
Ser criança é coisa boa.
É estudar, comer, dormir.
É ter muito tempo à toa,
aguardando um bom porvir.
Outras quadrinhas neste blog:

Ser criança é coisa boa.
É estudar, comer, dormir.
É ter muito tempo à toa,
aguardando um bom porvir.
Outras quadrinhas neste blog:
Zé Carioca, ilustração de Walt Disney.
Domingo
Wilson Frade
Os raios do sol não entraram
pela fresta da janela
porque eu não deixei:
fechei-a com cuidado e preguiça.
E disse-lhe baixinho: você não vai me trair
ainda que tenha sol e ar puro.
Preciso sonhar e dormir,
dormir e sonhar.
Os meus pensamentos estão esgotados,
a minha insônia precisa de uma reciclagem
e quero viajar.
Andar nas ruas de Florença,
dar uma alô a David
e ver o Arno correr da Pontevecchio.
Não me acordem,
ainda que o sol queira
iluminar o meu descanso,
porque é domingo.
Em: Poemas de um livro só, Rio de Janeiro, Nova Fronteira: 1991
Wilson Frade – (MG 1920-2000) jornalista, pintor, poeta, instrumentista e compositor mineiro.
Outros poemas de Wilson Frade neste blog:

Vozes da noite
Armando Cortes Rodrigues
Vozes na Noite! Quem fala
Com tanto ardor, tanto afã?
Falou o Grilo primeiro,
Logo depois foi a rã.
Pobre loucura dos homens
Quando julgam entendê-las…
Só eles pasmam os olhos
Neste encanto das estrelas.
Lá no silêncio dos campos
Ou no mais ermo da serra,
Na voz das rãs fala a água,
Na voz dos grilos a Terra.
Só eles cantam a vida
Com amor e singeleza,
Por ser descuidada, alegre;
Por ser simples com beleza.
Pudesse agora dizer-te,
Sem ser por palavras vãs,
O que diz a voz dos grilos,
O que diz a voz das rãs.
Em: Antologia Poética para a infância e a juventude, Henriqueta Lisboa, Rio de Janeiro, INL:1961
Armando Cortes Rodrigues (1891-1971) Escritor português, nasceu em Vila Franca do Campo, S. Miguel a 28 de Fevereiro de 1891 . Tendo escrito na sua terra a opereta – Em Férias – de colaboração com um condiscípulo, ainda estudante do liceu, vem para Lisboa (1915), onde se matricula no Curso Superior de Letras. Licenciou-se em Filologia Românica, em 1927. Passou o resto da vida nos Açores, como professor. Foi diretor da revista Insular.
Obras poéticas:
Ode a Minerva. Angra do Heroísmo, 1922
Conto do Natal para a Fernanda, 1922
Em Louvor da Humildade. Poemas da Terra e dos Pobres, 1924
Cântico das Fontes, 1934
Cantares da Noite Seguidos dos Poemas de Orpheu, 1942
Quatro Poemas Líricos, 1948
Horto fechado e Outros Poemas, 1953
Antologia de Poemas de Armando Côrtes-Rodrigues, 1956
Em Louvor da Redondilha, 1957
Auto do Espírito Santo, 1957
Auto do Natal, 1965

A cadelinha da vovó, ilustração de Maud Trube.
A cachorrinha
Vinícius de Moraes
Mas que amor de cachorrinha!
Mas que amor de cachorrinha!
Pode haver coisa no mundo
Mais branca, mais bonitinha
Do que a tua barriguinha
Crivada de mamiquinha?
Pode haver coisa no mundo
Mais travessa, mais tontinha
Que esse amor de cachorrinha
Quando vem fazer festinha
Remexendo a traseirinha?
Em: A arca de Noé, Vinícius de Moraes, Livraria José Olympio Editora: 1984; Rio de Janeiro; 14ª edição.
Marcus VINÍCIUS da Cruz DE Melo e MORAES (RJ 1913-RJ 1980), diplomata, jornalista, poeta e compositor brasileiro.
Livros:
O caminho para a distância (1933)
Forma e exegese (1935)
Ariana, a mulher (1936)
Novos Poemas (1938 )
Cinco elegias (1943)
Poemas, sonetos e baladas (1946)
Pátria minha (1949)
Antologia Poética (1954)
Livro de Sonetos (1957)
Novos Poemas (II) (1959)
Para viver um grande amor (crônicas e poemas) (1962)
A arca de Noé; poemas infantis (1970)
Poesia Completa e Prosa (1998 )
—
Outros poemas de Vinícius de Moraes neste blog:

Manhã na Terra.
Ó grande noite sonora
caída sobre o Ocidente,
o dia que dissipaste
recolhe-o alguém no Oriente.
Outras quadrinhas neste blog:

O Astronauta
Odylo Costa Filho
Ia um astronauta
pelo céu sozinho
deixou seu foguete,
perdeu seu caminho.
Era tudo branco
— por dentro ou por fora –
porém não chorava,
porque homem não chora.
Pediu: — “Meu Senhor,
acabai com a Guerra,
mesmo que eu não possa
voltar para a Terra!”
Foi Deus, que mandou
um anjo levar
o moço, na Páscoa,
de volta pro lar.
E exércitos de asas
vieram pelo ar
com palmas e rosas
a Guerra acabar.
Odylo Costa, Filho (MA 1914- RJ 1979) – formado em direito, foi diplomata, ensaista, jornalista, cronista, novelista e poeta.
Obras:
Graça Aranha e outros ensaios (1934)
Livro de poemas de 1935, poesia, em colaboração com Henrique Carstens (1936)
Distrito da confusão, crônicas (1945)
A faca e o rio, novela (1965)
Tempo de Lisboa e outros poemas, poesia (1966)
Maranhão: São Luís e Alcântara (1971)
Cantiga incompleta, poesia (1971)
Os bichos do céu, poesia (1972)
Notícias de amor, poesia (1974)
Fagundes Varela, nosso desgraçado irmão, ensaio (1975)
Boca da noite, poesia (1979)
Um solo amor, antologia poética (1979)
Meus meninos e outros meninos, artigos (1981).
Outro poema de Odylo Costa, Filho neste blog:

Jangada
Juvenal Galeno
Minha jangada de vela,
que vento queres levar?
tu queres vento da terra,
ou queres vento do mar?
Minha jangada de vela,
que vento queres levar?
Aqui no meio das ondas,
das verdes ondas do mar
és como que pensativa,
duvidosa a bordejar!
Saudades tens lá das praias,
queres na areia encalhar?
ou no meio do oceano
apraz-te as ondas sulca?
Minha jangada de vela,
que vento queres levar?
Em: Poemas para a infância, Henriqueta Lisboa, Rio de Janeiro, Edições de Ouro, s/d.
———
Juvenal Galeno da Costa e Silva ( Fortaleza, CE 1836 –Fortaleza, CE 1931)
Poeta.
Obras
A Machadada, poesia, 1860
Ao imperador em sua partida para a guerra, poesia, 1872
Canções da Escola, poesia, 1971
Cantigas Populares, poesia, 1969
Cenas cearenses, 1871
Cenas Populares, poesia, 1971
Evaristo Ferreira da Veiga, poesia
Folhetins de Silvanos, poesia, 1891
Lenda e Canções Populares, poesia, 1865
Lira Cearense, poesia, 1972
Medicina caseira, 1897
Novas canções populares, s/d
O eleitor, s/d
O Peregrino, 1862
Porangaba, poesia, 1961
Prelúdios Poéticos, poesia, 1856
Quem com Ferro Fere, com Ferro Será Ferido,teatro, 1861
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NOTA: Em 1920 este poema mais longo, com alguns versos a mais, foi usado como letra para a música JANGADA de Alberto Nepomuceno. Segue,
JANGADA
(1920)
Composição: Alberto Nepomuceno
Minha jangada de vela
Que vento queres levar?
Tu queres vento de terra
Ou queres vento do mar?
Minha jangada de vela
Que vento queres levar?
Aqui no meio das ondas
Das verdes ondas do mar
És como que pensativa
Duvidosa a bordejar!
Minha jangada de vela
Que vento queres levar?
Saudade tens lá das praias
Queres n’areia encalhar?
Ou no meio do oceano
Apraz-te as ondas sulcar?
Minha jangada de vela
Que vento queres levar?
Sobre as vagas, como a garça
Gosto de ver-te adejar
Ou qual donzela no prado
Resvalando a meditar
Ah! Minha jangada de vela
Que vento queres levar?

O sapato perfumado
Ricardo da Cunha Lima
Era uma vez um sapato
totalmente amalucado.
Seu esquisito costume
era usar um bom perfume.
Ele nunca passeava
sem estar bem asseado;
pra isso, sempre passava
perfume por todo lado,
bastando o seu couro inteiro
com fragrâncias do estrangeiro,
e na sola e no cadarço
espalhava água-de-cheiro.
Que eu me lembre se casou
(e que lindo par formou!)
com a meia do garçom,
a qual tinha, por seu lado,
o costume amalucado
de pintar-se com batom.
Em: De cabeça para baixo, São Paulo, Cia das Letras: 2000
Ricardo da Cunha Lima nasceu em São Paulo, em 1966.
Obras
Lambe o dedo e vira a página, 1985
Em busca do tesouro de Magritte, 1988
De cabeça para baixo, 2000
O livro com um parafuso a menos, 1996
O xis da questão, 1997
Cambalhota, 2003
Do avesso, 2006

Voz dos animais
Francisca Júlia
O peru, em meio à bulha
De outras aves em concerto,
Como faz de leque aberto?
— Grulha.
Como faz o pinto, em dia
De chuva, quando se interna
Debaixo da asa materna?
— Pia.
Enquanto alegre passeia
Girando em torno do ninho,
Como faz o passarinho?
— Gorjeia.
E de intervalo em intervalo
Quando a manhã se levanta,
No quintal que faz o galo?
— Canta.
Quando a galinha deseja
Chamar os pintos que aninha,
Como é que faz a galinha?
— Cacareja.
A rã quando a noite baixa,
Que faz ela a toda hora
Dentre os limos em que mora?
— Coaxa.
E quando as narinas incha,
Cheio de gosto e regalo,
Como é que faz o cavalo?
— Rincha.
Que faz o gato, que espia
Uma terrina de sopa
Que fumega sobre a copa?
— Mia.
Com a barriga farta e cheia,
Que faz o burrinho quando
Se está na grama espojando?
— Orneia.
Para o sinal de rebate,
Aviso, alarme ou socorro,
Como é que faz o cachorro?
— Late.
Para que as mágoas embale
Quando tresmalha, sozinha,
Que faz a branca ovelhinha?
— Bale.
Em fugir quando porfia
À garra e aos dentes do gato.
Como faz o pobre rato?
— Chia.
De pé a boca descerra
E alta levanta a cabeça,
Que faz a cabra travessa?
— Berra.
Cheia a boca de babuge
Do milho bom que rumina,
Que faz o boi na campina?
— Muge.
A pomba que grãos debulha.
Como faz, batendo as asas
Sobre o telhado das casas?
— Arrulha.
A voz tremida do grilo
Que vive oculto na grama,
A trilar, como se chama?
— Trilo.
Mas escravos das paixões
Que os fazem bons ou ferozes,
Os homens têm suas vozes
Conforme as ocasiões.
Francisca Júliada Silva Munster (SP 1874 – SP 1920) Poetisa brasileira, autora de obras didáticas e professora.
Obras:
1895 – Mármores, poesia
1899 – Livro da Infância, miscelânea
1903 – Esfinges, poesia
1908 – A Feitiçaria Sob o Ponto de Vista Científico (discurso)
1912 – Alma Infantil (com Júlio César da Silva)- literatura infantil
1921 – Esfinges – 2º ed. (ampliada)
1961—[póstuma] Poesias
PRIMAVERA é uma outra poesia de Francisca Júlia neste blog.

Anjo Músico, 1480
Melozzo da Forli (Itália 1438-1494)
Afresco
Sala IV, Pinacoteca do Museu do Vaticano
Vaticano
A linguagem da música ocidental é universal e pode ser entendida mesmo por aqueles que nunca escutaram uma música na vida, segundo um estudo publicado nesta semana, da revista especializada Current Biology. No estudo, nativos africanos que nunca haviam escutado rádio na vida foram capazes de reconhecer emoções como felicidade, tristeza ou medo expressadas em músicas ocidentais.
Segundo os pesquisadores alemães, as expressões de emoção são uma característica típica da música ocidental, e a capacidade da música de expressar emoções é comumente vista como um requisito para a sua apreciação. Em outras culturas, porém, a música seguiria outras características, como a capacidade de coordenação grupal em rituais, o que a tornaria menos reconhecível para outros indivíduos de fora do grupo.

Anjo Músico, 1480
Melozzo da Forli (Itália 1438-1494)
Afresco
Sala IV, Pinacoteca do Museu do Vaticano
Vaticano
“Nossas conclusões explicam por que a música ocidental tem tanto sucesso na distribuição musical global, mesmo em culturas musicais que não enfatizam de maneira tão forte o papel das emoções em sua música“, afirma um dos autores da pesquisa, Thomas Fritz, do Instituto Max-Planck para Cognição Humana e Ciências do Cérebro, da Alemanha.
O objetivo do estudo era descobrir se os aspectos de emoção da música ocidental poderiam ser apreciados por pessoas que nunca haviam tido contato com esse tipo de música. Os pesquisadores escolheram membros da tribo Mafa, um grupo de 250 indivíduos que vivem isolados no extremo norte das montanhas Mandara, nos Camarões.
O estudo comparou a reação desses indivíduos e de ocidentais à música ocidental e mostrou que ambos os grupos podiam reconhecer de maneira semelhante expressões de emoção como felicidade, tristeza e medo na música. Os dois grupos se baseavam em características semelhantes das músicas para avaliá-las – a marcação do tempo e a forma -, apesar de esse padrão ter sido mais acentuado entre os ocidentais.

Anjo Músico, 1480
Melozzo da Forli (Itália 1438-1494)
Afresco
Sala IV, Pinacoteca do Museu do Vaticano
Vaticano
Os pesquisadores também testaram a reação dos indivíduos a músicas alteradas e concluíram que ambos os grupos consideraram as versões originais melhores do que as versões modificadas. Para os autores, isso ocorre provavelmente porque os sons alterados tinham uma maior dissonância sensorial.
“Tanto os ouvintes do grupo Mafa quanto os ocidentais mostraram uma habilidade para reconhecer as três expressões básicas de emoções das músicas ocidentais testadas no estudo“, dizem os pesquisadores na última edição da revista especializada Current Biology.
“Isso indica que essas expressões de emoção manifestadas pela música ocidental podem ser universalmente reconhecidas, de maneira semelhante ao reconhecimento amplamente universal das expressões faciais humanas e da prosódia (ritmo, entonação e ênfase do discurso) emocional“, concluem.
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Michelozzodegli Ambrosi, dito Melozzo da Forlì, (Forlì, Itália, 1438; — Forlì, 8 de Novembro de 1494) foi um dos mais notáveis pintores da Renascença italiana e um dos mais famosos seguidores do estilo de Piero della Francesca. Veio de uma abastada família chamado Ambrosi de Forlì. Nada se sabe sobre seus primeiros anos, tudo indica que ele deve ter estudado em Forlì, sob direção de Ansuino da Forlì. Ambos, Melozzo e Ansuino foram bastante influenciados por Mantegna.
Iniciou sua carreira artística na corte de Urbino, uma das mais conhecidas e produtivas de toda a Itália. Lá conheceu o grande pintor e teórico matemático Piero della Francesca, que influenciou profundamente o estilo de Melozzo e sua utilização de perspectiva na pintura. Neste período ele deve ter analisado também a arquitetura de Bramante e os trabalhos dos pintores flamengos, que trabalhavam para o duque Federico da Montefeltro. Talvez Melozzo tenha mesmo trabalhado com Justus de Ghent e Pedro Berruguete na decoração do studiolo do famoso Palácio Ducal da cidade. Mas depois deste período em Urbino, mudou-se para Roma.
Com a sua carreira artística a bom ritmo, em 1484, trabalhou na decoração da Capela do Tesouro da Basílica de Loreto, pintando frescos, entre outros, onde aplicaria todo o seu extraordinário conhecimento da perspectiva.