O pintor de letreiros, de R. K. Narayan, o conflito entre o novo e o velho

14 01 2012

Dia de feira, s/d
G. D. Thyaga Raj ( Índia, 1922-1981)
aquarela

Foi com grande prazer que descobri, no final do ano passado, o lançamento do romance O pintor de letreiros, de R. K. Narayan (Índia, 1906-2001), publicado pela Editora Guarda-Chuva:2011.   A apresentação de Narayan ao público brasileiro era devida e necessária.  Sua obra já está alinhada entre os clássicos da literatura indiana assim como da literatura de língua inglesa.  [Para ilustrar, a minha edição desse romance, em inglês – The Painter of Signs ––  foi publicada pela Penguin, coleção Clássicos do século XX, em 1982], tal é sua importância.

Muito de sua obra me atrai, mas principalmente o fato de não haver respostas aos problemas apresentados, não haver soluções fáceis.  Os romances de Narayan têm a característica de apresentarem no cotidiano, enfrentados por pessoas comuns, moradoras da fictícia Malgudi — um vilarejo que cresce, cresce até formar uma pequena cidade, isso através de volumes de sua obra –  e terminarem sem respostas fáceis.  Narayan é um daqueles escritores indianos formados na época em que a Índia ainda fazia parte da Comunidade de Nações Britânicas.  Sente-se em sua narrativa o contato íntimo com o melhor da literatura inglesa.   Entre essas características está o descrever de um todo, de um problema complexo, às vezes até político-social, pelos conflitos e resoluções de personagens menores,  mas que no final são quem realmente irão resolver, no dia a dia de suas fainas,  as mudanças necessárias para uma solução aceitável.  É o indivíduo, o homem comum, com todas as suas idiossincrasias que aparece agindo pelo todo.   É como se os romances fossem a respeito de nada, porque não há eventos, ações,  momentos grandiosos.  Não há heróis, nem grandes conquistas. Tudo parece muito corriqueiro e diário, mesmo quando se trata de uma mudança de grandeza social.  É com o homem comum, com a pessoa de pequeno porte, a formiguinha trabalhadora e mantenedora dos princípios sociais, religiosos e morais, é através desses personagens, tomando pequenas decisões, que  o romance e os leitores  se transformam.


E é o humor de Narayan que serve de porta de entrada ao nosso mundo e nos transforma. Com uma narrativa irônica e bem-humorada vemos, em O pintor de letreiros, as dificuldades de Raman.  Participamos de suas dúvidas, de seus anseios e principalmente de sua incompreensão a respeito da mulher amada.  Isso porque solteiro inveterado, na terceira década de vida, esse pintor de cartazes, educado na universidade, vê sua existência como exemplo de um ser pensante de uma racionalidade quase cartesiana.  Mas em seu destino aparece Daisy, a moderna, independente jovem trabalhadora que, com zelo missionário, tenta educar, persuadir e revolucionar os habitantes de pequenas cidades e vilarejos a usarem de planejamento familiar para controlar com sucesso os números do crescimento populacional da Índia.  Esta é a vida moderna.  A Índia de hoje.  Raman, não tem dificuldade nenhuma em aceitá-la.  Apaixona-se por ela… Moderna, instigante, livre, dedicada e inescrutável. Mas será que ela se apaixonaria também por alguém tão pouco fervoroso sobre o futuro?

Em casa, Raman tem o exemplo de outra nação.  Lá está diariamente sua tia, que dedicou toda sua vida à educação e ao crescimento de Raman emocional e intelectual, que se sacrificou pela família, pelos valores  e pela memória dos antepassados.  Com suas idas diárias ao templo, sua comida em forno de barro, com suas  histórias do passado, ela é o mundo de onde ele veio, a Índia com toda a tradição cultural milenar.  Preso entre dois amores, seu mundo desaba, não sem antes termos deliciosos momentos de humor e ironia na trama.

R. K. Narayan

Narayan nos dá a dimensão precisa das mudanças que ocorrem na Índia da década de 1970, quando por esforço governamental de grande magnitude, a necessidade de controle da natalidade foi colocada em destaque.  Ele nos mostra como a tradicional cultura indiana recebe essas mudanças.  São abordados assuntos complexos tratado numa linguagem clara, límpida, sem rebuscados artifícios.  Justamente por isso conseguimos pensar na complexidade de pequenas decisões diárias que afetam ou são afetadas pelo todo.   O charme de O pintor de letreiros é característico do autor: não está na trama – que é de uma simplicidade quase ingênua – mas nos retratos dos personagens, nas descrições que nos levam de início ao fim, às vezes com um tênue sorriso nos lábios, ocasionalmente um riso comedido e espontâneo, até o fim da leitura.

A publicação em português está excelente.  Vale a pena enriquecer as suas férias, os seus dias de verão, com essa leitura leve e significativa de um clássico autor indiano.





Imagem de leitura — Oscar Pereira da Silva

13 01 2012

Leitura, 1937

Oscar Pereira da Silva ( Brasil, 1867 — 1939 )

óleo sobre tela

Oscar Pereira da Silva nasceu em São Fidelis, no estado do Rio de Janeito em 1867.  Foi pintor e professor. Ganhou em 1887, no último em que cursou a Academia Imperial das Belas Artes no Rio de Janeiro, o prêmio de viagem à Europa.  Ficou em Paris e 1889 a 1896. Lá prosseguiu seus estudos com Bonnat e Léon Gerôme.  Voltando ao Brasil fixou-se em São Paulo.  Conquistou no SPBA a grande medalha de ouro em 1933 e o segundo prêmio Prefeitura de São Paulo em 1936.  Faleceu em 1939 em São Paulo.





A arquiteta, poesia de Roseana Murray

13 01 2012

Ilustração Jones Holmgreen, capa da revista Homes & Garden , Setembro 1938.

A arquiteta

Roseana Murray

A arquiteta gostaria

de projetar mil casas

por dia,

aéreas, subterrâneas,

casas de vidro e de paina,

redondas, de esvoaçantes

telhados.

Em frente à prancheta

a arquiteta sonha

o justo sonho

de todo mundo ter

onde morar.

Em: A bailarina e outros poemas, Roseana Murray, São Paulo, Editora FTD: 2001.

Roseana Murray nasceu no Rio de Janeiro em 1950. Graduou-se em Literatura e Língua Francesa em 1973 (Universidade de Nancy/ Aliança Francesa).

Obras:

Poesia para crianças e jovens

Fábrica de Poesia, ed. Scipionne, 2008

Poemas e Comidinhas, com o Chef André Murray, ed. Paulus, S.P, 2008

Residência no Ar, ed. Paulus, 2007

No Cais do primeiro Amor, ed. Larousse, 2007

Desertos, ed. Objetiva, 2006. ( Finalista do Prêmio Jabuti ) – Altamente Recomedável FNLIJ, 2006

O traço e a traça ed. Scpionne, 2006.

O xale azul da sereia, ed. Larrousse, 2006.

O que cabe no bolso? ed. DCL, 2006.

Paisagens, ed. Lê, 2006.

Pêra, uva ou maçã ed. Scipione, 2005. (Catálogo de Bolonha 2006 e Acervo Básico, F.N.L.I.J).

Rios da Alegria, ed. Moderna, 2005. (Altamente Recomendável, F.N.L.I.J).

Poemas de Céu ed. Miguilim, 2005. (Antigo “Lições de Astronomia”).

Maria Fumaça Cheia de Graça, ed. Larousse, 2005.

Duas Amigas, ed. Paulus, 2005 (reedição).

Lua Cheia Amarela, ed. Dimensão 2004.

Caixinha de Música, ed. Manati, 2004. (Catálogo de Bolonha 2005)

Um Gato Marinheiro, ed. DCL, 2004.

Todas as Cores Dentro do Branco, ed. Nova Fronteira, 2004.

Recados do Corpo e da Alma, ed. FTD, 2003. (Altamente Recomendável F.N.L.I.J)

Luna, Merlin e Outros Habitantes, ed. Miguilim/ Ibeppe, 2002. (Altamente Recomendável, F.N.L.I.J. )

Jardins, ed. Manati, 2001. (Prêmio Academia Brasileira de Letras de Literatura Infantil 2002. )

Caminhos da Magia, ed. DCL, 2001.

Manual da Delicadeza, ed. FTD, 2001.

O Silêncio dos Descobrimentos,  com Elvira Vigna, ed. Paulus, 2000.

Receitas de Olhar, ed. F.T.D, 1997, ( Prêmio O Melhor de Poesia, F.N.L.I.J. )

Carona no Jipe, ed. Memórias Futuras, 1994 e ed. Salamandra, 2006

No final do Arco-Íris, ed. José Olímpio, 1994.

O Mar e os Sonhos, ed. Miguilim,1996, (Altamente Recomendável para a Criança, F.N.L.I.J. )

Paisagens, ed. Lê, 1996.

Felicidade, ed. F.T.D, 1995, (Altamente Recomendável  para a Criança, F.N.L.I.J. )

De que riem os palhaços ed. Memórias Futuras, 1995. Esgotado

Tantos Medos e Outras Coragens, ed. F.T.D, 1994 ( Prêmio O Melhor de Poesia F.N.L.I.J e Lista de Honra do I.B.B.Y. ) Reedição com novas ilustrações em 2007

Qual a Palavra? ed. Nova Fronteira, 1994.

Casas, ed. Formato, 1994. Editado no México, ed. Alfaguara

Dia e Noite, ed. Memórias Futuras, 1994. Esgotado

Artes e Ofícios, ed. F.T.D, 1990, (Prêmio A.P.C.A. e Altamente Recomendável para a Criança, F.N.L.I.J. ) Reedição com novas ilustrações em 2007

Falando de Pássaros e Gatos, editora Paulus, 1987.

Fruta no Ponto, ed. F.T.D, 1986. (Prêmio O Melhor de Poesia. F.N.L.I.J.

Fardo de Carinho, ed. Murinho, 1980 e ed. Lê, 1985.

O Circo, ed. Miguilim/ Ibeppe, 1985.

Lições de Astronomia, ed. Memórias Futuras, 1985. Esgotado

Classificados Poéticos, ed. Miguilim/ Ibeppe, 1984, (Altamente Recomendável para a Criança, F.N.L.I.J, e finalista do Prêmio Bienal. )

No Mundo da Lua, ed. Miguilim/ Ibeppe, 1983.

Contos para crianças e jovens

Território de Sonhos, ed. Rocco, Altamente Recomendável FNLIJ, 2006.

Sete Sonhos e um Amigo, ed. FTD, 2004.

Pequenos Contos de Leves Assombros, ed. Quinteto, 2003.

Um Avô e seu Neto, ed. Moderna, 2000.

Terremoto Furacão ed. Paulus, 2000.

Um cachorro para Maya, ed Salamandra, 2000.

Uma História de Fadas e Elfos, ed. Miguilim / Ibeppe, 1998, (Acervo Básico da F.N.L.I.J – criança ).

Três Velhinhas tão velhinhas, ed. Miguilim / Ibeppe, 1996

O Fio da Meada, ed. Memórias Futuras, 1994. Ed. Paulus, 2002

Retratos, ed. Miguilim/ Ibeppe, 1990, Altamente Recomendável para a Criança, F.N.L.I.J. )

O Buraco no Céu ed. Memórias Futuras, 1989.

Poesia

Variações sobre Silêncio e Cordas, com desenhos de Elvira Vigna. E-BOOK, edição artesanal Maurício Rosa, Visconde de Mauá, maio de 2008.

Poesia essencial, ed. Manati, 2002.

15 poemas no livro Um Deus para Dois Mil, de Juan Arias, ed. Vozes (em seis línguas) 1999.

Caravana, inédito, vencedor do Concurso Cidade de Belo Horizonte, 1994.

Pássaros do Absurdo, ed. Tchê ,1990, vencedor do Concurso da Associação Gaúcha de Escritores.

Paredes Vazadas, ed. Memórias Futuras, 1988. Esgotado

Viagens , ed. memórias Futuras, 1984.

Revista Poesia Sempre.

Revista Microfisuras, Espanha

Correspondência

Porta a porta, com Suzana Vargas, ed. Saraiva, 1998, ?Acervo Básico da F.N.L.I.J – jovem).





Imagem de leitura — Anna Sahlstén

12 01 2012

Mulher lendo à janela, 1893

Anna Sahlstén (Finlândia, 1859-1931)

óleo sobre tela





O valor dos professores

12 01 2012

Na sala de aula, 1888

Karen Elizabeth Tornoe (Dinamarca, 1847-2933)

óleo sobre tela, 72 x 59 cm

Coleção Particular

O jornal americano The New York Times, na página de editoriais de hoje, tem um artigo muito interessante de Nicholas D. Kristoff, chamado The Value of Teachers [ O valor dos porfessores] sobre o valor  econômico dos professores na vida dos futuros adultos.  Traduzo livremente os primeiros parágrafos  para ponderação.  Acredito que não seja necessário elaborar a respeito.  As conseqüências dos primeiros parágrafos desse texto são lógicas, mas vale a pena seguir o pensamento do autor.

“Imagine que o seu filho acabou de entrar na 4ª série e cai numa turma com uma excelente professora.  A professora, no entanto,  decide se afastar da escola.  O que você deveria fazer?

 A resposta certa é: Entrar em Pânico!

Bem, não exatamente, mas um estudo de grande porte sobre o assunto mostra a diferença que faz um ótimo professor na vida futura de uma pessoa.   Ter um bom professor na 4ª série faz um aluno ter 1,25% mais chance de entrar para a universidade e 1,25% menos chance de engravidar na adolescência a pesquisa sugere.  Cada um desses alunos se tornará um adulto ganhando uma média de R$3.750,00 – ou mais ou menos uma renda de R$ 1.260.000,00 por uma turma média – tudo isso atribuível ao bom professor lá no passado, na 4ª série.  Isso mesmo: Um excelente professor vale centenas de milhares de dólares, por ano de estudantes, só pela renda extra que esses alunos irão ganhar no futuro.

O estudo, feito por economistas das universidades de Harvard e Columbia, concluiu que se um excelente professor está deixando a sala de aula, os pais deveriam angariar fundos, passar o chapéu, vender bolinhos, na esperança de como um grupo oferecer ao professor o equivalente a R$180.000,00 de prêmio para ficar por um ano a mais.  Claro, isso não seria possível,  – mas as suas crianças lucrariam muito mais que esta soma, no futuro de suas vidas.

Por outros lado, o efeito de um professor ruim  é  como se o aluno tivesse faltado 40%  do ano letivo.  Como não deixamos que isso aconteça, não se entende que se permita que maus professores continuem na sala de aula.  Na verdade, o estudo mostra, que os pais deveriam pagar R$180.000 para que esse mau professor se aposentasse (assumindo-se, é claro, que o substituto fosse de qualidade média) porque um professor fraco retira o potencial de crescimento do aluno.”





Imagem de leitura — David Hettinger

11 01 2012

O Apple dela

David Hettinger (EUA, 1946)

óleo sobre tela, 50 x 60 cm

www.dhettingerstudio.com

David Hettinger nasceu em Aurora, no estado de Illinois, em 1946.  Sua habilidade ao pintar e desenhar já se revelou desde que ele tinha  8 anos de idade.  Sua formação formal como pintor foi feita na American Academy of Art  em Chicago sob a direção de  Joseph vanden Brouck. Após a formatura, mudou-se para Nova York, onde por dois anos etrabalhou no ateliê de David Leffel.  Atrvés de sua carreira tem inúmeras exposições.  Ativo.





Quadrinha da natureza

11 01 2012

Não te enganes com carinhos,

que a natureza é ardilosa,

pois não foi dotar de espinhos

a frágil e meiga rosa?

(Hélio Nunes da Costa)





Imagem de leitura — Susan Dorothea White

10 01 2012

O professor inspirado, 1992

Susan Dorothea White  (Austrália, 1941)

acrílica sobre madeira, 120 x 120 cm

http://www.susandwhite.com.au/

Susan Dorothea White nasceu em Adelaide, Australia em 1941.  Cresceu como a menina entre dois irmãos, no seio de uma família dotada de habilidades artísticas, ainda que como hobbies: mãe pintava em aquarelas, pai era fotográfo de fim-de-semana, avô também era aquarelista.  Sua inclinação para as artes visuais foi bem vinda, em 1959, começou seus estudos na South Australian School of Art (SASA) em Adelaide.  Sua primeira exposição veio em 1962. Morou na Alemanha no final da década de 70 .





O veado na fonte, fábula de Loqman

10 01 2012

O veado na fonte

Loqman *

Um veado sedento veio a uma fonte para beber, mas quando percebeu sua imagem refletida na água, sentiu-se tomado de melancolia por causa da magreza de seus pés, mas, por outro lado, orgulhava-se da beleza e da grandeza de seus cornos.  Pouco depois, os caçadores puseram-se em sua perseguição.  Enquanto fugia pelas planícies não puderam nada contra ele, mas quando atingiu a floresta da montanha, sua corrida foi retardada por seus cornos que se embaraçavam entre as moitas e os galhos.  Os caçadores então se apoderaram dele sem dificuldade e mataram-no.  Mas antes de exalar o último suspiro o veado gritou:

— Coitado de mim que subestimei o que me salvou a vida e só tive elogios para o que me causou a morte.

Em: Contos Árabes, Jamil Almansur Haddad, Rio de Janeiro, Edições de Ouro: s/d

—-

* Loqman – [também conhecido como Loqman, o sábio] – foi um fabulista muitas vezes confundido com Esopo.  Muitas vezes suas fábulas também apareceram como sendo de Esopo.  A primeira tradução de suas fábulas para a Europa foi feita por Erpenius em 1615.





Imagem de leitura — Carlos Alvarez de las Heras

9 01 2012

Mulher lendo, s/d

Carlos Alvarez de las Heras (Espanha, 1982)

www.alvarezdelasheras.com

Carlos Alvarez las Heras nasceu em Léon, na Espanha, em 1982.  É um pintor autodidata, que começou a pintar sob a orientação de Benito Escarpizo.  Em 2001, fez sua primeira exposição.  Formado pela Universidade de Cunef – Complutense – vive e trabalha em Madri desde o ano 2000.  É pintor e escultor Em 2005 recebet a medalha de mérito artistic do College of Spain, em Paris.