Papa-livros, leitura para março: O Africano, de J. M. G. Le Clézio

28 02 2011

 

Meio-dia, s/d

Adrian Deckbar ( EUA, contemporânea)

Pastel,  100 x 130 cm

www.adriandeckbar.com

—-

—-

Leitura para MARÇO,  discussão a partir do dia 21.

—–

—–

—–

—-

SINOPSE

—-

Neste livro, o escritor françês Le Clézio (1940) tenta capturar a enigmática figura do pai através das lembranças de uma infância ao mesmo tempo cheia de deslumbramentos, libertações e dureza.   Ele nos leva para uma longa viagem à África, de 1928 até muito além do final da Segunda Grande Guerra.  A história é narrada por um homem que, pelas lembranças, refaz o caminho de seu pai durante as mais de duas décadas em que este trabalhou como médico militar nas colônias inglesas do continente africano. O livro também é uma tentativa do narrador de compreender sua infância dividida entre a Europa e a África e o difícil primeiro encontro com o pai aos oito anos de idade. A narrativa que, como outras do autor, mescla traços autobiográficos e ficcionais, une as emoções desse pai e desse filho num curto e profundo relato sobre a herança que invariavelmente nos é transmitida, como afirma o próprio autor na primeira frase do livro: “todo ser humano é resultado de pai e mãe”.

Editora Cosac & Naif

Ano: 2007

ISBN: 8575035894

Páginas – 136

—-

Nota: o autor recebeu o Prêmio Nobel de literatura em 2008.





A fenda africana continua… Nova ilha no Oceano Índico

26 06 2010
Fenda no continente africano.

O continente africano deve ser dividido em duas partes pelo aparecimento de um novo oceano em dez milhões de anos.  Um grupo de cientistas britânicos, que vêm monitorando mudanças geológicas na região de Afar, na Etiópia, descreveu o processo na conferência da Royal Society, de Londres.   A fenda de 60 km de comprimento se abriu a região em 2005 e vem crescendo sistematicamente. 

Normalmente rios, novos mares e montanhas nascem em câmera lenta. Mas no “Chifre da África” a coisa é diferente.  O monitoramento num período de apenas dez dias verificou a expansão da fenda em oito metros, alertou o sismólogo James Hammond, da Universidade de Bristol, um dos coordenadores do estudo.   Os pesquisadores dizem que o processo acabará dividindo a África em duas áreas, transformando parte da Etiópia e da Somália em uma grande ilha no Oceano Índico.

Outra visão da fenda em solo africano.

Partes de Afar estão abaixo do nível do mar, e o oceano está separado por apenas uma faixa de 20 metros de terra do território da Eritréia“, afirmou Hammond. “Então essa terra cederá eventualmente, o mar entrará e começará a criar esse novo oceano“.   Com o tempo esse oceano crescerá até separar de vez a região do chamado “Chifre da África” do restante do continente, criando assim “uma África menor e uma ilha muito grande no Oceano Índico“.

A fenda apareceu em 2005, após a erupção do vulcão Dabbahu, na região de Afar. E dará lugar a um novo oceano, que  está se formando com uma velocidade incrível – pelo menos pelos padrões geológicos.  O local está abaixo do nível do mar. Não tem água porque se encontra fora da costa do continente. Os sismólogos dizem que estão presenciando um processo que normalmente só ocorre debaixo dos oceanos.

—-

—-

Uma das surpresas desse processo é que sabemos o momento em que a fenda nasceu.  Em 2005, os geólogos Dereje Ayalew e seus colegas da Universidade de Adis Abeba foram surpreendidos e amedrontados quando ao chegarem às planícies do deserto central da Etiópia, sentiram que o chão começou a tremer. O piloto ainda gritou para os cientistas voltarem para o helicóptero. E aí, aconteceu: fendas apareceram e como um zíper a terra se abriu.  Após alguns segundos, o chão parou de se mover.  Recuperando-se do choque, Ayalew e seus colegas perceberam que tinham sido presenteados com um evento sem igual:  acabavam  de testemunhar um momento da história do planeta.  Nunca antes seres humanos estiveram presentes nos primeiros passos do nascimento de um oceano.  Normalmente, as mudanças ao nosso meio ambiente geológico ocorrem de forma quase imperceptível. O período de uma vida humana é muito curto para ver rios mudarem de rumo, para testemunhar a terra subindo para formar montanhas.

FONTES E MUITO MAIS INFORMAÇÕES:  BBC, SPIEGEL, FOX NEWS 





Cartaz da Copa do Mundo de 2010

11 06 2010

—-

—-

Hoje foi a abertura da Copa do Mundo.  Para celebrar este evento nada melhor do que rever o fabuloso design do cartaz oficial da FIFA.





Olhar na África: as bicicletas de bambu

11 06 2010

Bicicletas azuis, 2004

Inha Bastos ( Brasil 1949)

Óleo sobre tela,  90 x 130 cm

No início deste ano, a Der Spiegel, publicou um excelente artigo de Andrea Reidl sobre bicicletas de bambu.  Guardei-o e nada melhor do que este momento de Copa do Mundo, com os nossos olhares no continente africano e hoje me lembrei do assunto.

Bicicletas de fibra de carbono e de alumínio estão definitivamente entre os itens do passado.  Hoje o melhor modelo manufaturado vem mais leve, mais forte, mais confortável e deixa uma pegada de carbono muito menor para um modo de transporte que está entre os mais desejados na preservação do meio ambiente.

Até hoje, o mais conhecido construtor de bicicletas de bambu is Craig Calfee, que mantém sua oficina na costa californiana.  Suas bicicletas têm um desenho fenomenal e dependem da produção de uma gramínea: o bambu.   Mas ele não é o único.  Hoje bicicletas de bambu são produzidas em muitos países africanos com bastante sucesso. 

A bicicleta Calfee.

Craig Calfee é em parte responsável pela própria competição, já que foi em Gana que fundou  o Projeto Bamboosero, — que é um projeto com apoio parcial do Instituto da Terra da Universidade de Columbia, que tem como objetivo ensinar os ganenses a construírem  uma bicicleta de bambu, e mais tarde até, quem sabe, abrirem uma pequena fábrica de bicicletas.   A facilidade do projeto está nos insumos.  O material é simples: bambu, que é encontrado em todos os continentes, no mundo inteiro, abundante.  Ele  precisa ser curtido por quatro meses antes de ser usado na fabricação das bicicletas; e como liga, fibras de cânhamo embebidas em resina são usadas para amarrar os tubos de bambu.   Mas o sucesso está também na eficiência, o bambu é leve e extremamente resistente.

—-

—-

Bicicleta de bambu, detalhe.

Craig Calfee já construía bicicletas antes de desenvolver  o modelo de bambu.   Era já bastante conhecido por ter desenvolvido bicicletas de fibra de carbono para os maiores ciclistas do mundo.  Procurando por algo novo descobriu o bambu.

Além de ser um elemento encontrado universalmente, além de ser bom para o meio-ambiente, de ser barato, de ser de fácil manuseio, o bambu, ou melhor, a armação de uma bicicleta em bambu absorve a vibração do movimento de maneira ainda mais suave do que a que é feita de fibra de carbono.  E é mais resistente a qualquer impacto do que as bicicletas tradicionais demonstrando muito maior resistência à quebra, fatores confirmados em testes científicos na EFBe, na Alemanha.

Bicicleta de vime.

Há algumas outras vantagens que a armação de bambu tem sobre qualquer outra, entre elas, a relativa facilidade com que pode ser manufaturada em países em desenvolvimento, porque o material usado, o bambu, cresce praticamente ao lado de qualquer tipo de grupo de manufatura.  Além  disso, bicicletas são um importante meio de transporte nas sociedades em desenvolvimento que abrange toda a população: crianças indo para a escola; a ida para o trabalho ou para o mercado dos adultos de uma família; o transporte de pequenas cargas.

Depois do sucesso do projeto em Gana, que começou em fevereiro de 2008, outros países começam a receber incentivos semelhantes do Bamboosero: Uganda, Libéria, Nova Zelândia e Filipinas.

Bicicletas de material natural em Gana.

—-

—–

Craig Calfee não é o único trabalhando em solo americano com o desenvolvimento de modelos de bicicletas de bambu.  Nick Frey, que é um engenheiro e ciclista passou dois anos desenvolvendo o seu modelo de bicicleta de bambu para, com outros quatro engenheiros, formar a companhia de bicletas de bambu chamada Sol Cycles, na cidade de Princeton, NJ.  Logo depois deslocou-se para o estado do Colorado onde fundou a companhia Boo Bicycles que também se especializa em bicicletas de bambu.   Há outros nessa competição de bicicletas de bambu: Daedalus em Portland, no estado de Oregon, que constrói esse tipo de bicleta desde 2005.

E é claro há os competidores de outros lugares do mundo.  Na Dinamarca a firma Biomega já constrói um tipo de bicicleta com excelente design enquanto em Berlim, na Alemanha, a Universidade Técnica desenvolve as bicicletas Berlin Bamboo Bikes.  A pesquisa do engenheiro alemão Nicolas Meyer, de Osnabruck na Baixa Saxônia, deu um passo a frente manufaturando bicicletas de fibra de cânhamo, que levam o rótulo de sua companhia  a Onyx Composites, que se especializa em projetos de construção leve que usem matéria prima sustentável.

—-

—-

Manufatura de uma bicicleta de bambu em Gana.

Para um projeto de bicicletas usadas na corrida de triatlo sua bicicleta tem uma combinação de bambu e cânhamo.  Essa mistura de duas diferentes fontes de matéria prima combina 60% de cânhamo com 15% de bambu e o resto de fibra de carbono e alumínio. 

—-

—-

O produto final em Gana.

 

Mas a grande vantagem, no momento, dessas bicicletas está explícito no pequeno vídeo de Calfee, que mostro abaixo, que é além da praticidade de transporte e da preservação do meio ambiente, é o número de empregos que uma pequena companhia de construção de bicicletas de bambu pode criar.  Empregos que certamente podem levar a um crescimento econômico mais estável e sustentável.

VÍDEO EM INGLÊS:






Bom dia camaradas, um deleite de leitura!

3 01 2010

Acabei de ler o delicioso, divertido e suave livro Bom dia camaradas do autor angolano Ondjaki.  Este não é o seu primeiro livro, mas é o primeiro de seus livros que leio.  E que maravilhosa surpresa!

Este é um livro de memórias de um jovem dos seus primeiros anos da adolescência.  Na verdade, são memórias simplesmente de uns meses de escola.  Eles se passam ao mesmo tempo em que a Guerra de Angola está chegando ao fim.  Uma guerra que é vista do contexto da família desse menino, da rotina familiar e das aventuras normais de quem está freqüentando a escola.  Ele e sua família são membros sólidos da classe média angolana.  E o que aprendemos é como esta classe média lidou com a guerra, assim como percebemos suas esperanças para o futuro.

 

A história se desenvolve entre a chegada e a partida de sua tia, que mora em Portugal e que passa diversas semanas visitando a família em Luanda.  Esta visita dá a Ondjaki a oportunidade de descrever Luanda, Angola e os hábitos locais através dos olhos e das perguntas de uma viajante, uma pessoa de fora.  Nosso jovem herói, no entanto fica constantemente surpreso quando compara as perguntas dela com as respostas que precisa dar.  Ele é pego de surpresa quando tenta explicar o que é a “vida real” em Luanda.  Esta troca de perguntas e respostas, muito bem tecidas no texto, são freqüentemente muito engraçadas e às vezes, até mesmo, hilárias, porque podemos ver os dois pontos de vista, do estrangeiro e do local e a incompreensão que respostas e perguntas geram.

Ondjaki demonstrou também maravilhosa habilidade de narração quando representa a conversa do “nada” dos jovens adolescentes, que constantemente melhoram a realidade para não perderem a oportunidade de contarem uma boa história.  Apesar disso, Ondjaki é sucinto e consegue mostrar como em períodos de crise, qualquer história pode ser crível, e pode fazer pessoas reagirem com força extrema.  Tudo isso Ondjaki faz com um tom leve e o diálogo coloquial bastante claro de um menino entrando na adolescência.

Este livro é de leitura rápida.  É pequeno, com apenas 146 páginas.  Mas é um charme.  Eu queria mais.  Gostaria de continuar sabendo do resto das histórias dessa família.  Esse livro tem todas as características de um livro que se tornará um clássico da literatura para jovens leitores, em qualquer lugar do mundo.

O escritor Ondjaki

 

Para nós brasileiros, há a descoberta também de uma língua deliciosamente rica.  O português de Angola nos presenteia com vocábulos diferentes e com uma musicalidade ímpar, que canta aos ouvidos dos leitores.  Há um glossário no final do livro, mas não precisei consultá-lo durante a leitura.  Preferi deixar que as palavras que eu não conhecia estabelecessem seu significado por conta própria. 

Recomendo a leitura desse livro.  É uma leitura agradável e nos premia com muita informação sobre Angola.  Vá, corra para ler, não se arrependerá.

24/03/2008

Esta resenha já apareceu em inglês na Amazon e no Living in the postcard.





A África de Richard Dowden.

18 09 2008

No início de Setembro chegou às livrarias da Inglaterra e dos Estados Unidos o livro África de Richard Dowden.  Para quem vem acompanhando as aventuras que parecem quase sempre incompreensíveis das diversas democracias, guerras e extermínios no continente africano, este livro é esperado com grande ansiedade.  Isto porque Richard Dowden passou 30 anos viajando e morando no continente.  Começou como professor em Uganda, na época de Idi Amim até tornar-se diretor da Royal Africa Society em 2003.

 

 

O livro África pretende responder àquelas questões que não querem calar, entre outras:  Por que o desenvolvimento dos países africanos parece tão vagaroso?  Será o sistema democrático como o imaginamos nos países ocidentais o melhor sistema para as diversas sociedades africanas?

 

Este livro, que ainda não sei se terá tradução para o português vem com um prefácio de Chinua Achebe, o grande escritor nigeriano, que recebeu o prêmio Man Booker da Grã-Bretanha em 2007 e cujas traduções de seus livros para o português deve-se a Portugal, por vergonhosa falta de interesse tanto de editoras como de leitores no Brasil.  Em Portugal encontramos: A Flecha de Deus e Tudo se desmorona.   Em sua apresentação Chinua Achebe,  que além de escritor e poeta foi diplomata do seu país, esclarece que: não haveria melhor pessoa para interpretar a complexidade das sociedades africanas do que Richard Dowden.

 

Richard Dowden

Autor: Richard Dowden

Vamos esperar e ver se seu livro chegará a ser traduzido no Brasil.  Com freqüência nós brasileiros reclamamos que em outros países,  muitas vezes melhor educados e em melhor situação econômica que a nossa, que as pessoas nestes locais não se interessam pelas coisas brasileiras, que não sabem que Buenos Aires não é a nossa capital ou que Evo Morales não é o nosso presidente [O jornal The Boston Globe, no início deste mês cometeu este erro].  Mas a verdade é que sofremos do mesmo complexo de superioridade sobre o continente africano.  Pergunte-se:  você sabe o que está acontecendo naquele continente que representa o espaço de muitos dos nossos ancestrais?  Provavelmente a sua resposta será não.   Temos que deixar de sofrer desta mania de “pobrezinhos” em relação aos grandes e ignorar aqueles que ainda não chegaram ao nosso nível de desenvolvimento.  Uma das maneiras de se fazer isso é aprendendo sobre a África e tenho certeza de que ler o livro de Richard Dowden será um excelente começo!





Cai o número de pássaros marinhos migratórios

18 09 2008
Escher, anel de moebius com pássaros

Escher, anel de moebius com pássaros

 

No 4° Encontro da AEWA Wetlands International for the African-Eurasian Migratory Waterbird Agreement [ Acordo sobre os Pássaros Migratórios de Pântanos da África-Eurásia] que acontece esta semana (15-19 setembro) em Madagascar houve uma queda de 41% no número na população destes pássaros.  Para os pássaros usando as rotas que passam pela Ásia Central e Ocidental a situação é ainda de maior perigo, com um declínio na população dos pássaros de 55%.   O anúncio para a imprensa destes dados foi acompanhado da explicação de que isto está acontecendo principalmente pela destruição do meio ambiente nestes locais de pouso/ parada dos pássaros migratórios, pela falta de planejamento econômico e na execução da exploração destas terras na Eurásia e na África.  Lugares tradicionalmente retidos como parada/pouso destes pássaros para a jornada de inverno estão desaparecendo pela ação do homem.  

80 países tem representantes neste encontro na cidade de Antananarivo, mas mesmo assim, é essencial que haja cooperação internacional para que programas de conservação das rotas sejam mantidos e ampliados.  Pássaros que precisam de longos vôos, indo de um lado da Terra para o outro, com rotas estabelecidas através de séculos são os que mais sofrem com as mudanças climáticas, com o aquecimento da Terra e com a destruição dos lagos e pântanos onde estão acostumados a parar para recomeçar vôo depois do descanso. Um apelo a que se preste atenção a este problema e que se fomente maior cooperação internacional é até agora o resultado deste encontro.

 

Para mais informações, clique aqui.





Boas novas do reino animal!

16 09 2008

 

OKAPI
OKAPI

No dia 11 de setembro, a CNN (Inglaterra) anunciou que foram tiradas novas fotos do Okapi, um animal africano, que de acordo com o noticiário há 50 anos não era fotografado livre, no seu próprio habitat.  Estas fotos foram obtidas no  Parque Nacional de Virunga National, no Congo.  A confirmação das fotos foi feita por Noelle Kumpel, gerente do Programa de Conservação das Florestas e Animais da Sociedade Zoológica de Londres.  

 

Na minha opinião ele é o “platipus” do mundo de 4 pernas: tem traseiro de zebra, mas não é zebra, tem cara de lhama, mas não é.  É da família das girafas, mas o pescoço é mais normal…  Na verdade eles parecem um cavalo, listrado nas ancas, com pescoço comprido e língua roxa.

 

Por não ter sido fotografado no meio selvagem há muito tempo pensou-se que já havia desaparecido como animal selvagem.  É um animal raramente visto.  Ele  não gosta de se exibir preferindo a solidão.  É tímido.  Esta é uma das razoes pelas quais a maioria dos dados vem exclusivamente do estudo de seus dejetos.  Hoje em dia só existe na República Democrática do Congo.

 

É sempre bom ter-se um pouquinho de boas novas!





Pensando sobre imigração e emigração *

25 07 2008

 

 

Neste ano em que comemoramos o centenário da chegada dos imigrantes japoneses no Brasil é interessante ver o que está acontecendo no Japão de hoje, em termos de crescimento populacional.  Para que isto não pareça só um caso do Japão vou primeiro mencionar cinco tendências demográficas mundiais, que não podemos deixar de reconhecer.  Elas certamente afetarão as nossas vidas, mesmo aqui no Brasil, nem que indiretamente.  Vale lembrar: estima-se que atualmente a população do nosso planeta esteja por volta de 6.200.000.000 (seis bilhões e duzentos milhões).

Monobloco em Copacabana, 2007.

Monobloco em Copacabana, 2007.

 

 

 

 

Cinco tendências demográficas mundiais.

 

A migração de povos de um continente para o outro só deve aumentar nos próximos 50 anos.   Há 5 tendências demográficas mundiais que colocarão em cheque todas as medidas contra e a favor da migração de certos povos para longe de suas terras natais, assim como, colocarão maior pressão numa educação de qualidade para qualquer família, estado ou país  que queira que seus cidadãos tenham a chance, a possibilidade de melhorarem relativamente de status social.  As pressões se farão sentir também no meio ambiente, na medicina mundial, na produção de alimentos. 

 

Vejamos estas tendências:

 

1 – Europa e Ásia envelhecem: Itália, Espanha e Japão, por exemplo, têm taxas de natalidade baixas.  Itália e Espanha: 1,3 crianças por mulher;  o Japão, 1,2 .   Isto é muito abaixo dos 2,1 filhos por mulher considerados necessários para a manutenção de qualquer população, sem crescimento.  Em 2050, ou seja, em 40 anos, a população destes países acima dos 60 anos representará 39% na Itália e na Espanha e 44 % no Japão.    Estas mudanças são muito sérias e afetarão tanto o sistema de saúde como o de aposentadoria nestes países.

 

2 – A África continua com crescimento populacional sem limites.  Mulheres que vivem em países pobres e mulheres que não receberam muita educação têm a tendência de ter maior número de filhos.   De acordo com projeções das Nações Unidas, a Etiópia por exemplo, crescerá muito até 2030 e a Uganda terá mais habitantes em 2040 do que toda a população da Alemanhade hoje.  A fome deve aparecer ainda mais violenta nestes países e no continente africano em geral.  O crescimento populacional desordenado está concentrado principalmente na Nigéria, Congo e Eritréia.  Além destes países, Burkina-Faso, Angola, Uganda, Somália, Libéria terão suas populações triplicadas até meados deste século, ou seja nos próximos 40 anos.  

 

3 – A AIDS acabará com 9% da população em idade de trabalho na região do Sub-Saara.  São 23 países africanos que devem perder entre 9 e 10% de suas populações em idade produtiva.  Infelizmente esta tragédia, é o único freio populacional efetivo nas populações africanas. [ World Population Prospects – The 2002 Revision, 2/ 2003]

 

4 – Faltam mulheres na Ásia.  Por uma preferência cultural por filhos homens, a China e a Índia, sofrerão ainda mais do que sofrem hoje com um desequilíbrio populacional extremamente preocupante: China: 18 homens para cada mulher.  Índia: 12 homens para cada mulher.   Em 2020, ou seja, daqui a 12 anos, haverá 30 milhões de homens em idade produtiva sem poderem se casar.  Na Ásia, os países cujas populações mais crescem são:  Índia, Paquistão, China, Indonésia.

 

5 – O sul emigra para o norte.  As populações mais pobres do norte e do sul da África migrarão para os países mais ricos, ao norte do Equador:  Estados Unidos e países da Europa serão seus alvos.   Note-se que a população hispânica nos EUA, se continuar a crescer nos níveis em que cresce hoje, deve representar 24% da população em 2050.

 

As conseqüências óbvias destes problemas são: maior pobreza – nível de vida baixando nestes países de grande crescimento populacional, maior índice de analfabetismo.  Faltará alimentos e faltará água.  Não haverá como manter um nível mínimo de saúde publica sem intervenção de fora.  Problemas ambientais, já em níveis perigosos só aumentarão. 

 

Veneza, Itália.  Praça deserta.  Foto Marilynn.

Veneza, Itália. Praça deserta. Foto Marilynn.

 

O curioso caso do Japão mostra o que os países com decréscimo populacional enfrentarão.   O declínio demográfico do Japão já estava previsto há tempos.   A curiosidade é que ele já é o país com a maior população acima de 65 anos: 20%.   Simultaneamente, tem a menor população jovem do mundo, só 14% de japoneses estão com idade abaixo de 15 anos.  Seu índice de reprodução é um dos mais baixos do  mundo: 1,3 por mulher em idade fértil.  Hoje com 127.700.000 de habitantes, espera-se que tenha 121.100.100 em 2025, ou seja uma diminuição de 8.000.000 em 17 anos.   Desde 2005 que o Japão tem mais mortes do que nascimentos.

 

O ministério da Saúde do Japão desde 2005 não deixa de alertar aos japoneses as drásticas conseqüências econômicas para o país destes números:  o crescimento econômico ficará parado; o peso das aposentadorias apoiado na população ativa causará uma baixa nos salários para poder financiar as aposentadorias.  

 

As causas destes números de esvaziamento populacional são muitas, mas entre elas estão as mulheres se casando cada vez mais tarde, as mulheres se recusando ao antigo modelo familiar de permanecer em casa sem o privilégio de uma carreira e o custo de uma família numerosa ser muito elevado alem de precários meios de apoio à guarda das crianças quando as mães trabalham fora de casa.  Outra curiosa conseqüência do esvaziamento populacional é o aumento de emprego para pessoas acima de 60 anos.  Há empresas como, por exemplo, a Mystar 60, que não emprega ninguém com menos de 60 anos de idade.

 

Há dois caminhos para o Japão e outros países com a Itália e a Espanha que provavelmente serão usados simultaneamente:  1) criarem uma melhor condição de apoio às mulheres que trabalham fora, para assim poderem aumentar de novo a população nativa. Esta é uma solução  2) abrir as portas para a imigração: esta solução seria a maneira mais rápida de contornar os problemas imediatos.  Esta solução, no entanto, nem sempre é bem-vinda.  Não necessariamente por preconceito.  Mas porque para que a Europa possa manter o nível de crescimento populacional em simples reposição, ou seja, 2,1 filhos por mulher, seria necessário que sua população fosse aumentada de pelo menos 500.000.000 de pessoas.  Ou seja, os nativos, os espanhóis, italianos, irlandeses e outros seriam minorias em seus próprios rincões.

 

Financial Times

Milhões de chineses parados na volta das férias. Foto: Financial Times

 

Será que ainda mais brasileiros estarão migrando para o Japão?  A emigração brasileira continuará e provavelmente aumentará.  Principalmente se não educarmos melhor os nossos cidadãos, se não providenciarmos meios de boa sustentabilidade de empregos.  Infelizmente, o que espera a maioria dos brasileiros lá fora, não só hoje, mas no futuro, são de fato os pequenos trabalhos, os trabalhos manuais, serviçais, de baixo conhecimento, de baixo nível intelectual.  Estaremos exportando, como muitos países da África e do Oriente mão de obra não qualificada.  Esta realidade não é muito atraente, ainda mais quando levamos em consideração que para mão de obra não qualificada, competimos com orientais, africanos e outros latino-americanos que trabalham e trabalharão felizes por muito menos dinheiro que nós.   Este é um problema sério a ser enfrentado hoje.  Não amanhã, ou no futuro.  Suas conseqüências são muito mais imediatas do que imaginamos.

 

* os dados mencionados aqui vieram das ONU, da pesquisa feita pela revista americana, Foreign Policy, em setembro de 2007 e  pelo IBGE.   Todos dados de livre acesso online.





Brasil e África no horizonte de Hilton Marques

26 06 2008

Comprei este livro sem saber coisa alguma a respeito do autor. Não sei o que me interessou, o que me fez pegá-lo e ler a capa de trás para ter uma idéia do que se tratava.  Curiosa, comprei este pequeno volume e tomei a decisão certa,  porque agora posso me gabar de ter descoberto um novo escritor brasileiro, capaz de escrever uma boa história, em boa prosa, num ritmo rápido,  sobre um local misterioso e um novo tipo de heroína.

 

A senhora das savanas se passa no continente africano, num país imaginário fronteiriço à Angola e ao Zaire.  Seguimos a carreira de uma médica brasileira, que depois de se formar pela Universidade de São Paulo, entra para a organização mundial Médicos sem Fronteiras e vai trabalhar na África.  Passado algum tempo, ela decide ficar na África.  Quando a história do livro começa ela está dirigindo um pequeno hospital,  financiado por uma companhia de extração de minério, no que se poderia chamar de interior, de fim do mundo.

 

A história se desenvolve durante a guerra civil em Angola, depois de sua independência de Portugal.  Dois grupos lutam pelo poder: UNITA e MPLA.  Há mercenários estrangeiros em todo canto e eles lutam por cada lado.  Entre eles está um irlandês que havia passado muitos anos lutando pelo movimento IRA, que havia se desgostado e abandonado o movimento separatista irlandês, e como lutar era o que sabia fazer, acabou lutando na África.   Enquanto lutava pela UNITA e comandava um pelotão, sofreu um ataque surpresa fora do território de Angola, apesar de ser um excelente atirador e líder militar.  Eles haviam parado  para um descanso e todos os membros do pelotão tombaram.  Ele também havia sido dado por morto.  Mas foi descoberto, por casualidade, próximo da morte.  Nossa médica brasileira o salva sem saber quem ele é.

 

Ele permanece no hospital para sua recuperação e fica por lá por algum tempo. No processo une-se à nossa médica numa luta contra os novos donos da companhia mineradora, que pretendiam fechar o hospital.

 

Este é o tipo de romance que existe às centenas em outras culturas.  A Inglaterra, os Estados Unidos, a França são só três dos países que tem esta tradição rara no Brasil: um herói, neste caso uma heroína, viaja, vai embora, e faz uma diferença tremenda na vida local de um lugar longe de sua terra nativa.  Ela também é capaz de contribuir para o melhoramento de relações internacionais.

 

Este livro poderia servir de base para um roteiro de A Senhora das Savanas, Hilton Marquesfilme americano.  Melhor ainda, poderia se transformar numa mini-série da BBC, se a nossa heroína fosse inglesa.  A grande diferença é que este é um livro brasileiro.  Este é um detalhe de grande importância para mim.  Ela é mulher, brasileira e responsável por salvar muitas vidas.  Como eu gostaria de ter tido algumas dezenas de livros como este para ler quando estava me tornando adulta!   Na minha época, na minha geração, só heroínas de outras terras tinham suas vidas contadas ou filmadas.  Nós brasileiros sempre conhecemos melhor os heróis de outros lugares.  Havia muito poucos heróis, homens ou mulheres, que pudessem inspirar qualquer um de nós, adolescentes.

 

Este livro, então, tem tudo para que eu goste dele.  É um livro de aventura.  É um ótimo entretenimento, com uma narrativa forte,  num ritmo rápido.  É gostoso de ler.  É leve.   Não está preocupado em considerar as últimas novidades literárias, as últimas tendências pós-modernas, de-construtivistas, ou a última moda intelectual.  Este é um livro para a família toda ler, pessoas de todas as gerações.  Seria uma ótima fonte para um roteiro de filme.  Ele nos deixa com uma boa visão do que a vida na África naquele período poderia ser e como os grupos lutando pelo poder se envolvem na vida diária da população.  Abre os olhos.  Expande horizontes.  Ajuda a nos definir como as pessoas competentes, profissionais que somos. 

 

Gostei muito e recomendo.  Se você estiver procurando por aquele entretenimento, por aquele livro para levar num fim de semana na serra ou na praia, leve-o.  Você vai gostar!