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Benjamim Parlagrecco (Itália, 1856- Brasil, 1902)
óleo sobre cartão
PESP- Pinacoteca do Estado de São Paulo
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Benjamim Parlagrecco (Itália, 1856- Brasil, 1902)
óleo sobre cartão
PESP- Pinacoteca do Estado de São Paulo
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Anderson Conde (Brasil, contemporâneo)
óleo sobre tela, 60 x 80 cm
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Afonso Celso
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Não é monótona a selva brasileira. Cada árvore exibe fisionomia própria, extrema-se da vizinha; circunspectas ou graciosas, leves ou maciças, frágeis ou atléticas. Conforme reflexão de ilustre viajante, as matas brasileiras, tão compactas que se lhes poderia caminhar por cima, representam a democracia livre das plantas, democracia cuja existência consiste na luta incessante pela liberdade, pelo ar, pela luz. Preside a essa democracia perfeita igualdade. Não há família que monopolize uma zona com exclusão de outras famílias ou grupos. Espécies as mais diversas medram conjuntamente, fraternizam, enleiam-se. Daí a variedade na unidade, múltiplas e diversas manifestações do belo.
Notabiliza-se ainda a floresta brasileira pela ausência relativa de animais ferozes. É muito menos perigosa do que as da Índia. Habitam-na incalculáveis populações de mamíferos, abelhas, vagalumes, miríades de borboletas com asas de inefável colorido. Em lindas aves é a mais opulenta terra.
Garridos regatos deslizam por ela, derramando frescor. Cortam-na caudalosos rios, tão coalhados de plantas aquáticas que, apesar de profundos, não são navegáveis. O sol doura simplesmente o cimo das árvores. Não penetra através das grossas cortinas verdes senão de modo crepuscular, produzindo a grave penumbra das catedrais, ou o lusco-fusco das grutas marinhas. Só em espaçadas clareiras, avistam-se nesgas de azul. Em geral, a luz soturna e misteriosa empresta às coisas feições sobrenaturais. O conjunto é sublime.
Todos os sentidos aí ficam extasiados. Gozam todos os nossos sentidos artísticos. Com efeito, deparam-se-nos na floresta brasileira primores de arquitetura, de pintura e, sobretudo, de divina poesia.
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Em: Criança brasileira: quinto livro de leitura, Theobaldo Miranda Santos, Rio de Janeiro, Agir:1949.
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Afonso Celso de Assis Figueiredo Júnior, titulado Conde de Afonso Celso pela Santa Sé, mais conhecido como Afonso Celso, (Brasil, MG, 1860 — RJ, 1938) professor, poeta, historiador e político brasileiro. É um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras, onde ocupou a cadeira 36.
Obras (lista parcial)
Prelúdios – poesias, publicado aos quinze anos de idade (1876)
Devaneios (1877)
Telas sonantes (1879)
Um ponto de interrogação (1879)
Poenatos (1880)
Rimas de outrora (1891)
Vultos e fatos (1892)
O imperador no exílio (1893)
Minha filha (1893)
Lupe (1894)
Giovanina (1896)
Guerrilhas (1896)
Contraditas monárquicas (1896)
Poesias escolhidas (1898)
Oito anos de parlamento (1898)
Trovas de Espanha (1899)
Aventuras de Manuel João (1899)
Por que me ufano de meu país (1900)
Um invejado (1900)
Da imitação de Cristo (1903)
Biografia do Visconde de Ouro Preto (1905)
Lampejos Sacros (1915)
O assassinato do coronel Gentil de Castro (1928)
Segredo conjugal (1932)
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Dia de verão, 1904
Georgina de Albuquerque (Brasil, 1885-1962)
óleo sobre tela, 130 cm X 89cm
Museu Nacional de Belas Artes,Rio de Janeiro
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Depois de quase dez anos de volta ao Brasil, ainda me perguntam, do que eu mais sinto falta da minha vida lá fora. Concluí, recentemente, que minha nostalgia está relacionada à natureza. Sinto falta das estações do ano, dos rituais que cada uma delas traz para a vida de uma pessoa comum. Sinto falta daquela conexão com os ciclos da natureza.
Meu primeiro contato com o hemisfério norte foi num inverno. Dia 15 de dezembro desembarquei para o que na época acreditava ser por 3 anos. Permanecer lá por muito mais tempo, como aconteceu, não estava programado. Fui morar numa cidade muito arborizada, mas só descobri isso na primavera, pois em dezembro as ruas tinham enfileiradas nas calçadas só troncos, mais ou menos retorcidos, sem uma única folha. Um aspecto desolador. Não havia neve. Só frio. Deixando para trás o calor de verão no Rio de Janeiro, o frio pareceu muito intenso. Com os anos a sensação de frio diminuiu: eu já estava aclimatizada.
O conhecimento intelectual de que as folhas crescem com a aproximação da primavera, não retira o intenso prazer de vermos, ao final de fevereiro e no mês de março (na minha região), os pequeninos brotos, primeiro como verrugas, depois dedinhos delicados, saindo dos troncos, outrora aparentando estarem mortos.
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Jovem senhora no parque, 1880
Edouard Manet ( França, 1832-1883)
óleo sobre tela
Coleção Particular
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Existe a expressão Febre da Primavera [Spring Fever] que rotula um comportamento alegre, sapeca, cheio de energia, sensual e sexual, difícil de entender por quem só morou nos trópicos, onde as estações do ano quase não se manifestam com intensidade. A expressão rotula um momento de comunhão com a natureza, quando nossos instintos animais se manifestam, quando nos contagiamos com a alegria da primavera, com a promessa de um futuro promissor. Aqui não percebemos esse ímpeto da reprodução, essa força que embriaga, maior que nós mesmos. Porque nos trópicos isso acontece o ano inteiro, acaba desapercebido. Lá, tanto os mais velhos quanto crianças, que em tese estão fora dos parâmetros hormonais afetados pela “febre”, sentem o empurrão da natureza acoplado ao prazer de viver. É uma febre que brota de dentro da alma, uma bem-aventurança com apelo sensual, um prazer físico intenso despertando o corpo. Variações de latitude promovem a Febre da Primavera em diferentes semanas. Onde morei o início de abril trazia a vontade irreprimível de aventura. Mas antes disso, os sinais de que o mundo mudava já apareciam. Com que alegria víamos as primeiras forsythias! É uma planta com aparência desregrada, um arbusto de flores amarelas, que desabrocha quase de um dia para o outro, como se um ramalhete de raios de sol fosse plantado no jardim, mesmo quando ainda está coberto de neve. A forsythia é a primeira flor a aquecer olhos e corações. Depois dela, tulipas, narcisos e com as azaléas a primavera vinga! Sinto falta dessa sinfonia de cores e de cantos dos pássaros!
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A história de amor, 1903
Emanuel Phillips Fox ( Austrália, 1865-1915)
óleo sobre tela, 102 x 153 cm
Ballarat Fine Art Gallery
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A primavera traz também as primeiras colheitas de frutos: morango, framboesa, mertilo, amora. E nos estados onde morei nos Estados Unidos, saíamos de balde em punho, chapéu de palha e muito protetor solar, para os campos de sítios e fazendas que vendem essas frutas ao quilo se você colher. Eram sempre manhãs de sol em que sujávamos as mãos de terra, colhíamos as frutas nos pés e chegávamos à casa carregados, exaustos, vermelhos de calor, suados e muito felizes. Íamos então para a cozinha, lavar e comer as frutas frescas, o quanto bastasse, e com as sobras, o final de semana era dedicado a fazer tortas, bolos, geleias, alguma coisa para congelar e outras preservadas para os dias em que esses frutos já tivessem desaparecido.
Este também era o período do ano em que plantávamos pimentões, tomates e flores no jardim. Éramos visitados por bando de pássaros negros, possivelmente starlings, todo início de primavera, pássaros que tomam conta do jardim ou de uma árvore, mas não ficam por muito tempo. Se ainda não soubéssemos, a aparição desses pássaros mostrava que era hora de plantar Mudas das plantas que não sobrevivem durante o inverno e que precisam ser plantadas todos os anos são vendidas em todo canto, do supermercado às lojas de conveniência. Todo mundo entra na dança do plantio, mesmo na cidade grande, num ritual cansativo e alérgico. Sim, porque foi só lá que descobri ser muito alérgica ao pólen. Mas, antialérgicos ingeridos, íamos todos plantar algumas centenas de mudas de Maria-sem vergonha no jardim, (eu as plantava em abundância para me lembrar daqui) e também mudas de tomates e pimentões na área do quintal onde havia sol. A primavera era o período da alegria, da renovação, da esperança.
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Tarde sossegada
Ellen Lerner O’Donnell (EUA, contemporânea)
óleo sobre tela, 60 x 90 cm
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Outros pequenos rituais que marcam a estação também têm magia. Em março, às portas da primavera, há o dia de São Patrício, celebrado inicialmente pelos imigrantes irlandeses católicos. Em sua homenagem todos tentam vestir verde ou algo verde no dia 17. Chope, bebidas diversas, bolos são servidos coloridos de verde e decorados com o trevo de 4 folhas, símbolo do santo. Mais tarde, já no meio da primavera celebra-se a Páscoa. Lá, essa comemoração é marcante, sendo em geral, a primeira festa ao ar livre do ano. Todos vão às suas respectivas igrejas, vestidos para a primavera. Mulheres têm roupas em tons claros de rosa, azul, amarelinho, branco, beige e invariavelmente, até nos dias de hoje, um chapéu de palha. Mesmo na primeira década do século XXI, esse chapéu de palha com abas largas e fitas coloridas era item essencial para o dia da Páscoa.
Engana-se quem acredita que o verão nos Estados Unidos não é quente. É muitas vezes mais insuportável do que o carioca. As temperaturas são altas e a umidade é elevadíssima. À medida que o verão se aproxima, passa-se a aproveitar o ar livre no cair da tarde. Não são poucas as festas, as reuniões entre amigos que começam no quintal e acabam no ar condicionado na cozinha dentro de casa por causa do calor. Mas o verão trazia, como aqui, o chamado pela estadia fora da cidade, nas montanhas, nos rios e na praia. É a hora das férias, que são poucas – a grande maioria dos americanos tem só duas semanas de férias ao ano. Mas os rituais americanos de verão estão ritmados por 3 grandes feriados nacionais: o dia do Mortos nas Guerras [Memorial Day]– última segunda-feira de maio, dia da Independência, 4 de julho e o dia do Trabalho, primeira segunda-feira de setembro.
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Sem título, 2003
Arie Zuidersma (Holanda, 1925)
acrílica sobre papel, 69 x 89 cm
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É na primavera, em março, antes da Páscoa, que se acompanha as finais de basquete colegial, chamado de Loucura de Março, [March Madness] que nas cidades e nos estados da costa leste onde morei é tão importante quanto o basquete profissional. É o adeus aos esportes de competição em recinto fechado. Daí por diante começam os esportes ao ar livre. Basebol é o primeiro da fila, mas nunca consegui entender sua lógica. Durante os meses de março e abril faz-se a grande limpeza de casa, adequadamente chamada de Limpeza da Primavera [Spring Cleaning]. Lava-se a jato o exterior das casas, limpa-se e reparam-se as calhas. Assim que as escolas entram em férias, no início de maio, é a hora de se jogar fora o inverno com todas as suas poeiras e teias de aranha. Depois de meses e meses fechados por conta do clima, os americanos abrem suas casas para limpar, limpar tudo: telhado, janelas, varandas, decks, piscinas, ventiladores, canalização do ar condicionado. Limpa-se por dentro e por fora. Faz-se uma faxina nos armários dos quartos, da cozinha, dos banheiros e garagem. Pilhas e pilhas de objetos e roupas são colocados primeiro à venda nas conhecidas vendas de jardim, ou de garagem, onde os preços não passam de uns trocados, uma bagatela de poucos dólares, ou centavos, quer para objetos usados ou novos. O que não se vende doa-se. A data mais concorrida para o evento é justamente o fim de semana longo do Memorial Day, [Dia dos Mortos nas Guerras], que ritualmente fecha a primavera.
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Viveiros, 1890
William Merritt Chase(EUA, 1849 – 1916)
Óleo sobre madeira
Coleção particular
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O verão começa com a abertura das piscinas particulares e públicas que se enchem de crianças em férias, no feriado dos Mortos das Guerras. Até então a temperatura é fria demais para os esportes aquáticos ao ar livre. E os fins de semana começam a ser musicados pelo cantar incessante das máquinas de cortar grama. O ar cheira a grama cortada. Nessa época colhem-se os primeiros tomates que têm o gosto delicioso do jardim. Tudo que pode ser feito ao ar livre ganha novos adeptos: feiras dos pequenos produtores, exposições de arte e de artesanato nos parques da cidade. A maioria das cidades tem programas de música e teatro ao ar livre, à noite, porque o horário de verão permite que se tenha luz do dia até as 21-22 horas, convites para festas realizadas nos jardins de casa, encontros nos decks, regados a vinho californiano, abundam, ocupando as tardes dos fins de semana ao crepúsculo. O gosto do verão é melancia. Mas também cereja e cachorro-quente. Junho ainda é um mês agradável, mas mosquitos e outros insetos começam a dominar o ambiente. Essa manifestação de pragas voadoras em enorme quantidade foi uma das grandes surpresas que tive nos primeiros anos. Como as flores aparecendo todas juntas, de uma vez, cobrindo árvores e arbustos, os insetos também “brotam” juntos, aos montes. Não é à toa que leis da saúde pública requerem que toda casa tenha tela nas janelas. Sem tela, casas não podem ser vendidas, nem alugadas. A estação dos furacões entra em curso, mas em geral eles só chegam à costa a partir de agosto. Chove bastante no verão. Chove muito. Depois, o ar fica pesado e não leve como no Rio de Janeiro, porque a umidade não desaparece. O verde nas árvores já deixou para trás o frescor verde claro, cor de alface da primavera, as folhas adquirem tons escuros e as árvores têm a copa cheia para a sombra profunda. E o canto das cigarras acalenta o crepúsculo dos longos dias de julho e agosto. Lá e cá, o verão é a estação de que menos gosto.
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Horas de lazer, s/d
Lynn Renée Sanguedolce (EUA, contemporânea)
óleo sobre tela, 115 x100 cm
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O feriado de 4 de julho marca o meio da estação mesmo que este aconteça na 3ª semana do verão oficial. Isso porque assim como aqui, o verão é ritmado pelo calendário escolar. E no início de julho os alunos já estiveram de férias pelas últimas seis semanas. Em julho começa a época das hortênsias no jardins e nos estados do Mid-Atlantic – costa leste central dos EUA. Essas flores foram para mim, uma surpresa. Eu sempre as associara à estrada Teresópolis-Petrópolis, mil vezes percorrida nos verões da minha infância e juventude, caminho emoldurado por quilômetros de abundantes flores de hortênsias. Que ironia, só vim a ter arranjos hortênsias em vasos com água, quando as cultivei num jardim em outro país, e fica lindo, como aprendi com Martha Stewart. Elas, assim como a comemoração do dia da independência, simbolizam o meio do verão. Por isso mesmo as festividades do 4 de julho são simultaneamente alegres e nostálgicas. O dia da independência é comemorado ao ar livre, onde quer que você esteja. Não há 4 de julho sem piquenique, sem fogos de artifício, sem família e amigos reunidos, sem festa para comemorar, por mais abafado e quente que o dia se mostre. Daí por diante, sobram praticamente só mais seis semanas de verão. A última quinzena de agosto já é marcada pela correria da preparação para o ano letivo que começa próximo ao feriado nacional: o Dia do Trabalho, a primeira segunda-feira de setembro.
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Folguedo de verão, s/d
Lucius Rossi (Itália, 1846-1913)
óleo sobre tela , 60 x 52 cm
Christie’s Auction House, 1999
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Se o jardim recebeu sol suficiente, o final do verão é repleto de alegrias culinárias. Em geral colhe-se muito mais do que se consome. Começa então a tradição de final de verão: as conservas. Mesmo hoje, quando se encontra de tudo nos supermercados locais, até nas menores cidades, a tradição da conserva em vidro, consume donas de casa, mesmo as que trabalham fora, advogadas, economistas, empresárias. São centenas de receitas familiares que atravessaram gerações para a conserva de legumes e frutas, originalmente mantidas para os dias de inverno. Pepinos, que quase todo mundo planta, são transformados em picles, assim como cenouras, couve-flor, até mesmo a couve de Bruxelas. As partes brancas das melancias também são transformadas em um dos mais deliciosos picles que conheço. Melancias são frutas comuns do verão americano. O final de verão é a época de pêssegos e por isso inicia-se a estação dos deliciosos “cobblers”. O de pêssego é o meu favorito mas à medida que as frutas que dão em árvores começam a ser colhidas em abundância, essa sobremesa, feita de frutas e migalhas, açúcar e canela, aparece de todos os jeitos e formas. E os escritórios se enchem de cobblers trazidos pelos empregados. Aliás essa é uma característica americana que quase não vejo aqui: à noite as pessoas cozinham bolos, tortas, receitas especiais e levam receita inteira, extra, para dividir com os colegas de trabalho no dia seguinte. Isso aconteceu em todos, absolutamente todos os lugares onde trabalhei. E, não há distinção social de quem traz as guloseimas, pode ser a pessoa de menor qualificação ou o dono/diretor/executivo da área. Bolos de frutas e cobblers estão entre os mais levados por quase todos nessa época do ano, porque os jardins produzem mais do que se pode consumir.
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No pomar, 1891
Edmund Charles Tarbell (EUA, 1862-1938)
Óleo sobre tela, 154 x 166cm
Terra Foundation for American Art,
Daniel J. Terra Collection, Chicago, Illinois
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O ritmo da vida está totalmente submetido às estações do ano. E acho que é disso que sinto falta. Em meados de setembro, os dias já têm o ar um pouco mais frio. Começa a estação do futebol americano. Começa a estação dos piqueniques antes do jogo. Mas, pelo menos uma vez por dia, há um ventinho que quebra a monotonia do calor abafado. É o outono se anunciando, de longe minha estação favorita, a mais colorida do ano. Árvores trocam de cor e suas copas vão do amarelo claro ao escarlate antes das folhas caírem. Os jardins explodem numa grande palheta colorida com margaridões e crisântemos, plantados ou comprados. Esses “mums” – crisântemo [chirsantemum] — aparecem nos jardins e dentro das casas. As últimas begônias resistem e as samambaias de jardim já voltam ao seu período dormente, desaparecendo da paisagem. Assim como a primavera, o outono é de muito trabalho: tirar as folhas secas do chão e colocá-las em montes massivos no meio fio para a cidade vir pegar as pilhas e pilhas de folhas para o composto da cidade. Só folhas. Esses caminhões aceitam só folhas, eles são equipados com um aspirador gigante. E uma população enorme de 1.000.000 de jardins obedece, civilmente, aos pedidos do governo e só folhas são colocadas no meio fio: nem galhos de árvores podadas, nem um pouquinho de lixo… Chama-se responsabilidade civil. Sim, tenho saudades disso, dessa organização, em que ninguém se acha no direito de ter mais direitos do que outros. Durante este período também se planta bulbos no jardim: narcisos, tulipas e outros bulbos. No outono o solo ainda está macio para se plantar essas flores que precisam passar algum tempo no solo congelado do inverno para poderem florescer na primavera. Esta é um atividade que requer não só força física como bom planejamento e a habilidade de se imaginar o conjunto da obra daí a seis meses. Garanto: é sempre uma suspresa ver as flores na primavera seguinte.
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John Everett Millais (Inglaterra, 1829-1896)
óleo sobre tela, 95 cm x 75 cm
City Art Galleries, Manchester
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O outono traz outra delícia: as feiras rurais. Cada estado tem uma feira rural. São eventos gigantescos, porque são estaduais. Produtores de todo o estado participam nessa semana de festas da colheita. Há parques de diversões temporários, competições de bois, de coelhos, da melhor geleia. Há pequenos rodeios. É uma festa só, única, de dez dias. As escolas mandam seus alunos para que todos sintam o gosto e o prazer da vida rural. Há shows de música country, moderados, nada de alto falantes com decibéis de ensurdecer os vizinhos. Muita música e muita dança. Barraquinhas de comidas típicas do interior assim como acontece nas nossas festas juninas – que no Brasil também são a celebração do outono, das colheitas. Montanha russa, trem fantasma, roda gigante, algodão doce, maçã caramelizada no espeto, são alguns dos prazeres gentis desses dias encantados cujo frio de 10 a 14º C durante o dia contrasta com as noites de zero grau. Mas os céus do outono têm um azul de dar inveja: profundo, límpido e sempre sem nuvens. Sim, o outono é mágico. Fechando outubro há a festa das crianças, e realmente só as crianças participam de Halloween. Sim todo mundo compra bala para dar às crianças fantasiadas que batem à porta. Em geral não se celebra Halloween depois dos 12 ou 13 anos. Quando um adolescente desses aparece na nossa porta, nem sempre é bem recebido. Entende-se que, assim como Papai Noel, há coisas que só se faz ou se acredita em uma tenra idade.
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Grande ocasião, s/d
Clare Atwood (Inglaterra, 1866-1962)
óleo sobre tela
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Nas cidades também é o outono que traz os grandes espetáculos, as peças de teatro, os concertos, os musicais. É “a estação”, como se diz, quando começamos a nos acostumar a viver mais dentro de quatro paredes do que ao ar livre. Festas e reuniões abundam. De repente os amigos convidam para jantares, coquetéis, que se concentram nas cozinhas e nas salas ao redor. Assim será através do inverno, quando finalmente a lareira é acesa ritual que dependendo do frio vai até fevereiro. Vez por outra no céu vemos patos voando em grupos para o sul. Não só vemos. Podemos muitas vezes ouvi-los, vai depender do silêncio à nossa volta. Desse período de resfriamento do ar, do solo e de frio verdadeiro tenho saudades. O frio é facilmente combatido. Todo lugar é aquecido. Todos os meios de transporte também. Tenho saudades da brisa fria de encontro à pele, enquanto se anda até o teatro, ao show, à casa de um amigo. Muitas saudades porque é o período mais feliz e alegre do ano.
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O primeiro Thanksgiving, 1912-1915
Jean Leon Gerome Ferris (EUA, 1863-1930)
Óleo sobre tela
Coleção Particular
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Thanksgiving, um feriado que estamos querendo importar, numa das nossas maiores sandices imitativas. É um feriado tipicamente americano com sua própria história, toda americana, e simbolismo único. Ninguém tenta reinventar essa comemoração. Ela é centrada em uma refeição, composta sempre dos seguintes itens obrigatórios: peru, presunto, batatas doce, vagens, milho, torta de abóbora, geleia de Cranberry, melado. Você pode adicionar alguns elementos a essa refeição, mas não pode subtrair, ou sua família pensará que não teve Thanksgiving. É uma refeição no meio da tarde da última quinta-feira de novembro. Depois desse farto almoço ajantarado todos se colocam a postos para ver um grande jogo de futebol americano! Esta é a única data em que toda a família se reúne num único teto, o que eles chamam de família extensa, ou seja, mais do que pai, mãe e filhos. E a tradição é ter sempre uma pessoa de fora, de preferência um estrangeiro, porque esta festa surgiu para relembrar como os índios convidaram peregrinos estrangeiros, que se tornariam mais tarde americanos, para uma refeição em comum. Ocorre sempre nessa data e dá início às comemorações natalinas.
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Patinando no gelo, 1885
Hanry Sandham (Canadá, 1842-1910)
Gravura baseada no óleo do pintor
Coleção Particular
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Quando dezembro chega o jardim está nu. Todos os milhões de folhas do jardim já caíram e as árvores voltaram a ter aquele aspecto desolador, esqueletos escuros e sem vida. A natureza entrou em recesso. Arbustos floridos que dão tanta alegria na primavera e verão também perdem suas folhas: forsythias, hortênsias, azaleias se transformam em meros galhos sem cor. Para dar alento nos concentramos nas poucas “ilhas” verdes: cedrinhos, pinheiros, e na minha casa na Carolina do Norte muitas aucubas – arbustos de folhas verde e amarelo, que dão frutinhos vermelhos comidos pelos poucos pássaros que enfrentam o inverno [Louro-do-Japão ou Louro-manchado (Aucuba japonica) é seu nome]. Mas o Natal dá a justificativa de se alegrar o exterior da casa. Não só as guirlandas, círculo de verde nas portas, feitas justamente de galhos dessas plantas que não perdem as folhas, como guirlandas que decoram o exterior das casas, e as árvores que perderam suas folhas são decoradas com centenas de luzinhas brancas que iluminam um jardim que sem elas ficaria triste. E assim passa o mês de dezembro. O Natal, celebrado no dia 25 de dezembro, é uma festa íntima, só para o núcleo familiar: pai, mãe, filhos e em geral se permanece mais ou menos dentro de casa até a chegada do ano novo. Nos estados onde morei, no Mid-Atlantic, em geral não se tem um Natal com neve. Mas é frio, faz frio. Os dias mais frios do ano acontecem em janeiro e fevereiro, quando o próprio solo já não retém mais calor.
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Noite de inverno, 2006
Brian Larsen (EUA, 1975)
glicée gravura
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Mas o inverno traz outros pequenos rituais. É hora de se aprender a patinar no lago gelado, — ele gela mesmo que não haja neve no chão. Se há neve, então é uma festa. Atrapalha, é verdade, mas também é muito gostoso ter a vida atropelada por um monte de neve, pelo silêncio que ela traz mesmo às ruas mais movimentadas. Não há quem não tenha sorrisos quando vê os primeiros flocos de neve. A neve é sempre seguida de um dia de sol brilhante e céu azul. Mas frio, mesmo com sol, o frio é cortante. O inverno é também a época quando prestamos mais atenção às atividades domésticas de família, atividades de dentro de casa: jogos, leitura, visitas. As árvores estão sem folhas, a grama morreu, a natureza se despiu mas o mundo continua: as escolas têm aula, as pessoas trabalham, os dias são curtos. Não chove. Chuva é coisa de primavera e verão. E só nos resta esperar pelas delicadas camélias nos arbustos, em fevereiro, colorindo levemente o final do inverno.
A natureza determina o ritmo de vida, os rituais do dia a dia. Para esta carioca, acostumada a verões de seis meses e a não-verões de outros seis, a descoberta das estações do ano foi deslumbrante. Viciante. Cada mês tem seus segredos, suas necessidades. Em cada mês sente-se o passar do tempo e tenta-se aproveitar ao máximo as quatro semanas que levarão a outros dias, mais ou menos quentes, mais ou menos chuvosos, mas sempre encantadores. Sim, é disso que sinto falta, do movimento da natureza, perceptível, sentido na pele e no meio ambiente. Não sinto falta de mais nada. Gosto de estar ciente da passagem do tempo. Alerta para as mudanças que acontecem a cada semana. Eu me sinto mais viva!
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Nota: Morei nos seguintes estados: Maryland, Washington DC, Virgínia e Carolina do Norte.
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© Ladyce West, Rio de Janeiro, 2012
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Rua de Barbacena, 1969
Win Van Dijk (1915-1990)
óleo sobre tela, 37 x 61 cm
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“O Santo Cruzeiro ia a pouco e pouco emergindo ao sol. Um peixeiro que passava carregado para a Feira parou em frente ao gradil sagrado, de chapéu na mão, aproximou-se, beijou uma das cruzes de ferro cravadas no meio de um círculo no ponto donde sai cada lampião, meteu a mão no uru, tirou um vintém e sacudiu para dentro. O disco de cobre foi tinir no ladrilho, junto a enorme peanha adornada de assuntos religiosos em meio relevo de barro nas faces do prisma.
As cercanias, à distância, por trás do templo, alçavam os seus coqueiros, as suas mangueiras e plantações, uma povoação de folhagens por trás da de casarias. Para além desses blocos unidos de verdura, adivinhava-se o aspecto desolador do extenso bairro do Outeiro. Uma zona irregular e caprichosa de alegrias da vegetação, entre o mundo da cidade e o vasto aldeamento dos pescadores, dos lancheiros, dos trabalhadores da praia, dos homens do ganho, dos operários, e de uma numerosa população decaída, uns habitando cabanas, verdadeiras covas de palha desse esquimós do areal ardente. Através dos ruídos ouvia-se o cantar do galo ao longe.
Para a cidade, os tetos se distendiam esquentando o sol. Na Rua de Baixo, ali pertinho, o Mercado, com as suas paredes cor de sangue de boi, produzia uma zoada alegre, e era assim a modo de uma grande colmeia de gente. De fronte dele, ao meio da rua, estacionavam animais devolutos, quase a dormir em pé, sob as cangalhas. Nos armazéns, carroças carregavam açúcar. Espalhava-se um odor de água ardente, da destilação próxima, de par com o assobio da máquina a vapor.
A Rua das Flores abria diante da igreja. A população se movia, na labutação diária. De quando em vez brilhava a nota rubra de um xale no meio dos transeuntes afastados, que pareciam pisar em veludo.
Maria desce o patamar, e a sua fascinação continua a esperar de cada canto a imagem do primo. A rua, passando os castanheiros da praça, estendia-se ao olhar, com a sua casaria térrea, indo fenecer num horizonte longínquo, de alvo, de verde, de cinzento e de vermelho. O carro não podia partir imediatamente, porque um comboio de algodão nublava com a sua onda loira, a largura do arruado e avançava como a cabeça d’água de uma enchente, com um passo dançado e medido. Sobressaía ao lume da onda um vulto, a cavalo, e os gritos dos camboeiros e a sonaria dos chocalhos. Enfrentando com o Santo Cruzeiro os matutos descobriam, e depois de ter dobrado para a praia, ainda iam olhando religiosamente para trás.”
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Em: Obra Completa, Manuel de Oliveria Paiva, Rio de Janeiro, Graphia: 1993. Texto retirado do livro: Dona Guidinha do Poço, publicação póstuma, de 1952.
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Manuel de Oliveira Paiva (Brasil, 1861-1892). Escritor e abolicionista nascido no Ceará. Começou seu estudos como seminarista em Crato, carreira que abandonou, vindo para o Rio de Janeiro estudar na Escola Militar. Maas retorna ao Ceará em 1883 por problemas de saúde. Teve uma única obra publicada em vida, na forma de folhetim no jornal Libertador, em 1889, chamada A Afilhada. O romance Dona Guidinha do Poço, teve um destino tortuoso até chegar à publicação em 1952, sessenta anos após a morte do autor, que deixou o manuscrito inteiramente pronto ao morrer.
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Oscar Araripe ( Rio de Janeiro, contemporâneo)
86 x 110cm
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Para Luiz Carlos Alves
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Eu fui a Belo Horizonte
ver as meninas gerais.
Vi montanhas e montanhas,
soube de seus litorais,
conheci Minas por dentro,
gostei de alguns minerais,
visitei as novas praças
e seus antigos currais,
vi a toca das raposas,
ouvi discursos e uais,
vi políticos cursando
colégios eleitorais,
vi contistas e contistas
cada qual contando mais,
vi poetas de vanguarda
desenhando nos jornais,
conheci suas tendências,
seus refrões episcopais,
vi gente de toda parte,
do Piauí, de Goiás
(goiano fazendo cera,
piauiense muito mais),
vi homens pulando cercas,
mulheres com seus plurais,
vi a família mineira
na barra dos tribunais,
e na Rua Carangola
(Ouro Preto no cartaz)
vi uma moça morena
cantando seus madrigais,
fazendo um túnel no tempo
e me fazendo sinais
de que só existe Minas
na forma dos festivais,
quando o barroco já rouco
cochicha pelos beirais,
quando a lua e a serenata
passeiam pelos quintais,
quando há miados de gata
no serenô das gerais.
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Em: Plural de nuvens, Gilberto Mendonça Teles, Rio de Janeiro, José Olympio: 1990
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Gilberto Mendonça Teles (Bela Vista de Goiás, 30 de junho de 1931) é um poeta e crítico literário brasileiro.
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Obras:
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Alvorada, 1955.
Estrela-d’Alva, 1958
Fábula de Fogo, 1961
Pássaro de Pedra, 1962
Sonetos do Azul sem Tempo, 1964
Sintaxe Invisível, 1967
La Palabra Perdida (Antología),1967
A Raíz da Fala, 1972
Arte de Armar. Rio de de Janeiro: Imago, 1977
Poemas Reunidos, 1978
Plural de Nuvens, 1984
Sociologia Goiana, 1982
Hora Aberta, 1986
Palavra (Antologia Poética),1990
L ´Animal (Anthologie Poétique), 1990
Nominais, 1993
Os Melhores Poemas de Gilberto Mendonça Teles
Sonetos (Reunião), 1998
Joaquim Figueira (Brasil, 1904-1943)
óleo sobre tela, 50 x 60 cm
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Hélio Pellegrino
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Quanto silêncio em tua raiz,
árvore, respiraste,
para chegar a ousar
a doçura que ousaste;
quanta nortada sacudiu,
na fúria rouca de águas bravas,
tua galharia, até que houvesse
esta flor calma em tua haste.
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Em: Minérios domados- poesia reunida, Hélio Pellegrino, Rio de Janeiro, Rocco: 1993
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Hélio Pellegrino nasceu em Belo-Horizonte em 1924 e morreu no Rio de Janeiro em 1988. Cursou a faculdade de medicina em Belo Horizonte, mas terde vindo para o Rio de Janeiro com a família, inicia-se na psicanálise, que praticou por décadas ao mesmo tempo que se dedicava ao jornalismo. Teve também a oportunidade de desenvolver sua carreira de escritor e poeta.
Obras literária :
Poema do príncipe exilado, 1947
A burrice do demônio, 1988
Minérios Domados, 1993
Meditação de Natal, 2003
Lucidez embriagada, 2004
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Heitor dos Prazeres ( Brasil 1898-1966)
Óleo sobre tela
Às vezes um assunto fica na cabeça da gente, como um refrão de música popular que não conseguimos esquecer. Foi isso o que aconteceu comigo e Os Arcos da Lapa. Para me exorcizar volto ao assunto, 24 horas mais tarde. Passei a tarde a procura de um ou dois textos que me lembrava ter lido, mas não sabia onde. Bem aqui está um deles.
Texto do visitante James Hardy Vaux, no Rio de Janeiro em 1807:
Tendo mencionado as fontes públicas – em grande número nesta cidade – não posso deixar de descrevê-las. Em razão de haver poucas nascentes no Rio de Janeiro, a água é coletada no pico de uma elevada montanha e conduzida à cidade por um majestoso aqueduto, que atravessa um vale de muitas milhas de distância. Ao chegar à urbe a água é distribuída pelas fontes situadas nas ruas principais. Essas fontes, todas muito bonitas, são construídas em pedra e contam com uma grande cisterna para armazenar a água. Essa escoa daí por umas bicas de metal fundido, muito bem trabalhado, que têm a forma de bicos de ganso, de pato e de outras aves.
Em: Outras visões do Rio de Janeiro Colonial 1582-1808; antologia de textos, editado por Jean Marcel Carvalho França, Rio de Janeiro, José Olympio: 2000, p. 305
Chafariz do Largo do Moura, Rio de Janeiro, 1817
Thomas Ender (Áustria 1793-1875)
aquarela
Lúcia de Lima ( Brasil, contemporânea)
Acrílica sobre tela
Coleção Particular
As notícias de hoje me levaram aos Arcos da Lapa no Rio de Janeiro. Um acidente com o bondinho de Santa Teresa me fez pensar como seria triste a vida nesta cidade sem o bondinho passeando por cima dos Arcos da Lapa, um dos locais mais interessantes e atraentes do Rio de Janeiro.
Este não é só o símbolo da Lapa, tradicional bairro boêmio da cidade. Mas um símbolo do Rio de Janeiro. É, sem dúvida, uma das primeiras obras grandiosas da cidade. Com o passar dos séculos obras gigantescas quase se tornaram lugar comum na cidade, com governantes derrubando morros, fazendo aterros, perfurando montanhas de granito para abrirem longos túneis urbanos. Tudo de um gigantismo, de uma grandiosidade, raramente igualadas em qualquer outro lugar do mundo.
Lagoa do Boqueirão com o Aqueduto da Carioca ao fundo
Leandro Joaquim ( Brasil, c. 1738 – c. 1798)
óleo sobre madeira, originalmente para um dos Pavilhões do Passeio Público.
Museu Histórico Nacional, Rio de Janeiro
Os Arcos da Lapa estão entre as primeiras grandes interferências arquitetônicas no Rio de Janeiro. É a obra de maiores dimensões e maior impacto do período colonial. Seu nome original — Aqueduto da Carioca — quase explica sua função. Essa construção de pedra e argamassa, em estilo romano, com dupla arcada, 42 arcos e óculos, edificada nos anos entre 1744 e 1750, trazia para o centro da cidade as águas do Rio da Carioca.
Mas por incrível que pareça, estes não foram os primeiros arcos construídos como parte do Aqueduto da Carioca. Os Arcos que conhecemos hoje, vieram para substituir os Arcos Velhos. Os primeiros arcos do Rio de Janeiro foram decididos por ordem régia de 1672. Mas só foram inaugurados em 1723, junto com o Chafariz da Carioca. Sua função como a dos Arcos que vemos hoje na cidade era trazer as águas do Rio da Carioca até o Largo da Carioca. Esta obra, bastante ambiciosa, só começou a tomar forma no governo de Ayres de Saldanha [ e Albuquerque] (1719-26). Mas seu traçado repleto de curvas mostrou-se imprático, sem resistência, chegando às ruínas com grande rapidez.
Foi no governo de Gomes Freire de Andrade, último governador do Rio de Janeiro (1733 a 1763) — antes de ser criado o Vice-reinado –, que o Aqueduto da Carioca, que hoje conhecemos, foi construido e inaugurado.
Os arcos, no finalzinho do século XIX, quando os bondes foram eletrificados, 1896.
No final do século XIX o sistema de adução das águas do Rio da Carioca tornou-se obsoleto e o aqueduto foi desativado. Eis que surge, então, em 1896, a oportunidade de transformar tamanha construção em rota para o bonde elétrico, servindo assim aos moradores do bairro de Santa Teresa.
O bairro possui a única linha urbana remanescente de bondes do Brasil. A Companhia Ferro-Carril Carioca, que introduziu o serviço de bondes no bairro na década de 1870, eletrificou as linhas em 1896. E aproveitou a construção colonial como via de acesso ao bairro. Por ter sido feito onde corria o aqueduto, os bondes de Santa Teresa trafegam usando uma bitola especial, bastante estreita, de 1,10m.
Os Arcos da Lapa, Cartão Postal, 1925.