Os pampas, texto de José de Alencar

10 03 2012

Gaúcho na campanha, s/d

José Lutzenberger (Alemanha 1882- Brasil 1951)

aquarela sobre papel, 21 x 29 cm

Museu Ado Malogoli, Porto Alegre.

Os pampas

José de Alencar

“Ao por do sol perde o pampa os toques ardentes da luz meridional. As grandes sombras que não interceptam montes nem selvas, desdobram-se lentamente pelo campo fora.  É então que se assenta perfeitamente na imensa planície o nome castelhano.  A savana figura realmente um vasto lençol desfraldado por sobre a terra, velando a virgem natureza americana.

Essa fisionomia crepuscular do deserto é suave nos primeiros momentos; mas logo ressumbra tão funda tristeza que estringe a alma.  Parece que o vasto e imenso orbe cerra-se e vai minguando a ponto de espremer o coração.

Cada região da terra tem uma alma sua, raio criador que lhe imprime o cunho de originalidade. A natureza infiltra em todos os seres que ela gera e nutre aquela seiva própria; e forma uma família na grande sociedade universal.

Quantos seres habitam as estepes americanas, seja homem, animal ou planta, inspira nelas uma alma pampa.  Tem grandes virtudes essa alma. A coragem, a sobriedade, a rapidez são indígenas da savana.

No seio dessa profunda solidão, onde não há guarida para defesa, nem sombra para abrigo, é preciso afrontar o deserto com intrepidez, e sofrer as privações com paciência e suprimir as distâncias pela velocidade.

Até a árvore solitária que se ergue no meio dos pampas é tipo dessas virtudes.  Seu aspecto tem o  quer seja de arrojado e destemido; naquele tronco derreado, naqueles galhos convulsos, na folhagem desgrenhada, há uma atitude atlética. Logo se conhece que a árvore já lutou com o pampeiro e o venceu.  Uma terra seca e poucos orvalhos bastam à sua nutrição.  A árvore é sóbria e feita às inclemências do sol abrasador.  Veio de longe a semente; trouxe-a o tufão nas asas e atirou-a ali, onde medrou. É uma planta imigrante.

Como a árvore são a ema, o touro, o corcel, todos os filhos bravios da savana. Nenhum ente, porém, inspira mais energicamente a alma pampa do que o homem, o gaúcho. De cada ser que povoa o deserto toma ele o melhor; tem a velocidade de ema ou da corça, os brios do corcel e a veemência do touro.  O coração fê-lo a natureza franco e descortinado como a vasta cochilha; a paixão que o agita lembra os ímpetos do furacão, o mesmo bramido, a mesma pujança.  A esse turbilhão de sentimentos era indispensável uma amplitude de coração imensa como a savana.”





Dinossauro gaúcho tem penas!

25 11 2011

Cientistas de quatro universidades brasileiras apresentaram nesta quinta-feira em Canoas (RS) o resultado do estudo de uma espécie de dinossauro descoberta em 2004 em Agudo (RS). Após a classificação, o predador plumado ganhou o nome de Pampadromaeus barberenai. A pesquisa foi coordenada pelo professor Sergio Cabreira, da Universidade Luterana do Brasil (Ulbra), e contou com cientistas das universidades de São Paulo (USP), Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs) e de Minas Gerais (UFMG).

Segundo os paleontólogos, o primeiro nome faz referência ao pampa, os campos característicos do Rio Grande do Sul, e o sufixo grego “dromaeus” à palavra grega para “corredor”. Já o segundo nome homenageia o pesquisador e paleontólogo brasileiro Mario Costa Barberena, um dos fundadores do Programa de Pós-graduação em Paleontologia do Instituto de Geociências da Ufrgs.

O fóssil descoberto tem 228 milhões de anos e, destacam os pesquisadores, possui muitas características do grupo dos terópodos – famosos carnívoros como Tyrannosaurus rex e Velociraptor mongoliensis -, em especial ser bípede. Apesar disso, estes predadores existiram apenas 75 milhões atrás, muito depois do corredor dos pampas.

Contudo, o Pampadromaeus é um dos mais antigos representantes da linhagem dos sauropodomorfos, no qual se destacavam dinossauros de pescoço longo, geralmente herbívoros e grandes – como os titanossauros. O dinossauro gaúcho, apesar de pertencer ao grupo, era bem diferente – tinha apenas 1,2 m e era onívoro (comeria pequenos animais, inclusive insetos, e vegetais).

A descoberta indicaria que os primeiros sauropodomorfos e terópodos eram muito semelhantes, mas acabaram gerando dinossauros bem diferentes, o primeiro os saurópodos (herbívoros), enquanto os terópodos continurariam com “monstros” como os tiranossauros.

O estudo foi coordenado pelo paleontólogo Sergio Cabreira (Ulbra) e contou com os pesquisadores Cesar Leandro Schultz e Marina Bento Soares (Ufrgs), Max Cardoso Langer e Jonathas Bittencourt (USP) e Daniel Fortier (UFMG), além do biólogo e mestrando Lúcio Roberto da Silva (Ulbra).

Fonte: Terra





Minha Profissão: Eduardo Bernsmüller, engenheiro eletricista

28 04 2011

Eduardo Bernsmüller

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Esta é a oitava entrevista da série: Minha Profissão.  Veja na coluna ao lado, a série de links para cada uma das entrevistas anteriores.

Eduardo Bernsmüller, engenheiro elétrico

Perfil

Nasci em SP mas me criei no RGS, onde fiz faculdade (Engenharia Elétrica na UFRGS). Trabalhei em 3 empresas gaúchas e desde 2005 me mudei para o RJ onde atuei por 5 anos numa empresa da área de defesa, antes de ingressar no serviço público. Mais especificamente atuo com programação de microcontroladores.  A foto é de um sistema de mira para canhão naval.

Que tipo de trabalho você faz?
Pesquisa e desenvolvimento de sistemas eletrônicos para a Marinha brasileira. Principalmente projeto e programação de circuitos microcontrolados.

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Você trabalha no campo de sua formação profissional ou trabalha numa área diferente daquela para qual estudou?
Trabalho num dos campos da minha formação.

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Para o trabalho que você faz agora, o que poderia ter sido diferente no seu curso de formação?
Poderia ter cursado disciplinas mais específicas que foram oferecidas durante a graduação.

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Sistema de mira para canhão naval


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O que você faz para continuar a se atualizar?
Para atuar com as novas tecnologias, pode-se realizar cursos (quando há oferta no país) ou deve-se estudar por conta própria, que é o que normalmente acontece.

Você precisa usar alguma língua estrangeira frequentemente?
Inglês, muito.

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Que conselho daria a um adolescente que precisa decidir que carreira escolher?
Selecionar profissões dentro das áreas das quais tem mais afinidade com as disciplinas do colégio. Depois tentar se imaginar atuando em cada uma dessas profissões, levando sempre em conta que há mercados saturados e outros mais promissores. Pegar conselhos com os pais, mas não escolher uma profissão só para agradá-los.

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Você tem um lugar na internet que gostaria de mostrar para os nossos leitores? Um blog, twitter?
Página do Departamento de Engenharia Elétrica da UFRGS: http://www.ufrgs.br/delet/





Descobertas e mais descobertas paleontológicas no RS e na Espanha…

25 03 2011

 

Tiajudens eccentricus, no Rio Grande do Sul.

No Rio Grande do Sul

Uma equipe de paleontólogos das Universidades Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), Federal do Piauí (UFPI) e de Witwatersrand (África do Sul) descobriu fósseis de um vertebrado herbívoro com dentes de sabre em Tiarajú, na região central do Rio Grande do Sul.

Segundo a UFRGS, o animal era um terápsido (antiga linhagem de vertebrados que deu origem aos mamíferos) que viveu no Período Permiano da Era Paleozoica – pelo menos 260 milhões de anos atrás.  Este período foi sucedido pelo Mesozóico, quando os dinossauros apareceram.

Apesar de não ser muito grande (tinha o tamanho de uma anta), o espécime chama a tenção por seus dentes de 12 cm.  Os pesquisadores chegaram à conclusão de que era uma nova – e estranha – espécie e a nomearam de Tiarajudens eccentricus.  Seu nome se refere a Tiaraju,  distrito de São Gabriel no estado do Rio Grande do Sul.   Além da arcada dentária o Tiajudens contava com 26 dentes largos, semelhantes aos nossos molares, no céu da boca.  Acredita-se que eles servissem para mastigar folhas.

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— “Os incisivos, posicionados na maxila, tinham serrilha para arrancar as plantas, muito parecidos com os que encontramos hoje nos ruminantes.  Os dentes do palato mastigavam, o que era uma novidade, porque proporcionava melhor digestão” — disse Juan Carlos Cisneros, paleontólogo da Univerdidade do Piauí.

Os pesquisadores destacam também que é o mais antigo registro de terápsido que tinha a capacidade de mastigar e o mais antigo de um herbívoro com dentes de sabre – característica comum em alguns carnívoros extintos, como o famoso tigre dentes de sabre, mas rara em herbívoros.

Os cientistas acreditam que os longos dentes eram usados em lutas entre membros da mesma espécie ou como defesa contra predadores. A descoberta está publicada na revista científica Science.

— ” Alguns estudos já haviam encontrado fósseis do Paleozóico no Pampas.  Por isso, resolvemos intensificar a pesquisa naquela região.  Foi assim que chegamoso ao Tiarajudens.  Além do crânio, encontramos vestígios de uma pata e de outras partes do corpo, que ainda estão sendo estudadas, e que permitirão, em breve, outras descobertas sobre a espécie.   Por enquanto sabemos que era um animal adulto, e provavelmente macho.  As fêmeas não deviam ter dentes de sabre ou então eles eram mais curtos.” — esclareceu Cisneros.

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Enquanto isso, na Espanha….

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Narulagus Rex
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Pesquisadores do Instituto Catalão de Paleontologia (ICP) descobriram fósseis de um coelho gigante na ilha de Minorca, na Espanha. A descoberta foi publicada no Journal of Vertebrate Paleontology. O coelho, de nome científico Nuralagus rex, viveu há cerca de 5 milhões de anos e pesava entre 12 e 15 kg, cerca de 10 vezes o peso de um coelho nos dias de hoje.

A pesquisa indica que o mais curioso deste coelho gigante é o fato de ele não poder pular e se mover com as mãos e os pés colocados ao chão – característica de animais como ursos e capivaras. O estudo aponta que a existência deste mamífero roedor pode ser entendida pelo motivo de o ecossistema da ilha de Minorca não ter predadores para esta espécie.

A pressão seletiva sobre os ecossistemas insulares gera a limitação de recursos, o que implica a ausência de predadores. Não podemos comparar com o que acontece hoje, porque a atividade humana levou à introdução de novas espécies e à caça“, disse Meike Köhler, co-autora do artigo e chefe do grupo de pesquisa de Paleontologia do ICP.

FONTES: Portal Terra e O Globo, edição impressa.





Professorinha, poema de Dimas Costa pelo Dia do Professor

5 10 2009

professora ensinando fraçõesIlustração, Maurício de Sousa.

 

 

Professorinha

 

                          Dimas Costa

 

 

 

Chinoca, meiga, trigueira,

Descendente das missões,

Exigente nas lições,

Reclama e briga por tudo.

Mas eu fico sempre mudo

Ao ver aquela carita,

Quando repreende e grita,

Numa expressão sedutora.

Essa é a professora

Do colégio onde estudo.

 

Que me importa com estudo

De história ou geografia,

Se eu gosto é da anatomia

Dessa prenda encantadora.

Eu que sou índio de fora

Meio matuto, por certo,

Vou decorando o alfabeto

Com muita dificuldade,

Porque só aprendo, é verdade,

Nas lições que ela me dá,

Que coisa mais linda não há

Do que os olhos da professora.

 

Esses dias me surpreendeu,

Quando mui séria ensinava,

Que apaixonado eu a olhava

Sem escutar a sua fala.

E, por assim eu mirá-la

Acho que bem entendeu,

Pois de pronto enrubesceu

E tomando-me a lição,

Diz que por falta de atenção,

Me pôs pra fora da aula.

 

Professora, professora,

Deixa de manha, mimosa!

Chinoca quando é dengosa

Ressalta mais o primor.

Desculpa, mas minha flor

Entende a minha paixão:

Deixa pra lá essa lição

E vem comigo, querida,

Viver as coisas da vida

Num recreio só de amor…

 

Se tu quiseres mesmo

Unir-te em laços eternos,

Bota fora os cadernos

E vem seguir os meus passos.

Se larguemo pelos espaços

A procura de um cantinho,

Onde ergueremos um ninho

Debaixo do céu aberto,

E eu morro analfabeto

Só pra viver nos teus braços!

 

 

 

Dimas Noguez Costa, (Bagé, RS, 1926 ), pseudônimo: Chiru Divertido.  Poeta, cronista, radialista.

 

 

Obras:

 

Carta a  mãe natureza, 1979

Céu e campo, 1954  

Céu, pampa e pago, 1968  

Entardecer na querência, 1989

Pampa bravo, 1958  

Pelos caminhos do pago, 1963 

Poesia gauchesca para moças e crianças, 1983

Poesia gauchesca para prendas e peões, 2003

Três poemas de destaque, 1963





Depois da engorda pinguins voltam para casa!

7 10 2008

 

Depois de 3 meses de engorda e recuperação 31 pinguins dos mais de 560 que chegaram às costas do Estado do Rio de Janeiro, começam hoje, sua longa viagem de volta.   Eles vão viajar em condições de luxo para o Rio Grande do Sul, como convidados especiais da Marinha brasileira.  Vão a bordo no navio Ary Rangel — conhecido como O Gigante Vermelho –e desfrutarão de duas piscinas com água salinizada.  Acostumados aos bons tratos farão quatro refeições por dia de corvinha.  A viagem para o Centro de Reabilitação de Animais Marinhos (CRAM) no estado mais ao sul do Brasil, levará do Rio de Janeiro um total de 3 dias, ou, em termos pinguinescos:  180 kg de peixe.  O navio comandado pelo capitão-de-mar-e-guerra Arlindo Serrado está a caminho da Antártida, onde já estava escalado para missão no mês de outubro.

Hoje, com aproximadamente 2 Kg cada, estes pinguins apresentam boa saúde e total recuperação do mau estado de saúde que apresentavam ao chegar.  Hoje já podem ser levados de volta ao seu habitat natural, sem comprometer sua saúde.  A chegada de pinguins à costa do estado do Rio de Janeiro não é incomum.  Correntes marítimas vindas do Polo Sul que não encontram obstáculos entre o sul e a costa do Rio de Janeiro sempre facilitaram a chegada aqui de animais perdidos, cansados ou até mesmo doentes.  Principalmente entre os meses de junho a setembro quando estas correntes marítimas se tornam muito mais fortes.  No entanto, o número de animais fazendo uma passagem pelo Rio de Janeiro está cada vez maior.

 

                              Ilustração do New York Times

O aumento de pinguins nas nossas costas deve-se a muitos fatores diferentes, todos eles causados pelo homem:  problemas com o aquecimento global — o rápido degelo de muitos icebergs tornando correntes marítimas mais fortes;  a poluição ambiental e a falta de peixe, que pode ser atribuída tanto à poluição ambiental quanto à pesca desordenada.   Estes pinguins em geral habitam o Estreito de Magalhães, na Patagônia. Por isso também são conhecidos como Pinguins Magalhães.  E chegam aqui muuito enfraquecidos.  Para dar um exemplo:  dos 500 pinguins que chegaram às nossas costas este ano, 280 chegaram mortos.   Outros 170 pinguins morreram durante o tratamento de recuperação no Zoológico de Niterói, que inclui soro, vitaminas e alimentos.   Dos que puderam se salvar e se submeter à campanha de “engorda” — a maioria chegou aqui pesando 900 gramas– só 31 dos aproximadamente 90 pinguins, começam hoje a viagem de volta.  60 continuam em Niterói, sendo submetidos a tratamento de reabilitação.

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É sempre uma tentação acharmos que o pinguim perdido em mares tropicais, fraquinho, como são os pinguins  encontrados nas nossas praias precisa ser colocado próximo ao gelo ou dentro de uma geladeira….

NÃO, NÃO, NÃO!!!

Pinguim e geladeira só se combinam no adereço de cozinha popular nos anos quarenta, feito de louça.  Quando o pinguim chega ao Rio de Janeiro deve ser abrigado com um cobertor e levado imediatamente para tratamento de recuperação.  O pinguim está em geral muito fraco, vem boiando e sendo puxado pela corrente marítima e em geral sofre de hipotermia.  Ele precisa de agasalho e não de geladeira. 

Pinguim e geladeira, só de enfeite, na casa da vovó!





À espera dos acontecimentos no Rio Grande, Rev. 1932

6 09 2008

Agitações politicas no Rio Grande do Sul.
Agitações políticas no Rio Grande do Sul.

 

6 de setembro de 1932

 

 

A cidade esteve calma.  Nota-se porem que todos anseiam pela revolução do Rio Grande.  As vistas de todos se voltam para lá, na esperança de um auxílio indireto do povo gaúcho, o qual, conforme notícias de jornais, está se revoltando, a lado de São Paulo.  

 

 

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Transcrição do Diário de Gessner Pompílio Pompêo de Barros (MT 1896 – RJ 1960), Itapetininga, SP, página 142 em referência à Revolução Constitucionalista de 1932.

 

As crianças se agitam em toda parte do estado.

As crianças se agitam em toda parte do estado.





O Quatrilho de Pozenato, uma volta pelo passado

28 08 2008
José Clemente Pozenato

José Clemente Pozenato

Só recentemente tive a oportunidade de ler o livro de José Clemente Pozenato, O Quatrilho, Porto Alegre, Mercado Aberto: 1985, romance que em 1994 foi transformado no filme  do mesmo nome de Fabio Barreto; indicado ao Oscar  em 1995, na categoria de melhor filme estrangeiro.  Gostei imensamente da narrativa e também da trama nesta ficção histórica sobre os imigrantes italianos.  O romance cobre com distinção a imigração de italianos, oriundos em sua maioria da região de Veneto e estabelecendo-se no Rio Grande do Sul.  Esta renovada imigração no início do século XX foi  resultado de um acordo feito entre os governos brasileiro e italiano.  Na história, que é baseada em fatos verdadeiros,  dois casais de imigrantes italianos, amigos e sócios, resolvem dividir uma grande moradia enquanto trabalham muito duro para prosperar.  Aos poucos o marido de um e a mulher do outro se apaixonam e fogem, deixando os filhos para trás.  O casal que permanece na casa por sua vez, passados alguns meses solidifica como marital um relacionamento que já existia como sociedade de negócios e assumem um casamento que originalmente nenhum dos dois havia contemplado.  Esta história, com este enredo, é claro pertence única e exclusivamente aos casais retratados.  Mas o tema da imigração e, sobretudo da imigração italiana, apesar de ter sido abordado diversas vezes na televisão brasileira, ainda é pouco assimilado pela cultura brasileira.  O assunto não tem a influência que adquiriu na artes e na cultura de outros países do novo continente, como nos Estados Unidos ou Canadá. 

 

Acredito que parte dessa diferença está enraizada na maneira em que nos EUA o imigrante e seus

Capa da primeira edição, 1985

Capa da primeira edição, 1985

descendentes é continuamente lembrado de sua identidade como um recém-chegado.  Expressões específicas são usadas para definir, alinhar, explicar sotaques, comportamentos, hábitos e tudo o mais.  Lá, é comum os filhos e os netos de um imigrante se referirem a si próprios como daquela linhagem estrangeira, mesmo tendo nascido em solo americano, de pais nascidos em solo americano.  Assim há os americanos-irlandeses, os americanos-italianos, os americanos-judeus.  Este hábito torna muito mais difícil a inserção de qualquer cidadão na sociedade em geral.  É um hábito que separa as pessoas, que divide cidadãos em pequenos grupos de identidades diversas.  Por outro lado, eles em geral conhecem melhor o passado de seus ancestrais, relembram em maior detalhe e com grande freqüência a saga de seus avós, bisavós,  porque elas compõem suas personalidades.  Elas preenchem os detalhes daquilo que os outros acreditam ser indecifrável.  Tudo e qualquer coisa pode ser justificada sob o rótulo de uma identidade estrangeira.  É uma faca de dois gumes.

 

 

Uma das grandes vantagens que temos no Brasil é esquecermos rapidamente de onde nossos antepassados vieram.  Quando comecei a fazer uma árvore genealógica para a família e fui expandindo os dados lateralmente e para trás, fiquei surpresa de ver que muitos dos meus conterrâneos, familiares e  amigos, não tinham a menor idéia de onde seus antepassados tinham vindo.  É verdade que moro no estado do Rio de Janeiro, um dos primeiros locais de colonização do país e também um dos locais de maior miscigenação.  Como a  habitação do território brasileiro começou mais cedo do que a população imigrando para os EUA, pelo menos de cem anos, é natural que muitos não saibam nada além de vagas lembranças da história de seus antepassados.  Fiéis à tradição latina, [e esta tradição remonta ao Império Romano] somos, no todo, mais abertos a chamar de brasileiros todos aqueles que fazem da nossa terra, sua casa.  Acreditamos que todos que estão aqui são como a gente.  Casamos com estes imigrantes, casamos com seus filhos, sem lhes perguntar a raça, a religião, a nacionalidade de origem de seus antepassados.  Aqui somos todos iguais.  Não nos subdividimos em pequenos grupos.  Afinal, falamos a mesma língua e estamos cansados de saber, que nossa pátria é nossa língua.  Em compensação ignoramos muito da nossa história, não damos valor aos sacrifícios que nossos antepassados fizeram para nos dar uma chance de viver melhor do que eles tinham se ainda estivessem nos seus países de origem.  O resultado é que ignoramos aquelas culturas de onde nossos avós e bisavós vieram.

 

Cartaz do filme de Fabio Barreto baseado no romance.

Cartaz do filme de Fabio Barreto baseado no romance.

Assim é sempre com curiosidade e alegria que encaro um romance brasileiro com este tema.  E o livro de Pozenato não só é fiel à natureza dos imigrantes, às suas vidas, como também narra com clareza e humor a aventura desafia o ajuste de estrangeiros a um novo país.  A adaptação deles à nova realidade, a um novo clima, a um novo terreno é tratada com extrema sensibilidade e profunda delicadeza. 

 

Entre os seus melhores e mais sensíveis retratos de uma geração inteira de colonos, da vida dura e sofrida que tiveram, está o retrato que ele faz, logo no início de O Quatrilho, das mudanças que vê nas mulheres jovens, que se casam e se entregam a uma vida difícil na esperança de um futuro melhor.  As reflexões do padre que nos apresenta ao Rio Grande do Sul, à sua paisagem, aos costumes da época, logo no início da narrativa, estabelecem o tom, a delicadeza e a verdadeira luta que ele vê estes imigrantes travarem.  Abaixo coloco dois parágrafos destas conjecturas para dar um gosto do que se desenrola no texto.  Recomendo com grande entusiasmo a leitura deste livro. 

 

Mais do que fome ou irritação, o que o tocava agora, enquanto a mula trotava firme, era uma vaga tristeza.  E sabia muito bem a razão.  Em quase trinta anos de padre, dez deles na Itália e o restante na América, onde com certeza deixaria os ossos, teria celebrado mais de mil casamentos.  E depois de cada um deles lhe vinha essa tristeza.  Não era inveja, ao contrário.  O caminho que Deus escolhera para chamá-lo à vida sacerdotal tinha sido, talvez, o medo de enfrentar a mesma miséria e as humilhações do pai, camponês nas terras de um senhor de Bolzano.  Entendia muito bem a pobre gente que juntara seus miseráveis pertences e atravessara o mar, numa casca de madeira, para tentar a aventura na América.  Era para cá que seu pai teria vindo, se não tivesse morrido ainda jovem.  Para cá tinha vindo ele, trazido por impulso, que podia ser talvez virtude ou, mais provavelmente, uma simples compulsão humana, destituída de merecimento.

 

Não, a tristeza que lhe vinha não tinha nada a ver com inveja.  O que lhe causava mal-estar era o brilho de esperança que via nos olhos dos noivos.  Uma esperança que ele sabia destinada a durar muito pouco tempo.  Tinha pena principalmente das noivas, atraentes, risonhas como uma rosa desabrochada de manhã, que ele voltaria a ver daí a alguns anos, envelhecidas, feias, com o sofrimento e a resignação escondidos no fundo dos olhos tristes, revelados com lágrimas no confessionário.  Por isso é que lhe fazia mal celebrar um casamento.

 

Página 16-17

 

O QUATRILHO, José Clemente Pozenato, Mercado Aberto: 1986, Porto Alegre.





Minha terra — poesia de Lobo da Costa — para crianças

24 07 2008

 

O Gaúcho, José Lutz Seraph Lutzemberger, (Brasileiro [nascido na Alemanha] 1882-1951, aquarela

O Gaúcho, s.d.

José Lutz Seraph Lutzemberger

(Brasileiro 1882 – 1951)

Aquarela

MINHA TERRA

 

Lá, na minha terra, quando

O luar banha o potreiro,

Passa cantando o tropeiro,

Cantando, sempre cantando;

Depois, avista-se o bando

Do gado que muge, adiante;

E um cão ladra bem distante,

Lá, bem distante, na serra;

Nunca foste à minha terra?!

 

Enfrena, pois, teu cavalo,

Ferra a espora, alça o chicote

E caminha a trote, a trote,

Se não quiseres cansá-lo.

Ainda não canta o galo,

É tempo de viajares.

Deixarás estes lugares,

Iras vendo novas cenas

Sempre amenas, muito amenas.

 

O laranjal reverdece,

E ao disco argênteo da lua,

Logo os olhos te aparece

A estrela deserta e nua.

………………………………………………

 

Lobo da Costa

 

 

Francisco Lobo da Costa (Pelotas, RS 1853 — RS 1888 ) Poeta, jornalista e teatrólogo brasileiro.

 

A obra poética:

 

Esparsa nos jornais:  Eco do Sul, Diário de Pelotas e Progresso Literário.

Espinhos d’alma em (1872)

 

Poesias em edições póstumas:

 

 Dispersas

Auras do Sul.

 

 

 

Do livro:

 

Criança brasileira: terceiro livro de leitura, edição especial para o Rio Grande do Sul, Theobaldo Miranda Santos, Agir: 1950, Rio de Janeiro.  [livro didático para a 3ª série do curso básico].

 





Concerto campestre: Luiz Antonio de Assis Brasil

13 07 2008

 

Kiko Medeiros (RS, Brasil 1955) Músicos, A/T

Kiko Medeiros (RS, Brasil 1955) Músicos, A/T

 

Concerto Campestre é um livro sedutor que permanece na nossa imaginação por muito tempo depois de termos acabado sua leitura.  É uma história que cobre duas das maiores paixões brasileiras:  música e o amor proibido.  Luiz Antonio de Assis Brasil mostra como o preconceito racial funcionava no século XIX;  também retrata eloqüentemente  o vazio da vida levada pelas mulheres da época,  que nascidas e criadas nas fazendas, eram em geral analfabetas.   Elas tinham muito pouco com que se distrair, e como herdeiras de terras, não pertencendo à classe trabalhadora,  não lhes era permitido dedicarem-se a trabalho nenhum.

 

Assis Brasil mostra crenças e preconceitos arraigados no interior, no Rio Grande do Sul rural do século retrasado.   O estado, terra dos gaúchos, solo fértil da grama alta e florida dos pampas, da criação de gado e de grandes fazendeiros — famosos por sua rebeldia e independência — é mostrado com acuidade e poesia nestas páginas, mesmo que vejamos o retrato da educação quase nula, não existente mesmo, rude,  dos donos da terra; e nos familiarizamos com a mentalidade estreita e as regras das tênues diferenças de classes sociais, não só na região austral do país mas também vivenciadas na maior parte do interior do país.

 

A história gira em torno de um senhor da terra que decide ter uma pequena orquestra para concertos ao ar livre.  Ele contrata um conhecido maestro, mulato, que após se estabelecer na fazenda começa a organizar um grupo de músicos, com o objetivo de construir a tão sonhada pequena orquestra do fazendeiro.    Este maestro seduz não só a burguesia do local com sua música, surpreendendo todos os fazendeiros vizinhos, mas também conquista e é conquistado pela filha de seu patrão.    Ela é inteligente, apesar de analfabeta.  E está ciente da vida estéril que a espera, no casamento arranjado pelos pais com o filho de um fazendeiro local.  Ela percebe este casamento como uma das piores coisas que poderiam lhe acontecer.  E aceita o amor do maestro com gosto e reciprocidade.  

 

A história é narrada com muita leveza: o que não é dito pode ser mais importante do que o que se encontra no papel.  É uma história quase escrita nas entrelinhas.  As elipses que ocorrem são não só preocupantes como eloqüentes.  Assim, Assis Brasil mostra a mão do bom escritor que é; controlando ambos texto e história,  sem hesitação.  Este é um romance pequeno, de apenas 176 páginas, que vai muito longe.  É  uma janela descortinando o inconsciente brasileiro.  Certamente sobreviverá no tempo, tornando-se um clássico, porque fala da alma brasileira.

 

 

 

Concerto campestre, Luiz Antonio de Assis Brasil, L&PM: 1997, Porto Alegre

 

 

 

Este texto apareceu primeiro em inglês, há dois anos, no portal: living in the postcard.

Luiz Antonio de Assis Brasil
Luiz Antonio de Assis Brasil