Ângelo Rodrigues, arte brasileira, nossa homenagem à Copa do Mundo

18 06 2010

 

O prazer de jogar, Mané Garrincha

Ângelo Rodrigues

Xilogravura, 7,2 x 12 cm





Cenas e vistas de Goiás, por Henrique Silva, Revista KOSMOS, Outubro 1907

18 06 2010
Uma boiada vinda do norte.

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Cenas e vistas de Goiás

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                                                                  Henrique Silva

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Nota:

Transcrevo abaixo o artigo sobre Goiás, colocando a grafia como usamos hoje em dia.  As fotos são algumas das fotos que ilustram o artigo original.  No entanto, não consegui digitalizar todas elas sem que algumas perdessem a qualidade.  Assim mesmo, as que coloquei aqui ainda estão com um tom azulado que não existe na impressão preto e branca das fotos originais. Não há indicação do fotógrafo.  É possível que sejam do próprio autor do texto.  Artigo na íntegra.

Goiás é um estado singular, à parte , no convívio nacional.  Susulado [sic] na gema deserta do Brasil, sem alento e sem vigor, tão distante da orla marítima onde mais intensivamente a vida ativa do país vibra e se agita, tal como a seiva estuante que circula na periferia dessas grandes árvores da floresta — outra,  certo, não poderia ser a sua situação no concerto da nossa nacionalidade.

Boiada passando o Rio Vermelho, Goiás.

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Sem um palmo de via férrea, não possuindo ao menos uma lancha a vapor a sulcar sequer um só de seus grandes e muitos rios navegáveis — o futuroso estado apenas dispões, ainda em nossos dias, como meios de transporte, desses pesados e patriarcais carros de bois — sobrevivências da metrópole, e que uma das nossas gravuras reproduz no flagrante de seu rodar pela fita intermina das estradas salineiras em fora…

” Os carros puxados a bois, diz Bernardo Guimarães, com seu eixo móvel, pesados e vagarosos, são por certo grosseiros  veículos, que bem denunciam o atraso dos meios de condução no interior do nosso país.  Mas talvez por isso mesmo que revelam a infância da indústria da viação, têm um não sei que de primitivo e poético, que enleva a imaginação. 

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Eu  nunca pude ver sem um singular e indizível sentimento de melancolia, essas grandes e pesadas máquinas cobertas de couro, arrastadas por vinte ou mais bois, quebrando com seu chiar agudo e monótono como o canto da cigarra, o silêncio das solidões, atravessando os desertos em lentas e peníveis jornadas”.

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Rio do Peixe, Norte de Goiás.

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Outra fotogravura nossa representa uma boiada no momento mesmo em que a forçam a se precipitar a nado através de um desses largos rios que tanto dificultam a marcha do gado vacum procedente dos sertões interiores com destino aos centros consumidores de Minas, S. Paulo e Rio.

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Vem dos confins de Goiás e vai ainda fazer um penoso e fatigante percurso de mais de duzentas léguas, nossa boiada, composta, quase toda de Curraleiros — essa raça por excelência, de bovídeos genuinamente nacionais.

Já fora dos incomparáveis campos nativos de Goiás onde se criaram e viviam nativos de Goiás onde se criaram e viviam acarenciados — vêm todos nostálgicos dos barreiros que as virentes palmas dos coqueiros da mata encombram, (vide gravura)

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A Carioca — banho público em Goiás.
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Gustavo Rosa, arte brasileira, nossa homenagem à Copa do Mundo

17 06 2010

Pelé, 2006

Gustavo Rosa (Brasil, 1946 – 2013)

Gravura





O sol é para todos, romance de Harper Lee faz 50 anos de popularidade!

17 06 2010

O problema com que todos nós vivemos, 1964

Norman Rockwell ( EUA, 1894-1978)

óleo sobre tela

[Para a revista LOOK de 14-01- 1964]

Old Corner House Collection, Stockbird, Massachusetts

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Na Inglaterra o livro O sol é para todos, [To kill a mocking bird] da escritora  Harper Lee, é um dos livros mais populares ficando em quinto lugar na preferência do público, abaixo  de Orgulho e preconceito [ Pride and Prejudice] mas acima da Bíblia, um fato intrigante considerando-se que o romance foi publicado há exatamente 50 anos, que se passa no sul dos Estados Unidos na época da Depressão.  O enredo se desenrola na cidade fictícia de Maycomb  e um dos temas centrais trata da discriminação racial, discriminação de classe e a procura da justiça para um inocente.  Levando isso em consideração li o artigo que a BBC publicou ontem, justamente analisando essa popularidade, que não é justificada só por ser um livro adotado em muitas escolas.  Ao que tudo indica sua popularidade ultrapassa gerações.  Seus fãs tanto os jovens e quanto seus pais, o consideram uma leitura inigualável.  Além disso, as bibliotecárias entrevistadas nessa mesma enquete do World Book Day admitiram ser O sol é para todos o livro que mais indicavam. 

A narrativa é feita por uma adolescente.  Ou talvez, por uma pessoa idosa lembrando-se de sua adolescência.  O adolescente como narrador tem um longa e forte tradição na literatura americana, cujo principal propulsor dessa voz foi conquistado por  Huckleberry Finn, no livro As aventuras de Huckleberry Finn de Mark Twain.  Em O sol é para todos, Scout, é a filha de um advogado que defende um homem negro da acusação de estupro de uma menina branca, e é através de seus olhos que entendemos a sociedade que a cerca.    Este é de fato um livro sobre justiça, cheio de esperança, de valores morais universais, que não têm nem idade, nem país de origem.  E que todos nós, adultos, jovens ou crianças almejamos.  É um livro de alto astral.  E é, também,  onde aprendemos a tentar ver a realidade através dos olhos de outrem; de andar nos seus passos, de conhecer o seu caminho.  São experiências e atitudes universais que nos mostram a nossa própria humanidade. 

E você?  Já leu O sol é para todos?





São João, poesia de Paulo Setúbal

17 06 2010

 Festa na roça, s/d

Papas Stéfanos ( Rhodes, Grécia, 1948, radicado no Brasil)

Óleo sobre tela, 60 x 80 cm

São João

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                            Paulo Setúbal

                                                           A Luiz Piza Sobº

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É noite…  O santo famoso,

O doce, o meigo S. João,

Tivera um dia glorioso,

Dia de festa e de gozo,

Que encheu de estrondo o sertão.

Já cedo, em meio aos clamores,

Aos vivas do poviléu,

Lindo, enramado de flores,

Um mastro de quentes cores,

Subira em triunfo ao céu!

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E agora, enquanto, alva e lesta,

Palpita a lua hibernal,

Na fazenda, toda festa,

Referve a alegria honesta

Da noite tradicional.

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Dentro, com grande aparato,

Brilha enfeitado o salão:

Que há, nessa festa do mato,

Pessoas de fino trato,

Chegadas para o S. João…

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Destaca-se entre essa gente

A flor do mundo local:

O padre, o juiz, o intendente,

— O próprio doutor Vicente

Que é deputado estadual!

Ante o auditório pasmado,

Que, num enlevo, sorri,

A Isabelinha Machado

Batuca, sobre o teclado,

Uns trechos do Guarani…

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Tudo o que toca e assassina,

Recebe imensa ovação;

Todos, quando ela termina,

Põem-se a exclamar: ” Que menina!

Dá gosto!  Que vocação!”

 

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E ela, entre ingênua e brejeira,

Com ares de se vingar:

Agora, queira ou não queira,

Seu Saturnino Pereira

Há de também recitar.”

 

Surge, à força o Saturnino…

Rugem palmas ao redor!

É um tipo, esgalgado e fino,

Que sabe desdde menino,

Dizer Castro Alves de cor.

Na sala, muda e tranquila,

Tombam, com chama, os versos seus;

E ele, o letrado da vila,

Ao som da velha Dalila,

Lá vai: ” Foi desgraça, meu Deus...”

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Após ouvir a  estupenda

Flamância do seu falar,

No amplo salão da fazenda,

Os velhos jogos de prenda

Reclamam o seu lugar.

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Começa então a berlinda.

Risos. Cochichos. Zum-zum.

— De pé, donairosa e linda.

Pergunta a D. Florinda

Os dotes de cada um:

Por que razão, seu Martinho,

Foi à berlinda a Lelê?

— ” Porque olha muito ao vizinho”;

“Porque é má; porque é um anjinho”;

“Porque é vaidosa”; “porque…”

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E todo o mundo, a porfia,

Põe farpas na indiscreção…

E enquanto, ingênua e sadia,

Essa campônea alegria

Faz tumultuar o salão.

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Lá fora, alegre e gabola,

Nun terreiro de café,

Ao rude som da viola,

A caboclada rebola

Num tremendo bate-pé!

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A filha do Zé-Moreira

É o mimo deste São João;

À luz da rubra fogueira,

Requebra a guapa trigueira

Ao lado de Chico Peão.

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Candoca, a noiva do Jango,

Baila num passo taful;

É a flor que, nesse fandango,

Tem lábios cor de morango,

Vestido de chita azul.

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No sapateio se nota,

Aos risos dos que lá estão,

Nhô Lau, de esporas e bota.

Dançando junto à nhá Cota,

Viuva do Conceição….

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A voz do pinho que chora,

Por sob a paz do luar,

Fremindo vai, noite afora,

Essa alegria sonora

Da caboclada a bailar!

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E do salão, qua ainda brilha

Num faiscante esplendor,

Chegam os sons da quadrilha,

Que alguém ao piano dedilha

Com indomável furor.

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E no sarau campezino,

Nessa festa alegre e chã

Ruge a voz do Saturnino,

Que grita, esgalgado e fino:

Balancez!  Tour!  En avant...”

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Em: Alma cabocla, Paulo Setúbal, São Paulo, Ed. Carlos Pereira:s/d, 5ª edição [ Primeira edição foi em 1920]

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Paulo Setúbal

Paulo de Oliveira Leite Setúbal (São Paulo, 1893 — São Paulo, 1937), advogado, escritor brasileiro, trabalhou como colaborador do jornal O Estado de S. Paulo, deputado estadual de 1928 a 1930, renunciamdo ao mandato por ter agravada sua tuberculose.

Obras:

Alma cabocla, poesia, 1920

A marquesa de Santos, romance-histórico, 1925

O príncipe de Nassau, romance histórico, 1926

As maluquices do Imperador, contos-históricos, 1927

Nos bastidores da história, contos, 1928

O ouro de Cuiabá, história, 1933

Os irmãos Leme, romance, 1933

El-dourado, história, 1934

O romance da prata, história, 1935

O sonho das esmeraldas, 1935

Um sarau no Paço de São Cristóvão, 1936

A fé na formação da nacionalidade, ensaio, 1936

Confiteor, memórias, 1937





Criatividade e humor na Copa do Mundo — vídeo do jornal inglês The Guardian

16 06 2010




Inos Corradin, arte brasileira, nossa homenagem à Copa do Mundo

16 06 2010

Jogador de futebol

Inos Corradin ( Itália, 1929, radicado no Brasil)

gravura, 50 x 38 cm





Imagem de leitura — Yuri Bogatyrenko

16 06 2010

Estudo da esposa do artista lendo, 1959

Yuri Bogatyrenko ( Ucrânia, 1932)

Aquarela sobre papel, 21 x 29 cm

Yuri Kirilovich Bogatyrenko ( Ylovaisk, Ucrânia, 1932),  Acabou seus estudos em filme em 1957, formando-se pela Instituto de Cinema de Moscou onde foi aluno de F. Bogorodski e de Y. Pimenov.  Trabalhou como designer de produção em filmes no Studio de Cinema Odessa onde participou de muitos produções cinematográficas de sucesso na antiga União Soviética.





De onde vieram os vampiros que nos fascinam na literatura?

16 06 2010

O vampiro, 1897

Philip Burne-Jones ( Inglaterra, 1861-1926)

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Um artigo publicado na Chronicle of Higher Education, sob o título de All the Dead are Vampires [Todos os mortos são vampiros], aguçou a minha curiosidade, porque afinal não se consegue ir a uma livraria nos dias de hoje, sem encontramos dezenas de títulos com vampiros.  Eles estão na moda.  Convidado no ano passado para editar uma antologia de histórias de vampiros, Michael Sims,  um escritor americano e editor do livro Dracula´s Guest: A Connoisser’s Collection of Victiorian Vampire Stories, [ Convidado de Drácula: uma coleção dos que conhecem as histórias de vampiro da época vitoriana] desenvolveu uma interessante e pequena história do tema vampiros na literatura cujos pontos mais relevantes passo aqui para o blog.

Michael Sims voltou até o século XVIII para começar a entender como essa mitologia moderna floresceu durante o século romântico e na era vitoriana.  Mas chegou a conclusão de que as histórias de vampiros como as conhecemos hoje nasceu no início do século XIX. Descobriu que elas aparecem na confluência do contos rurais folclóricos sobrepostos à decadência urbana.  São histórias como as de Byron e Polidori que, dando uma nova cara, um novo lustre,  às superstições camponesas,  exploraram  as primeira versões do que conhecemos hoje como histórias macabras de vampiros.  No fundo, estava o medo da morte, dos enterros enganosos de pessoas ainda vivas e a memória coletiva de corpos em decomposição, uma memória horripilante, bem mais comum durante a idade média e a Renascença, quando epidemias devastavam populações inteiras nas cidades.  Outras visões de corpos desenterrados foram certamente auxiliadas por enchentes, terremotos e demais desastres naturais que traziam à tona corpos nos mais diferentes estados de decomposição, conseqüência de cemitérios superlotados e de enterros impróprios, túmulos sem grande profundidade ou até mesmo empilhamento de defuntos e locais mais remotos. 

Curiosamente, de acordo com Michael Sims, acreditava-se que as pessoas viravam vampiros quando morriam sem credo religioso, quando o morto levara, a vida desdenhando da Igreja e de seus rituais.  Pior ainda eram as pessoas que haviam sido excomungadas e que não puderam ser enterradas num cemitério que levasse a benção da Igreja.  Como descobriu lendo O mundo fantasma de Augustin Calmet, publicado em 1746, era praxe acreditar que o corpo de um herético não se decompunha, que, muito pelo contrário, um herético vagava  na Terra, profanando as leis de Deus.   Essa crença encontra reforço no estudo de Marie-Hélène Huet que resume assim a aparecimento dos vampiros:  “Todos os mortos são vampiros, envenenam o ar, o sangue, a vida dos vivos, contaminando  seu corpo e sua alma, roubando-lhes a sua sanidade mental.”   Mas os criminosos, especialmente os assassinos, também poderiam ser amaldiçoados desta forma, como eram aqueles que cometiam o suicídio.  Outros que se tornavam vampiros eram as vítimas de assassinos, os que morriam em campo de batalha, os   afogados;  a primeira pessoa a cair em uma epidemia, hereges, feiticeiros, alcoólicos, pessoas mal-humoradas, mulheres de reputação duvidosa, pessoas que falam para si mesmos e os ruivos. 

Agora esta última classificação me afeta.  Nasci ruiva, de cabelos bem vermelhos.  Eles caíram e me tornei loura-escura?  Será que conta?  Uhm,  estou sentindo os meus caninos crescerem…

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Começa hoje! Boa sorte aos nossos guerreiros!

15 06 2010