Canção, poema de Onestaldo de Pennafort

4 01 2012

Mulher e flores, s/d

Antonio Rocco ( Itália, 1880- Brasil, 1944)

óleo sobre tela, 76 x 50 cm

Canção

Onestaldo de Pennafort

Quando murmuro teu nome,
a minha voz se consome
em ternura e adoração.


Quando teus olhos me olham,
parece eu se desfolham
as rosas de algum jardim

Ó meu amor, se é preciso
eu direi que o teu sorriso
é doce como um olhar.

Mas é preciso que eu diga,
ó minha suave amiga,
isso que sinto e tu vês,

mas é preciso que eu diga?

Onestaldo de Pennafort Caldas (RJ-1902- 1987) jornalista, ensaísta, tradutor e funcionário público. Escreveu para diversos periódicos brasileiros, tais como Fon-Fon, Careta, Autores e Livros, Para Todos e O Malho.  Faleceu no Rio de Janeiro, sua cidade natal, em 1987.

Obras

Escombros Floridos, 1921, poesia

Perfume e outros poemas, 1924, poesia

Interior e outros poemas, 1927, poesia

Espelho d’ Água: Jogos da Noite, 1931, poesia

Nuvens da tarde, 1954, poesia

Um rei da valsa, 1958, música

O festim, a dança e a degolação, 1960, crítica literária

Romanceiro, 1981, poesia

Além de traduções do inglês e do francês.





A raposa e o timbu, fábula brasileira, texto de Luís Câmara Cascudo

3 01 2012

Ilustração de Pat Hutchins

A raposa e o timbu

A raposa convidou o timbu para visitarem um galinheiro bem provido. A raposa iria às galinhas e o timbu aos ovos e pintos.  Entraram por um buraco que mal permitia a passagem.  Começaram a fartar.  A raposa prudente, apenas satisfez o apetite.  O timbu, voraz, empanturrou-se, ficando com a barriga inchada.  De súbito ouviram os passos do dono da casa.  A raposa passou como um raio pelo buraco e sumiu-se no mato.  O timbu meteu-se a tentar mas ficou engalhado pelo meio do corpo, ganindo como um desesperado. O homem chegou, viu o estrago e disparou a espingarda no timbu, que morreu por ser guloso.

Em: Contos tradicionais do Brasil (folclore), Luís da Câmara Cascudo, Rio de Janeiro, Edições de Ouro: 1967

Esse conto foi originalmente coletado pelo autor no Rio Grande do Norte.  É possível que leitores de outros pontos do Brasil não estejam familiarizados com o timbu.  A grande área geográfica brasileira permite que esse animal receba diferentes nomes, em outras regiões: sariguê, gambá, ticaca, mucura, cassaco, entre outros.





Azul, soneto de Orlando Martins Teixeira

2 01 2012

Chapéu Azul, 1922

Tarsila do Amaral (Brasil, 1886-1973)

óleo sobre tela, 92 x 75 cm

Azul

Orlando Martins Teixeira

Chapéu azul, vestido azul, de azul bordado,

Azuis o parassol e as luvas, senhorita,

Como um lótus azul por um deus animado,

Passa toda de azul, por mil bocas bendita.

Há um bálsamo azul nesse azul que palpita,

Misticismos de um mundo, há muito em vão sonhado,

Azul que a alma da gente a idolatrá-la incita,

Azul claro, azul suave, azul de céu lavado.

Deixa na rua um rastro azul que cega e prende,

Não sei quê de anormal, de fantasma ou de duende,

Que prende os pés ao solo e ao mundo os olhos cerra;

Vendo-a, não se vê mais nada que o azul, tonteia…

Como num sonho azul, logo nos vem a ideia

Um pedaço de céu azul passeando a terra.

Em: 232 Poetas Paulistas, de Pedro de Alcântara Worms, Rio de Janeiro, Conquista: 1968

Orlando Martins Teixeira (SP, 1875- MG, 1902) nasceu em São João da Boa Vista, SP em 1875. Poeta, dramaturgo e jornalista. Trabalhou na Gazeta da Tarde.  Seus versos a Venus ficaram famosos quando declamados pelo ator português Dias Braga.  Faleceu em Sítio, MG, em 1902.





2012 — um ano esperado com ansiedade?

31 12 2011

— “Eu só tive espaço para fazer até 2012.”

— “Ha!  Isso vai dar um susto em alguém algum dia!”

Devo deixar claro que não acredito que o mundo vá acabar em 2012.  Portanto a minha tentação é brincar com essa profecia.  Desculpem-me aqueles que acreditam no calendário Maia.  Se vocês estiverem corretos não terei tempo de me arrepender.  Ficam aqui, já de antemão, as minhas desculpas acompanhadas de algumas charges de pessoas que pensam como eu.  Boas entradas!

“– Então, por que acaba em 2012?”

“– Acabou o espaço.”

Finalmente, revelado o mistério do calendário Maia.

–” Já imaginou algum bobo confundindo o fim desse calendário com o fim do mundo?”

“– O cacique disse para fazer até 2012.  É aí que mudamos para o calendário Dilbert.”

Coisas com que nos preocuparmos no século XXI.

Falta de moradias, Fome, Poluição, Crime, Fim do mundo

— “Uai, vamos nos preocupar com a coisa mais emocionante!”

— “De acordo com o calendário Maia o mundo acabará em 21 de dezembro de 2012”.

— “De acordo com o calendário político, a maioria gostaria que o ano acabasse bem antes disso!”

— “Vovó, aqui falam de uma profecia maia que diz que o mundo se acaba em 2012…”

—  “Netinha, não é possível…  Estes aspargus só vencem em 2015.”

“Francamente, eles poderiam ter previsto o fim do mundo para o mês de agosto!”

— “Isso é tudo? No ano passado o senhor deu muito mais!”

— ” Eu não quis dar tanto por um calendário que se acaba em 21 de dezembro de 2012.”

— “Aqui diz que o mundo vai acabar em 2012.”

— “Vai ser televisionado?”

— ” 18/12/2012, 19/12/2012, 20/12/2012, 21/12/2012 … !!@•◊§!!  Tô sem espaço!

–“Ôpa…  Esperem!  O departamento de marketing decidiu mudar para calendários de mesa…”

Porque o calendário maia acabou em 2012.

— “Eu estou gastando todo o meu dinheiro e se o mundo não acabar em 2012, eu vou ter tudo de volta abrindo processo contra os maias.”

— “Uh Oh…  É 2012!  Comemore como se fosse 2013”.




Um momento ahah! — srta. Hempel descobre alguns limites profissionais.

27 12 2011

Ilustração, Ben Kimberly Prins ( EUA 1902 – 1980)


Voltando ao livro  O aprendizado da srta. Beatrice Hempel, de Sarah Shun-lien Bynum [Rocco:2011], saliento a passagem abaixo que demonstra claramente a primeira centelha de uma conscientização de estagnação na profissão da srta, Hempel, da repetição infinita das matérias, entra ano, sai ano; a mesmice, o tédio.  Uma situação que acontece com todos nós em diferentes momentos.

” Antes de ler a minha cena — disse Audrey –, posso contar uma piada?

A srta. Hempel disse que sim.

— Foi meu pai quem me contou.  É uma piada boba, mas eu queria contar.  Para começar, ele disse: “Por que é importante aprender a história americana?”  Vocês se lembram?  Do trabalho que fizemos?  E então ele disse: “Quem não se lembrar do passado está condenado a repetir” — Audrey fez uma pausa tímida — “a sétima série!”

A turma riu.  E a srta. Hempel também.

— Até agora essa é a melhor razão! — declarou a srta. Hempel. — Quem quer repetir a sétima série?

Foi então que lhe ocorreu que ela estava repetindo a sétima série, na verdade pela quarta vez; e ainda estaria repetindo a sétima série, quando Audrey, Kirsten e Travis estivessem no mundo lá fora, fazendo coisas.  Um ano após o outro, os colonos de Jamestown se queixariam dos mosquitos, as caixas de chá tombariam no porto, os legalistas seriam cobertos com alcatrão e penas, e exibidos em desfile pelas ruas tortas.  Todos os meses de novembro, a guerra seria vencida.  Todos os outubros, as colônias se rebelariam.  Todos os setembros a srta. Hempel se voltaria para o quadro, apanharia o giz e escreveria: Primeiro Trabalho.





Uma professora diferente!

23 12 2011

Ilustração, T. J. Overnell.

Raramente leio livro de contos, mas fiquei muito feliz de ter tomado conhecimento dessa autora americana, Sarah Shun-lien Bynum, por indicação da livreira a quem recorro quando “não tenho nada para ler”, mesmo que as prateleiras de minhas estantes estejam repletas de volumes novos ainda por serem degustados.

Este é um conjunto de contos, eu hesito em dizer contos, pois que raramente têm um início, meio e fim, como imaginaríamos, mas um grupo de narrativas da vida de uma professora da 7ª série.  Juntos eles nos dão um breve retrato das interações e considerações da professora frente aos alunos, às suas escolhas e à sua vida amorosa.  São facetas de uma vida, em diferentes anos, diferentes ocasiões que nos permitem preencher o perfil de uma jovem professora de história.

O que surpreende, e precisa ser colocado em destaque, é o ponto de vista dessas histórias, as observações colocadas de maneira nova, refrescante sobre assuntos corriqueiros.  Isso adicionado a uma escrita límpida e precisa, a um tom quase britânico, dá um charme especial ao trabalho dessa autora que está naqueles nomes escolhidos pela revista The New Yorker, entre os 20 mais promissores escritores da atualidade, com menos de 40 anos de idade, nos Estados Unidos.

Vale a apresentação, e espero com ansiedade seu primeiro romance no Brasil.

Sarah Shun-lien Bynum




Natal, soneto de Gualter Cruz

23 12 2011

Adoração dos pastores, 1500-1510

[Também conhecida como Natividade de Allendale]

Giorgione (Itália, 1477-1510)

Óleo sobre madeira, 91 x 111cm

National Gallery of Art, Washington DC

Natal

Gualter Cruz

Na agitação das ruas da cidade,

De povo fervilhante, e forasteiros,

Ninguém notava os pobres caminheiros,

Dois santos na pureza e na bondade.

Castíssimos esposos, companheiros,

Irmãos na mais perfeita afinidade,

José buscava obter dos hoteleiros

Abrigo à esposa, santa de humildade.

As portas com estrondo se fechavam…

Enquanto a turba infecta gargalhava,

Outro local, nervosos, procuravam.

Para uma gruta, enfim, Deus os conduz…

Orando aos céus, Maria murmurava:

— Nasceu  meu filho, ó Deus!…  Nasceu Jesus!…

Em: Poesias completas, Gualter Cruz, Petrópolis, Editora do autor: 1983.

Gualter Germano Chaves da Cruz (Petrópolis, RJ, 1921, Rio de Janeiro, RJ 1978)





Cartões de Natal: Papai Noel chega de maneiras inusitadas!

21 12 2011

Asa Delta puxada a renas.

Como já vimos em duas outras postagens neste mês, sobre os meios de transporte de Papai Noel, voltamos ao assunto, deslumbrados que estamos com a sua criatividade para chegar a todas as crianças do mundo.  Mostramos, então, alguns outras maneiras de viajar de que o bom velhinho se utiliza.

Foguete, cartão da USRR.

Barco sobre esquis para os canais congelados da Holanda, cartão holandês.

Ônibus de dois andares, Inglaterra.

Ele também usa o trem, veja este cheio de brinquedos.

Snowmobile, em cartão da Rússia.

Ele também vem de triciclo.

Chega de helicóptero.

De bicileta ajudado por crianças…

Também faz entregas de caminhão.

Cartão da Finlândia.
Além de motocicleta voadora…

E de lambreta…

De sleigh motorizado…

E, é claro, de tapete mágico pelos céus da antiga União Soviética.

Além de poder usar seu paraquedas a qualquer momento.





Quando o que aprendemos já ficou ultrapassado!

21 12 2011

Biblioteca Pública de Chelsea, 1920

Malcolm Drummond (Grã-Bretanha, 1880-1945)

óleo sobre tela

Bridgeman Art Library

Um dos livros cuja narrativa me encantou nesse fim de ano foi  O aprendizado da srta. Beatrice Hempel, de Sarah Shun-lien Bynum [Rocco:2011].  É o tipo de livro que tem passagens que nos fazem reconhecer atitudes e maneiras de pensar.  Enfim, reconhecemo-nos e aos que nos circundam.  Hoje coloco aqui um trechinho  que mostra a realização de uma professora de história que descobre que o que havia insistido muito para que seus alunos da 7ª série aprendessem  e o que estava à beira de ensinar — determinados fatos da história americana —  acabava de ser ultrapassado por novas teorias e descobertas.

——-

“Tendo falado dos índios com tanta aprovação, a srta Hempel ficou consternada ao encontrar, numa tarde de domingo na livraria, uma publicação nova dedicada a contradizê-la.  Ficou parada no corredor, com o cenho franzido.  De acordo com as últimas descobertas antropológicas, os índios não eram grandes amigos da Natureza; eles arrasavam florestas, caçavam animais quase até a extinção, saboreavam petiscos, como o feto do búfalo, enquanto deixavam a mãe se decompor lentamente ao sol.

O livro estava exposto numa prateleira com uma variedade de outros livros, todos aparentemente com a mesma tendência.  A srta Hempel percebeu que uma pequena indústria tinha surgido cujo único objetivo era revelar as mentiras e as mistificações da história americana.  Paul Revere não gritou “Os britânicos estão chegando!”  Thomas Jefferson seduziu, sim, e engravidou Sally Hemings, sua escrava.  Os fundadores da nação não estavam “nem um pouco interessados em igualdade para todos”.  E o biruta do John Brown era perfeitamente são.  Até mesmo a teoria da ponte entre os continentes estava sob ataque.  Parecia que, afinal de contas, os primeiros americanos não tinham chegado perambulando pelo estreito de Bering.

A srta Hempel se sentiu irritada e traída.  Tinha levado muito tempo para ler América! América!, e agora cá estava uma prateleira inteira de estudos acadêmicos lançando dúvida sobre tudo o que ela estava prestes a ensinar.

No entanto, ela admitia que esses livros realmente pareciam necessários; sua existência fazia sentido para ela.  Era tão difícil contar a história com fidelidade.  Não se podia confiar que uma pessoa conseguisse relatar o seu próprio passado com fidelidade, muito menos a história de um país inteiro.”





Natal, poema de Jair Amorim

20 12 2011

Fuga para o Egito, s/d

Bartolomé Esteban Murillo (Espanha, 1618-1682)

Óleo sobre tela, 210 x 166 cm

Instituto de Arte de Detroit, EUA

Natal

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Jair Amorim

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E ainda hoje nascerás mais uma vez…

Sobre os reis Magos

a estrela-guia

os deixará ofuscados e perplexos

pela emoção

da santíssima aparição

E Tu nascerás neste e em outros anos

enquanto homens de porre

e mulheres quase nuas, ao sol,

tostadas e maquiladas

esperarão a hora mágica da noite

para exibir seus corpos luzidios

tomando chopes e comendo rabanadas.

E Tu, Senhor, nascerás mais uma vez à meia noite

pequenino e lindo

com Tua mensagem incompreendida

para os inúteis amanhãs

do dia nosso de cada vida.

E em Teu nome, Tuas palavras vãs,

nós nos empanturraremos

de vinhos

tâmaras

e avelãs…

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Em: Canto Magro de Jair Amorim,  Vitória, UFES: 1995

Jair Pedrinha de Carvalho Amorim (ES 1915 – SP 1993) poeta, compositor e jornalista.