A imaginação é a solução: “O Sr. Pip” de Lloyd Jones

29 07 2013

Aldemir Martins (1922-2006) - Paisagem com sol amarelo - Acrílica sobre tela - 18,5 x 22,5 cm - 2000Paisagem com sol amarelo, 2000

Aldemir Martins (Brasil, Brasil, 1922-2006)

acríica sobre papel, 18 x 22 cm

Coleção Particular

Não me surpreende que este romance tenha levado o prêmio  de melhor livro em 2007, dentre os Escritores da Commonwealth, e que nesse mesmo ano tenha sido um dos finalistas do Man Booker Prize. O Sr. Pip, já nasceu um clássico.  E gerações futuras irão se encantar, aprender e se alimentar nessa surpreendente fonte de sabedoria elaborada por Lloyd Jones.

A história se passa em Bourgainville, arquipélago de Papua-Nova Guiné.  O enredo, entrelaçado com eventos reais durante a guerra civil de 1991, chega até nós através dos olhos de Matilda, uma menina-moça.  Lloyd Jones foi muito feliz na voz que encontrou para Matilda, a pré-adolescente, que encontramos com aproximadamente 13 anos e que nos seduz por sua candura e inteligência.  Seguimos seu crescimento até a idade adulta, físico e emocional. Mas é  o tom encontrado para ela, uma harmoniosa combinação da inocência da criança com a voz que amadurece por necessidade, que torna o livro sedutor.

O_SR_PIP_1255702135P

Inicialmente Matilda não tem meios de entender o mundo que a rodeia; a realidade da guerra civil é incompreensível. Despojadas dos confortos cotidianos, as crianças da ilha encontram em um de seus habitantes, Sr. Watts, uma maneira de se preservarem.  Ele se torna professor da criançada, quando já quase nada mais resta no local além da escola vazia, abandonada, cheia de lagartixas e trepadeiras crescendo de encontro às paredes.

Sr. Watts têm métodos diferentes de ensinar e com ele as crianças adquirem meios para lidar com a devastadora realidade que as cerca. Matilda segue seu professor passo a passo e acaba se apaixonando pelo personagem Pip, do livro Grandes Esperanças de Charles Dickens, o livro que todos lêem e relembram.

lloyd_jonesLloyd Jones

Com essa simples e transparente narrativa Lloyd Jones nos entrega uma pequena obra prima sobre o poder da imaginação, sobre as funções da literatura, sobre justiça e dignidade. Tudo através da metodologia de  Sr. Watts que seduz com sua paixão tanto seus alunos na ilha, quanto nós  leitores mesmerizados.  Como subtexto, temos uma vigorosa defesa do papel da literatura na vida de quem a ela se dedica, leitor ou escritor.  Através do Sr. Watts aprendemos também que temos diversas vidas, diversos papéis, que vão sendo adaptados às diferentes situações, de acordo com as nossas  necessidades.  Um saudável e belíssimo manual de sobrevivência através da criação literária.





O azul está por todo lado, texto de Lloyd Jones

27 07 2013

Newman Shutze (Brasil, 1960)Superfície com azul e branco, Acrílico sobre tela140 x 110 cmSuperfície com azul e branco, s/d

Newman Shutze (Brasil, 1960)

Acrílica sobre tela, 140 x 110 cm

O azul está por todo lado

Lloyd Jones

“ Existe um lugar chamado Egito – ela disse. – Não sei nada sobre esse lugar. Gostaria de poder contar para vocês sobre o Egito. Perdoem-me por não saber mais. Porém, se quiserem, posso contar-lhes tudo o que sei sobre a cor azul.

Então nós ouvimos sobre a cor azul.

— Azul é a cor do Pacífico. É o ar que respiramos. Azul é o intervalo de ar entre todas as coisas, como as palmeiras e os telhados de zinco. Se não fosse pelo azul, não veríamos os morcegos. Obrigada, meu Deus, por nos ter dado a cor azul.

“É surpreendente como a cor azul está sempre aparecendo”, continuou a avó de Daniel. “É só olhar que você vê. Você pode encontrar o azul espiando pelas frestas do cais em Kieta. E vocês sabem o que ele está tentando fazer? Ele está tentando alcançar as vísceras fedorentas dos peixes para levá-los de volta para casa.  Se o azul fosse um animal, ou uma planta, ou uma ave, ele seria uma gaivota. Ele mete o seu bico em tudo.

“O azul tem poderes mágicos também”, ela disse. “Olhe para um recife e digam se estou mentindo. O azul bate num recife e qual é a cor que ele solta? É o branco!  Como ele faz isso?”

Olhamos para o Sr. Watts em busca de explicação, mas ele fingiu não notar nossos rostos indagadores. Estava sentado na ponta da cadeira, de braços cruzados. Cada pedaço dele parecia focado no que a avó do Daniel estava dizendo. Um a um, voltamos a nossa atenção para a velhinha com boca manchada de bétel.

— Uma última coisa crianças, e então deixo vocês em paz. O azul pertence ao céu e não pode ser roubado, razão pela qual os missionários grudaram azul nas janelas das primeiras igrejas que construíram aqui na ilha.

O Sr. Watts abriu bem os olhos daquele jeito que já tinha se tornado familiar, como se estivesse acordando. Foi até a avó de Daniel com a mão estendida. A velha estendeu a dela para ele   segurar e então ele se virou para turma.

— Hoje nós tivemos muita sorte. Muita sorte. Fomos lembrados que, apesar de não podermos conhecer o mundo todo, se formos suficientemente inteligentes, podemos torná-lo algo novo. Podemos inventá-lo com as coisas que vemos à nossa volta. Só precisamos olhar e tentar ser tão imaginativos quanto a avó de Daniel. – Ele pôs a mão no ombro da velha senhora. – Obrigado – ele disse. – Muito obrigado.

Em: O Sr. Pip, Lloyd Jones, trad. Léa Viveiros de Castro, Rio de Janeiro, Rocco:2007, pp. 68-69





Recém-nascido, poema de Stella Leonardos

27 07 2013

Aurélio D´Alincourt (1919-1990) carinho maternal, ose, 46 x 38Carinho Maternal,s/d

Aurélio d’Alincourt (Brasil, 1919-1990)

óleo sobre  madeira,  46 x 38 cm

Recém-nascido

Stella Leonardos

Penugem de ave pequena.

No corpo fruta macia.

Na pele fresca açucena.

Na vida raiar do dia.

Raio de luz, ilumina.

E sendo pássaro e planta

É inocência que germina,

É madrugada que canta.

Em: Pedaço de Madrugada, Stella Leonardos, Rio de Janeiro, Livraria São José:1956, p.11

 

 





Minuto de sabedoria — Alexandre Herculano

23 07 2013

Jurandi Assis (BA, Brasil, 1939) Lendo no Campo  OST 48cmx60cmLendo no campo, s/d

Jurandi Assis (Brasil, 1939)

óleo sobre tela, 48 x 60 cm

“Querer é quase sempre poder: o que é excessivamente raro é o querer.”

240px-Alexandre_Herculano  Alexandre Herculano (Portugal, 1810-1877)





E viva a Copa das Confederações! Vamos comemorar!

15 06 2013

agostinho batista de freitas, campo de futebol,ostCampo de futebol, s/d

Agostinho Batista de Freitas (Brasil, 1927-1997)

óleo sobre tela

Bia Betancourt [Beatriz Falanghe Betancourt] (Brasil, 1963) Olé, ast, 60 x 80cmOlé, s/d

Bia Betancourt (Brasil, 1963)

acrílica sobre tela, 60 x 80 cm

Dhira K ,futebol, 2011, 60 x 40Futebol, 2011

Dhira K. (Brasil, contemporâneo)

Acrílica sobre tela, 60 x 40cm

http://dhirartes.blogspot.com.br

José Roberto Aguilar, Futebol III, 1966, spray sobre tela, 114 x 146, mac,uspFutebol III, 1966

José Roberto Aguiar (Brasil, 1941)

Spray sobre tela, 114 x 146 cm

Museu de Arte Contemporânea, USP

???????????????????????????????O jogo, 2001

Fernando Mendonça (Brasil, contemporâneo)

aquarela sobre papel, 21 x 30 cm

Rubens Gerchman (1942-2008) 2 -Jogo de Futebol - Guache - 43x35Jogo de futebol, s/d

Rubens Gerchman (Brasil, 1942-2008)

guache sobre papel





Quermesse, poema de Mário Mauro Matoso

13 04 2013

Bonaventura Cariolato (Itália 1894-Brasil, 1989) -Festa na aldeia,aquarela ,1965,Bairro da Boa Vista em Franca, 33 x 40 cm.

Festa na aldeia, 1965

Bonaventura Cariolato (Itália/Brasil, 1894-1989)

[Bairro da Boa Vista, em Franca]

óleo sobre tela, 33 x 40 cm

Quermesse

Mário Mauro Matoso

Recordo uma quermesse em Santa Rita…

A praça principal, ornamentada,

A Banda no coreto, entusiasmada,

Executando a marcha favorita…

Defronte a uma barraca, a petizada

De olhos fitos na prenda mais bonita…

O Correio elegante… a senhorita

Que outrora fora minha namorada.

A barraca do Bar e do Café,

O bloco do catira, o bate-pé

Sobre um tablado, rústico e bisonho…

Assim é que relembro nossa terra,

A cidade feliz que se descerra

Na perpétua quermesse do meu sonho!

Em: 232 Poetas Paulistas:antologia,  ed. e col. Pedro de Alcântara Worms, São Paulo, Conquista: 1968, p. 473.

Mário Mauro Matoso [Mattoso] (SP, 1902- ?) . Poeta.

Obra:

Flâmulas e Flores, poesia, 1964





Imagem de leitura — Gustavo Rosa

8 04 2013

Gustavo-Rosa-leitor, serigrafiaLeitor, s.d

Gustavo Rosa (Brasil, 1946 – 2013)

Serigrafia

www.gustavorosa.com.br

Gustavo Rosa nasceu em São Paulo em 1946.  É pintor, desenhista e gravador.  Reside e trabalha em São Paulo.





Trova do pantanal

6 04 2013

Wander melo,TUIUIUS-2009,ast-120x80Tuiuius, 2009

Wander Melo (Brasil, contemporâneo)

Acrílica sobre tela, 120 x 80 cm

http://wmeloarts.blogspot.com.br

Em bando sutil, as garças,

pontilhando o lamaçal,

são quais pérolas esparsas, 

adornando o pantanal.

 –

(Dorothy Jansson Moretti)





Manhãs, poesia de Irene de Sousa Pinto

5 04 2013

Ferenc Kiss, Fazenda Torrão de Oouro, 1990, osm, 24x33

Fazenda Torrão de Ouro, 1990

Ferenc Kiss  (Hungria/Brasil,  1944)

Óleo sobre madeira, 24 x 33 cm

Manhãs

Cedo, na roça, estática, à janela,

Gozo destas manhãs a graça imensa;

E o sol, que é generoso, entra por ela

A dar topázios, sem pedir licença.

A luz se expande e a vida se revela

No cafezal e na campina extensa;

Ouço mugirem bois junto à cancela

E o gorjeio das aves que se adensa.

No fio além do telefone, em linha

Como rosários, cantam andorinhas,

Saudando o sol na fímbria do levante.

 E pelo branco laranjal em flor

Semeia o vento o pólen fecundante

Sobre corolas sôfregas de amor…

Em: 232 Poetas Paulistas:antologia,  ed. e col. Pedro de Alcântara Worms, São Paulo, Conquista: 1968, p. 143

Irene Ferreira de Sousa Pinto (Brasil, SP, 1887- RJ, 1944) Nasceu em Amparo, no estado de São Paulo em 1887.  Poetisa e escritora.

Obras:

Primeiros vôos, 1917

Rosa-maria, 1920





Rudyard Kipling no Rio de Janeiro

4 04 2013

Bruno Bronislaw Lechowski (1887–1941),Praia de Copacabana, 1936

Bruno Bronislaw Lechowski (1887-1941)

aquarela sobre papel

Almocei hoje com um amigo vindo de uma Europa cheia de neve e frio, onde o tempo insiste em prolongar um dos piores invernos de que se teve notícias por aquelas bandas.  Sua alegria de voltar aos trópicos foi contagiante e me lembrei também do tempo em que morando fora do Brasil, chegava aqui de visita à família e me encantava até mesmo com o Galeão, porque reconhecia o colorido das folhas verdes da Ilha do Governador e o cheiro do material de limpeza do aeroporto.  Isso só acontece quando se tem muita saudade mesmo!  Voltei para casa e fui correndo dar uma olhadinha em um texto de Rudyard Kipling sobre o Brasil,  um escritor amante dos trópicos, da Índia e de outros lugares também abençoados.  Re-encontrei esse livro na semana passada quando passei em revista meus livros.  Sabe aquela crença: vamos nos desfazer de algumas coisas para dar espaço para outras melhores?  Pois ando nessa vibração, talvez seja a necessidade de contribuir para que o status quo desembeste, mude, saia da mesmice.   Não consegui achar o texto de que me lembrava, mas achei esta introdução ao Rio de Janeiro que considero charmosa.  Espero que vocês gostem.

“Nos países sensatos, não há pressa, nem mesmo para a Saúde ou a Polícia do Porto. Por isso, embora houvéssemos entrado no porto do Rio no começo da tarde, já estava começando a escurecer quando nos aproximamos do cais e toda a cidade e as costas ao lado dela escolheram esse momento para acender constelações e vias-lácteas de desenfreada eletricidade.

Subiram então a bordo homens dispostos, como os homens do mundo inteiro, a mostrar a um estrangeiro a cidade que amavam. Dentro de dois minutos, as linhas escuras dos cais repletos tinham desaparecido e o carro corria por uma avenida cheia de luzes e fortemente quadriculada por filas duplas de folhagem das árvores e marginada e clubes, lojas e cafés iluminados e repletos. Esse mundo de luz cedei lugar de súbito, entre os topos de edifícios gigantescos, a espaços ainda mais vastos de avenidas de pista única, entre árvores, tendo a baía de um lado e franjadas de luzes elétricas que corriam para a frente aparentemente para sempre e se renovavam em colares de pérolas atiradas em volta de cantos indivisíveis. E sempre, acima de tudo, viam-se e sentiam-se os contornos das montanhas cobertas de matas. Todo o mundo estava conosco em carros todos cheios de gente sem chapéu, todos em velocidade máxima, mas não mais rápidos do que certos diabólicos ônibus cujos barulhos funcionais eu iria confundir depois com o trovejar de um aeroplano diante da minha janela no oitavo andar. À nossa direita, um morro cujas luzes profusas subiam e se interrompiam, indicando a meio curvas de caminho.  Conheciam-se bastante os velhos romances para saber que aquilo devia ser Santa Teresa, o bairro onde os funcionários virtuosos e os amantes exilados pelo destino costumavam viver para refazer as suas fortunas. É hoje, como sempre foi, um lugar de aprazíveis residências. Está diante exatamente da entrada da barra – dois lisos dentes de crocodilo de rocha nua que muitos olhos devem ter visto a fechar o caminho para a pátria no tempo em que os homens morriam entre o meio-dia e o crepúsculo. Há visões de casas brancas e cor de rosa com plumas de palmeiras sobressaindo ou, ainda com maior intimidade, frisos de bananeiras tranqüilas por trás de muros de marfim. Ficamos, porém, à beira da água, com a multidão que estava tomando fresco.

A noite estava, razoavelmente, isto é, tropicalmente quente. Chapéus, sobretudos, pressa, hora e outras insignificâncias tinham ficado do outro lado do Equador. A única preocupação que restava era de que aquela cidade de sonho, de folhagem verde intensamente iluminada, de imponente estatuária e montanhas altaneiras desaparecesse de repente se a gente tivesse a coragem de olhar para o lado.  Mas continuou, com uma enorme curva de caminho sucedendo a outra, ainda contornando o mar, ainda iluminada pelas luzes insolentes e onipotentes mas – deve-se pagar algum tributo aos deuses – impregnada do perfume dos carros que voavam. (Deve-se notar que o brasileiro, como motorista, pode paralisar qualquer chofer de taxi da Place de La Concorde. Os sulistas ciumentos dizem que um argentino pisando leva-lhe vantagem. Para mim, ele é mais que suficiente.)

Por fim, a torrente do tráfego se desviou da baía, entrou por um túnel ressoante onde todos buzinavam ao  mesmo tempo e foi sair numa extensão de praia em que as ondas livres do Atlântico Sul se alinhavam sob as estrelas  e se quebravam nas areias de cor de marfim ao pé dos refletores elétricos. Todos os que não estavam sobre rodas passeavam em miríades em calçadas de mosaico junto ao mar. Diante da praia, viam-se casas isoladas cujos proprietários deviam ter perdido a cabeça em todos os detalhes, arrebiques, caprichos, atributos e curiosidades daquilo o que se chama de “arquitetura” e que seus cérebros ou suas posses podiam abranger. E desde que as construções não se pareciam com qualquer outra coisa na terra, ajustavam-se exatamente ao inexplicável cenário que sob os altos céus os contemplavam.

— O nome desta praia é Copacabana – disseram meus companheiros.  – Não faz muito tempo que começou a ser construída. Não. Isso não é a cidade. É apenas um dos seus distritos. A cidade fica a muitos quilômetros de distância. Ainda há muitas outras praias pela frente, mas…”

Em: Cenas Brasileiras: um documento inédito — a presença de Kipling no Brasil, Rudyard Kipling, tradução de Pinheiro de Lemos, Rio de Janeiro, Record: [1977?], pp. 37-38