Cantiga da lavadeira, poesia de Mauro Mota

19 08 2015

 

 

Homero Massena (Brasil, 1886-1969) Lavadeiras, ost, sdLavadeiras, s.d.

Homero Massena (Brasil, 1886-1974)

óleo sobre tela

 

 

Cantiga da Lavadeira

 

Mauro Mota

 

 

Libertos da trouxa tremem

as calças e os paletós.

Doem na pedra pano e carne

sem anotações no rol.

 

Canto azul da lavadeira

lavado na ventania.

Mistura de corpos gastos,

de sabão, espuma e anil.

 

O suor da blusa operária

(chora o lenço de Maria)

Transita o amor pela anágua.

geme o lençol de agonia.

 

O sonho dorme na fronha,

a camisa precordial,

nódoas da fome da criança

na toalha da mesa oval.

 

Nas águas têxteis do rio,

há sabor de sangue e sal.

 

 

Em: Antologia Poética, Mauro Mota, Rio de Janeiro, Editora Leitura: 1968, p. 80.

 





Imagem de leitura — Victoria Harchencko

18 05 2015

 

 

Harchencko VictoriaPoema, 2008

Victoria Harchencko (Rússia, 1978)

óleo sobre tela, 123 x 80 cm

Victoria Harchencko





Os bois, soneto de Olegário Mariano

24 02 2015

 

 

Georgina de Albuquerque,Fazenda com figuras e animais, óleo sobre tela,(c.1952) - 39 x 47 cm.Fazenda com figuras e animais, c. 1952

Georgina de Albuquerque (Brasil, 1885-1962)

óleo sobre tela, 39 x 47 cm

 

 

Os bois

 

Olegário Mariano

 

É dolorosa a angélica atitude

Dos grandes bois lentos a trabalhar…

Sinto neles a força da saúde

A glória de viver para ajudar.

 

Da sua laboriosa juventude

Nada têm, pobres diabos a esperar…

Quem sabe? A vida pode ser que mude…

E eles se põem a olhar o campo, a olhar…

 

Tempo de safra. Brilham canaviais…

Gemem os carros e o rumor se irmana

À alma dos bois que geme muito mais.

 

Pacientemente seguem, dois a dois…

Há uma filosofia muito humana

No mugido e no olhar, tristes, dos bois…

 

 

Em: Toda uma vida de poesia: poesias completas (1911-1955) , Olegário Mariano, Rio de Janeiro, Editora José Olympio: 1957, 1º volume (1911-1931), p. 93

 





O cisne, poema de Geir Campos

6 02 2015

cisnes brancos, alice haversCisnes Brancos

Alice Havers (Inglaterra, 1850-1890)

O Cisne

Geir Campos

Pluma e silêncio, vinha pela vida

aceita com resignação, conquanto

talvez em hora alguma pretendida.

Pressente no ar o aviso da partida

— urge tentar o eterno: um voo, um canto,

um gesto nunca ousado, alguma prece…

Canta, e se vai. O canto permanece.

Em: Antologia Poética para a Infância e a Juventude, selecionado por Henriqueta Lisboa, Rio de Janeiro, Instituto Nacional do Livro:1961,p. 86.

 

 

 

 

 

 

 

 

 





Invisível, poema de Henrique Simas

13 01 2015

 

 

Lucia de Lima, garças na lagoa, acrílicast.Garças na lagoa, s.d.

Lucia de Lima (Brasil, contemporânea)

acrílica sobre tela, 27 x 35 cm

www.luciadelima.com

 

 

Invisível

 

Henrique Simas

 

 

Invisível é o ar

Invisível é a nuvem desfeita no céu

Invisível é a sombra que geme na noite

Invisível é a pérola no fundo do mar

Invisível é a marca do ressentimento

Invisível é a estrela que passou.

Invisível também és tu

Garça encantada da lagoa!

 

 

Em: Horizonte Vertical: poemas, Henrique Simas,prefácio de Alceu Amoroso Lima, Rio de Janeiro, Olímpica: 1967, p.90





Poema de Natal, Jorge de Lima

21 12 2014

 

Aldemir Martins, natividade, ost, 1969Natividade, 1969

Aldemir Martins (Brasil, 1922-2006)

óleo sobre tela

 

 

Poema de Natal

Jorge de Lima

 

 

ERA UM POEMA frequente,

repetido,

com o menino nos braços

de uma virgem.

Desse poema presente

e sempre ouvido,

os tempos e os espaços tinham origem,

 

pois à origem do poema

sempre havia

essa virgem e o infante

e a poesia.

E era o início e era a extrema

da criação,

era o eterno e era o instante

da canção.

 

Publicado em Rio, Rio de Janeiro, 1951

 

Em: Poesias Completas, Jorge de Lima, vol. IV, Rio de Janeiro, Cia. José Aguilar Editora: 1974.p. 58





A memória, desafio # Poemaday dia 2

2 12 2014

 

 

1954.031Sol da manhã, 1952
Edward Hopper (EUA, 1882-1967)
Óleo sobre tela
Columbus Museum of Art, Oh, EUA

 

Memória

 

Ladyce West

 

A memória te data,
Te mata,
Retrata
No passado
Sempre presente.
A memória,
Pingente fluido
Da mente.
Enevoada,
Idealizada.
Mente.

 

©Ladyce West, Rio de Janeiro, 2014





Cantiga, poema de Jair Amorim

6 09 2014

 

moça com sombrinha, Neysa McMein,AmericanMagazine 1925-08Moça com sombrinha, Ilustração de Neysa McMein, American Magazine, Agosto de 1925 [DETALHE].

 

 

Cantiga

 

Jair Amorim

 

Pensamento, pensamento,

mais veloz que um pé de vento

mais sonhador que um detento

mais duro que um sofrimento

mais forte que um juramento

mais feroz e violento

que o pranto de um sentimento.

Pensamento, pensamento,

cadê forças, onde o alento,

para tirar um momento

a amada do pensamento?

 

Em Canto Magro, Jair Amorim, EFES: 1995 (?), p. 41

 

 

Jair Pedrinha de Carvalho Amorim (ES 1915 – SP 1993) poeta, compositor e jornalista.





Canção de junto do berço, poesia de Mário Quintana

11 07 2014

 

 

bebe dormindo, Frances Tipton Hunter (1896 – 1957, American)Bebê dormindo, ilustração Frances Tipton Hunter (EUA, 1896 – 1957)

 

 

 

Canção de junto do berço

Mário Quintana

 

Não te movas, dorme, dorme

O teu soninho tranquilo.

Não te movas (diz-lhe a Noite)

Que inda está cantando um grilo…

 

Abre os teus olhinhos de ouro

(o Dia lhe diz baixinho).

É tempo de levantares

Que já canta um passarinho…

 

Sozinho, que pode um grilo

Quando já tudo é revoada?

E o Dia rouba o menino

No manto da madrugada…

 

 

Em: Poesia fora da estante, Vera Aguiar, Simone Assumpção e  Sissa Jacoby, 13ª edição, Porto Alegre, Projeto: 2007, p.19

 

 





Prelúdios, poesia de J. Dantas de Sousa

25 05 2014

 

 

margetson-william-henry-1861-a lady of qualityUma jovem de classe, s.d.
William Henry Margetson (Inglaterra, 1861-1940)
Aquarela e lápis sobre papel

 

Prelúdios

J. Dantas de Sousa

 

Por que em tua face angélica,

Meiga donzela formosa,

A cor purpúrea da rosa

Foi gratamente pairar

Quando outro dia eu em dúvida

Junto de ti quase a medo

Fui de minh’alma um segredo

Em segredo te falar?

 

Com sorriso terno e cândido,

No seio a fronte pendida,

Dizes não saber, querida,

Porque mudas-te de cor;

Pois eu sei:  — mimosa, ingênua,

Tu coraste, feiticeira,

Por essa a vez primeira

Que ouvias falar d’ amor.

 

Dize agora: se os meus lábios

Abrasados de desejos

Aos teus furtarem mil beijos

Hás de corar como então?…

Ai, não respondes; mas, lânguidos,

Dizem teus olhos brejeiros

Que hás de corar…aos primeiros:

Mas aos segundos — já não…

 

(Setembro de 1859)

 

Em:  O Espelho: revista de literatura, modas, indústria e artes, n. 17,  23 de outubro de 1859, p.11. da edição em facsímile, Rio de Janeiro, MEC:2008, p. 107.