Prece a Xavier, o Tiradentes — poema de Murilo Araújo pelo 21 de abril

20 04 2009

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Julgamento da Inconfidência, 1921

Eduardo de  Sá ( RJ, 1866 – RJ, 1940)

Óleo sobre tela

Museu Histórico Nacional

 

 

 

 

 

 

 

Prece a Xavier,  o Tiradentes

 

                                               Murilo Araújo

 

 

 

Marchaste, sem tremer, na alva dos condenados.

 

 

Ela voava ao vento,

alva como tua alma.

E galgaste os degraus da tortura

descalço.

 

 

Mas que enormes degraus!  Iam a tal altura

que por eles, chegaste ao céu, ao sol, a Deus,

subindo ao cadafalso.

 

 

Alferes Xavier – é inesperada e estranha

a Luz Providencial!

Envolve num fracasso a maior das vitórias;

faz perder quem mais ganha;

e arroja à morte –

à morte –

o justo que elegeu para ser imortal.

 

 

E assim a insurreição sagrada

que te santificou –

tu, que eras o menor,  foste o maior na glória;

tua lenda dourada

mais do que todas na memória se elevou.

 

 

Tinham todos bons títulos de efeito

os teus irmãos na grande Inconfidência.

 

Tu que não eras doutor, ó guarda do Direito;

não eras sacerdote, ó  mártir da consciência;

nem comandaste – herói – como Freire de Andrade,

um terço de dragões…

Tinhas no cofre da alma a pureza e a verdade

e essa indomável vocação da liberdade

mais poderosa que togas e legiões.

 

 

Ah!  As multidões da terra

exaltam todas, como gênios tutelares,

grandes falcões de guerra

de cujas garras brota o raio e a morte desce…

Mas, ando do Brasil, — tu mereces altares,

porque, invés de matar, foste morrer estóico

por um destino que hoje em luzes resplandece!

 

 

Inabalável, foste a Fé que, decidida,

serenamente,  voluntária, se imolou.

Com a própria vida deste à Pátria vida;

e a oferenda de sangue trouxe ao povo

um prêmio que do Céu, que de Deus lhe alcançou.

 

 

Vinda a hora funesta,

Deus quis que os opressores

cercassem tua morte em rumores de festa,

levassem teu cortejo ao rufo de tambores

e ao grito  do clarim,

e adornassem a rua e as fachadas com flores,

contentes os senhores,

pois morrias enfim…

 

 

Mas  — que pura ironia a desse instante! –

glorificaram, sem saber, a redenção…

porque, com tua morte triunfante,

surgiu formada e indestrutível

a Nação!

 

 

Alferes Xavier, entre os teus, meu patrício,

tu que eras o menor,

cresceste tanto na coragem e sacrifício,

que deixaste no pó todos em derredor.

 

 

Onde estão hoje tantos juízes e fidalgos?

Onde os soldados?  Os esbirros da tortura?

Onde esses nobres de brasão e de arcabuz?

 

 

Ah!  Pisavam tão forte … e pisaram em falso!

Mas na tua hora escura,

subindo, humílimo, os degraus do cadafalso,

Alferes Xavier, chegaste à grande Luz.  

 

 

 

 

Encontrado em:

 

O candelabro eterno: aos moços – este álbum dos avós que criaram o Brasil, publicado pela primeira vez em 1955, parte da  Poemas Completos de Murillo Araújo [Murilo Araújo], 3 volumes, Rio de Janeiro, Irmãos Pongetti:1960

 

 

 

Murilo Araújo – ou Murillo Araújo — (MG 1894 – RJ 1980) jornalista, formado em direito.  Poeta, escritor, teatrólogo, ensaísta.

 

 

 

Obras:

 

Carrilhões (1917) 

A galera (escrito em 1915, mas publicado anos depois)

Árias de muito longe (1921)

A cidade de ouro (1927)

A iluminação da vida (1927)

A estrela azul (1940)

As sete cores do céu (1941)

A escadaria acesa (1941)

O palhacinho quebrado (1952)

A luz perdida (1952)

O candelabro eterno (1955)

 

 

Prosa:

A arte do poeta (1944)

Ontem, ao luar (19510 — uma biografia do compositor Catulo da Paixão Cearense

Aconteceu em nossa terra (pequenos casos de grandes homens)

Quadrantes do Modernismo Brasileiro (1958)

 

 

———————-

 

 

Eduardo de Sá (Rio de Janeiro RJ 1866 – idem 1940). Escultor, pintor e restaurador. Frequenta aulas particulares de escultura com Rodolfo Bernardelli e estuda na Academia Imperial de Belas Artes – Aiba, entre 1883 e 1886, com Victor Meirelles, Zeferino da Costa, José Maria de Medeiros e Pedro Américo. Em 1888, em Paris, estuda na Académie Julian, onde foi aluno de Gustave Boulanger e de Jules Joseph Lefebvre. Um de seus trabalhos mais conhecidos é o restauro do escudo do teto da entrada da capela da Santa Casa de Misericórdia, no Rio de Janeiro.

 

 

 

 

Outros poemas de Murillo Araújo (Murilo Araújo neste blog):

 

Dois tesouros na pátria

Romance dos Dois Pedros

Dia de festa

Com as estrelas natais





Tarefa no Dia do Índio: Ler Santa Rita Durão

18 04 2009

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Jovem índia, sd

Elón Brasil (Niterói, RJ, 1957)

Técnica mista

Foto de uma exposição na França

 

 

 

 

 

Quem já se preparou para um exame de vestibular em letras no Brasil deve se lembrar que uma das leituras obrigatórias, ou melhor, uma das leituras que podem ser discutidas nessas provas é o poema-livro de Santa Rita Durão:  Caramuru.  Publicado em 1781, é considerado a primeira criação literária de um brasileiro com tema indígena.  E apesar de ser uma obra enquadrada nas linhas do neoclassicismo, por sua temática é freqüentemente considerada como “ponte” para o romantismo,  apesar de ser também fortemente influenciado pelo poema-épico de Camões, Os Lusíadas.  Caramuru está em domínio público e foi do texto oferecido pela Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro – online – que copiei aqui, a passagem sobre a morte de Moema, que é sem sombra de dúvida, uma das mais belas horas da literatura brasileira.  Faz parte do CANTO VI.

 

 

 

XXXIV

 

Dizendo assim, com calma vê lutando

Formosa nau de Gálica bandeira,

Que a terra ao parecer vinha buscando,

E a proa mete sobre a própria esteira:

Vem seguindo a canoa, e sinais dando,

Até que aborda a embarcação veleira;

E de paz dando a mostra conhecida,

As praias de Bahia a nau convida.

 

XXXV

 

A Gupeva entretanto, e Taparica

Dava o último abraço, e à forte Esposa

A intenção de levá-la significa,

A ver de Europa a Região famosa:

Suspensa entre alvoroço, e pena fica

Paraguaçu contente, mas saudosa;

E quando o pranto na sentida fuga

Começava a saudade, amor lho enxuga.

 

 

XXXVI

 

 

É fama então que a multidão formosa

Das Damas, que Diogo pretendiam,

Vendo avançar-se a nau na via undosa,

E que a esperança de o alcançar perdiam:

Entre as ondas com ânsia furiosa

Nadando o Esposo pelo mar seguiam,

E nem tanta água que flutua vaga

O ardor que o peito tem, banhando apaga.

 

 

XXXVII

 

 

Copiosa multidão da nau Francesa

Corre a ver o espetáculo assombrada;

E ignorando a ocasião da estranha empresa,

Pasma da turba feminil, que nada:

Uma, que às mais precede em gentileza,

Não vinha menos bela, do que irada:

Era Moema, que de inveja geme,

E já vizinha à nau se apega ao leme.

 

 

XXXVIII

 

 

Bárbaro (a bela diz) Tigre, e não homem…

Porém o Tigre por cruel que brame,

Acha forças amor, que enfim o domem;

Só a ti não domou, por mais que eu te ame:

Fúrias, raios, coriscos, que o ar consomem,

Como não consumis aquele infame?

Mas pagar tanto amor com tédio, e asco…

Ah que o corisco és tu… raio… penhasco.

 

 

XXXIX

 

 

Bem puderas, cruel, ter sido esquivo,

Quando eu a fé rendia ao teu engano;

Nem me ofenderas a escutar-me altivo,

Que é favor, dado a tempo, um desengano:

Porém deixando o coração cativo

Com fazer-te a meus rogos sempre humano,

Fugiste-me, traidor, e desta sorte

Paga meu fino amor tão crua morte?

 

XL

 

Tão dura ingratidão menos sentira,

E esse fado cruel doce me fora,

Se a meu despeito triunfar não vira

Essa indigna, essa infame, essa traidora:

Por serva, por escrava te seguira,

Se não temera de chamar Senhora

A vil Paraguaçu, que sem que o creia,

Sobre ser-me inferior, é néscia, e feia.

 

 

 

XLI

Enfim, tens coração de ver-me aflita,

Flutuar moribunda entre estas ondas;

Nem o passado amor teu peito incita

A um ai somente, com que aos meus respondas:

Bárbaro, se esta fé teu peito irrita,

(Disse, vendo-o fugir) ah não te escondas;

Dispara sobre mim teu cruel raio…

E indo a dizer o mais, cai num desmaio.

 

 

 

XLII

 

Perde o lume dos olhos, pasma, e treme,

Pálida a cor, o aspecto moribundo,

Com mão já sem vigor, soltando o leme,

Entre as falsas escumas desce ao fundo:

Mas na onda do mar, que irado freme,

Tornando a aparecer desde o profundo;

Ah Diogo cruel! disse com mágoa,

E sem mais vista ser, sorveu-se n’água.

 

 

XLIII

 

 

Choraram da Bahia as Ninfas belas,

Que nadando a Moema acompanhavam;

E vendo que sem dor navegam delas,

À branca praia com furor tornavam:

Nem pode o claro Herói sem pena vê-las,

Com tantas provas, que de amor lhe davam;

Nem mais lhe lembra o nome de Moema,

Sem que ou amante a chore, ou grato gema.

 

 

MINSTÉRIO DA CULTURA

Fundação Biblioteca Nacional

Departamento Nacional do Livro

CARAMURU: POEMA ÉPICO

Santa Rita Durão

 

 

 

 

 

Frei José de Santa Rita Durão, poeta brasileiro da fase neoclássica (Cata Preta, MG, 1720 – Lisboa, Portugal, 1784). Escreveu o poema épico Caramuru (1781), primeira obra literária a usar como tema o índio brasileiro, suas lendas e seus costumes, e heróis nacionais. Nascido no Brasil, Durão partiu para a Europa em 1731, radicando-se em Portugal, onde teve marcante participação política. Foi um grande orador.

 





Dia do Índio: o amor de Moema

18 04 2009

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Moema, 1866

Victor Meirelles (Brasil, SC 1832- RJ 1903)

Óleo sobre tela, 129 x 199 cm

MASP – Museu de Arte de São Paulo

 

 

 

 

 

Entre as muitas histórias brasileiras, verdadeiras ou não, em que índios têm um papel importante, como guerreiros, aliados, conhecedores da mata, personagens de literatura, há grandes histórias de amor.  Dentre elas, uma em particular se firmou na nossa paisagem cultural: Moema. 

 

 

Aqui está a história de Moema mais detalhada que encontrei.  É parte da descrição de Arilda Ines Miranda Ribeiro, para sua tese de mestrado, intitulada: Mulheres educação no Brasil Colônia: histórias entrecruzadas.

 

 

 

No Brasil, no início da colonização dos portugueses, vivia na Bahia, na cidade que seria chamada mais tarde de São Salvador, Diogo Álvares Correa. Ele era um “galaico-minhoto” (região da Galícia), que naufragou nas águas do mar tenebroso, próximo à Bahia de Todos os Santos, nos baixos de Maiririquiig (Maraquita). Salvou-se matando dois pássaros com um arcabuze, sendo reverenciado pelos indígenas como amássununga, que quer dizer entre outros: O Trovão, Caramuru, a grande moréia, o dragão que surgiu do mar, homem de fogo. 

 

Foi assim que em 1509 Diogo Álvares Correia, o Caramuru tornou-se uma grande liderança entre os tupinambás, e como presente do cacique, podia se deitar com as mais belas mulheres. Dentre elas, escolheu Moema, concebendo os primeiros mestiços, que seriam mais tarde denominados de “Brasileiros”. Alvares Correira transformou-se em um grande negociante de pau-de-tinta, talvez o primeiro comerciante brasileiro. Comercializava com os franceses, porque Portugal abandonara o Brasil, nessa época, tendo olhos apenas para o comércio africano. O forasteiro passava muitas horas com Moema e também se afeiçoou a ela. Aprendeu-lhe a fala, o dialeto tupi, e confidenciou-lhe os segredos do seu mundo, um lugar chamado Portugal. Dizia “Na terra de onde vim, em última partida da localidade de Lisboa, não há aldeias e sim cidades com muitas casas feitas de tijolos e pedras, com portas e janelas, trancas de ferro e outros objetos, inclusive um tipo de tocha que clareia as noites. “O local se chama Viana do Castelo e sou uma pessoa distinta e de destaque na cidade, assim com são aqui na Aldeia os guerreiros Piatã e Itapuã.”

 

Dessa forma, aos poucos, Diogo, entre beijos ardentes, muito amor, ensinou Moema, sua língua estrangeira. Diogo era muito paciente com Moema e contou-lhe toda a sua história de sua vida.

 

Tendo demorado a aprender o tupi, a decifrar os códigos da linguagem tupinambá, ele despendeu longos períodos para explicar-lhe como e quando ocorrera o seu nascimento em Viana do Castelo, como se processara sua formação cultural desde pequeno, suas idas e vindas aos colégios e como aprendera a ler e escrever pois, em sua terra, havia tinta e papel para elaborar documentos e livros. Moema foi aprendendo com Caramuru.

 

Moema ficava encantada com as palavras de Diogo, principalmente com a “cidade”. Como seria isso?

 

O amor entre o vienense a indígena ia muito bem. Entretanto, um dia a história mudou. Diogo, que ajudava a proteger os seus indígenas amigos de outros mais ferozes, foi chamado às pressas para auxiliar o Cacique Taparica da guerra com outros indígenas. Com seus arcabuzes e sua astúcia bélica, saíram-se vencedores.

 

A noite, para comemorar, o cacique dessa tribo, chamado Taparica, fez-lhe um festa na Aldeia e lá pelas tantas, apresentou ao Caramuru a sua filha mais bonita, a linda Paraguaçu. Ela lhe disse: “Meu nome é Quaydim-Paraguaçu” e ele embasbacado: “Sou Diogo Álvares Correia”.

 

Os dois ficaram enebriados e imediatamente se casaram dentro da tribo. Depois da Lua de Mel, Caramuru voltou à aldeia de Piatã e levou consigo Paraguaçu, consciente de haver encontrado a mulher dos seus sonhos nas terras dos brasilíndios.

 

Quando chegou a aldeia, Moema, sua primeira grande companheira, viu a nativa bela e ficou muito triste. Percebeu que tinha perdido o seu amado. Diogo então, não deu a menor atenção a Moema e nem as suas amantes. Só tinha olhos para Paraguaçu.

 

Diogo e Paraguaçu fizeram amor a noite toda e no dia seguinte ele anunciou que daquele dia em diante ela seria a única mulher da vida dele, consciente dos muitos “pecados” que havia cometido com outras tupinambás.O tempo foi passando, e Paraguaçu foi conhecendo as outras mulheres da tribo, de linhagem mais nobre, ente elas Indaiá e Inaciara. Fez muitas amizades.

 

Moema ainda tinha esperanças de recuperar o amado. Certo dia foi em uma pajelança e o xamã assegurou-lhe que a alma de Paraguaçu seria levada para o mundo do Bem, e se distanciaria do português.

 

Diogo resolveu levar Paraguaçu para a Europa, em 1528, para conhecer seus costumes. Seguiram viagem no navio de um francês, Jacques Cartier, amigo de Diogo e que lhe recomendou que não tivesse mais do que uma mulher. Esse navio foi pilotado por Pierre Du Plesis de Savoières.

 

No momento em que o navio partiu rumo ao oceano, Moema, sem dizer nada, lançou-se desesperada na água e nadou com fortes braçadas perseguindo a embarcação, gritando o nome de Caramuru, até que as velas sumissem no horizonte. O mesmo aconteceu com a tupinambá, que seguiu seu destino para o fundo do mar, morrendo por amor.

 

 

 

 

 

Victor Meirelles de Lima, nasceu em Nossa Senhora do Desterro, hoje Florianópolis, em 18 de agosto de 1832, um menino pobre, filho de imigrantes portugueses, que ainda na infância ocupava seu tempo desenhando bonecos e paisagens.  Foi estimulado por seus pais.  Aos quatorze anos ele ganhava uma bolsa para frequentar a Academia Imperial de Belas Artes, no Rio de Janeiro, e aos vinte anos, com a tela “São João Batista no Cárcere” , 1852, conquistava o Prêmio Especial de Viagem à Europa. De volta ao Brasil foi agraciado com o título de Cavaleiro da Ordem da Rosa e nomeado professor de pintura da Academia.

 

A partir de então, seu nome se transformaria numa das maiores expressões das Artes Plásticas no Brasil, no século XIX.  Autor da mais conhecida das telas brasileiras – “A Primeira Missa no Brasil” – reproduzida em cadernos escolares, selos, cédulas monetárias, livros de arte, catálogos e revistas, Victor Meirelles deixou um extraordinário acervo, minuciosos esboços, estudos em papel e óleo sobre tela.  Faleceu no Rio de Janeiro a 22 de fevereiro de 1903.





Quadrinha : crianças brasileiras

17 04 2009

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Menino com bandeira, 1980s

Marysia Portinari (Brasil, 1937)

Óleo sobre tela

Coleção particular

 

 

 

Estudando e trabalhando,

Sob este céu de anil,

As crianças vão fazer

A grandeza do Brasil!

 

(Anônima)

 

 

 

Em: Criança brasileira, Theobaldo Miranda Santos: segundo livro de leitura, Rio de Janeiro, Agir: 1950.

 

 

 

 





Uma lenda de Araribóia

17 04 2009

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Índio, ilustração de Maurício de Sousa.

 

 

 

 

 

 

 

Lenda de Araribóia

 

 

Conta-se que, estando presente no Rio de Janeiro o governador Antônio Salema, o índio Araribóia foi visitá-lo.  Ofereceram-lhe, então, uma cadeira, e ele trançou as pernas como era seu costume.  Alguém lhe disse nessa ocasião, que sua atitude não era cortês, estando presente o governador.  O índio respondeu com altivez:

 

— Se tu soubesses como estão cansadas as minhas pernas das guerras em que servi ao Rei, não repararias neste pequeno descanso agora.  Mas já que achas que não tenho cortesia, vou para a minha aldeia, onde não cuidamos dessas coisas.

 

 

 

Em: Vamos estudar?  Theobaldo Miranda Santos, 3ª série primária, [edição especial para o estado do Rio de Janeiro]  RJ, editora Agir: 1957

 

 

 

 

 

Antônio Salema  (Alcacer do Sal, Portugal)  Jurista, formado pela Universidade de Coimbra, nomeado professor em 14 de dezembro de 1565 para a missão no Brasil, Antonio de Salema recebeu a autoridade de Desembargador da Casa de Suplicação por Carta Régia de 2 de março de 1570.

Sua missão no Brasil, inicialmente seria a de jurista/juiz e não capitão ou governador.  Saiu de Lisboa em 6 de junho de 1570, junto com Dom Luís de Vasconcelos; sua frota foi atacada pelos franceses Jacques Sória e Capdeville, causando à morte do Governador nomeado (Dom Luís de Vasconcelos) e de 40 jesuítas que o acompanhavam; a morte do governador antes de chegar no Brasil, levou Antonio de Salema a ser nomeado mais tarde Governador das Terras do Sul. Salema conseguiu chegar a Bahia e desempenhou seu cargo entre 1571 e 1573, sendo então nomeado Governador das Terras do Sul em 1572. Em janeiro de 1574 seguiu para o Rio de Janeiro.  





Pelo Dia do Índio: Araribóia

17 04 2009

arariboia

Araribóia, 1965

Dante Croce (Niterói 1937)

Praça Martim Afonso, Niterói

Estado do Rio de Janeiro

 

 

 

 

 

 

Arariboia ou Ararigbóia (em tupi, “cobra feroz” ou “cobra da tempestade”) foi cacique da tribo dos Temiminós, do grupo indígena Tupi, em meados do século XVI.  Nesta época os franceses, com o apoio dos índios Tamoios, tomaram o controle da Guanabara, na então Capitania do Rio de Janeiro, em 1555.  Índio corajoso e leal, Araribóia muito ajudou os portugueses na luta contra os franceses.  Praticou muitos atos de heroísmo.  Entre eles conta-se que atravessou a nado uma grande extensão de águas na baía de Guanabara para liderar o assalto ao Forte Coligny e incendiar o depósito de pólvora da fortaleza que os franceses ali haviam construído em 1556 logo em seguida à tomada da ilha na baía de Guanabara.  Com o auxílio de Araribóia os portugueses conseguiram vencer decididamente a luta contra os invasores liderados por Nicolau Durand de Villegainon.  Villegainon havia se associado aos índios Tamoios que lhe deram apoio de 70 mil homens.   

 

 

 

 Mas os Tamoios eram há tempos inimigos dos Temiminós.  Este aspecto em muito facilitou o fervor da luta dos dois lados e a associação dos portugueses com Araribóia, que fortaleceu o lado português com  oito mil homens, indígenas conhecedores do território e inimigos dos Tamoios, foi de grande valia para o desfecho da luta. 

 

Os serviços prestados por Araribóia foram tão preciosos para Portugal que, em recompensa, o rei lhe concedeu o título de comendador da Ordem de Cristo e lhe ofereceu uma extensa porção de terra que incluia a  Praia Grande, na baía de Guanabara.  O chefe índio foi residir com sua gente nas terras que lhe foram doadas, instalando-se na encosta do morro São Lourenço, em 22 de novembro de 1573.    Convertido ao catolicismo pelos Jesuitas, Arariboia escolheu o nome de batismo de  Martim Afonso, em homenagem a Martim Afonso de Sousa.   Como recompensa pelos seus feitos, Arariboia recebeu também da Coroa Portuguesa a sesmaria de Niterói (em língua tupi, “água escondida”).   

 

 

 

 

 

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Ilha do Gato

Terra dos Temiminós

Mapa da baía da Guanabara

João Teixeira Albernaz, 1624

 

 

 

 

 

O arraial de Praia Grande, fundado por Araribóia, desenvolveu-se rapidamente.  Em 10 de maio de 1819 foi elevado a vila.  Em 1834 foi a vila real da Praia Grande escolhida para servir de sede à assembléia legislativa provincial, tornando-se então capital da provincia do Rio de Janeiro, em 1835.  No ano seguinte foi-lhe conferido o título de cidade com o nome de Niterói. 

 

 

 

Curiosamente, Arariboia morreu afogado nas proximidades da ilha de Mocanguê-mirim, ainda em 1574.

 

 

 

É considerado o fundador da cidade de Niterói, e uma estátua sua pode ser vista no centro da cidade, fronteira à estação das barcas, com os olhos voltados para a baía de Guanabara e a cidade do Niterói sob sua proteção.

 





19 de abril, o Dia do Índio

16 04 2009

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Caramuru-Guaçu, 1958

Ernesto Frederico Scheffel (Brasil, RS 1927 –)

Óleo sobre tela, 368 x 197,5 cm

Rio de Janeiro

www.scheffel.com.br

 

 

 

——

 

No próximo dia 19, comemoramos o Dia do Índio.  Nos meus anos de escola, no curso básico, sempre lembrávamos este dia e minhas professoras a cada ano faziam com que aprendêssemos algum detalhe a mais sobre os índios brasileiros.  

 

Dentre as muitas lembranças que tenho desta data, ficou marcada em minha memória, uma história que infelizmente me parece um pouco esquecida nos dias de hoje, que é a história de Paraguaçu, a mãe-símbolo de todos os brasileiros.  

 

Não estou interessada em descobrir se tudo o que se diz de Paraguaçu, de Caramuru, ou de Moema realmente aconteceu.  Não acredito que este seja o verdadeiro valor dessa história para o inconsciente coletivo brasileiro.   Muito pelo contrário, acredito ser de extrema importância que mantenhamos as nossas fábulas, as nossas histórias, os nossos contos fantásticos.  Eles fazem parte da nossa gente.  E comemoram todos os que aqui vieram morar.

 

Então vamos nos lembrar de Paraguaçu e de Caramuru:

 

 

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Diogo Álvares Correia e sua esposa, Catarina do Brasil, Paraguaçu.

 

 

 

——

——

 

 

A HISTÓRIA DE CARAMURU

 

 

José e Marly tinham pedido ao avô que lhes contasse uma história.  Vovô Miranda acendeu o cachimbo e começou:

 

—  Corria o ano de 1510.  Naquele tempo os portugueses assombravam o mundo com as suas grandes descobertas marítimas.  Vasco da Gama tinha achado o caminho das Índias.  Pedro Álvares Cabral descobrira o Brasil. 

 

Diogo Álvares, então com 22 anos, ficou entusiasmado com os feitos gloriosos dos seus compatriotas.  E resolveu viajar pelo mundo à procura de aventuras.  Deixou a pequena aldeia em que vivia, seguiu para Lisboa e lá embarcou num navio que partia para as Índias.

 

Durante muitos dias a viagem correu tranqüila.  Mas uma tarde, o céu escureceu, os ventos sopraram com violência e o mar tornou-se furioso.  A tripulação do  navio tudo fez para evitar o naufrágio.  Infelizmente, depois de dois dias de luta incessante, o navio foi tragado pelas ondas.  

 

Diogo Álvares, o comandante e alguns marinheiros conseguiram, a muito custo, alcançar a praia.  Diogo Álvares foi o último a chegar.  E ainda estava nadando, quando viu de longe, o comandante e os marinheiros serem mortos pelos índios.  

 

Diogo Álvares logo que caiu, exausto na praia, foi aprisionado.  Não foi porém massacrado, como esperava.  Sua pele alva despertou o apetite dos indígenas e a admiração de uma jovem índia, Paraguaçu, filha do cacique Taparica.  Conduzido à taba, foi entregue às mulheres para ser engordado.  Mais tarde seria morto e comido. 

 

Diogo Álvares teve, porém, a sorte de carregar consigo uma espingarda e um pouco de pólvora.  Um dia, estava à porta de sua maloca, sob a vigilância das mulheres, quando avistou um pássaro que voava em sua direção.  Levou a arma ao rosto e fez a pontaria.  Pum! Um tiro ecoou no espaço e o pássaro caiu morto.

 

Ouviu-se então um alarido infernal.  Os índios estavam aterrorizados.  Nunca tinham visto uma espingarda atirar.  Para eles, Diogo Álvares era um demônio que manejava o raio.  E exclamaram,  pálidos de espanto: Caramuru!  Caramuru!

 

— Que quer dizer Caramuru?  interrompeu José.

 

— Homem do fogo ou filho do trovão, ensinou vovô Miranda.

 

— Daí por diante, Diogo passou a ser o verdadeiro chefe daquela tribo.  Casou-se com a linda Paraguaçu, filha de Taparica, cacique dos Tupinambás.  E ajudou estes, graças ao terror que infundia sua espingarda, a derrotar todas as tribos inimigas.  

 

Tempos depois, Diogo Álvares, saudoso da Europa, embarcou com sua esposa, num navio francês que apareceu na Bahia, região onde se encontrava.  Chegando à França, foi conduzido, em Paris, à presença do rei Francisco I.  Ficou este tão interessado por Diogo e Paraguaçu que resolveu casá-los na igreja.  A cerimônia foi realizada por um bispo.  O enxoval foi oferecido pela rainha e fidalgas francesas.

 

— Com certeza, ficaram na França, gozando as delícias de Paris, comentou Marly.

 

— Não, minha filha.  Diogo e Paraguaçu voltaram para a Bahia.  Preferiram viver no meio dos índios.  Tiveram muitos filhos e ajudaram bastante os portugueses a colonizar o Brasil.

 

 

Em:  Brasil, minha pátria!, Theobaldo Miranda Santos, livro para a 3ª série escolar, Rio de Janeiro, Agir: 1954, p- 12-13.

 

 

Vocabulário:

 

Assombravam – causavam admiração, espanto, terror.

Feitos – atos, empresas, façanhas.

Gloriosos – cheios de glória, honrosos.

Compatriotas – da mesma pátria.

Tragado – devorado, engolido.

Exausto – esgotado, muito cansado.





Ser criança — quadrinha de Porphírio Rodrigues

14 04 2009

3-criancas

 

Ser criança é coisa boa.

É estudar, comer, dormir.

É ter muito tempo à toa,

aguardando um bom porvir.

 

 

 

 

 

 

 

Outras quadrinhas neste blog:

 

 

O dia

Gato e Rato

Passarinhos

Cuidar dos animais

 

 





Vozes da noite, poema infantil de Armando Cortes Rodrigues

11 04 2009

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Vozes da noite

 

Armando Cortes Rodrigues

 

 

 

Vozes na Noite!  Quem fala

Com tanto ardor, tanto afã?

Falou o Grilo primeiro,

Logo depois foi a rã.

 

 

Pobre loucura dos homens

Quando julgam entendê-las…

Só eles pasmam os olhos

Neste encanto das estrelas.

 

 

Lá no silêncio dos campos

Ou no mais ermo da serra,

Na voz das rãs fala a água,

Na voz dos grilos a Terra.

 

 

Só eles cantam a vida

Com amor e singeleza,

Por ser descuidada, alegre;

Por ser simples com beleza.

 

 

Pudesse agora dizer-te,

Sem ser por palavras vãs,

O que diz a voz dos grilos,

O que diz a voz das rãs.

 

 

 

Em: Antologia Poética para a infância e a juventude,  Henriqueta Lisboa, Rio de Janeiro, INL:1961

 

 

 

Armando Cortes Rodrigues (1891-1971) Escritor português, nasceu em Vila Franca do Campo, S. Miguel a 28 de Fevereiro de 1891 . Tendo escrito na sua terra a opereta – Em Férias – de colaboração com um condiscípulo, ainda estudante do liceu, vem para Lisboa (1915), onde se matricula no Curso Superior de Letras. Licenciou-se em Filologia Românica, em 1927. Passou o resto da vida nos Açores, como professor. Foi diretor da revista Insular.

 

 

Obras poéticas:

 

Ode a Minerva. Angra do Heroísmo, 1922

Conto do Natal para a Fernanda, 1922  

Em Louvor da Humildade. Poemas da Terra e dos Pobres, 1924

Cântico das Fontes, 1934

Cantares da Noite Seguidos dos Poemas de Orpheu, 1942

Quatro Poemas Líricos, 1948

Horto fechado e Outros Poemas, 1953

Antologia de Poemas de Armando Côrtes-Rodrigues, 1956

Em Louvor da Redondilha, 1957

Auto do Espírito Santo, 1957   

Auto do Natal,  1965

 





Anjo da Guarda — poema infantil de Emílio Moura

10 04 2009

vaso-com-dragao-gary-michael

Vaso chinês com dragão, pintura de Gary Michaels.

 

 

 

 

 

Anjo da Guarda

 

Emílio Moura

 

 

Dentro da sala meio escura

o Dragão salta do vaso.

Nenhuma espada em minha mão.

 

 

O tapete foge, o teto estica-se.

 

 

“ – Dorme, dorme, meu filhinho…”

 

 

Quem é que pega o Monstro

E prega o Monstro no vaso?

 

 

Alguém está pegando o Monstro…

 

 

 

Em: Antologia Poética para a infância e a juventude, Henriqueta Lisboa, Rio de Janeiro, INL: 1961

 

 

 

Emílio Guimarães Moura (14 de agosto de 1902, Dores do Indaiá—28 de setembro de 1971, Belo Horizonte) foi um professor universitário, poeta modernista e redator dos periódicos Diário de Minas, Estado de Minas e A Tribuna de Minas Gerais. Moura foi também um dos fundadores da FACE-UFMG, onde lecionou e da qual foi o primeiro reitor.

 

 

Obras:

 

Ingenuidade (1931)

Canto da hora amarga (1936)

Cancioneiro (1945)

O espelho e a musa (1949)

O instante e o eterno (1953)

A casa (1961)

50 Poemas escolhidos pelo autor (1961)

Itinerário Poético (1969)