O orgulhoso, fábula de Monteiro Lobato

10 06 2009

o_jequitiba, oleo sobre telam 80 x 120 cm

O  jequitibá, s/d

Zenaide Smith ( Brasil, contemporânea)

Óleo sobre tela — 80 x 120 cm

 

O orgulhoso

                                                                                               Monteiro Lobato

           Era um jequitibá enorme, o mais importante da floresta.  Mas orgulhoso e gabola.  Fazia pouco das árvores menores e ria-se com desprezo das plantinhas humildes.  Vendo a seus pés uma tabua disse:

          — Que triste vida levas, tão pequenina, sempre à beira d’água, vivendo entre saracuras e rãs…  Qualquer ventinho te dobra.  Um tisio que pouse em tua haste já te verga que nem bodoque.  Que diferença entre nós!A minha copada chega às nuvens e as minhas folhas tapam o sol.  Quando ronca a tempestade, rio-me dos ventos e divirto-me cá do alto a ver os teus apuros.

          — Muito obrigada! Respondeu a tabua ironicamente.  Mas fique sabendo que não me queixo e cá à beira d’água vou vivendo como posso.  Se o vento me dobra, em compensação não me quebra e, cessado o temporal, ergo-me direitinha como antes.  Você, entretanto…

          — Eu, que?

          — Você jequitibá tem resistido aos vendavais de até aqui; mas resistirá sempre?  Não revirará um dia de pernas para o ar?

          — Rio-me dos ventos como rio-me de ti, murmurou com ar de desprezo a orgulhosa árvore.

          Meses depois, na estação das chuvas, sobreveio certa noite uma tremenda tempestade.  Raios coriscavam um atrás do outro e o ribombo dos trovões estremecia a terra.  O vento infernal foi destruindo tudo quanto se opunha à sua passagem.

          A tabua, apavorada, fechou os olhos e curvou-se rente ao chão.  E ficou assim encolhidinha até que o furor dos elementos se acalmasse e uma fresca manhã de céu limpo sucedesse aquela noite de horrores.  Ergueu, então, a haste flexível e pode ver os estragos da tormenta.  Inúmeras árvores por terra, despedaçadas, e entre as vítimas o jequitibá orgulhoso, com a raizana colossal à mostra…

 ***

Em:  Criança Brasileira, Theobaldo Miranda Santos, Quarto Livro de Leitura: de acordo com os novos programas do ensino primário.  Rio de Janeiro, Agir: 1949. 

 

VOCABULÁRIO

Imponente: altivo, orgulhoso; gabola: pretensioso, vaidoso; tabua: planta de haste fina e flexível; copada: ramagem; apuros: dificuldades; coriscavam: faiscavam; ribombo: barulho, estrondo; rente: junto; tormenta: tempestade; raizana: conjunto das raízes de uma planta.

 

——-

José Bento Monteiro Lobato, ( Taubaté, SP, 1882 – 1948).  Escritor, contista; dedicou-se à literatura infantil. Foi um dos fundadores da Companhia Editora Nacional. Chamava-se José Renato Monteiro Lobato e alterou o nome posteriormente para José Bento.

Obras:

A Barca de Gleyre, 1944  

A Caçada da Onça, 1924  

A ceia dos acusados, 1936  

A Chave do Tamanho, 1942  

A Correspondência entre Monteiro Lobato e Lima Barreto, 1955  

A Epopéia Americana, 1940  

A Menina do Narizinho Arrebitado, 1924  

Alice no País do Espelho, 1933  

América, 1932  

Aritmética da Emília, 1935  

As caçadas de Pedrinho, 1933  

Aventuras de Hans Staden, 1927  

Caçada da Onça, 1925  

Cidades Mortas, 1919  

Contos Leves, 1935  

Contos Pesados, 1940  

Conversa entre Amigos, 1986  

D. Quixote das crianças, 1936  

Emília no País da Gramática, 1934  

Escândalo do Petróleo, 1936  

Fábulas, 1922  

Fábulas de Narizinho, 1923  

Ferro, 1931  

Filosofia da vida, 1937  

Formação da mentalidade, 1940  

Geografia de Dona Benta, 1935  

História da civilização, 1946  

História da filosofia, 1935  

História da literatura mundial, 1941  

História das Invenções, 1935  

História do Mundo para crianças, 1933  

Histórias de Tia Nastácia, 1937  

How Henry Ford is Regarded in Brazil, 1926  

Idéias de Jeca Tatu, 1919  

Jeca-Tatuzinho, 1925  

Lucia, ou a Menina de Narizinho Arrebitado, 1921  

Memórias de Emília, 1936  

Mister Slang e o Brasil, 1927  

Mundo da Lua, 1923  

Na Antevéspera, 1933  

Narizinho Arrebitado, 1923  

Negrinha, 1920  

Novas Reinações de Narizinho, 1933  

O Choque das Raças ou O Presidente Negro, 1926  

O Garimpeiro do Rio das Garças, 1930  

O livro da jangal, 1941  

O Macaco que Se Fez Homem, 1923  

O Marquês de Rabicó, 1922  

O Minotauro, 1939  

O pequeno César, 1935  

O Picapau Amarelo, 1939  

O pó de pirlimpimpim, 1931  

O Poço do Visconde, 1937  

O presidente negro, 1926  

O Saci, 1918  

Onda Verde, 1923  

Os Doze Trabalhos de Hércules,  1944  

Os grandes pensadores, 1939  

Os Negros, 1924  

Prefácios e Entrevistas, 1946  

Problema Vital, 1918  

Reforma da Natureza, 1941  

Reinações de Narizinho, 1931  

Serões de Dona Benta,  1937  

Urupês, 1918  

Viagem ao Céu, 1932





Elogio do Bem, poesia para uso escolar, Cleômenes Campos

9 06 2009

colheita

 

ELOGIO DO BEM

 

Cleómenes Campos

 

 

 

Amigo, faze o bem: esse prazer dispensa

 A maior recompensa.

Aqueles frutos saborosos

Que o teu vizinho colhe, às vezes, a cantar,

Custaram, com certeza, os trabalhos penosos

De alguém que já sabia

Que nunca, em sua vida, os colheria…

Mas nem por isso mesmo, os deixou de plantar.

 

 

Em:  Criança Brasileira, Theobaldo Miranda Santos, Quarto Livro de Leitura: de acordo com os novos programas do ensino primário.  Rio de Janeiro, Agir: 1949. 

 

 

Cleómenes Campos de Oliveira, ( Maroim, SE 1895 – São Paulo, SP, 1968). Pseudônimo:  Ariel.  Poeta, teatrólogo, radicado em SP desde 1912, agente fiscal do imposto de consumo, membro da Academia Sergipana de Letras e da Academia Paulista de Letras.  Estudou as primeiras letras em seu estado natal, indo depois para a Bahia, onde freqüentou o Ginásio São José.  Ainda jovem, teve que abandonar os estudos, ingressando na vida comercial em Santos.  Foi nomeado para os Correios de São Paulo,  após concurso e mais tarde foi transferido para o Ministério da Fazenda.  Fundou “A garoa”, uma das revistas literárias que mais custaram a morrer…   Faleceu em 30 de abril de 1968.

 

Obras: 

 

Coração encantado, 1923, poesia, [prêmio Academia Brasileira de Letras]

De mãos postas, 1926 [prêmio Academia Brasileira de Letras]

Humildade, 1931, poesia

Meu livro de Amor, 1931

Canção da felicidade, 1934

Zebelê, 1940

Sonata do desencanto, 1950. poesia

O segredo de nós dois, 1969, poesia

O louco e as estrelas, s/d

 

Teatro

Mascote, com Oduvaldo Viana,





Prêmio São Paulo, Literatura, Finalistas

9 06 2009

premio

Chico Bento e Rosinha, ilustração de Maurício de Sousa.

 

A Secretaria da Cultura do Estado de São Paulo divulgou no dia 3 da semana passada os nomes dos finalistas do Prêmio São Paulo de Literatura. O anúncio foi feito durante o II Festival da Mantiqueira – Diálogos com a Literatura, realizado no último final de semana, no distrito de São Francisco Xavier, em São José dos Campos. Este ano, o prêmio recebeu 217 inscrições.

Os vencedores nas categorias Melhor Livro do Ano de 2008 e Melhor Livro – Autor Estreante do Ano de 2008 serão anunciados no dia 3 de agosto, em cerimônia no Museu da Língua Portuguesa. Cada um receberá prêmio de R$ 200 mil.

Conheça os finalistas.

FINALISTAS PARA: Prêmio de Melhor Livro do Ano:

Carola Saavedra – Flores azuis — Editora: Companhia das Letras  –

No apartamento para onde se mudou depois de se separar da mulher e da filhinha de três anos, um homem recebe uma carta destinada ao antigo morador e não resiste ao impulso de abri-la. É uma carta de amor, escrita por uma mulher e assinada simplesmente com a inicial “A”. Também separada, a autora da carta repassa, inconformada, as últimas horas de seu relacionamento amoroso com o destinatário.
Novas cartas chegam diariamente, sempre revisitando o dia da separação e acrescentando detalhes cada vez mais perversos aos acontecimentos. O homem que as recebe não apenas sucumbe ao desejo de lê-las como passa a viver em função disso, o que acaba por desestabilizar a sua relação com o trabalho, com a ex-mulher, com a filha e com a atual namorada, todas elas mulheres que ele não compreende e pelas quais se sente acuado.
Desse extravio de correspondência, que talvez não seja tão acidental como parece à primeira vista, constrói-se aos poucos uma trama virtual que funde as trajetórias da misteriosa “A” e do perplexo protagonista.
asp, flores azuis, carola saavedraAlternando as cartas com o relato em terceira pessoa do cotidiano e da perturbação mental do homem que as lê, Flores Azuis pode ser visto como uma atualização crítica do gênero do romance epistolar. Seu desfecho inesperado e vertiginoso instiga o leitor a construir novos nexos e imaginar toda uma outra história oculta.
Com uma prosa refinada e uma construção engenhosa, que valoriza ao extremo as potencialidades do não-dito, a jovem autora Carola Saavedra confirma o talento revelado em seu romance anterior, Toda terça.

João Gilberto Noll – Acenos e afagos — Editora: Record

Acenos e Afagos  são palavras doces que soam a todo momento como notas musicais nessa epopéia libidinal, como define esse livro, em certo momento, divertidamente, o personagem-narrador. Como em “A Fúria do Corpo” (de 1981), outra grande obra de João Gilberto Noll, é a libido, radicalmente, que move a escrita (e não será sempre assim, em toda arte, por mais que se disfarce?). Uma libido, no presente caso, quase sempre homoerótica, sem freios, culpa ou pecado e, por isso mesmo, pode- se falar, a respeito de Noll, em santidade, como no caso Genet visto por Sartre. Mas tudo isso, que já é muito, não bastaria para tornar JGN um dos maiores escritores de todos os tempos no país, e sim por que o caso Noll é o de uma Palavra única, inicial, que tem origem, como em outros grandes mestres, naquela zona de sombra entre o inconsciente e o consciente. Palavra que dificilmente pode ser explicada por outro código que não ela mesma. Pois, como está no Livro, os mistérios não gostam de ser nomeados. O que não me impede de dizer que em Acenos… estará o leitor também diante do nu e do cru, de um desapego literário, que o podem levar a um estado de choque, literalmente, sem abdicar, até pelo contrário, dos raios de poesia que sempre iluminaram a prosa do autor. Em Acenos e Afagos, entre tantas coisas, o masculino – o narrador, ex-morto – se torna mulher, asp, acenos e afagos, nollque no entanto come o seu homem, o engenheiro que vem de um submarino alemão de sodomitas para salvar o narrador com uma respiração boca-a-boca no caixão. Ri muito nessa passagem, como não? Leitores como eu sempre encontraram nos livros de Noll um senso de humor um tanto secreto, mas que em Acenos… pode chegar ao hilariante, como na cena de libidinagem radical entre o protagonista e uma senhora de mais de oitenta anos, sequiosa de esperma. E o autor ainda conseguiu a proeza de tornar cheia de graça e amor as relações desse protagonista com uma cabra. Sim, talvez seja da natureza de algumas grandes artes um certo, ou pleno, desvio, que obrigatoriamente deve passar pelo estético (sem frescura).

José Saramago – A viagem do elefante — Editora: Companhia das Letras

“Por muito incongruente que possa parecer…”, assim começa o novo romance – ou conto, como ele prefere chamá-lo – de José Saramago, sobre a insólita viagem de um elefante chamado Salomão, que no século XVI cruzou metade da Europa, de Lisboa a Viena, por extravagâncias de um rei e um arquiduque. O episódio é verdadeiro. Dom João III, rei de Portugal e Algarves, casado com dona Catarina d´Áustria, resolveu numa bela noite de 1551 oferecer ao arquiduque austríaco Maximiliano II, genro do imperador Carlos V, nada menos que um elefante. O animal viera de Goa junto com seu tratador, algum tempo antes. De início, o exotismo de um paquiderme de três metros de altura e pesando quatro toneladas, bebendo diariamente duzentos litros de água e comendo outros tantos quilos de forragem, deslumbrara os portugueses, mas agora Salomão não passava de um elefante fedorento e sujo,mantido num cercado nos arredores de Lisboa. Até que surge a idéia mirabolante de presenteá-lo ao arquiduque, então regente da Espanha e morando no palácio do sogro em Valladolid. Esse fato histórico é o ponto de partida para José Saramago criar, com sua prodigiosa imaginação, uma ficção em que se encontram pelos caminhos da Europa personagens reais de sangue azul, chefes de exército que quase vão às vias de fato, padres que querem exorcizar Salomão ou lhe pedir um milagre.Depois de percorrer Portugal, Espanha e Itália, a caravana chega aos estreitos desfiladeiros dos Alpes, que Salomão enfrenta impávido. A viagem do elefante, primeiro livro de José Saramago depois do relato autobiográfico Pequenas memórias (2006), é uma idéia que ele elaborava há mais de dez anos, desde que, numa viagem a Salzburgo, na Áustria, entrou por acaso num restaurante chamado O Elefante. asp, aviagem do elefante, saramago

Com sua finíssima ironia e muito humor, sua prosa que destila poesia, Saramago reconstrói essa epopéia de fundo histórico e dela se vale para fazer considerações sobre a natureza humana e, também, elefantina. Impelido a cruzar meia Europa por conta dos caprichos de um rei e de um arquiduque, Salomão não decepcionou as cabeças coroadas. Prova de que, remata o autor, sempre se chega aonde se tem de chegar.

Lívia Garcia-Roza – Milamor — Editora: Record

Uma das mais importantes vozes da literatura brasileira, Livia Garcia-Roza a cada novo romance nos impressiona pela beleza e profundidade asp,milamor, garcia-rozade suas histórias. Maria é uma mulher com quase 60 anos que, desde a morte do marido, mora com a filha que a trata como se fosse uma senhora incapaz de tomar conta de si própria. Com a esperança de recuperar a alegria em sua vida e determinada a criar novas memórias, ela alimenta uma paixão platônica por um homem que mal conhece em uma história envolvente.

Maria Esther Maciel – O livro dos nomes — Editora: Companhia das Letras

Os vinte e seis capítulos deste livro, cada um deles correspondendo ao nome de um personagem, compõem um quebra-cabeças ficcional que aos poucos ganha forma e sentido na imaginação do leitor. Hildegarda, asp, o livro dos nomes, maria esther macielFausto, Plínio, Odília, Ulisses, Vanessa – cada um é examinado detidamente num capítulo próprio e apresentado de modo parcial e oblíquo nos capítulos referentes a outros personagens. Aqui, todos têm suas razões e sua loucura e cada destino refrata e matiza os outros. Organizando seus personagens em ordem alfabética, de Antônio a Zenóbia, Maria Esther Maciel joga com o formato dos dicionários de nomes, descobrindo ou inventando etimologias, erigindo crenças, teorias e clichês para dissipá-los logo em seguida.

Milton Hatoum – Órfãos do Eldorado — Editora: Companhia das Letras

Numa cidade à beira do rio Amazonas, um passante vem procurar abrigo à sombra de um jatobá e, incauto ou curioso, dispõe-se a ouvir um velho com fama de louco. É o que basta para Arminto Cordovil começar a contar a história de Órfãos do Eldorado: a história de seu próprio amor desesperado por Dinaura, mas também a crônica de uma família, de uma região e de toda uma época que, à base da seiva da seringueira, quis encarnar os sonhos seculares de um Eldorado amazônico. Essa miragem mítica e histórica serve de pano de fundo a Órfãos do Eldorado e ao destino de Arminto Cordovil, dividido entre o amor pela moça misteriosa e as pretensões dinásticas do pai, Amando, armador enriquecido com a borracha.asp, orfaos, hatoum

Na casa elegante em Manaus ou no palacete de Vila Bela, Amando nutre fantasias de proprietário e armador, que seu filho único teima em minar. Entre esses extremos que mal se tocam, uma galeria notável de mulheres . Angelina, a mãe morta; Florita, o anjo da guarda morena; Estrela, a bela sefardita e os homens de Estiliano, o advogado grego, a Denísio Cão, o barqueiro infernal que vivem na própria pele o fausto e os conflitos do ciclo da borracha nos anos que antecedem a Primeira Guerra Mundial. E, no centro de tudo,Dinaura, corpo estranho entre as órfãs das Carmelitas em Vila Bela, moça que parece filha do mato, lê romances, enfeitiça Arminto e sonha com a Cidade Encantada, a Eldorado submersa de que tanto se fala à beira do rio Amazonas.

NOTA: Em agosto de 2008 postamos uma resenha deste livro.  Para vê-la, clique AQUI.

Moacyr Scliar – Manual da paixão solitária — Editora: Companhia das Letras

Inspirado no pequeno e enigmático relato do Livro do Gênesis História de Judá e de Tamar, o autor de A Mulher que Escreveu a Bíblia e Os Vendilhões do Templo fala em seu novo livro dos sentimentos e emoções básicos do ser humano

Retomando o ambiente e a temática de A Mulher que Escreveu a Bíblia, Moacyr Scliar lança um novo romance que reconta de forma inesperada um relato do Antigo Testamento.
Num congresso de estudos bíblicos, um famoso professor e sua rival evocam, em momentos diferentes, duas figuras singulares: o jovem Shelá e a mulher por quem ele está apaixonado,Tamar. Os dois vão narrar, de pontos de vista distintos, uma intriga passional que mostra quatro homens e uma mulher às voltas com costumes ancestrais que até hoje governam boa parte da população de nosso mundo e que são fonte de conflitos e tragédias.asp, manual da paixão, scliar
O primeiro filho de Judá, Er, casa-se com Tamar.Como não a engravida, é castigado por Deus com a morte. De acordo com a tradição, compete ao segundo filho, Onan, assumir o papel do falecido; Onan se recusa a cumprir sua missão por considerá-la humilhante, optando por derramar seu sêmen sobre a terra para que a esposa não conceba herdeiros – e Deus também o pune com a morte. Resta Shelá, que o pai não quer entregar a Tamar por temer que o rapaz tenha o mesmo destino dos irmãos. Desqualificada e privada de filhos, Tamar recorre a um ardil que se tornaria lendário e que, recontado aqui na chave do humor, torna-se inesquecível.
Grande narrador, Scliar conta histórias que têm o dom do encantamento e do humor, e que lhe permitem explorar os aspectos tragicômicos de uma trama insólita como a de Manual da Paixão Solitária.

Ronaldo Correia de Brito – Galiléia — Editora: Objetiva

Três primos atravessam o sertão cearense para visitar o avô Raimundo Caetano, patriarca de uma família numerosa e decadente que definha na sede da fazenda Galiléia. Ismael, Davi e Adonias passaram parte da infância ali, mas fizeram o possível para cortar seus laços com a terra de origem. Fazem parte de uma geração que largou o campo para nunca mais voltar. Foram viver no exterior, procuraram reconstruir a vida em Recife, em São Paulo, na Noruega.
asp, galileia, ronaldo correia brito
O que espera os três primos ao final da viagem é uma volta radical a esta origem, a esta fazenda que um dia foi próspera, que oculta segredos e traições e “onde as pessoas se movem como nas tragédias”. Por mais que os protagonistas tenham se distanciado da violência que ronda a família, voltarão a senti-la de perto, descobrindo que nunca escaparam – ou escaparão – ao destino que os cerca. Terão de se reencontrar com a família e seus fantasmas, e reviver histórias de adultério, vingança e morte.

Silviano Santiago – Heranças — Editora: Editora Rocco

A burguesia abordada com raro despudor através da história de um cafajeste da alta sociedade. É este o ponto de partida de Heranças, novo romance do consagrado escritor Silviano Santigo – romancista, ensaísta, crítico literário, poeta e contista, ganhador por quatro vezes do Prêmio Jabuti nas categorias de romance e conto. Protagonizado por um conterrâneo do autor, o mineiro Walter, o título retoma a tradição cínica e jocosa que vem do realismo machadiano, em amálgama com o melodrama rodriguiano, para desmascarar a burguesia nacional ao longo do século XX.
asp, heranças, santiago
Na trama, o personagem, velho e debilitado, deixa a Belo Horizonte natal e vai morar no Rio de Janeiro, onde decide narrar seus setenta anos de vida, da infância na provinciana capital mineira à maturidade à beira-mar, no Rio de Janeiro. O acúmulo de bens e mulheres perfaz o capital do relato, conduzido com lentidão e cinismo para dar conta das peripécias melhor dizer negociatas deste homem sedutor, mulherengo, perdulário, canalha e sem quaisquer escrúpulos. Confrontado com a proximidade do fim, ele se pergunta para quem deve deixar toda a sua fortuna.

Walther Moreira Santos – O ciclista — Editora: Autêntica Editora

Emocionante e surpreendente. Assim pode ser definido o livro O Ciclista, obra vencedora da primeira edição do Prêmio José Mindlin de Literatura. Segundo o autor, Walther Moreira dos Santos,já premiado e conhecido da crítica especializada, trata-se de um livro sobre a beleza do perdão, da esperança e da compaixão. Com uma narrativa atraente, O Ciclista tem ingredientes capazes de conquistar e envolver o leitor que aprecia uma história bem contada, com personagens interessantes que se relacionam de forma intrigante e curiosa. asp, o ciclista, walther moreira santos

Como dizem os jurados da comissão julgadora do concurso, Antônio Torres, Maria Esther Maciel e Maria Amélia Mello: “a obra premiada se destacou das demais por apresentar uma narrativa original, instigante e literariamente bem construída. De acordo com eles, o autor demonstra habilidade no manejo da linguagem, criando personagens intrigantes e uma atmosfera que alicia, a cada capitulo, o leitor. O livro é um exercício de destreza e imaginação”.

FINALISTAS PARA: Prêmio de Melhor Livro – Autor Estreante:

 

Altair Martins – A parede no escuro— Editora: Record

Duas famílias, repentinamente, ficam sem a figura paterna: Adorno, dono de uma padaria e pai de Maria do Céu, com quem tem uma relação difícil, é morto em um atropelamento; Forjo o pai do atropelador está em estado grave no hospital, cercado por tubos, aumentando ainda mais a angústia do filho. Em uma narrativa densa, os diversos narradores deste romance expõem e expiam suas culpas e sentimentos de perda.

asp, a parede no escuro, altair

Contardo Calligaris – O conto do amor — Editora: Companhia das Letras

O conto do amor  se inicia com a visita de Carlo Antonini, psicoterapeuta que vive em Nova York, ao convento de Monte Oliveto Maggiore, na Toscana. Ali ele se depara com algo inusitado: a figura do jovem São Bento, pintada em um dos afrescos nas paredes, é parecida com o seu pai, que morreu doze anos antes. Isso o remete ao próprio motivo de sua ida à Itália: uma estranha conversa que ambos tiveram pouco antes de o pai morrer, quando este revelou ao filho, em tom de confissão, que em outra vida teria sido ajudante do pintor maneirista Sodoma (1477-1549), justamente o autor daquelas imagens. É o início de uma história cheia de surpresas, envolvendo um caso amoroso em meio à Segunda Guerra e seus desdobramentos da época até o presente.

Contardo Calligaris estréia no romance brincando com certos limites entre a imaginação e a vida real. A exemplo do autor, o protagonista de O conto do amor é psicanalista, atende pacientes em Nova York e teve um pai engajado na resistência anti-fascista italiana. “O primeiro capítulo, em seus detalhes, é total e fielmente autobiográfico”, diz ele. “Nunca soube bem o que fazer com aquela estranha ´confidência´ do meu pai na hora de sua morte. Claro, fui para Monte Oliveto e tudo, mas não achei nada. Nada, a não ser uma ficção. E toda ficção é, quem sabe, um pouco isto: um jeito de continuar um diálogo que ficou truncado na realidade.”

Não por acaso, a trama nascida dessa inspiração tem como principal tema a busca da identidade. A jornada de Antonini em direção ao passado do pai, levada adiante em arquivos e encontros com personagens de cidades como Milão, Siena, Florença e Paris – além de Monte Oliveto Maggiore, claro -, no fundo é uma grande investigação sobre sua própria origem. Uma trajetória que mimetiza, de certa maneira, um processo psicanalítico de autodescoberta. “Na psicanálise, há um quê de ´investigação´ no sentido policial-jornalístico”, afirma Calligaris. “Mas o que muda no livro é que a investigação do protagonista é ação e aventura ´real´.”
asp, o conto do amor
Ao final desse caminho por vezes tortuoso, que envolve os mistérios por trás da reprodução sem assinatura de uma imagem de Sodoma, de um atentado ao trem Roma-Mônaco nos anos 1970 e de uma noite inesquecível na Toscana narrada nos diários do pai, Antonini se surpreenderá ao perceber que suas descobertas apontam também para o futuro. E que nele ainda há lugar para paixões que podem mudar

Estevão Azevedo – Nunca o nome do menino — Editora: Terceiro Nome

Em Nunca o nome do menino,  a personagem principal, uma asp, nunca o nome do menino, estevão azevedomulher, relata os dias de sua vida que se seguiram ao momento em que ela descobre seu status de personagem de uma ficção que não aprecia e cujo autor despreza. Em seu labirinto literário, dois tempos distantes de sua vida são narrados, duas linhas que se estendem da primeira à última página como serpentes ávidas por devorar o próprio rabo e criar uma narrativa de vertigem, repleta de ciclos e espelhamentos, mas também de sentimentos e paixões.

Francisco Azevedo – O arroz de Palma — Editora: Record

Primeiro romance a tratar da imigração portuguesa para o Brasil no século XX, O arroz de Palma narra a saga de uma família em busca de um futuro melhor, superando diversas dificuldades. Nos cem anos em que acompanhamos suas vidas, irmãos brigam e fazem as pazes. Uns casam e são felizes, outros se separam. Os filhos ora preocupam, ora dão satisfação. Tudo sempre acompanhado pelo arroz jogado no casamento dos patriarcas, José Custódio e Maria Romana, em 1908. Grão que serve de fio condutor desta história, como migalhas de pão jogadas no labirinto da memória.

Estréia na literatura do roteirista e dramaturgo Francisco Azevedo – autor das peças Unha e carne e A casa de Anais Nin, sucessos de público e crítica -, o livro começa com Antônio, filho de José e Maria, aos 88 anos, preparando o almoço que será servido à família, finalmente reunida após muito tempo. Enquanto combina os ingredientes, vão se misturando em sua mente as histórias que Tia Palma, irmã de seu pai, lhe contava. Mitologias familiares, que gravitam em torno desse arroz e também em torno das dificuldades em se largar uma terra amada por um futuro duvidoso.

asp, arroz de palma, francisco azevedo
No casamento dos pais, em Viana do Castelo, norte de Portugal, seguindo a tradição, o casal saiu da igreja sob uma chuva de arroz. Recolhido por Palma, esses 12 quilos de arroz foram acompanhando a família, sendo fundamentais em vários momentos. Como quando, para tratar da infertilidade da cunhada e do irmão, Palma dá a ele um laxante e depois prepara uma canja com esse arroz. O mesmo que ela presenteia ao sobrinho Antônio no dia de seu casamento. Uma união selada num almoço em que a família serviu esse arroz com bacalhau. O arroz de Palma é um romance delicado, que emociona e comove. Com um certo ar de Isabel Allende, a trama tem um forte componente sentimental. Uma nostalgia por um tempo em que a família abrigava as pessoas. Um ideal que, portugueses ou não, todos herdamos.

Javier Arancibia Contreras – Imóbile — Editora: 7 Letras

Em Navisur, cidade latino-americana oprimida por uma onda de calor, asp, imobile, javier contrerashomem desperta de mais uma das noites intranquilas que o mantêm em constante degradação física e mental e se vê com as mãos lavadas em sangue e empunhando um pequeno revólver. Sem compreender nada com clareza e absorto numa crise de amnésia temporária, ele se vê perseguido por um policial solitário, mas principalmente pelas dúvidas e culpas que tem do passado e do presente. Imóbile é uma história sobre a incomunicabilidade e sobre como o martírio da dúvida de uma decisão pode afetar toda uma vida.

Marcus Vinicius de Freitas – Peixe morto — Editora: Autêntica Editora

“Os peixes inundavam a boca. Meia dúzia de acarás foi enfiada pela boca do morto, com os rabos deixados para fora, presos por uma espécie de cambão de arame que varava as bochechas, num arremedo de anzol. asp, Peixe_Morto
O corpo boiava meio de lado, massa inerte entre a marola e a sujeira da lagoa, mordiscado por carazinhos. Não notei logo o inusitado da boca – o pescador foi quem me apontou o detalhe grotesco – pois o estado terrível do corpo absorvia toda a atenção. A pele do tronco havia sido arrancada a partir de cortes regulares na base do pescoço e nas dobras das axilas. ‘Talho de taxidermista’, pensei comigo, numa sensação misturada de assombro e encantamento.”

Maria Cecília Gomes dos Reis – O mundo segundo Laura NI — Editora: Editora 34

Em sua obra de estréia na ficção, Maria Cecília Gomes dos Reis narra asp, o mundo segundo, Maria gomesum dia na vida de Laura Ni, uma pesquisadora de letras clássicas, e de seu marido Mario, diretor-financeiro de uma empresa multinacional em São Paulo. A partir de vozes e de gêneros narrativos díspares, incorporados de forma criativa ao enredo e à paisagem psíquica de Laura, a prosa desvela, entre mergulhos vertiginosos na consciência dos personagens e rastreamentos na superfície de situações prosaicas, a porosidade do pensamento humano e as afecções da realidade sobre ele.

 

Rinaldo Fernandes – Rita no pomar — Editora: 7 Letras

Como diz Silviano Santiago no posfácio do livro, “Rita no Pomar é um asp, rita no pomar, rinaldo de fernandesesdrúxulo mónologo-a-dois”, entre a personagem-título e seu cachorro Pet. A vida solitária de Rita serve como matéria-prima tanto para esses desabafos quanto para seu diário e para alguns contos, que se intercalam ao longo do romance. Rinaldo de Fernandes conta a história de Rita aos pedaços; sua narrativa é entremeada por reticências e lacunas, criando novos sentidos a cada leitura.

Sérgio Guimarães – Zé, Mizé, camarada André — Editora: Record

O último vencedor do Prêmio SESC Romance é hoje um dos 50 finalistas do Prêmio Portugal Telecom. É apenas uma amostra da importância desta democrática premiação, que tem revelado talentos asp, ze, mize, camarada andré, sergio guimarãessólidos da literatura brasileira. Neste livro, um brasileiro recebe uma caixa com fitas cassetes que revelam conversas entre um jornalista estrangeiro e uma angolana em plena revolução vivida pelo país africano. O romance é todo construído em diálogos entre esses dois personagens, que comentam desde o processo político, a ligação com o comunismo, até as mudanças sociais e de costumes que Angola passava no período pós-independência.

 

Vanessa Bárbara e Emilio Fraia – O verão do Chibo — Editora: Objetiva

O verão do Chibo é uma das obras mais originais da safra dos escritores brasileiros contemporâneos. Escrito a quatro mãos, o livro revela a extraordinária habilidade narrativa desses dois jovens autores. Emilio Fraia e Vanessa Barbara trabalharam de forma exaustiva, mesclando idéias e estilos, até alcançar uma voz nova, vibrante e coesa.
asp-overao-do-chibo-vanessa-barabara
No livro, um menino de não mais de sete anos, mergulhado num universo muito particular, descreve suas aventuras nas férias de verão, embrenhado num milharal ao lado de outros amigos. Mas esse é um verão diferente. Pois Chibo, seu irmão mais velho, some misteriosamente, e os outros garotos parecem seguir o mesmo caminho.

O verão do Chibo é uma obra sutil, muitas vezes cômica, outras vezes emocionante, sobre os mistérios que cercam o amadurecimento





Lembranças da infância: dois poemas

29 05 2009

Menino correndo cachorrinho

 

        Uma boa parte dos leitores deste blog é de professores dos cursos básico e médio que procuram poesias adequadas à sala de aula.  Grande ênfase tem sido dada aos pequenos poemas, com trocadilhos e uma atitude jocosa nas rimas ou ritmos.  Há na verdade ótimos poetas brasileiros e portugueses que se enquadram exatamente nessa tendência, chamada “para crianças”.  Mas não muito tempo atrás, já bem na segunda metade do século XX a poesia para crianças era — com exceção de uns poucos autores entre eles os nomes clássico como Olavo Bilac, Zalina Rolim – a poesia que autores escreviam para um público geral e que era selecionada para uso escolar, por causa da temática e do linguajar de mais fácil compreensão.  Daí o sucesso de antologias de poesias para a infância, tais como aquelas organizadas e selecionadas por Henriqueta Lisboa, ela mesma uma excelente poeta brasileira.  Quisera eu me lembrar do nome do organizador da antologia de textos e poesias brasileiras em cujo volume estudei na escola municipal do Rio de Janeiro onde completei os meus primeiros anos escolares… Mas não me lembro.

 

        Lembro-me, no entanto, que decorávamos poesias, na sala de aula, a turma inteira, éramos 30, lendo o texto em conjunto, como faríamos se regidos numa missa à cultura brasileira. Vez por outra, íamos, um a um, para perto da professora, lá na frente, e declamávamos – por bem ou por mal – um ou outro poema, lendo de nosso livro de textos.  Tive sorte, agradeço à minha professora, Dona Yolanda, algumas boas memórias.  Entre elas está o poema Meus oito anos, de Casimiro de Abreu, que por ser muito longo – e o líamos inteiro – foi recitado em conjunto, em sala de aula, como se declamássemos uma tabuada de versos, e depois, cada estrofe, era lida por uma criança, em cadeia perpétua: quem lia a última estrofe era seguido por quem lia a primeira estrofe de novo, como num rondó, interminável.    É um poema que sei de cor até hoje.  Em parte, porque eu conseguia me ver naquele menino de oito anos “correndo pelas campinas, à roda das cachoeiras, atrás das asas ligeiras das borboletas…”  Não havia campinas no Rio de Janeiro, não havia cachoeiras perto de minha casa e muito menos borboletas azuis.  Mas eu sabia que deveria haver um local assim, à sombra das bananeiras.   

 

        Não é difícil imaginar a influência que esse poeta teve no Brasil e principalmente a influência desse poema especificamente: ENORME!  Achei que poderíamos nos lembrar de Meus oito anos, aqui no blog, pois ontem, virando as páginas de alguns livros de poesia, achei uma outra jóia, influenciada por Casimiro de Abreu e que também pode ser usada na sala de aula.  Em,  Cheiro de chuva, do poeta norte rio-grandense José Lucas de Barros, sentimos claramente a influência de Casimiro de Abreu, no ritmo, no tema escolhidos.  No entanto, é um poema que se destaca por si só, seu valor independe de Meus oito anos.  Colocarei aqui os dois textos, para uma bela e saudável comparação.  Em ambos há um retorno à infância e um retrato da natureza como imaginamos, que hoje, depois da abertura da nossa conscientização sobre o meio-ambiente, a natureza deva ser ou possa voltar a ser.  É claro que há uma idealização mas uma idealização que só sublinha ainda mais enfaticamente a necessidade que temos de que a nossa terra e o nosso planeta voltem a nos dar prazeres semelhantes aos descritos nos dois poemas.  Bom proveito!

 

chuva no sertão fotgrafia de Pedro Cavalcante, Flickr

Chuva no sertão, fotografia Pedro Cavalcante/Flickr.

 

Cheiro de chuva

 

                                   José Lucas de Barros

 

Deus, que saudosa manhã,

Em que ouço a melodia

Do canto da saparia

E o grito da jaçanã!

Ai! Quem conhece esse encanto

No meu sertão grato e santo

Esquecer não poderá.

O que há de bom nesta vida,

Pode passar de corrida,

A saudade deixará.

 

Vendo d’água a terra cheia,

Eu sinto a doce lembrança

De meu tempo de criança,

Dos meus açudes de areia;

A corrente do regato,

O cheiro de flor do mato

Das caatingas do sertão,

Tudo são gratas memórias

Que vêm cavar mil histórias

Plantadas no coração.

 

Nada mais belo e atraente

Do que, no rio revolto,

Pelejar de braço solto

De encontro à bruta corrente.

Lembro-me bem, no Espinharas,

Em manhãs boas e claras,

Após noite de trovão

A gente afogava as mágoas,

Cortando o peito nas águas

Como simples diversão.

 

Depois de ver-se na terra

Fartura d’água rolando,

O relâmpago faiscando,

O trovão quebrando a serra,

O gemer das cachoeiras,

Nas madrugadas fagueiras

Dá testemunho aos ateus

De que toda essa grandeza

É a própria Natureza

Cantando a glória de Deus.

 

 NOTA:  Espinharas, nome de um rio no estado da Paraíba.

 

Em:  Panorama da poesia norte-riograndense, Rômulo C. Wanderley, Rio de Janeiro, Edições do Val: 1965, prefácio de Luís da Câmara Cascudo. 

 Cicero_dias_MeninoCajue recife ao fundo, 1970s, ost,70x63

Menino, caju e Recife ao fundo, década de 1970

Cícero Dias ( Brasil 1907-2003)

Óleo sobre tela,  70 x 63 cm

 

 

Meus Oito Anos

                                               

                                                 Casimiro de Abreu

 

 

Oh! que saudades que tenho

Da aurora da minha vida,

Da minha infância querida

Que os anos não trazem mais!

Que amor, que sonhos, que flores,

Naquelas tardes fagueiras

À sombra das bananeiras,

Debaixo dos laranjais!

 

Como são belos os dias

Do despontar da existência!

– Respira a alma inocência

Como perfumes a flor;

O mar – é lago sereno,

O céu – um manto azulado,

O mundo – um sonho dourado,

A vida – um hino d’amor!

 

Que aurora, que sol, que vida,

Que noites de melodia

Naquela doce alegria,

Naquele ingênuo folgar!

O céu bordado d’estrelas,

A terra de aromas cheia

As ondas beijando a areia

E a lua beijando o mar!

 

Oh! dias da minha infância!

Oh! meu céu de primavera!

Que doce a vida não era

Nessa risonha manhã!

Em vez das mágoas de agora,

Eu tinha nessas delícias

De minha mãe as carícias

E beijos de minhã irmã!

 

Livre filho das montanhas,

Eu ia bem satisfeito,

Da camisa aberta o peito,

– Pés descalços, braços nus –

Correndo pelas campinas

A roda das cachoeiras,

Atrás das asas ligeiras

Das borboletas azuis!

 

Naqueles tempos ditosos

Ia colher as pitangas,

Trepava a tirar as mangas,

Brincava à beira do mar;

Rezava às Ave-Marias,

Achava o céu sempre lindo.

Adormecia sorrindo

E despertava a cantar!

 

Oh! que saudades que tenho

Da aurora da minha vida,

Da minha infância querida

Que os anos não trazem mais!

– Que amor, que sonhos, que flores,

Naquelas tardes fagueiras

À sombra das bananeiras

Debaixo dos laranjais!

 —-

José Lucas de Barros, (original da PB, registrado em Serra Negra do Norte, RN,  1934) professor, advogado, poeta, trovador e pesquisador da literatura popular.  Vice- presidente da Academia de Trovas do Rio Grande do Norte, presidente da Associação Estadual de Poetas Populares – RN e membro da União Brasileira de Trovadores, seção de Natal/RN. 

 

Obras:

 

Cantigas de meu destino, trovas

Repentes e desafios, ensaio e pesquisa

Caminhada, poesias

 

 

Casimiro José Marques de Abreu (Barra de São João, 4 de janeiro de 1839 — Nova Friburgo, 18 de outubro de 1860) poeta brasileiro da segunda geração romântica.  Foi a Portugal com seu pai em 1853, onde permaneceu até 1857.  Morreu aos 21 anos de idade de tuberculose.  Deixou um único livro de poesias publicado em 1859, Primaveras, mas foi o suficiente  para se tornar um dos mais populares poetas brasileiros de todos os tempos.

 

Obras:

 

Teatro:

Camões e o Jaú , 1856

 

Poesia:

Primaveras, 1859

 

Romances:

 

Carolina, 1856

Camila, romance inacabado, 1856

A virgem loura,

Páginas do coração, prosa poética,1857





Eu sei ler, poesia infantil de Martins D’ Alvarez

22 05 2009

escola, ilustração de Diva de Val GolfieriEscola: pintura à óleo de Diva do Val Golfieri (Brasil, contemporânea)

 

Eu sei ler

                                         Martins D’ Alvarez

 

Eu sei ler corretamente,

faço contas de somar,

sou batuta em dividir,

gosto de multiplicar.

 

Quando a professora escreve

no quadro-negro da escola,

leio até de olhos fechados:

“Paulo corre atrás da bola.”

 

Pra somar uma banana

com mais duas e mais três,

vou comendo e vou somando

1 mais 2 mais 3 são 6.

 

Pra dividir três pães

comigo e com meu irmão?

Eu sou o maior, ganho dois.

Para ele basta um pão.

 

Se mamãe me dá um doce

na hora de merendar,

acabo comendo três.

Como eu sei multiplicar!

 

Em: Vamos estudar? – cartilha — de Theobaldo Miranda Santos, Rio de Janeiro, Agir: 1961 [Para a aprendizagem simultânea da leitura e da escrita].

 

José Martins D’Alvarez   (CE 1904)  Poeta, romancista, jornalista, diplomado em Farmacia e Odontologia, professor, membro da Academia Cearense de Letras. Nasceu na cidade de Barbalha, Estado do Ceara, em 14 de setembro de 1904.  Filho de Antonio Martins de Jesus a de Antonia Leite da Cruz Martins. Fez os estudos primários na sua cidade natal, os secundários, no Liceu do Ceará.  Depois de formado em Odontologia. Transferiu em 1938 sua residência para o Rio de Janeiro, onde exerceu, além de atividades na imprensa, atividades no magistério superior.

 

 

 

Obras:

 

“Choro verde: a ronda das horas verdes”, 1930 (versos).

“Quarta-feira de cinzas”, 1932 (novela).

 “Vitral”, 1934 (poemas).

“Morro do moinho” 1937 (romance)

“O Norte Canta”, 1941 (poesia popular).

“No Mundo da Lua”, 1942 (poesia para crianças).

“Chama infinita, 1949 (poesias)

“O nordeste que o sul não conhece 1953 (ensaio)

“Ritmos e legendas” 1959 (poesias escolhidas)

“Roteiro sentimental: geopolítica do Brasil” 1967 (poesias escolhidas)

“Poesia do cotidiano”, 1977 (poesias)

 

 

 

 

 

Outros poemas de Martins d’Alvarez neste blog:

 

 

ANJO BOM ; AMIGOS ; JOÃO E MARIA ; SÚPLICA





Renatinho foi ao circo, poesia infantil de Vicente Guimarães

29 04 2009

circo

 

 

 

 

 

Renatinho foi a o circo

 

 

Vicente Guimarães

 

 

Renatinho foi ao circo

E voltou entusiasmado;

Estava alegre e feliz,

Mas um pouco impressionado.

 

Gostou muito dos atletas,

Também do malabarista,

Deu vivas ao domador,

Palmas ao equilibrista.

 

Mas quando a casa chegou,

Depois da grande função,

Foi contar ao papaizinho

Sua nova resolução:

 

— Quando eu crescer, quero ser

Um palhacinho brejeiro,

Para dar a cambalhota

No centro do picadeiro.

 

 

 

Em: João Bolinha virou gente, de Vicente Guimarães (vovô Felício), Rio de Janeiro, Editora Minerva, sem data.

 

———

 

 

Vicente de Paulo Guimarães, [Vovô Felício] ( Cordisburgo, MG, 1906 – 1981) — Poeta, contista, biógrafo, jornalista, autor de Literatura Infanto-Juvenil (1979), funcionário público, educador, membro da Academia Brasileira de Literatura (1980), prêmio Monteiro Lobato -ABL (1977). Em 1935, Vicente criou em Belo Horizonte a revista “Caretinha”, dedicada a jovens leitores; dois anos depois, foi o responsável pelo suplemento infantil do jornal “O Diário”.  Um dos projetos de sucesso foi a revista “Era uma vez”, que começou a circular em 1947.  Criou também no mesmo ano a Revista do Sesinho, para divertir e educar as crianças.

 

 

Obras:

 

Tranqüilidade

O pequeno pedestre

Campeão de futebol

Os bichos eram diferentes

Frangote desobediente

João Bolinha virou gente

Boa vida de João Bolinha

Histórias divertidas

Lenda da palmeira, 1944

Quinze minutos de poder

Os três irmãos, 1978

Festa de Natal, 1964

Rui, 1949

O pastorzinho de Pouy, 1957

Princesinha do Castelo vermelho

Gurupi

Marisa, a filha da Mireninha

Vida de rua, 1954

Era uma vez uma onça

O tesouro da montanha

Anel de vidro, 1956

História de um bravo, 1960

Gurupi

Ultima aventura do sete de ouros

Aventuras de um cachorrinho vira lata

Princesinha do Castelo Vermelho

História de uma menina pobre

A fama do jabuti

O macaquinho Guili

Bilac, história de um príncipe, 1968

Biografia de Rui Barbosa para a infância, 1965

Joãozito, infância de João Guimarães Rosa, 1971

Nonô, o menino de Diamantina, 1980

O menino do morro – Machado de Assis, 1980

Coleção vovô Felício –  em seis volumes





Navio Pirata, poema para uso escolar, Ribeiro Couto

23 04 2009

pirateship

 

 

 

Navio Pirata

 

Ribeiro Couto

 

 

Navio pirata

Num mar confidente,

Levando ouro e prata;

Percorre caminhos

Sabidos somente

Dos gênios marinhos;

 

 

Pela madrugada

Uma luz cansada

Olha nas vigias;

E outra luz responde

Nas águas vazias

— Não se sabe onde.

 

 

 

 

 

 

 

Em: Poemas para a infância: antologia escolar, ed. Henriqueta Lisboa, Rio de Janeiro, Ediouro, s/d.

 

 

 

Rui Esteves Ribeiro de Almeida Couto (Santos, 12 de março de 1898 — Paris, 30 de maio de 1963), mais conhecido simplesmente como Ribeiro Couto, foi um jornalista, magistrado, diplomata, poeta, contista e romancista brasileiro.

 

Foi membro da Academia Brasileira de Letras desde 28 de março de 1934 (ocupando a vaga de Constâncio Alves na cadeira 26), até sua morte.

 

 

Obra

 

Poesia

 

O jardim das confidências (1921)

Poemetos de ternura e de melancolia (1924)

Um homem na multidão (1926)

Canções de amor (1930)

Noroeste e alguns poemas do Brasil (1932)

Noroeste e outros poemas do Brasil (1933)

Correspondência de família (1933)

Província (1934)

Cancioneiro de Dom Afonso (1939)

Cancioneiro do ausente (1943)

Dia longo (1944)

Arc en ciel (1949)

Mal du pays (1949)

Rive etrangère (1951)

Entre mar e rio (1952)

Jeux de L’apprenti Animalier. Dessins de L’auteur. (1955)

Le jour est long, choix de poèmes traduits par l’auter (1958)

Poesias reunidas (1960)

Longe (1961)

 

 

Prosa

 

A casa do gato cinzento, contos (1922)

O crime do estudante Batista, contos (1922)

A cidade do vício e da graça, crônicas (1924)

Baianinha e outras mulheres, contos (1927)

Cabocla, romance (1931);

Espírito de São Paulo, crônicas (1932)

Clube das esposas enganadas, contos (1933)

Presença de Santa Teresinha, ensaio (1934)

Chão de França, viagem (1935)

Conversa inocente, crônicas (1935)

Prima Belinha, romance (1940)

Largo da matriz e outras histórias, contos (1940)

Isaura (1944)

Uma noite de chuva e outros contos (1944)

Barro do município, crônicas (1956)

Dois retratos de Manuel Bandeira (1960)

Sentimento lusitano, ensaio (1961)





Prece a Xavier, o Tiradentes — poema de Murilo Araújo pelo 21 de abril

20 04 2009

eduardo-de-sa-julgamento-da-inconfidencia-museu-historico-nacional-ost

Julgamento da Inconfidência, 1921

Eduardo de  Sá ( RJ, 1866 – RJ, 1940)

Óleo sobre tela

Museu Histórico Nacional

 

 

 

 

 

 

 

Prece a Xavier,  o Tiradentes

 

                                               Murilo Araújo

 

 

 

Marchaste, sem tremer, na alva dos condenados.

 

 

Ela voava ao vento,

alva como tua alma.

E galgaste os degraus da tortura

descalço.

 

 

Mas que enormes degraus!  Iam a tal altura

que por eles, chegaste ao céu, ao sol, a Deus,

subindo ao cadafalso.

 

 

Alferes Xavier – é inesperada e estranha

a Luz Providencial!

Envolve num fracasso a maior das vitórias;

faz perder quem mais ganha;

e arroja à morte –

à morte –

o justo que elegeu para ser imortal.

 

 

E assim a insurreição sagrada

que te santificou –

tu, que eras o menor,  foste o maior na glória;

tua lenda dourada

mais do que todas na memória se elevou.

 

 

Tinham todos bons títulos de efeito

os teus irmãos na grande Inconfidência.

 

Tu que não eras doutor, ó guarda do Direito;

não eras sacerdote, ó  mártir da consciência;

nem comandaste – herói – como Freire de Andrade,

um terço de dragões…

Tinhas no cofre da alma a pureza e a verdade

e essa indomável vocação da liberdade

mais poderosa que togas e legiões.

 

 

Ah!  As multidões da terra

exaltam todas, como gênios tutelares,

grandes falcões de guerra

de cujas garras brota o raio e a morte desce…

Mas, ando do Brasil, — tu mereces altares,

porque, invés de matar, foste morrer estóico

por um destino que hoje em luzes resplandece!

 

 

Inabalável, foste a Fé que, decidida,

serenamente,  voluntária, se imolou.

Com a própria vida deste à Pátria vida;

e a oferenda de sangue trouxe ao povo

um prêmio que do Céu, que de Deus lhe alcançou.

 

 

Vinda a hora funesta,

Deus quis que os opressores

cercassem tua morte em rumores de festa,

levassem teu cortejo ao rufo de tambores

e ao grito  do clarim,

e adornassem a rua e as fachadas com flores,

contentes os senhores,

pois morrias enfim…

 

 

Mas  — que pura ironia a desse instante! –

glorificaram, sem saber, a redenção…

porque, com tua morte triunfante,

surgiu formada e indestrutível

a Nação!

 

 

Alferes Xavier, entre os teus, meu patrício,

tu que eras o menor,

cresceste tanto na coragem e sacrifício,

que deixaste no pó todos em derredor.

 

 

Onde estão hoje tantos juízes e fidalgos?

Onde os soldados?  Os esbirros da tortura?

Onde esses nobres de brasão e de arcabuz?

 

 

Ah!  Pisavam tão forte … e pisaram em falso!

Mas na tua hora escura,

subindo, humílimo, os degraus do cadafalso,

Alferes Xavier, chegaste à grande Luz.  

 

 

 

 

Encontrado em:

 

O candelabro eterno: aos moços – este álbum dos avós que criaram o Brasil, publicado pela primeira vez em 1955, parte da  Poemas Completos de Murillo Araújo [Murilo Araújo], 3 volumes, Rio de Janeiro, Irmãos Pongetti:1960

 

 

 

Murilo Araújo – ou Murillo Araújo — (MG 1894 – RJ 1980) jornalista, formado em direito.  Poeta, escritor, teatrólogo, ensaísta.

 

 

 

Obras:

 

Carrilhões (1917) 

A galera (escrito em 1915, mas publicado anos depois)

Árias de muito longe (1921)

A cidade de ouro (1927)

A iluminação da vida (1927)

A estrela azul (1940)

As sete cores do céu (1941)

A escadaria acesa (1941)

O palhacinho quebrado (1952)

A luz perdida (1952)

O candelabro eterno (1955)

 

 

Prosa:

A arte do poeta (1944)

Ontem, ao luar (19510 — uma biografia do compositor Catulo da Paixão Cearense

Aconteceu em nossa terra (pequenos casos de grandes homens)

Quadrantes do Modernismo Brasileiro (1958)

 

 

———————-

 

 

Eduardo de Sá (Rio de Janeiro RJ 1866 – idem 1940). Escultor, pintor e restaurador. Frequenta aulas particulares de escultura com Rodolfo Bernardelli e estuda na Academia Imperial de Belas Artes – Aiba, entre 1883 e 1886, com Victor Meirelles, Zeferino da Costa, José Maria de Medeiros e Pedro Américo. Em 1888, em Paris, estuda na Académie Julian, onde foi aluno de Gustave Boulanger e de Jules Joseph Lefebvre. Um de seus trabalhos mais conhecidos é o restauro do escudo do teto da entrada da capela da Santa Casa de Misericórdia, no Rio de Janeiro.

 

 

 

 

Outros poemas de Murillo Araújo (Murilo Araújo neste blog):

 

Dois tesouros na pátria

Romance dos Dois Pedros

Dia de festa

Com as estrelas natais





Vozes da noite, poema infantil de Armando Cortes Rodrigues

11 04 2009

ras-e-grilo

 

 

 

Vozes da noite

 

Armando Cortes Rodrigues

 

 

 

Vozes na Noite!  Quem fala

Com tanto ardor, tanto afã?

Falou o Grilo primeiro,

Logo depois foi a rã.

 

 

Pobre loucura dos homens

Quando julgam entendê-las…

Só eles pasmam os olhos

Neste encanto das estrelas.

 

 

Lá no silêncio dos campos

Ou no mais ermo da serra,

Na voz das rãs fala a água,

Na voz dos grilos a Terra.

 

 

Só eles cantam a vida

Com amor e singeleza,

Por ser descuidada, alegre;

Por ser simples com beleza.

 

 

Pudesse agora dizer-te,

Sem ser por palavras vãs,

O que diz a voz dos grilos,

O que diz a voz das rãs.

 

 

 

Em: Antologia Poética para a infância e a juventude,  Henriqueta Lisboa, Rio de Janeiro, INL:1961

 

 

 

Armando Cortes Rodrigues (1891-1971) Escritor português, nasceu em Vila Franca do Campo, S. Miguel a 28 de Fevereiro de 1891 . Tendo escrito na sua terra a opereta – Em Férias – de colaboração com um condiscípulo, ainda estudante do liceu, vem para Lisboa (1915), onde se matricula no Curso Superior de Letras. Licenciou-se em Filologia Românica, em 1927. Passou o resto da vida nos Açores, como professor. Foi diretor da revista Insular.

 

 

Obras poéticas:

 

Ode a Minerva. Angra do Heroísmo, 1922

Conto do Natal para a Fernanda, 1922  

Em Louvor da Humildade. Poemas da Terra e dos Pobres, 1924

Cântico das Fontes, 1934

Cantares da Noite Seguidos dos Poemas de Orpheu, 1942

Quatro Poemas Líricos, 1948

Horto fechado e Outros Poemas, 1953

Antologia de Poemas de Armando Côrtes-Rodrigues, 1956

Em Louvor da Redondilha, 1957

Auto do Espírito Santo, 1957   

Auto do Natal,  1965

 





Anjo da Guarda — poema infantil de Emílio Moura

10 04 2009

vaso-com-dragao-gary-michael

Vaso chinês com dragão, pintura de Gary Michaels.

 

 

 

 

 

Anjo da Guarda

 

Emílio Moura

 

 

Dentro da sala meio escura

o Dragão salta do vaso.

Nenhuma espada em minha mão.

 

 

O tapete foge, o teto estica-se.

 

 

“ – Dorme, dorme, meu filhinho…”

 

 

Quem é que pega o Monstro

E prega o Monstro no vaso?

 

 

Alguém está pegando o Monstro…

 

 

 

Em: Antologia Poética para a infância e a juventude, Henriqueta Lisboa, Rio de Janeiro, INL: 1961

 

 

 

Emílio Guimarães Moura (14 de agosto de 1902, Dores do Indaiá—28 de setembro de 1971, Belo Horizonte) foi um professor universitário, poeta modernista e redator dos periódicos Diário de Minas, Estado de Minas e A Tribuna de Minas Gerais. Moura foi também um dos fundadores da FACE-UFMG, onde lecionou e da qual foi o primeiro reitor.

 

 

Obras:

 

Ingenuidade (1931)

Canto da hora amarga (1936)

Cancioneiro (1945)

O espelho e a musa (1949)

O instante e o eterno (1953)

A casa (1961)

50 Poemas escolhidos pelo autor (1961)

Itinerário Poético (1969)