Para comemorar a chegada da Primavera!
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Paisagem com flamboyant, 1955
Armando Viana, (RJ 1897- RJ 1992)
Óleo sobre tela
Coleção Particular
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O Flamboyant da casa ao lado
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Ladyce West
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Morreu o flamboyant da casa ao lado.
Foi-se o calor de verão da minha infância.
Apagaram-se suas flores alaranjadas,
Fogosos anúncios do início da estação.
Doente e velho, tombou calado e emagrecido.
Sóbrio e distinto, evaporou-se nos cupins.
Deixou em seu lugar espaço raro,
Um ar aberto, um nada enorme, que me espanta.
Um espaço devassado diariamente,
Onde antes, a sombra clara era presente.
O vácuo preencheu meu horizonte.
Galhos partidos, quebrados sobre a ponte.
O tronco doente jogado num instante.
Vergou molhado, encharcado pela chuva.
Mostrando a todos o que só a terra conhecia:
Suas raízes, engrossadas pelo tempo,
Eram agora desvendadas pelo vento.
Tombou sozinho com um único gemido
Doloroso, aceitando o seu destino.
Pernas pra cima em impudico descaso.
Meu companheiro de verões ardentes,
Guardião de minha infância e adolescência.
Exuberante, florescia ano após ano
Desabrochando incandescente em dezembro.
Entre nós havia um rio bem estreito,
Que nascia lá no alto da Rocinha,
Cascateava da nascente até a Gávea,
De onde então serpenteava rumo ao mar.
Era aqui, que deslizava sob as pontes
E atravessava minha rua de mansinho.
De um lado, o flamboyant enraizado;
Do outro, o edifício com meu ninho.
Crescemos juntos, eu e ele aqueles anos.
Nossa distância era pouca e amenizada,
Pois reservava uma flor para meu gozo,
Que escondida pelo batente da janela,
Aos poucos, foi-se chegando espevitada.
E me espreitava, esticando o seu florão.
Curiosa, assim passava os dias quentes.
A cada ano parecia mais chegada.
Era de casa. Sem receio se hospedava.
Com jeitinho, batia na vidraça,
E enrubescendo se apoiava ao janelão.
Esta flama de verão me viu crescer,
Chorar amores, estudar, adormecer.
Custa-me vê-lo cair, velho soldado!
Quem irá agora anunciar-me o verão?
Dezembro 2006
© Ladyce West, 2006, Rio de Janeiro.