Pássaro livre, poesia infantil de Sidónio Muralha

7 02 2012

Pássaro livre 

Sidónio Muralha

Gaiola aberta.

Aberta a janela.

O pássaro desperta.

A vida é bela.

A vida é boa.

Voa, pássaro, voa.

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Em:  A dança dos picapaus, Sidonio Muralha, Nórdica: 1985, Rio de Janeiro.

Sidónio Muralha nasceu em Lisboa, em 1920.  Faleceu no Brasil em 1982.





A onça e o bode, fábula brasileira, texto de Luís da Câmara Cascudo

3 02 2012

Ilustração M&V Editores

A onça e o bode

O Bode foi ao mato procurar lugar para fazer uma casa.  Achou um sítio bom.  Roçou-o e foi-se embora.  A Onça que tivera a mesma ideia, chegando ao mato e encontrando o lugar já limpo, ficou radiante.  Cortou as madeiras e deixou-as no ponto.  O Bode, deparando a madeira já pronta, aproveitou-se, erguendo a casinha.  A Onça voltou e tapou-a de taipa.  Foi buscar seus móveis e quando regressou encontrou o Bode instalado.  Verificando que o trabalho tinha sido de ambos, decidiram morar juntos.

Viviam desconfiados, um do outro.  Cada um teria sua semana para caçar.  Foi a Onça e trouxe um cabrito, enchendo o Bode de pavor.  Quando chegou a vez deste, viu uma onça abatida por uns caçadores e a carregou até a casa, deixando-a no terreiro.  A Onça vendo a companheira morta, ficou espantada:

— Amigo Bode, como foi que você matou essa onça?

— Ora, ora… Matando!… Respondeu o Bode cheio de empáfia.  Porém, insistindo sempre a Onça em perguntar-lhe como havia matado a companheira, disse o Bode:

— Eu enfiei este anel de contas no dedo, apontei-lhe o dedo e ela caiu morta.

A Onça ficou toda arrepiada, olhando o Bode pelo canto do olho.  Depois de algum tempo, disse o Bode:

— Amiga Onça, eu lhe aponto o dedo…

A Onça pulou para o meio da sala gritando:

— Amigo Bode, deixe de brinquedo…

Tornou o Bode a dizer que lhe apontava o dedo, pulando a Onça para o meio do terreiro.  Repetiu o Bode a ameaça e a onça desembandeirou pelo mato a dentro, numa carreira danada, enquanto ouviu a voz do Bode:

— Amiga Onça, eu lhe aponto o dedo…

Nunca mais a Onça voltou.  O Bode ficou, então, sozinho na sua casa, vivendo de papo para o ar, bem descansado.

Em: Contos tradicionais do Brasil (folclore), Luís da Câmara Cascudo, Rio de Janeiro, Edições de Ouro: 1967

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Este conto foi arrebanhado por Câmara Cascudo do volume de J da Silva Campos, Contos e fábulas populares da Bahia, em Folk-Lore no Brasil, Ed. Basílio de Magalhães, Rio de Janeiro, 1928.

Câmara Cascudo lembra que esta variante do conto, [popular no Brasil inteiro, com versões também de origem indígena], “tem reminescência africana, resquício religioso dos negros do Congo Zambese“, da região Bantu.





A corrida, conto africano, Ibo

25 01 2012

Ilustração, autor desconhecido.

A corrida

Há muitos e muitos anos havia um cervo que sempre zombava dos pequenos animais silvestres, mas principalmente dos sapos. “Vocês são lentos, frágeis e pequenos,” o cervo costumava dizer, exibindo sua força e velocidade.   Um dia, um sapo o desafiou para uma corrida.  Antes da data combinada para corrida, o sapo, muito mais inteligente do que o cervo imaginava, planejou com seus amigos uma maneira de vencer o veado.  O grupo resolveu que cada um deles estaria esperando pelo cervo a intervalos regulares ao longo do traçado do caminho.  Cada sapo ficaria atento, então, para a chegada do veado nas proximidades de seu ponto.  O sapo que fez a aposta ficaria escondido próximo à linha de chegada.  O objetivo seria enganar o veado.  Quando a corrida começou, o veado pensou que assumia a liderança sem esforço, e logo chamou pelo sapo, ridicularizando o réptil, perguntando por onde ele andava. Mas para sua surpresa, o sapo respondeu “Estou aqui” de um local mais à frente, na direção oposta a que o veado imaginava encontrar o sapo. A corrida continuou e o mesmo aconteceu, mais de uma vez: o sapo aparecia sempre à sua frente.  Preocupado, o cervo acelerava e achava que conseguia assumir a liderança, mas logo adiante o sapo o alcançava de novo. Perto da linha de chegada, o cervo se cansou e acabou perdendo a corrida, sem saber que havia competido com muitas pequeninas e espertas rãs, que no final provaram que ele estava errado o tempo todo quando desdenhava de seu tamanho e lentidão.

Tradução e adaptação: Ladyce West

Em:  African Myths and Tales, Susan Feldmann, Nova York, Dell Publishing Company: 1963

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Essa fábula africana de origem Ibo também é encontrada no livro Histórias de Tia Nastácia, de Monteiro Lobato, com o título O veado e o sapo (página 89 dessa versão cujo link coloco aqui, em pdf).  Mas Monteiro Lobato realmente torna o texto seu:  acrescenta deliciosos detalhes e uma outra fábula como continuação, narrando a vingança do veado.





Brasil, um país destinado a voar: Bartolomeu de Gusmão

23 01 2012

Bartolomeu de Gusmão, 2009

J. G. Fajardo (Brasil, 1960)

óleo sobre tela

Antes, muito antes de Santos Dumont inventar o avião, já tínhamos uma tradição de conquista do ar.  Devemos isso ao padre e cientista brasileiro Bartolomeu de Gusmão que foi capaz de surpreender a Europa com sua máquina de voar. E só porque seu balão não foi aceito pela ignorante sociedade portuguêsa da época,  não quer dizer que não tenhamos orgulho desse nosso gênio.  Não há na história da conquista do ar quem não comece essa saga com a “Passarola” de Bartolomeu de Gusmão.  A decisão de D. João V, O Magnânimo,  de sucumbir às crendices do povo, às maledicências de uma sociedade dominada pela falta de conhecimento e pelo medo religioso ainda enraizado por uma Inquisição que cismava em permanecer viva,  nada têm a ver como a nossa memória cultural. Bartolomeu de Gusmão deve ser lembrado nas nossas escolas e universidades por sua insistência, a todo custo,  na pesquisa científica.  Se D. João V tivesse tido um pouco mais de coragem de enfrentar sua corte e os jornais, Portugal teria passado para a história mundial não só como o país das grandes descobertas marítimas, mas também o país da conquista dos ares.  Infelizmente esse título acabou sendo dado à França, quando 74 anos depois dos experimentos de Bartolomeu de Gusmão,  os irmãos Montgolfier conseguiram voar uma balão, em Annonay, em 1783.  Por isso, lembro a todos, o texto abaixo impresso para a 4ª série  das escolas primárias, em 1954, quem foi o nosso padre voador!

Reconstituição artística da apresentação de Bartolomeu de Gusmão à corte portuguêsa.

O Padre Voador



Bartolomeu Lourenço de Gusmão nasceu em Santos, em 1685.  Aos quinze anos, seguiu para Coimbra a fim de iniciar seus estudos de teologia.  Terminando o curso, tornou-se padre, e logo nos primeiros anos notabilizou-se pelo seu imenso saber e pela sua grande eloquência. Dedicou-se especialmente ao cultivo das ciências físicas e naturais. Mas o que imortalizou o seu nome foi a máquina de voar de sua invenção.

Recomendado por D. Isabel, rainha de Espanha, Bartolomeu de Gusmão tornou-se capelão-fidalgo de D. João V, rei de Portugal. Interessou-se este pelos estudos e pesquisas do jovem sacerdote, principalmente pela invenção de sua máquina voadora, cuja construção foi custeada pelo tesouro real.

No dia 8 de agosto de 1709, presentes o rei, a corte e de curiosos, foi realizada a primeira experiência do aeróstato de Bartolomeu.  O aparelho que tinha a forma de uma balão, com o seu inventor à bordo, elevou-se suavemente do pátio do castelo de S. Jorge, permaneceu algum tempo no ar e, em seguida desceu no terreiro do Terreiro do paço.

Outras experiências, bem sucedidas, foram realizadas com o aparelho, para júbilo do seu inventor e despeito dos invejosos que, para ridicularizar Bartolomeu, passaram a chamá-lo de “Padre Voador” e repr4esentar o seu aparelho por uma pássaro, a que deram o nome de “Passarola”.

Seus inimigos foram mais longe.  Aproveitando-se da ignorância do povo, começaram a apregoar que o “Padre Voador” era feiticeiro com ligações com o demônio…

E tais mentiras espalharam a respeito de Bartolomeu que o próprio D. João V, seu protetor, resolveu não mais auxiliá-lo. Entre as críticas maldosas que surgiram na imprensa da época figuravam versos como estes:

Com que engenho te atreves, brasileiro,
A voares no ar, sendo rasteiro,
Desejando ave ser, sem ser gaivota?
Melhor te fora, na região remota
Onde nasceste, estar com siso inteiro!

Abandonado pelo rei, escarnecido pelo povo, desprezado pelos amigos, Bartolomeu de Gusmão viu-se na triste contingência de fugir para a Espanha, onde foi acolhido por seu irmão frei João de Santa Maria.

Consumido pelo desgosto e atacado de súbita enfermidade, o “Padre Voador” morreu, a 19 de novembro de 1724, no hospital de Misericórdia de Toledo.

Findou seus dias esquecido todos e na mais extrema miséria.

Em: Terra Bandeirante, 4º ano, Theobaldo Miranda Santos, Rio de Janeiro, Agir: 1954.





Tecedeira, poesia infantil de Manoel Pereira Reis Júnior

16 01 2012

Tecedeira

Manoel Pereira Reis Júnior

Aranha:

ela tece o aranhol

com fios de prata

que tem no novelo do palpo…

Ela se emaranha toda

na volúpia de tecer um tapete

de filigranas de luz para dormir…

Dorme e sonha . . .

na faina de viver fiando

a vida inteira…

E a aranha, bailarina sonâmbula,

fiandeira da prata que produz,

descreve em todos os lugares

a giratória, girante das giradas,

que são fios de prata que reluz.

Reviravolteia, sobe, desce,

na augústia de dar a forma

ao fio que ela tece. . .

– Aranha! que sorte bonita é a tua,

de construir um aranhol,

que a noite se tinge de lua,

e de dia se veste de sol! …

Manoel Pereira Reis Júnior ( Catu, BA, 1911 — RJ, RJ 1975) Poeta biógrafo, professor, jornalista, historiador, prêmi ABL (1944 e 1973).

Obras

As Últimas do outono, 1973

Canções do infinito, 1943

Cantigas da mata, 1936

Delírio de Pã, 1938

Epopéia heróica, 1941

Iocaloa, 1932

Maria da Graça, 1931

Ronda luminosa, 1934

Teia de aranha, 1930





O valor dos professores

12 01 2012

Na sala de aula, 1888

Karen Elizabeth Tornoe (Dinamarca, 1847-2933)

óleo sobre tela, 72 x 59 cm

Coleção Particular

O jornal americano The New York Times, na página de editoriais de hoje, tem um artigo muito interessante de Nicholas D. Kristoff, chamado The Value of Teachers [ O valor dos porfessores] sobre o valor  econômico dos professores na vida dos futuros adultos.  Traduzo livremente os primeiros parágrafos  para ponderação.  Acredito que não seja necessário elaborar a respeito.  As conseqüências dos primeiros parágrafos desse texto são lógicas, mas vale a pena seguir o pensamento do autor.

“Imagine que o seu filho acabou de entrar na 4ª série e cai numa turma com uma excelente professora.  A professora, no entanto,  decide se afastar da escola.  O que você deveria fazer?

 A resposta certa é: Entrar em Pânico!

Bem, não exatamente, mas um estudo de grande porte sobre o assunto mostra a diferença que faz um ótimo professor na vida futura de uma pessoa.   Ter um bom professor na 4ª série faz um aluno ter 1,25% mais chance de entrar para a universidade e 1,25% menos chance de engravidar na adolescência a pesquisa sugere.  Cada um desses alunos se tornará um adulto ganhando uma média de R$3.750,00 – ou mais ou menos uma renda de R$ 1.260.000,00 por uma turma média – tudo isso atribuível ao bom professor lá no passado, na 4ª série.  Isso mesmo: Um excelente professor vale centenas de milhares de dólares, por ano de estudantes, só pela renda extra que esses alunos irão ganhar no futuro.

O estudo, feito por economistas das universidades de Harvard e Columbia, concluiu que se um excelente professor está deixando a sala de aula, os pais deveriam angariar fundos, passar o chapéu, vender bolinhos, na esperança de como um grupo oferecer ao professor o equivalente a R$180.000,00 de prêmio para ficar por um ano a mais.  Claro, isso não seria possível,  – mas as suas crianças lucrariam muito mais que esta soma, no futuro de suas vidas.

Por outros lado, o efeito de um professor ruim  é  como se o aluno tivesse faltado 40%  do ano letivo.  Como não deixamos que isso aconteça, não se entende que se permita que maus professores continuem na sala de aula.  Na verdade, o estudo mostra, que os pais deveriam pagar R$180.000 para que esse mau professor se aposentasse (assumindo-se, é claro, que o substituto fosse de qualidade média) porque um professor fraco retira o potencial de crescimento do aluno.”





A raposa e o timbu, fábula brasileira, texto de Luís Câmara Cascudo

3 01 2012

Ilustração de Pat Hutchins

A raposa e o timbu

A raposa convidou o timbu para visitarem um galinheiro bem provido. A raposa iria às galinhas e o timbu aos ovos e pintos.  Entraram por um buraco que mal permitia a passagem.  Começaram a fartar.  A raposa prudente, apenas satisfez o apetite.  O timbu, voraz, empanturrou-se, ficando com a barriga inchada.  De súbito ouviram os passos do dono da casa.  A raposa passou como um raio pelo buraco e sumiu-se no mato.  O timbu meteu-se a tentar mas ficou engalhado pelo meio do corpo, ganindo como um desesperado. O homem chegou, viu o estrago e disparou a espingarda no timbu, que morreu por ser guloso.

Em: Contos tradicionais do Brasil (folclore), Luís da Câmara Cascudo, Rio de Janeiro, Edições de Ouro: 1967

Esse conto foi originalmente coletado pelo autor no Rio Grande do Norte.  É possível que leitores de outros pontos do Brasil não estejam familiarizados com o timbu.  A grande área geográfica brasileira permite que esse animal receba diferentes nomes, em outras regiões: sariguê, gambá, ticaca, mucura, cassaco, entre outros.





Um momento ahah! — srta. Hempel descobre alguns limites profissionais.

27 12 2011

Ilustração, Ben Kimberly Prins ( EUA 1902 – 1980)


Voltando ao livro  O aprendizado da srta. Beatrice Hempel, de Sarah Shun-lien Bynum [Rocco:2011], saliento a passagem abaixo que demonstra claramente a primeira centelha de uma conscientização de estagnação na profissão da srta, Hempel, da repetição infinita das matérias, entra ano, sai ano; a mesmice, o tédio.  Uma situação que acontece com todos nós em diferentes momentos.

” Antes de ler a minha cena — disse Audrey –, posso contar uma piada?

A srta. Hempel disse que sim.

— Foi meu pai quem me contou.  É uma piada boba, mas eu queria contar.  Para começar, ele disse: “Por que é importante aprender a história americana?”  Vocês se lembram?  Do trabalho que fizemos?  E então ele disse: “Quem não se lembrar do passado está condenado a repetir” — Audrey fez uma pausa tímida — “a sétima série!”

A turma riu.  E a srta. Hempel também.

— Até agora essa é a melhor razão! — declarou a srta. Hempel. — Quem quer repetir a sétima série?

Foi então que lhe ocorreu que ela estava repetindo a sétima série, na verdade pela quarta vez; e ainda estaria repetindo a sétima série, quando Audrey, Kirsten e Travis estivessem no mundo lá fora, fazendo coisas.  Um ano após o outro, os colonos de Jamestown se queixariam dos mosquitos, as caixas de chá tombariam no porto, os legalistas seriam cobertos com alcatrão e penas, e exibidos em desfile pelas ruas tortas.  Todos os meses de novembro, a guerra seria vencida.  Todos os outubros, as colônias se rebelariam.  Todos os setembros a srta. Hempel se voltaria para o quadro, apanharia o giz e escreveria: Primeiro Trabalho.





A árvore de Natal de Jean Lou, texto de Gregório José

2 12 2011

A árvore de Natal de Jean Lou:

um conto de Natal

Gregório José

 –

A história passa-se perto de uma aldeia de Vesges, numa casa isolada, próximo de uma floresta de pinheiros.

— Papá, perguntou Jean Lou, quando acordou – Quero uma árvore de Natal.  Os meus amigos da aldeia vão todos ter uma.

–Mas tu não tens necessidade de uma árvore de Natal, respondeu-lhe o pai.  – Há tantas em volta da casa.

— Não árvores de Natal, são pinheiros.

— É a mesma coisa.

Oh, não, não era a mesma coisa, pensou o filho.  Para um pinheiro se tornar uma árvore de Natal, é preciso que se ilumine, e que tenha prendas para os meninos!

Jean Lou sentiu o coração encher-se de desgosto.  A mamã tinha morrido na Primavera, e op ai, sozinho com dois filhos, não substituía a sua ternura.  Mas Jean não perdera de todo a esperança e perguntou ao irmão mais velho, Lucien, — O que é preciso para ter uma árvore de Natal.

Ora os pintarroxos, essas avezinhas simpáticas de babete vermelho, vão próximo das casas, não têm medo das pessoas, mas vivem sempre isoladas.  Jean Lou entrou em casa,  colou o rosto  contra o vidro da janela e observou atentamente a estrada.  Era o entardecer.  Um pintarroxo pousou nela, de seguida um outro sobre um arbusto. O coração do menino saltou acelerado, enquanto via um terceiro pousar sobre um tufo de ervas.

— Um, dois, três… contou o rapazinho.

— Vejo-os, vejo os três pintarroxos, vou ter a minha árvore de Natal!

Precipitou-se de encontro a Lucien, que regressava do campo: — Vou ter minha árvore de Natal!

— Mas que se passa?  Admirou-se Lucien, que tinha esquecido a brincadeira.

— Vi três  pintarroxos juntos!

—  Juntos?  Uns ao lado dos outros?

— Não. Um na estrada, outro num arbusto e outro sobre a relva.  Mas vi-os ao mesmo tempo.  Vou ter a minha árvore de Natal?

— Sem dúvida, prometeu o irmão, perante tanta alegria.  Mas como?

Lucien bem gostaria de dar essa alegria ao seu irmãozinho, mas como encontrar uma verdadeira árvore de Natal?

Após o jantar, Lucien foi dar um passeio, procurando uma idéia. Pinheiros não faltavam.. e quando acariciava um dos mais bonitos, a percebeu-se de um suave murmúrio: “eu farei uma bonita árvore de Natal, se tu quiseres…”

— Não posso levar-te para casa.

— Trarás o teu irmão junto de mim.

— Mas… falta-te tudo, para seres uma árvore de Natal.

— Podemos encontrar tudo aqui.  Tenho amigos, a neve, a geada, as corujas, os silvados, a lua, o céu e até mesmo as aranhas, que estão escondidas no celeiro.  Os meus amigos poderão ajudar-te, não queres?

Então a neve disse:  “Tornarei branco o pinheiro, como se fosse de arminho”; a geada pronunciou: “Fá-lo-ei brilhar como se estivesse salpicado de diamantes”; os silvados: “Nós temos bonitas bagas vermelhas”;  as corujas prometeram dissimularem-se nas ramagens e abrindo e fechando os olhos brilhantes, substituírem as lâmpadas elétricas.

O céu oferecia as estrelas, para enfeitar as pontas dos ramos, e a Lua estenderia os seus raios brilhantes, para colorir as pinhas e os brinquedos de madeira que Jean teria.

Lucien regressou a casa, contentíssimo.  Mas de repente, pensou que se tinha esquecido das aranhas.  Que poderiam elas oferecer?  Foi ao celeiro.

— Fizeste bem em vir, disseram elas, poderemos tornar a árvore verdadeiramente bela.  Lançaremos fios de alto a baixo, e a envolveremos numa rede de renda.

— Mas os vossos fios são escuros e tristes?!?!

— Não.  A geada prateará os nossos fios, verás.

A noite de Natal chegou.

O pai tinha comprado um lindo bolo.  Jantaram e deitaram-se.  Assim que pressentiram que o pai dormia, Lucien agasalhou muito bem o irmão e saíram silenciosamente.

Ao  dobrar a esquina da estrada, Jean parou fascinado.  A Árvore de Natal estava ali, grande e tão bem enfeitada que nada poderia haver de mais belo.

Os ramos cintilavam.  Longos fios prateados envolviam-na e as corujas  escondidas abriam e fechavam os olhos alternadamente.

Jean nem se preocupava com os brinquedos, pendurados pelo irmão:  um pífaro feito de um junco, animais feitos à faca, um cachimbo e misteriosos saquinhos com berlindes, bonbons e outras coisas.

A Lua dava um tom dourado a tudo.  As estrelas cintilavam docemente nas extremidades dos ramos, enquanto ao longe, o som mavioso dos sinos subia e chegava até eles.

Foi assim que Jean, o menino órfão de mãe, pode ter, para ele só nessa noite, a mais linda árvore de Natal.

Tradução do livro Les Contes de Perrette

Em:  Comércio do Seixal e Sesimbra, Semanário,  17 de dezembro de 2010, Ano IV, nº 129





A descoberta de Sutil, de Theobaldo Miranda Santos, uso escolar.

29 11 2011

Bandeirantes, gravura do século XVIII.

Miguel Sutil foi um dos primeiros bandeirantes que atravessaram os sertões de Mato Grosso.  Em outubro de 1720, encontrava-se ele no povoado de Nossa senhora da Penha, onde tinha inciado uma plantação de milho e mandioca.

Durante muito tempo, Sutil havia procurado ouro na região sem nada conseguir.  Certo dia, achava-se ele no interior da mata, longe de casa, quando sentiu fome.  Ordenou então, a dois índios carijós, que trouxera em sua companhia, que percorressem a floresta em busca de mel de abelhas e palmito.

Lá se foram os índios obedientes à ordem do chefe.  Passaram-se muitas horas sem que eles voltassem.  Sutil ficou impaciente. A fome aumentava a nada havia ali para comer.

O sol descambava no horizonte.  Os pássaros recolhiam-se aos seus ninhos.  E os índios não apareciam.  Sutil estava furioso com a demora dos indígenas.

De repente, ouviu-se um barulho no mato e surgiram, afinal, os dois carijós.  Vinham correndo.  Traziam nas mãos alguma coisa que o bandeira não distinguiu.

Sutil interpelou-os com energia.  Os índios nada responderam.  Mas mostraram ao chefe o que traziam.  Suas mãos estavam cheias de ouro!

Mal rompeu o dia, Sutil dirigiu-se ao lugar onde os índios haviam encontrado o ouro.  Lá chegando, quase desmaiou de emoção.  O ouro, em grande quantidade, brilhava na superfície da terra.  Num só dia, o bandeirante e os índios recolheram mais de duas arrobas de ouro!

E assim foi descoberta uma das minas de ouro mais ricas da região centro-oeste do Brasil.

Em: Vamos estudar? — 3ª série primária – de Theobaldo Miranda Santos, edição especial para os estados Goiás e Mato Grosso,  Rio de Janeiro, Agir: 1961