O verde do meu bairro: Extremosa, ou Resedá

11 11 2012

Há algumas extremosas no meu bairro.  Sei que elas são muitas vezes vistas com desagrado, quase como uma praga, porque foram usadas para a arborização em muitas cidades brasileiras, em ruas movimentadas, em detrimento de outras espécies.  Nessa escolha importaram as qualidades: beleza, baixa altura, raízes que não destroem as calçadas e resistência.  A extremosa ou resedá não é nativa do Brasil e  pode criar problemas para muitas das árvores nativas de maior porte.  Talvez seja por isso, que nos EUA, nos estados  onde morei – Maryland, Virginia, Washington DC e Carolina do Norte–  elas são usadas em grande escala só nos canteiros do meio das estradas,  embelezando, delimitando e, por causa de sua baixa estatura, ajudando a bloquear a luz de caminhões vindos no sentido contrário.  Também são usadas nas beira de estradas, com uma boa separação de grama entre elas e a vegetação nativa.  Podemos ver na foto abaixo, um exemplo de como são usadas. Claro que muitas pessoas plantam resedás em seu jardim, mas simplesmente como um foco de cor para o verão, uma única árvore, onde podem ser vigilantes quanto às pragas.

Por que elas são olhadas com desconfiança?  Sua praticidade – fácil reprodução, manutenção e raízes que não prejudicam calçadas – levou muitos municípios brasileiros a plantarem quase que exclusivamente as extremosas em suas vias públicas.  Isso não só leva à possibilidade de monocultura, como pode afetar as árvores nativas porque o resedá é suscetível ao abrigo de pragas, como erva de passarinho, que vivem da habilidade de extrair seus nutrientes das árvores em que se instalam.  Seu uso tem sido desencorajado.  Mas mesmo assim, é um belo respingo de cor na paisagem, que, aqui no Rio de Janeiro, atravessa duas estações: primavera, verão.

Natural da Índia e da China, os primeiros pés de extremosa foram trazidos para os EUA ainda no século XVIII, mais precisamente em 1790, pelo botânico francês André Michaux (1746-1802), autor entre outros das obras: Histoire des chênes de l’Amérique, 1801 [História dos carvalhos da América] e Flora Boreali-Americana, 1803 [Flora da América do Norte].

A extremosa (Lagerstroemia indica) recebe diversos nomes no Brasil: Resedá, Suspiros, Julieta, Árvore-de-júpiter, Flor-de-merenda, Mumiquilho.  Caiu no gosto popular por causa de sua função decorativa.  Tem flores  em forma de espigas.  Dependendo da região onde é plantada floresce no verão ou no verão e na primavera (como é o caso aqui no Rio de Janeiro, onde a primavera é quente).  Suas flores podem ser de três cores: branca, rosa ou vermelha.  Deve ser podada durante o inverno e as flores aparecerão na ponta dos ramos que foram podados.   Suas folhas são elípticas alongadas.  Nas regiões frias a árvore perde todas as folhas no inverno.  Chega aos 6 metros de altura.

Para maiores informações:

Meu cantinho





Imagem de leitura — Ivan Olinsky

10 11 2012

Narcissa Vanderlip, aos 11 anos, 1915

Ivan Olinsky (Rússia/EUA, 1878-1962)

óleo sobre tela

Ivan Olinsky nasceu em Elizabethgrad na Rússia 1878.  Emigrou para os EUA, por volta de 1891, quando tinha 13 anos.  Dois anos depois começou a estudar com  J. Alden Weir, George W. Maynard e Robert Vannoh na National Academy de Design em Nova York.  Estabeleceu-se em Old Lyme, Connecticut.  Pintor e professor de pintura, ficou conhecido principalmente por seus retratos um tanto influenciados pelo impressionismo.  Expôs extensamente nos Estados Unidos onde adquiriu um bom número de seguidores.  Faleceu nos EUA, em Nova York, em 1962.





Quadrinha, trova, da lágrima

10 11 2012

Moça chorando, 1964

Roy Lichtenstein

Esmalte sobre placa de aço, 116 x 116 cm

Edição: 5

A lágrima é um pingo d’água,
Irizado e transparente:
– A bailarina da mágoa
Dançando no olhar da gente.

(João Rangel Coelho)





As voltas que a vida dá

9 11 2012

Publicado no jornal O GLOBO, 9 de novembro de 2012.

Por que o ensino de história é tão  enjoado para a maioria das crianças e dos adolescentes?  Foi para mim.  Minhas melhores matérias no Colégio Pedro II foram línguas, biologia, química e física.  Cheguei a pensar em fazer medicina.  Mas alguma coisa, inconsciente ainda, me levou a abandonar essa ideia, cursar um ano de vestibular para aprender latim e entrar para a faculdade de letras.

Só mais tarde, quando descobri a história da arte e saí do Brasil para me formar exclusivamente em história da arte, vim a gostar de história. Hoje leio livros de história, secos e documentados, com páginas e páginas de notas de rodapé com um prazer indescritível, como se fossem romances, ainda que meu treino como historiadora da arte, como é feito fora do Brasil, não tenha sido em História, mas sim em Arte.

Gostei muito dos gregos e romanos quando tinha uns doze ou treze anos.  Até então grande parte do meu conhecimento de história tinha suas raízes em Monteiro Lobato, do volume História do Mundo para Crianças, que fazia parte da coleção de Monteiro Lobato, que meus pais haviam nos dado, a mim e a meus irmãos. Mas depois dessas duas fases a história me perdeu.  Naquela época punha-se muito esforço em datas e muito pouco em documentação.   Fiquei impressionada, quando já quase entrando para a faculdade, fui apresentada ao texto completo da Carta de Caminha.  Por que não a conhecera antes?

Só muitos anos depois, descobri que documentos primários como a Carta de Caminha seriam uma das minhas grandes paixões. E assim quase perdi a oportunidade de me dedicar ao conhecimento do passado que se tornou parte das minhas profissões e que me deu tanto prazer.  Quantos mais historiadores perdemos no caminho por não sabermos como atrair a atenção de nossos alunos?

Espero que hoje com as possibilidades multimídia isso tenha se resolvido para melhor.  Sim, tenho esperanças, porque o aluno que não é atraído por um texto pode ser por um filme, ou uma música ou uma pintura.  Espero, porque acredito na antiga profecia de Edmund Burke, filósofo e político irlandês:  “Quem não conhece a sua história tem por destino repeti-la“.  Tenho esperanças de que este augúrio não nos aflija!





Cantigas — poesia de Jorge de Lima

9 11 2012

Lavadeiras no Rio Piabanha em Petrópolis, s/d

Carlos Gomes (Brasil, 1934-1990)

óleo sobre tela, 56 x 48 cm

Cantigas

Jorge de Lima

As cantigas lavam a roupa das lavadeiras.

As cantigas são tão bonitas, que as lavadeiras

ficam tão tristes, tão pensativas!

As cantigas tangem os bois dos boiadeiros!

Os bois são morosos, a carga é tão grande!

O caminho é tão comprido que não tem fim.

As cantigas são leves…

E as cantigas levam os bois, batem a roupa

das lavadeiras.

As almas negras pesam tanto, são

tão sujas como a roupa, pesadas

como os bois…

As cantigas são tão boas…

Lavam as almas dos pecadores!

Levam as almas dos pecadores!

Em: Poesia Brasileira para a Infância, de Cassiano Nunes e Mário da Silva Brito, São Paulo, Saraiva: 1968

Jorge Mateus de Lima (União dos Palmares, AL, 23 de abril de 1893 — Rio de Janeiro, 15 de novembro de 1953) foi político, médico, poeta, romancista, biógrafo, ensaísta, tradutor e pintor brasileiro.

Obras:

Poesia:

XIV Alexandrinos (1914)

O Mundo do Menino Impossível (1925)

Poemas (1927)

Novos Poemas (1929)

O acendedor de lampiões (1932)

Tempo e Eternidade (1935)

A Túnica Inconsútil (1938)

Anunciação e encontro de Mira-Celi (1943)

Poemas Negros (1947)

Livro de Sonetos (1949)

Obra Poética (1950)

Invenção de Orfeu (1952)

Romance:

O anjo (1934)

Calunga (1935)

A mulher obscura (1939)

Guerra dentro do beco (1950)





Palavras para lembrar — Arthur Phelps

9 11 2012

Menina com livro, s/d

Murman Kuchava (Georgia, 1962)

óleo sobre tela

“A leitura às vezes é uma engenhosa ferramenta para evitar a reflexão.”

Arthur Phelps





E você como organiza a sua biblioteca?

8 11 2012

A bibioteca da Filadélfia, 1875

George Bacon Wood ( EUA, 1832-1910)

óleo sobre tela

Como anda a sua biblioteca particular?  Geraldine Brooks publicou uma pequena crônica no The Global Mail, titulada People of the Bookshelf [Gente da Prateleira de Livros] muito engraçada sobre os hábitos das pessoas ao guardarem livros.  Assumindo que a maioria de nós não é profissional de biblioteca, não trabalha com catalogação, que normas devemos seguir? Há aqueles que os guardam em ordem por autor, — último nome sendo o normal nos países de língua inglesa — e aqueles que os guardam por título.  E quando se trata de biografias?  Vamos por biografado ou pelo autor?

Parece uma questão supérflua, mas acho que a organização de livros demonstra parcialmente o que eles representam para nós.  As minhas estantes estão organizadas só por assunto: História Antiga, Medieval, Surrealismo, Renascença, Romances.  Depois dentro de cada uma dessas há subdivisões.  Literatura sempre foi divida pelos países de origem e pelas línguas… E biografias são organizadas de acordo com o biografado e não com o autor… Depois de notar esses detalhes, sobre os quais nunca havia pensado, concluo: organizo tudo pelo assunto.

E vocês?





Sobre música, trecho de Amsterdam de Ian McEwan

6 11 2012

Sra. Meigh ao piano-órgão, 1883

William Merrit Chase ( EUA, 1849-1916)

óleo sobre tela, 66 x 47 cm

Coleção Particular

“Este era o ataque. A apologia tomava emprestado e distorcia o velho estratagema do Eclesiastes: era tempo de resgatar a música das mão dos “donos daa verdade”, e era tempo de reafirmar a comunicabilidade essencial da música, que havia sido forjada, na Europa, numa tradição humanista que sempre reconhecera o enigma da natureza humana; era tempo de aceitar que uma execução para o público constituía uma “comunhão laica”, e era tempo de reconhecer a primazia do ritmo e do tom, bem como a natureza básica da melodia. Para que isso acontecesse sem apenas repetir a música do passado, cumpria formular uma definição contemporânea de beleza, o que, por sua vez, era impossível sem que se compreendesse uma “verdade fundamental”.  Nesse ponto, Clive se valeu ousadamente de alguns ensaios inéditos e altamente especulativos de um colega de Noam Chomsky, que ele tinha lido quando passara férias na casa do autor, em Cape Cod: nossa capacidade de “ler” ritmos, melodias e harmonias agradáveis, assim como a faculdade exclusivamente humana da linguagem, era geneticamente determinada. Segundo os antropólogos, esses três elementos deviam existir em todas as culturas musicais. Nosso ouvido para harmonia era inato. (Além disso, sem um contexto envolvente de harmonia, a dissonância não fazia sentido e se tornava desinteressante.) Compreender uma linha melódica era um ato mental complexo, mas passível de ser executado até por uma criança bem pequena;  já nascíamos com uma herança, éramos o Homo musicas; portanto, definir a beleza na música implicava uma definição da natureza humana, o que nos trazia de volta às humanidades e à capacidade de comunicação…”

Em: Amsterdam, de Ian McEwan, São Paulo, Companhia das Letras:2012, tradução de  Jorio Dauster.





Morres de fraco? Morres de atrevido. – Soneto de Bocage

6 11 2012

Leitora, 1921

Eugen Spiro (Alemanha, 1874-1972)

óleo sobre tela

Sammlung F.Benjamin, Berlim-Grünewald

VIII

Bocage

Aflito coração, que o teu tormento,

Que os teu desejos tácito devoras,

E ao  doce objeto, às perfeições adoras,

Só te vás explicar co(m) pensamento.

Infeliz coração, recobra alento,

Seca as inúteis lágrimas, que choras;

Tu cevas o teu mal, porque demoras

Os voos ao ditoso atrevimento.

Inflama surdos ais, que o medo esfria;

Um bem tão suspirado, e tão subido,

Como se há de ganhar sem ousadia?

Ao vencedor afoute-se o vencido;

Longe o respeito, longe a cobardia;

Morres de fraco? Morres de atrevido.





Imagem de leitura — Francisco Manna

5 11 2012

Descanso no parque

Francisco Manna (Itália, 1879 – Brasil, 1943)

óleo sobre tela, 80 x 72 cm

Coleção Particular

Francisco Manna nasceu na Sicília, na Itália em 1879.  Imigrou para o Brasil, em 1888, onde primeiro se radicou no Rio Grande do Sul, em Porto Alegre, onde aprendeu os rudimentos da pintura com o artista plástico Romoaldo Pratti.  Depois, em 1903, aos 25 anos mudou-se para o Rio de Janeiro onde estudou pintura na Escola Nacional de Belas Artes com Henrique Bernardelli, Zeferino da Costa e Baptista da Costa.  Aluno aplicado, logo, em 1906 consegue menção honrosa no Salão. Faleceu no Brasil em 1943.