Pesquisar, poesia infantil de Berenice Gehlen Adams

24 04 2010
 

 

Ilustração de Jerry Gonzalez

Pesquisar   

                                                                                      Berenice Gehlen Adams

 

 

Pesquisar é entrar

Na vida dos livros,

Em vidas vividas

Por reis e rainhas,

Em vidas vividas

Por bichos e plantas…

Pesquisar é entrar

Na vida real,

Na vida vivida

Por todos nós.

E quanto mais pesquisamos,

Mais curiosos ficamos,

Porque a pesquisa

Nos encanta e nos fascina,

Porque é da vida real

Que se criam os sonhos…

Pesquisar é entrar

Na vida dos bichos,

Na vida das plantas,

Na vida de rios e mares,

Procurando em cada canto

Um pequeno encanto.

E quanto mais pesquisamos

Mais percebemos que a vida

É cheia de cantos

E encantos secretos.

Na verdade é pesquisando

Que aprendemos

O quão imenso é

o nosso universo.

Berenice Gehlen Adams

 

Berenice Gehlen Adams – (Novo Hamburgo, RS, 1961)  Professora , escritora, artista plástica, ilustradora, editora de revista,  educadora e ativista ambiental.





A inteligência do Inconfidente, texto de Viriato Corrêa

22 04 2010

A Inconfidência,  década de 1960-70

Emiliano Di Cavalcanti (Brasil 1897 – 1976)

óleo sobre tela

A Inteligência do Inconfidente

                                                                                              Viriato Corrêa

 

A natureza é inexorável nos seus caprichos.  Assim como talha criaturas para os surtos dos sucessos, molda outras irremediavelmente para  as sensaborias da vida.

Tiradentes é uma figura nascida com pouca sorte.  Por mais de um século que vem rolando na história e, até hoje, a história não lhe fez a justiça que merecem  os seus grandes gestos e as suas virtudes cívicas.

Há ainda hoje quem lhe negue tudo: o desassombro em tramar a conjuração mineira, a grandeza da alma em chamar para si as responsabilidades totais do movimento, a confiança no seu papel, a coragem inflamada ao subir à forca, a resignação de mártir, tudo.  E, não satisfeita com isso, a história, quase sem dissonância alguma, nega-lhe até as qualidades de inteligência.

 Ainda hoje o grande sacrificado da inconfidência de Minas é apontado como um ignorantão.  É esse o conceito geral entre quase todos os historiadores do movimento mineiro.

A injustiça é flagrante.  Tiradentes nunca foi a cavalgadura que se propala.

Numa rebelião da ordem da de 1789, em que havia figuras da estatura intelectual de Alvarenga Peixoto, Cláudio Manuel da Costa, Gonzaga, cônego Luiz Vieira da Silva e outros, Tiradentes não podia ser uma personalidade de predominância mental.

Mas, nem por isso, se deve dizer que ele fosse a besta chapada que nossos historiadores têm feito acreditar. 

Sobre os dotes da cultura de Tiradentes há ainda um ponto de interrogação na história.

Ninguém sabe as escolas que o incendido alferes mineiro cursou quando menino e rapaz.  Acostumaram-se os cronistas a julgá-lo um tipo inferior, e ninguém mais cuidou de apurar a verdade.

Não é, porém, provável que o mártir da inconfidência tivesse tido uma educação completamente descurada.  Os seus pais tinham posses para o educar.

Há na Revista do Instituto Histórico um documento interessante a esse respeito.  É o inventário dos bens de dona Antônia da Encarnação Xavier, mãe do futuro sacrificado da conspiração de Minas.

O inventário é de 1756, data em que Tiradentes tinha apenas oito anos de idade.  O inventariante é Domingos da Silva Santos, pai do futuro  alferes e marido de dona Antônia.

Por aquele documento se vê que o casal se não é rico, é pelo menos remediado.  É possuidor de fazenda agrícola do Pombal no Rio Abaixo, no município de São João D’ El-Rei.   Na fazenda trabalham trinta e cinco escravos.  Estende-se nos seus domínios uma lavra de terras minerais, tudo de propriedade do casal.  Entre os bens inventariados lá estão um jarro de prata para lavar as mãos, galhetas e talheres também de prata, sinal de abastança na época.

Todo mundo sabe o que são avaliações de inventário – tudo pela metade ou pelo terço.  O monte mor dos bens do casal progenitor de Silva Xavier é avaliado em mais de dez contos de réis.

Jornada dos Mártires, circa 1928

Antônio Parreiras ( Brasil,  1860-1937)

óleo sobre tela, 200 x 365 cm

Museu Mariano Procópio, Juiz de Fora

Poder-se-á dizer que, apesar de remediados, os pais de Tiradentes podiam não cuidar da educação dos filhos.  Mas Xavier da Veiga, nas Efemérides Mineiras, cita um outro documento em que se vê que isso não é verdade.  É aquele em que se verifica que dois irmãos do sonhador da inconfidência eram padres.  Não parece provável que o velho Domingos da Silva tivesse ordenado dois filhos e descurasse completamente da educação de um  terceiro.

Sobre esse ponto a história se conserva muda.  Sabe-se precisamente o ano em que Tiradentes nasceu – 1748.

Há, porém, uma profunda treva em derredor de sua adolescência.  Vamos depois encontrá-lo em Minas Novas , arvorado em mascate, já homem feito, mercadejando de vila em vila. 

Se nesse tempo tinha ou não o polimento das escolas, está tudo por apurar-se.  Pereira da Silva afirma que ele viajou pela Europa e pelos Estados Unidos, voltando ao Brasil inflamado pelas idéias liberais que no momento incendiavam o mundo.  A informação parece leviana, pois não há nenhum documento que a confirme.

Na profissão de mascate é homem de pouca sorte que a fatalidade caprichosamente atirou ao mundo.  Não progride e é até preso por dívidas, segundo muitos afirmam.

Parece que são os desastres de negociante que o empurram para a farda.  Há quem atribua essa resolução a um caso de amor. [* Martinho de Freitas – Memórias Históricas].

Tiradentes, em S. João D’ El-Rei, amou perdidamente uma moça filha de pais portugueses, abastados.  Os preconceitos de cor e os preconceitos de fortuna predominavam mais do que nunca.  Ele era de cor morena e pobre.  A oposição dos pais da moça não pode ser vencida.  Arreliado, desiludido, corre a por nas costas a farda do regimento de dragões.

Onde e quando a sua alma se inflamou pelas idéias republicanas?  No ambiente do quartel?  Nas peregrinações de mascate?

 

 

Tiradentes, 1928

Décio Villares

óleo sobre tela

Joaquim Felício dos Santos, na Revista do Arquivo Mineiro, parece esclarecer esse ponto.  Quando mercador ambulante, Tiradentes foi muitas vezes à Bahia refazer o sortimento de mercadorias para os seus negócios.  A capital baiana era o centro da efervescência maçônica, foi mesmo o primeiro ponto de entrada da maçonaria no Brasil.  E, naquela época, as lojas de maçonaria eram verdadeiras oficinas revolucionárias, verdadeiro centro de cultura, sob o influxo novo dos enciclopedistas que transformaram o mundo.

Numa daquelas viagens, Tiradentes se fez maçom  e, na atmosfera crepitante das lojas, formou seu espírito de revolucionário liberal.

A sua vida militar foi amarga e dura.

No século XVIII Portugal insaciavelmente explorou o Brasil.  Explorou-o em tudo> no ouro, nos diamantes, na incultura imposta nos cargos públicos.  O brasileiro não tinha direito de subir.   No exército só os portugueses conseguiam os melhores postos.

A vida militar de Tiradentes dói exemplaríssima.  Apesar disso, sofreu as mais cortantes injustiças.  Não sabia pedir, não sabia adular, e o preteriam nas promoções.

Não passou de alferes.  Valeriano Manso, seu furriel, avançou-lhe à frente, conquistando o posto de tenente.  Antônio José de Araújo, que ele viu furriel, subiu a capitão nas suas próprias barbas.  O cadete Fernando Vasconcelos fez-se alferes da noite para o dia.

Esses dissabores constantes deviam-lhe ter arranhado fundamente a alma, acendendo-lhe os ímpetos de independência, despertando-lhe o sonho de um país emancipado, onde houvesse justiça e prêmio às virtudes. 

Nenhum estudo foi feito até hoje em que se pudessem aquilatar com precisão os dotes de cultura do admirável sacrificado da conjuração mineira.

É possível mesmo que esses dotes fossem poucos, mas o que ninguém poderá negar é qie Tiradentes tivesse sido uma criatura inteligentíssima, de uma inteligência clara e avançada, muito superior para a época em que viveu.

Não falemos das suas incontestáveis habilidades de dentista.  Não há notícia de que ele tivesse aprendido a cirurgia dentária e, no entanto, os cronistas são unânimes em afirmar ter sido ele um habilíssimo cirurgião “que tirava os dentes com a mais sutil ligeireza e ornava a boca de novos dentes, feitos por ele mesmo, que pareciam naturais”, segundo informação dada por frei Raimundo Penaforte, aquele estranho frade que lhe assistiu os últimos momentos.  E, naquela época, no Brasil, isso constituía um verdadeiro assombro.

Não falemos das suas qualidades de médico, das suas curas felizes entre a pobreza, fatos que ninguém contesta e que todos apontam.

Falemos apenas de Tiradentes engenheiro, Tiradentes homem de larga iniciativa.

São João D’  El-Rei, 1983

Emeric Marcier ( Romênia 1916- Paris 1990)

óleo sobre tela                73 x 92 cm

Os documentos da história neste particular são positivos.  Tiradentes era tido no seu tempo como uma competência em assuntos mineralógicos.  Em 1784, o governador Luiz da Cunha Menezes incumbiu o sargento-mor  Pedro Afonso Galvão de S. Martinho de proceder a uma “exatíssima averiguação” nos sertões de leste de Minas.  Para acompanhar o sargento-mor foi escolhido o alferes republicano.  Lá está no ofício que o  governador envia ao coronel Manuel Rodrigues da Costa:

          “ o mesmo (Pedro Afonso Galvão de S. Martinho) leva para o acompanhar o alferes Joaquim José da Silva Xavier, que se acha destacado na ronda do Mato, visto Vmcê, também me dizer que ele tem inteligência mineralógica.”

Esse “também” mostra a boa fama em que Tiradentes  era tido no assunto.

Mas não é só  como minerador que ele se firma um homem de inteligência incontestável.  É com trabalhos mais largos, com iniciativa mais vasta.

A primeira vez que Tiradentes veio ao Rio, já militar, ficou deslumbrado pela grandeza e pela riqueza da cidade.  O Rio de Janeiro, naquela época, tinha apenas cinqüenta mil habitantes, mas era já a maior e mais bela cidade brasileira. 

Num lancear de olhos o humilde alferes mineiro compreendeu o progresso futuro da capital do Brasil.  O Rio de Janeiro desenhou-se-lhe no espírito de homem superior com a grandeza e o vulto que hoje tem.  Havia de ser uma das vastas capitais do mundo, no correr de um século.

E reparem bem isto:  Tiradentes teve a visão que se não tinha ainda: uma cidade como o Rio, com o futuro do Rio, exigia, com urgência, um perfeito abastecimento de água e um porto onde não faltassem trapiches.

E em 1788, quando volta ao Rio, propõe ao vice-rei Luiz de Vasconcelos a canalização dos riachos Maracanã e Andaraí, para o abastecimento da cidade e a construção de vastos trapiches na Saúde.

É preciso considerar com justiça esse fato e pesar, no seu valor, as duas propostas.  Só podem ser de um homem de inteligência admirável.  Raros serão os engenheiros do século XX que,  ao chegar rapidamente a uma cidade, sem conhecimento da sua topografia, possam perceber, de um golpe, não só as suas necessidades de abastecimento de água como os meios de resolver o caso.

Monumento à civilização mineira

Praça da Estação Rodoviária

Belo Horizonte, MG

E de que Tiradentes teve em pleno século XVIII a verdadeira visão comercial do Rio futuro, aí estão as obras do porto, só começadas no século XX, como uma necessidade imprescindível do comércio.

E através dos séculos futuros, só vêem as inteligências privilegiadas…

Não se sabe bem qual foi a impressão que as propostas de Tiradentes causaram ao vice-rei.   Luiz de Vasconcelos era homem de certo gosto, mas era também cortesão.  Um simples alferes provinciano não lhe devia merecer grande importância.  O certo é que, por isto ou aquilo, enviou as propostas a Lisboa, ao Conselho Ultramarino.  Em Portugal os planos do republicano mineiro foram levados a sério.  O Conselho, tomando-os em consideração, devolveu os papéis ao vice-rei para que os informasse.

Que Tiradentes foi um homem de talento não se pode ter dúvida.  Os próprios historiadores que o apontam como cavalgadura dizem-no orador vibrante, eloqüente, que arrebatava as multidões com rasgos de fulgor.

E só podia ser uma inteligência de imenso vulto.  Só uma grande inteligência poderia ser irmã daquela esplêndida alma desassombrada que, diante da morte, sorri tranqüila e, diante da miséria dos companheiros, consegue ter alento para perdoar.

***

 

Em:  Terras de Santa Cruz: contos e crônicas da História Brasileira,  Viriato Corrêa, Editora Civilização Brasileira, Rio de Janeiro: 1956,  páginas 153-160.

Manuel Viriato Corrêa [ou Correia] Baima do Lago Filho (Pirapemas, MA 1884 — Rio de Janeiro, RJ 1967) – Pseudônimos: Viriato Correia, Pequeno Polegar, Tibúrcio da Anunciação. Diplomado em direito, jornalista, contista, romancista, teatrólogo, autor de literatura infantil e crônicas históricas, professor de teatro, membro da ABL e político brasileiro.

Obras:

Minaretes,  contos, 1903

Era uma vez…, infanto-juvenil, 1908

Contos do sertão, contos, 1912

Sertaneja, teatro, 1915

Manjerona, teatro, 1916

Morena, teatro, 1917

Sol do sertão, teatro, 1918

Juriti, teatro, 1919

O Mistério, teatro,  1920

Sapequinha, teatro, 1920

Novelas doidas, contos, 1921

Contos da história do Brasil, infanto-juvenil,  1921

Terra de Santa Cruz, crônica histórica, 1921

Histórias da nossa história,crônica histórica, 1921

Nossa gente, teatro, 1924

Zuzú, teatro,  1924

Uma noite de baile, infanto-juvenil,1926

Balaiada, romance, 1927

Brasil dos meus avós, crônica histórica, 1927

Baú velho, crônica histórica,  1927

Pequetita, teatro, 1927

Histórias ásperas, contos, 1928

Varinha de condão, infanto-juvenil, 1928

A Arca de Noé, infanto-juvenil, 1930

A descoberta do Brasil, infanto-juvenil,1930

A macacada, infanto-juvenil, 1931

Bombonzinho, teatro,  1931

Os meus bichinhos, infanto-juvenil, 1931

No reino da bicharada, infanto-juvenil, 1931

Quando Jesus nasceu, infanto-juvenil, 1931

Gaveta de sapateiro, crônica histórica,  1932

Sansão, teatro, 1932

Maria, teatro, 1933

Alcovas da história, crônica histórica,  1934

História do Brasil para crianças, infanto-juvenil, 1934

Mata galego, crônica histórica, 1934

Meu torrão, infanto-juvenil,1935

Bicho papão, teatro, 1936

Casa de Belchior, crônica histórica, 1936

O homem da cabeça de ouro, teatro, 1936

Bichos e bichinhos, infanto-juvenil, 1938

Carneiro de batalhão, teatro, 1938

Cazuza, infanto-juvenil, 1938

A Marquesa de Santos, teatro, 1938

No país da bicharada, infanto-juvenil, 1938

História de Caramuru, infanto-juvenil, 1939

O país do pau de tinta, crônica histórica, 1939

O caçador de esmeraldas, teatro, 1940

Rei de papelão, teatro, 1941

Pobre diabo, teatro, 1942

O príncipe encantador, teatro, 1943

O gato comeu, teatro, 1943

À sombra dos laranjais, teatro, 1944

A bandeira das esmeraldas, infanto-juvenil, 1945

Estão cantando as cigarras, teatro, 1945

Venha a nós, teatro, 1946

As belas histórias da História do Brasil, infanto-juvenil, 1948

Dinheiro é dinheiro, teatro, 1949

Curiosidades da história do Brasil, crônica histórica, 1955

Terras de Santa Cruz: contos e crônicas da História Brasileira, 1956

O grande amor de Gonçalves Dias, teatro, 1959.

História da liberdade do Brasil, crônica histórica, 1962





Quadrinha infantil do mar e do pescador

20 04 2010

pescador, Lucille HollingIlustração, Lucille Holling.

Quem vai ao mar deitar rede,

que tome cuidado, tome!

O mar nunca teve sede,

mas nunca vi tanta fome!

(Eno Teodoro Wanke)





Este lago sereno — poesia de Ladyce West

5 04 2010

 

Fantasia tropical —  Foto: Ladyce West, Jardim Botânico,  Rio de Janeiro.

Este lago sereno

 

                                                                                        Ladyce West 

Este lago sereno exerce uma atração,

Uma obsessão misteriosa,

Alucinante em mim.

Um desejo de mergulhar na sua profundeza,

De me perder em seu mistério,

De desaparecer na paisagem tranqüila,

Pintada em suas águas sombrias,

Sossegadas, calmas e imóveis.  

Seu silêncio me hipnotiza e seduz.

Este lago manso me mesmeriza

No tratar invertido da natureza:

A dupla imagem, a ambigüidade.

Céu e água. Água e céu.

O reflexo do vôo de um pássaro no ar…

Um  peixe fugidio a nadar?

Verso e reverso.  Corpo e alma.

Inferno e paraíso.

Meu mundo unido num só horizonte.

 —

© Ladyce West, 2006, Rio de Janeiro — Em: À meia voz.





Quadrinha infantil: conselho para plantar

31 03 2010

Ilustração, Maurício de Sousa.

Se um dia necessitares

Uma árvore derrubar,

Tu deves, no mesmo instante,

Plantar outra em seu lugar

(Walter Nieble de Freitas)





Um passeio pelos jardins do Palácio do Catete

30 03 2010
Jardim do Palácio do Catete,  Rio de Janeiro.  Foto: Ladyce West

Neste verão que não acaba, em que fritamos todos os dias os nossos corpos a 38º C,  tenho procurado andar na areia da praia só no fim das tardes, e nos fins de semana visitar alguns dos belos jardins do Rio de Janeiro, a cata de  sombra, frescor, natureza e equilíbrio mental.   No sábado passado passei uma hora e pouco à sombra das árvores nos jardins do Palácio do Catete, antiga residência presidencial quando no século XX esta cidade ainda era a capital do Brasil.

Há uma característica desse jardim que sempre me intrigou e que dessa vez procurei saber o porquê.  Fato que salta aos olhos de quem quer que visite o local é a estranha distribuição de terra em relação à casa.  Os jardins são imensos.  Mas a casa fica não no centro dos jardins como seria de se esperar, mas no canto, dando de frente para a Rua do Catete.  Nem sei quantas vezes esse jardim é maior do que a área coberta por essa residência neo-clássica, construída entre 1858 e 1866, trabalho do arquiteto alemão Carl Friedrich Gustav Waehneldt, mas tem lago, tem gruta, tem esculturas e árvores gigantescas, e parece fora do comum que a casa ficasse assim num cantinho com as janelas paralelas à calçada.

Coreto, nos jardins do Palácio do Catete.  Foto:  Ladyce West

Finalmente descobri a razão:  a casa fora construída originalmente para residência na corte dos Barões de Nova Friburgo.  E a Baronesa havia exigido que este local fosse diferente de suas duas outras residências, a do Cantagalo e a de Nova Friburgo ambas as construções em centro de terreno.  A Baronesa de Nova Friburgo queria sentir o calor humano, a movimentação da corte, as carruagens passando, os vendedores cantando suas ofertas, seus pregões individualizados, quando chegasse à janela da residência citadina.  Daí o uso do cantinho esquerdo do terreno de esquina entre as ruas do Catete e a rua Silveira Martins [agradeço ao leitor Pedro Henrique pela correção do nome desta rua, que hoje, 29/9/2013 modifiquei no texto].  Os fundos da casa, dão para os jardins que se prolongam até  a Praia do Flamengo.  

Oceania, escultura em ferro fundido de Mathurin Moreau [França, 1822-1912], 1876.  Foto:  Ladyce West

Espalhadas pelos deliciosos recantos do jardim há uma série de esculturas em ferro fundido, de Mathurin Moreau (1822-1912), afamado escultor francês do século XIX, representando os continentes.  [Só uma dessas esculturas tem identificação numa tabuletinha próxima.  É a escultura cuja foto coloquei acima].  Ela representa a Oceania: um menino, abraça um pequeno canguru.  Infelizmente, a identificação dessas esculturas, está — como quase tudo que é patrimônio cultural no Rio de Janeiro —  deixada ao léu. É uma vergonha que o patrimônio cultural que temos a nosso alcance não exerça nenhuma fascinação sobre aqueles encarregados de preservar o nosso legado cultural (seria muito, pergunto, se um empregado do museu fizesse as mesmas tabuletinhas para cada uma das esculturas do palácio?  E se roubassem, fizesse de novo?  O custo é próximo a ZERO).   Mesmo nos jardins do Palácio do Catete, um museu carioca, temos o descuido de não identificar as peças, como se elas de nada valessem.  É uma pena.  Não pude, por causa do grande contraste entre a luz do sol e a sombra, nesse sábado, fotografar razoavelmente bem nenhuma das outras esculturas.  Uma delas na verdade, está longe, na frente de uma ilhota do lago, e terei que levar uma outra lente para isso.  Mas prometo aos leitores desse blogue que voltarei ao Palácio do Catete para registrar esses tetéias.  Sim porque essas esculturas são de um tamanho pequeno, certamente feitas para uso em jardins particulares  de importância.   Não há tampouco qualquer cartão postal com a foto das mesmas que se possa comprar e levar para casa como uma lembrança da arte encontrada no museu.  Vergonhoso.  Temos que melhorar isso antes de nos candidatarmos a eventos como Olimpíadas e Copa do Mundo,  porque esses eventos trazem pessoas que além dos esportes gostariam de conhecer a base cultural da cidade.  Garanto, que não há muitas cidades no mundo que têm o patrimônio artístico nacional e estrangeiro, em lugares públicos ou privados, que nós temos.

Os seis continentes, ferro fundido, Museu d’Orsay, Paris.

Mathurin Moreau foi um grande escultor francês do século XIX.  E nada melhor, para aqueles que gostariam de se dedicar às artes no Brasil e à escultura, que visitar essas pequenas representações dos continentes.  Mathurin Moreau criou outra escultura representando a Oceania, mais conhecida,  para a série de trabalhos representando  os  continentes.  A série foi organizada em 1878, e  seis dos mais importantes escultores franceses do final do século XIX  foram convidados a fazer uma escultura que representasse um continente:   América do Sul , por Aimé Millet (1819-1891); Ásia por  Alexandre Falguière (1831-1900); Oceania por  Mathurin Moreau (1822-1912);  Europa  por Alexandre Schoenewerk (1820-1855); América do Norte por  Ernest-Eugene Hiolle (1834-1886) e  África por Eugène Delaplanche (1831-1891).  Esse grupo permaneceu  no mesmo  local, Palácio Trocadéro, desde 1878 até a Segunda Guerra Mundial, quando em 1935 foi  transportado para Nantes.  Lá esteve  por cinquenta anos, até 1985, ano em que ” os seis continentes” retornaram a Paris, encontrando um lar na esplanada do Museu d’ Orsay. 

Oceania, 1878, Mathurin Moreau (França, 1822-1912), ferro fundido, Museu d’Orsay, Paris

Achei por bem postar, a título de curiosidade, uma foto da representação do mesmo continente, na versão de 1878, ou seja na versão de Mathurin Moreau para a Exposição Universal.  As que se encontram no Palácio do Catete são de 1876, ou seja, de 2 anos antes das  esculturas encontradas no Museu d’ Orsay.  Teriam sido elas um exercício do artista para o projeto mais monumental?  O que tanto a peça do Palácio do Catete quanto a encontrada no Museu d’Orsay têm em comum é o toque do exotismo, com a presença com canguru em ambas.  Detalhes exóticos seriam quase de obrigatoriedade nessas representações – afinal estamos falando dos últimos 25 anos do século XIX —  onde o exotismo foi explorado em todos os meios.  Mas as diferenças entre as duas mostram que suas funções foram determinantes na escolha da representação.  Enquanto a escultura feita para a Exposição Universal se mostra grandiosa, maior que a vida, as esculturas encontradas nos jardins do Catete, todas com meninos com animnais,  são mimosas e delicadas, no mesmo material (ferro fundido), mas definitivamente peças feitas para jardins menores, para o prazer do colecionador particular.

 

 Patos, Palácio do Catete, Rio de Janeiro.  Foto:  Ladyce West

Em outra ocasião dedicarei algumas palavras sobre o prédio, suas pinturas e decoração.   Sei que os jardins foram reformados sob a direção do engenheiro Paulo Villon,  em 1896,  quando a propriedade foi eletrificada para abrigar a Presidência da República, que até então usava o Palácio do Itamaraty.  Acredito que essas estátuas de Mathurin Moreau possam ter sido adquiridas na época para pontuar a reforma.    Há nesse jardim também um belíssimo chafariz, — que sábado passado não tinha água .  Esse chafariz, certamente entrou para o Palácio do Catete na reforma de 1896, pois era o chafariz do Largo do Valdetaro, que foi removido do local onde havia sido colocado em 1854 para este jardim em 1896.

Jardim do Palácio do Catete, Rio de Janeiro.  Foto:  Ladyce West

O charme do jardim desse palácio está certamente no romantismo de final de século tão bem retratado na combinação das palmeiras imperiais com árvores frutíferas;  nos lagos bucólicos com patinhos a nadar, e na construção da pequena e romântica gruta, além é claro, do delicado coreto.  É sem dúvida um dos lugares mais prazerosos do Rio de Janeiro.  E,  já que hoje circunda o Museu da República – porque com a mudança da capital para Brasília esse palácio passou a ser o Museu da República — nada mais natural que o tratemos bem e que muito mais atenção seja dada às informações do local.  Vamos esperar que a secretaria de turismo do estado abra os olhos e nos gratifique com um material digno sobre o que estamos vendo.    A falta de informações é um desrespeito com o visitante brasileiro, porque lhe rouba a educação de seu patrimônio cultural, lhe rouba o aprendizado de seu passado; é também um desrespeito com o visitante estrangeiro que procurou nos conhecer melhor, ver  quem somos e de onde viemos.   Dizem os psicólogos que o desleixo, que o desrespeito consigo próprio, é sinal de baixa auto-estima.  Não é isso o que merecemos no Brasil, e não é isso o que eu gostaria de passar para as gerações futuras.

Árvores centenárias do Palácio do Catete.  Foto:  Ladyce West




Bolinhas de gude, poema infantil de Maria Eugênia Celso

29 03 2010
 Ilustração Maurício de Sousa.

Bolinhas de gude

                                               Maria Eugênia Celso

Brancas, verdes, rajadinhas,

                               Amarelas,

                As bolinhas

                Vão rolando,

                Vão dançando

                Seja liso ou seja rude

                O chão onde vão rolando

                Lá vão elas, lá vão elas…

                               As bolinhas de gude.

Brincam os meninos com elas,

                               Estão jogando

                No jardim ou nas calçadas,

                As bolinhas vão correndo

                Azuis pardas, amarelas,

                               Rajadinhas,

E tão vivas, tão ligeira, tão alegres e estouvadas

                Que até fica parecendo

                               Que são elas

                                               As bolinhas

Que com eles estão brincando.

Em: Poesia Brasileira para a Infância, Cassiano Nunes e Mário da Silva Brito, São Paulo, Saraiva: 1968.

Maria Eugênia Celso

Maria Eugênia Celso Carneiro de Mendonça (São João Del Rey, Minas Gerais, 1886 – 1963), usou também o pseudônimo Baby-flirt.  Jornalista, escritora, poeta, teatróloga e sufragista.  Funcionária de carreira do Ministério da Educação e Cultura.  Veio de Minas Gerais para Petrópolis, ainda criança,  onde cursou o Colégio Sion.  Em 1920 começou sua carreira jornalística no Jornal do Brasil.  Participou ativamente do “Movimento Feminista”, em favor da emancipação política e social da mulher, dedicou-se ao assistencialismo junto às “Damas da Cruz Verde”, aparecendo como uma das lideranças que criaram a maternidade “Pro-Matre” do Rio de Janeiro.  Batalhou pelo direito das mulheres ao voto. Faleceu em 1963.

Obra:

Em Pleno Sonho, poesia, 1920

Vicentinho, 1925

Fantasias e Matutadas, poesia, 1925

Desdobramento, poesia, 1926

Alma Vária, poesia

Jeunesse, poesia

O Solar Perdido, poesia, 1945

Poemas Completos, 1955

Diário de Ana Lúcia, prosa,

De Relance, crônicas

Ruflos de Asas, teatro

Síntese Biográfica da Princesa Isabel, biografia





Brasil que lê: fotografia tirada em lugar público

28 03 2010
Dois leitores, Jardins do Palácio do Catete,  Catete, Rio de Janeiro.




A cara do Rio, 115 visões do Rio de Janeiro em uma única exposição

25 03 2010

Vista de uma das salas da exposição  A CARA DO RIO  no Centro Cultural dos Correios.  Foto:  Ladyce West

Uma divertida exposição das artes plásticas cariocas: A CARA DO RIO, 2010,  está instalada no Centro Cultural dos Correios, no centro da cidade.   Esta é a 6ª edição dessa exposição que comemora anualmente o aniversário do Rio de Janeiro, juntando trabalhos dos mais diversos artistas visuais, sob um único tema:  a cidade do Rio de Janeiro.    São 115 artistas selecionados na curadoria de Marcelo Frazão.  A exposição que abriu no dia 27 de fevereiro vai até o dia 11 de abril, e se você ainda não foi lá, faça planos, para se encantar, rir, sorrir e se emocionar com as pinturas, esculturas, fotografias expostas.

É difícil escolher dentre tantas obras algumas para ilustrar bem essa postagem.  Mas aqui ficam:

PELA IRREVERÊNCIA:

Redentora, 2010  — DETALHE

Solange Palatnik ( Brasil, Rio de Janeiro, 1944)

Acrílica sobre tela

70 x 200 cm

PELA POESIA:

Vôo da Paz, 2010

Ruth Kac  ( Brasil, Rio de Janeiro, 1945)

Resina

33 x 35 x 47 cm  e 30 x 19 x 33 cm

PELA ALEGRIA:

Praia de Copacabana, 2010

Lúcia de Lima ( Brasil, Rio de Janeiro, 1947)

Acrílica sobre tela

20 x 80 cm

PELA VIBRANTE ENERGIA:

Rio 40 graus, [tetrádico], 2010

Paulo Maurício ( Brasil, Petrópolis,  1960)

Acrílica sobre tela

200 x 200 cm

PELA ALUSÃO HISTÓRICA:

Casario, 2010

Eleny Victoria Eksterman ( Brasil, Riio de Janeiro, 1957)

Giclée em Canvas Hahnemühle

120 x 100 cm

Mas a verdade é que são muito os trabalhos que fascinam, encantam e se fixam nas nossas retinas deslumbradas…  Vale a pena checar esta exposição.   

SERVIÇO:

Centro Cultural Correios
Rua Visconde de Itaboraí, 20 – Centro
Corredor Cultural
20010-976 – Rio de Janeiro – RJ
Telefone: 0XX 21 2253-1580
Fax: 0XX 21 2253-1545
E-mail: centroculturalrj@correios.com.br

Funcionamento:

O Centro Cultural Correios recebe visitantes de terça-feira a domingo, das 12 às 19h
Entrada franca.





A primeira lição, poesia infantil de Zalina Rolim

10 03 2010
Ilustração, Mark Arian

A PRIMEIRA LIÇÃO

 —

                                                                                Zalina Rolim

RAUL não sabe ler;

É um traquinas, que vive toda a hora

Pela campina em fora

A correr, a correr…

Desde pela manhã,

Salta do leito em fraldas de camisa,

E por tudo desliza

Numa alegria sã.

Nada de livros, não;

Para ele a campina, os passarinhos,

Os assaltos aos ninhos,

A pesca ao ribeirão

E as corridas em pós

Dos bezerros e cabras e novilhas,…

Rasgando ásperas trilhas,

Veloz, veloz, veloz!

Mas, um dia, ele viu

A irmãzita no livro debruçada,

E o som de uma risada

O ouvido lhe feriu.

Que teria, meu Deus!

Aquele grande livro tão pesado,

Ali dentro guardado,

Longe dos olhos seus?

E aproximou-se mais.

Ceci, toda entretida na leitura,

Mostrava, rindo, a alvura

Dos dentinhos iguais.

E o pequenito a olhar,

Mas debalde; no livro, aberto em frente,

Letras, letras, somente…

Raul pôs-se a chorar.

Pois não estava ali

Um livro injusto e mau, que até escondia

A causa da alegria

Da risonha Ceci?

Mas a irmã, tal e qual

Uma bondosa mãe ao filho amado,

Fê-lo assentar-se ao lado

E explicou-lhe o seu mal.

E com tanta razão

Que, abrindo atento o livro misterioso,

Raul pediu, ansioso,

A primeira lição.

Maria Zalina Rolim Xavier de Toledo — nasceu em Botucatu (SP), em 20 de julho de 1869.

Professora alfabetizadora transferiu-se com a família para São Paulo em 1893.

Educadora, entre 1896 e 1897, exerceu o cargo de vice-inspetora, do Jardim da Infância anexo à Escola Normal Caetano de Campos, em São Paulo.

Escreveu para diversas revistas femininas e jornais como A Mensageira, O Itapetininga, Correio Paulistano e A Província de São Paulo.

Faleceu em São Paulo, em 24 de junho de 1961.

Obras:

1893 – O coração

1897 – Livro das Crianças

1903 – Livro da saudade (organizado nesta data para publicação póstuma)