Muito além do coração: uma joia musical

8 03 2014

open_bookChansonnier de Jean de Montchenu, década de 1470

Também conhecido como Chansonnier Cordiforme (em formato de coração)

[Paris, Biblioteca Nacional, Ms. Rothchild, 2973]

Há mais ou menos um mês, através de uma aluna, descobri alguns manuscritos em forma de coração.  Foram novidade para mim, mas diga-se não sou medievalista.  Tudo indica que não são muitos. Dentre eles, talvez o mais divulgado seja o Chansonnier  de Jean de Montchenu (Cancioneiro de Jean de Montchenu) que recebeu recentemente uma edição maravilhosa em fac-símile.  Esse manuscrito foi encomendado na França, em  Savoy [Saboia] entre 1460 e 1477.  Encomenda feita por Jean, cânone de Montchenu — daí sua designação — que  mais tarde, em 1477,  se tornou Bispo de Agen e Bispo de Vivier (1478-1497).  O cancioneiro é composto por 43 músicas.  Entre elas há obras de Guillaume Dufay (Du Fay, Du Fayt) nascido em 5 de agosto, acredita-se que de  1397 e falecido a 27 de novembro de 1474.

DufayBinchoisDufay, retratado aqui à esquerda e Gilles de Binchois à direita no manuscrito em Martin le Franc, “Champion des Dames”, Arras 1451.

Dufay foi um dos compositores dos Países Baixos mais conhecidos na época do Renascimento, figura central na Escola da Borgonha, onde desempenhou o papel mais famoso e influente na Europa em meados do século XV.  Sua música foi copiada, distribuída e cantada em todos os lugares que a polifonia tinha criado raízes. Quase todos os compositores das gerações seguintes absorveram alguns elementos do seu estilo. A ampla distribuição de sua música é ainda mais impressionante, considerando que morreu décadas antes a disponibilidade de impressão de música. Ou seja, suas músicas tinham que ser copiadas à mão. 

gc178-4Chansonnier de Jean de Montchenu, década de 1470

Há também algumas cantigas de Gilles de Binche, contemporâneo de Dufay, nascido por volta do ano 1400, tendo falecido em 1460 e que foi também um compositor muito influente. Suas músicas apareceram em cópias décadas após sua morte, e muitas vezes foram usados ​​como fontes para a composição de Missas  por compositores posteriores. Sua música é simples e clara.  Empregado pelo Duque de Borgonha, Binchois  (como era também chamado) escreveu todo tipo de música: as canções seculares de amor além das músicas sacras que atenderam as expectativas e satisfizeram o gosto de seu patrão.  Outros compositores como Ockeghem , Busnoys também têm composições incluídas nesse manuscrito único.

montchen_m_1Chansonnier de Jean de Montchenu, década de 1470

O livro fechado tem a forma de um coração, aberto parece uma borboleta formada por dois corações. Os românticos veem nisso dois corações amantes. As canções são em francês e italiano e escritas para diferentes vozes.  Quando a palavra coração aparece no texto ela é representada por um imagem de um coração delicado.

montchenu4Página do Manuscrito de Montchenu, em que a palavra coeur [coração] aparece substituída pela imagem de um coração.

Duas ilustrações de página inteira aparecem no códice. Na primeira, um Cupido atira flechas contra uma jovem, enquanto ao seu lado Fortuna gira sua roda. No outro, dois amantes se aproximam um do outro com amor.  em todo o manuscrito, os pentagramas, música e poemas de amor são cercados por bordas de animais, pássaros, cães, gatos e todos os tipos de flores e plantas em ouro abundante e desenhos delicados. A encadernação é  em veludo cor vermelho, como apropriado  à  forma.

montchenu2Detalhe da página do manuscrito de Montchenu ilustrada na primeira fotografia desta postagem.

James de Rothschild recebeu este manuscrito junto a uma enorme coleção de seu pai Henri de Rothschild, e doou-o para a Biblioteca Nacional da França.

746299c15092a4867af370b608eac528Detalhe de uma das bordas do manuscrito de Montchenu.




Imagem de leitura — Harold Knight

7 03 2014

??????????????????????????????O livro verde, s/d

Harold Knight (Grã Bretanha, 1874-1961)

óleo sobre tela, 51 x 46 cm

Museu Nacional do País de Gales, Cardiff





Rio de Janeiro a caminho dos 450 anos!

7 03 2014

???????????????????????????????Casa de Smither Perrin, à Rua São Clemente, 1860

Assinatura: A. P.

Aquarela, guache sobre papel,  36 x 55 cm

Museu Imperial, Petrópolis





Arqueologia do futuro poderá ser debaixo d’água

7 03 2014

Raising-the-Korean-Flag-in-the-South-Pole-11Foto sem indicação de autoria. Provavelmente do filme 2012.

Pesquisadores alemães alertam que, caso emissões de gases de efeito estufa continuem no ritmo atual, um quinto dos monumentos e locais protegidos pela Unesco desapareceriam nos próximos dois mil anos.

O aumento dos níveis dos mares por causa aquecimento global pode levar, nos próximos dois mil anos, ao desaparecimento de mais de 130 dos cerca de 750 Patrimônios Mundiais da Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura (Unesco), alerta um estudo divulgado no início de março.

Se não limitarmos as mudanças climáticas, no futuro os arqueólogos terão que procurar uma grande parte de nossos patrimônios culturais no mar“, afirma o pesquisador Ben Marzeion, da Universidade de Innsbruck e um dos autores do estudo.

Essa notícia me faz lembrar o impactante livro: Seis Graus, de Mark Lynas, lançado no Brasil em 2008. Ele conseguiu que eu mudasse alguns pequenos hábitos diários.  Sou a formiguinha que acredita que o trabalho em conjunto nos levará às necessárias soluções, apesar de sermos testemunhas das pilhas de lixo deixadas no Rio de Janeiro, numa greve fomentada por interesses políticos que deveriam ser enquadrados em crime contra o meio ambiente. Em novembro de 2008 já aqui no blog publicamos uma entrevista com Mark Lynas – Seis graus e as soluções alternativas. Recomendo a leitura desse livro. Livro bom pode ser lido a qualquer hora, mesmo que tenha sido publicado há seis anos.

Não temos tempo a perder. Como os pesquisadores alemães ressaltam um aquecimento menor também já é uma ameaça para uma boa parte desses locais. O aumento de apenas 1 grau na temperatura seria suficiente para colocar em risco a existência de 40 dos Patrimônios Mundiais da Unesco.

A elevação do nível do mar também será responsável por uma diminuição considerável da superfície terrestre. Com um aumento de 3 graus 12 países perderiam mais da metade de seus territórios, a maioria deles localizada no Sudeste Asiático.

A temperatura global média aumentou cerca de 0,8 grau em comparação com a era pré-industrial. Se as emissões de gases do efeito estufa crescerem como ocorreu até o momento, devemos calcular um aquecimento global de até 5 graus no final do século“, aponta o pesquisador Anders Levermann, coautor do estudo.

FONTE: TERRA

Com essa postagem, voltamos a divulgar notícias de ciências e meio ambiente. A pedidos.





Palavras para lembrar — Julien Green

7 03 2014

Johann Gottfried Steffan (Alemanha) Jovem mulher lendo,Jovem lendo à mesa

Johann Gottfried Steffan (Suíça, 1815- Alemanha, 1905)

“Uma biblioteca é a encruzilhada de todos os sonhos da humanidade”.

Julien Green





Coleção de arte doada: ganha a UEMG, ganhamos todos

6 03 2014

Noite de São Joãode Alberto da Veiga GuignardAcervo-Artístico-Priscila-FreireNoite de São João

Alberto da Veiga Guignard (Brasil, 1896-1962)

óleo sobre tela

Coleção Priscila Freire

Um belo empurrão na preservação da cultura brasileira foi a recente doação de uma coleção de arte, com destaque para a arte popular do Vale do Jequitinhonha, por Priscila Freire ex-diretora do Museu de Arte da Pampulha, em Belo Horizonte. Priscila Freire cedeu todo o seu acervo à Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG).  Não fosse isso bastante, cedeu também uma área na chácara onde mora, para que ali seja instalada uma escola de arte. Sem filhos. Sem herdeiros naturais, ela  nomeou a UEMG como consignatária de sua coleção onde se encontram obras de Guignard [só dele são dezessete obras], Tarsila do Amaral [desenhos de sua viagem a MG em 1924] e  Pancetti;  cerâmicas do Vale do Jequitinhonha, gravuras, esculturas e tapeçarias conhecidos artistas brasileiros.

Guignard, Retrato de Priscila freire,Retrato de Priscila Freire, 1959

Alberto da Veiga Guignard (Brasil, 1896-1962)

óleo sobre tela, 55 x 46 cm

A Chácara Santa Eulália, localizada no bairro de São Bernardo, na região norte de Belo Horizonte foi comprada por seu pai na década de 30 e compreende 53 mil metros quadrados.  Essa área ficará aos cuidados da universidade que usará 2.000m² para um núcleo de pesquisa e criação artística da Escola Guignard, vinculada à UEMG, enquanto os restantes 50 000 m² –continuarão a constituir a reserva ecológica de que já são parte.

Dijon Moraes Júnior, reitor da universidade lembra que  o gesto de Priscila Freire é semelhante ao de  José Mindlin, advogado, empresário e bibliófilo que cedeu sua biblioteca  à Universidade de São Paulo,e  de Yolanda Penteado, que doou obras de arte e dinheiro a museus.  Todos mostram o reconhecimento da relevância das instituições recebedoras de tais presente e quem lucra, é claro, somos nós o público, o curador final da cultura brasileira.

FONTES: UAI, Veja BH





Imagem de leitura — E. Schwarzer

6 03 2014

E Schwarzer, cartão postal, Alemanha 1915E. Schwarzer. Cartão postal, Alemanha, 1915.




Hoje é dia de feira: frutas e legumes frescos

5 03 2014

FRANCISCO MANNA (1879 - 1943) Abacaxi, o.s.t. - 32 x43Abacaxi, s/d

Francisco Manna (Itália, 1879 – Brasil, 1943)

óleo sobre tela, 32 x 43cm





Carnaval, poema de Afonso Louzada

5 03 2014

CESAR LACANNA - (1901 - 1983) - Carnaval - a - 32 x 23 - cid - 1966Carnaval, 1966

César Lacanna (Brasil 1901-1983)

aquarela sobre papel

Carnaval

Afonso Lousada

E foi-se o Carnaval. E só ficou,

de tudo, uma lembrança dolorida

que resta desse amor que se acabou

numa alegria que redime a vida.

Da loucura da febre que passou,

a alma se sente só e consumida;

na solidão que o sonho lhe deixou

a saudade ainda vive, malsofrida.

E, tristemente, o coração recorda,

na angústia de uma louca nostalgia,

esse sonho fugaz que ele sonhou.

Carnaval de um amor que, na alma, acorda

a esperança de uma última alegria,

entre as cinzas de tudo que passou.

Em: Noturnos, Afonso Louzada, Rio de Janeiro, Imprensa Nacional:1947, p. 38





Bibliotecas públicas no Rio: livros mais procurados

4 03 2014

Fabricio Fontolan,(Paraná, Brasil)  Reading, 2005, oil on canvasLendo, 2005

Fabrício Fontolan (Brasil, contemporâneo)

óleo sobre tela, 40 x 50 cm

fontolan paintings

-C

Neste fim de semana de Carnaval o jornal O Globo publicou os resultados de uma pesquisa entre as bibliotecas públicas municipais e estaduais no Rio de Janeiro que listava os livros mais requisitados e emprestados ao público [Ranking de leitura, estrangeiros no topo]. Foi constatado que leitores preferem os livros das listas dos mais vendidos e mais falados.  Livros que na maioria são escritos por  autores estrangeiros.  Não importa onde essas bibliotecas estejam localizadas, se em bairro de classe média, rica ou pobre o interesse pelos campeões de venda é o mesmo.

Não fiquei surpresa. Acho natural que todos queiram estar a par  dos assuntos nas conversas nos cafés, nas escolas e na internet.  Principalmente os adolescentes e jovens adultos, que sabem muito  bem os livros que andam fazendo sucesso em outros países.  Esse costume brasileiro de querermos ler o que é escrito no exterior não é de hoje.  No século XIX  até meados do século XX era a França que ditava o que os brasileiros liam. Nem por isso deixamos de ter um Machado de Assis.

O importante é que nossas bibliotecas públicas tenham para emprestar os livros que as pessoas queiram ou precisem ler. É uma maneira simples de garantir a leitura.  Ler é o mais importante. De longe.  Depois que a leitura se estabelece como um hábito, o leitor por si mesmo irá se encaminhando para outros livros, para outros horizontes.

Os autores Nicholas Sparks e J. K. Rowling lideram os empréstimos dessas bibliotecas.