A cadeia infinita das gerações, texto de Rosa Montero

8 09 2011

Nota: no texto abaixo, Cérebro é o cognome de um dos personagens do romance, uma cientista que está na terceira idade.

 

“Cérebro nunca desejou ter filhos, nunca se sentiu impelida a ser mãe.  E não acreditava que ser mulher consistia em parir.  Mas sua formação científica também a tornava consciente do fracasso biológico de seus genes.  Todos os seres humanos, homens e mulheres,  são o produto de um longuíssimo, múltiplo e clamoroso êxito.  Do triunfo de cada um dos seus antepassados. Seus pais, seus avós, seus tataravós, toda essa linhagem genitora que ascende até se perder no passado mais remoto, é composta por indivíduos que conseguiram nascer, não morrer quando crianças, amadurecer, acasalar com um parceiro adequado e fértil, ter ao menos uma cria e mantê-la viva por tempo suficiente para que o processo continuasse.  Sim, Cérebro era a consequência de um sucesso coletivo monumental, mas agora esse testemunho genético se perderia.  Seu pequeno e trivial fracasso biológico colocava o ponto final numa linhagem de sobrevivência milenar.”

 

Em: Instruções para salvar o mundo, Rosa Montero, Rio de Janeiro, Nova Fronteira: 2011, p.222





Quadrinha para crianças sobre a lua

8 09 2011

 

Cartão postal, década 1930, Havaí.

Docemente equilibrada,

ia a lua pelos ares,

qual linda concha embalada

pela corrente dos mares.

(Gonçalves Dias)





Imagem de leitura — William Strang

7 09 2011

Feriado bancário, 1912

William Strang ( Escócia, 1859-1921)

óleo sobre tela,  152 x 112 cm

Tate Gallery, Londres

William Strang nasceu em Dumbarton, na Escócia em 1859.  Estudou na Academia de Dumbarton  e trabalhou por pouco mais de um ano como contador, antes de mudar-se para Londres, em 1875 quando tinha 16 anos.  Lá estudou arte por seis anos com Alphonse Legros. Trabalhou como gravurista, ilustrador e pintor.   Especializou-se em retratos, pintura de gênero e paisagens.  Expoente da pintura Eduardiana. Morreu em Londres em 1921.





Que é o Brasil? texto de Viriato Corrêa, do livro infantil Cazuza (1938)

7 09 2011

Que é o Brasil?

Viriato Corrêa

“De pé, junto à mesa, olhos fixos no Floriano, o professor João Câncio prosseguiu:

— Pergunta você que é o Brasil?  É tudo que temos feito em prol do progresso, da moral, da cultura, da liberdade e da fraternidade.  O Brasil não é o solo, o mar, o céu que tanto cantamos.  É a história, de que não fazemos caso nenhum.

O Brasil é obra de seus construtores, ou melhor, daqueles que o tiraram do nada selvagem e o fizeram terra civilizada.

E o trabalho dos jesuítas, de Nóbrega e de Anchieta, em plena floresta, transformando antropófagos em seres humanos.

O Brasil é a coragem dos defensores de seu solo.  É Estácio de Sá, é Mem de Sá, é Araribóia, repelindo os franceses do Rio de Janeiro, é Jerônimo de Albuquerque expelindo os franceses do Maranhão.  São os patriotas de Pernambuco, arrasando o domínio holandês do Norte.  São os cariocas lutando com Duclerc e Duguay-Trouin.

O Brasil é a obra dos bandeirantes:  Antônio Raposo, Fernão Dias Pais, Borba Gato, Bartolomeu Bueno, desbravando sertões à procura de ouro e de pedras preciosas.

O Brasil é o esforço da sua gente para tirar da terra os bens que a terra dá a quem trabalha.  É a cana-de-açúcar que, já no século do descobrimento, era uma das maiores riquezas do país.  É o esplendor das minas de ouro do século XVIII, que deixaram o mundo embasbacado.

É o café que engrandeceu São Paulo, Rio de Janeiro, Minas, Espírito Santo e que atualmente é a nossa maior riqueza.  É o algodão, a riqueza do Nordeste; o cacau, a riqueza da Bahia, e a borracha, a riqueza da Amazônia.

O Brasil é a sua indústria pastoril.  É a atividade dos paulistas  e dos baianos, espalhando boiadas pelo território nacional desde os primeiros dias da nossa história.

O Brasil é o trabalho obscuro dos negros nos campos de criação e lavoura, nas minas, nos trapiches e nas fábricas.

Pátria brasileira, meu meninos, continuou ardentemente, é tudo que se fez para que tivéssemos liberdade.  É a Inconfidência Mineira, com Tiradentes morrendo na forca.  É o martírio de Domingos José Martins e do Padre Roma, na revolução de 1817.  É o trabalho de José Bonifácio e de Joaquim Ledo, na Independência.  É o sacrifício de Frei Caneca e do padre Mororó, na Confederação do Equador.  É o verbo de Patrocínio e Nabuco, na Abolição.  É Silva Jardim, Benjamim Constant e Deodoro, realizando a República.

Pátria brasileira é a obra dos patriotas da Regência.  É a energia do padre Feijó, sufocando a desordem; é a espada de Caxias, impedindo que o país se desunisse.

O Brasil é a glória de seus grandes filhos.  É o gênio de Bartolomeu de Gusmão produzindo a Passarola. 

Em vez de exaltarmos os céus azuis, as montanhas verdes, os rios imensos, exaltemos os homens que realizaram as obras em favor da nossa indústria e do nosso comércio.  Exaltemos Mauá e Mariano Procópio, que construíram as nossas primeiras estradas de ferro; Barbacena, que fez navegar, nos nossos rios, o primeiro barco a vapor.

O Brasil são os seus grandes vultos nas ciências, nas letras e nas artes.  É Teixeira de Freitas.  É Rui Barbosa.  É Varnhagem.  É a veia poética de Gonçalves Dias e de Castro Alves.  O pincel de Pedro Américo e de Vítor Meireles.  A inspiração musical de Carlos Gomes.

Num país, a beleza da paisagem, o fulgor do céu, a extensão dos rios, as próprias minas de ouro, são quase nada ao lado da inteligência, da energia, do trabalho, das virtudes morais de seus filhos.

E, com a voz inflamada pelo entusiasmo, concluiu.

— É essa energia, esse trabalho, essa inteligência, essas virtudes morais, que a nossa bandeira representa“.

Em: Cazuza, de Viriato Corrêa, São Paulo, Cia Editora Nacional: 1966, 14ª edição. Originalmente publicado em 1938.

Exercício para a sala de aula:

Esse texto do escritor  Viriato Corrêa foi publicado em 1938.   Por isso ele não lista outros grandes brasileiros que vieram depois dos anos 30 do século XX e  que contribuíram para que o Brasil se tornasse o grande país que é.  Liste outros grandes brasileiros que não estão nessa lista acima.

 Feliz Dia da Independência do Brasil!

Manuel Viriato Correia Baima do Lago Filho (Pirapemas, MA 1884 — Rio de Janeiro, RJ 1967) – Pseudônimos: Viriato Correia, Pequeno Polegar, Tibúrcio da Anunciação. Diplomado em direito, jornalista, contista, romancista, teatrólogo, autor de literatura infantil e crônicas históricas, professor de teatro, membro da ABL e político brasileiro.

Obras:

Minaretes, contos, 1903

Era uma vez…, infanto-juvenil, 1908

Contos do sertão, contos, 1912

Sertaneja, teatro, 1915

Manjerona, teatro, 1916

Morena, teatro, 1917

Sol do sertão, teatro, 1918

Juriti, teatro, 1919

O Mistério, teatro, 1920

Sapequinha, teatro, 1920

Novelas doidas, contos, 1921

Contos da história do Brasil, infanto-juvenil, 1921

Terra de Santa Cruz, crônica histórica, 1921

Histórias da nossa história,crônica histórica, 1921

Nossa gente, teatro, 1924

Zuzú, teatro, 1924

Uma noite de baile, infanto-juvenil,1926

Balaiada, romance, 1927

Brasil dos meus avós, crônica histórica, 1927

Baú velho, crônica histórica, 1927

Pequetita, teatro, 1927

Histórias ásperas, contos, 1928

Varinha de condão, infanto-juvenil, 1928

A Arca de Noé, infanto-juvenil, 1930

A descoberta do Brasil, infanto-juvenil,1930

A macacada, infanto-juvenil, 1931

Bombonzinho, teatro, 1931

Os meus bichinhos, infanto-juvenil, 1931

No reino da bicharada, infanto-juvenil, 1931

Quando Jesus nasceu, infanto-juvenil, 1931

Gaveta de sapateiro, crônica histórica, 1932

Sansão, teatro, 1932

Maria, teatro, 1933

Alcovas da história, crônica histórica, 1934

História do Brasil para crianças, infanto-juvenil, 1934

Mata galego, crônica histórica, 1934

Meu torrão, infanto-juvenil,1935

Bicho papão, teatro, 1936

Casa de Belchior, crônica histórica, 1936

O homem da cabeça de ouro, teatro, 1936

Bichos e bichinhos, infanto-juvenil, 1938

Carneiro de batalhão, teatro, 1938

Cazuza, infanto-juvenil, 1938

A Marquesa de Santos, teatro, 1938

No país da bicharada, infanto-juvenil, 1938

História de Caramuru, infanto-juvenil, 1939

O país do pau de tinta, crônica histórica, 1939

O caçador de esmeraldas, teatro, 1940

Rei de papelão, teatro, 1941

Pobre diabo, teatro, 1942

O príncipe encantador, teatro, 1943

O gato comeu, teatro, 1943

À sombra dos laranjais, teatro, 1944

A bandeira das esmeraldas, infanto-juvenil, 1945

Estão cantando as cigarras, teatro, 1945

Venha a nós, teatro, 1946

As belas histórias da História do Brasil, infanto-juvenil, 1948

Dinheiro é dinheiro, teatro, 1949

Curiosidades da história do Brasil, crônica histórica, 1955

O grande amor de Gonçalves Dias, teatro, 1959.

História da liberdade do Brasil, crônica histórica, 1962





Viva o dia da Independência! Viva o 7 de setembro!

7 09 2011

Esta é a 1ª bandeira do Brasil, depois da nossa independência!

Um bom feriado a todos!





Imagem de leitura — Anita Fraga

6 09 2011

Menina com revista, s/d

Anita Fraga ( Brasil)

óleo sobre eucatex, 46 x 37 cm





A alquimia do amor, em As Avós de Doris Lessing

6 09 2011

Mad dogs… [ Loucos…] 

Jack Vettriano (Escócia, 1951)

óleo sobre tela

www.jackvettriano.com

Fiquei surpresa com a persistência das imagens dançando na minha imaginação dias após a leitura de As Avós de Doris Lessing [Cia das Letras: 2007].  Por um tempo não sabia exatamente o que dizer sobre o livro além de recomendá-lo enfaticamente.  Tudo tem seu tempo.  Às vezes as idéias precisam amadurecer.  De repente, ZÁZ!, veio o ponto de encaixe: uma conversa sem agenda, com uma amiga.  Entre um cafezinho e outro ela disse que lia para ser apresentada a mundos e pessoas que jamais conheceria na vida real.  Sentia-se assim enriquecida pela leitura.  A meta era expandir seu conhecimento sobre outros seres humanos. Nada de extraordinário, mas foi a chave, para a introdução a esta resenha.  Sim, isso me aconteceu com a leitura de As avós: uma ligeira mutação da norma comportamental e fiquei intrigada o suficiente para não deixar o tema de lado.

A sinopse do romance, que na verdade não é nada mais do que um conto alongado, ou uma novela, é simples, e reproduzo-a aqui como aparece nos sites de venda para facilitar a resenha.  “Roz e Lil são amigas inseparáveis desde a infância. Cresceram, casaram, tiveram filhos, e vivem na paradisíaca bacia de Baxter, um lugar cercado de rochas por todos os lados. O ambiente protegido, “bocejante”, além do qual o “verdadeiro oceano rugia e roncava”, é o cenário ideal para uma relação cada vez mais simbiótica. Morando em casas vizinhas, elas criam os filhos por conta própria – e eles se tornam adolescentes encantadores.Tão encantadores e próximos, que Roz e Lil não tardam a se envolver uma com o filho da outra. Num efeito ambíguo e desconcertante, típico da grande literatura, o que poderia parecer repulsivo é tratado com naturalidade e bom-humor, fazendo a quebra de tabus soar como regra, e não como dramática exceção. Temas como a amizade, maternidade e sexualidade ganham novos contornos enquanto Doris Lessing esmiúça as complexidades e armadilhas da forte ligação entre essas duas mulheres, e retrata a força com que elas confrontam as convenções familiares e sociais de sua época.”

O romance gera perguntas cujas respostas são difíceis de encontrar.  Estamos diante de diversos tipos de amor.  Há o amor narcisista:  Roz e Lil — que até se parecem fisicamente, ainda que, quando adultas, tenham personalidades e profissões diversas — vêem a si mesmas na outra, desde pequenas, desde os bancos da primeira escola.  E nos questionamos:  estaremos sempre à procura de nós mesmos nos nossos pares?  São os pontos em comum que temos com eles o que nos une?  É o narcisismo a força vital do amor fraternal?  Você gosta de seus amigos pelo que eles refletem de você neles?   E na paixão o mesmo acontece?

As vidas de Roz e Lil são de um paralelismo impressionante, mas não raro entre amigos.  Observo à minha volta: amigos se casaram em datas próximas, tiveram filhos mais ou menos ao mesmo tempo, permaneceram, quando puderam, nos mesmos bairros, trocaram de casa à mesma época e assim por diante.  O paralelismo no romance, no entanto, é tão perfeito que de fato as vidas retratadas parecem mais especiais, porque são como imagens refletidas num espelho.  

No mundo das artes e das antiguidades, há uma diferença considerável de valor no par de objetos considerados  “ par verdadeiro”.  Paga-se mais, muito mais, quando, por exemplo, num par de vasos – cada vaso aparece com a decoração invertida (da direita para a esquerda e/ou vice-versa), como se girassem num eixo vertical imaginário.  Esses são chamados “pares verdadeiros” , ao contrário de um par simplesmente  composto por dois vasos exatamente iguais.  Aqui também.  O par, formado por Roz e Lil parece muito mais interessante porque elas são diferentes, têm gostos diferentes, maridos diferentes, e até seus filhos têm um comportamento diferente.  E no entanto, são iguais, são simbióticas, elas se completam a tal ponto de não considerarem morar longe uma da outra.

Através do romance o tema da homossexualidade permanece palpável, endereçado aqui e ali, sem compromisso, mas latente.  Tão forte é a simbiose entre as amigas que um dos maridos se divorcia porque se sente em segundo plano.  Mas elas escapam dessa identificação, relacionando-se, ao contrário, com seus respectivos filhos.   E de novo, temos o espelho.  Narciso mete sua cara…  Saturno comendo seus próprios filhos também…  Mas não há nada de imoral nesse relacionamento, nada saturnal, no sentido de orgia.  Longe disso, a implicação de imoralidade está com o leitor apenas, deparando-se com um comportamento fora dos padrões.  Amoral?  Não há incesto.  Não são seus filhos…  E voltamos à questão do amor, de Narciso: será que elas gostam de ver nos rapazes aquilo de que gostam nas amigas?   

Doris Lessing

O mundo se fecha para eles, ou melhor, eles se fecham para o mundo, como se o amor fosse hermafrodita, auto-devorador, auto-consumido.  Vivem numa realidade hermética, como num processo alquímico.  Respiram, ganham novas vidas, vicejam no ambiente fechado que criaram, cegos para o mundo exterior.  Os quatro se bastam, se saciam, se fartam.   Por quanto tempo?   Anos.  Muitos anos.  Mas a natureza é entrópica e os rapazes, quase ao mesmo tempo, se casam…  Não se casam com qualquer jovem.  Eles, que são melhores amigos, se casam com duas melhores amigas.  E o processo parece poder continuar.  Parece cheio de possibilidades infinitas…   Espelhos refletindo espelhos. 

Não há como não se tentar definir o amor depois da leitura de As avós.  As experiências extremas retratadas na novela nos são familiares e por isso mesmo têm tanto efeito no leitor.  Quem já teve um amigo de infância chegado, aquele ou aquela com quem dividia todos os segredos, pode ter beirado uma situação semelhante à descrita no texto.  Quem já se apaixonou, reconhece, no círculo fechado dos amantes alheios ao mundo exterior, a sensação de saciedade que acompanha a paixão consumida.  Talvez seja por causa da familiaridade dessas emoções que essas 104 páginas de prosa consigam permanecer vivas por tanto tempo…  Consigam parecer tão relevantes.  Tenham tanto impacto.





José Bonifácio de Andrada e Silva, texto de Gilberto Freyre

6 09 2011

José Bonifácio de Andrada e Silva

Oscar Pereira da Silva ( Brasil, 1867-1939)

Museu do Ipiranga, São Paulo

Ainda a propósito de José Bonifácio

Gilberto Freyre

O Serviço que José Bonifácio prestou ao Brasil, dando à independência da Colônia de Portugal um sentido de todo diferente das independências das colônias da Espanha, foi imenso.  Sua grandeza cresce com o tempo.

Haveria, o Brasil, tal como existe hoje, tão plural e tão uno, se no momento justo não tivesse agido, máscula e decisivamente, sutil, e quase femininamente, juntando a arte dos grandes políticos à firmeza de ânimo dos grandes homens, contra os radicais de sua época, contra os desvairados “nacionalistas” do seu tempo, contra os furiosos antieuropeus dos seus dias, esse brasileiro tão da sua Província, tão do seu burgo sem que tais apegos o impedissem de considerar o futuro nacional, considerando, em seu vasto conjunto, a nova pátria, por ele organizada?

Para assegurar-se a unidade desse conjunto, impunha-se a solução monárquica;  e o sagaz Andrada, mais desdenhoso do que ninguém, de títulos e de comendas, foi a solução porque se bateu.  Soube fugir à tentação das popularidades fáceis, entre os radicais mais ruidosos, que o cercavam: radicais então simplistamente republicanos, sem se aperceberem que o seu simplismo ideológico de imitadores dos vizinhos da já fragmentada América Espanhola, era para o perigo que nos conduzia: o da fragmentação.  O da desunião: brasileiros contra brasileiros.  O do separatismo: em vez de um Brasil só, vários Brasis Estados.  Uma América Portuguesa ainda mais dividida que a Espanhola em repúblicas inimigas umas das outras.

Houvesse educação cívica no Brasil de hoje, e o culto a José Bonifácio seria o maior culto nacional.  Pois deveria haver no Brasil um dia de J. Bonifácio tão civicamente significativo como o dia da Independência ou o dia da Bandeira.  Ou antes: o dia da Comemoração da  Independência deveria ser principalmente no Brasil o dia de José Bonifácio.

Não se compreende que a sua vida não esteja dramatizada num filme que ao valor artístico juntasse o cívico e através do qual crianças, adolescentes, adultos se inteirassem do que houve de mais expressivo nessa vida de autêntico grande homem, tão a serviço do Brasil.  Não se compreende que suas idéias, suas iniciativas, seus projetos inspirados num lúcido amor pela pátria que organizou sem repudiar Portugal, nem aguçar-se em detrator dos portugueses não sejam temas mais freqüentes para composições escolares, teses universitárias, ensaios que as universidades, as academias, os institutos consagrassem com seus melhores lauréis.  Tão pouco se compreende que o Itamarati deixe de projetar no estrangeiro figura tão completa de estadista, salientando-se, em publicações em várias línguas, ter sido o patriarca da Nação brasileira, como só depois dele o da República Chinesa, o da Tchecoslováquia, o da União Indiana, um homem de ciência, um humanista, um sábio, um “scholar”, embora, em dias difíceis, soldado.  Mas como homem público eminentemente civil.  Como homem público, a negação do caudilho.  Também a negação, do politiqueiro, do demagogo, do adulador, quer de ricos, quer de multidões com sacrifício da “sã política”.  Aquela “sã política” que só se sente comprometida com os grandes interesses gerais; nunca com os simplesmente privados ou de facção.

[Texto publicado originalmente no Jornal do Comércio (Recife) em 17/01/1965].

Em:  Pessoas, coisas e animais, Gilberto Freyre,  coletânea de Edson Nery da Fonseca, São Paulo, MPM Proganda: 1979.





Quadrinha pela Primavera

6 09 2011

Primavera, Ilustração da capa da revista Farm Journal, de maio de 1929.

Que festa pelo caminho!

Que som, que luz, que esplandor!

Gorgeios em cada ninho,

abelhas em cada flor!

(Paulo Setúbal)





Imagem de leitura — Wojciech Weiss

5 09 2011

Renia Czytająca, 1908

Wojciech Weiss (Polonia,  1875 -1950)

óleo sobre tela

Wojciech Weiss nasceu na Polonia em 1875.  Estudou na Escola de Belas Artes de Cracau sob a orientação de J. Matejko, W. Łuszczkiewicz  e  J. Unierzyski.  Mais tarde estudou com  L.Wyczółkowski e J. Fałat.  Depois de graduado fez uma viagem a Paris e a Roma, voltando depois para Cracau onde ensinou na Academia de Belas Artes, sendo diretor dess instituição por duas vezes.   No início de sua carreira pintou dentro da escola simbolista.  Mais tarde, dedicou-se aos retratos e à pintura de gênero assim como às paisagens.  Dedicou-se também à escultura e às artes gráficas.  Morreu em Cracau em 1950.