Gastronomia literária: Muriel Barbery

1 11 2009

camarão

Um camarão, 2009

Robin J.  Mitchell ( Canadá)

óleo sobre madeira,  17,5 cm x 25 cm

http://robinjmitchell.blogspot.com

 

Lavou com cuidado o arroz tailandês numa pequena peneira prateada, escorreu-o, jogou-o na panela, cobriu-o com um volume e meio de água salgada, tampou, deixou cozinhar.  Os camarões jaziam numa tigela de louça.  Sempre conversando comigo, essencialmente sobre meu artigo e meus projetos, descascou-os com uma meticulosidade concentrada.  Nem um instante acelerou a cadência, nem um instante a diminuiu. Quando o último pequeno arabesco ficou despojado de sua ganga protetora, lavou conscienciosamente as mãos, com um sabonete que cheirava a leite.  Com a mesma serena uniformidade pôs uma frigideira de ferro no fogo, despejou um fio de azeite, deixou-o aquecer, jogou uma chuva de camarões descascados.  Com jeito, a espátula de madeira os manipulava, não deixando às pequenas meias-luas escapatória, dourando-as de todos os lados, fazendo-as valsar sobre a grelha perfumada.  Depois, caril. Nem demais nem muito pouco.  Uma nuvem sensual embelezando com seu dourado exótico o cobre rosado dos crustáceos: o Oriente reinventado.  Sal, pimenta.  Com a tesoura cortou um ramo de coentro em cima da preparação.  Por último, rapidamente, o conteúdo de uma tampinha de conhaque, o fósforo; do recipiente jorrou uma longa chama rabugenta, como um chamado ou um grito que afinal se liberta, suspiro furioso que se apaga tão depressa quanto se levantou.  

Na mesa de mármore aguardavam pacientes um prato de porcelana, um copo de cristal, uma prataria fantástica e um guardanapo de linho bordado.  No prato dispôs cuidadosamente, com a colher de pau, a metade dos camarões, o arroz previamente comprimido numa minúscula tigela e desenformado como uma pequena cúpula tendo no alto uma folha de hortelã.  No copo, serviu-se generosamente de um líquido cor de trigo transparente.

“Sirvo-lhe um copo de sancerre?”

Fiz que não com a cabeça.  Sentou-se à mesa.

Fazer uma boquinha.  Era o que Jacques Desterres chamava de fazer uma boquinha.  Eu sabia que não brincava, que todo dia preparava assim uma pequena dose de paraíso, que desconhecia o requinte de seu ordinário, verdadeiro gourmet, real esteta na ausência de encenação que caracterizava seu dia a dia.  Eu o observava comer, sem tocar no prato que ele preparara diante de meus olhos, comer com o mesmo cuidado distanciado e sutil que empregara ao cozinhar, e essa refeição que não provei foi uma das melhores de minha vida.

Degustar é um ato de prazer, descrever esse prazer é um fato artístico, mas a única verdadeira obra de arte, definitivamente, é o festim do outro. O almoço de Jacques Desterres revestia-se de perfeição porque não era o meu, porque não transbordava para o antes e depois do meu cotidiano, e, unidade fechada e auto-suficiente, poderia ficar em minha memória, momento único gravado fora do tempo e do espaço, pérola de meu espírito liberado dos sentimentos de minha vida.  Como contemplamos uma peça que se reflete num espelho redondo, e que se torna um quadro, não por estar mais aberto para outra coisa, mas por sugerir todo um mundo sem outros lugares, inscrito estritamente entre as bordas do espelho e exilado da vida ao redor, a refeição do outro é encerrada no quadro de nossa contemplação e isenta da linha de fuga infinita de nossas lembranças ou de nossos projetos. Gostaria de viver aquela vida, aquela que o espelho ou o prato de Jacques me sugeriam, uma vida sem perspectivas por onde se esvai a possibilidade que ela se torne uma obra de arte, uma vida sem outrora nem amanhã, sem arredores nem horizonte: aqui e agora, é belo, é pleno, é fechado.

 

Em: A morte do gourmet, Muriel Barbery,  São Paulo, Cia das Letras: 2009, p. 59-60.  Tradução de Rosa Freire D’ Aguiar.

 





Valsa da Vassoura, Dilan Camargo, poesia infantil

31 10 2009

bruxa com gato

Valsa da vassoura

Dilan Camargo

Senhora Dona Vassoura

Elegante Dama Loura

ao vê-la assim tão linda

minha tristeza se finda.

 

Vamos dançar uma valsa?

Pra poder acompanhá-la

este jovem se descalça

com medo de pisá-la.

 

Deixe enlaçar, dançarina

a sua cintura fina.

Deixe tomar, bem sensíveis

os seus braços invisíveis.

 

Ao soar a melodia

surpresa todos verão:

rodopia, rodopia

um belo par no salão.

 

Em: Poesia fora da estante, coord. Vera Aguiar, Simone Assumpção e Sissa Jacoby, Porto Alegre, Editora Projeto:2007

Dilan Deibal D’ Ornellas Camargo — ( Itaqui, RS, 1948) advogado, professor, escritor, poeta, teatrólogo e letrista.

Obra:

Em mãos, poesia, 1976

Na mesma Voz,  poesia, 1981

Sopro nos Poros,  poesia, 1985

O Embrulho do Getúlio, poesia infantil, 1989

Rebanho de Pedras, poesia, 1990

O Vampiro Argemiro, poesia

Eu pessoa, pessoa eu, poesia, 1997

Poesia e Cidade, poesia, 1997

Bamboletras, poesia, 1998

O tempo começa no coração, poesia, 1999

A Fala de Adão, poesia, 2000

Antologia do Sul – Poetas Contemporâneos do RS, poesia, 2001

A Galera Tagarela, poesia, 2003
 
Coletânea da Poesia Gaúcha do RS, poesia, 2005
 
Balaio de Idéias, poesia,  2007
 
BrinCRiar, poesia infantil, 2007
 
A Casa da Suplicação, teatro
 
A Oitava Praga, teatro




A arteira e a arte — poema infantil de Dilan Camargo

29 10 2009
maquiagem 4Ilustração Maurício de Sousa.

 

A arteira e a arte

Dilan Camargo

 

Mamãe me empresta tua bolsa

teu colar e teus sapatos

depois me passa batom

que vou tirar um retrato.

 

Deixa eu me olhar no espelho

deixa só por um instante.

Quero batom mais vermelho

quero um colar mais brilhante.

 

A sala é uma passarela

requebro e faço proeza

sou artista de novela

a rainha da beleza.

 

Será que o sonho termina

quando desço dos sapatos?

Será que baixa a cortina

quando chega o fim do ato?

 

 

Em: Poesia fora da estante, coord. Vera Aguiar, Simone Assumpção e Sissa Jacoby, Porto Alegre, Editora Projeto:2007

Dilan Deibal D’ Ornellas Camargo — (Itaqui, RS, 1948) advogado, professor, escritor, poeta, teatrólogo e letrista.

Obra:

Em mãos, poesia, 1976

Na mesma Voz,  poesia, 1981

Sopro nos Poros,  poesia, 1985

O Embrulho do Getúlio, poesia infantil, 1989

Rebanho de Pedras, poesia, 1990

O Vampiro Argemiro, poesia

Eu pessoa, pessoa eu, poesia, 1997

Poesia e Cidade, poesia, 1997

Bamboletras, poesia, 1998

O tempo começa no coração, poesia, 1999

A Fala de Adão, poesia, 2000

Antologia do Sul – Poetas Contemporâneos do RS, poesia, 2001

A Galera Tagarela, poesia, 2003
 
Coletânea da Poesia Gaúcha do RS, poesia, 2005
 
Balaio de Idéias, poesia,  2007
 
BrinCRiar, poesia infantil, 2007
 
A Casa da Suplicação, teatro
 
A Oitava Praga, teatro




Papa-livros: A costa do mosquito, Paul Theroux

28 10 2009

Henri Rousseau, Floresta Tropical com macacos, 1910, Tate Gallery, LondresFloresta Tropical com macacos, 1910

Henri Rousseau ( França, 1844-1910)

óleo sobre tela

National Gallery, Washington DC

Há uma semana tento escrever sobre o livro A costa do mosquito de Paul Theroux, (Rio de Janeiro, Alfaguara: 2009), romance eleito para discussão no mês de outubro no grupo de leitura Papa-livros.  A razão da minha dificuldade está na tensão que sinto entre dois opostos: um excelente romance, com uma narrativa extraordinária, de um lado e do outro lado, personagens totalmente detestáveis com exceção do narrador, um menino se aproximando da adolescência, pelo qual sinto total indiferença.  Esta combinação tem me deixado paralisada. 

O enredo é bastante simples: um homem, um inventor, quase genial, insatisfeito com a moderna sociedade americana, empacota suas coisas e família mudando-se para a América Central, onde pretende instalar numa região remota os rudimentos de uma sociedade perfeita.  É a história de um psicopata, um “survivalist”, egocêntrico, que submete os 4 filhos e sua esposa a um grande sofrimento, na esperança sem base realística de que poderá “re-inventar” o mundo, a sociedade, a maneira de viver.  Seu relacionamento amoroso, com filhos e mulher, se queda no parâmetro da insensibilidade.  Sempre com desculpas para qualquer fracasso, tende a colocar a culpa em outros ou na sociedade que o cerca.  Nunca sente arrependimento ou remorso e leva sua prole a sofrer, física e mentalmente, às vezes quase que se divertindo com seu sofrimento, mostrando continuamente um comportamento anti-social, em prol de um benefício que só ele parece perceber.

É difícil decidir qual dos personagens é mais detestável nessa trama:  Se Allie Fox, cativo de sua condição mental, aparentemente são, mesmo que suas ações revelem o contrário; ou se “Mãe”, sua cara-metade, que aceita o comportamento esdrúxulo  do marido, facilitando sua performance, mesmo que esta se realize em detrimento da educação, do desenvolvimento, da segurança e da saúde de sua prole.

O resultado do romance é esmagador, enfurecedor,  revoltante.  Reconheço que houve momentos em que tive que colocar o livro de lado, tal minha agonia quanto ao comportamento dos dois adultos desta perigosa família.  Se consegui terminar o livro foi por exclusiva admiração ao autor, à sua habilidade com a escrita e em respeito ao seu trabalho anterior.

A Costa De Mosquito

Paul Theroux sempre me encantou com sua facilidade descritiva e aqui continua a mostrar uma narrativa cheia de imagens ricas e inovadoras.  Continua sensacional.  Vejamos por exemplo este parágrafo no início do livro, quando Charles decide sair de casa para ver onde estaria seu pai, no campo, à noite:

Nossa casa era rodeada de campos lavrados.  Arvoredos cresciam nas extremidades de cada um, para quebrar o vento. O milho e o tabaco já começavam a brotar e embora fosse mais fácil caminhar entre os sulcos, mantive-me na trilha, com os braços à frente do rosto, para me proteger dos galhos.  Pior que eles, as teias de aranha atravessavam o caminho e se prendiam em meus cílios.  Os bosques eram cheios de charcos, e o som dominante na noite era a algazarra das rãs arborícolas – pequenas, escorregadias e lustrosas como iscas de peixe.   As árvores, azuis e negras, lembravam enormes bruxas… [p. 20]

Ou, esta passagem, bem mais no fim do livro:

Jerônimo parecia ter sido bombardeada.  Era principalmente pó, um bolsão de cinzas ardentes.  As árvores ao redor tinham se transformado em estacas.  Como o fogo se espalhara, a clareira se tornara maior, semelhante a uma cratera.   Os encanamentos do Menino Gordo haviam desmoronado – e estavam embranquecidos como ossos.  As bombas tinham caído.  Nenhuma casa ou abrigo ficara de pé.  As plantações estavam carbonizadas. Alguns caules restantes estavam empolados como carne queimada.  O milharal estava arrasado.  As abóboras e os tomates haviam explodido e minavam suco – tinham sido cozidos até apodrecer.  Algumas frutas se pareciam com bolsas esfarrapadas.

Mas as ruínas e as cinzas não eram nada comparadas ao silêncio.  Estávamos acostumados aos gorjeios e aos grasnidos dos pássaros, e com o ciciar retumbante das cigarras.  Não havia som, nem movimento.  Toda a vida existente em Jerônimo fora consumida pelo fogo.  Os pássaros que víamos estavam mortos, carbonizados, encolhidos, depenados, com asas minúsculas e cabecinhas ridículas, não mais do que bolotas.  Peixes viscosos boiavam na superfície do tanque.  Ao sol da tarde, tudo estava morto, silencioso e malcheiroso.  Algumas pilhas de escombros ainda fumegavam. [p. 321]

Minha familiaridade com Paul Theroux é baseada tanto nos livros de  ficção quanto nos seus livros de viagem.  Na ficção, lembro-me com muito gosto de Saint Jack, The consul’s file e Hotel Honolulu, livros que li quando morava fora do Brasil.  A costa do mosquito, no entanto, está na lista daqueles não lidos no original, apesar de ter sido um romance transformado em filme em 1986, dirigido por Peter Weir.  É difícil imaginar Harrison Ford, um galã de primeira linha, fazer o personagem principal desta saga familiar, porque Allie Fox, o papel que desempenha no filme, é um dos homens mais detestáveis da literatura americana!  Mais difícil ainda, é imaginar a fantástica atriz inglesa Helen Mirren, que parece ter sempre papéis de mulheres fortes, vestir-se na pele de “Mãe” – personagem casada com Allie Fox e talvez ainda mais desprezível que seu marido pela silenciosa  aderência aos planos do marido, por ser a facilitadora de um tipo de abuso sofrido pela ela mesma e por seus filhos, sem nunca se revoltar.

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Cena do filme A Costa do Mosquito, com Harrison Ford.

Com freqüência, durante a leitura de A costa do mosquito, lembrei-me de um outro livro que li há um pouco mais de um ano, também americano, chamado O castelo de vidro, de Jeannette Walls — uma leitura escolhida pelo grupo Papa-livros em março de 2008.  Este, baseado na verdadeira história da autora.   As circunstâncias de uma família disfuncional, com pais irresponsáveis, beirando a loucura, também são descritas nessa autobiografia.  Lá também temos um pai com comportamento anormal e uma mãe facilitadora.  Em ambos leva muito tempo para os filhos perceberem a situação de extrema dependência em que se encontram e fazerem o que é necessário para se salvarem.    Em ambos os livros, quer na ficção, quer na autobiografia, seus narradores,  — uma criança em cada uma das famílias – mostram grande fascinação por seus pais, fascinação mesclada por medo indistinto.   São crianças aterrorizadas pelos adultos dos quais dependem, e que não conseguem refrear seu amor e dedicação aos pais, como se só eles pudessem entender o gênio que se esconde por trás da loucura.    Há momentos em que Charles, em A costa do mosquito, filho mais velho, parece estar a ponto de descobrir a loucura de seu pai, mas tudo não passa de um vislumbre e se despedaça em segundos. 

Charles não chega a se lembrar, como nós leitores o fazemos,  nem mesmo de uma história contada, só para ele,  pelo Sr. Polski.  Uma história que preconiza o futuro de Charles.  Nela, um rapaz que sofreu na infância pelas manias do pai, morde-lhe fora uma orelha como parte de seu último desejo à beira da morte.  Esta história, contada como a dvertência ao menino pelo futuro nefasto que poderia ter, só encontra raízes no leitor, que naquela hora [p.69] sabe como a história de Charles se solucionará.  Mas o menino  leva muito tempo para que a imensidão do abuso a que foi submetido venha a trazer a revolta e fruir os resultados que o liberarão.  Vejamos um exemplo da estranha mistura de loucura e fascinação que Allie Fox exerce, pela descrição de Charles sobre o comportamento de seu pai:

 A prova disso é que estávamos em uma pipanto de quatro metros, seguindo rapidamente em direção à costa.  Não passava de uma canoa de fundo chato, mas tínhamos sombra, assentos e fumaça para espantar mosquitos. O Pai tinha convertido aquilo em alguma coisa veloz e confortável. Falava de forma desenfreada, mas sua loquacidade era criativa.  Durante todo o percurso rio abaixo, não parou de falar.  Estivera preocupado.  Ontem, havia chorado; hoje vociferava contra sua experiência e sobre o fim do mundo.  Parecia faminto.  Estava muito agitado e, agora, mais previsível do que nunca.  Mas não havia no mundo ninguém mais engenhoso. [p. 335]

paul theroux

Paul Theroux

Com os vaivens das minhas opiniões sobre este romance, só o recomendaria a quem estivesse interessado em um estudo da personalidade psicopata.  Se o seu objetivo, no entanto, é conhecer o excelente escritor Paul Theroux, recomendo que se entregue de corpo e alma à leitura de algum outro de seus títulos.





A morte da águia, poema de Luís Guimarães Júnior

26 10 2009

águia, pintura chinesa

Águia em vôo

Aquarela chinesa

 

A postagem de um poema de Vicente Guimarães neste blogue, João Bolinha virou gente, lembrou à leitora Vânia um poema que ela precisou decorar para a escola, chamava-se A morte da águia.  E ela me pediu que se eu o conhecesse que lhe mandasse esse poema, pois  não se lembrava de todas as estrofes. 

De fato, o poema que conheço com este título  é um antigo e belíssimo poema,  bastante longo, de Luís Guimarães.  E aqui está para nós todos nos deliciarmos.   

 

A morte da águia

 

Luís Guimarães

 

A bordo vinha uma águia.  Era um presente

Que um potentado, — um certo rei do Oriente,

Mandava a outro: — um mimo soberano.

Era uma águia real.  Entre a sombria

Grade da jaula o seu olhar luzia,

Profundo e triste como o olhar humano.

 

Aos balanços do barco ela curvava

Ao níveo colo a fronte que cismava…

E enquanto as ondas túrbidas gemiam,

Ao som do vento – em fúnebres lamentos

Ela pensava nos longínquos ventos

Que do Himalaia os píncaros varriam.

 

Fora uma infame e traiçoeira bala,

Que, do régio fuzil negra vassala,

Invisível – uma asa lhe partira:

Cheia de luz, tranqüila, majestosa,

Dobrando a fronde branca e poderosa,

Aos pés de um rei a águia real caíra.

 

Os bonzos vis, proféticos doutores,

Sondando-lhe a ferida e as cruas dores,

Que um venenoso bálsamo tentava

Apaziguar em vão, — diziam rindo:

“Não há no mundo exemplar mais lindo:

Vale um império!” – E a águia agonizava.

 

Um dia, enfim, o animal valente

Resistindo aos martírios, — largamente

Respirou a amplidão.  A asa possante

Abrir tentou de novo.  Aberta estava

A jaula colossal que o esperava:

Forçoso era partir.  Desde este instante,

 

A águia sombria e muda e pensativa,

Solene mártir, vítima cativa,

Terror dos vis e símbolo dos bravos,

Pediu a morte a Deus, — pediu-a ansiosa

Longe, porém, da corte vergonhosa

Desse covarde e baixo rei de escravos.

 

Pediu a morte a Deus, o cataclismo,

As convulsões elétricas do abismo,

As batalhas finais!  Morrer num grito

Vibrante, imenso, heróico, soberano,

E fremente rolar no azul do Oceano,

Como um titã caído do infinito.

 

Morrer livre, cercada de vitórias,

Com suas asas – pavilhão de glórias –

Inundadas da luz que o Sol espalha:

Ter o fundo do mar por catacumba,

As orações do vento que retumba,

E as cambraias da espuma por mortalha.

 

Entanto, melancólica, tristonha,

Como um gigante mórbido que sonha,

Fitava, às vezes, o revolto oceano,

Com esse olhar nublado e delirante,

Com que saudava a César triunfante

O moribundo gladiador romano.

 

O comandante – urso do mar bondoso —

Disse um dia ao escravo rancoroso,

Ao carcereiro estúpido e inclemente:

“Leve-a ao convés.  Verá que esse desmaio

Basta para apagá-lo um brando raio

Do largo Sol no rúbido oriente.”

 

Subiu então a jaula ao tombadilho:

Do nato dia ao purpurino brilho

Salpicava de luz o céu nevado…

E a águia elevando a pálpebra dormente

Abriu as asas ao clarão nascente

Como as hastes de leque iluminado.

 

O mar gemia, lôbrego e espumante,

Açoitando o navio; — além – distante,

Nas vaporosas bordas do horizonte,

As matutinas névoas que ondulavam,

Em suas várias curvas figuravam

Os largos flancos triunfais de um monte.

 

“Abre-lhe a porta da prisão,” ( ridente

O comandante disse ) “Esta corrente

Para conter-lhe o vôo é mais que forte!

Voar!  pobre infeliz!  causa piedade!

Dê-lhe um momento de ar e liberdade!

Único meio de a salvar da morte.”

 

Quando a porta se abriu, — como uma tromba,

Como o invencível furacão que arromba

Da tempestade as negras barricadas,

A águia lançou por terra o escravo pasmo,

E desprendendo um grito de sarcasmo,

Moveu as longas asas espalmadas.

 

Pairou sobre o navio — imensa e bela –

Como uma branca, uma isolada vela

A demandar um livre e novo mundo;

Crescia o Sol nas nuvens refulgentes,

E como um turbilhão de águias frementes,

Zunia o vento na amplidão,  – profundo.

 

Ela lutou, ansiosa!  Atra agonia

Sufocava-a.  O escravo lhe estendia

Os miseráveis e covardes braços;

Nu o oceano ao longe cintilava

E a rainha do ar, em vão, buscava

Onde pousar os grandes membros lassos. 

 

Sobre o barco pairou ainda, — e alçando,

Alçando mais os vôos,  e afogando

Na luz do Sol a fronte alvinitente,

Ébria de espaço, ébria de liberdade,

Como um astro que cai da imensidade,

Afundou-se nas ondas de repente.

 

 

luisguimaraesjunior

 

Luís Caetano Pereira Guimarães Júnior (RJ 1847 – Lisboa 1898), advogado, jornalista, ministro, diplomata, poeta, romancista, teatrólogo.  Estudou no Colégio Calógeras em Petrópolis e cursou as faculdades de Direito de São Paulo e do Recife.   Colaborador dos periódicos A reforma, A república, O correio paulistano, Imprensa Acadêmica de São Paulo, Gazeta de Notícias. Membro da Academia Brasileira de Letras, membro da Academia de Belas Artes do Chile, membro da Academia do Quiriti em Roma, membro da Arcádia Romana, membro da Sociedade de Geografia Italiana, oficial da Ordem da Rosa, oficial da Ordem de Cristo e da Ordem de São Tiago, cavaleiro da Ordem Romana do Sepulcro e da Ordem de São Gregório Magno.

 

Obra:

 

A Alma do outro mundo,  1913  

A Carlos Gomes, 1870  

A entrada no céu,   1882  

A família Agulha, 1870  

A morte, 1882  

André Vidal, séc. XIX   

As Jóias indiscretas, séc. XIX   

As Quedas fatais, séc. XIX   

Ave Estela, 1865  

Contos sem pretensão,  1872  

Corimbos, 1866  

Ernesto Couto, 1872  

Filigranas,  1872  

Lírica, 1880  

Lírio Branco, 1862  

Mater dolorosa, 1880  

Monte Alverne, séc. XIX   

Noturnos, 1872  

O Caminho mais curto, séc. XIX   

Os Amores que passam, séc. XIX   

Pedro Américo, 1871  

Um Pequeno demônio, séc. XIX   

Uma Cena contemporânea, 1862  

Valentina, séc. XIX





Em homenagem às sardinhas…

25 10 2009

adolphe montecelli  French, 1824 - 1886, Still Life with sardines and sea urchins, 1880-2, oil on wood panel,81,28 x 94,61cm, Dallas Art Museum, TxNatureza morta com sardinhas e ouriços do mar, 1880-1882

Adolphe Montecelli (França 1824-1886)

óleo sobre madeira,  81 x 95 cm

Museu de Arte de Dallas, EUA

 

 

Estou lendo A morte do gourmet, primeiro livro publicado de Muriel Barbery, a escritora francesa que ficou famosa pela publicação do livro A elegância do ouriço, já aqui resenhado.   Depois de ler a passagem sobre sardinhas, lembrei-me também dessa deliciosa refeição que são as sardinhas grelhadas, tão comuns tanto no Brasil como em Portugal e tive que sair à procura de uma refeição que incluísse pelo menos peixe.  Segue:

 

As sardinhas grelhadas impregnavam de seu perfume oceânico e cendrado todo o quarteirão.  Uma fumaça espessa e cinza escapava das tuias que cercavam o jardim.  Os homens das casas vizinhas iam dar uma mãozinha ao vovô.  Sobre imensas grelhas,  os peixinhos prateados já estalavam ao vento do meio-dia.  Ríamos, falávamos, abríamos garrafas de vinho branco seco bem gelado, os homens sentavam enfim e as mulheres saíam da cozinha com pilhas de pratos imaculados.  Habilmente, minha avó pegava um corpinho rechonchudo,farejando seu perfume, e o jogava no prato, em companhia de alguns outros.  Com seus bons olhos idiotas ela me olhava, gentil, e dizia: “Tome, ei, pequeno, a primeira é sua!  Virgem, como ele gosta disso, puxa!”.   E todo mundo caía na risada, batia nas minhas costas enquanto o prodigioso pitéu aterrissava diante de mim.  Eu não ouvia mais nada.  Com os olhos saltados, encarava o objeto de meu desejo; a pele cinza empolada, sulcada por longos lastros pretos, já não aderia aos flancos que cobria.  Minha faca fazia uma incisão nas costas do bicho e dividia com cuidado a carne esbranquiçada, cozida no ponto, que se separava em lâminas bem firmes, sem um toque de resistência.

 

Em: A morte do gourmet, Muriel Barbery,  São Paulo, Cia das Letras: 2009, p. 34-5.  Tradução de Rosa Freire D’ Aguiar.





Imagem de leitura — Lord Frederick Leighton

11 10 2009

Lord Frederick Leighton (1830-1896) Study_At_a_Reading_Desk 1877  OST Sudley House LiverpoolEstudando no cavalete de leitura, 1877

Lord Frederick Leighton (Inglaterra, 1830-1896)

Óleo sobre tela

Sudley House, Liverpool

 

Lord Frederick Leighton —  (Inglaterra, 1830-1896) —  1º Barão de Leighton, foi um pintor e escultor inglês de renome.  Não foi nobre de nascimento, tendo nascido de uma família de comerciantes  importadores/exportadores.  Depois de se formar na Inglaterra pela University College School em Londres, Frederick Leighton foi para a Europa continental aprimorar seus estudos.  Lá  depois de algumas aulas com Eduard von Steinle, embarcou aos 24 anos para a Itália, onde estudou com Giovanni Costa.  Radicou-se em Paris, onde viveu por cinco anos a partir de 1855.  Em 1860 retorna à Inglaterra e faz parte do movimento pré-rafaelita.  Um excelente pintor, Frederick Leighton deixou uma vasta obra onde se incluem, entre outros, quadros com temas históricos, bíblicos e clássicos.





O Corpo Humano, em versos infantis de Walter Nieble de Freitas

10 10 2009

 corpohumano,menino 3Ilustração, Maurício de Sousa, adaptada.

 

O Corpo Humano

                                                     Walter Nieble de Freitas

 

Toda criança estudiosa,

Que deseja passar de ano,

Deve saber que em três partes

Se divide o corpo humano.

 

São: cabeça, tronco e membros

— É bem fácil a lição —

Vejamos parte por parte,

Preste, pois, muita atenção.

 

Na memória, guarde bem,

É importante, não se esqueça!

Somente de crânio e face

Se constitui a cabeça.

 

corpo humano menina 5

Ilustração, Maurício de Sousa, modificada.

 

No crânio, ficam o cérebro

E outros órgãos protegidos;

Estão na face o nariz,

A boca, os olhos e ouvidos.

 

O tronco está dividido

— Veja as Ciências Naturais —

Em tórax e abdome,

Duas partes, nada mais.

 

Localizam-se no tórax

— Não vá fazer confusão —

Dois órgãos muito importantes:

Os pulmões e o coração.

 

corpo-humano-1

 

Fazem parte do abdome:

Estômago, pâncreas e rins

E também os intestinos

Com outros órgãos afins.

 

Em dois planos diferentes

Os membros estão situados:

Superiores e inferiores

São eles asssim chamados.

 

São dos membros superiores

— Aprenda bem a lição —

O ombro, o braço, o antebraço

E também a nossa mão.

 

corpo-humano-2

 

Vejamos os inferiores

— Você quer saber, não é? —

São estas as suas partes:

Quadril, coxa, perna e pé.

 

O nosso corpo precisa

Banho com água e sabão,

Bastante exercício, ar puro

E boa alimentação.

 

Mas, ao lado de tudo isto,

Não descuide da instrução,

Porque assim você terá

Mente sã em corpo são.

 

Em: Barquinhos de papel: poesias infantis, Walter Nieble de Freitas, São Paulo, SP, Editora Difusora Cultural:1961.





Matriz esparsa: Chamfort, Da pressa…

8 10 2009

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Nos dias de hoje, um pintor faz o nosso retrato em sete minutos;  outro nos ensina a pintar em três dias; um terceiro homem ensina inglês em quarenta lições.  Há quem queira nos ensinar oito idiomas com gravuras que representam as coisas e têm embaixo os seus nomes.  Enfim, se fosse possível colocar todos juntos,  os prazeres, os sentmentos, ou as idéias de uma vida inteira, e reuní-los num espaço de 24 horas , eles fariam isso:; fariam com que engolíssemos essa pílula e nos diriam: “Pronto, pode ir embora.”

Em: Máximas e pensamentos, Chamfort, Rio de Janeiro, José Olympio:2007

chamfort

 

Sebastien-Roch-Nicholas Chamfort ( França,  1740-1794)





Imagem de leitura — Ignat Bednarik

4 10 2009

Ignat Bednarik (Rumênia) 1882-1963 Hombre joven leyendo-Jovem rapaz lendo, s/d.

Ignat Bednarik (Romênia, 1882-1963)

aquarela sobre papel

 

Ignat Bednarik nasceu em Orsova, na Romênia em 1882.  Em 1894, aos 12 anos ganhou seu primeiro prêmio de pintura enquanto estudava na escola secundária em Turnu Severin.   Em 1898 entrou para a Escola de Belas Artes em Bucarest.  Em 1901, vai para Viena estudando quase que por conta própria os mestres das artes nos museus, frequentando esporadicamente a Academia de Belas Artes de Viena.  Vai depois para Sofia, Bulgária, onde passa dois anos se formando artisticamente até que em 1908 retorna a Bucareste e então começa uma vida extremamente atuante nas artes plásticas do país.   Combate junto a outros artistas, através de caracterizações gráficas e envolvimento total, as forças alemãs nas duas guerras mundiais, do século XX.  Em 1938 fica cego.  Faz uma operação na vista em 1947 que restaura parcialmente sua visão.  Mas volta à cegueira em 1961.    Trablahou praticamente em todos os gêneros de pintura: retrato, paisagem, natureza-morta, pintura de gênero.  E também foi bastante versátil no uso de tecnicas de pintura: óleo, aquarela, desenho a nanquim, pastel.