Ada Shirley Fox [née Holland] , Inglaterra
óleo sobre tela
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O zoológico de Nuremberg Tierpark, na Alemanha, exibiu um filhote recém-nascido de rinoceronte indiano. O animal, da espécie Rhinoceros unicornis, foi batizado de “Seto Paitala” – que em nepalês significa “Pata Branca”.
O Rhinoceros unicornis é o maior mamífero encontrado nas florestas do Nepal e da Índia. O rinoceronte indiano encontra-se em grave risco de extinção. A espécie pode pesar entre 1,6 mil e 3 mil kg, além de medir entre 1,45 e 3,80 m.
Fonte: Terra
A vida no campo, vaquejada, 1960
Ernest Zeuner ( Alemanha, 1898 — Brasil, 1967)
Têmpera sobre papel, 25,5 cm x 36,5 cm
Museu Ado Malagoli, Porto Alegre, RS
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Coelho Neto
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Sentados na soleira da palhoça, em face do verde campo, à hora vesperal em que os rebanhos recolhem, o velho Firmo e eu fumávamos, relembrando passagens alegres da vida de outrora.
Firmo era meu companheiro quando eu ia passar as férias na roça. O que ele sabia de histórias, e como as contava fazendo a voz enternecida e meiga para imitar as princesas que imploravam ou arremetendo com vozeirão terrível para que eu tivesse a impressão exata do bradar horrível dos gigantes antropófagos. E não só história dos livros, outras sabia que eu jamais em letras vira: a que descrevia a vara branca seduzindo o remador do Itapicuru e o conto do sucupira, com que no bom tempo faziam cessar a minha impertinência. Algumas eram inventadas por ele, diziam; outras o velho Firmo, vaqueano e andejo, aprendera por esses sertões de Deus por onde caminhara.
Andava pelos oitenta anos, mas quem o visse a cavalo, no campo, não lhe daria tanta idade. O diabo era o reumatismo que não lhe deixava as pernas. No seu tempo ninguém levava o melhor ao Firmo do Curral Novo. Raparigas, que uma vez o viam montado no garboso fábrica, o laço em volta da cinta, a aguilhada firme sobre a coxa coberta de couro cru, perdiam-se de amor por ele.
Era um caboclo atirado, musculoso e rijo: grandes olhos negros brilhavam no seu rosto queimado pelos verões e os cachos do seu cabelo rolavam-lhe pelos ombros largos.
Velho, embora, “ninguém lhe chegava ao pé sem muito jeito”, como ele próprio dizia sorrindo som os seus dentes limados, agudos como pontas de frechas. Apesar de alquebrado e enfermo andava com arrogância e notava-se-lhe na voz, áspera e forte, o hábito de comando.
Em tempos de festa, quando vinham para a mesma eira moças do lugar e moças de mais longe, Firmo saltava na roda, sapateando, rasgando na viola a tirana dos campeiros, e quem ousava pegar no verso do caboclo?! As tabaroas morenas sorriam com os olhos fascinados e unidas desfaziam-se das flores para que o cantador as fosse pisando no sapateado… por isso o Firmo andava sempre de ponta com os companheiros e, mais uma vez, o descante acabou varrido à faca; mas quem ficasse do lado do caboclo podia estar descansado – nunca fugiu de arreliam fosse com um, fosse com dez ou mais.
Mãezinha, a velha mucama de casa, quando o via passar no caminho, curvado pitando o seu cachimbo de taquara, dizia maliciosa:
— Isso, ahn! isso, foi o diabo!
Firmo “vivia encostado no tempo de dantes”, a saudade era o seu conforto. “Hoje em dia qu’é que a gente vê? má língua e moleza só”, dizia e citava os valentes de antanho e mostrava as velhas gabando-lhes a beleza que a idade fanara: “Serapião, homem que nem o diabo!… Ana Rosa, essa curumba… foi mulata de dengue, era um motim aqui em cima por causa dela. Filomena, com essa cara de peixe moqueado, teve o seu luxo e foi gente… Eu também pisei duro, ora!”
Firmo vivia das recordações. Passava os dias caminhando de um para o outro lado, visitando as palhoças, ou à beira do rio para ver e ouvir as lavadeiras, quando não se metia a fazer bodoques para as crianças.
À tarde sentava-se em um pilão quebrado, à porta da casa, e deixava-se estar inerte, os olhos ao longe: “Estava vivendo…” dizia quando eu lhe perguntava que fazia ali sozinho. Estávamos, às vezes, sentados juntos, ele a contar-me histórias, quando nos chegava, nítido e agudo, o grito do campeiro. Firmo calava-se, um estremecimento agitava-o, os olhos dilatados recobravam o brilho antigo e punha-se de pé, devassando a paisagem triste, à luz crepuscular.
De repente aprecia a nuvem de poeira anunciando o gado que chegava… uma mancha vermelha, uma mancha negra, outra e logo o magote, os bois juntos, emaranhando os chifres: um mugia, outros imitavam-no levantando os focinhos ou ferravam-se às marradas, sendo, às vezes, necessária a intervenção do vaqueiro que apartava os dois à ponta de vara. E a marcha aproximava-se morosa.
Firmo ficava enlevado acompanhando os movimentos da manada, inclinando-se para um lado, para o outro, aspirando sôfrego. De repente batia as palmas e juntava, logo em seguida, as mãos na boca à guisa de porta-voz, bradando:
— Eh! eh! eh! cou! ruma! ruma! Eh! cou…
E ficava longo tempo excitado, a olhar. Não perdia uma só das peripécias e, se um touro espirrava, correndo aos galões pela campina, o velho entrava a bramar do outeiro, tão alto, tão alto, que as raparigas, que andavam na eira recolhendo a roupa ou socando o arroz, paravam assustadas erguendo os olhos para o lado da palhoça do vaqueiro velho. Mas ninguém o acomodava antes de ser laçado o boi fujão e quando o vaqueiro aparecia, arrastando o animal laçado, Firmo suspirava baixinho:
— Ah! Nossa Senhora! meu tempo!
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Camponês com cavalo, 1948
José Marques Campão (Brasil, 1892-1949)
óleo sobre tela, 54 x 65 cm
Coleção Particular
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Foi pelo Natal que o vi pela última vez. Começavam os preparativos da festa, quando cheguei ao sitio. Nas casas dos escravos, às vezes, à noite, ensaiavam as crianças. Na eira os rapazolas preparavam jiraus; colhia-se o arroz novo para os presepes e de todos os lados, mal o sol fugia, começavam as toadas das cantigas ao Deus Menino e as falas dos infantes que figuravam no Mistério.
Firmo estava doente, mal podia mover-se: passava os dias na rede. Subi a vê-lo, uma noite justamente na véspera do grande dia. Encontrei-o deitado, fumando, os olhos semi-cerrados.
— Eh! vaqueiro velho… Então que é isso?!
— Estou derrubado, patrãozinho.
— Mas que diabo tem você?
— Moléstia má, patrãozinho; parece que desta feita vou mesmo.
— Ora qual…
— Eu é que sei como me sinto, patrãozinho. Se até o pito me faz nojo…
— Pois eu preparei uma surpresa que te vai fazer mais bem do que todas as mezinhas de mãe Tude. Quem está aí fora? adivinha…
— Ah! Patrãozinho, alguma alma boa… Quem há-de ser?!
— Raimundinho.
O velho sacudiu-se novamente na rede e, voltando-se para a porta com um sorriso, perguntou:
— E onde está esse negro que não entra?
— Boa noite à gente da casa! Disse da porta o cafuzo.
— Entra, negro!
O cafuzo, um codoense da fama, atravessou o limiar da porta:
— Então, tio Firmo, a febre pode mais, hein?!
— Sim porque eu não vi quando ela entrou… quando não! Então, negro, que é que vamos fazendo?…
— Vim fazer minha festa. Dizem que vão queimar fogaréus em Curral Novo…
— Como vai Noca?
— Boa.
— E Ana? está na cidade, mais o pai?
— Hen, hen, afirmou o cafuzo.
— Negro, você não vai daqui hoje. Ah! Patrãozinho, vosmecê vai ver o que é um diabo. Negro, ajunta a madeira ali atrás da arca…
— Está encordoada?
— O danado! Onde você viu viola sem corda? e afinada, ajunta.
— O codoense agachou-se, apanhou a viola do vaqueiro e logo correu os dedos ágeis pelas cordas.
— Passa p’ra luz, cafuzo.
— Lá vou…
Sentou-se no centro da mesa, cruzou as pernas e, tombando a cabeça, gemeu a toada sertaneja.
— Anda com Deus.
— Lá vai; pigarreou e desferiu:
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“ No coração de quem ama
Nasce uma flor que envenena”
— Eh! gritou o Firmo entusiasmado, concluindo a quadra:
“Morena, essa flor que mata
Chama-se paixão, morena…”
— Pega, negro… não deixa o verso no chão!
De fora, contínuo e doce, vinha o coro longínquo das crianças em louvor de Jesus e, de vez em vez, reboava o mugido de um touro.
Quando o cafuzo descansou a viola, Firmo disse da rede com esforço, arrastando a voz fraca:
— Canta, canta mais, cafuzo… Quem não tem Nosso Pai ouve a cantiga. Canta.
Era tarde quando desci o outeiro. Raimundinho lá ficou cantando.
No dia seguinte, à hora em que saía o gado, estava eu debruçado à varanda quando vi o cafuzo que preparava o animal viageiro:
— Raimundinho, como vai ele?…
De longe apontou a palhoça:
— Sim.
O braço caiu-lhe, olhou-me algum tempo comovido; depois saltando para o animal, levou o polegar à boca fazendo estalar a unha nos dentes: “ Às quatro da manhã… Atirei um verso e disse, para bulir com ele: Pega, velho! Não respondeu. Tio Firmo, mesmo velho e doente, não era homem para deixar um verso no chão… Fui ver, coitado! Estava morto”. E deu esporas para que não lhe visse as lágrimas.
Subi ao outeiro… Pobre Firmo! Lá estava no fundo da rede, cercado de gente. Guardara o sorriso, morrera feliz, ouvindo os cantos do seu tempo e bem perto de casa o mugido dos rebanhos. E bem que o choraram nessa noite os grandes bois, e diziam, entretanto, que eles estavam louvando o Senhor Menino; chorando o companheiro é que eles estavam, os grandes bois que pressentem todas as desgraças e que vêem a Morte passar, à noite, com a foice de rastro, através das campinas! Bem que choraram nessa noite os bois: decerto viram a morte entrar na cabana de Firmo.
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Henrique Maximiano Coelho Neto (Caxias, 21 de fevereiro de 1864 — Rio de Janeiro, 28 de novembro de 1934) escritor, político, professor, romancista, contista, crítico, teatrólogo, memorialista e poeta. Usou entre outros os seguintes pseudônimos: Anselmo Ribas, Caliban, Ariel, Amador Santelmo, Blanco Canabarro, Charles Rouget, Democ, N. Puck, Tartarin, Fur-Fur, Manés. Foi provavelmente o prosador brasileiro mais lido nas primeiras décadas do século XX, tendo sofrido furiosos ataques do Modernismo posterior à Semana de Arte Moderna de 1922, o que provavelmente colaborou no injusto esquecimento que o mercado editorial e os leitores brasileiros tem-lhe reservado. Para o cinema, escreveu o que seria o primeiro filme brasileiro em série, Os mistérios do Rio de Janeiro, do qual só foi terminado e lançado o primeiro episódio.
Obras:
Romance Bárbaro (1914)
O Mistério (1920)
Fogo fátuo, romance, (1929)
Álbum de Caliban, contos, (1897)
Contos da vida e da morte, contos, (1927)
Mano, Livro da Saudade, romance, (1924)
A cidade maravilhosa, contos, (1928)
O polvo, romance (1924)
A descoberta da Índia, narrativa histórica, (1898)
O Fruto, contos, (1895)
O rei fantasma, romance, (1895)
O Rajá de Pendjab (1898)
Rapsódias, contos, (1891)
Sertão (1897)
A Bico de Penna
Água de Juventa, contos,
Romanceiro (1898)
Theatro, vol. I – Os Raios X (1897), O Relicário (1899), O Diabo no corpo(1899)
Theatro, vol. II – As Estações, Ao Luar, Ironia, A Mulher, Fim de Raça (1900)
Theatro, vol. IV – Quebranto (1908), comédia em 3 actos, e o sainete Nuvem
Theatro, vol. V – O dinheiro, Bonança (1909), e o Intruso
Fabulário
O Arara, (1905)
Jardim das Oliveiras, (1908)
Esfinge, romance, 1908
Inverno em Flor, romance, (1897)
Apólogos, contos para crianças
Miragem, romance, (1895)
Mysterios do Natal, contos para crianças
O Morto, Memórias de um Fuzilado, romance, (1898)
Rei Negro (1914)
Capital Federal, Impressões de um Sertanejo, romance, (1893)
A Conquista, romance, (1899)
Tormenta, romance, (1901)
Tréva
Banzo, contos, (1913)
Turbilhão (1904)
O meu dia
As Sete Dores de Nossa Senhora
Balladilhas, contos, (1894)
Pastoral
Vida Mundana, contos, (1919)
Patinho torto (1917)
Às quintas
Scenas e perfis
Feira livre
Immortalidade, lenda, romance, (1926)
O Paraíso (1898)
Bazar
Fogo Fátuo (1930)
fogo de vista (1923)
Theatro lyrico
os pombos
Teatrinho (1905), coletânea de textos dramáticos para crianças, parceria com Olavo Bilac
Teatro infantil, data ignorada, nova coletânea com o mesmo tema
Adoração dos Reis Magos.
Cartão Postal da Polônia, sem data.
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(Antônio Vogel Spanemberg)
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Um grupo de astrônomos descobriu um novo planeta muito parecido com a Terra, maior do que ela, e que poderia ter mais da metade de sua superfície coberta por água, mostra um estudo publicado na revista especializada Nature. A “Super-Terra”, como está sendo chamado o planeta (cujo nome oficial é GJ 1214b), está a 42 anos-luz de distância em outro sistema solar, e seu raio é 2,7 vezes maior que o da Terra.
Sua descoberta, relatada no estudo do Centro Harvard-Smithsonian de Astrofísica, representa “um grande passo à frente” na busca por mundos semelhantes à Terra, estimou Geoffrey Marcy, da Universidade da Califórnia, que escreveu um comentário sobre a “Super-Terra” na revista Nature. O que ainda falta descobrir é a composição gasosa de seu entorno, destacou.
O GJ 1214b tem uma órbita de 38 horas em torno de uma estrela pequena e fraca, que foi vista pela primeira vez por oito telescópios terrestres comuns – não muito maiores daqueles usados por observadores amadores, de acordo com o Centro Harvard-Smithsonian.
Sua relativa proximidade torna possível estudá-lo a ponto de determinar sua atmosfera. “Isso faria dele a primeira ‘Super-Terra’ com atmosfera confirmada – mesmo que esta atmosfera provavelmente não seja boa para a vida como a conhecemos“, explicou David Charbonneau, que coordenou a equipe de pesquisa.
A temperatura do novo planeta, no entanto, é muito alta para abrigar formas de vida como as terrestres, explicaram os cientistas do Centro Harvard-Smithsonian em uma nota. Sua densidade sugere que o planeta “é composto por cerca de três quartos de água e gelo, e um quarto é rocha. Há também fortes indícios de que o planeta possua uma atmosfera gasosa“.
Os cientistas calcularam a temperatura do GJ 1214b entre 120 e 280 graus Celsius – apesar da estrela central de seu sistema solar ter cerca de um quinto do tamanho do Sol. “Apesar de sua temperatura alta, este parece ser um mundo de água“, disse Zachory Berta, estudante que primeiro identificou indicações da presença do planeta.
“É muito menor, mais frio e mais parecido com a Terra do que qualquer outro exoplaneta“, indicou Berta em uma nota. Exoplaneta ou planeta extra-solar é qualquer um localizado fora do nosso Sistema Solar. Berta explicou que parte da água da “Super-Terra” provavelmente está em estado cristalino, que existe em ambientes com pressão atmosférica pelo menos 20 mil vezes superior à encontrada ao nível do mar em nosso planeta.
Entretanto, numa comparação com o CoRoT-7b – outro planeta descoberto pelos cientistas que apresenta semelhanças com a Terra -, o GJ 1214b é bem mais fresco, segundo os astrônomos. O CoRoT-7b, por outro lado, tem densidade próxima à da Terra (5,5 gramas por centímetro cúbico) e parece ser rochoso, enquanto o novo planeta aparenta ser bem menos denso, com 1,9 grama por centímetro cúbico.
“Para manter a densidade do planeta tão baixa assim é preciso que contenha grandes quantidades de água“, afirmou Marcy. “Deve haver uma enorme quantidade de água, pelo menos 50% de sua massa“.
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Fonte: Portal Terra
Anjinhos semeam estrelas, cartão de Natal, Inglaterra, sem data.Natal… e a gente acredita
num mundo menos atroz
porque a esperança bendita
renasce dentro de nós.
(Newton Vieira)
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Garcia Redondo
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Nessa manhã de Natal, luminosa e fresca, Mma. Lenoir, ainda em penteador, alegre e gárrula, enfeitava, na sala da biblioteca da sua habitação garrida, a virente araucária minúscula que devia encher de gáudio o pequeno Alberto, cobrindo-a de bibelots policromos e de doçuras apetitosas – quando uma criada entrou no aposento e lhe entregou uma carta.
Mma. Lenoir olhou o sobrescrito e, estranhando a letra, indagou:
— De onde vem isto?
— De casa do pai de V. Exª .
— De casa de meu pai!…
Muito admirada, rasgou o envelope, e passou os olhos pela carta.
Uma palidez súbita substituiu as róseas cores do rosto de Mma. Lenoir, as suas lindas mãos patrícias tremeram e um suspiro abafado escapou-lhe do peito. Depois, atirando a carta sobre a mesa onde se erguia a araucária, levou as mãos ao rosto e começou a soluçar.
A criada, pasmada e solícita, correra para a ama, e carinhosa, sem conhecer ainda a causa desse pesar imprevisto, conduziu-a docemente para junto de uma poltrona, onde a fez sentar.
E timidamente, respeitosamente, inquiriu:
— Que foi, minha senhora? Aconteceu alguma coisa ao Sr. Afonso?
Mma. Lenoir não respondeu; soluçando sempre, sempre com suas mãos no rosto, ensopando em lágrimas o seu fino lenço de batiste dava silenciosamente expansão à sua dor.
A criada, perplexa, desejosa de ser-lhe útil nesse transe doloroso, perguntou ainda:
— Quer que vá buscar o menino Alberto?… ele já deve estar acordado.
A cabeça de Mma. Lenoir agitou-se nervosamente e da sua garganta patiu, depois de um grande esforço, esta frase rouca:
— Não, não, traze-me água para beber.
A criada saiu, cerrando discretamente a porta da biblioteca.
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Mma. Lenoir só tinha duas afeições no mundo: seu filho Alberto e seu pai. Filha única de um velho rico e libertino, cedo perdera a mãe e cedo vira-se entregue aos cuidados de estranhos.
Para ver-se livre de uma criança, cuja presença o constrangia, impedindo-o de dar largas ao seu temperamento fescenino, o velho Afonso Marquet começara pondo a filha em casa de uma instrutora que lhe servia de mãe e de mestra, e acabara encerrando-a em um colégio, onde ia vê-la raramente, compensando as largas ausências com amiudados presentes fascinadores.
A respeito deste regime pouco afável, a criança, que herdara o belo coração materno, tinha uma grande afeição ao pai e amava-o sinceramente.
Assim cresceu, assim se desenvolveu, esquecida e triste, sempre encerrada entre as quatro paredes do mesmo colégio, vendo o pai poucas vezes, sem conhecer as alegrias do lar e os carinhos dos amigos. Para encher o vácuo de sua alma sentimental e meiga, ilustrava-se, lendo muito, estudando com o prazer e a ânsia de quem procura derivativos para o tédio e distrações aos pesares do isolamento e da reclusão.
Mas, um dia, amanheceu mulher feita e não era mais possível continuar no colégio. O velho Afonso, bem a contragosto, viu-se forçado a conduzi-la ao seu lar de libertino, onde tanta vez espumara a champanha da orgia e estalara o beijo do amor livre. Todavia, a presença em sua casa, dessa mulher, dessa linda mulher que não era como as outras, constrangia-o, obrigando-o a mudar de hábitos arraigados, cuja continuação a sua velhice cupidiana e ardente imperiosamente solicitava.
Atormentado pela forçada abstenção dos seus prazeres cômodos, o velho Afonso cogitou em casar a filha.
Era um meio fácil de ver-se livre dela, recuperando a sua ampla liberdade perdida. E, uma noite, esse pai egoísta e frívolo notou, entre os seus parceiros de baccarat no Clube, um rapaz viveur e esperto, bem galante, bem distinto, razoavelmente educado e como ele de origem francesa, que, a seu ver, era muito capaz de fazer a felicidade da filha, se ela quisesse ter a complacência de amá-lo um poucochinho.
E com essa idéia fixa, começou a levar o rapaz a casa, a dar-lhe jantares, a pô-lo em contato com a filha. Sagaz e ambicioso, o galante Lenoir percebeu os intuitos do velho e, como o negócio convinha-lhe em todos os sentidos, fez-se a desejada corte e conseguiu fazer-se amar.
Poucos meses após, o casamento fazia-se, e o casal ia habitar uma linda chácara com que o velho Afonso presenteara a filha.
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A vida conjugal de Mma. Lenoir foi de duração curta e de ventura escassa. Passada a lua de mel, durante a qual ela apenas entreviu uma nesga do céu da felicidade sonhada, o marido voltava à vida enervante e dissipadora dos clubes, abandonando-a noites inteiras, isolada e desiludida, entregue à insônia e aos sustos.
Felizmente o acaso, esse bom amigo incógnito, que às vezes surge providencialmente para dar lenitivo aos que sofrem, veio libertá-la desse companheiro instável, arrebatando-o à vida, que para ele resumia-se nas emoções que produzem os prazeres frívolos e o retângulo verde da mesa do jogo. E assim foi, dois anos após de casada, Mma. Lenoir, com apenas dezenove anos, achou-se viúva e em vésperas de ser mãe.
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A Carta, 1925
Eliseu Visconti ( Brasil, 1866-1944)
Óleo sobre tela, 51 x 69 cm
Coleção Particular
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Quando nasceu o pequeno Alberto, havia três meses que o Sr. Lenoir repousava no Caju, em baixo de uma grande pedra tumular. Essa criança, que não conhecera o pai e que estava destinada a ser o consolo único da mãe, despertou uma grande comoção piedosa no avô. Talvez o remorso de não ter consagrado uma afeição mais intensa à filha, talvez a fadiga produzida pela vida dissoluta que passara, impelisse o velho contrito a dedicar-se com exagero apego ao neto. Nesse rebento louro concentrava todos os seus afetos; e ele que tanto afastara de si a filha, acabou por não poder passar um dia sem ver o neto, sentando-o nos joelhos acalentando-o com excessos de ternura. Entre os braços da mãe carinhosa e os joelhos já trêmulos do avô, essa criança avançou pela vida e atingiu os nove anos.
Mma. Lenoir, embora moça, formosa, rica e requestada, achou-se bem na sua viuvez, e preferiu conservar a independência, que ela lhe trouxera, a correr o risco de var para o seu lar tranqüilo um segundo marido igual ao que tivera. Demais, a sua existência, toda ocupada com o filho, era-lhe agora menos insípida, agradável mesmo.
Via diariamente o pai, que, embora morasse em casa própria, tinha um talher constante à sua mesa e raro deixava de sentar-se entre a filha e o neto, para encher o pequeno de gulodices e fazer-lhe todas as vontades.
Para ter essa criança constantemente feliz e satisfeita, o velho despovoava as prateleiras das lojas de brinquedos e inventava toda sorte de loucuras. Um pedido de Alberto era uma ordem para o avô, que, na sua indulgência senil, chegava muitas vezes a contrariar a filha para não ver murchar o sorriso vermelho nos lábios do neto.
Tal era a situação de Mma. Lenoir, quando na manhã de 25 de dezembro de 1886, na ocasião em que na sala da sua biblioteca preparava a árvore de Natal, que o velho Afonso ocultamente lhe levara na véspera para surpreender o neto no dia seguinte, recebeu inesperada e brutalmente a notícia, comunicada laconicamente por um criado, do falecimento repentino de seu pai.
E fora essa nova que a pusera em lágrimas, numa aflição angustiada e acabrunhadora.
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Cerca de uma hora ficou Mma. Lenoir no fundo do seu jardim, no interior de um belvedere rústico, a esmagar a sua dor, a conformar-se com a sua triste sorte, ocultando lágrimas e fazendo desaparecer do seu rosto todos os vestígios da tristeza. Fora aí, entre rosas e madressilvas, que a criada lhe viera explicar como falecera o pai, fulminado por uma congestão cerebral, no momento em que se levantara do leito para ir tomar banho; e fora aí também que a mesma criada, ofegante e aflita, lhe veio comunicar, pouco depois, que o filho, impaciente, fugira do quarto e já estava na biblioteca, encantado e surpreso, a olhar a linda árvore de Natal, que o bom São Nicolau lhe trouxera, esquecendo-se, na precipitação da dádiva de pendurar pelos galhos todos os brinquedos que deixara sobre a mesa.
Dando à fisionomia um ar risonho, Mma. Lenoir atravessou o jardim, reentrou em casa e seguiu para a biblioteca. E já próxima, abafando os passos, viu, através do vão da porta, o filho, de olhos fixos na carta que ela recebera e onde a triste nova lhe tinha sido comunicada de um modo banal, com a fórmula arcaica, lançada por um criado, dedicado mas pretensioso, sobre uma larga folha de papel comum: “Saiba V. Ex.ª que o Sr. Afonso acaba de partir deste para melhor mundo”.
Sem pensar no que fazia, instintivamente, a pobre mãe precipitou-se para a criança e antes de a abraçar, antes de a beijar, arrancou-lhe a carta das mãos, dizendo-lhe com um grande esforço, a sorrir contrafeita, para disfarçar a emoção:
— Ah! Seu curioso, então estava lendo a carta que o São Nicolau me escreveu?
E o pequeno, piscando os olhos, num gesto brejeiro:
— Não é a do São Nicolau, não, mamãe! É a do Antônio, avisando que o vovô fez viagem.
E alegremente, mexendo nas tetéias espalhadas sobre a mesa, acrescentou:
— Estou zangado com o vovô, porque não quis levar-nos com ele para o “mundo melhor”.
Um suspiro de alívio e ao mesmo tempo de dor recalcada escapou dos lábios da infeliz mãe; depois, passeando os seus olhos negros, de novo marejados de lágrimas quentes, pelos livros da biblioteca, disse vagamente, respondendo à observação da criança:
— Sim, não nos levou com ele, mas mandou-nos todas essas lindas tetéias e jóias que estás vendo.
O pequeno, muito intrigado, como quem se sentia na pista de um segredo, indagou:
— Então, o São Nicolau é vovô?
Mma. Lenoir atrapalhada, presa aos sentimentos mais opostos, enxugou de novo os olhos e, para não dar a perceber o seu enleio, foi então beijar o filho numa explosão de ternura.
E, quando o osculava, atraía-lhe a atenção para os brinquedos, distraindo-o do assunto, que tanto a atormentava.
Mas, ele obstinado e curioso, inquiriu ainda:
— E onde fica, mamãe, esse “mundo melhor” para onde o vovô seguiu hoje? Nunca ouvi falar dessa terra!…
Então, a desgraçada mulher, erguendo o braço para o ar, e apontando para a nesga do céu, que se avistava da janela, deixou escapar dos lábios lívidos estas palavras confusas:
— É lá, meu filho,lá, além, bem além daquelas nuvens brancas…
— Então, já sei; é no céu, onde estão Nosso Senhor e … papai — disse o pequeno, batendo as mãos de contente.
E fixou demoradamente os olhos no azul, a ver se divisava por lá a vitória a rodar por entre as nuvens.
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Em: Noite de Natal: coletânea de histórias de Natal, ed. Cassiano Nunes e Mário da Silva Briito, São Paulo, Editora Saraiva: 1950
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Manuel Ferreira Garcia Redondo (RJ, RJ 1854 – SP, SP 1916) engenheiro, jornalista, professor, contista e teatrólogo. Usou os seguintes pseudônimos: Um contemporâneo; Um plebeu, Cabrion, Pepelet, Gavarni, Nemo, Childe Harold.
Obras:
Arminhos, contos, 1882
Mário, teatro, 1882
O dedo de Deus, comédia, 1883
O urso branco, comédia, 1884
Carícia, 1895
A choupana das rosas, contos, 1897
Moléstias e bichos, comédia, 1899
Salada de frutas, 1907
Viagens pelo país da ternura, 1907
Através da Europa, viagem, 1908
Novos contos, 1910
O descobrimento do Brasil, conferência 1911
Cara alegre, humor, 1912
Na pele do outro, comédia, s.d.
Bom-humor e vida airada, s.d.
Presépio, autor desconhecido.
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Vinicius de Moraes
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De repente o sol raiou
E o galo cocoricou:
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— Cristo nasceu!
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O boi, no campo perdido
Soltou um longo mugido:
— Aonde? Aonde?
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Com seu balido tremido
Ligeiro diz o cordeiro:
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— Em Belém! Em Belém!
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Eis senão quando, num zurro
Se ouve a risada do burro:
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— Foi sim que eu estava lá!
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E o papagaio que é gira
Pôs-se a falar: — É mentira!
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Os bichos de pena, em bando
Reclamaram protestando.
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O pombal todo arrulhava:
— Cruz credo! Cruz credo!
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Brava
A arara a gritar começa:
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— Mentira! Arara. Ora essa!
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— Cristo nasceu! canta o galo.
— Aonde? pergunta o boi.
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— Num estábulo! — o cavalo
Contente rincha onde foi.
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Bale o cordeiro também:
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— Em Belém! Mé! Em Belém!
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E os bichos todos pegaram
O papagaio caturra
E de raiva lhe aplicaram
Uma grandíssima surra.
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Marcus VINÍCIUS da Cruz DE Melo e MORAES (RJ 1913-RJ 1980), diplomata, jornalista, poeta e compositor brasileiro.
Livros:
O caminho para a distância (1933)
Forma e exegese (1935)
Ariana, a mulher (1936)
Novos Poemas (1938 )
Cinco elegias (1943)
Poemas, sonetos e baladas (1946)
Pátria minha (1949)
Antologia Poética (1954)
Livro de Sonetos (1957)
Novos Poemas (II) (1959)
Para viver um grande amor (crônicas e poemas) (1962)
A arca de Noé; poemas infantis (1970)
Poesia Completa e Prosa (1998 )
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Foto: AP—-
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Há dois meses nos Estados |Unidos, o Instituto Dinossauro do Museu de História Natural de Los Angeles, colocou em exposição uma réplica de um dos menores dinossauros que se conhece no mundo. Chamado de haagarorum Fruitadens, este dinossauro apesar de pequenino, não parece ser muito simpático. Ele foi descoberto na América do Norte, há aproximadamnete trinta anos atrás, mas só foi identificado recentemente. Agora uma réplica de seu corpo foi feita e exposta ao público no museu.
Tudo indica que ele pesava menos de 900 gramas e tinha mais ou menos uns 10 centímetros de altura. Da cabeça à pontinha da cauda, o haagarorum Fruitadens deveria medir um pouco mais que 60 centímetros.
O diretor do Instituto Dinossauro, Luis Chiappe, apresenta o pequeno animal.
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FONTE: Portal Terra
Papai Noel com brinquedos e árvore.
Cartão Postal Alemão, década de 1890.
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(Delcy Rodrigues Canales)