A Primavera — poema de P. de Petrus

12 10 2008

Ilustração de Rebecca Peed

A primavera

 

P. de Petrus

 

 

Primavera!  A Natureza,

Agora em nova roupagem,

Traz às plantas mais beleza,

Deita perfumes na aragem.

 

A colina é uma princesa

Dentro da mata selvagem.

Já não existe a tristeza

No sorriso da paisagem.

 

O sol, dourando o horizonte,

Cobre de beijos a fonte

E também a flor que o espera…

 

E o cantar dos passarinhos,

Quebrando a calma dos ninhos

Vem saudar a Primavera.

 

Pedro Bandettini, cognome P. de Petrus (SP 1920 – SP 1999)

 

Obras:

 

Paisagens Poéticas, 1970

Pensamentos Poéticos , 1975

Meu Canteiro de Trovas, 1984





Os periquitos — poema de Osório Dutra

10 10 2008

Os Periquitos

 

 

Osório Dutra

 

 

No leque verde dos coqueiros

Que ornam a margem dos caminhos,

Os periquitos galhofeiros

Zombam dos outros passarinhos.

 

Numa algazarra delirante,

Batendo as asas irisadas,

Cantam a terra e o céu distante,

Glorificando as alvoradas.

 

Porque se julguem muito ricos

Donos do espaço e das alturas,

Fogem dos pobres tico-ticos,

Trocando afetos e ternuras.

 

Unidos contra aos caçadores,

Andam ariscos e assustados:

Temem os ventos destruidores

E a poeira azul dos descampados.

 

São tão alegres, tão ruidosos,

Que a gente ao vê-los avalia

Que sejam todos venturosos,

Brincando ao sol de cada dia.

 

Não param nunca os mais tranqüilos.

Pulam, febris, de galho em galho.

Com que prazer, para segui-los,

Deixo de lado o meu trabalho!

 

Passam a vida saltitando

E é cada qual mais tagarela.

Onde vai um, lá vai o bando,

Cortando o azul na tarde bela.

 

Ordena um deles a partida

Em busca de outros horizontes.

Depois é a volta…  E que corrida

Vertiginosa sobre os montes!

 

E quando, à noite, escuto os gritos

De mil insetos bandoleiros,

Dormem, sonhando, os periquitos

No leque aberto dos coqueiros.

 

Osório Hermogênio Dutra, Vassouras, Estado do Rio, (1889 -1968). Diplomata brasileiro e poeta.

Obras:

 

O país do deuses (crônicas sobre o Japão)

Terra Bendita, 1923 (poesia)

Castelos de Marfim e  Céu Tropical (poesia), 1930

Inquietação, 1933 (poesia)

Dentro da noite Azul, 1934

Silêncio doce silêncio, 1936 (poesia)

O gênio poético de Martins Fontes, 1938

Mundo sem alma, 1943

Terra da gente, 1944 (poesia)

Emoção, 1945

Tempo perdido, 1946

Elas e nós, 1955, (poesia)

 

 

Vocabulário para uso escolar:

 

Ornar = decorar, enfeitar

Galhofeiro = brincalhão

Irisada = furta-cor

Venturoso = feliz

Bandoleiros =  errante, sem paradeiro





PRIMAVERA, poema infantil de Francisca Júlia e Júlio César da Silva

8 10 2008
Ilustração Mauricio de Sousa

Ilustração Maurício de Sousa

 

PRIMAVERA

 

Francisca Júlia e Júlio César da Silva

 

Bem cedo, mal rompe o dia,

já estão gorjeando as aves

os seus pipilos suaves

em desusada alegria.

 

Vasto, o campo se descobre,

ondula, se estende e perde,

todo verde, todo verde

da nova relva que o cobre.

 

De toda banda invadidos

e cheios estão os ares

do perfume dos pomares

e dos jardins florescidos.

 

A ave eriça a pluma,

Varre os ares e os refresca

O sopro da brisa fresca

Que tudo beija e perfuma.

 

A natureza se esmera

Em galas e enfeites novos;

Ri o sol, brotam renovos…

É a risonha primavera

 

que bem cedo acorda os ninhos,

as flores perfuma, enfolha

as árvores, folha a folha,

onde cantam os passarinhos.

 

 

 

 

Vocabulário:

 

gorjeando = cantando

desusada = incomum

eriça = levanta

galas = belezas

renovos = ramos novos

 

 

Encontrado em:

 

Poemas para a infância: antologia escolar, Henriqueta Lisboa, Ediouro: s/d, Rio de Janeiro

 

Francisca Júlia da Silva Munster (SP 1871 – SP 1920)  Poetisa brasileira.

  

Obras:

 

 

1895 – Mármores

1899 – Livro da Infância

1903 – Esfinges

1908 – A Feitiçaria Sob o Ponto de Vista Científico (discurso)

1912 – Alma Infantil (com Júlio César da Silva)

1921 – Esfinges – 2º ed. (ampliada)

——

A VOZ DOS ANIMAIS  é uma outra poesia de Francisca Júlia publicada neste blog.





Anjo bom, poema de Martins d’Alvarez para o dia do Mestre! 15 de outubro

7 10 2008
Ilustração Mauricio de Sousa

Ilustração Maurício de Sousa

 

 Anjo Bom

 

Martins d’Alvarez

 

 

Minha mestra mora aqui

dentro do meu coração.

Foi este anjo bom que, um dia,

vendo que eu nada sabia,

que tudo olhava e não via,

me conduziu pela mão.

 

Linda fada, com ternura,

pôs-se o mundo a me mostrar:

— a terra, — os espinhos e flores,

— o céu ardendo em fulgores;

— a vida cheia de amores;

— todo o mistério do mar.

 

Santa, ensinou-me a ser boa,

a ser alegre e feliz:

— a praticar a virtude;

— a cultivar a saúde;

— a enfeitar a juventude

com meus sonhos infantis.

 

— Minha mestra, minha amiga,

a ti, minha gratidão.

Pelo bem que me tens feito,

terás meu culto e respeito

no templo do amor-perfeito

que guardo no coração.

 

 

Vocabulário:

 

Ternura – carinho

Fulgores – brilhos, clarões

Juventude – mocidade

Mistério – segredo

 

Encontrado em:

 

Leituras Infantis, 2° livro, Theobaldo Miranda Santos, Agir: 1962, Rio de Janeiro

 

José Martins D’Alvarez   (CE 1904)  Poeta, romancista, jornalista, diplomado em Farmacia e Odontologia, professor, membro da Academia Cearense de Letras.

 

 

Obras:

 

“Choro verde: a ronda das horas verdes”, 1930 (versos).

“Quarta-feira de cinzas”, 1932 (novela).

 “Vitral”, 1934 (poemas).

“Morro do moinho” 1937 (romance)

“0 Norte Canta”, 1941 (poesia popular).

“No Mundo da Lua”, 1942 (poesia para crianças).

“Chama infinita, 1949 (poesias)

“O nordeste que o sul não conhece 1953 (ensaio)

“Ritmos e legendas” 1959 (poesias escolhidas)

“Roteiro sentimental: geopolítica do Brasil” 1967 (poesias escolhidas)

“Poesia do cotidiano”, 1977 (poesias)

Outros poemas de Martins d’Alvarez neste blog:

 

JOÃO e MARIA ; AMIGOS ; SÚPLICA





Amigos, poema de Martins d’Alvarez — poesia infantil

3 10 2008
Ilustração de Eva Furnari

Ilustração de Eva Furnari

 

Amigos

 

Martins d’Alvarez

 

 

“Se entre os amigos encontrei cachorros,

Entre os cachorros encontrei-te, amigo!”

 

 

Costumamos chamar o cão de amigo,

no sentido mais nobre da amizade.

Realmente, na bonança ou no perigo,

o cão é o nosso amigo de verdade.

 

Meu cão nunca falseia o que lhe digo

nem finge amor nem trai a honestidade

nem mesmo se revolta, se o castigo

nos momentos de estúpida crueldade.

 

Tenho pela amizade amor profundo!

Pelos amigos vivo, luto e morro…

Mas, tenho recebido, neste mundo,

 

de tanto amigo tanta ingratidão,

que chamar qualquer deles de cachorro,

seria ser injusto com meu cão!

 

 

 

José Martins D’Alvarez   (CE 1904)  Poeta, romancista, jornalista, diplomado em Farmacia e Odontologia, professor, membro da Academia Cearense de Letras.

 

 

Obras:

 

“Choro verde: a ronda das horas verdes”, 1930 (versos).

“Quarta-feira de cinzas”, 1932 (novela).

 “Vitral”, 1934 (poemas).

“Morro do moinho” 1937 (romance)

“0 Norte Canta”, 1941 (poesia popular).

“No Mundo da Lua”, 1942 (poesia para crianças).

“Chama infinita, 1949 (poesias)

“O nordeste que o sul não conhece 1953 (ensaio)

“Ritmos e legendas” 1959 (poesias escolhidas)

“Roteiro sentimental: geopolítica do Brasil” 1967 (poesias escolhidas)

“Poesia do cotidiano”, 1977 (poesias)

 

 

Outros poemas de Mastins d’Alvarez neste blog:

 

SÚPLICA ; ANJO BOM ; JOÃO E MARIA





O ovelha, poesia de Henriqueta Lisboa

24 09 2008
Ovelhinha Desgarrada

Ovelhinha Desgarrada

 

A Ovelha

 

Encontrastes acaso

a ovelha desgarrada?

A mais tenra

do meu rebanho?

A que despertava ao primeiro

contato do sol?

A que buscava a água sem nuvens

para banhar-se?

A que andava solitária entre as flores

e delas retinha a fragrância

na lã doce e fina?

A que temerosa de espinhos

aos bosques silvestres

preferia o prado liso, a relva?

A que nos olhos trazia

uma luz diferente

quando à tarde voltávamos

ao aprisco?

A que nos meus joelhos brincava

tomada às vezes de alegria louca?

A que se dava em silêncio

ao refrigério da lua

após o longo dia estival?

 

A que dormindo estremecia

ao menor sussurro de aragem?

Encontrastes acaso

a mais estranha e dócil

das ovelhas?

Aquela a que no coração eu chamava

  a minha ovelha?

 

 

Henriqueta Lisboa

 

 

Em: Nova Lírica: poemas selecionados, Henriqueta Lisboa, Belo Horizonte, Imprensa Oficial: 1971

 

 

Vocabulário:

Aprisco – curral para ovelhas

Estival – do estio, do verão

 

 

 

Henriqueta Lisboa (MG 1901- MG 1985), poeta mineira.

 

Obras:

Fogo-fátuo (1925)

Enternecimento (1929)

Velário (1936)

Prisioneira da noite (1941)

O menino poeta (1943)

A face lívida (1945) — à memória de Mário de Andrade, falecido nesse ano

Flor da morte (1949)

Madrinha Lua (1952)

Azul profundo (1955);

Lírica (1958)

Montanha viva (1959)

Além da imagem (1963)

Nova Lírica ((1971)

Belo Horizonte bem querer (1972)

O alvo humano (1973)

Reverberações (1976)

Miradouro e outros poemas (1976)

Celebração dos elementos: água, ar, fogo, terra (1977)

Pousada do ser (1982)

Poesia Geral (1985), reunião de poemas selecionados pela autora do conjunto de toda a obra, publicada uma semana após o seu falecimento.

 





O flamboyant da casa ao lado, poema de Ladyce West

21 09 2008

Para comemorar a chegada da Primavera!

 

Paisagem com flamboyant, 1955

Armando Viana, (RJ 1897- RJ 1992)

Óleo sobre tela

Coleção Particular

O Flamboyant da casa ao lado

Ladyce West

 –

Morreu o flamboyant da casa ao lado.

Foi-se o calor de verão da minha infância.

Apagaram-se suas flores alaranjadas,

Fogosos anúncios do início da estação.

Doente e velho, tombou calado e emagrecido.

Sóbrio e distinto, evaporou-se nos cupins.

Deixou em seu lugar espaço raro,

Um ar aberto, um nada enorme, que me espanta.

Um espaço devassado diariamente,

Onde antes, a sombra clara era presente.

O vácuo preencheu meu horizonte.

Galhos partidos, quebrados sobre a ponte.

O tronco doente jogado num instante.

Vergou molhado, encharcado pela chuva.

Mostrando a todos o que só a terra conhecia:

Suas raízes, engrossadas pelo tempo,

Eram agora desvendadas pelo vento.

Tombou sozinho com um único gemido

Doloroso, aceitando o seu destino.

Pernas pra cima em impudico descaso.

Meu companheiro de verões ardentes,

Guardião de minha infância e adolescência.

Exuberante, florescia ano após ano

Desabrochando incandescente em dezembro.

Entre nós havia um rio bem estreito,

Que nascia lá no alto da Rocinha,

Cascateava da nascente até a Gávea,

De onde então serpenteava rumo ao mar.

Era aqui, que deslizava sob as pontes

E atravessava minha rua de mansinho.

De um lado, o flamboyant enraizado;

Do outro, o edifício com meu ninho.

Crescemos juntos, eu e ele aqueles anos.

Nossa distância era pouca e amenizada,

Pois reservava uma flor para meu gozo,

Que escondida pelo batente da janela,

Aos poucos, foi-se chegando espevitada.

E me espreitava, esticando o seu florão.

Curiosa, assim passava os dias quentes.

A cada ano parecia mais chegada.

Era de casa.  Sem receio se hospedava.

Com jeitinho, batia na vidraça,

E enrubescendo se apoiava ao janelão.

Esta flama de verão me viu crescer,

Chorar amores, estudar, adormecer.

Custa-me vê-lo cair, velho soldado!

Quem irá agora anunciar-me o verão?

 

 

Dezembro 2006

 

© Ladyce West, 2006, Rio de Janeiro.





Laranjeira — poema infantil de Baltazar de Godoy Moreira

20 09 2008
9 Papagaios numa laranjeira, s/d, Lucy Autrey Wilson, óleo sobre tela, 1 x 1 m

9 Papagaios numa laranjeira, s/d, Lucy Autrey Wilson, óleo sobre tela, 1 x 1 m

 

Laranjeira

 

Baltazar de Godoy Moreira

 

Uma linda sementinha

Em meu quintal descobri

Alva!  Macia, limpinha!

— Minha linda sementinha

Que posso fazer de ti?

 

Faze uma covinha rasa

Com boa vontade e amor,

No quintal de tua casa,

Onde haja luz e calor.

Deixa-me lá, por favor.

 

Um dia quando tu fores

Moça, formosa e faceira.

Terei um tronco encorpado,

E uma ramada altaneira.

 

Cheia de frutos e flores

Então, com maior agrado

Darei para o teu noivado,

Os botões de laranjeira!

 

Baltazar de Godoy Moreira, (SP 1898) Poeta, contista, professor, pedagogo. 

 

Obras:

Marília, cidade nova e bonita, 1936  

Negro velho de guerra, 1947  

Roteiro de Pindamonhangaba Poesia, 1960

Curumim sem nome, s/d

Aventuras nos garimpos de Cuiabá, 1960

Rio Turbulento, s/d

O Castelo dos Três Pendões

A Caminho do Oeste, s/d

 

NOTA: Seu nome aparece com diversas maneiras de escrever.  Achei as seguintes, nem todos os serviços de busca reconhecem estas variantes. 

Baltazar de Godoy Moreira (não confundir com o bandeirante do mesmo nome, que deve ser seu antecessor).

Baltazar de Godói Moreira

Baltazar Godói Moreira.

Há também as mesmas variantes com Baltazar com a letra “z” e Baltasar com a letra “s”.





Teu Nome, poema de Jair Amorim

18 09 2008

Escrevendo na areia, 1859

Dante Gabriel Rossetti (Inglaterra 1828-1882)

Aquarela sobre papel.

 

 

 

 

 

 

TEU NOME

 

Jair Amorim

 

 

Escrevi teu nome na areia

o vento veio e apagou.

 

Escrevi teu nome na pedra

o limo do tempo o turvou.

 

Escrevi teu nome na árvore

um raio a decapitou.

 

Escrevi teu nome em meus versos

tu mesma nem se lembrou.

 

Escrevi teu nome na mente

e para sempre ficou.

 

 

Em Canto Magro, Jair Amorim, EFES: 1995(?)

 

 

Jair Pedrinha de Carvalho Amorim (ES 1915 – SP 1993) poeta, compositor e jornalista.





Biblioteca, poema infantil de Carlos Urbim

17 09 2008

 

BIBLIOTECA 

 

Carlos Urbim

 

Duas traças, irmãs

Biblió e Teca

Na hora do almoço

Com muito alvoroço

Ouvem a voz

Da mãe traça:

Biblió, Teca!

Venham almoçar

Há guisadinho

De papel

Para traçar!

Caderno de temas , Carlos Urbim, (RS 1948)  Porto Alegre, Mercado Aberto: 1999

Obras:

 

Um Guri Daltônico, 1984.
Patropi, a pandorguinha,

Uma Graça de Traça

Dona Juana, 1993

Rio Grande do Sul: um século de História, 1999

Caderno de Temas, 1999

Diário de um Guri, 2000

Saco de Brinquedos, 2000

Álbum de Figurinhas, 2002

Morro Reuter de A a Z, 2003

Os Farrapos, 2003

Negrinho do Pastoreio, 2004

Bolacha Maria, 2005

Lata de Tesouros, 2005 [re-edição de Dona Juana, 1993, com novo nome]

Histórias coloradas, versão mirim, 2005

Dinossauro @ Birutices, 2005 (nova versão do livro de 1986)

Piá farroupilha, 2005