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Luiz Chaves (Brasil, 1946)
acrílica sobre tela, 80 x 60 cm
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Bernardo Cid (Brasil, 1925-1982)
óleo sobre tela, 100 x 80 cm
Coleção Particular
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Érico Santos (Brasil, 1952)
óleo sobre tela, 40 x 50 cm
Acervo pessoal do artista
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Raquel Naveira
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Língua Portuguesa,
Tuas regras são as cordas da minha harpa,
Duras e firmes,
Que procuro dedilhar
Desde a infância.
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Que prazer reconhecer tuas notas graves e agudas!
Ata-me nos teus laços afinados,
Na tua lei tensa
E criarei poemas
Como pássaros.
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Que delícia o esforço de cortar,
Esticar,
Retesar!
Livra-me da frouxidão,
Da lassidão de cometer pecados
Contra ti.
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Língua Portuguesa,
Tuas regras são as cordas de minha harpa,
Torna meu canto angélico,
Feito de forma e beleza,
Oferenda consagrada a ti,
Ao Tejo,
Às espumas do mar.
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Em: Casa e Castelo, Raquel Naveira, São Paulo, Escrituras: 2002, p.71
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João Carlos Bento (Brasil, 1951)
acrílica sobre tela, 100 x 100 cm
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Armínio Pascual (Brasil, 1920-2006)
óleo sobre madeira, 49 x 64 cm
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“Como lagarta sonolenta o trem vinha de Mato Grosso. Corumbá , Campo Grande, Três Lagoas. O sol estava a pino. O trem em linha sinuosa como uma serpente. Não tinha pressa de chegar. O sol entrava ora de um lado, ora de outro, queimando, torrando. Que linha… A gente pensava que ia parar numa cidade e o trem se afastava, depois vinha novamente. E o sol torrando aquela gente. Não podiam fechar as janelas por causa do calor, abafado. “É antigamente os engenheiros ganhavam por quilômetro construído, quanto mais comprida a linha, mais ganhavam, então faziam a linha cheia de curvas…” Alguém falou. Os vagões atulhados de gente sonolenta que tentava dormir, que esticava as pernas, tirava os sapatos, virava a cabeça. Gente branca, gente amarela, gente preta. Profusão de malas, trouxas e pés. Cheiro de suor, chulé, budum, morrinha. Miséria.
Uma família de gente loira. Quanta criança! Deve ter vindo do Báltico tentar a sorte na América, mas, está voltando pobre. Filhos, trouxas e ossos marcando sob a pele. A cada tranco do vagão um olho se abre e volta a fechar-se vencido. A perna estica, a cabeça se ajeita na trouxa imunda. A criança do colo geme. Sonolenta, a mãe abre o corpete, dá-lhe o seio murcho e volta ao sono, incapaz… Nos solavancos, de sono ou fraqueza o menino solta o bico que a mãe lhe pusera na boca. O seio enorme, pendurado, balança, balança no ritmo inconsciente do vagão. Passa o chefe-do-trem apregoando as estações. Passam jovens soldados que vão buscar água no vagão de primeira. O seio está balançando, balançando…mas ninguém olha para ele com olhar profano.
E o trem prossegue nas curvas que não acabam mais com apitos que não têm sentido. O sol queimando, queimando, só curvas e cafezais, roças e mais roças.
Uma moça dorme com os pés no banco da frente. O cabelo em desalinho é como uma cortina a defender a beleza mal formada. A mala de papelão, toda esfolada, amarrada com corda para não estourar. Por que deixou sua terra natal? Seria da Bolívia ou do Paraguai? Fugiria da miséria ou da maldade da gente que não lhe perdoou ter amado um dia? Talvez procurasse a cidade, onde a vida é mais fácil, mais fácil esconder e esquecer…
Outro é mascateador. É o único que fala, que fala do seu bairro distante. É de Vila Maria, e com orgulho repete o nome. Tem malas e pacotes além do número permitido. Espalha-as pelo vagão. O chefe passa, percebe a fraude e finge não entender. Deixa o mascate mascatear…”
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Em: Café amargo, Geraldo Brandão, São Paulo, Brasiliense: 1968, pp,225-6
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Digerson Araújo (Brasil, 1952)
60 x 40 cm
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D. Pedro de Alcântara
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Espavorida agita-se a criança,
De noturnos fantasmas com receio.
Mas se abrigo lhe dá materno seio,
Fecha os doridos olhos e descansa.
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Perdida é para mim toda esperança
De volver ao Brasil; de lá me veio
Um pugilo de terra, e nesta, creio,
Brando será meu sono e sem tardança.
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Qual o infante a dormir em peito amigo,
Tristes sombras varrendo da Memória,
Ó doce Pátria, sonharei contigo!
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E entre visões de Paz, de Luz, de Glória,
Sereno aguardarei, no meu jazigo,
A Justiça de Deus na voz da História.
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Em: Poetas Cariocas em 400 anos, seleção de Frederico Trotta, Rio de Janeiro, Editora Vecchi:1965, pp.149-150
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Antonio Soriano (Brasil, 1944)
acrílica sobre tela, 34 x 40 cm
Coleção Particular
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Eliseu Visconti (Itália, 1866 — Brasil, 1892)
óleo sobre madeira, 21 x 13 cm
Coleção Particular
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“Compreendeu que saber viver é um dom, uma sabedoria; saber dar valor a fatos que à primeira vista parecem insignificantes, mas que no fundo são de grande valia é uma virtude. Lembrava os conselhos do pai: “quando você estiver triste, seja qual for o motivo, pense nas coisas piores que poderiam ter acontecido e não aconteceram. Pense naqueles que estão sofrendo muito mais que você, nos doentes incuráveis, nos aleijados, nos infelizes e nos indigentes.”
Rira desses conselhos, achara o pai simples, quase pueril, quando dizia: “Procure dar valor às coisas simples da vida, aos pequenos prazeres que estão ao seu alcance; uma hora de boa leitura, uma refeição agradável, uma linda música. Cultive as boas amizades, lembre-se de que a amizade sincera é um bem precioso. Lembre-se de que uma hora de solidão faz bem a quem tem o espírito inquieto, perturbado; lembre-se de que tudo há de vir a tempo, não corra ao encontro de nada, não force os fatos, pode sofrer desilusões. Filha, se toda gente soubesse dar valor a pequenos fatos, a vida seria um paraíso.”
Errara. Não cultivara a flor do espírito. Só dera valor aos grandes bens materiais que o dinheiro pode comprar e desdenhara os bens espirituais. E agora que perdera a fortuna…tinha a impressão de que nada mais ficara, perdera tudo… Poderia ter possuído ambos e agora no fim reter alguma coisa… Não. Não tinha amizades, nem o amor dos filhos. Tinha Dorita, apenas Dorita… Não… Não perdera tudo. A esse pensamento, seu rosto contraiu-se num sorriso quase alegre; ficara aquele anel de valor inestimável, e apertava-o nervosamente contra o peito.
Sorriu ao sentir junto ao corpo o saquinho de pano que fizera naquela tarde para guardar a pedra resplandescente.”
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Em: Os Rodriguez, Sra. Leandro Dupré [Maria José Dupré], São Paulo, Editora Saraiva: 1958; 6ª edição, pp,220-221.
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Pescador na beira do rio, 1932
Archimedes Dutra (Brasil, 1908-1983)
óleo sobre madeira, 27 x 35 cm
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Fernando Pessoa
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Na ribeira deste rio
ou na ribeira daquele
passam meus dias a fio.
Nada me impede, me impele,
me dá calor ou dá frio.
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Vou vendo o que o rio faz
quando o rio não faz nada.
Vejo os rastros que ele traz,
numa sequência arrastada,
do que ficou para trás.
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Vou vendo e vou meditando,
nem bem no rio que passa
mas só no que estou pensando,
porque o bem dele é que faça
eu não ver que vai passando.
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Vou na ribeira do rio
que está aqui ou ali,
e do seu curso me fio,
porque, se o vi ou não vi,
ele passa e eu confio.
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Em: Antologia poética para a infância e a juventude, Henriqueta Lisboa, Rio de Janeiro, Instituto Nacional do Livro: 1961, p. 150-151.
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Marcos de Oliveira (Brasil, 1980)
Acrílica sobre tela, 160 x 200 cm
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Acredito que tudo tem o seu tempo. Mas hoje quase duvidei desse aforismo. Imaginem vocês que em maio deste ano recebi, muito gentilmente, um email do ateliê do artista plástico, natural da Bahia, mas radicado em São Paulo, Marcos de Oliveira. Este email veio assim do nada, uma surpresa, um presente. Dava-me os links para que eu pudesse conhecer seus trabalhos, uma bela obra contemporânea.
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Guerreiros da anunciação, 2010-2012
Marcos de Oliveira (Brasil, 1980)
Acrílica sobre tela, 200 x 800 cm
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Mas … Eu estava muito ocupada na primeira metade deste ano. Havia começado a dar um curso novo para mim, onde recentes pesquisas, com novas dados descobertos nos últimos anos, informações interessantes, tinham que ser incorporadas às minhas poucas notas anteriores. A preparação dessas aulas acabou tomando muito mais tempo do que eu havia imaginado. Faltou-me tempo até para o blog que costumo organizar com alguma antecedência. O blog sofreu com um número bem menor de postagens. Mas o curso ficou redondinho, ainda que um pouquinho mais longo do que o imaginado.
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Marcos de Oliveira (Brasil, 1980)
Acrílica sobre tela, 200 x 160 cm
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Aí hoje, decidi que era a hora de mostrar a todos alguns trabalhos do Marcos de Oliveira. Eu me lembrava dele. Não só porque gostei das telas, mas porque coloquei uma foto de uma das telas dele numa pasta do Windows que abro pelo menos uma vez por dia. Mas quem disse que eu encontrava o resto das informações? Procurei nas minhas 5 pen drives com imagens de telas, esculturas, etc (ou vocês acham que eu procuro na hora de postar alguma coisa?) Tenho tudo muito organizado porque é muita informação e pouca memória. Mas quem foi que disse que eu achava? Achei muita coisa que eu deveria ter deletado há tempos. É como voltar ao passado, organizando antigas gavetas de papelada: ideias de artigos, comparações entre uma obra de arte e outra… Notas sobre um futuro curso, uma futura coleção disso ou daquilo… Enfim, entrei numa revisão total dos últimos 5 anos de blogagem.,,, E achei!
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Marcos de Oliveira (Brasil, 1980)
Acrílica sobre tela, 120 x 200cm
Coleção Metrópolis TV Cultura, SP
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E fiquei muito feliz de ter achado porque gostei imensamente de seu trabalho. Gosto de ver as soluções que ele encontrou. É evidente que esta é uma pessoa que já digeriu muita informação artística e conseguiu uma solução criativa, única, que leva a sua assinatura, por assim dizer, entre o abstrato e o figurativo. Se estivéssemos ainda no século XX poderíamos chamá-lo de neo-surrealista. Mas hoje, na segunda década do século XXI, qualquer denominação de “surrealismo” considero anacrônica. É também desnecessário rotular. Além disso, gosto da sua sofisticação no traço e no acabamento.
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Marcos de Oliveira (Brasil, 1980)
Acrílica sobre tela, 100 x 190 cm
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Só de flanar virtualmente entre as peças no site e no blog dá para perceber algo de sua trajetória. As cores fortes contrastam com a delicadeza dos detalhes geométricos, onde alguns triângulos até conseguem projetar sombras, como na tela acima. Tudo indica que Marcos de Oliveira se sente confortável, nesse caminho do meio, entre telas de temática mais abstrata, representando engrenagens de máquinas imaginárias, como na Metamorfose II (primeira tela desta postagem), como também na execução de telas tradicionalemnte associadas à figura humana como a Madona, abaixo.
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Marcos de Oliveira (Brasil, 1980)
Acrílica sobre tela, 120 x 200 cm
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Há leveza e deliciosa jocosidade nessa Madona, cujos anjinhos e ela própria lembram as enigmáticas imagens das cartas nobres dos baralhos. Sem deixar as raízes religiosas e também folclóricas dos seus temas, Marcos de Oliveira encontra uma iconografia própria. Ele consegue inserir o seu trabalho numa tradição brasileira, e dialoga com Tarsila do Amaral, Djanira e até mesmo com Rubem Valentim. E sobretudo encontra e honra o seu próprio caminho.
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Marcos de Oliveira (Brasil, 1980)
Acrilica sobre tubo de cartão, 128 x 25 x 25 cm