Arie Azene (Israel, 1934)
técnica mista, 3-D, 120 x 84 cm
Trude Waehner (Áustria, 1900-1979)
óleo sobre tela, 61 x 50 cm
Ontem foi o dia do primeiro encontro do novo grupo de leituras chamado Ao pé da letra. Este grupo, que já começa lotado e com fila de espera, é resultado direto do Papalivros, que em abril deste ano completa 13 anos de atividade ininterrupta, ou seja 156 livros lidos.
Por causa da página do Papalivros neste blog sempre tivemos uma fila de espera. Mas ultimamente a fila de espera estava muito longa com mais de 55 pessoas, só aqui no Rio de Janeiro. Assim resolvi ver se consigo, e acho que conseguirei, orquestrar mais um grupo.
Como aconteceu no primeiro grupo, este começa com membros de ambos os sexos, com pessoas dos mais variados caminhos que têm o amor à leitura e que gostariam de discutir, conversar, expressar suas opiniões a respeito daquilo que leem, enquanto forjam novas amizades, novos conhecimentos.
Começamos com um número maior do que o previsto para um bom desenrolar das funções, porque a experiência diz que muitos imaginam ter mais tempo do que de fato dispõem. Manter a leitura de um livro por mês pode ser mais difícil do que se imagina.
Ao pé da letra, assim como Papalivros, terá uma página neste blog. Mantivemos no grupo quase tudo que deu certo no outro grupo. A frequência dos encontros, a localização, o tipo de discussão, a maneira de avisar, o horário. Mas sobretudo a vontade de conexão com o outro.
A seleção de livros é democrática, com sugestões vindas dos membros. Assim como a definição dos estilos de leitura. Enquanto o Papalivros se concentra exclusivamente em literatura contemporânea, o Ao pé da letra abrirá os horizontes para incluir biografias, história e outros estilos.
A primeira leitura foi Um homem chamado Ove, de Fredrick Backman, estipulado pelo Papalivros. A segunda, a de abril é Infiel, de Ayaan Hirsi Ali.
Você poderá acompanhar os títulos escolhidos pelo grupo através da página neste blog.
Parabéns a todos os participantes. Foi um prazer — verdadeiro — conhecê-los ontem. Boa sorte e boas leituras. Que este grupo tenha tanto sucesso quanto seu irmão mais velho.
Ilya Galkin (Rússia, 1860-1915)
óleo sobre tela
“Infelizmente na cultura brasileira, existe a noção de que contar uma boa história é algo menor, de mero “entretenimento”; o verdadeiro artista cria obras rebuscadas, de difícil compreensão, repleta de silêncios e incongruências.”
Em: “A Antinarrativa”, Raphael Montes, O Globo, 18/11/2015, 2º caderno, página 6.
Retrato de N. V. Sapozhnikova, 1915
Nicolai Fechin (Rússia, 1881-1955)
óleo sobre tela
Museu de Arte, Tatarstan, Kazan
Noite de autógrafos, ilustração de J. Frederick, para Collier’s Magazine, década de 1950.
Caso você seja amigo do autor, não deixe de prestigiá-lo. Não é obrigatório comprar um livro; sua presença é o mais importante.
Caso compre o livro, espere na fila pelo autógrafo, como os demais. Não importa sua intimidade com o autor.
Não compre livros para ‘apenas’ dez amigos que não puderam comparecer e nem peça para que sejam autografados. Use o bom senso.
Estar arrumado é uma atitude de respeito e consideração; respeite os trajes pedidos em convites.
Não fique muito tempo no coquetel após o autógrafo. Vá embora e respeite o provável cansaço do autor.
Em: Sempre, às vezes, nunca – etiqueta e comportamento, Fábio Arruda, São Paulo, Arx: 2003, 8ª edição, p: 127-8.
[Moïse com Renée]
Moïse Kisling (Polônia/França, 1891-1953)
óleo sobre tela
Jessica Rohrer (EUA, 1974)
óleo sobre placa, 30 x 48 cm
“Na sala de aula, durante uma projeção de slides de arquitetura, ele escreve uma carta para os pais. Na semi-escuridão do auditório de palestras ele escreve que tudo está bem na faculdade, que o proprietário do apartamento é muito simpático e cuida bem dele. Quando termina, levanta a cabeça e vê os perfis dos colegas de classe iluminados pela luz do projetor, hipnotizados pelo clique-clique das transparências, pelo tom de voz monótono do professor e pelas brilhantes imagens das casas californianas na tela — o exterior de madeira, os pátios, as grandes extensões de vidro com vista para os jardins. Essas casas todas parecem muito limpas, simples, ensolaradas e alegres, portando em suas linhas descomplicadas a promessa de décadas dóceis, passadas na mesma cidade, na mesma rua, na mesma casa, mas sem oferecer proteção nenhuma contra o tédio que acompanha tudo isso. Olhando para as imagens, ele conclui que seus colegas de classe — simpáticos, com seus trajes impecáveis e essencialmente ilesos — são produtos de tais lares.”
Setembros de Shiraz, Dalia Sofer, Rio de Janeiro, Rocco: 2008, p. 40
Anne Redpath (Escócia, 1895-1965)
aquarela sobre papel
Nem todo livro de ficção fica conhecido pelo estilo poético do autor, pelo torneio de frases. O de Fredrik Backman será lembrado pelo oposto: consegue extrair grandes emoções, através da narrativa fria e impassível detalhando as idiossincrasias de um personagem carrancudo e sem senso de humor. Talvez por isso, esse improvável herói literário consiga desde o primeiro capítulo cativar o leitor. Todos nós conhecemos alguma versão de Ove. Quem não tem na família, no bairro, no emprego, algum conhecido que mantém hábitos de pensamento e ação rígidos? Os cinquenta e nove anos de posicionamentos imutáveis são a coluna dorsal de Ove, o homem simples que habita essas páginas. Suas verdades incontestáveis e valores incorruptíveis são a essência do seu caráter.
Apesar de sua postura irredutível sobre muitos aspectos do dia a dia, Ove é capaz de grandes paixões. Paixões cegas, que não admitem qualquer desvio. Elas podem ser pela marca de um carro ou por uma mulher. Através dessas paixões conhecemos a lealdade desse herói escandinavo. Nos apaixonamos por ele assim como Sonja, sua esposa, o fez.
Quando encontramos Ove, ele está deprimido. Aposentado aos cinquenta e nove e viúvo, sente o peso da solidão. Tudo o que deseja é seguir o caminho dela. No outro lado. A vida perdeu a razão de ser. Planeja cuidadosamente um suicídio. Depois outro e ainda outro, mas é interrompido cada vez pela mão do acaso, na figura de vizinhos bisbilhoteiros, que parecem tão determinados nas suas demandas quanto ele na sua decisão. Porque se trata de pessoa tão meticulosa, o dar errado de cada tentativa é inesperado. Narrado com objetividade a situação leva o leitor a rir. Não só a sorrir. Mas rir. Com gosto. Divertido.
No entanto, logo depois, nas conclusões dos capítulos somos presentados com um pensamento de Ove, sucinto, que exprime sua dor, seu amor, a falta que Sonja lhe faz. E do riso brotam as lágrimas. Com a mesma facilidade.
Fredrik BackmanUm homem chamado Ove demonstra a necessidade humana de ser útil, e de ser membro de um grupo. Na falta do amor, amigos mostram como a nossa presença é importante para o melhor desempenho deles. Mesmo o mais turrão dos homens, a pessoa menos gentil de um grupo, tem com que contribuir para o bem estar de todos e de si próprio. Essa é uma história que faz bem à alma e nos eleva. Acabamos a leitura com a lembrança do que nos faz humanos. Poucas histórias conseguem isso. Divertido e sensível, recomendo a todos, homens e mulheres, jovens ou anciãos. É tempo de lembrar do nosso mais importante quinhão: a cooperação. E de sua consequência, a aceitação.