“Muito riso, pouco sizo”,
diz-nos o velho ditado.
Mas eu digo que um sorriso
sempre dá bom resultado…
(Luciana Long)
“Muito riso, pouco sizo”,
diz-nos o velho ditado.
Mas eu digo que um sorriso
sempre dá bom resultado…
(Luciana Long)
Um par de filhotes gêmeos de tigre são atendidos no Parque Tropical da Vida Selvagem Hainan, na cidade de Haiko, China.
Estudando no cavalete de leitura, 1877
Lord Frederick Leighton (Inglaterra, 1830-1896)
Óleo sobre tela
Sudley House, Liverpool
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Lord Frederick Leighton — (Inglaterra, 1830-1896) — 1º Barão de Leighton, foi um pintor e escultor inglês de renome. Não foi nobre de nascimento, tendo nascido de uma família de comerciantes importadores/exportadores. Depois de se formar na Inglaterra pela University College School em Londres, Frederick Leighton foi para a Europa continental aprimorar seus estudos. Lá depois de algumas aulas com Eduard von Steinle, embarcou aos 24 anos para a Itália, onde estudou com Giovanni Costa. Radicou-se em Paris, onde viveu por cinco anos a partir de 1855. Em 1860 retorna à Inglaterra e faz parte do movimento pré-rafaelita. Um excelente pintor, Frederick Leighton deixou uma vasta obra onde se incluem, entre outros, quadros com temas históricos, bíblicos e clássicos.
Há livros dos quais não consigo fazer uma resenha logo após sua leitura porque seu impacto é tão grande que não me sinto com a distância necessária para escrever de maneira mais ou menos lúcida, sem muita rapsódia, sobre o texto em questão. Esta foi a minha experiência com o livro Infiel: a história de uma mulher que desafiou o Islã, de Ayaan Hirsi Ali [São Paulo, Cia das Letras: 2007, 496 páginas]. Há seis meses li esta biografia. Fiquei muitíssimo impressionada e emocionada com sua leitura. Passei o livro adiante para algumas amigas, cujas reações apesar de positivas não se igualaram às minhas. O volume retornou à minha casa na semana passada e agora, neste fim de semana prolongado, tive a oportunidade de reler dezenas de passagens destas quase 500 páginas só para voltar a considerá-lo uma das grandes leituras que fiz nos últimos cinco anos.
Talvez seu impacto venha também influenciado por 3 fatores de grande importância: 1) Não é ficção. É uma auto-biografia. Memórias autobiográficas. 2) Morei num país islâmico e reconheço neste livro muitos dos atos bárbaros contra mulheres que presenciei por lá. 3) Este livro, como outros que surgiram nas últimas décadas, mostra uma mulher corajosa, que tomou as rédeas de sua própria vida e liderou um movimento, uma revolta. Faltaram tais exemplos nos meus anos formativos.
Ayaan Hirsi Ali nasceu numa família islâmica, na Somália, em 1969. Teria sido simplesmente mais uma mulher a sofrer a exclusão, a violência com que mulheres são tratadas pelos rituais islâmicos e tribais, incluindo a raspagem de seu clitóris, mais comumente conhecido como circuncisão feminina, não fosse também filha de um opositor da ditadura de Siad Barré, na Somália. Seu pai, um antropólogo que havia estudado na Universidade de Columbia, nos EUA, foi preso em 1972. Por causa disso, Ayaan tem uma vida de exilada e nômade mesmo dentro de seu próprio país. Apesar de abastada, a família, por causa das atividades políticas, estava em perpétua fuga e permanecia, portanto, excluída da norma nacional, vivendo sempre amedrontada por possíveis denúncias ou perseguições. Aqui está um exemplo das preocupações familiares assim que a família deixa Mogadíscio para Matabaan. Mahad é um ano mais velho que Ayaan nascido em 1968 e Haweya é dois anos mais nova, nascida em 1971. Estes eventos acontecem antes de Mahad entrar para a escola primária.
As mulheres lavavam roupa no lago, e os meninos nadavam lá. Mamãe tinha muito medo de que os garotos hawiye afogassem Mahad, que não sabia nadar. Livre para ir aonde quisesse por ser menino, o nosso irmão não parava em casa. Haweya e eu éramos proibidas de andar à solta. Além do mais Mahad não nos levaria com ele; não queria que os amigos soubessem que ele brincava com as irmãs.
Mahad estava cada vez mais consciente de sua honra de macho. Vovó o estimulava: tinha o hábito de dizer que ele era o homem da casa. Mahad nunca pedia autorização para sair; às vezes voltava muito depois do anoitecer e mamãe se zangava tanto que fechava a cerca. Ele se sentava lá perto, chorando, e ela gritava com frieza: “Pense na sua honra. Homem não chora.” [p.50]
Mais tarde, aos dez anos de idade, Ayaan acompanha a família no exílio. A Arábia Saudita foi o primeiro pouso. Lá ela descobre um mundo ainda mais rígido contra as mulheres. E mesmo em Meca a vida muda bastante, entre outras mudanças estava a de mulheres não poderem sair às ruas sem a companhia de um homem…
As coisas não iam bem em casa. O vínculo outrora forte entre meus pais estava se rompendo. Cada qual tinha expectativas diferentes na vida. Mamãe sentia que papai não dava atenção à família. Geralmente cabia a ela nos levar `a escola e buscar – escolas diferentes porque Mahad era menino – e voltar sozinha. Minha mãe detestava sair sem homem, detestava ser insultada na rua, encarada com insolência. Todas as somalis contavam casos de mulheres que haviam sido agredidas na rua, levadas sabe-se lá para onde, e então, horas depois, apareciam jogadas no acostamento de uma estrada, ou simplesmente nunca mais voltavam. Ser uma mulher sozinha já era horrível. Ser estrangeira, e além disso, negra, significava quase não ser humana, estar totalmente desamparada: um bode expiatório.
Quando mamãe ia fazer compras sem motorista ou marido que bancasse o guarda-costas, os comerciantes se recusavam a atendê-la. Mesmo na companhia de Mahad, alguns balconistas não lhe dirigiam a palavra. Restava-lhe pegar os tomates, as frutas e os temperos e perguntar em voz alta: “Quanto é?” Quando recebia resposta , jogava o dinheiro no balcão e dizia: “ É pegar ou largar”, e ia embora. No dia seguinte era obrigada a voltar à mesma mercearia . Mahad assistia a tudo sem poder auxiliá-la, tinha apenas dez anos [pp. 80-81].
Crianças na Arábia Saudita, foto: Bob Riley.
A Etiópia, o país seguinte de refúgio da família, mostra à Ayaan, pela primeira vez, o cristianismo. Um cristianismo monofisista, diferente do que conhecemos que foi considerada também uma heresia para os segmentos majoritários do cristianismo. Conhecido no ocidente como a Igreja copta, esse ramo do cristianismo, formulado no século V, se ancorou principalmente na Palestina, Síria, Egito e Etiópia.
Abeh nos matriculou numa escola; as aulas eram dadas em amárico. Como só sabíamos falar somali e árabe, tudo voltou a ser estrangeiro durante algum tempo. Só quando aprendi a me comunicar foi que descobri uma coisa assombrosa: minhas colegas não eram muçulmanas. Diziam-se kiristaan, cristãs, coisa que na Arábia Saudita, seria um feio insulto: significava impuras. Confusa, consultei mamãe, que o confirmou. Os etíopes eram kufr, palavra quase obscena. Bebiam álcool e não se lavavam direito. Uma gente desprezível.
A diferença era visível na rua. As etíopes usavam saia na altura dos joelhos e até mesmo calça comprida. Fumavam e riam em público, encaravam os homens sem o menor pudor. As crianças podiam ir aonde quisessem. [pp: 90-91]
Peregrinos cristãos etíopes em Jerusalém esperando a abertura da Igreja do Santo Sepulcro para a missa de Páscoa. Foto: AP
Mais tarde vão todos parar no Quênia, onde religiões, línguas e culturas diversas se misturam. Com estas experiências Ayaan se expõe a muitas maneiras diferentes de encarar a vida e o mundo.
Embora o meu novo colégio se chamasse Meninas Muçulmanas, muitas alunas professavam outras religiões. Quase a metade da turma era queniana, a maioria cristã, embora os quicuios também tivessem outro deus pagão. Os quenianos se dividiam em tribos que nada tinham a ver com os clãs da Somália. As tribos eram diferentes entre si no aspecto físico, falavam línguas distintas, tinham crenças próprias, ao passo que todos os clãs somalis falavam o mesmo idioma e acreditavam no islã. [p.106]
Alunas de uma escola em Nairobi.
Logo depois, influenciada por uma irmã maometana e com a necessidade adolescente de se descobrir, de descobrir sua própria identidade e talvez também por uma necessidade de direção, de limites para se sentir segura, para ter algo consistente em sua vida Ayaan se dedica ao fundamentalismo islâmico. Mais tarde, já como jovem mulher, irá rejeitá-lo.
Pedi dinheiro à minha mãe para que a costureira da irmã Aziza me fizesse um enorme manto preto com apenas três faixas apertadas nos pulsos e no pescoço e um zíper comprido. Chagava até os pés. Comecei a ir ao colégio com aquela roupa por cima do uniforme, que me cobria o corpo magro, um véu preto na cabeça e nos ombros.
Eu vibrava com aquilo: um sentimento voluptuoso. Sentia-me poderosa: por baixo daquele tecido se ocultava uma feminilidade até então insuspeitada, mas potencialmente letal. Eu era única: pouquíssima gente andava assim na Nairóbi daquele tempo. Curiosamente, a roupa fazia com que eu me sentisse um indivíduo. Transmitia uma mensagem de superioridade; eu era a única muçulmana verdadeira. Todas as demais garotas, de pequeninos véus brancos na cabeça, não passavam de crianças, de hipócritas. Eu era uma estrela de Deus. Quando abria os braços sentia-me capaz de voar. [pp:131-2]
NOTA: A título de curiosidade, vale lembrar neste momento, que esconder atributos femininos tais como cabelo, boca, pescoço, pernas, braços e demais partes do corpo consideradas por demais atraentes para poderem ser vistas por olhos masculinos sem que um estupro seja eminente não é uma característica única do maometismo – os judeus ortodoxos, por exemplo, tampouco permitem suas mulheres de mostrarem seus cabelos, assim como têm também outras restrições a vestimentas. As restrições muçulmanas seguem diferentes regras através do mundo islâmico, um exemplo que vem à mente é a cobertura da boca das mulheres com um véu, nos países do norte da África enquanto que o rosto aparece todo descoberto em outros países assim como no Irã.
Descobrir que um dos requerimentos da muçulmana ortodoxa seria aceitar o casamento com qualquer que seja o homem escolhido por seu pai, é finalmente a gota d’água que leva Ayaan a deixar o islamismo ortodoxo. Ela era filha de um casal muçulmano em que pai e mãe se escolheram. Não poderia, portanto, imaginar a vida sem que essa escolha lhe fosse permitida. Acaba emigrando para o ocidente e se encontra, finalmente, como ser humano político e membro de uma sociedade liberal, na Holanda.
Lá, depois de aprender a língua e os costumes, torna-se quase por casualidade, mais engajada politicamente do que previa. E eventualmente, através de sua luta pela proteção dos direitos femininos de milhares de imigrantes de religião islâmica na Holanda Ayaan é eleita deputada naquele país, em 2003.
Mais um ponto de virada nesta vida cheia de migrações vem quando ela se torna uma persona non grata entre os muçulmanos e tem sua vida ameaçada de morte, depois de fazer um documentário sobre as restrições à mulher no islamismo. Seu parceiro nesta experiência cinematográfica acaba assassinado. Com sua vida correndo perigo, Ayaan não tem outra opção senão encontrar exílio nos Estados Unidos, onde mora até hoje. Assim, hoje, com 40 anos de idade, conhecemos esta mulher que viveu muitas vidas e mostrou como ainda se pode revolucionar o mundo com conhecimento, cultura e inteligência.
A autora: Ayaan Hirsi Ali.
Sua auto biografia é de muito poder emocional, e recomendo a todos, homens e mulheres, adolescentes e idosos, porque Ayaan é um exemplo de vida, de coragem. Leva uma vida de grande coerência e sua luta pessoal só pode ser vista como um excelente exemplo para todos os outros seres humanos.
Para os curiosos: Aqui está a primeira parte do documentário que Ayaan Hirsi Ali e seu sócio o cineasta Theo Van Gogh produziram que levou ao assassinato de Theo e à perseguição de Ayaan. [Aqui em tradução para o inglês].
Ilustração, Maurício de Sousa, adaptada.
O Corpo Humano
Walter Nieble de Freitas
Toda criança estudiosa,
Que deseja passar de ano,
Deve saber que em três partes
Se divide o corpo humano.
São: cabeça, tronco e membros
— É bem fácil a lição —
Vejamos parte por parte,
Preste, pois, muita atenção.
Na memória, guarde bem,
É importante, não se esqueça!
Somente de crânio e face
Se constitui a cabeça.
Ilustração, Maurício de Sousa, modificada.
No crânio, ficam o cérebro
E outros órgãos protegidos;
Estão na face o nariz,
A boca, os olhos e ouvidos.
O tronco está dividido
— Veja as Ciências Naturais —
Em tórax e abdome,
Duas partes, nada mais.
Localizam-se no tórax
— Não vá fazer confusão —
Dois órgãos muito importantes:
Os pulmões e o coração.
Fazem parte do abdome:
Estômago, pâncreas e rins
E também os intestinos
Com outros órgãos afins.
Em dois planos diferentes
Os membros estão situados:
Superiores e inferiores
São eles asssim chamados.
São dos membros superiores
— Aprenda bem a lição —
O ombro, o braço, o antebraço
E também a nossa mão.
Vejamos os inferiores
— Você quer saber, não é? —
São estas as suas partes:
Quadril, coxa, perna e pé.
O nosso corpo precisa
Banho com água e sabão,
Bastante exercício, ar puro
E boa alimentação.
Mas, ao lado de tudo isto,
Não descuide da instrução,
Porque assim você terá
Mente sã em corpo são.
Em: Barquinhos de papel: poesias infantis, Walter Nieble de Freitas, São Paulo, SP, Editora Difusora Cultural:1961.
Nos dias de hoje, um pintor faz o nosso retrato em sete minutos; outro nos ensina a pintar em três dias; um terceiro homem ensina inglês em quarenta lições. Há quem queira nos ensinar oito idiomas com gravuras que representam as coisas e têm embaixo os seus nomes. Enfim, se fosse possível colocar todos juntos, os prazeres, os sentmentos, ou as idéias de uma vida inteira, e reuní-los num espaço de 24 horas , eles fariam isso:; fariam com que engolíssemos essa pílula e nos diriam: “Pronto, pode ir embora.”
Em: Máximas e pensamentos, Chamfort, Rio de Janeiro, José Olympio:2007
—
Sebastien-Roch-Nicholas Chamfort ( França, 1740-1794)
Foto: The New York Times
A pintura, chamada “A Batalha de Anghiari”, estava oculta sob a parede no Palazzo Vecchi, a chamada Câmara dos 1500.
Se, como Maurizio Seracini, você acredita que a maior das pinturas de Leonardo da Vinci está escondida no interior de uma parede na sede da prefeitura de Florença, há duas técnicas essenciais para encontrá-la e, como de hábito, Leonardo mesmo antecipou as duas.
A primeira envolve o recurso a equipamento científico. Depois de encontrar o que parecia ser uma pista quanto ao trabalho de Da Vinci deixada por outro artista do século XVI, Seracini liderou uma equipe internacional de cientistas em um projeto que resultou no mapeamento de cada milímetro da parede e da sala que ela delimita com o uso de lasers, radar, luz ultravioleta e câmeras infravermelhas. Assim que conseguiram identificar o possível esconderijo, os pesquisadores desenvolveram aparelhos com os quais será possível detectar a pintura por meio do disparo de feixes de nêutrons contra a parede.
“Da Vinci adoraria ver o quanto a ciência está sendo utilizada, na procura por sua mais célebre obra-prima“, disse Seracini, enquanto contemplava a parede em cujo interior ele espera encontrar a pintura, e recuperá-la intacta. “Consigo perfeitamente imaginar o fascínio que ele sentiria por todos os aparelhos de alta tecnologia que viremos a utilizar para esse processo”.
Seracini estava no grande salão cerimonial do Palazzo Vecchi, a chamada Câmara dos 500, que na era do Renascimento ocupava posição política central na vida de Florença e por isso terminou sendo decorada com murais de vitórias militares florentinas, pintadas por Da Vinci e Michelangelo, sob encomenda dos líderes da cidade. Era julho de 2009 e a sala continua a ser um centro de poder político, como se podia perceber com a entrada repentina de Matteo Renzi, o novo prefeito de Florença, que percorria rapidamente o caminho entre sua sala e o carro que o esperava na saída do edifício.
Um dos sketches para a Batalha de Anghiari, dos cadernos de Leonardo Da Vinci.
A palestra científica foi interrompida enquanto Seracini se apressava para interceptar a comitiva do prefeito. Ele estava ansioso para empregar a segunda das estratégias essenciais, na busca por uma pintura de Da Vinci em Florença: encontrar o patrono certo.
Essa foi sempre uma tática inteligente na cidade natal dos Medicis e de burocratas como Maquiavel, o amigo de Da Vinci cuja assinatura consta do contrato no qual o mural sobre as vitórias da cidade foi encomendado ao pintor. Seracini, professor de engenharia na Universidade da Califórnia em San Diego, passou anos perdido em um labirinto burocrático, esperando aprovação para testar sua técnica de localização por feixes de nêutrons, mas diz que o novo prefeito da cidade representa a melhor esperança de localizar a pintura de Da Vinci.
A busca foi iniciada mais de três décadas atrás e com uma pista digna de figurar em um romance de suspense do escritor Dan Brown. Em 1975, quando estava estudando engenharia nos Estados Unidos, Seracini retornou à sua Florença natal para uma análise da Câmara dos 500, em companhia de Carlo Pedretti, um estudioso da vida e obra de Da Vinci.
Os dois estavam em busca de “A Batalha de Anghiari”, a maior pintura que Da Vinci realizou em sua vida (a largura do mural era três vezes maior que a de “A Última Ceia”). Ainda que o trabalho jamais tenha sido concluído – Da Vinci o abandonou em 1506-, uma das cenas centrais, que mostra soldados e cavalos em pleno combate, foi elogiada como um estudo sem precedentes dos princípios da anatomia e do movimento. Por décadas, artistas como Rafael visitaram a Câmara dos 500 a fim de contemplar o mural e copiá-lo para referência.
Peter Paul Rubens, cópia da Batalha de Anghiari, por Leonardo Da Vinci. Até recentemente uma das únicas maneiras de se saber o conteúdo da pintura mural de Leonardo.
E um dia a pintura desapareceu. Quando o salão foi remodelado, em 1563, o arquiteto e pintor Giorgio Vasari recobriu as paredes com afrescos que mostravam vitórias militares da família Medici, retornada ao poder. O mural de Da Vinci terminou esquecido. Mas em 1975, quando Seracini estava estudando uma das cenas de batalha pintadas por Vasari, ele percebeu a imagem de uma pequena bandeira contendo as palavras “Cerca Trova“, ou seja, “procure e encontrará“. Será que elas serviam como sinal de Vasari para a presença de algo oculto por sob a sua pintura?
A tecnologia dos anos 70 não permitia obter resposta clara. Seracini levou sua carreira adiante e veio a conquistar a fama por conta de suas análises científicas de outras obras de arte e, posteriormente, fundou o Centro de Ciência Interdisciplinar para a Arte, Arquitetura e Arqueologia, integrado à Universidade da Califórnia em San Diego. Em 2000, ele voltou a Florença e à Câmara dos 500, equipado com novas tecnologias e com o apoio de um novo patrono, Loel Guinness, um filantropo britânico.
Ao registrar imagens em infravermelho e mapear a sala com o uso de laser, a equipe de Seracini descobriu onde ficavam as portas e janelas antes que Vasari conduzisse a sua reforma. A planta reconstituída, combinada a documentos do século XVI, bastou para localizar o ponto que teria sido pintado por Da Vinci. Também serviu para oferecer uma potencial explicação para o fato de que Michelangelo tenha realizado não mais que um esboço inicial do mural a ele encomendado: o pintor deve ter ficado enciumado ao descobrir que a seção da parede atribuída a Da Vinci oferecia iluminação natural muito melhor.
“A sala é imensa, mas não grande o suficiente para que Michelangelo e Da Vinci pudessem dividi-la“, disse Seracini. A nova análise demonstrou que o local em que Da Vinci pintou sua cena ficava exatamente sob o ponto em que a bandeira com os dizeres “cerca trova” foi pintada. E uma notícia ainda melhor, obtida por meio da análise da parede com radar, foi o fato de que Vasari não revestiu o mural de Da Vinci e pintou o seu; ele fez construir novas paredes de tijolos para sua pintura e tomou o cuidado de deixar um pequeno espaço para respiração por trás de uma dessas seções de tijolos – exatamente aquela que fica por trás do “cerca trova”.
Auto-retrato, c. 1567
Giorgio Vasari (Arezzo 1511- Florença 1574)
Mas como um pesquisador trabalhando hoje poderia descobrir o que existe atrás do afresco e dos tijolos? Como é que alguém poderia contemplar a parede original, a uma profundidade de 15 cm, sem prejudicar o afresco também histórico que existe em sua superfície?
Seracini não sabia como proceder, até 2005, quando pediu ajuda durante uma conferência científica e recebeu uma sugestão quanto ao uso de feixes de nêutrons que atravessariam o afresco sem prejudicá-lo. Com ajuda de físicos dos Estados Unidos, da autoridade italiana de energia nuclear e de universidades da Holanda e Rússia, Seracini desenvolveu aparelhos capazes de identificar os reveladores produtos químicos usados por Da Vinci.
Um desses aparelhos é capaz de detectar os nêutrons que retornam depois de colidir com átomos de hidrogênio, um componente abundante nos materiais orgânicos (como o óleo de linhaça e resina) empregados por Da Vinci. Em lugar de utilizar tinta à base de água, o método convencional para um afresco em gesso como o de Vasari, Da Vinci recobriu a parede com uma camada base impermeabilizada e utilizou tintas a óleo.
O segundo aparelho utilizado pelos pesquisadores permite distinguir os raios gama produzidos pelas colisões de neurônios com átomos de diferentes elementos químicos. O objetivo é localizar o enxofre na camada de impermeabilização de Da Vinci, o estanho na camada branca que servia como base à pintura e os produtos químicos nos pigmentos de cor, como o mercúrio usado para produzir pigmento vermelho e o cobre usado para o azul.
Desenvolver essa tecnologia foi difícil, mas mesmo assim representou desafio menor do que conquistar aprovação burocrática ao seu uso. Seracini encontrou uma série de obstáculos políticos e burocráticos. Assim, quando viu o novo prefeito atravessando o Salão dos 500 naquela tarde de julho, ele se apressou a fazer um apelo pessoal a Renzi, que era favorável ao projeto antes de sua eleição.
Com a polidez de um Medici, o prefeito parou para escutar o pedido, e depois prometeu que ajudaria a empreitada artística a avançar, assim que tivesse cumprido a sua primeira leva de promessas eleitorais. “Meu sonho é ver essa descoberta o mais rápido possível”, disse Renzi. “Rápido” pode ser um termo altamente relativo, na burocracia italiana, mas o prefeito de fato agiu para reiniciar o processo e conduziu uma reunião com um de seus atuais patronos, a National Geographic Society dos Estados Unidos. Na semana passada, Renzi declarou que esperava que o trabalho pudesse ser realizado em breve.
“Estamos dispostos a conceder permissão ao professor Seracini“, disse Renzi na quinta-feira. “A única questão é a data, e saber quem fará o quê. Dentro de uma ou duas semanas, o projeto deve receber luz verde”. Assim que obtiver autorização, diz Seracini, ele espera concluir o trabalho de análise dentro de um ano.
Caso “A Batalha de Anghiari” esteja mesmo lá, diz, seria viável que as autoridades florentinas encarregassem especialistas de remover o afresco exterior de Vasari, extrair a pintura de Da Vinci e em seguida recolocar o afresco em sua posição. É claro que ninguém sabe em que estado o mural de Da Vinci estará. Mas Seracini, que conduziu extensas análises sobre os danos sofridos por quadros do Renascimento, diz que se sente otimista quanto ao mural.
“A vantagem é que ele esteve coberto por cinco séculos“, disse. “Esteve protegido contra vandalismo, contra o ambiente e contra más restaurações. Não espero que tenha decaído demais“. Caso ele tenha razão, então talvez Vasari tenha feito um favor a Da Vinci ao cobrir sua pintura – mas tomando o cuidado de deixar aquela enigmática bandeira por sobre o local do tesouro.
Texto: John Tierney
Tradução: Paulo Migliacci ME
Fonte: TERRA
Macaquinhos, MW Editora e Ilustrações.
A vida — coisa engraçada —
é um contraste permanente:
nós rimos da macacada,
que ri imitando a gente.
(Remy Prates Pinheiro)
Cientistas da Nasa (Agência Espacial americana) descobriram um anel gigante em torno de Saturno, em cujo diâmetro caberiam alinhados 1 bilhão de planetas do tamanho da Terra. Sua parte mais densa fica a cerca de 6 milhões de km de Saturno e se estende por outros 12 milhões de quilômetros, o que o torna o maior anel de Saturno. A altura do halo é 20 vezes maior que o diâmetro do planeta.
“Trata-se de um anel superdimensionado“, definiu a astrônoma Anne Verbiscer, da Universidade da Virgínia em Charlottesville e uma das autoras de um artigo sobre a descoberta publicado na revista científica Nature. “Se ele fosse visível a partir da Terra, veríamos o anel com a largura de duas luas cheias, com Saturno no meio“, comparou a cientista.
Verbiscer e seus colegas utilizaram uma câmera de infravermelho a bordo do telescópio espacial Spitzer para fazer uma “leitura” de uma parte do espaço dentro da órbita de Phoebe, uma das luas de Saturno. Segundo a astrônoma, o anel é praticamente invisível por telescópios que utilizam luz, já que é formado por uma fina camada de gelo e por partículas de poeira bastante difusas.
“As partículas estão tão distantes umas das outras que mesmo se você ficasse em pé em cima do anel, não o veria“, disse Verbiscer. Os cientistas acreditam que a lua Phoebe é que contribuiu com o material para a formação do anel gigante, ao ser atingida por cometas. A órbita do anel está a 27 graus de inclinação do eixo do principal e mais visível anel de Saturno.
Os cientistas acreditam que a descoberta do anel poderá ajudar a desvendar um dos maiores mistérios da astronomia – a lua Iapetus, também de Saturno. A lua foi descoberta pelo astrônomo Giovanni Cassini em 1671, que percebeu que ela tinha um lado claro e outro bastante escuro, como o conhecido símbolo yin-yang.
Segundo a equipe de Verbiscer, o anel gira na mesma direção de Phoebe e na direção oposta a Iapetus e às outras luas e anéis de Saturno.
Com isso, o material do anel colide constantemente com a misteriosa lua, “como uma mosca contra uma janela“.
Fonte: TERRA
Os Saurópodes
Restos de um dos gigantes brasileiros da Era dos Dinossauros estão vindo lentamente à tona em Marília (444 km a noroeste de São Paulo). Tudo indica que se trata de um saurópode, dino pescoçudo e comedor de plantas que pode ter chegado a 13 metros.
O esqueleto de dezenas de milhões de anos apenas começou a ser exposto, mas há esperança de que boa parte do animal ainda esteja por lá, porque as vértebras achadas até agora estão articuladas, ou seja, unidas umas às outras na posição que ocupavam em vida.
Esse fato é um golpe de sorte relativamente raro na paleontologia brasileira, contou à Folha o responsável pela descoberta, William Nava, do Museu de Paleontologia de Marília.
Saurópodes: tamanhos relativos.
“Como temos parte da região pélvica [do quadril] preservada e associada às vértebras dorsais, estamos escavando agora na direção da cabeça do bicho. Tudo indica que poderemos achar as vértebras cervicais, do pescoço, e também o crânio preservado sob as camadas de arenito, o que seria fantástico. Essa é a nossa expectativa“, afirma Nava, um dos mais ativos caçadores de fósseis do interior de São Paulo.
As primeiras pistas do saurópode surgiram no último mês de abril, quando a presença de conchas fossilizadas de bivalves (moluscos como as atuais ostras) chamou a atenção de Nava. “Resolvi investigar o barranco que margeia o acostamento da estrada e vislumbrei diversos fragmentos ósseos despontando na rocha, mas bastante escurecidos, indicando que estavam há um bom tempo expostos“, conta ele.
Essa coleção inicial de restos, por si só, já parecia interessante: havia vértebras da cauda, costelas e dois outros ossos grandes (um deles provavelmente corresponde ao fêmur). Um pouco mais de trabalho revelou a presença de duas vértebras articuladas, medindo, cada uma, cerca de 20 cm. “Quando se encontra material articulado a tendência é nos concentrarmos nele, devido justamente à escassez dele“, explica Nava.
Concepção artística de saurópodes, ordem à qual provavelmente pertenceu o fóssil achado em Marília (444 km a noroeste São Paulo)
Ele repassou as informações sobre a escavação ao paleontólogo Rodrigo Santucci, da UnB (Universidade de Brasília), que é especialista em saurópodes. Conforme o trabalho avançar, Santucci será capaz de determinar se o animal era um titanossaurídeo (principal grupo de saurópodes do país, caracterizados pela presença de “calombos” ósseos em seu couro) e avaliar se a espécie ainda não é conhecida da ciência.
Antes disso, porém, Nava está planejando a retirada do material da encosta, o que pode se transformar numa operação longa e delicada. A idéia é extrair todo o bloco contendo os ossos até agora encontrados e outros ainda encobertos por rocha. O trabalho no local também trouxe à tona o crânio e a mandíbula de um parente extinto dos jacarés e crocodilos.
Texto: REINALDO JOSÉ LOPES
Fonte: Folha On Line