ficção científica que tem a verdadeira ciência como base e aconselha escritores de ficção cientifica para manterem-se o mais próximo possível dos conhecimentos científicos, deixando que a própria ciência oriente o desenvolvimento da história.  “Mude o que for necessário só sobre aquilo que está às margens do conhecimento.  No caso em particular do buraco negro modifique a realidade, dê asas à imaginação na beiras do conhecimento para fazer a história se desenvolver, mas mantenha o que já se sabe da ciência intacto.  Este sim seria um objetivo construtivo.”

Sobre os universos paralelos – realidades tão presentes nos dias de hoje na ficção científica – Brian Greene, que se dedicou ao assunto no livro The Hidden Reality, garante que seria muito difícil viajar de um universo ao outro, mesmo com a possibilidade de haver mais que um universo paralelo, como por exemplo, o universo paralelo previsto pela mecânica quantum que difere substancialmente daquele previsto pela cosmologia, ou ainda a versão da teoria das cordas.

Se você lê em inglês e tem interesse em ficção científica, sugiro que clique no link do artigo citado acima. E  ainda que acompanhe o vídeo com o debate do 11º  Isaac Asimov Debate que coloco aqui abaixo, lembrando que leva quase 2 horas.  Bom proveito!





Visita, poesia infantil de Ribeiro Couto

16 05 2012

Ilustração de meados do século XX, sem indicação de autor.

Visita

 

Ribeiro Couto

 –

Um raio de sol atravessa a janela.

alegria entrou com esse raio de sol.

Como está claro agora o meu quarto de doente!

 –

Se eu fosse um  raio de sol não desceria a um

quarto de doente.

Iria para aquela nuvem que vai passando lá

longe,

aquela nuvenzinha branca no céu azul,

para viajar com ela, para ser feliz…

 –

Entretanto, fica, raio de sol.

Espera um momento, raio de sol…

Meu raio de sol…

Rui Esteves Ribeiro de Almeida Couto (Santos, 12 de março de 1898 — Paris, 30 de maio de 1963), mais conhecido simplesmente como Ribeiro Couto, foi um jornalista, magistrado, diplomata, poeta, contista e romancista brasileiro.  Foi membro da Academia Brasileira de Letras desde 28 de março de 1934 (ocupando a vaga de Constâncio Alves na cadeira 26), até sua morte.

Obra

Poesia

O jardim das confidências (1921)

Poemetos de ternura e de melancolia (1924)

Um homem na multidão (1926)

Canções de amor (1930)

Noroeste e alguns poemas do Brasil (1932)

Noroeste e outros poemas do Brasil (1933)

Correspondência de família (1933)

Província (1934)

Cancioneiro de Dom Afonso (1939)

Cancioneiro do ausente (1943)

Dia longo (1944)

Arc en ciel (1949)

Mal du pays (1949)

Rive etrangère (1951)

Entre mar e rio (1952)

Jeux de L’apprenti Animalier. Dessins de L’auteur. (1955)

Le jour est long, choix de poèmes traduits par l’auter (1958)

Poesias reunidas (1960)

Longe (1961)

Prosa

A casa do gato cinzento, contos (1922)

O crime do estudante Batista, contos (1922)

A cidade do vício e da graça, crônicas (1924)

Baianinha e outras mulheres, contos (1927)

Cabocla, romance (1931);

Espírito de São Paulo, crônicas (1932)

Clube das esposas enganadas, contos (1933)

Presença de Santa Teresinha, ensaio (1934)

Chão de França, viagem (1935)

Conversa inocente, crônicas (1935)

Prima Belinha, romance (1940)

Largo da matriz e outras histórias, contos (1940)

Isaura (1944)

Uma noite de chuva e outros contos (1944)

Barro do município, crônicas (1956)

Dois retratos de Manuel Bandeira (1960)

Sentimento lusitano, ensaio (1961)





Filho de Geek, geekinho é? Conselhos para educar o seu geekinho…

9 05 2012

Zé Carioca, Rosinha, Amadeu jogam no computador, ilustração Walt Disney.

De acordo com Frank Catalano,  autor e analista em educação digital, a geração dos primeiros Geeks chega ao momento de se reproduzir, de ter seus próprios filhos.  Os “geekinhos”, como ele chama, certamente precisarão de uma boa educação.  Pensando nisso ele fez uma lista de sete regras para educar bem essa nova geração de Geeks.  Abaixo vocês encontrarão um resumo de seus conselhos, publicados na revista Wired de fevereiro deste ano.

1)   Deixe o seu filho errar, falhar.

Todo mundo diz isso, mas especificamente no mundo dos jogos eletrônicos não ofereça dicas. Deixe que seu filho descubra os truques de forma independente. Não compre uma placa mais rápida de vídeo, configure uma conexão de baixa latência ou desbloqueie certas portas do roteador, a menos que a criança aprenda a fazê-lo. Será uma boa preparação não apenas para o empreendedorismo em um ambiente de negócios, mas como treinamento para o suporte técnico futuro.

2)   Exponha o seu filho à arte.  

Não aos quadrinhos, mas à arte tradicional, como a que se encontra no museu de arte ou no teatro. Você ficaria surpreso de saber como mesmo as pequenas exposições à arte, numa idade jovem, têm um efeito enorme.  Mesmo que inicialmente seu filho rejeite a ideia e vá de má vontade, esperneando, reclamando, esses pequenos contatos podem permanecer como sementes dormentes por um longo tempo e podem ajudar mais tarde na gestação de uma explosão de interesses criativos que terão, como referência para um trabalho futuro, essas portas abertas na infância.

Cientistas de Patópolis se surpreendem com o computador. Ilustração Walt Disney.

3)   Expor a criança a Star Trek. (Ou, se for preciso, a Star Wars).  

É muito mais difícil construir um futuro que você nunca tenha visto, imaginado ou lido a respeito.  As visões de outras pessoas, dos clássicos, as idéias projetadas em pensar futuros possíveis são muito importantes.   A leitura de ficção científica ajuda a internalizar o que poderia ser,  tanto do bom quanto do  ruim.

 

4)   Deixe-os descobrir a leitura por prazer.  

Todos os bons jogos digitais e de entretenimento em sua essência começam com um texto, com uma história. Então deixe seu filho ler, seja em papel ou leitura digital, deixe que ele se divirta com esses textos.  Deixe os livros de papel à mão, à sua volta, onde possam ser consultados, apanhados, explorados (também servindo de lembrete tácito do conhecimento do mundo, ou de conteúdo que vale a pena ser digitalizado).  Inicie seu filho ao hábito de visitar uma biblioteca e usá-la regularmente. Seus filhos podem não se tornar escritores, mas provavelmente vão ter um melhor vocabulário e desenvolver o gosto por palavras que são, em última análise, o coração de muitas obras expressas em formas visuais e verbais.  Se eles conseguirem manipular a linguagem que estimula a imaginação, eles poderão criar alguma coisa.

5)  Incentive-os a mexer no computador, e explorá-lo obsessivamente.

Há horas em que a computação é melhor que os brinquedos, porque, por exemplo, você não se machuca pisando em blocos digitais como no jogo Minecraft, como pode acontecer  de você machucar o pé pisando nas peças de LEGO. Independente da idade é bom construir coisas baseadas em regras e em aprendizagem de programação e lógica. É bom ser competitivo em tecnologia de engenharia matemática, mesmo que esse conhecimento não o leve a uma carreira em computação. Você deve incentivar seu filho a construir computadores e, ele adquirirá os conhecimentos técnicos básicos, aprenderá a pesquisar o que precisa ser feito, onde comprar os componentes e como montá-los. A melhor maneira de se aprender uma nova tecnologia é mergulhar nela, o que vem naturalmente às crianças, e as ajuda a desenvolver uma compreensão mais profunda do que estão fazendo.

Tio Patinhas encontra o cérebro eletrônico, ilustração Walt Disney.

6)   Dê o seu tempo, seja um voluntário na escola de seu filho.

Você pode pensar que sabe o que está acontecendo na escola porque vai às conferências para pais e professores, observa os  boletins de seu filho e participa dos eventos para que é chamado. Mas nada supera a visão de dentro quando você dá uma ajuda durante o horário escolar, mesmo que seja apenas para umas duas horas por mês. Não só você vai entender melhor os verdadeiros interesses e desafios das crianças, mas também a melhor forma de apoiar o professor.  Você pode também oferecer a sua ajuda naquilo que você mais sabe, mais conhece: se você é um geek, participe como puder na parte de apoio tecnológico por exemplo.

7)   Promova relacionamentos reais.

Apesar de tudo a tecnologia não supera nem a biologia nem a psicologia. O calor do contato humano persiste por muito tempo após os pixels terem se apagado.  Somos animais sociais e a palavra chave não é o “social”, mas o “animal”. Os relacionamentos virtuais e o mundo virtual deve contar para seu filho sem esquecer que os relacionamentos cara a cara são ainda mais importantes.

Além do conselho de ser permanentemente paciente, de manter o equilíbrio e construir a responsabilidade pessoal para com os seus filhos, nunca pare de aprender. Caso contrário, não haverá nenhuma esperança de se manter próximo ao seu filho.





A figura da Mãe na arte brasileira, considerações sobre o tema

6 05 2012

Maternidade

Aurélio d’Alincourt  (Brasil, 1919-1990)

óleo sobre tela, 46 x 55 cm

O Dia da Mães é comemorado desde a década de 1930 no Brasil.  Há poucos cartões com uma iconografia nossa para o Dia das Mães, cartões fabricados no Brasil especificamente para essa data.  Talvez isso se dê porque as crianças em geral fazem seus próprios cartões, auxiliadas nas escolas pelos professores.  As mamães  devem  apreciar muito mais o esforço de seus rebentos, preferindo recebê-los no lugar de cartões que seus filhos tivessem simplesmente comprado na papelaria mais próxima de casa.

Mãe e filha, s/d

Alfredo Volpi (Itália, 1896- Brasil, 1988)

óleo sobre cartão, 55 x 40 cm

Quase todos os países têm uma data dedicada às mães, mas elas variam de país para país.  Algum tempo atrás, Israel acabou com o Dia das Mães e estabeleceu o Dia da Família no seu lugar.  Apesar de países como os Estados Unidos comemorarem o Dia das Mães desde o início do século XX há pouca variedade na iconografia celebrando esse dia em cartões comemorativos, além do buquê de flores, alguns gatinhos, cachorrinhos e outros animais com seus repectivos filhotes.  Só depois da Segunda Guerra Mundial e depois década de 1970, talvez pelo próprio  aumento da riqueza da sociedade americana, passamos a ver cartões com maior variedade de temas para comemorar o Dia das Mães.

Mãe e filha, 1955

Jenner Augusto (Brasil, 1924- 2003)

Óleo sobre tela, 61 x 50 cm

No Brasil a maioria dos cartões é — igual aqueles de Natal — copiada diretamente do exterior, tanto dos EUA, como da Inglaterra e da França.  Aparentemente a demanda por esses cartões nunca foi grande suficiente para justificar uma produção caseira.  Mesmo assim eles não têm sido muitos.  Hoje, eles vêm da China, com desenhos coringas, desenhados com caixas de presentes empilhadas, corações e outras trivialidades. Já chegam por aqui impressos em português, da mesma modo que os cartões de Natal vendidos nas grandes lojas de papelaria, já vêm com votos impressos em português.  Os “mais brasileiros”  — feitos aqui e com dizeres que refletem o nosso dia a dia — custam 10 a 15 vezes o preço do importado.

Mãe preta, 1912

Lucílio de Albuquerque (Brasil, 1877 – 1939)

Óleo sobre tela,  180 x 130 cm

Museu de Belas Artes da Bahia, Salvador

Gosto de refletir sobre a nossa vida diária. Esse trabalho de “antropóloga social” é só baseado na imagem, nas “figurinhas” que preenchem o nosso dia a dia.  Elas podem nos dizer muito porque afinal sabemos que “uma imagem vale 1000 palavras”. O que encontramos nos cartões postais e outros cartões comemorativos para esse dia é muito neutro, quase aplicável a qualquer circunstância: uma abundância do verbo amar, conjugada no presente e no futuro.  E, como não encontro cartões fabricados no Brasil, com ilustrações que falem dos nossos valores, voltei meu olhar para as representações de maternidade de pintores brasileiros.

A produção artística, figurativa, representando a maternidade tem um longo relacionamento com a iconografia religiosa da Virgem Maria com o Menino Jesus.  Mas aqui no Brasil essa associação é muito mais forte e frequente, muito mais óbvia  do que as criadas no exterior.  Quando observamos as imagens de mães, imagens pintadas no final do século XIX e início do século XX notamos que elas têm muitas semelhanças com imagens religiosas da Virgem Maria com o Menino Jesus, como se a maternidade fosse só compreendida se santificada.

Mater, 1885

Henrique Bernardelli ( Brasil, 1857-1936)

Óleo sobre tela, 150x 100 cm

Museu Nacional de Belas Artes [MNBA], Rio de Janeiro

Pode até parecer natural que assim seja, já que a Igreja teve uma influência muito forte no dia a dia da famíllia brasileira, ditando dos mais irrelevantes detalhes até ao que se comprava para ter em casa, para adornar as nossas paredes.  Muitas são as residências no Brasil que têm só imaginária religiosa nas paredes ladeando talvez, um retrato de pai e mãe: “A última ceia” deve ter sido a decoração de parede mais comum no Brasil, seguida de alguns santos preferidos de São Jorge a Santo Antônio.  Esse foi um país cuja cultura dependeu por mais séculos do que o provável daquilo que era permitido ou visto com bons olhos pelos religiosos ou pelos padres.  Tudo só começa a se liberar, para as massas, para a grande e conservadora classe média brasileira, na década de 60 do século XX, quando eventos de revolta social e de costumes se tornam universais e simultaneamente a Igreja Católica adota as Encyclica Pacem in Terris, do papa João XXIII.

Maternidade, 1906

Eliseu Visconti  ( Itália, 1866 – Brasil, 1944),

óleo sobre tela

Diferente do que aconteceu no século XIX nas artes visuais na Europa e nos Estados Unidos, é só no século XX, no Brasil, com Eliseu Visconti que os costumes da vida urbana, do dia a dia começam a aparecer na pintura regularmente.  Não, que não houvesse antes um ou outro pintor que aderira à pintura de gênero, mas não havia esse tipo de representação na quantidade que um país do nosso porte, com as centenas e centenas de fortunas nobiliárquicas, agrícolas e industriais pudesse sugerir.  A pintura de gênero teve muita dificuldade de se estabelecer não só por causa dos freios culturais dos compradores mas também por sofrer de preconceito dos pintores que, como os clássicos treinados na Europa, consideravam a pintura histórica o topo de linha na pintura européia.  E certamente as representações de maternidade seguem um destino semelhante.

A relação entre a maternidade e a iconografia  religiosa parece se afrouxar quando a imigração de artistas de outros países,  com outra cultura e outros pontos de vista começa a se fazer sentir, ainda que timidamente.   Eliseu Visconti é o primeiro grande artista e por muito tempo o único a sistematicamente quebrar essa associação da iconografia da Virgem Maria com a da maternidade.  Ele adotou em seu lugar a temática bastante difundida na pintura de gênero da Belle Époque. Ele traz essa modernidade para o Brasil retratando muitas cenas de mães no dia a dia, como em Maternidade. Mas poucos seguem o seu exemplo. Em geral, isso só acontecerá com artistas imigrantes que já chegavam ao Brasil de outras partes do mundo.

Maternidade, 1931

Lasar Segall (Rússia, 1891- Brasil, 1957)

Óleo sobre tela, 54 x 73 cm

Mesmo assim, a tradição de associar a maternidade à religiosidade continuou forte através do século XX, com alguns pouquíssimos rasgos de independência, vindos de pintoras mulheres. Mesmo quando parece que alguém está quebrando as regras culturais, não escritas, representando o amor de mãe de uma maneira diferente, o substrato religioso persiste, como vemos no exemplo de Cícero Dias.

 Maternidade, s/d

Cícero Dias ( Brasil, 1907-2003)

Serigrafia, 63 x 52 cm

Galeria Alphaville, São Paulo

Vamos observar a temática em Cícero Dias: mãe e filho juntos.  A mãe parece ter um lenço na cabeça lembrando os véus das madonas.  O menino, já grandinho, de pé, solta uma pipa.  No entanto, de braços abertos, ele forma tanto uma estrela quanto uma cruz.  Esta última é um tema  que se repete na pipa no lado direito da tela, que parece sair por uma janela.  As referências estão aí e são claras.

Maternidade, 1966

Orlando Teruz (Brasil, 1902-1984)

óleo sobre tela, 90 x 70 cm

Orlando Teruz, que se dedicou algumas vezes ao tema, continua a tradição de associar maternidade ao tema religioso,  mesmo trabalhando na segunda parte do século XX, como é o caso da tela acima.

Maternidade,1950

Gerson Pompeu Pinheiro (Brasil, 1910-1978)

óleo sobre tela

Gerson Pompeu Pinheiro parecia em 1950 querer se soltar um pouco da rígida associação quando colocou uma mãe com ombros nus e cabelos soltos e um tênue véu, no centro da tela.  Mas duas outras características permanecem: o bebê parece estar sendo apresentado ao público como acontecia em muitos quadros da Madona com Jesus bebê durante o século XVI na Renascença.   Além disso, a dupla nessa tela está circundada por uma construção que lembra, por arcos e pilastras, o interior de um templo, de uma igreja, com um pequeno altar no lado direito onde vemos uma imagem provavelmente de uma santa [Santa Teresa?] e um faixa de pano de altar ou uma estola sacerdotal.

Maternidade, s/d

Elsa OS [Elza de Oliveira Souza] (Brasil, 1928)

óleo sobre eucatex, 49 x 34 cm


Até mesmo a pintora naïf Elsa Os [Elza de Oliveira Souza] usa o cabelo da mãe como um véu e o vestido decorado como um manto bordado a ouro. E pintores como José Moraes, que usam de uma linguagem pós cubista, mesmo assim insistem na fórmula iconográfica de uma senhora, sentada (como se estivesse em um trono) com uma criança no regaço.

Maternidade, 1964

José Moraes (Brasil, 1921-2003)

Guache sobre papel, 64 x 44cm

Di Cavalcanti, dentre o pintores brasileiros que cruzam o século XX, parece ser aquele que mais deseja se liberar dos grilhões impostos por essa iconografia.  Ele trava frequentemente uma batalha para uma nova imagem.  Ocasionalmente consegue, como na tela reproduzida abaixo. Mas nem sempre.

Maternidade, 1937

Emiliano Di Cavalcanti (Brasil, 1897-1976)

óleo sobre tela

Mãe e filha, 2009

Reynaldo Fonseca (Brasil, 1925)

óleo sobre tela

Na obra de Reynaldo Fonseca, pintor de  intrigante iconografia própria e conhecido pela subversão de textos, continuamos a ter a frontalidade  semelhante à das madonas entronadas da Renascença assim como a ausência de profundidade no espaço em que suas figuras se encontram, típico em seu trabalho.  Isso aumenta a semelhança aos ícones bizantinos que retratam a Virgem Maria com Jesus, sobre fundos em dourado, achatando a profundidade.  Efeito semelhante é conseguido na pintura de Vicente do Rego Monteiro, mesmo com a estilização das formas que caracterizou sua preferência pelo Art Deco.

Maternidade, 1924

Vicente do Rego Monteiro (Brasil, 1899-1970)

óleo

Palácio dos Bandeirantes, SP

O que caracteriza essas semelhanças é a predisposição brasileira, o favoritismo cultural, de fazermos mãe e filho um ícone, um emblema de maternidade.  Tudo leva a crer que consideramos a maternidade uma missão “santificada”, única e não uma parte normal, corriqueira do dia a dia de qualquer mulher.

Maternidade, 1981

Gilberto Gomes (Brasil, 1955)

[técnica não especificada]

Correndo paralelamente a essa visão temos a representação através do século XX do que se poderia denominar responsabilidadde social: a representação de mulheres com bebês, em estado de absoluta pobreza,  revelando o desepero quieto, calado, sofrido com dignidade e abnegação.  Essas mulheres continuam em geral sentadas e abraçadas a um filho bebê, imagens semelhantes às das madonas.  Os exemplos de Gilberto Gomes, Volpi e de Lucílio de Albuquerque acima ilustrados, ou os quadros abaixo ilustram este fenômeno.  É a confluência de dois temas: da mãe, sagrada e da mãe sofredora.  Também nessas representações temos principalmente a imagem de mãe e filho em primeiro plano, com um fundo esquematizado, neutro que simplesmente realça o sofrimento implícito.  Na imagem de Tomás Santa Rosa abaixo, que a princípio poderia ser mais alegre já que dispõe de mais detalhada paisagem, ao contrário, parece chorar sofrimento, a mãe parece até ter uma coroa de espinhos desmoronada.  Tudo parece um grande sofrimento, um calvário, uma tristeza só.

Maternidade,  1946

Cândido Portinari (Brasil, 1903 – 1962)

Técnica mista, sépia e pincel seco 65 x 49 cm

Maternidade

Tomás Santa Rosa (Brasil, 1909-1956)

óleo sobre tela, 81 x 65 cm

Onde está então a alegria de ser mãe?   Onde está a senhora brincando com seu bebê, quando até mesmo em altares da Renascença vemos as Virgens Marias brincando com Jesus Cristo, com um pardalzinho, com um gatinho?  Por que os pintores brasileiros parecem ter-se limitado a um único tipo de representação de maternidade?  Por que se negaram a tratar a pintura de gênero com seriedade?  Por que o dia a dia de ser mãe. de brincar com o bebê, de dar banho, de passar a toalha, de levar ao parquinho, à praia, de colocá-lo para dormir, de desfrutar  de sua companhia debaixo da sombra de uma árvore, de ler um conto de fadas, por que essas pequenas mas incrivelmente importantes alegrias da maternidade não chegaram a fazer parte do imaginário artístico?





O Ateneu, de Raul Pompéia, quem não se lembra?

5 05 2012

A escola da jaqueta azul, Gloucester

John Kemp (Inglaterra, 1833-1923)

óleo sobre tela

Glouscester Museums

BBC

Hoje estive pensando no livro de Raul Pompéia, O Ateneu, originalmente publicado em 1888.  Essa história se enraizou na minha imaginação por dois motivos: li a respeito da reclamação de Fernando Meirelles em Recife sobre a falta de público para seu filme Xingu, e ouvi no rádio uma exposição sobre os bullying, assunto muito em voga no momento.  Às vezes as coisas se embaralham nas nossas imaginações.  Pensei nos motivos de Xingu e Heleno, ambos filmes lançados recentemente, não terem atingido as audiências esperadas.  Analisei meus próprios sentimentos a respeito, as razões de eu ainda não ter visto nenhum deles.  E acho que, no meu caso, não fui a nenhum deles por achar que pareciam, pelas chamadas na televisão, um pouco didáticos, como se fossem documentários dramatizados.  Provavelmente estou errada, mas como vou ao cinema regularmente, pensei muito nas razões porque nenhum desses filmes havia me atraído até agora.

Em seguida, ainda com filmes na cabeça, ouvi a reportagem sobre bullying e me lembrei de O Ateneu, uma das nossas obras primas da literatura brasileira.  Devo dizer que sou grande apreciadora, fã mesmo, de filmes de época.  E que quando morava fora do Brasil, onde era mais fácil ver não só nos cinemas mas na televisão filmes da Merchant-Ivory Productions ou séries de época da BBC, do mesmo gênero, fazia tudo para não perder estas produções.  E me pergunto porque nossa indústria cinematográfica, que hoje não deve nada a ninguém em tecnologia, que tem centenas de excelente atores  em que se apoiar, ainda não tentou, seriamente, sem os viéses novelísticos, esse gênero de tanto sucesso lá fora.  O Ateneu certamente estaria entre uma das obras que se adaptariam muito bem ao nicho.

Essas observações não pretendem denegrir os esforços de Fernando Meirelles nem do cinema nacional.  São simples questionamentos que têm por intenção ventilar o que está sendo falado no momento.  Para quem ainda não conhece, aqui fica um trecho do romance de Raul Pompéia, que evidentemente já se encontra em domínio público.

A escola da jaqueta azul

John Kemp (Inglaterra, 1833-1923)

[Atribuído]

óleo sobre tela

Glouscester Museums

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CAPÍTULO III

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Entrei pela geografia como em casa minha. As anfractuosidades marginais dos continentes desfaziam-se nas cartas, por maior brevidade do meu trabalho; os rios dispensavam detalhes complicados dos meandros e afluíam-me para a memória, abandonando o pendor natural das vertentes; as cordilheiras, imensa tropa de amestrados elefantes, arranjavam-se em sistemas de orografia facílima; reduzia-se o número das cidades principais do mundo, sumindo-se no chão, para que eu não tivesse de decorar tanto nome; arredondava-se a cota das populações,perdendo as frações importunas, com prejuízo dos recenseamentos e maior gravame dos úteros nacionais; uma mnemônica feliz ensinava-me a enumeração dos estados e das províncias. Graças à destreza do Sanches, não havia incidente estudado da superfície terrestre que se me não colasse ao cérebro como se fosse minha cabeça, por dentro, o que é por fora a esfera do mundo.

A seu turno a gramática abria-se como um cofre de confeitos pela Páscoa. Cetim cor de céu e açúcar. Eu escolhia a bel-prazer os adjetivos, como amêndoas adocicadas pelas circunstâncias adverbiais da mais agradável variedade; os amáveis substantivos! voavam-me à roda, próprios e apelativos, como criaturinhas de alfenim alado; a etimologia, a sintaxe, a prosódia, a ortografia, quatro graus de doçura da mesma gustação. Quando muito, as exceções e os verbos irregulares desgostavam-me a principio; como esses feios confeitos crespos de chocolate: levados a boca saborosíssimos.

A história pátria deliciou-me em quanto pôde. Desde os missionários da  catequese colonizadora, que vinham ao meu encontro, com Anchieta, visões de bondade, recitando escolhidas estrofes do evangelho das selvas, mandando adiante, coroados de flores, pela estrada larga de areia branca, os columins alegres,aprendizes da fé e da civilização, acompanhados da turba selvagem do gentio cor de casca de árvores, emplumados, sarapintados de mil tintas, em respeitosa contrição de feiticismo domado, avultando do seio, do fundo da mata escura, como uma marcha fantástica de troncos. Até às eras da independência, evocação complicada de sarrafos comemorativos das alvoradas do Rocio e de anseios de patriotismo infantil; um príncipe fundido, cavalgando uma data, mostrando no lenço aos povos a legenda oficial do Ipiranga; mais abaixo, pontuadas pelas salvas do Santo Antônio, as aclamações de um povo mesclado que deixou morrer Tiradentes para se esbofar em vivas ao ramo de café da Domitila.

Cada página era um encanto, prefaciadas pela explicação complacente do colega. Graças à habilidade das suas apresentações, apertei a mão aos mais truculentos figurões do passado, aos mais poderosos. Antônio Salema, o cruel, sorriu-me; o Vidigal foi gentil; D. João VI deixou-me rapé nos dedos. Conheci de vista Mem de Sá, Maurício de Nassau, vi passar o herói mineiro, calmo, mãos atadas como Cristo, barba abundante de apóstolo das gentes, um toque de sol na fronte lisa e vasta, escavada pelo destino para receber melhor a coroa do martírio.

A história santa revelou-me este épico, quem o diria? — o cônego Roquette! E eu bebi a embriaguez musical dos capítulos como o canto profundo das catedrais. Ouvi suspirar a Crença, o idílio do Éden, o amor primitivo do Gênesis, invejado dos anjos, sob o olhar magnânimo dos leões; ouvi a queixa terna do primeiro par banido para a dor, para o trabalho; Adão vergonhoso, vestindo as parras da primeira pruderie, Eva a envolver a nudez jovem de lírios na túnica de ouro das madeixas, cobrindo com as mãos o ventre, obscenidade das mães, estigmatizada pela maldição de Deus.

E crescia o canto na abóbada e o órgão falava à tradição inteira do sofrimento humano suplantado pela divindade. Modulava-se a harmonia em suave gorjeio, entoando a elevação dos salmos, o êxtase sensual do Cântico dos Cânticos na boca da Sulamita, e a sedução de Booz enredado no estratagema honesto da ternura, e a melancolia trágica de Judite, e a serena glória de Ester, a princesa querida.

Subitamente, entreabria-se o quadro sonoro para irromper o coro das lamentações. Acabavam no ar, lucíolas extintas, os derradeiros sons da harpa de Davi; perdia-se em ecos a derradeira antístrofe Salomão; sumiu-se à extremidade do campo a imagem de Rute, ao braço o feixe louro de trigo; entrou a Hebréia sombria na tenda de Holofernes, levando nos lábios o beijo assassino; cobriu-se a aparição luminosa de Ester com o sono da noite de Mardoqueu. Era a gama dolente dos terrores. Clamavam as imprecações do dilúvio, os desesperos de Gomorra; flamejava no firmamento a espada do anjo de Senaqueribe; dialogavam em concerto tétrico as súplicas do Egito, os gemidos de Babilônia, as pedras condenadas de Jerusalém. Vozeava o tenebroso grave das pregações dos profetas. Embalde o fulgor das transfigurações, como o lívido fuzil, escancarava abertas de luz sobre a tormenta noturna; Ezequiel tinha a visão do Eterno; Elias visitava o Mistério numa escapada de chamas. Nada. A música solene era o miserere. Nem o clarão da alvorada de Belém na Judéia debelava a sombra, nem a miragem viva do Tabor. A epopéia agonizava ao rodar do século, ecoava numa caverna onde havia um túmulo; bradava triunfo um momento pela Ressurreição do Justo; morria, enfim, lento, lento com a prece dos mártires do anfiteatro, com a longínqua prece subterrânea dos refugiados das Catacumbas.

A doutrina cristã, anotada pela proficiência do explicador, foi ocasião de dobrado ensino que muito me interessou. Era o céu aberto, rodeado de altares, para todas as criações consagradas da fé. Curioso encarar a grandeza do Altíssimo; mas havia janelas para o purgatório a que o Sanches se debruçava comigo, cuja vista muito mais seduzia. E o preceptor tinha um tempero de unção na voz e no modo, uma sobranceria de diretor espiritual, que fala do pecado sem macular a boca. Expunha quase compungido, fincando o olhar no teto, fazendo estalar os dedos, num enlevo de abstração religiosa; expunha, demorando os incidentes, as mais cabeludas manifestações de Satanás no mundo. Nem ao menos dourava os chifres, que me não fizessem medo; pelo contrário, havia como que o capricho de surpreender com as fantasias do Mal e da Tentação, e, segundo o lineamento do Sanches, a cauda do demônio tinha talvez dois metros mais que na realidade. Insinuou-me, é certo, uma vez, que não é tão feio o dito, como o pintam.

O catecismo começou a infundir-me o temor apavorado dos oráculos obscuros. Eu não acreditava inteiramente. Bem pensando, achava que metade daquilo era invenção malvada do Sanches. E quando ele punha-se a contar histórias de castidade, sem atenção à parvidade da matéria do preceito teológico, mulher do próximo, Conceição da Virgem, terceiro-luxúria, brados ao céu pela sensualidade contra a natureza, vantagens morais do matrimônio, e porque a carne, a inocente carne, que eu só conhecia condenada pela quaresma e pelos monopolistas do bacalhau, a pobre carne do beef, era inimigo da alma; quando retificava o meu engano, que era outra a carne e guisada de modo especial e muito especialmente trinchada, eu mordia um pedacinho de indignação contra as calúnias à santa cartilha do meu devoto credo. Mas a coisa interessava e eu ia colhendo as informações para julgar por mim oportunamente.

Na tabuada e no desenho linear, eu prescindia do colega mais velho; no desenho, porque achava graça em percorrer os caprichosos traços, divertindo-me a geometria miúda como um brinquedo; na tatuada e no sistema métrico, porque perdera as esperanças de passar de medíocre como ginasta de cálculos, e resolvera deixar a Maurílio ou a quem quer que fosse o primado das cifras.

Em dois meses tínhamos vencido por alto a matéria toda do curso; e, com este preparo, sorria-me o agouro de magnífico futuro, quando veio a fatalidade desandar a roda.

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Em: O Ateneu, Raul Pompéia, em dóminio público.

Minha versão: O Ateneu, Raul Pompéia, São Paulo, Ed. Ática:s/d





Quadrinha infantil do bom livro

29 04 2012

Cascão lendo na cama, ilustração Maurício de Sousa.

Eu encontro nos bons livros

O guia certo e seguro,

Que ilumina a minha vida

e prepara o meu futuro.

(Walter Nieble de Freitas)





O descobrimento do Brasil, 22 de abril de 1500

20 04 2012

Faiança comemorativa dos 400 anos do descobrimento do Brasil, fábrica de Alcântara, Portugal.

[http://memoriadosdescobrimentosnaceramica.blogspot.com.br]

“Em junho de 1499, logo que Vasco da Gama chegou a Lisboa com a notícia longamente aguardada de que a Índia podia ser alcançada por mar, o rei de Portugal, D. Manoel, tratou de organizar o envio de uma nova expedição para o fabuloso reino das especiarias.  Em sua jornada de ida, essa expedição poderia explorar também a margem ocidental do Atlântico, cuja posse Portugal assegurara desde o Tratado de Tordesilhas, firmado em 1494.

Assim, em 9 de março de 1500, oito meses depois do retorno de Gama a Portugal – e enquanto Vicente Pinzón e Diego de Lepe já navegavam pelos limites setentrionais da América do Sul –, uma frota imponente, formada por dez naus e três caravelas, zarpou de Lisboa, com 1500 homens a bordo.  Sob o comando de Pedro Álvares Cabral, essa armada fora incumbida da missão de instalar uma missão em Calicute, na costa ocidental da Índia.  Lá deveria obter – pela diplomacia ou pelas armas – o monopólio do comércio de pimenta e canela, que, até então,  se mantinha nas mãos de mercadores árabes.  Esse era o objetivo primordial da missão comandada por Cabral.

Mas, antes de partir, Cabral manteve vários encontros com Vasco da Gama. O descobridor da Índia redigiu instruções náuticas detalhadas para o futuro descobridor do Brasil. Esse documento – que Cabral levou consigo a bordo – sobreviveu aos séculos e está preservado na Torre do Tombo, em Lisboa. Seguindo tais indicações a frota de Cabral zarpou de Lisboa em direção à Índia.

Depois de 44 dias de viagem, no entardecer de 22 de abril de 1500 – quando a frota, por motivo nunca compreendido plenamente, se encontrava muito mais a oeste do que o necessário para contornar o Cabo da Boa Esperança (a última ponta da África) –, Cabral e seus homens vislumbraram um morro alto e redondo, que batizaram de Monte Pascoal. Esse morro ficava no sul da Bahia. Foi a descoberta oficial do Brasil pelos portugueses.”

Em: Náufragos, Traficantes e Degredados: as primeiras expedições ao Brasil, 1500- 1531,  de Eduardo Bueno, Rio de Janeiro, Objetiva: 1998.





Quadrinha do descobrimento do Brasil

18 04 2012

 

Ilustração de autoria desconhecida.

Cabral olhando o infinito,

Viu um cruzeiro de luz

E chamou a nossa Terra

de Ilha de Santa Cruz.

(Walter Nieble de Freitas)