Realidade, poema de Martins d’Alvarez

16 11 2012

Outono, Capa da Revista Fruit, Garden & Home, Setembro de 1929.

Realidade

Martins D’Alvarez

—  Que bairro bonito e grande!

Tu me dizes, debruçada

na sacada

da janela

deste meu primeiro andar.

De fato, a rua é um viveiro

de mocidade e de graça,

entre um recanto de praça

e um trapo verde de mar.

Bairro lindo, na verdade,

o mais belo da cidade.

Mas, nã me digas que é grande…

Não me digas, por favor!

Só eu sei, anjo moreno,

eu que provo o veneno,

como este bairro é pequeno

para abrigar nosso amor.

Em: Poesia do cotidiano, Martins D’Alvarez, Rio de Janeiro, Edições Clã: 1977





O jardim e o ritmo da vida: do que sinto falta da vida na América

15 11 2012

Dia de verão, 1904

Georgina de Albuquerque (Brasil, 1885-1962)

óleo sobre tela, 130 cm X 89cm

Museu Nacional de Belas Artes,Rio de Janeiro

Depois de quase dez anos de volta ao Brasil, ainda me perguntam, do que eu mais sinto falta da minha vida lá fora.  Concluí, recentemente, que minha nostalgia está relacionada à natureza.  Sinto falta das estações do ano, dos rituais que cada uma delas traz para a vida de uma pessoa comum. Sinto falta daquela conexão com os ciclos da natureza.

Meu primeiro contato com o hemisfério norte foi num inverno.  Dia 15 de dezembro desembarquei para o que na época acreditava ser por 3 anos.  Permanecer lá por muito mais tempo, como aconteceu, não estava programado.  Fui morar numa cidade muito arborizada, mas só descobri isso na primavera, pois em dezembro as ruas tinham enfileiradas nas calçadas só troncos, mais ou menos retorcidos, sem uma única folha.  Um aspecto desolador.  Não havia neve.  Só frio.  Deixando para trás o calor de verão no Rio de Janeiro, o frio pareceu muito intenso.  Com os anos a sensação de frio diminuiu: eu já estava aclimatizada.

O conhecimento intelectual de que as folhas crescem com a aproximação da primavera, não retira o intenso prazer de vermos, ao final de fevereiro e no mês de março (na minha região), os pequeninos brotos, primeiro como verrugas, depois dedinhos delicados, saindo dos troncos, outrora aparentando estarem mortos.

Jovem senhora no parque, 1880

Edouard Manet ( França, 1832-1883)

óleo sobre tela

Coleção Particular

Existe a expressão Febre da Primavera [Spring Fever] que rotula um comportamento alegre, sapeca, cheio de energia, sensual e sexual, difícil de entender por quem só morou nos trópicos, onde as estações do ano quase não se manifestam com intensidade.  A expressão rotula um momento de comunhão com a natureza, quando nossos instintos animais se manifestam, quando nos contagiamos com a alegria da primavera, com a promessa de um futuro promissor.  Aqui não percebemos esse ímpeto da reprodução, essa força que embriaga, maior que nós mesmos.  Porque nos trópicos  isso acontece o ano inteiro, acaba desapercebido. Lá, tanto os mais velhos quanto crianças, que em tese estão fora dos parâmetros hormonais afetados pela “febre”, sentem o empurrão da natureza acoplado ao prazer de viver.  É uma febre que brota de dentro da alma, uma bem-aventurança com apelo sensual, um prazer físico intenso despertando o corpo.  Variações de latitude promovem a Febre da Primavera  em diferentes semanas.  Onde morei o início de abril trazia a vontade irreprimível de aventura.  Mas antes disso, os sinais de que o mundo mudava já apareciam. Com que alegria víamos as primeiras forsythias!  É uma planta com aparência desregrada,  um arbusto de flores amarelas, que desabrocha quase de um dia para o outro, como se um ramalhete de raios de sol fosse plantado no jardim, mesmo quando ainda está coberto de neve.  A forsythia é a primeira flor a aquecer olhos e corações.  Depois dela, tulipas, narcisos e com as azaléas a primavera vinga! Sinto falta dessa sinfonia de cores e de cantos dos pássaros!

A história de amor, 1903

Emanuel Phillips Fox ( Austrália, 1865-1915)

óleo sobre tela, 102 x 153 cm

Ballarat Fine Art Gallery

A primavera traz também as primeiras colheitas de frutos: morango, framboesa, mertilo, amora. E nos estados onde morei nos Estados Unidos, saíamos de balde em punho, chapéu de palha e muito protetor solar, para os campos de sítios e fazendas que vendem essas frutas ao quilo se você colher.  Eram sempre manhãs de sol em que sujávamos as mãos de terra, colhíamos as frutas nos pés e chegávamos à casa carregados, exaustos, vermelhos de calor, suados e muito felizes. Íamos então para a cozinha, lavar e comer as frutas frescas, o quanto bastasse, e com as sobras, o final de semana era dedicado a fazer tortas, bolos, geleias, alguma coisa para congelar e outras preservadas para os dias em que esses frutos já tivessem desaparecido.

Este também era o período do ano em que plantávamos pimentões, tomates e flores no jardim.  Éramos visitados por bando de pássaros negros, possivelmente starlings, todo início de primavera, pássaros que tomam conta do jardim ou de uma árvore, mas não ficam por muito tempo.  Se ainda não soubéssemos, a aparição desses pássaros mostrava que era hora de plantar    Mudas das plantas que não sobrevivem durante o inverno e que precisam ser plantadas todos os anos são vendidas em todo canto, do supermercado às lojas de conveniência.  Todo mundo entra na dança do plantio, mesmo na cidade grande, num ritual cansativo e alérgico.  Sim, porque foi só lá que descobri ser muito alérgica ao pólen.  Mas, antialérgicos ingeridos, íamos todos plantar algumas centenas de mudas de Maria-sem vergonha no jardim, (eu as plantava em abundância para me lembrar daqui) e também mudas de tomates e pimentões na área do quintal onde havia sol.  A primavera era o período da alegria, da renovação, da esperança.

Tarde sossegada

Ellen Lerner O’Donnell (EUA, contemporânea)

óleo sobre tela, 60 x 90 cm

http://www.ellenodonnell.com

Outros pequenos rituais que marcam a estação também têm magia.  Em março,  às portas da primavera, há o dia de São Patrício, celebrado inicialmente pelos imigrantes irlandeses católicos.  Em sua homenagem todos tentam vestir verde ou algo verde no dia 17.  Chope, bebidas diversas, bolos são servidos  coloridos de verde e decorados com o trevo de 4 folhas, símbolo do santo.  Mais tarde, já no meio da primavera celebra-se a Páscoa.  Lá, essa comemoração é marcante, sendo em geral, a primeira festa ao ar livre do ano.  Todos vão às suas respectivas igrejas, vestidos para a primavera.  Mulheres têm roupas em tons claros de rosa, azul, amarelinho, branco, beige e invariavelmente, até nos dias de hoje, um chapéu de palha.  Mesmo na primeira década do século XXI, esse chapéu de palha com abas largas e fitas coloridas era item essencial para o dia da Páscoa.

Engana-se quem acredita que o verão nos Estados Unidos não é quente.  É muitas vezes mais insuportável do que o carioca.  As temperaturas são altas e a umidade é elevadíssima.  À medida que o verão se aproxima, passa-se a aproveitar o ar livre no cair da tarde.  Não são poucas as festas, as reuniões entre amigos que começam no quintal e acabam no ar condicionado na cozinha dentro de casa por causa do calor.  Mas o verão trazia, como aqui, o chamado pela estadia fora da cidade, nas montanhas, nos rios e na praia.  É a hora das férias, que são poucas  – a grande maioria dos americanos tem só duas semanas de férias ao ano.  Mas os rituais americanos de verão estão ritmados por 3 grandes feriados nacionais: o dia do Mortos nas Guerras  [Memorial Day]– última segunda-feira de maio, dia da Independência, 4 de julho e o dia do Trabalho, primeira segunda-feira de setembro.

Sem título, 2003

Arie Zuidersma (Holanda, 1925)

acrílica sobre papel, 69 x 89 cm

É na primavera, em março,  antes da Páscoa, que se acompanha as finais de basquete colegial, chamado de Loucura de Março, [March Madness]  que nas cidades e nos estados da costa leste onde morei é tão importante quanto o basquete profissional.  É o adeus aos esportes de competição em recinto fechado.  Daí por diante começam os esportes ao ar livre.  Basebol é o primeiro da fila, mas nunca consegui entender sua lógica.  Durante os meses de março e abril faz-se a grande limpeza de casa, adequadamente chamada de Limpeza da Primavera [Spring Cleaning].  Lava-se a jato o exterior das casas, limpa-se e reparam-se as calhas.  Assim que as  escolas entram em férias, no início de maio, é a hora de se jogar fora o inverno com todas as suas poeiras e teias de aranha.  Depois de meses e meses  fechados por conta do clima, os americanos abrem suas casas para limpar, limpar tudo: telhado, janelas, varandas, decks, piscinas, ventiladores, canalização do ar condicionado. Limpa-se por dentro e por fora.  Faz-se uma faxina nos armários dos quartos, da cozinha, dos banheiros e garagem.  Pilhas e pilhas de objetos e roupas são colocados primeiro à venda nas conhecidas vendas de jardim, ou de garagem, onde os preços não passam de uns trocados, uma bagatela de poucos dólares, ou centavos, quer para objetos usados ou novos.  O que não se vende doa-se.  A data mais concorrida para o evento é justamente o fim de semana longo do Memorial Day, [Dia dos Mortos nas Guerras], que ritualmente fecha a primavera.

Viveiros, 1890

William Merritt Chase(EUA, 1849 – 1916)

Óleo sobre madeira

Coleção particular

O verão começa com a abertura das piscinas particulares e públicas que se enchem de crianças em férias, no feriado dos Mortos das Guerras. Até então a temperatura é fria demais para os esportes aquáticos ao ar livre. E os fins de semana começam a ser musicados pelo cantar incessante das máquinas de cortar grama. O ar cheira a grama cortada.  Nessa época colhem-se os primeiros tomates que têm o gosto delicioso do jardim.  Tudo que pode ser feito ao ar livre ganha novos adeptos: feiras dos pequenos produtores, exposições de arte e de artesanato nos parques da cidade. A maioria das cidades tem programas de música e teatro ao ar livre, à noite, porque o horário de verão permite que se tenha luz do dia até as 21-22 horas, convites para festas realizadas nos jardins de casa, encontros nos decks, regados a vinho californiano,  abundam, ocupando as tardes dos fins de semana ao crepúsculo.  O gosto do verão é melancia.  Mas também cereja e cachorro-quente. Junho ainda é um mês agradável, mas mosquitos e outros insetos começam a dominar o ambiente. Essa manifestação de pragas voadoras em enorme quantidade foi uma das grandes surpresas que tive nos primeiros anos.  Como as flores aparecendo todas juntas, de uma vez, cobrindo árvores e arbustos, os insetos também “brotam” juntos, aos montes.  Não é à toa que leis da saúde pública requerem que toda casa tenha tela nas janelas. Sem tela, casas não podem ser vendidas, nem alugadas.  A estação dos furacões entra em curso, mas em geral eles só chegam à costa a partir de agosto.  Chove bastante no verão. Chove muito. Depois, o ar fica pesado e não leve como no Rio de Janeiro, porque a umidade não desaparece.   O verde nas árvores já deixou para trás o frescor verde claro, cor de alface da primavera, as folhas adquirem tons escuros e as árvores têm a copa cheia para a sombra profunda. E o canto das cigarras acalenta o crepúsculo dos longos dias de julho e agosto. Lá e cá, o verão é a estação de que menos gosto.

Horas de lazer, s/d

Lynn Renée Sanguedolce (EUA, contemporânea)

óleo sobre tela,  115 x100 cm

www.lynnrenee.com

O feriado de 4 de julho  marca o meio da estação mesmo que este aconteça na 3ª semana do verão oficial.  Isso porque assim como aqui, o verão é ritmado pelo calendário escolar. E no início de julho os alunos já estiveram de férias pelas últimas seis semanas.  Em julho começa a época das hortênsias no jardins e nos estados do Mid-Atlantic – costa leste central dos EUA.  Essas flores foram para mim, uma surpresa. Eu sempre as associara à estrada Teresópolis-Petrópolis, mil vezes percorrida nos verões da minha infância e juventude, caminho emoldurado por quilômetros de abundantes flores de hortênsias.  Que ironia, só vim a ter arranjos hortênsias em vasos com água, quando as cultivei num jardim em outro país, e fica lindo, como aprendi com Martha Stewart.  Elas, assim como a comemoração do dia da independência, simbolizam o meio do verão.  Por isso mesmo as festividades do 4 de julho são simultaneamente alegres e nostálgicas.  O dia da independência é comemorado ao ar livre, onde quer que você esteja.   Não há 4 de julho sem piquenique, sem fogos de artifício, sem família e amigos reunidos, sem festa para comemorar, por mais abafado e quente que o dia se mostre. Daí por diante, sobram praticamente só mais seis semanas de verão.  A última quinzena de agosto já é marcada pela correria da preparação para o ano letivo que começa próximo ao feriado nacional: o Dia do Trabalho, a primeira segunda-feira de setembro.

Folguedo de verão,  s/d

Lucius Rossi (Itália, 1846-1913)

óleo sobre tela , 60 x 52 cm

Christie’s Auction House, 1999

Se o jardim recebeu sol suficiente, o final do verão é repleto de alegrias culinárias. Em geral colhe-se muito mais do que se consome.  Começa então a tradição de final de verão: as conservas.  Mesmo hoje, quando se encontra de tudo nos supermercados locais, até nas menores cidades, a tradição da conserva em vidro, consume donas de casa, mesmo as que trabalham fora, advogadas, economistas, empresárias.  São centenas de receitas familiares que atravessaram gerações para a conserva de legumes e frutas, originalmente mantidas para os dias de inverno. Pepinos, que quase todo mundo planta, são transformados em picles, assim como cenouras, couve-flor, até mesmo a couve de Bruxelas. As partes brancas das melancias também são transformadas em um dos mais deliciosos picles que conheço.  Melancias são frutas comuns do verão americano.  O final de verão é a época de pêssegos e por isso inicia-se a estação dos deliciosos “cobblers”. O de pêssego é o meu favorito mas à medida que as frutas que dão em árvores começam a ser colhidas em abundância, essa sobremesa, feita de frutas e migalhas, açúcar e canela, aparece de todos os jeitos e formas.  E os escritórios se enchem de cobblers trazidos pelos empregados.  Aliás essa é uma característica americana que quase não vejo aqui: à noite as pessoas cozinham bolos, tortas, receitas especiais e levam receita inteira, extra, para dividir com os colegas de trabalho no dia seguinte. Isso aconteceu em todos, absolutamente todos os lugares onde trabalhei.  E, não há distinção social de quem traz as guloseimas, pode ser a pessoa de menor qualificação ou o dono/diretor/executivo da área.   Bolos de frutas  e cobblers estão entre os mais levados por quase todos nessa época do ano, porque os jardins produzem mais do que se pode consumir.

No pomar, 1891

Edmund Charles Tarbell (EUA, 1862-1938)

Óleo sobre tela, 154 x 166cm

Terra Foundation for American Art,

Daniel J. Terra Collection, Chicago, Illinois

O ritmo da vida está totalmente submetido às estações do ano.  E acho que é disso que sinto falta. Em meados de setembro, os dias já têm o ar um pouco mais frio. Começa a estação do futebol americano.  Começa a estação dos piqueniques antes do jogo. Mas, pelo menos uma vez por dia, há um ventinho que quebra a monotonia do calor abafado.  É o outono se anunciando, de longe minha estação favorita, a mais colorida do ano.  Árvores trocam de cor e suas copas vão do amarelo claro ao escarlate antes das folhas caírem.  Os jardins explodem numa grande palheta colorida com margaridões e crisântemos, plantados ou comprados.  Esses “mums” – crisântemo [chirsantemum] — aparecem nos jardins e dentro das casas.  As últimas begônias resistem e as samambaias de jardim já voltam ao seu período dormente, desaparecendo da paisagem. Assim como a primavera, o outono é de muito trabalho:  tirar as folhas secas do chão e colocá-las em montes massivos no meio fio para a cidade vir pegar as pilhas e pilhas de folhas para o composto da cidade.  Só folhas.  Esses caminhões aceitam só folhas, eles são equipados com um aspirador gigante.  E uma população enorme de 1.000.000 de jardins obedece, civilmente, aos pedidos do governo e só folhas são colocadas no meio fio: nem galhos de árvores  podadas, nem um pouquinho de lixo… Chama-se responsabilidade civil.  Sim, tenho saudades disso, dessa organização, em que ninguém se acha no direito de ter mais direitos do que outros.  Durante este período também se planta bulbos no jardim: narcisos, tulipas e outros bulbos.  No outono o solo ainda está macio  para se plantar essas flores  que precisam passar algum tempo no solo congelado do inverno para poderem florescer na primavera.  Esta é um atividade que requer não só força física como bom planejamento e a habilidade de se imaginar o conjunto da obra daí a seis meses.  Garanto: é sempre uma suspresa ver as flores na primavera seguinte.

Folhas de outono, 1856

John Everett Millais (Inglaterra, 1829-1896)

óleo sobre tela, 95 cm x  75 cm

City Art Galleries, Manchester

O outono traz outra delícia: as feiras rurais.  Cada estado tem uma feira rural.  São eventos gigantescos, porque são estaduais.   Produtores de todo o estado participam nessa semana de festas da colheita.  Há parques de diversões temporários, competições de bois, de coelhos, da melhor geleia.  Há pequenos rodeios. É uma festa só, única, de dez dias.  As escolas mandam seus alunos para que todos sintam o gosto e o prazer da vida rural.  Há shows de música country, moderados, nada de alto falantes com decibéis de ensurdecer os vizinhos.  Muita música e muita dança. Barraquinhas de comidas típicas do interior assim como acontece nas nossas festas juninas – que no Brasil também são a celebração do outono, das colheitas. Montanha russa, trem fantasma, roda gigante, algodão doce, maçã caramelizada no espeto, são alguns dos prazeres gentis desses dias encantados cujo frio de 10 a 14º C durante o dia contrasta com as noites de zero grau. Mas os céus do outono têm um azul de dar inveja: profundo, límpido e sempre sem nuvens.   Sim, o outono é mágico.  Fechando outubro há a festa das crianças, e realmente só as crianças participam de Halloween.  Sim todo mundo compra bala para dar às crianças fantasiadas que batem à porta.  Em geral não se celebra Halloween depois dos 12 ou 13 anos.  Quando um adolescente desses aparece na nossa porta, nem sempre é bem recebido.  Entende-se que, assim como Papai Noel, há coisas que só se faz ou se acredita em uma tenra idade.

Grande ocasião, s/d

Clare Atwood (Inglaterra, 1866-1962)

óleo sobre tela

Nas cidades também é o outono que traz os grandes espetáculos, as peças de teatro, os concertos, os musicais. É “a estação”, como se diz, quando começamos a nos acostumar a viver mais dentro de quatro paredes do que ao ar livre.  Festas e reuniões abundam. De repente os amigos convidam para jantares, coquetéis,  que se concentram nas cozinhas e nas salas ao redor.  Assim será através do inverno, quando finalmente a lareira é acesa ritual que dependendo do frio vai até fevereiro.  Vez por outra no céu vemos  patos voando em grupos  para o sul.  Não só vemos.  Podemos muitas vezes ouvi-los, vai depender  do silêncio à nossa volta. Desse período de resfriamento do ar, do solo e de frio verdadeiro tenho saudades.  O frio é facilmente combatido.  Todo lugar é aquecido.  Todos os meios de transporte também.  Tenho saudades da brisa fria de encontro à pele, enquanto se anda até o teatro, ao show, à casa de um amigo. Muitas saudades porque é o período mais feliz e alegre do ano.

O primeiro Thanksgiving, 1912-1915

Jean Leon Gerome Ferris (EUA, 1863-1930)

Óleo sobre tela

Coleção Particular

Thanksgiving, um feriado que estamos querendo importar, numa das nossas maiores sandices imitativas. É um feriado tipicamente americano com sua própria história, toda americana, e simbolismo único.  Ninguém tenta reinventar essa comemoração.  Ela é centrada em uma refeição, composta sempre dos seguintes itens obrigatórios: peru, presunto, batatas doce, vagens, milho, torta de abóbora, geleia de Cranberry, melado.  Você pode adicionar alguns elementos a essa refeição, mas não pode subtrair, ou sua família pensará que não teve Thanksgiving. É uma refeição no meio da tarde da última quinta-feira de novembro.  Depois desse farto almoço ajantarado todos se colocam a postos para ver um grande jogo de futebol americano!  Esta é  a única data em que toda a família se reúne num único teto, o que eles chamam de família extensa, ou seja, mais do que pai, mãe e filhos.  E a tradição é ter sempre uma pessoa de fora, de preferência um estrangeiro, porque esta festa surgiu para relembrar como os índios convidaram peregrinos estrangeiros, que se tornariam mais tarde americanos, para uma refeição em comum.  Ocorre sempre nessa data e dá início às comemorações natalinas.

Patinando no gelo, 1885

Hanry Sandham (Canadá, 1842-1910)

Gravura baseada no óleo do pintor

Coleção Particular

Quando dezembro chega o jardim está nu. Todos os milhões de folhas do jardim já caíram e as árvores voltaram a ter aquele aspecto desolador, esqueletos escuros e sem vida.  A natureza entrou em recesso. Arbustos floridos que dão tanta alegria na primavera e verão também perdem suas folhas: forsythias, hortênsias,  azaleias se transformam em meros galhos sem cor.  Para  dar alento nos concentramos nas poucas “ilhas” verdes: cedrinhos, pinheiros, e na minha casa na Carolina do Norte muitas aucubas – arbustos de folhas verde e amarelo, que dão frutinhos vermelhos comidos pelos poucos pássaros que enfrentam o inverno [Louro-do-Japão ou Louro-manchado (Aucuba japonica) é seu nome]. Mas o Natal dá a justificativa de se alegrar o exterior da casa.  Não só as guirlandas, círculo de verde nas portas, feitas justamente de galhos dessas plantas que não perdem as folhas, como guirlandas que decoram o exterior das casas, e as árvores que perderam suas folhas são decoradas com centenas de luzinhas brancas que iluminam um jardim que sem elas ficaria triste.  E assim passa o mês de dezembro. O Natal, celebrado no dia 25 de dezembro, é uma festa íntima, só para o núcleo familiar: pai, mãe, filhos e em geral se permanece mais ou menos dentro de casa até a chegada do ano novo.  Nos estados onde morei, no Mid-Atlantic, em geral não se tem um Natal com neve.  Mas é frio, faz frio. Os dias mais frios do ano acontecem em janeiro e fevereiro, quando o próprio solo já não retém mais calor.

Noite de inverno, 2006

Brian Larsen (EUA, 1975)

glicée gravura

Mas o inverno traz outros pequenos rituais. É hora de se aprender a patinar no lago gelado, — ele gela mesmo que não haja neve no chão.  Se há neve, então é uma festa.  Atrapalha, é verdade, mas também é muito gostoso ter a vida atropelada por um monte de neve, pelo silêncio que ela traz mesmo às ruas mais movimentadas.  Não há quem não tenha sorrisos quando vê os primeiros flocos de neve.  A neve é sempre seguida de um dia de sol brilhante e céu azul.  Mas frio, mesmo com sol, o frio é cortante.  O inverno é também a época  quando prestamos mais atenção às atividades domésticas de família, atividades de dentro de casa: jogos, leitura, visitas.  As árvores estão sem folhas, a grama morreu, a natureza se  despiu  mas o mundo continua: as escolas têm aula, as pessoas trabalham, os dias são curtos. Não chove.  Chuva é coisa de primavera e verão.  E só nos resta esperar pelas delicadas camélias nos arbustos, em fevereiro, colorindo levemente o final do inverno.

A natureza determina o ritmo de vida, os rituais do dia a dia.  Para esta carioca, acostumada a verões de seis meses e a não-verões de outros seis, a descoberta das estações do ano foi deslumbrante.  Viciante.  Cada mês tem seus segredos, suas necessidades. Em cada mês sente-se o passar do tempo e tenta-se aproveitar ao máximo as quatro semanas que levarão a outros dias, mais ou menos quentes, mais ou menos chuvosos, mas sempre encantadores.  Sim, é disso que sinto falta, do movimento da natureza, perceptível, sentido na pele e no meio ambiente. Não sinto falta de mais nada.  Gosto de estar ciente da passagem do tempo.  Alerta para as mudanças que acontecem a cada semana.  Eu me sinto mais viva!

——

Nota: Morei nos seguintes estados: Maryland, Washington DC, Virgínia e Carolina do Norte.

© Ladyce West, Rio de Janeiro, 2012





Quadrinha da flor

14 11 2012

Primavera, ilustração Sascalia.

A primavera, suponho,
que tendo sonhos de amor,
faz, sim,com que cada sonho
nasça em forma de uma flor.


(Miguel Russowsky)





Palavras para lembrar — Beverly Cleary

14 11 2012

Histórias da hora de dormir, 2009

Betty B. Thurmond (EUA, 1927)

Acrílica sobre tela, 41 x 62 cm

Flickr

“Sempre fui uma criança muito observadora.  Os meninos dos meus livros são baseados nos meninos, meus vizinhos, de quando eu era criança”.


Beverly Cleary





Dia da Bandeira: variações sobre a Bandeira do Brasil

13 11 2012

A Pátria, 1905

Pedro Bruno, (RJ, 1888-1949)
óleo sobre tela
Museu Histórico do Rio de Janeiro

Dia 19 de novembro comemoramos o Dia da Bandeira do Brasil.   Aqui estão algumas variações sobre a nossa bandeira.  Vocês estão convidados a mandar, suas próprias variantes sobre a nossa bandeira: desenhos, pinturas. Aqui vão alguns exemplos para vocês se inspirarem.  Quem quiser contribuir mande-me o seu email e eu entro em contato.

Bandeira do Brasil, criação fotográfica de Culiculicz.

Retirado de:

http://flickr.com/photos/62759970@N00/167812480/

Bandeira do Brasil, 1995

Regina Mello ( MG, Brasil, 1959)

Módulos de madeira, pintados em acrílica

250 x 160 cm

www.reginamello.xpg.com.br

Bandeira do Brasil, [Bandeira brasileira] s/d

Olavo Campos (São Paulo)

Madeira reciclada

Bandeira do Brasil

Paulo Sérgio Zerbato (Brasil, 1971)

http://paulosergiozerbato.blogspot.com.br

Bandeira do Brasil

Morandini, designer ( de seu blog: http://blog.morandini.com.br/ )

Técnica mista com folhas de árvores

Bandeira do Brasil, feita com pintura de mãos de crianças do Instituto La Fontaine, Belo Horizonte, MG.

http://institutolafontaine.blogspot.com

Boi Bandeira, 1968

Humberto Espíndola (Brasil, 1943)

óleo sobre tela

Painel do Brasil no Memorial do Imigrante, São Paulo

Yes, nós temos banana, 1999

Nelson Leirner (Brasil, 1932)

colagem sobre serigrafia, 74 x54 cm

Brasil humanitário [da Série Bandeiras Brasileiras]

Touth Andrade (Brasil, 1962)

óleo sobre tela, 80 x 90 cm

http://digitalconsciousness.com/artists/TouthAndrade/

Bandeiras Brasileiras, II

Touth Andrade ( Brasil, 1962)

http://digitalconsciousness.com/artists/TouthAndrade/

Papai Noel brasileiro,

Luis Saguar (Brasil)

Ilustração

http://saguardesign.blogspot.com.br/





Imagem de leitura — Alexis Grimou

13 11 2012

Leitora, s/d

Alexis Grimou ( França, 1678-1733)

óleo

Alexis Grimou nasceu em Argenteuil, próximo a Paris em 1678 e morreu em Paris em 1733 .  Não se conhece muito a seu respeito, uns dizem que foi aprendiz no ateliê do pintor François de Troy, outros que  foi autodidata, ganhando todo seu conhecimento de pintura através de cópias de Van Dyck e de Rembrandt.  Fato é que foi muito influenciado pela pintura barroca holandesa.  Fez sua carreira como retratista.  Chegou a ser admitido na Academia de Paris em 1705 mas logo se demitiu de lá alegando que os pintores ali eram muito medíocres.  Mas entrou para a Academia de São Lucas em Roma, em 1709.





Quadrinha do banquete

12 11 2012

Seja qual for o quinhão,
há sempre quem o bendiga;
a migalha do seu pão
é um banquete pra formiga.

(Ney Damasceno)





Um jogo de espelhos em Amsterdam de Ian McEwan

12 11 2012

Prinsengracht, Amsterdam, 2009

Mark Christian Soetebier (Holanda, contemporâneo)

Aquarela sobre papel

The Watercolor Gallery

Amsterdam* é um romance centrado em dois personagens, o editor de um jornal, Vernon Halliday e o compositor Clive Linley,  um verdadeiro par de personalidades que se assemelham mais do que imaginamos a principio e cujas reações se complementam, movendo a trama do romance num crescendo cantábile até um final surpreendente.  Apesar de parecerem distintos, com profissões, estados civis e temperamentos diversos, esses dois amigos de longa data se completam.  Conhecemos a dupla, logo na abertura da narrativa, no enterro de Molly, a amante que ambos tiveram em comum.  Daí em diante começamos a compreender as diversas maneiras em que esses homens de meia idade tiveram suas vidas emaranhadas num labirinto de interconexões.

Usando desse artífice Ian McEwan consegue em meras 184 páginas fazer um verdadeiro ensaio na forma de ficção sobre alguns problemas éticos que nos afligem.  A que custo devemos perseguir o sucesso profissional?  Quando a ambição passa dos limites?  Temos direito à censura antecipada? O que separa a vida privada da vida pública?  Testemunhar uma tentativa de crime incorre em obrigações sociais?  A eutanásia pode ser encomendada?  Esses e outros assuntos estão constantemente nos assediando.  Enquanto escrevo essa resenha acompanho no rádio o caso do ex-diretor do CIA que pediu demissão por uma traição amorosa, enquanto o jornal da manhã mostrava a diretoria da BBC embaraçada com os escândalos de pedofilia.  E na semana passada o Congresso brasileiro passou a lei Carolina Dieckmann  de proteção à privacidade de pessoas públicas na internet.  Esses são assuntos de hoje, do dia a dia, que já estavam na pauta de Ian McEwan em 1998, quando esse romance foi publicado.

Toda a tensão nesse romance tem como base o pequeno número de personagens.  Em primeiro plano aparecem as conturbadas emoções manifestadas pelos desejos de Vernon e Clive. É grande a ambição de ambos, que já chegaram ao ápice de suas carreiras e podem olhar para o futuro ocaso de suas vidas com o sentimento de dever cumprido.  Mas a morte de Molly, ainda jovem, os desestabiliza.  São obrigados a incluir em seus horizontes seus próprios fins.  Vemos também se imiscuir entre eles recalques e desejos deixados de lado e agora relembrados nessa amizade.  Em comum eles têm não só a mesma amante mas a traição, já que ambos conheciam e eram amigos do marido de Molly.

Ian McEwan

Esta é uma amizade repleta de inveja, raiva, fidelidade,  ódio, culpa; de uma gama enorme de sentimentos  contraditórios e complementares.  Essas emoções que os unem, inicialmente aparecem em cores brandas, se intensificando à medida que o romance se desenvolve.  Mas é a competitividade entre eles, já existente desde os tempos de Molly, que eventualmente os arma e prova até o último momento o quanto esses dois amigos se assemelham.  Amsterdam é um excelente ensaio sobre as emoções que afligem o ser humano de hoje, homens complexos e destemidos, ambiciosos e egoístas.  É uma janela na alma humana corroída pela liberação de antigas regras éticas.

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* Os dicionários nos dizem que a forma Amsterdam – com a letra “m” no final não existe em português.  O correto seria Amsterdã, no Brasil, ou Amsterdão em Portugal.  Essa grafia é um anglicismo inútil, porque não adiciona nenhuma outra conotação para uma palavra muito bem grafada em português, e fica a pergunta: por que um livro editado no Brasil a usa?  Depois reclamamos que as pessoas não sabem mais escrever … é por essas e outras.





Palavras para lembrar — Bell Hooks

12 11 2012

Mulher lendo, s/d

Elena Drobychevskaja (Belarússia, 1963)

Técnica mista, 50 x 70 cm

“As ideias que transformaram minha vida sempre vieram a mim através dos livros”.

Bell Hooks





O buraco do tatu, poesia infantil de Sérgio Caparelli

11 11 2012

Chico Bento joga tatu-bola, ilustração de Maurício de Sousa.

O buraco do tatu

Sérgio Caparelli

O tatu cava um buraco

a procura de uma lebre,

quando sai pra se coçar,

já está em Porto Alegre.

O tatu cava um buraco,

e fura a terra  com gana

quando sai pra respirar

já está em Copacabana.

O tatu cava um buraco

e retira a terra aos montes,

quando sai pra beber água

já está em Belo Horizonte.

O tatu cava um buraco

dia e noite, noite e dia,

quando sai pra descansar,

já está lá na Bahia.

O tatu cava um buraco,

tira a terra, muita terra,

quando sai por falta de ar,

já está na Inglaterra.

O tatu cava um buraco

e some dentro do chão,

quando sai pra respirar,

já está lá no Japão.

O tatu cava um buraco

com as garras muito fortes,

quando quer se refrescar

já está no Polo Norte.

O tatu cava um buraco

um buraco muito fundo,

quando sai pra descansar

já está no fim do mundo.

O tatu cava um buraco,

perde o fôlego, geme, sua,

quando quer voltar atrás,

leva um susto, está na lua.

Em: Boi da cara preta, Sérgio Caparelli, Porto Alegre,  LPM: 2000, 27ª edição