Contraste, poesia de Aristeu Bulhões pelo dia da árvore

12 09 2011

Pé de romã, 1990

Amadeu Luciano Lorenzatto (Brasil, 1900-1995)

óleo sobre eucatex, 60 x 40 cm

Contraste

                                               Aristeu Bulhões

No chão do meu quintal, que rústico era,

Eu, que de sonhos enfeitava a vida,

Numa linda manhã de primavera,

Plantei ramos de uma árvore caída…

E, cheio de ilusão e de quimera,

Abandonei a terra estremecida

Como o viajante que atingir espera

A rósea meta, a que o Ideal convida…

Anos depois voltei…  Na alma cansada

nem mais um sonho, uma ilusão trazia

Porque tudo eu perdera na jornada.

Mas, cada ramo que plantei a esmo,

Era uma árvore imensa que floria

Para arrimo e conforto de mim mesmo.

Em:  Apologia da árvore, Leonam de Azeredo Penna, Rio de Janeiro, IBDF: 1973





Imagem de leitura — Tatiana Rhinevault

11 09 2011

Menina lendo, s/d

Tatiana Rhinevault ( Rússia, contemporânea)

óleo sobre tela, 50 x 72 cm

www.tatianarhinevault.com

Tatiana Rhinevault nasceu em Moscou  e passou a maior parte de sua infância em Sokolniki Park, vendo artistas pintarem todos os dias.  Vivendo em Moscou foi exposta a muitos museus, ao teatro e a estúdios de arte que abundam na capital russa.  Estudou arte no Instituto de Moscu, onde completou o mestrado.   Trabalhou como restauradora e visitou muitos países europeus familiarizando-se com as artes.  Casou-se com um americano e mudou-se para os Estados Unidos onde vive e continua sua carreira como pintora.  Pinta retratos, paisagens e principalmente dedica-se à pintura de gênero.  www.tatianarhinevault.com





Como o onze de setembro mudou a minha vida…

11 09 2011

Nova York, lembrança dos dez anos do ataque ao World Trade Center.

Nos últimos anos, muitos amigos perguntaram a mim e a meu marido porque resolvemos de fato vir morar no Brasil.  A minha volta — a vinda dele — já estava mais ou menos no ar, um sonho para o futuro, parte de uma vida confortável de dois profissionais bem sucedidos que imaginavam uma aposentaria, anos e anos à frente, numa vida carioca mais ou menos idílica.  Vínhamos ao Brasil todos os anos às vezes por um a dois meses.  Houve anos em que viemos mais do que uma vez.  Meu marido gostou do Brasil desde sua primeira visita.  Gostou do Rio de Janeiro e da minha família.  E a cada visita de volta sempre sonhávamos em nos estabelecer no Rio de Janeiro.  Mas, tínhamos uma vida confortável, calma, cheia de projetos  e o futuro parecia algo meio longínquo.  Nossas vidas familiar, social e profissional estavam nos Estados Unidos, e apesar de sonharmos em vir para o Brasil, íamos ficando, ficando, porque tudo estava bem.  Até  vivermos o 11 de setembro de 2001.

Fomos avisados do que acontecia em Nova York por minha mãe, que nos telefonou daqui do Rio de Janeiro,  pedindo que ligássemos a televisão.  Minha mãe estava sempre conectada aos mais diversos acontecimentos, acompanhava os noticiários com atenção e soube junto com os primeiros jornalistas, pela CNN, do ataque à primeira torre do World Trade Center.  Meu marido e  eu estávamos nos aprontando para ir trabalhar.  Ele,  como diretor dos cursos de pós-graduação/mestrado da universidade onde ensinava e eu como dona de uma galeria de arte-antiguidades.  Não morávamos em Nova York.   Na verdade cabiam e ainda sobravam uma Espanha e um Portugal inteiros entre nossa casa e Manhattan.  Mas o tempo parou para nós.  Foi o único dia, que não abri a galeria sem dar explicações.  Fechamos na verdade por dois dias, até podermos entender o que acontecia.  Meu marido foi à universidade, mas voltou logo e plantados em frente à televisão por horas e horas tentávamos compreender a enormidade do ataque que o país havia sofrido.

Não perdemos nem amigos, nem familiares no WTC.  Nem no Pentágono.  Nem no vôo 93.

No entanto o mundo mudou à nossa volta, ou melhor, a nossa percepção do mundo mudou assim como a realidade à nossa volta.  Setembro de 2001 foi o primeiro mês em 12 anos que a galeria não teve vendas que cobrissem todas as suas despesas.  O comércio caiu.  Desapareceu.  As ruas ficaram praticamente desertas por pelo menos uma semana.  Já havíamos sobrevivido a um enorme furacão que havia devastado a cidade alguns anos antes.  Mas dessa vez era pior.  Faltava o som das serra elétricas cortando as árvores nas ruas,  que anteriormente haviam dado impressão de progresso para a normalidade.  Faltava a solidariedade dos vizinhos, que no caos pós-furacão ficou evidente.   Havíamos também sobrevivido à uma tremenda borrasca, com neve acumulada bem alta e as ruas completamente fechadas, nessa cidade hospitaleira.  Dessa vez, ninguém podia ajudar a ninguém, não se sabia o que fazer.  Não era uma calamidade normal.

Não é que precisássemos dar um litro de leite, um pacote de biscoitos para as crianças do vizinho, que não podiam sair de casa…  Não é que alguém conseguisse chegar até o supermercado e se oferecesse para comprar alguma coisa para você durante uma borrasca de neve que havia paralisado a cidade.  Era diferente.  Houve uma quietude total, todos passaram uma semana, mais ou menos trancafiados, sem saber para onde se virar.  O perigo poderia estar em qualquer lugar.  De repente, um continente, um país gigantesco, havia sido atacado da maneira mais covarde do mundo e nós, os inocentes moradores, não sabíamos nem porque éramos ou poderíamos ser os alvos de tanta fúria.  E na minha cidade, todos se sentiram vulneráveis, sem saber de onde nos proteger.  E o comércio parou, os compradores desapareceram.    Principalmente aqueles que mantinham o comércio de luxo, como era o meu, pinturas, esculturas, contemporâneas, modernas e antigas, móveis de 200 a 300 anos: tudo que ninguém precisa para sobreviver.   E depois veio outubro, uma repetição precisa de setembro.  Um ar de irrealidade a toda volta.    É claro que depois de 12 anos no mundo dos negócios aprende-se que há momentos ruins.  E a minha galeria poderia sobreviver por ainda seis meses ou mais sem vendas…  Experiência já havia me ensinado a manter tudo sob controle financeiro estrito.  Não foi isso que me levou a fechar a galeria em dezembro de 2001.  Mas ajudou.

Meu marido, que já flertava com uma aposentadoria antecipada, por si só chegou à conclusão de que iria deixar a universidade  e um dia, no final de outubro, decidiu se aposentar.  Estava no ar, nas nossas preocupações, no nosso dia a dia a brevidade da vida, a certeza de que precisávamos colocar ordem nas nossas prioridades.  Era o momento de mudar de vida.  De correr atrás dos sonhos.   Estava na hora de fazermos o que queríamos, de dar corda aos nossos desejos, ainda que eles pudessem parecer tolos aos olhos dos outros.  Estava na hora de virmos para o Brasil. Em dezembro, fechei a galeria e em março seguinte, chegávamos ao Rio de Janeiro à procura de um lugar para morar.  A vinda, de verdade, sem compromissos deixados para trás, só aconteceu em dezembro de 2002.  Mas o ponto de partida, o momento propulsor da mudança, foi sem dúvida o dia 11 de setembro de  2001.  Fazem hoje dez anos!

©Ladyce West, 2011





Imagem de leitura — Léon Kamir Kaufman

10 09 2011

Mulher lendo, 1921

Léon Kamir Kaufman ( Polônia 1872-1933)

Óleo sobre tela

Museu d’Orsay, Paris

Léon Kamir Kaufman nasceu na Polônia em 1872.  Foi educado em Varsóvia onde estudou desenho.   Depois disso foi estudar primeiro na Academia de Arte de Munique e depois foi para Paris onde estudou na Académie Julian.  Retornou à Varsóvia por um breve período e em 1902 emigrou definitivamente para a França.  Permaneceu em Paris até o final de sua vida.  Morrei em 1933.   Especializou-se em pintura de gênero, retratos e paisagem.  Ficou conhecido pelas suas cenas noturnas.





Quadrinha do ipê, para a chegada da primavera!

10 09 2011

Ipê amarelo, s/d

Paulo Gagarin (Brasil, 1885-1980)

óleo sobre tela,  41 x33 cm

Banhado de sol e de ouro,

tanta é a beleza que encerra,

que o Ipê parece um tesouro

saído há pouco da terra!

(Clóvis Brunelli)





Imagem de leitura — James Kurihara

9 09 2011

Leitora, s/d

James Kurihara ( EUA, contemporânea)

www.jameskurihara.com

James Kurihara mora e trabalha na área da cidade de Seattle nos Estados Unidos a maior parte da vida.  Fez seus estudos na Universidade de Washington em Engenharia, mas depois já fez diversos cursos e workshop nos últimos 20 anos em pintura a óleo.   www.jameskurihara.com





Primavera, poema de Olegário Mariano

9 09 2011

Ilustração assinada como MEE.

Primavera

                                               Olegário Mariano

Terra florida.  Estação nova.  Tanta

Vida em redor!  Ser folha quem dera!

Cada arbusto que vejo é uma garganta,

Um grito de entusiasmo à Primavera!

Bendito o sol que no alto céu flameja

E desce em fogo pelas serranias…

O sol é um velho sátiro que beija

Sofregamente as árvores esguias.

Anda, toto pelo ar, espanejante,

Um enxame fantástico de abelhas

Que estonteadoramente paira diante

De corolas e pétalas vermelhas.

Vida para o trabalho!  Ouve-se o coro

Dos lavradores e das raparigas…

Ondula ao sol, como um penacho de ouro,

A cabeleira fulva das espigas.

Primavera! No teu aspecto antigo,

Alucinante e triste muitas vezes,

Quando chegas pelo ar trazes contigo

Calma e fartura para os camponeses.

Dá arrepios fortes e desejos…

Teu nome é seiva, é força, é mocidade…

A terra anda a clamar pelos teus beijos

Que são sementes da fecundidade.

Em: Toda uma vida de poesia: poesias completas, Olegário Mariano, vol 1 ( 1911-1931), Rio de Janeiro, José Olympio:1957

Olegário Mariano Carneiro da Cunha (Brasil, 1889 — 1958) Usou também o pseudônimo João da Avenida, poeta, político e diplomata brasileiro. Em 1938, foi eleito Príncipe dos Poetas Brasileiros, substituindo Alberto de Oliveira que morrera e que, por sua vez, havia substituído Olavo Bilac. Membro da Academia Brasileira de Letras.

Obras:

Angelus , 1911

Sonetos, 1921

Evangelho da sombra e do silêncio, 1913

Água corrente, com uma carta prefácio de Olavo Bilac, 1917

Últimas Cigarras, 1920

Castelos na areia, 1922

Cidade maravilhosa, 1923

Bataclan, crônicas em verso, 1927

Canto da minha terra, 1931

Destino, 1931

Poemas de amor e de saudade, 1932

Teatro, 1932

Antologia de tradutores, 1932

Poesias escolhidas, 1932

O amor na poesia brasileira, 1933

Vida Caixa de brinquedos, crônicas em verso, 1933

O enamorado da vida, com prefácio de Júlio Dantas, 1937

Abolição da escravatura e os homens do norte, conferência, 1939

Em louvor da língua portuguesa, 1940

A vida que já vivi, memórias, 1945

Quando vem baixando o crepúsculo, 1945

Cantigas de encurtar caminho, 1949

Tangará conta histórias, poesia infantil, 1953

Toda uma vida de poesia, 2 vols., 1957





Minuto de silêncio, uma meditação sobre o primeiro amor

9 09 2011

Pescadores puxando um barco, 1885

Peder Severin Kroyer ( Noruega,  1851-1909)

Óleo sobre tela

Oglethorpe University Museum of Art

Atlanta, Ga,  EUA

Hoje até parece luxo a gente dizer que tem um livreiro em quem confia.  Alguém que é dono ou gerente de uma livraria, que conhece os seus gostos tão bem que chega a separar alguns livros para sua escolha.  Coisa pessoal, não tão esquematizada como as sugestões da Amazon.com, que ainda assim conseguem ser bem acertadas, apesar de sugeridas por um programa de computação.  Mas desde que voltei ao Rio de Janeiro desenvolvi um relacionamento com dois livreiros “à antiga”, que me conhecem, sugerem títulos e até me emprestam um ou outro volume.  Este foi o caso da simpática gerente de uma pequena livraria no meu bairro.   Minuto de Silêncio, um conto publicado como livro do escritor polonês  Siegfried Lenz [Rocco: 2010] chegou às minhas mãos dessa maneira.  Não só eu desconhecia o livro como o autor.  Foi uma “educação” dupla.  Uma educação que valeu a pena.  Levei mais tempo procurando por um belo marcador de livros para dar à minha gerente como agradecimento, do que para ler as 126 páginas dessa história de amor entre um jovem, e sua professora de inglês.

Preciso confessar que ando um pouco cansada de livros de “passagem”, livros que retratam o momento em que um adolescente passa a ser adulto.   Precisei dizer isso porque encarei com certa apreensão essa leitura que mostra as descobertas do amor e da paixão por um jovem.  No entanto, a narrativa é magistral.  Econômica e evocativa.  Delicada e branda encanta e passa rapidamente como um véu transparente soprado pela brisa do mar.  Minuto de silêncio é uma meditação sobre a primeira descoberta do amor e sua subseqüente perda.  Há desde o início a certeza de que o trágico ronda o leitor, o gancho é descobrir como e por quê?   Esse é um livro de grande sutileza, bordejando o poético.

Siegfried Lenz

Situada numa cidade pesqueira no Mar Báltico, a história desse primeiro amor é embalada pela localização idílica de um balneário repleto de veranistas, atraídos pela magia do mar.  As marés, o ir e vir das ondas, o trabalho perigoso dos pescadores de pedras, familiarizados com o imprevisto, servem como pano de fundo significante para as lições de vida, e amor, de perda e morte aprendidas pelo jovem Christian. Um belo romance.





Imagem de leitura — Léonard Foujita

8 09 2011

No café, 1949

Léonard Foujita (Japão, 1866-1968)

Centro Pompidou, Paris

Léonard Tsugouharu Foujita ( Japão,1886 – 1968) pintor e gravurista nasceu em Tóquio.  Aos 24 anos, em 1910, formou-se em Música e Belas Artes pela Universidade Nacional de Tóquio.  Embarcou para a Europa em 1913, indo morar em Paris, onde conheceu todos os principais pintores de Montparnasse das primeiras décadas do século XX.   Atingiu fama e sucesso na Euroopa ao empregar técnicas das artes tradicionais japoneses na pintura ocidental.  Famoso pela pintura de belas mulheres e gatos.  Em 1931 veio ao Brasil e fez uma turnê da América do Sul de grande sucesso, antes de retornar ao Japão.  Saiu de novo de seu país natal depois da Segunda Guerra Mundial e se estabeleceu na França definitivamente.  Morreu em Zurique em 1968.





Papa-livros, leitura para setembro: Traduzindo Hannah, de Ronaldo Wrobel

8 09 2011

Evasão, 2008

Abderrahmane Chaouane (Argélia, 1958)

óleo sobre tela

Leitura para SETEMBRO, discussão nesse blog a partir do dia 20

Traduzindo Hannah, de Ronaldo Wrobel

SINOPSE

O sapateiro judeu Max Kutner é convocado para trabalhar na censura postal do regime Vargas, traduzindo cartas do iídiche para o português em busca de subversivos. Enquanto lida com o peso na consciência, Max se apaixona por uma desconhecida através de suas cartas e, determinado a encontrá-la, descobre mais do que pretendia – inclusive sobre si mesmo.

EDITORA: Record

Ano: 2010

Número de páginas:  272

A arte de Abderrahmane Chaouane