Uma anedota da vida de D. Pedro I, pelas comemorações da Independência

27 08 2009

cavalos brincando

 

 

“D. Pedro, como príncipe, recebia muito pouco dinheiro.  A sua pensão era ridícula: um conto de réis! E não havia força de D. João sair daquilo.  O rei era um sovina tremendo.   D. Pedro, temperamento de irrefletido,  inteiramente oposto ao do pai, gastava às mãos cheias,  estouradamente, esbanjadamente.  Por isso mesmo, enquanto príncipe, D. Pedro viveu em aperturas desesperadas.  Mais duma vez, nos seus apuros, o herdeiro do trono recorreu a empréstimos envergonhantes.  O Pilotinho, bodegueiro da Rua dos Borbonos,  forneceu-lhe certa ocasição, doze contos de réis.   Manuel José Sarmento, pessoa pacata,  antigo oficial da secretaria, socorreu-o muitíssimas vezes com quantias fortes.  Ora, diante da usura do pai, para sair daquela situação humilhante de empréstimos e mais empréstimos, o príncipe tomou uma resolução heróica: resolveu ganhar dinheiro!  Resolveu ganhar dinheiro a todo o transe, de qualquer jeito, desse no que desse.   E que é que engendrou aquela cabeça de vento?  Apenas isto:  fazer uma sociedade mercantil com o Plácido.  [ Plácido Imaginar e executar foi um pronto.   Apalavraram logo o contrato.  E ambos, unindo os seus destinos, meteram-se a negociar.   Um príncipe, o herdeiro do trono,  a negociar de parceria com o seu barbeiro!  Imaginai um pouco…  E negociar em quê:  Na única coisa de que D. Pedro realmente entendia: compra e venda de animais.,,

A sociedade principiou a funcionar sem demora.  D. Pedro, em companhia do Plácido, ia quase toda manhã ver as tropas que chegavam.   Escolhia, num relance, os animais mais belos.  Um golpe de vista espantoso!  Apartava-os, pagava-os, mandava-os para as cavalariças do Paço.  Diziam os tropeiros que “o moço tinha faro: enxergava logo a flor da manada…”

Depois, na cidade, a engrenagem do negócio era das mais simples.  Uns dias de trato, os animais engordavam, o pelo reluzia.   O Plácido saía então em busca dos compradores.   Uma facilidade.  Bastava dizer a um daqueles fidalgotes endinheirados:

— O príncipe resolveu vender um belo animal.  Belíssimo animal!  É um dos mais soberbos das cavalariças do Paço.  Por que Vossa Mercê não aproveita a ocasião?

O homem não titubeava.  Corria ao Paço, via o cavalo, achava-o perfeito, comprava por qualquer preço.  E saía honradíssimo, cheio de orgulho, a esparramar pela corte que adquirira um “cavalo das cavalarias reais…”

A sociedade, evidentemente, começou a prosperar.  Os dois parceiros puseram-se a ganhar dinheiro à vontade.  Dinheiro a rodo.  D. Pedro andava contentíssimo!  O negócio era dos melhores, dos mais certos.

— Um negocião da China, como dizia alvoroçadamente o príncipe ao barbeiro; um negociação da China!  E dizer que até hoje ninguém ainda teve essa idéia!

Mas, um dia, por fatalidade, aquela história foi parar aos ouvidos do rei.  D. João VI branqueou.  Nunca, na sua vida, o pobre monarca enfureceu tanto!  Aquela leviandade do príncipe revirou-lhe os nervos.  Sacudiu-o.  Mandou chamar imediatamente o filho. 

D. Pedro, ao entrar, deparou com o pai de pé, revolucionado, o cenho torvamente cerrado.  O rei tinha na mão sua grossa bengala de castão de ouro.  E numa fúria, espumejando:

—  Então seu grandíssimo canalha, vosmecê a negociar em animais?  E a negociar em parceria com o Plácido, o barbeiro?  Pois, vosmecê, o herdeiro do trono, não tem vergonha nessa cara?  O que eu deveria fazer, seu cachorro, era quebrar-lhe a cara com essa bengala?  Quebrar-lhe a cara, ouviu? 

E erguia a bengala no ar, e bramia, e descompunha, e gaguejava de cólera.  D. Pedro não negou.  Confessou tudo com firmeza.  D. João mandou buscar o Plácido.  E ali mesmo:

— Você,  de hoje em diante, está proibido de se meter em qualquer negócio com o príncipe.  A sociedade está liquidada.  Lucro, se houve, que fique com você.  Não admito que meu filho toque num real dessa patifaria.

E desfez a sociedade.

Está claro que havia muitíssimo lucro no negócio.  E o Plácido, o felizardo, ficou-se com aquele dinheirão todo.  Principiou desde aí, com esse capital, a prosperar na vida.  Ficou riquíssimo.  Terminou numa das mais grandiosas fortunas do Primeiro Império.”

 

Em:  As maluquices do imperador, Paulo Setúbal, São Paulo, 1947: Clube do livro., páginas 64-66.

 

NOTA DA PEREGRINA:  O amigo de D. Pedro era  Plácido Pereira de Abreu, que mais tarde se casou com a filha do Marquês de Inhambupe. 

 —-

 

paulo_setubal

 

Paulo Setúbal de Oliveira, ( Tatuí, SP 1893 — SP, SP, 1937) advogado, jornalista, ensaísta, poeta e romancista. Formou-se em Direito em 1914.  Trabalhou como colaborador do jornal O Estado de São Paulo. Foi eleito deputado estadual (1928 / 1930), renunciou ao mandato por problemas de saúde. Em 06 de dezembro de 1934 foi eleito membro da Academia Brasileira de Letras

 

Obras:

 

Alma cabocla, poesia (1920);

A marquesa de Santos, romance-histórico 1925

O príncipe de Nassau, romance histórico, 1926

Um sarau no pátio de São Cristóvão, teatro,  1926

As maluquices do Imperador, contos-históricos, 1927

A bandeira de Fernão Dias, contos-históricos, 1928

Nos bastidores da história, contos, 1928

O ouro de Cuiabá, história, 1933

Os irmãos Leme, romance, 1933

El-dorado, história, 1934

O romance da prata, história, 1935

O sonho das esmeraldas, romance, 1935

A fé na formação da nacionalidade, ensaio, 1936

Confíteor, memórias, 1937

Ensaios históricos (obra póstuma)





Romance ingênuo de duas linhas paralelas – José Fanha — para crianças, jovens e adolescentes

22 08 2009

linha paralelas

***

 

Romance ingênuo de duas linhas paralelas

 

                                                               José Fanha

 

Duas linhas paralelas

Muito paralelamente

Iam passando entre estrelas

Fazendo o que estava escrito:

Caminhando eternamente de infinito a infinito

Seguiam-se passo a passo

Exactas e sempre a par

Pois só num ponto do espaço

Que ninguém sabe onde é

Se podiam encontrar

Falar e tomar café.

Mas farta de andar sozinha

Uma delas certo dia

Voltou-se para a outra linha

Sorriu-lhe e disse-lhe assim:

“Deixa lá a geometria

E anda aqui para o pé de mim…!

Diz a outra: “Nem pensar!

Mas que falta de respeito!

Se quisermos lá chegar

Temos de ir devagarinho

Andando sempre a direito

Cada qual no seu caminho!”

Não se dando por achada

Fica na sua a primeira

E sorrindo amalandrada

Pela calada, sem um grito

Deita a mãozinha matreira

Puxa para si o infinito.

E com ele ali à frente

As duas a murmurar

Olharam-se docemente

E sem fazerem perguntas

Puseram-se a namorar

Seguiram as duas juntas.

Assim nestas poucas linhas

Fica uma estória banal

Com linhas e entrelinhas

E uma moral convergente:

O infinito afinal

Fica aqui ao pé da gente.

 

fanha

José Fanha

 

José Fanha (Portugal, 1951) Formado em arquitetura é hoje professor do ensino médio e trabalha também para a televisão e o cinema.  Poeta, declamador, autor de letras para canções e de histórias para crianças, autor de textos para televisão, para rádio e para teatro e, também pintor nos tempos livres.

Obras:

Eu sou português aqui

Breve tratado das coisas da arte e do amor

A porta

Elogio dos peixes, das pedras e dos simples

Alex Ponto Com – Uma aventura virtual

Diário Inventado de Um Menino Já Crescido

Os Novos Mistérios de Sintra de Rosa Lobato de Faria, Mário Zambujal, Luísa Beltrão, José Jorge Letria, José Fanha, João Aguiar, Alice Vieira

O Dia em Que o Mar Desapareceu

Poemas da Natureza + CD-Áudio

Abril 30 Anos Trinta

De Palavra em Punho

Cem Poemas Portugueses do Adeus e da Saudade de José Jorge Letria, José Fanha

Tempo Azul

Poemas Com Animais

Cantigas e Cânticos

Baal

Cem Poemas Portugueses Sobre a Infância de José Jorge Letria, José Fanha

Cem Poemas Portugueses Sobre Portugal e o Mar de José Jorge Letria, José Fanha

O Código D’Avintes de Rosa Lobato de Faria, Mário Zambujal, Luísa Beltrão, José Jorge Letria, José Fanha, João Aguiar, Alice Vieira

***  NOTA:  Acredite, na ilustração inicial deste poema só há quadrados perfeitos e linhas paralelas.





Em caminho, poesia de Zalina Rolim para o dia dos pais

8 08 2009

 plantanto na fazendo cg 1939

 Capa de revista, 1939

EM CAMINHO

 

                                                 Zalina Rolim

 

 

SOU filha de lavradores;

Moro longe da cidade;

Amo os pássaros e as flores

E tenho oito anos de idade.

 

Quereis seguir-me à campina?

A tarde convida e chama,

O calor do sol declina,

E o horizonte é um panorama.

 

Neste samburá de vime

Levo coisa apetitosa;

mas, ai! que ninguém se anime

A meter-lhe a mão curiosa.

 

É o jantar do papaizinho;

Manjares de fino gosto;

Carne, legumes, toucinho,

Tudo fresco e bem disposto.

 

Papai trabalha na roça;

O dia inteiro labuta;

Tem a pele rija e grossa

E a alma afeita à luta.

 

Mas leal, franco, modesto

Como ele, não há no mundo:

Vive de trabalho honesto,

Cavando o solo fecundo.

 

Acorda ao nascer da aurora,

Abre a janela de manso,

E o campo e os ares explora

Da vista aguda num lanço.

 

Depois, nos ombros a enxada,

Abraça a Mamãe, sorrindo,

Beija-me a face rosada

E vai-se ao labor infindo.

 

Em casa também se lida

Daqui, dali, todo o instante,

Que o trabalho é lei da vida

E nada tem de humilhante.

 

Depois do trabalho, estudo;

Abro os meus livros e leio;

Eles me falam de tudo

O que eu desejo e receio.

 

Contam-me histórias bonitas,

Falam da terra e dos ares,

De vastidões infinitas,

De rios, campos e mares.

 

Mamãe diz que são modelos

De amigos leais e finos;

Que a gente deve atendê-los

Como aos maternais ensinos.

 

E agora, adeus, até breve.

Eis-me de novo a caminho:

Não esfrie o vento leve

O jantar do papaizinho.

 

 

Maria Zalina Rolim Xavier de Toledo — nasceu em Botucatu (SP), em 20 de julho de 1869.

Professora alfabetizadora transferiu-se com a família para São Paulo em 1893.

Educadora, entre 1896 e 1897, exerceu o cargo de vice-inspetora, do Jardim da Infância anexo à Escola Normal Caetano de Campos, em São Paulo.

Escreveu para diversas revistas femininas e jornais como A Mensageira, O Itapetininga, Correio Paulistano e A Província de São Paulo.

Faleceu em São Paulo, em 24 de junho de 1961.

 

Obras:

1893 – O coração

1897 – Livro das Crianças

1903 – Livro da saudade (organizado nesta data para publicação póstuma)





CORAÇÃOZINHO, poesia de Henriqueta Lisboa para o Dia dos Pais

7 08 2009

paiê

 

Ilustração Maurício de Sousa.

Coraçãozinho

Henriqueta Lisboa

Coraçãozinho que bate

tic-tic

Reloginho de Papai

tic-tac

Vamos fazer uma troca

tic-tic-tic-tac

Relógio fica comigo

tic-tic

dou coração a Papai

tic-tic-tac.

 henriqueta lisboa

 

Henriqueta Lisboa (MG 1901- MG 1985), poeta mineira.  Escritora, ensaísta,  tradutora professora de literatura,  Com Enternecimento (1929), recebeu o Prêmio Olavo Bilac de Poesia da Academia Brasileira de Letras.  Em 1984, recebeu o Prêmio Machado de Assis da Academia Brasileira de Letras pelo conjunto de sua obra.

Obras:

Fogo-fátuo (1925)

Enternecimento (1929)

Velário (1936)

Prisioneira da noite (1941)

O menino poeta (1943)

A face lívida (1945) — à memória de Mário de Andrade, falecido nesse ano

Flor da morte (1949)

Madrinha Lua (1952)

Azul profundo (1955);

Lírica (1958)

Montanha viva (1959)

Além da imagem (1963)

Nova Lírica ((1971)

Belo Horizonte bem querer (1972)

O alvo humano (1973)

Reverberações (1976)

Miradouro e outros poemas (1976)

Celebração dos elementos: água, ar, fogo, terra (1977)

Pousada do ser (1982)

Poesia Geral (1985), reunião de poemas selecionados pela autora do conjunto de toda a obra, publicada uma semana após o seu falecimento





DIA DOS PAIS — poesia de Giuseppe Artidoro Ghiaroni

6 08 2009

pai e filho

DIA DOS PAIS 

Giuseppe Artidoro Ghiaroni

Meu pai está tão velhinho,

tem a mão branca e comprida,

parecendo a sua vida,

longa vida que se esvai.

E eu o lembro quando moço

de uma atlética altivez.

Ah! Tinha força por três!

Você se lembra, papai?

Menino, ouvia dizer

que você era um gigante.

Eu ficava radiante

e também me agigantava.

Porque toda madrugada,

eu quentinho do agasalho,

ao sair para o trabalho

o gigante me beijava.

Sua grande mão de ferro

parecia leve, leve

naquela carícia breve

que da memória não sai.

Depois… um beijo em mamãe

e o meu gigante partia.

E a casa toda tremia

com os passos de papai.

Mas agora o seu retrato

muito moço, muito antigo,

se parece mais comigo

do que mesmo com você.

Você já lembra vovô

e, à medida que envelhece,

papai, você se parece

com mamãe, não sei por quê.

Você se lembra, papai?

Quando mamãe, de repente,

caiu de cama, doente,

era o pai quem cozinhava.

Tão grande e desajeitado

a varrer… Quando eu o via

de avental, papai, eu ria;

eu ria e mamãe chorava.

Eu quis deixar o ginásio

para ganhar ordenado,

ajudar meu pai cansado,

mas tal não aconteceu.

Papai disse estas palavras:

Sou um operário obscuro,

mas você terá futuro,

será melhor do que eu.

Eu? Melhor que este velhinho

a quem devo o pão e o estudo?

Que é pobre porque deu tudo

à Família, à Pátria, à Fé?

Meu pai, com todo o diploma,

com toda a universidade,

quisera eu ser a metade

daquilo que você é.

E quero que você saiba

que, entre amigos, conversando,

meu assunto vai girando

e no seu nome recai.

Da sua força, coragem,

bondade eu conto uma história.

Todos vêem que a minha glória

é ser filho de meu pai.

“Um dia eu fui tomar banho

no rio que estava cheio.

Quando a correnteza veio,

vi a morte aparecer.

Papai saltou dentro d’água

nadando mais do que um peixe,

salvou-me e disse:_ Não deixe!

Não deixe mamãe saber!”.

Assim foi meu pai, o forte

que respeitava a fraqueza.

Nunca humilhou a pobreza,

nunca a riqueza o humilhou.

Estava bem com os homens

e com Deus estava bem.

Nunca fez mal a ninguém

e o que sofreu perdoou.

Perdoa então se lhe falo

Daquilo que não se esquece.

E a minha voz estremece

e há uma lágrima que cai.

Hoje sou eu o gigante

e você é pequenino.

Hoje sou eu que me inclino.

Papai… a bênção, papai.

Giuseppe Artidoro Ghiaroni – Nasceu em Paraíba Do Sul, (RJ), no dia 22 de fevereiro de 1919. Jornalista, poeta, redator e tradutor;  Depois de ter sido ferreiro, “office-boy” e caixeiro, passou a redator do “Suplemento juvenil ” iniciando-se assim no jornalismo de onde passou para o Rádio distinguindo-se como cronista e novelista.  Faleceu em 2008 aos 89 anos.

Obras:

O Dia da Existência, 1941

A Graça de Deus, 1945

Canção do Vagabundo, 1948

A Máquina de Escrever, 1997





Estória, poema de Martins d’ Alvarez — [para o dia da vovó]

26 07 2009

 vovó conta histórias

 

 

Estória

 

( para pequenos e grandes)

 

                                        Martins d’ Alvarez

 

 

À sombra do tamarindo,

vovozinha, bem sentada,

vai de alfinetes cobrindo

o papelão da almofada.

 

O neto deixa o brinquedo,

chega-se de alma curiosa,

nos bilros buscando o enredo

da renda maravilhosa.

 

Sutil, entre dois extremos,

uma conversa se agita:

— Vovó, como é que aprendemos

Fazer renda, assim, bonita?

 

— Ora, benzinho, aprendendo…

Aprendendo devagar…

Até acabar sabendo,

até um dia acertar.

 

— Pois me ensine, vovozinha!

Garanto que hei de aprender.

— Ensinarei, calunguinha,

quando aprenderes a ler.

 

— Mas vovó não disse, um dia,

que vovozinho morreu

pelo muito que sabia…

Por que demais aprendeu?

 

— Morreu porque foi ferido

No amor próprio, meu bebê!

— Então, o vovô querido

não só amava a você?

 

Vovó fez cara de chiste,

mas, sua fronte pendeu…

Soltou um suspiro triste,

quedou-se … e não respondeu!

 

(Fortaleza, Ceará, 1932)

 

Em: Poesia do cotidiano, Fortaleza, Ceará, Editora Clã: 1977

 

 

 

José Martins D’Alvarez   (CE 1904)  Poeta, romancista, jornalista, diplomado em Farmacia e Odontologia, professor, membro da Academia Cearense de Letras. Nasceu na cidade de Barbalha, Estado do Ceara, em 14 de setembro de 1904.  Filho de Antonio Martins de Jesus a de Antonia Leite da Cruz Martins. Fez os estudos primários na sua cidade natal, os secundários, no Liceu do Ceará.  Depois de formado em Odontologia. Transferiu em 1938 sua residência para o Rio de Janeiro, onde exerceu, além de atividades na imprensa, atividades no magistério superior.

 

 

 

Obras:

 

“Choro verde: a ronda das horas verdes”, 1930, poesia

“Quarta-feira de cinzas”, 1932, novela

 “Vitral”, 1934, poesia

“Morro do moinho” 1937, romance

“O Norte Canta”, 1941,  poesia popular

“No Mundo da Lua”, 1942, poesia para crianças

“Chama infinita, 1949,  poesia

“O nordeste que o sul não conhece 1953, ensaio

“Ritmos e legendas” 1959, poesias escolhidas

“Roteiro sentimental: geopolítica do Brasil” 1967, poesias escolhidas

“Poesia do cotidiano”, 1977, poesia





A cigarra e a formiga, em versos por Bocage

6 07 2009

A Cigarra bate à porta da formiga, no inverno

 

A cigarra e a formiga

 

Bocage

 

Tendo a cigarra em cantigas

Folgado todo o Verão

Achou-se em penúria extrema

Na tormentosa estação.

 

Não lhe restando migalha

Que trincasse, a tagarela

Foi valer-se da formiga,

Que morava perto dela.

 

Rogou-lhe que lhe emprestasse,

Pois tinha riqueza e brilho,

Algum grão com que manter-se

Té voltar o aceso Estio.

 

«Amiga, diz a cigarra,

Prometo, à fé d’animal,

Pagar-vos antes d’Agosto

Os juros e o principal.»

 

A formiga nunca empresta,

Nunca dá, por isso junta.

«No Verão em que lidavas?»

À pedinte ela pergunta.

 

Responde a outra: «Eu cantava

Noite e dia, a toda a hora.»

«Oh! bravo!», torna a formiga.

– Cantavas? Pois dança agora!»

 

———-

 

bocage

Bocage

 

Manuel Maria de Barbosa l’Hedois du Bocage (Setúbal, 15 de Setembro de 1765 — Lisboa, 21 de Dezembro de 1805), Poeta português, possivelmente, o maior representante do arcadismo lusitano.  Árcade e pré-romântico, sonetista notável, um dos precursores da modernidade em seu país.





O menor esforço — poema infantil de Giuseppe Artidoro Ghiaroni

27 06 2009

 trabalho, pantera cor de rosa

 Pantera cor-de-rosa. Ilustração Freleng e DePatiee.

 

 

 O Menor Esforço
                                                      Guiuseppe Artidoro Ghiaroni

Ferreiro e filho de ferreiro,
um dia visitei meu vizinho carpinteiro.
E ao ver quanto a madeira era macia
em relação ao ferro que eu batia,
deixei de ser ferreiro.

 Tornei-me carpinteiro e, vendo o oleiro
modelando o seu barro molemente,
cobicei seu oficio de indolente
e larguei meu formão de carpinteiro.

Mas fui depois a casa do barbeiro,
que alisava uns cabelos de menina.
E achando aquela profissão mais fina,
deixei de ser oleiro.

Um dia, em minha casa de barbeiro
entrou um poeta de cabelo ao vento.
E ao ver quanto era livre e sobranceiro,
troquei minha navalha e meu dinheiro
por sua profissão de encantamento…

Meu Deus! Por que deixei de ser ferreiro ?

 

Giuseppe Artidoro Ghiaroni — Nasceu em Paraíba Do Sul, (RJ), no dia 22 de fevereiro de 1919. Jornalista, poeta, redator e tradutor;  Depois de ter sido ferreiro, “office-boy” e caixeiro, passou a redator do “Suplemento juvenil ” iniciando-se assim no jornalismo de onde passou para o Rádio distinguindo-se como cronista e novelista.  Faleceu em 2008 aos 89 anos.

Obras:

O Dia da Existência, 1941

A Graça de Deus, 1945

Canção do Vagabundo, 1948

A Máquina de Escrever, 1997





O cavalo e o burro, fábula, texto de Monteiro Lobato

25 06 2009

horsedonkeybarlow_400O Cavalo e o burro, ilustração de Frances Barlow, metade do século XVII.

 

O cavalo e o burro

                                                                                              Monteiro Lobato

O cavalo e o burro seguiam juntos para a cidade.  O cavalo contente da vida, folgando com uma carga de quatro arrobas apenas, e o burro — coitado!  gemendo sob o peso de oito.  Em certo ponto, o burro parou e disse:

— Não posso mais!  Esta carga excede às minhas forças e o remédio é repartirmos o peso irmãmente, seis arrobas para cada um.

O cavalo deu um pinote e relichou uma gargalhada.

— Ingênuo!  Quer então que eu arque com seis arrobas quando posso tão bem continuar com as quatro?  Tenho cara de tolo?

O burro gemeu:

— Egoísta,  Lembre-se que se eu morrer você terá que seguir com a carga de quatro arrobas e mais a minha.

O cavalo pilheriou de novo e a coisa ficou por isso.  Logo adiante, porém, o burro tropica, vem ao chão e rebenta.

Chegam os tropeiros, maldizem a sorte e sem demora arrumam com as oito arrobas do burro sobre as quatro do cavalo egoísta.  E como o cavalo refuga, dão-lhe de chicote em cima, sem dó nem piedade.

— Bem feito!  exclamou o papagaio.  Quem mandou ser mais burro que o pobre burro e não compreender que o verdadeiro egoísmo era aliviá-lo da carga em excesso?  Tome!  Gema dobrado agora…

***

Em:  Criança Brasileira, Theobaldo Miranda Santos, Quarto Livro de Leitura: de acordo com os novos programas do ensino primário.  Rio de Janeiro, Agir: 1949.

VOCABULÁRIO:

Folgando: descansando, alegrando-se; excede: ultrapassa; arque: aguente; tropica: tropeça; maldizem: lamentam; refuga: rejeita.

José Bento Monteiro Lobato, (Taubaté, SP, 1882 – 1948).  Escritor, contista; dedicou-se à literatura infantil. Foi um dos fundadores da Companhia Editora Nacional. Chamava-se José Renato Monteiro Lobato e alterou o nome posteriormente para José Bento.

Obras:

A Barca de Gleyre, 1944

A Caçada da Onça, 1924

A ceia dos acusados, 1936

A Chave do Tamanho, 1942

A Correspondência entre Monteiro Lobato e Lima Barreto, 1955

A Epopéia Americana, 1940

A Menina do Narizinho Arrebitado, 1924

Alice no País do Espelho, 1933

América, 1932

Aritmética da Emília, 1935

As caçadas de Pedrinho, 1933

Aventuras de Hans Staden, 1927

Caçada da Onça, 1925

Cidades Mortas, 1919

Contos Leves, 1935

Contos Pesados, 1940

Conversa entre Amigos, 1986

D. Quixote das crianças, 1936

Emília no País da Gramática, 1934

Escândalo do Petróleo, 1936

Fábulas, 1922

Fábulas de Narizinho, 1923

Ferro, 1931

Filosofia da vida, 1937

Formação da mentalidade, 1940

Geografia de Dona Benta, 1935

História da civilização, 1946

História da filosofia, 1935

História da literatura mundial, 1941

História das Invenções, 1935

História do Mundo para crianças, 1933

Histórias de Tia Nastácia, 1937

How Henry Ford is Regarded in Brazil, 1926

Idéias de Jeca Tatu, 1919

Jeca-Tatuzinho, 1925

Lucia, ou a Menina de Narizinho Arrebitado, 1921

Memórias de Emília, 1936

Mister Slang e o Brasil, 1927

Mundo da Lua, 1923

Na Antevéspera, 1933

Narizinho Arrebitado, 1923

Negrinha, 1920

Novas Reinações de Narizinho, 1933

O Choque das Raças ou O Presidente Negro, 1926

O Garimpeiro do Rio das Garças, 1930

O livro da jangal, 1941

O Macaco que Se Fez Homem, 1923

O Marquês de Rabicó, 1922

O Minotauro, 1939

O pequeno César, 1935

O Picapau Amarelo, 1939

O pó de pirlimpimpim, 1931

O Poço do Visconde, 1937

O presidente negro, 1926

O Saci, 1918

Onda Verde, 1923

Os Doze Trabalhos de Hércules,  1944

Os grandes pensadores, 1939

Os Negros, 1924

Prefácios e Entrevistas, 1946

Problema Vital, 1918

Reforma da Natureza, 1941

Reinações de Narizinho, 1931

Serões de Dona Benta,  1937

Urupês, 1918

Viagem ao Céu, 1932

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Francis Barlow ( Inglaterra, 1626? – 1704) Pintor, gravador e ilustrador.  Seu primeiro trabalho foi como ilustrador do livro Theophila, de Edward Benlowe, publicado em 1652.  Em 1666 ilustrou e publicou uma edição das Fábulas de Esopo, que mais tarde, em 1687 foi republicada e depois mais uma vez em 1668.  A versão de 1687 aparece com várias outras fábulas e ilustrações adicionais.    Barlow trabalhou em Londres a partir de 1653 como pintor de animais , pássaros e da vida campestre.   Tudo indica que morreu na pobreza.  Foi sepultado em   11 de agosto de 1704, mas não se sabe ao certo a data de seu falecimento.

Esta fábula de Monteiro Lobato é uma das centenas de variações feitas através dos séculos da fábulas de Esopo, escritor grego, que viveu no século VI AC.  Suas fábulas foram reunidas e atribuídas a ele, por Demétrius em 325 AC.  Desde então tornaram-se clássicos da cultura ocidental e muitos escritores como Monteiro Lobato, re-escreveram e ficaram famosos por recriarem estas histórias, o que mostra a universalidade dos textos, das emoções descritas e da moral neles exemplificada.  Entre os mais famosos escritores que recriaram as Fábulas de Esopo estão Fedro e La Fontaine.  Nota, interessante sobre este texto especificamente:  na fábula grega o incidente ocorre entre uma mula e um burro.





Cão, poema de Alexandre O’Neill

22 06 2009

cachorro azul, ilustração de Maurício de Sousa

Ilustração de Maurício de Sousa.

 

Cão

 

                                   Alexandre O’Neill

 

 

Cão passageiro, cão estrito

Cão rasteiro cor de luva amarela,

Apara-lápis, fraldiqueiro,

Cão liquefeito, cão estafado

Cão de gravata pendente,

Cão de orelhas engomadas,

de remexido rabo ausente,

Cão ululante, cão coruscante,

Cão magro, tétrico, maldito,

a desfazer-se num ganido,

a refazer-se num latido,

cão disparado: cão aqui,

cão ali, e sempre cão.

Cão marrado, preso a um fio de cheiro,

cão a esburgar o osso

essencial do dia a dia,

cão estouvado de alegria,

cão formal de poesia,

cão-soneto de ão-ão bem martelado,

cão moído de pancada

e condoído do dono,

cão: esfera do sono,

cão de pura invenção,

cão pré-fabricado,

cão espelho, cão cinzeiro, cão botija,

cão de olhos que afligem,

cão problema…

Sai depressa, ó cão, deste poema!

 

Em: Abandono Vigiado, Lisboa, Guimarães: 1960

alexandreoneillAlexandre O’Neill

 

Alexandre O’Neill – (Portugal 1924-1986) poeta português. Frequentou a Escola Náutica (Curso de Pilotagem), trabalhou na Previdência, no ramo dos seguros, nas bibliotecas itinerantes da Fundação Gulbenkian, e foi técnico de publicidade. Durante algum tempo, publicou uma crônica semanal no Diário de Lisboa.

 

 

Obras:

 

Tempo de Fantasmas, poesia, 1951

No Reino da Dinamarca, poesia, 1958

Abandono Vigiado, poesia, 1960

Poemas com Endereço, poesia, 1962

Feira Cabisbaixa, poesia, 1965

De Ombro na Ombreira, poesia, 1969

Entre a Cortina e a Vidraça, poesia, 1972

A Saca de Orelhas, poesia, 1979

As Horas Já de Números Vestidas, poeisa, 1981

Dezenove Poemas, poesia, 1983

O Princípio da Utopia, poesia, 1986

Poesias Completas, 1951-1983, 1984

As Andorinhas não têm restaurante, prosa, 1970

Uma Coisa em Forma de Assim, crônicas, 1980