Traído pela memória, Agualusa com o seu O Vendedor de Passados

3 01 2010

Início de ano prolongado…  Estou aproveitando o tempo para limpar o escritório e colocar coisas em ordem.  Assim, antes de descartar algumas resenhas que foram feitas para outros fins, que não o blog, venho aqui postá-las para não perder de todo o controle do que li, e das minhas reações a certas leituras.

Traído pela memória

No futuro quando a transição entre os séculos XX e XXI for estudada, talvez encontrem vestígios de que a perda de memória era uma preocupação constante da época.  Isso porque o assunto de construir ou re-construir memórias, refrescar as nossas memórias, revistas das décadas dos anos 50,60 70, 80, tudo isso parece confirmar alguma preocupação com o assunto.  Parece o tema do momento, uma constante cultural  pipocando no mundo inteiro.  Algumas dessas preocupações vêm da generação pós-guerra, dos baby-boomers, que chegam aos sessenta anos. A medida que eles envelhecem o medo da demência senil, de doenças que acabam com a memória como Alzheimer, parece mais forte.  Filmes de Holywood retratando situações em que há problemas de memória também têm sido constantes favoritos do público: “Amnésia”, 2001; “A identidade Bourne”, 2002; “Como se fosse a primeira vez”, 2004; “Brilho eterno de uma mente sem lembranças”, 2004; são uns poucos que me vêm à cabeça.

 

Diferentes aspectos da memória são revistos com bastante humor no livro de José Eduardo Agualusa,  O vendedor de passados.  O título se refere à ocupação de Felix Ventura, o personagem principal da história, que ganha a vida construindo passados os mais detalhados possíveis, para seus clientes.  Essa elocubração fantástica inclui ancestrais, local de nascimento, profissão dos pais, avós, bisavós,  país de origem, antes da imigração para Angola – e pode até incluir, se bem que nem sempre faz parte do pacote – anedotas familiares e árvore genealógica – tudo com documentação que dê apoio a nova vida do cliente.

Alguns vão querer argumentar que a prosa de Agualusa deveria ser definida como “realismo mágico”.  É a moda, hoje em dia, atribuir realismo mágico a escritores cujas línguas nativas vêm do Latim, como é o caso do português.  Sou contra essa definição, porque a acho redutiva.   É verdade que a vida mostrada neste romance não existe, pelo que conhecemos.  Mas, por outro lado, o inseto de Kafka na “Metamorfose”, deveria colocá-lo na categoria de “realismo mágico”.  A verdade é que a imaginação de Agualusa está enraizada numa cultura animista, crente em fantasmas e em almas do outro mundo, em profecias e conversas com espíritos.  O que pode parecer realismo mágico para uns é o cotidiano na vida de Angola.

Esse livro é narrado, com muito humor, por uma lagartixa, que se lembra de sua vida anterior, e que conversa com Félix Ventura através dos sonhos deste.   Félix Ventura cujo nome, lembremos, quer dizer 2 vezes feliz é capaz de se lembrar tão bem desses sonhos quanto seus clientes acabam se lembrando de todos os detalhes, uma mistura de fatos com realidade,  dos passados por ele construído para suas vidas.  A arte de Ventura está na promiscuidade com que envolve fato e ficção, na construção de um mito que jamais existiu.

José Eduardo Agualusa

 

Através do livro somos lembrados que memória é identidade.  Que memória é ficção.  Que memória é relativa.  Que memória é imprecisa.  Que memória pode ser arquivada no inconsciente de maneiras que não entendemos e que ela pode nos trair.  Que a memória,  sendo única, é uma fábula individual.  Ela é para ser questionada.  Ela existe para ser embelezada.   E que os detalhes que a fazem são representativos do espírito da época. 

Este é um livro sensacional, que deve ser lido.  Rápido na narrativa e com muito humor.   E melhor que tudo, nos faz pensar.  É para se guardar, porque tenho certeza que merece ser lido mais de uma vez.

06/12/2007

Uma outra versão desta mesma resenha foi publicada na época e também aparece em inglês na Amazon.





Bom dia camaradas, um deleite de leitura!

3 01 2010

Acabei de ler o delicioso, divertido e suave livro Bom dia camaradas do autor angolano Ondjaki.  Este não é o seu primeiro livro, mas é o primeiro de seus livros que leio.  E que maravilhosa surpresa!

Este é um livro de memórias de um jovem dos seus primeiros anos da adolescência.  Na verdade, são memórias simplesmente de uns meses de escola.  Eles se passam ao mesmo tempo em que a Guerra de Angola está chegando ao fim.  Uma guerra que é vista do contexto da família desse menino, da rotina familiar e das aventuras normais de quem está freqüentando a escola.  Ele e sua família são membros sólidos da classe média angolana.  E o que aprendemos é como esta classe média lidou com a guerra, assim como percebemos suas esperanças para o futuro.

 

A história se desenvolve entre a chegada e a partida de sua tia, que mora em Portugal e que passa diversas semanas visitando a família em Luanda.  Esta visita dá a Ondjaki a oportunidade de descrever Luanda, Angola e os hábitos locais através dos olhos e das perguntas de uma viajante, uma pessoa de fora.  Nosso jovem herói, no entanto fica constantemente surpreso quando compara as perguntas dela com as respostas que precisa dar.  Ele é pego de surpresa quando tenta explicar o que é a “vida real” em Luanda.  Esta troca de perguntas e respostas, muito bem tecidas no texto, são freqüentemente muito engraçadas e às vezes, até mesmo, hilárias, porque podemos ver os dois pontos de vista, do estrangeiro e do local e a incompreensão que respostas e perguntas geram.

Ondjaki demonstrou também maravilhosa habilidade de narração quando representa a conversa do “nada” dos jovens adolescentes, que constantemente melhoram a realidade para não perderem a oportunidade de contarem uma boa história.  Apesar disso, Ondjaki é sucinto e consegue mostrar como em períodos de crise, qualquer história pode ser crível, e pode fazer pessoas reagirem com força extrema.  Tudo isso Ondjaki faz com um tom leve e o diálogo coloquial bastante claro de um menino entrando na adolescência.

Este livro é de leitura rápida.  É pequeno, com apenas 146 páginas.  Mas é um charme.  Eu queria mais.  Gostaria de continuar sabendo do resto das histórias dessa família.  Esse livro tem todas as características de um livro que se tornará um clássico da literatura para jovens leitores, em qualquer lugar do mundo.

O escritor Ondjaki

 

Para nós brasileiros, há a descoberta também de uma língua deliciosamente rica.  O português de Angola nos presenteia com vocábulos diferentes e com uma musicalidade ímpar, que canta aos ouvidos dos leitores.  Há um glossário no final do livro, mas não precisei consultá-lo durante a leitura.  Preferi deixar que as palavras que eu não conhecia estabelecessem seu significado por conta própria. 

Recomendo a leitura desse livro.  É uma leitura agradável e nos premia com muita informação sobre Angola.  Vá, corra para ler, não se arrependerá.

24/03/2008

Esta resenha já apareceu em inglês na Amazon e no Living in the postcard.





O Mar, de John Banville

3 01 2010

Marinha

Edgar Payne (EUA, 1883- 1947)

óleo sobre tela

Início de ano prolongado…  Estou aproveitando o tempo para limpar o escritório e colocar coisas em ordem.  Assim, antes de descartar algumas resenhas que foram feitas para outros fins, que não o blog, venho aqui postá-las para não perder de todo o controle do que li, e das minhas reações a certas leituras.

 

O mar de John Banville

 

Só este mês pude me dedicar à leitura de O mar, de John Banville.  Eu estava à espera do momento próprio para lê-lo, um fim de semana quieto, talvez chuvoso, porque já conhecendo o estilo do autor por alguns de seus outros livros – de que gostei muito – eu sabia como seu tom reflexivo pedia pelo ambiente certo.   Eu estava certa ao imaginar que essa leitura iria exigir  a minha atenção e uma leitura cuidadosa.  Além disso, preciso dizer que cheguei a este livro com muita expectativa:  gosto imensamente da literatura inglesa e tenho sistematicamente concordado com as escolhas para o prêmio Man Booker, por diversos anos.   

Meu primeiro contato com John Banville foi na década de 80, quando tive a oportunidade de passar uns anos na Europa.  Naquela época John Banville não era muito conhecido como escritor e eu tive aquela sensação maravilhosa de se ter “descoberto um novo talento que ninguém mais conhecia”.  É claro que ele já ea conhecido, afinal de contas já publicara livros.  Mas nenhum de meus amigos o conhecia.  Ele era a minha descoberta.  Minha apresentação ao seu trabalho foi com o livro Newton’s Letter,[A carta de Newton, não publicado no Brasil], que ainda que um pequeno romance me deu a oportunidade de contar para meus amigos sobre as belezas do estilo do autor.  Ele havia me conquistado!  Depois li Kepler e mais tarde ainda, li The Book of Evidence.  Todos em inglês.  Já que nenhum dos dois últimos se comparava co A Carta de Newton, tirei umas férias do escritor com medo de ter simplesmente lido demais do mesmo autor e ter-me cansado.

 

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Então, fiquei duplamente desapontada depois de ler O Mar.  Primeiro, por discordar com a escolha do Man Booker de 2005.  Não que Banville não merecesse.  Claro que merecia, mas não por este livro.  Segundo, eu fiquei desapontada com o livro propriamente dito, cuja narrative achei manipulativa e indulgente, apesar da beleza da linguagem usada.  Da escolha do vocabulário.  Achei a história bastante comum, com conseqüências que são previsíveis, e achei que o narrador fez rodeios deliberados, seu estilo de pensamentos soltos uma mera  desculpa para transformar o que era um conto num pequeníssimo romance.

John Banville

 

Mas é claro que John Banville é um grande artesão da palavra, um mestre da língua inglesa, que ele sempre usa com precisão, e este romance mais uma vez demonstra isso.  Há através do texto frases preciosas, pérolas poéticas, observações astutas que podem facilmente ter uma vida muito mais longa do que este romance propriamente dito.  Conhecido por seus personagens nem sempre queridos, John Banville, neste romance deu a chance e mais espaço do que necessário a um personagem principal desprezível, o narrador.  Uma escolha literária que ainda me distanciou um pouco mais desse romance; algo que me roubou do puro prazer da leitura.  Ele é, sem sombra de dúvida, um excelente escritor apesar de todos os seus esforços de antagonizar o leitor com seus personagens quase sempre detestáveis.  Isto torna impossível para mim dar menos do que 4 estrelas para um total máximo de 5.  Mas eu não recomendaria este livro como o livro de apresentação ao autor.  Escolha um outro título.

30/03/2008

Esta resenha foi publicada anteriormente em dois locais:  Living in the postacard e na Amazon.





Ildefonso Falcones encanta com A Catedral do Mar

3 01 2010

 Vitral da nave central, da igreja Santa Maria del Mar, em Barcelona.

Inicio de ano prolongado…  Estou aproveitando o tempo para limpar o escritório e colocar coisas em ordem.  Assim, antes de descartar algumas resenhas que foram feitas para outros fins, que não o blog, venho aqui postá-las para não perder de todo o controle do que li, e das minhas reações a certas leituras.

Uma visita à idade média em Barcelona

A tradução recente do espanhol para o português de A Catedral do Mar de Ildefonso Falcones, um advogado catalão que escreve seu primeiro romance, foi muito bem recebida aqui no Rio de Janeiro, e foi o livro escolhido pelo meu grupo de leitura para discussão em novembro.

A história se passa no século XIV, na Catalunha, e tem como tema central a construção de uma catedral gótica, à qual seu título se refere.  Também demonstra a importância desta construção – que existe até hoje – para a cidade de Barcelona e como a sociedade, dos nobres aos servos, foi afetada pela construção desta igreja. 

Neste meio tempo, temos o que eu diria ser uma das melhores séries de aulas sobre a vida na idade média.  A vida de Arnau Estanyol segura o texto de maneira surpreendente, do início ao fim do livro.  Nascido servo, nosso herói acaba barão.  Desta maneira, conseguimos entender não só as obrigações diárias de um servo na época, como aquelas esperadas dos homens livres, dos comerciantes e dos que emprestavam dinheiro a juros.  Vemos o início da Inquisição, a vida na Jederia ( o bairro judeu), as preocupações e obrigações diárias dos religiosos.  A medida que Arnau passa de uma aventura à outra, e aos poucos galga posições sociais, numa escalada sem igual, o leitor fica familiarizado com a vida dos homens livres, e como uma cidade mercantil funcionava.  E a quê vinham os nobres?   Preconceitos e valores morais são demonstrados e explorados com mestria.  O resultado é entendermos como pensavam os protagonistas de cada nível social.

 

 

E apesar dessa informação toda, a história é muito interessante, rápida, uma aventura quase, numa linguagem de fácil absorção.  A “aula de história” passa desapercebida, infiltrada como está em prosa de excelente qualidade.  Pouquíssimas são as passagens mais longas, ou diálogos que trazem mais informação do que adiantamento da trama.  Este romance é prazeroso de ler, apesar da grande informação histórica que se propõe a passar.    Por causa disso mesmo, este livro teve grande sucesso de venda na Espanha, e foi responsável pela inclusão n da catedral do título e de outros locais mencionados ao longo do romance, nos roteiros turísticos de Barcelona e da Catalunha.

A grande surpresa, para mim, veio na descoberta de quão diferente Barcelona era das outras cidades da época, que também viviam da exploração mercantil do porto.  Tinha uma população de homens livres muito maior do que essas outras cidades européias, até mesmo Veneza.  Surpresa também é o conhecimento extenso e profundo de Ildefonso Falcones, assim como sua capacidade de manter a nossa atenção através das quase 600 páginas desse livro.

Ildefonso Falcones

 

 

Espero com bastante antecipação o próximo livro do autor.  E sei que milhões de outros leitores estarão também alimentando expectativas para o seu próximo livro.  Recomendadíssimo.  Excelente romance histórico.

24/11/2007

Este texto já foi publicado em inglês no Living in the postcard, e na Amazon.





Alonso Cueto, brilha com O Sussurro da mulher baleia

3 01 2010

Meninas

Stanislaw Wyspianski ( Polônia, 1869-1907)

Inicio de ano prolongado…  Estou aproveitando o tempo para limpar o escritório e colocar coisas em ordem.  Assim, antes de descartar algumas resenhas que foram feitas para outros fins, que não o blog, venho aqui postá-las para não perder de todo o controle do que li, e das minhas reações a certas leituras.  Começo com um romance que me comoveu bastante, do escritor peruano Alonso Cueto, cuja resenha escrevi em 31/01/2008, antes de começar este blog.

Amizade, lealdade, ira e vingança num romance moderno e atual

Vi este livro em diversas livrarias em Lima, no Peru, em Outubro.  Mas não leio muito bem em espanhol.  Então, quando cheguei de volta ao Rio de Janeiro achei interessante ver que havia acabado de ser lançado no Brasil.  Não conhecendo o autor, resolvi comprá-lo como uma recordação da minha viagem.  E ainda levei um tempinho para lê-lo principalmente porque seu título não me interessava: ênfase no tamanho ou no peso de uma mulher era um assunto que me repelia.  Mas, acabei enfrentando a fera.  Como gostei!  É um excelente livro e descobri, chegando ao final, e algumas horas depois e alguns dias mais tarde, que é um livro que fica enraizado na nossa imaginação; que mantem um diálogo vivo com os nossos botões.  Gosto de livros que me fazem pensar.

Duas adolescents são amigas de escola.  Esta amizade é muito importante para cada uma delas, enquanto a amizade durou.  Anos mais tarde, elas se encontram, já adultas.  Cada qual bem sucedida na sua vida, cada qual com sua parcela de sucesso e sorte.  À medida que elas voltam a se comunicar, descobrem não só como são importantes as emoções que cada qual guarda a respeito da amizade que teve, mas também recordam o evento trágico que separou-as, que destruiu o que haviam construído: uma amizade que era importante para cada uma delas.

A narrativa é clara, assim como a maneira em que os personagens são retratados.  Há muita atenção nos detalhes do dia a dia, coisa que no início parecia inconseqüente, talvez até um maneirismo do autor, mas que mostra ser essencial para detalhar as emoções, para retratar  a vida interioir de cada personagem, vida essa submersa nos detalhes corriqueiros.

Com um excelente ritmo, texto coloquial e moderno, Alonso Cueto se mostra em domínio total da narrativa, do inicio ao fim.  À medida que estas duas mulheres rememoram suas vidas, descobrimos suas fraquezas e principalmente a necessidade de cada uma de “pertencer” de “fazer parte” de um grupo.  E nos lembramos também de como os adolescentes podem ser cruéis consigo mesmos e com seus amigos e colegas.   E aos poucos percebemos como podem ser profundas as feridas sentidas nestes anos de formação, assim como a dificuldade de cada um, de superá-las.

Depois de ler este romance de Alonso Cueto, não me surpreendi ao descobrir que ele é um autor peruano muito conhecido, com mais de uma dúzia de títulos publicados e que já recebeu diversos prêmios literários inclusive o Prêmio Viracocha, em 1985, com o livro Tigre Branco;  em 2005 ganhou o prêmio Herralde com o livro Hora Azul.  Em 2002 ele recebeu a bolsa para escritores da Guggenheim e em 2003 seu livro Grandes Moradas tornou-se um filme de Francisco Lombardi.

Alonso Cueto

Este é um livro sobre amizade, lealdade, ira e vingança.  Retrata as almas sofridas e as técnicas de sobrevivência usadas por aqueles que carregam feridas emocionais por muito tempo.  É um romance com um final surpreendente:  iconográfico e belo.  Sutil.  Não é supresa, então, que tenha sido um livro finalista para o Prêmio Planeta – Romance Ibero-americano – em 2007.  Recomendo com entusiasmo a leitura deste romance.

31/01/2008

Esta resenha apareceu em:  Living in the Postcard; e na Amazon.  Ambas em inglês.  Tradução e adaptação, minhas.





Papa-livros: Viva chama, de Tracy Chevalier

23 11 2009

Goya,osonodarazaoproduzmonstrosO sono da razão produz monstros, 1799  da série:  Os caprichos

Francisco Goya (Espanha, 1746-1828)

Já tive a oportunidade, aqui neste blog, de usar a palavra zeitgeist .  Esta é uma palavra alemã [pronunciada: ‘zaitgaist’] que engloba o conceito de um espírito de época. Originalmente ligada a um movimento do romantismo alemão, com o tempo esta palavra tornou-se a maneira taquigráfica para historiadores explicarem certos fenômenos, atitudes, preocupações que parecem surgir simultaneamente em diversos lugares e culturas diferentes mas que não teriam sido relacionados, apesar dos muitos pontos em comum que apresentam.  Foi justamente este conceito de zeitgeist que primeiro veio à minha mente ao ler Viva Chama [não gosto desta tradução do título inglês: Burning Bright, porque perde a ênfase em português], o mais recente livro de Tracy Chevalier traduzido no Brasil. (Rio de Janeiro, Record: 2009).

Não sou, nem nunca fui, uma especialista do século XVIII, mas conheço o suficiente para me lembrar que uma grande preocupação intelectual do final deste século e  início do século XIX baseava-se nos contrastes, nos opostos.  Intelectuais consideravam seriamente aspectos entre a razão e o sonho;  consideravam os limites do racionalismo em oposição às infinitas possibilidades do inconsciente.  Um dos maiores símbolos para a época, que parece representar fielmente as considerações mencionadas foi a série de oitenta gravuras do pintor espanhol Francisco Goya, chamada de  Los Caprichos, publicada em 1799.  E dentre estas gravuras, uma em particular: O sono da razão produz monstros, se tornou emblemática das preocupações desse fim de século.

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Pietà, 1795

William Blake ( Inglaterra, 1757-1828)

Tate Gallery,  Londres

William Blake (1757-1828), poeta e pintor inglês, contemporâneo de Goya e também um dos personagens do livro de Tracy Chevalier foi um dos intelectuais da época,  mais  preocupados com a dualidade dos elementos.  Blake, que parece no romance um personagem de pano de fundo, tem, no entanto, suas idéias cristalizadas no tecido do romance.  Assim, questões que poderiam ser reduzidas e polarizadas, como razão x sonho; bom x mau; crença x materialismo, encontram no romance a linha de união que as une; a linha de união que preocupava Blake e que ele, através da autora explica:

 — Sim, minhas crianças.  A tensão entre os opostos é o que nos faz ser como somos.  Não somos apenas  uma coisa, mas o oposto dela também, misturando, se chocando e faiscando  dentro de nós.  Não apenas luz, mas escuridão.  Não só paz, mas guerra.  Não só inocência, mas conhecimento.  – Ele descansou o olhar um instante na margarida que Maisie ainda segurava.  – É uma lição que precisamos aprender: ver o mundo todo numa flor… [p. 230].

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William Blake, 1807

Thomas Phillips ( Inglaterra, 1770-1845)

National Portrait Gallery, Londres.

 

 

Tracy Chevalier, astutamente, digere para o leitor a grande temática de opostos se complementando, e o faz em tantos níveis através do romance, que este se torna, para quem o percebe, quase um quebra-cabeças do gênero: quantos quadrados podemos ver neste desenho?  Onde a figura apresentada não só é feita de quadrados como emoldurada por eles.    A trama é difusa e simples, aparentemente centrada nas peripécias de três personagens nos primeiros anos da adolescência.  Uma família sai de um vilarejo na Inglaterra, mudando-se para Londres, a convite do dono de um circo.  O pai, marceneiro, especialista cadeiras, vai para a capital do país ser carpinteiro do circo. Com ele além da mulher vão os filhos: Maisie, uma menina recatada e seu irmão mais velho Jem.   Logo, logo as crianças ficam amigas de Maggie, uma menina de idade próxima à de Jem, filha de vizinhos.  Os três têm muitas aventuras citadinas.  Maggie se aproxima deles feliz por poder mostrar aos “caipiras do interior” sua habilidade e esperteza adquiridas no dia a dia da metrópole.   Um casal — William Blake e sua esposa — que mora no mesmo grupo de casas, é olhado com curiosidade e desconfiança pelos vizinhos.  Assim se torna um elemento de fascinação para os três aventureiros que seguem o casal daqui para acolá e acabam travando uma amizade com o poeta-pintor e sua esposa.

Todos os personagens com grandes ou pequenas participações na trama apresentam duas facetas:  boa e má, inocente e experiente, seriedade e jocosidade.  Anne Kellaway, a senhora sisuda do interior é imediatamente fascinada pelo mundo do circo, onde ela pode se deixar levar por momentos oníricos que não admitia em sua própria vida.  O sério casal Blake é entrevisto nas suas relações sexuais ao ar livre.    Jem, o nosso adolescente do interior luta contra a fascinação e o repúdio por sua amiga Maggie.  Até mesmo as duas meninas, que parecem um o reverso da outra, têm em comum o mesmo nome, Margaret, para o qual cada uma usa um apelido diferente: Maisie e Maggie.  

William Blake é retratado como uma pessoa afável que desperta bastante curiosidade não só por sua impressora, uma máquina que pode ser vista em sua casa, da rua, como também pelos seus desenhos, por suas conversas, por suas poesias e por suas preferências políticas a favor daqueles que no continente apóiam a Revolução Francesa.  E mesmo como um intelectual londrino, William Blake não se esquiva de participar de pequenas discussões sobre uma visão do todo, que inclua seus opostos, com qualquer pessoa que pareça se interessar pelo assunto.   Um exemplo, logo no início do romance, de um diálogo que se desenrola entre ele e o dono do circo Phillip Astley.

Philip Astley

 

 

— O senhor cria, não é? – continuou Phillip Astley – Desenha as coisas reais, mas seus desenhos, suas gravuras não são a coisa em si, pois não?  São fantasias.  Creio que.  apesar das diferenças… – olhou de lado para o paletó preto e simples do Sr. Blake comparado ao vermelho que ele usava, com seus botões de metal brilhando, lustrados diariamente pelas sobrinhas  — somos do mesmo ramo, senhor: nós dois vendemos ilusão. O senhor com seu pincel, tinta e buril, enquanto eu… – Phillip Astley fez um gesto para as pessoas em volta — …todas as noites crio um mundo com artistas no picadeiro.  Tiro o público de seus cuidados e preocupações e dou-lhe fantasia para ele achar que está em outro lugar.  Mas para ser real às vezes temos que ser reais.  ….

 — ………………………………………………………………………………………….  —-

— Não desenho pessoas reais – interrompeu o Sr. Blake, que ouvia com grande interesse e falou. Então, num tom mais normal, sem raiva.  – Mas entendo o senhor.  Porém vejo de outra forma.  O senhor faz diferença entre realidade e ilusão.  Julga que são opostos, não?

— Claro – respondeu Phillip Astley.

— Para mim, são uma coisa só.  ….   [p. 115-116]

E assim, como numa sala de espelhos, a idéia de opostos unidos num todo, é esmiuçada e explicada, multiplicada infinitamente em diferentes níveis através do romance.  Quando vemos, temos em nossas mãos a verdadeira união de “opostos”,  William Blake que parecia apenas um personagem lateral, quase pano de fundo,  tem suas idéias explicitadas de tal forma que é indiretamente o real e único retratado na narrativa.  

Vista da Ponte de Westminster em Londres na segunda metade do século XVIII.

 

É a habilidade narrativa de Tracy Chevalier que leva este romance à leitura rápida, quase compulsiva da trama.  Como leitores anteriores já haviam comentado –  as citações na capa mostram – a riqueza de detalhes desta Londres do final do século XVIII é impressionante.  A autora parece sempre confiante nas descrições em que os cinco sentidos acabam sendo envolvidos: da paisagem do Tamisa de um lado ao outro da ponte de Westminster, aos cheiros dos becos locais, à delicadeza do tato na manufatura de um botão, ao perpétuo gosto de mostarda para os trabalhadores da fábrica, ao assovio de uma canção.  Neste livro todos os nossos sentidos são acordados para o mundo de 200 anos atrás.   E melhor ainda, nós nos lembramos de que esse mundo anterior, poderia ser particularmente cruel e imundo, de vida difícil, esgotante, para a maioria das pessoas.  

Se você gosta de um romance com clareza histórica e uma conexão literária, não deixe de ler Viva Chama.  Vale a pena.

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PS:  A Bertrand do Brasil poderia ter sido um pouco mais cuidadosa na editoração do livro.   Há muitos pequenos errinhos, incluindo a troca de personagens, que distraem a leitura.  Uma falta que não se espera de uma das editoras de um grande conglomerado editorial.  Pena.  Muita pena, que a pressa do lucro haja desvalorizado o texto.

 

Tracy Chevalier





Papa-livros: A costa do mosquito, Paul Theroux

28 10 2009

Henri Rousseau, Floresta Tropical com macacos, 1910, Tate Gallery, LondresFloresta Tropical com macacos, 1910

Henri Rousseau ( França, 1844-1910)

óleo sobre tela

National Gallery, Washington DC

Há uma semana tento escrever sobre o livro A costa do mosquito de Paul Theroux, (Rio de Janeiro, Alfaguara: 2009), romance eleito para discussão no mês de outubro no grupo de leitura Papa-livros.  A razão da minha dificuldade está na tensão que sinto entre dois opostos: um excelente romance, com uma narrativa extraordinária, de um lado e do outro lado, personagens totalmente detestáveis com exceção do narrador, um menino se aproximando da adolescência, pelo qual sinto total indiferença.  Esta combinação tem me deixado paralisada. 

O enredo é bastante simples: um homem, um inventor, quase genial, insatisfeito com a moderna sociedade americana, empacota suas coisas e família mudando-se para a América Central, onde pretende instalar numa região remota os rudimentos de uma sociedade perfeita.  É a história de um psicopata, um “survivalist”, egocêntrico, que submete os 4 filhos e sua esposa a um grande sofrimento, na esperança sem base realística de que poderá “re-inventar” o mundo, a sociedade, a maneira de viver.  Seu relacionamento amoroso, com filhos e mulher, se queda no parâmetro da insensibilidade.  Sempre com desculpas para qualquer fracasso, tende a colocar a culpa em outros ou na sociedade que o cerca.  Nunca sente arrependimento ou remorso e leva sua prole a sofrer, física e mentalmente, às vezes quase que se divertindo com seu sofrimento, mostrando continuamente um comportamento anti-social, em prol de um benefício que só ele parece perceber.

É difícil decidir qual dos personagens é mais detestável nessa trama:  Se Allie Fox, cativo de sua condição mental, aparentemente são, mesmo que suas ações revelem o contrário; ou se “Mãe”, sua cara-metade, que aceita o comportamento esdrúxulo  do marido, facilitando sua performance, mesmo que esta se realize em detrimento da educação, do desenvolvimento, da segurança e da saúde de sua prole.

O resultado do romance é esmagador, enfurecedor,  revoltante.  Reconheço que houve momentos em que tive que colocar o livro de lado, tal minha agonia quanto ao comportamento dos dois adultos desta perigosa família.  Se consegui terminar o livro foi por exclusiva admiração ao autor, à sua habilidade com a escrita e em respeito ao seu trabalho anterior.

A Costa De Mosquito

Paul Theroux sempre me encantou com sua facilidade descritiva e aqui continua a mostrar uma narrativa cheia de imagens ricas e inovadoras.  Continua sensacional.  Vejamos por exemplo este parágrafo no início do livro, quando Charles decide sair de casa para ver onde estaria seu pai, no campo, à noite:

Nossa casa era rodeada de campos lavrados.  Arvoredos cresciam nas extremidades de cada um, para quebrar o vento. O milho e o tabaco já começavam a brotar e embora fosse mais fácil caminhar entre os sulcos, mantive-me na trilha, com os braços à frente do rosto, para me proteger dos galhos.  Pior que eles, as teias de aranha atravessavam o caminho e se prendiam em meus cílios.  Os bosques eram cheios de charcos, e o som dominante na noite era a algazarra das rãs arborícolas – pequenas, escorregadias e lustrosas como iscas de peixe.   As árvores, azuis e negras, lembravam enormes bruxas… [p. 20]

Ou, esta passagem, bem mais no fim do livro:

Jerônimo parecia ter sido bombardeada.  Era principalmente pó, um bolsão de cinzas ardentes.  As árvores ao redor tinham se transformado em estacas.  Como o fogo se espalhara, a clareira se tornara maior, semelhante a uma cratera.   Os encanamentos do Menino Gordo haviam desmoronado – e estavam embranquecidos como ossos.  As bombas tinham caído.  Nenhuma casa ou abrigo ficara de pé.  As plantações estavam carbonizadas. Alguns caules restantes estavam empolados como carne queimada.  O milharal estava arrasado.  As abóboras e os tomates haviam explodido e minavam suco – tinham sido cozidos até apodrecer.  Algumas frutas se pareciam com bolsas esfarrapadas.

Mas as ruínas e as cinzas não eram nada comparadas ao silêncio.  Estávamos acostumados aos gorjeios e aos grasnidos dos pássaros, e com o ciciar retumbante das cigarras.  Não havia som, nem movimento.  Toda a vida existente em Jerônimo fora consumida pelo fogo.  Os pássaros que víamos estavam mortos, carbonizados, encolhidos, depenados, com asas minúsculas e cabecinhas ridículas, não mais do que bolotas.  Peixes viscosos boiavam na superfície do tanque.  Ao sol da tarde, tudo estava morto, silencioso e malcheiroso.  Algumas pilhas de escombros ainda fumegavam. [p. 321]

Minha familiaridade com Paul Theroux é baseada tanto nos livros de  ficção quanto nos seus livros de viagem.  Na ficção, lembro-me com muito gosto de Saint Jack, The consul’s file e Hotel Honolulu, livros que li quando morava fora do Brasil.  A costa do mosquito, no entanto, está na lista daqueles não lidos no original, apesar de ter sido um romance transformado em filme em 1986, dirigido por Peter Weir.  É difícil imaginar Harrison Ford, um galã de primeira linha, fazer o personagem principal desta saga familiar, porque Allie Fox, o papel que desempenha no filme, é um dos homens mais detestáveis da literatura americana!  Mais difícil ainda, é imaginar a fantástica atriz inglesa Helen Mirren, que parece ter sempre papéis de mulheres fortes, vestir-se na pele de “Mãe” – personagem casada com Allie Fox e talvez ainda mais desprezível que seu marido pela silenciosa  aderência aos planos do marido, por ser a facilitadora de um tipo de abuso sofrido pela ela mesma e por seus filhos, sem nunca se revoltar.

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Cena do filme A Costa do Mosquito, com Harrison Ford.

Com freqüência, durante a leitura de A costa do mosquito, lembrei-me de um outro livro que li há um pouco mais de um ano, também americano, chamado O castelo de vidro, de Jeannette Walls — uma leitura escolhida pelo grupo Papa-livros em março de 2008.  Este, baseado na verdadeira história da autora.   As circunstâncias de uma família disfuncional, com pais irresponsáveis, beirando a loucura, também são descritas nessa autobiografia.  Lá também temos um pai com comportamento anormal e uma mãe facilitadora.  Em ambos leva muito tempo para os filhos perceberem a situação de extrema dependência em que se encontram e fazerem o que é necessário para se salvarem.    Em ambos os livros, quer na ficção, quer na autobiografia, seus narradores,  — uma criança em cada uma das famílias – mostram grande fascinação por seus pais, fascinação mesclada por medo indistinto.   São crianças aterrorizadas pelos adultos dos quais dependem, e que não conseguem refrear seu amor e dedicação aos pais, como se só eles pudessem entender o gênio que se esconde por trás da loucura.    Há momentos em que Charles, em A costa do mosquito, filho mais velho, parece estar a ponto de descobrir a loucura de seu pai, mas tudo não passa de um vislumbre e se despedaça em segundos. 

Charles não chega a se lembrar, como nós leitores o fazemos,  nem mesmo de uma história contada, só para ele,  pelo Sr. Polski.  Uma história que preconiza o futuro de Charles.  Nela, um rapaz que sofreu na infância pelas manias do pai, morde-lhe fora uma orelha como parte de seu último desejo à beira da morte.  Esta história, contada como a dvertência ao menino pelo futuro nefasto que poderia ter, só encontra raízes no leitor, que naquela hora [p.69] sabe como a história de Charles se solucionará.  Mas o menino  leva muito tempo para que a imensidão do abuso a que foi submetido venha a trazer a revolta e fruir os resultados que o liberarão.  Vejamos um exemplo da estranha mistura de loucura e fascinação que Allie Fox exerce, pela descrição de Charles sobre o comportamento de seu pai:

 A prova disso é que estávamos em uma pipanto de quatro metros, seguindo rapidamente em direção à costa.  Não passava de uma canoa de fundo chato, mas tínhamos sombra, assentos e fumaça para espantar mosquitos. O Pai tinha convertido aquilo em alguma coisa veloz e confortável. Falava de forma desenfreada, mas sua loquacidade era criativa.  Durante todo o percurso rio abaixo, não parou de falar.  Estivera preocupado.  Ontem, havia chorado; hoje vociferava contra sua experiência e sobre o fim do mundo.  Parecia faminto.  Estava muito agitado e, agora, mais previsível do que nunca.  Mas não havia no mundo ninguém mais engenhoso. [p. 335]

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Paul Theroux

Com os vaivens das minhas opiniões sobre este romance, só o recomendaria a quem estivesse interessado em um estudo da personalidade psicopata.  Se o seu objetivo, no entanto, é conhecer o excelente escritor Paul Theroux, recomendo que se entregue de corpo e alma à leitura de algum outro de seus títulos.





Mil tsurus ou Nuvens de Pássaros Brancos de Yasunari Kawabata

10 03 2009

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Foi durante o Carnaval de 2009 que encontrei a paz necessária para me dedicar à leitura de Nuvens de pássaros brancos [Nova Fronteira: 1969], meu primeiro livro do escritor japonês Yasunari Kawabata, ganhador do prêmio Nobel de Literatura de 1968 e considerado um dos maiores escritores do século XX no Japão.  

 

Neste livro, que curiosamente também foi editado no Brasil, por outros editores, com um outro nome: Mil Tsurus, seguimos os problemas de Kikuji Mitani, que depois da morte de seu pai acaba se encontrando durante uma cerimônia de chá com duas antigas amantes do falecido: a viúva Ota  e Chikako Kurimoto.   A partir deste momento, Kikuji é um pequeno inseto preso nas teias que essas mulheres tecem à sua volta.  Chikako luta por arranjar um casamento para Kikuji.  E a senhora Ota, passa a ter um relacionamento amoroso com Kikuji, filho de seu antigo amante.   Há ainda a bela e sedutora Fumiko, filha da Sra. Ota, que aos poucos cava um lugar para si própria no coração de Kikuji.  As intrigas entre todas as mulheres são constantes e bastante malévolas.  E mesmo sem ser uma conhecedora da literatura japonesa em geral elas me lembraram as intrigas da corte, tão bem retratadas nas histórias de Genji.   

 

 

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Mesmo através de tradução, neste caso feita por Paulo Hecker Filho, podemos sentir uma linguagem extremamente poética e delicada, quase ritualística, um paralelo perfeito aos procedimentos da cerimônia do chá, que neste romance tem papel central no desenvolvimento da trama, servindo também de contraponto de beleza e serenidade a um mundo que apesar de dominado por gestos gentis, pela beleza das mulheres, é repleto de disse-me-disses, de alfinetadas, que criam distúrbios numa vida que poderia, outrossim, ser tão bucólica e meticulosa quanto a cerimônia em questão.  

 

Surpreendente, é ver este jovem, que capaz de desfrutar dos prazeres sensuais mais diversos, capaz de imaginar prazeres e de se render ao desejo sexual, se deixar dominar não só pelos rituais e costumes da boa forma, como e principalmente pelas mulheres que o cercam.  Kikuji é quase uma vítima de conjecturas femininas, de ações que por pouco não lhe destituem de todo, ou quase todo, o poder sobre sua vida.  

 

Reconheço que, provavelmente para apreciar devidamente, para saborear  as descrições sensíveis dos personagens, deveria ser útil uma maior familiaridade com a cerimônia do chá no Japão.  No entanto, mesmo sem este conhecimento, reconheço a felicidade de certas imagens que Kawabata seleciona no romance, como as marcas de batom da Sra. Ota  no mizusachi , uma imagem belíssima, poética e representativa da presença permanente desta senhora em sua vida e na vida de sua filha.

 

Estudiosos da obra de Kawabata dizem que há três assuntos que permeiam os romances do autor: o mundo feminino, a sexualidade humana e o tema da morte.  Todos os três estão presentes neste romance.  Todos delicadamente manuseados, talhados, desenhados para que se incluam no romance com naturalidade e poesia.   Com mestria. 

 

 

kawabata-1 O escritor Yasunari Kawabata

 

 

Recomendo a leitura deste livro.  É fascinante, mesmo que às vezes se tenha a noção de não se estar captando tudo, tudo que foi selecionado e representado pelo autor, por falta de familiaridade com a cultura japonesa.   Não importa.  Vale a pena.





O deserto dos tártaros: Dino Buzzati

24 02 2009

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Paisagem com vilarejo à distância,

Pieter Stevens (Antuérpia, 1567-1624)

Nanquim sobre papel e aguada cinza

22 x 32cm

 

 

 

 

Senti-me como Miss Marple, um dos personagens mais conhecidos dos livros de Agatha Christie, uma senhora que resolve crimes pela lógica e pelo conhecimento que tem da natureza humana ao ler O deserto dos Tártaros de Dino Buzatti [São Paulo, Clube do Livro: s/d].  Para Miss Marple um ingrediente necessário na arte de desvendar mistérios é a catalogação mental que faz das pessoas à sua volta: umas sempre lembram outras e seu comportamento consequentemente não deve ser diferente.  Assim, todos os problemas que aparecem na região da aldeia de St. Mary Mead, residência da boa detetive,  podem ser resolvidos pelo trabalho extraordinário de associações entre pessoas que ela executa.

 

Em O deserto dos Tártaros também fiz minhas associações à maneira de Miss Marple.  À medida que lia imagens de quadros e filmes que assisti vieram a preencher a minha imaginação.  A história quase simples e previsível é a de um homem, de um país desconhecido, numa época qualquer, que ao entrar para o exército, tem como  sua primeira missão,  uma permanência indefinida numa estação fronteiriça,  enfiada atrás das montanhas de mais difícil ultrapassagem.  O objetivo final é o Forte Bastiani, obra protetora de uma fronteira esquecida.  Lá o marasmo impera e se entranha por tudo e por todos.  Visivelmente alerta para a estranheza do forte, Drogo, o personagem principal desta aventura, pede para ser colocado em outro local.  Mas depois de uma conversa com um superior aceita ficar por quatro meses.  Estes aos poucos se transformam em quinze anos, graças à acomodação de Drogo, graças às escolhas que faz durante sua estadia e ao estranhamento que sente quando depois de quatro anos no forte volta à cidade natal, onde já não reconhece nada, nem mesmo a si mesmo.

 

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A primeira associação que tive veio pela descrição inicial da viagem de Drogo rumo ao Forte Bastiani.  Não consegui tirar da minha memória as paisagens maneiristas do século XVI.  Principalmente as da Europa do norte, tais como as de Pieter Stevens.  

 

Lá se vão Giovanni Drogo e seu cavalo, diminutos, no flanco das montanhas que se tornam sempre maiores e mais selvagens.  Ele continua subindo para chegar ao forte ainda durante o dia, porém mais rápidas que ele, do fundo, de onde rumoreja o riacho, mais rápidas que ele sobem as sombras.  A um certo ponto elas estão justamente à altura de Drogo, na vertente oposta da garganta; parecem por um instante reduzir sua corrida, como que para não desencorajá-lo, depois deslizam por cima dos penhascos e dos rochedos, e o cavaleiro permanece embaixo.

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Mais adiante, quando Drogo começa a achar razões para permanecer no forte lembrei-me incessantemente de um dos filmes mais extraordinários que já vi, um filme do espanhol Luis Buñuel, Anjo Exterminador, 1962.   O roteiro, a história, o vazio são paralelos perfeitos para o Deserto dos Tártaros:   Após uma extravagante e farta refeição, os convidados se sentem estranhamente incapazes de deixar a sala de jantar e, nos dias que se seguem, pouco a pouco, caem as máscaras de civilização e virtude e o grupo passa a viver como animais. 

 

E enquanto as sombras do outro lado da montanha, depois da fronteira mexiam com a imaginação dos soldados no forte, suas descrições mexiam com as minhas memórias das paisagens desertas de De Chirico, um pintor também italiano e contemporâneo de Dino Buzzati:  Interrompeu-se porque do alto de um paredão cinzento, pendente sobre eles, chegara um som de desmoronamento.  Ouviam-se os baques dos rochedos que explodiam contra os penhascos e ricocheteavam com ímpeto selvagem pelo abismo, entre nuvens de poeira.  Um estrondo de trovão repercutia de parede a parede.  No coração dos despenhadeiros, o misterioso desmoronamento continuou por alguns instantes, mas exauriu-se nos profundos canais antes de chegar embaixo; nos cascalhos, por onde subiam os soldados, só chegaram duas ou três pedrinhas.

 

 

 

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A angústia da partida, 1913-1914

Giorgio De Chirico (Itália, 1888-1978)

Óleo sobre tela

Albright-Knox Art Gallery Búfalo, EUA

 

E assim fui de memória em memória saindo do mundo da literatura para o mundo das artes plásticas, até o final do livro peregrinando pelas imagens desérticas, pelo sentido de desalento e de paralisação, até que cheguei às minhas memórias do conto The Beast in the Jungle, 1903, de Henry James (EUA 1843 – Inglaterra 1916) que no Brasil foi editado como um pequeno livro com o título de  A Fera na Selva: a história de um homem a quem nada absolutamente acontecera, como resultado das decisões que tomara ou que deixara de tomar, sempre à espera de um grande evento. 

 

 

Afinal a que todas essas conexões me levam?  O que elas têm em comum é a exploração do fantástico, da fantasia pessoal, do imaginário individual.  Apesar de alguns críticos ligarem a obra de Dino Buzzati  a escritores como Kafka, Sartre e Camus, principalmente nesta obra O deserto dos Tártaros, originalmente publicado em 1940, na minha opinião esta história, com o desenvolvimento dado, pertence mais ao campo da fantasia do imaginário,  algo mais fluido e menos desesperador, mais na tradição de Edgar Allan Poe e de outros autores transcendentalistas.   Quer coloquemos este livro entre os surrealistas ou os transcendentalistas, não importa.  É simplesmente um livro que deve ser lido, pela narrativa, pela abstração e pelo descobrimento de nós mesmos.

 

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O escritor Dino Buzzati (1906-1972)





Tuareg, romance/aventura de Alberto Vazquez-Figueroa

23 02 2009

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Tuareg, 2007

Mo Skett (Austrália)

Aquarela sobre papel

 

 

 

Minha fascinação com o deserto, com o norte da África, com os bérberes, data de muito tempo.  Foi parcialmente domada pelo ano que morei em Oran, na Argélia.  Foi naquela época que deixei de lado idéias românticas da vida no local, em grande parte feitas robustas pelos escritores e pintores europeus do século XIX, que conseguiram gravar na minha imaginação cenas de maravilhosos banhos públicos, circundados por paredes cobertas de azulejos com desenhos abstratos e colorido especial; ricos ambientes com dezenas de tapetes grossos de lã, cuja arte de fiação local, transformava em sedosos, brilhantes e macias cobertas protetoras para os pés;  adereços de ouro, pulseiras escravas; roupas de odalisca e tudo mais com que a imaginação romântica de uma adolescente poderia se deslumbrar.  Essas idéias foram rapidamente aparadas, reduzidas quando da minha estadia na moderna cidade de Oran nos anos 80.

 

Mas meu interesse por este pedaço do mundo nunca chegou a se apagar.  E, se quando saí da Argélia havia chegado a um ponto saturação com uma cultura radicalmente oposta à minha – a saturação veio na terceira semana do Ramadã, em que os dias são trocados pelas noites –, saí daquele país ciente de que ainda teria que voltar ao norte da África.  Não quis naquela época emendar a minha viagem com a Tunísia ou os Marrocos porque sabia que era preciso fazer jus aos povos que aí habitavam sem trazer comigo preconceitos desenvolvidos ao longo da minha estadia em Oran.  

 

 

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Tipaza, Argélia: teatro romano

 

 

Houve naquele ano na Argélia duas visitas que me marcaram para sempre e que estarão vívidas na minha imaginação até os meus derradeiros dias: a visita às ruínas romanas de Tipaza e a visita ao deserto de Saara, mais particularmente, ao oásis que abriga cinco cidades, inclusive a cidade de Ghardaia, também chamado de Pentápolis.   Esta passagem pelo deserto foi de uma beleza sem igual, um momento em que tudo se cala diante do espetáculo da natureza.  Sempre imaginei voltar.  

 

Com esta dívida à mim mesma foi com grande satisfação que comecei 2009 com a leitura de um livro surpreendente,  Tuareg, do escritor espanhol Alberto Vazquez-Figueroa (LP&M: 1988, reimpressão, 2008).  Este foi o primeiro livro de Vazquez-Figueroa que li.  Não o conhecia.  Fiquei certamente encantada com sua habilidade narrativa, extremamente evocativa.  Sua descrição do deserto, das paisagens inóspitas que fazem parte do dia a dia dos Tuaregs, é absorvente e sedutora.

 

 

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É importante também reconhecer que Vazquez-Figueroa consegue num enredo simples e linear trazer a tona os problemas da colonização de povos anciães, tais como os Tuaregs: Gacel Sayad – personagem principal do romance — é imensamente desonrado quando assassinam uma pessoa que estava protegida, sob seu teto, no deserto.  Não há maior desonra.   Faz-se necessário que ele puna aqueles que cometeram este ato. E assim começa uma aventura no deserto, uma sequência de perseguições, de dissimulações, truques, golpes, tudo parte de uma perseguição da qual ninguém sai vencedor.  

 

Tomando por base o conhecimento dos princípios que regem as ações de Gacel Sayad, é impossível não simpatizar com ele e reconhecer que para aqueles que vivem no deserto nas circunstâncias em que eles vivem o conceito de país, de fronteira, de nacionalidade não só não existe como não faz sentido.   E mesmo que não se aprove os diversos assassinatos que ele conduz, nossa simpatia e lealdade estão com ele até o final, porque sabemos que são ações baseadas num extraordinário senso de justiça, mesmo que esta justiça seja completamente diferente da aceita pelo leitor.  

 

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Tudo isso é particularmente assessorado por uma belíssima prosa, em que as cenas mais corriqueiras conseguem se transformar em imagens poéticas e sonhadoras:

 

A noite se fechara sobre a planície pedregosa, a primeira hiena riu longe e tímidas estrelas piscaram em um céu que, logo, estaria todo tomado por elas, no belíssimo espetáculo que nunca cansava de admirar.  Eram essas estrelas, das noites de paz, talvez, que o ajudavam a persistir, após um longo dia de calor, tédio e desesperança.  “Os tuareg espetam as estrelas com suas lanças para, com elas, iluminar os caminhos…Um belo ditado do deserto, nada mais que uma frase, mas quem a inventou conhecia bem aquelas noites e aquelas estrelas, e sabia também o que significava contemplá-las horas a fio, de tão perto.

 

Descrições detalhadas do deserto, da experiência do deserto, são,  não só essenciais para o comportamento de Gacel Sayad, mas provavelmente parecem verdadeiramente precisas porque o Vazquez-Figueroa, tendo nascido no Tenerife, passou sua infância no Saara, antes de estabelecer residência em Madri.  

 

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O escritor: Alberto Vazquez-Figueroa

Poucos de seus livros estão traduzidos para o português.  Além de Tuareg encontrei O iguana, não obstante, vou fazer um esforço para ler seus outros livros.  O sucesso de Tuareg, que vendeu mais de dois milhões de exemplares na Espanha e na América Espanhola não vem sem motivo.  É um ótimo livro, em que o entretenimento, a aventura, não tiram de foco considerações mais sérias sobre a colonização e o estupro cultural de povos cujas bases culturais são tão antigas quanto a humanidade.