Boatos e pânico em Itapetininga, 1932

21 07 2008

Em combate

Em Combate

 

Quarta-feira, 21 de julho de 1932

 

Boatos.  Guerra de boatos.  Ofensiva e defensiva radio telefônica entre a P.R.A. X do Rio e a Rádio Record de S. Paulo!  Há pânico na cidade motivado pelo recuo de Faxina. [?] [sic]  Um avião lançou bombas no campo de aviação.

 

 

 

Transcrição do Diário de Gessner Pompílio Pompêo de Barros (MT 1896 – RJ 1960), Itapetininga, SP,  página 129, em referência à Revolução Constitucionalista de 1932.

 





TÊNIS, poema de Guilherme de Almeida, infantil

21 07 2008

 

TÊNIS

 

A titia

borda e espia

o gato branco, enroscado

no feltro verde da mesa

e acordado,

com certeza.

 

Um novelo

cai.  E, ao vê-lo,

o gato bate na bola

e a bola, branca de neve,

pula e rola,

fofa e leve…

 

Silenciosa,

vagarosa,

 uma duas angolinhas…  

a bola solta uma lenta,

longa linha

que se aumenta.

 

Pouco a pouco,

no mais louco

desnorteante corrupio,

a bola desaparece.

Mas o fio

Cresce… cresce…

 

 

Guilherme de Almeida

 

 

 

Guilherme de Andrade e Almeida – (SP 1890 — SP 1969) foi um advogado, jornalista, poeta, ensaísta e tradutor brasileiro.

 

Principais Obras

Poesia

Nós (1917);

A dança das horas (1919);

Messidor (1919);

Livro de horas de Soror Dolorosa (1920);

Era uma vez… (1922);

A flauta que eu perdi (1924);

Meu (1925);

Raça (1925);

Encantamento (1925);

Simplicidade (1929);

Você (1931);

Poemas escolhidos (1931);

Acaso (1938);

Poesia vária (1947);

Toda a poesia (1953).

Ensaios:

Do sentimento nacionalista na poesia brasileira, (1926);

Ritmo, elemento de expressão (1926)

 





Diferenças entre cérebros femininos e masculinos

21 07 2008
Adão e Eva Iluminura, Manuscrito Hunterian 209, séc. XII Universidade de Glascow, Escócia.

Adão e Eva Iluminura, Manuscrito Hunterian 209, séc. XII Universidade de Glascow, Escócia.

 

No jornal britânico The Independent do dia 18 deste mês, encontrei um artigo de Michael McCarthy, na seção de ciências, que achei bastante interessante.  Tudo indica que os cérebros dos homens e das mulheres apresentam maiores diferenças do que até hoje se assumia.

 

Sou filha de um cientista e me lembro de meu pai recitando as diferenças entre os cérebros masculinos e femininos, em termos de peso e de tamanho.  Tal critério foi, por muitos anos, por gerações mesmo, usado para justificar idéias sociais absurdas: porque não se precisava dar atenção à educação das mulheres (com um cérebro menor reteriam menos informação),  justificando, em muito, a até então considerada superioridade masculina.  Isto tornou este tópico de especial interesse para mim, que apesar de não ser cientista, sempre mantive os olhos e ouvidos bem abertos para o assunto.  

 

O resultado da pesquisa mais recente sobre as diferenças dos cérebros entre homens e mulheres é que na verdade eles parecem ser dois tipos diferentes de cérebros, ambos pertencentes à raça humana.  O que indica esta diferenciação são três pontos nunca antes percebidos em conjunto: 1) a “planta baixa”, ou seja, o mapeamento dos cérebros dos seres humanos é diferente de acordo com o sexo; 2) os circuitos que conectam partes de cada cérebro também apresentam diferenças essenciais; 3) os agentes químicos que transmitem as mensagens dentro do cérebro também são diferenciados.  Estas três grandes diferenças justificam o que antes se considerava serem diferenças causadas por hormônios sexuais, pressões sociais e diversas peculiaridades anatômicas.   Mas, anteriormente, não havia uma maneira de se saber por que, por exemplo, problemas de saúde mental são diferenciados de acordo com o sexo da pessoa, assim como por que certos remédios são mais eficazes nos homens do que nas mulheres?

 

As diferenças encontradas se concentram, até o momento, no lóbulo frontal, que é considerado o local onde decisões são tomadas e problemas resolvidos.   Nas mulheres esta região é bem maior do que nos homens.  As emoções, por tanto tempo associadas ao sexo feminino, realmente têm razão de ser, pois estão fomentadas, reconhecidas e localizadas no córtex límbico — que é também  maior nas mulheres do que nos homens.   Outra grande diferenciação aparece no hipocampo – o local responsável pela memória recente assim como navegação espacial. 

 

Nos homens são maiores: o córtex parietal — responsável pela percepção do espaço; e a amídala — local determinante do comportamento emocional, sexual e social do homem.  Assim tudo indica que há uma paridade entre diferença de tamanho e diferença de organização funcional.

 

Estas diferenças ajudariam a explicar alguns dos quebra-cabeças da ciência: 1) por que mulheres conseguem agüentar dores por longos períodos de tempo 2) por que mulheres e homens diferem nas reações ao ópio e seus derivados.  Mulheres são mais sensíveis ao ópio com analgésico ao passo que homens são mais suscetíveis aos analgésicos baseados na morfina. 

 

Como até hoje todos os remédios e todos os estudos sobre o cérebro humano têm sido baseados simplesmente no cérebro masculino há chance de que muitas novidades ainda estejam para serem descobertas e divulgadas, quando os cérebros femininos forem tão estudados quanto os masculinos.





Tropas parecem recuar — Diário pessoal de 1932

20 07 2008
Estudantes de Direito no Largo de São Francisco, 1932.   São Paulo, Capital

Estudantes de Direito no Largo de São Francisco, 1932. São Paulo, Capital

 

 

Terça feira, 20 de julho de 1932

 

Continuam a ferver boatos.  Fala-se que as forças paulistas recuaram para Faxina [?] {ilegível}.

 

Transcrição do Diário de Gessner Pompílio Pompêo de Barros (MT 1896 – RJ 1960), Itapetininga, SP,  página 129, em referência à Revolução Constitucionalista de 1932.





Traição em Itararé? — Diário, revolução de 1932

19 07 2008

Tropas na estação de Itararé, 1932. Foto: Marcello Talamo

 

Segunda, 19 de julho de 1932

 

 

As tropas paulistas fazem a sua retirada de Itararé, dizem que, por traição de elementos do Gal. Miguel Costa, daquela cidade.  Fala-se que na retirada, estabeleceram-se as tropas paulistas nas imediações da estação de Eng°  Maia.

 

 

Transcrição do Diário de Gessner Pompílio Pompêo de Barros (MT 1896 – RJ 1960), Itapetininga, SP,  página 129, em referência à Revolução Constitucionalista de 1932.

 

 





O Patinho, poema infantil: Francisca Júlia

18 07 2008

 

O PATINHO

 

 

O pintainho do pato,

galante, amarelo e novo,

mal saiu da casca do ovo,

busca as águas do regato.

 

Todo ele, tão lindo e louro,

enquanto nas águas bóia,

tem a graça de uma jóia

feita em ouro.

 

 

 

Francisca Júlia

 

 

Francisca Júlia da Silva Munster (SP 1871 – SP 1920)  Poetisa brasileira.

 

 

 

Obras:

 

 

1895 – Mármores

1899 – Livro da Infância

1903 – Esfinges

1908 – A Feitiçaria Sob o Ponto de Vista Científico (discurso)

1912 – Alma Infantil (com Júlio César da Silva)

1921 – Esfinges – 2º ed. (ampliada)

 





Um domingo com boatos, Revolução de 1932

18 07 2008

Nas ruas da capital

Nas ruas da capital

 

Domingo, 18 de julho de 1932

 

 

Já a população tem ciencia de que São Paulo está só, com o sul matogrossense.  Boatos a granel são propalados na cidade

 

 

Transcrição do Diário de Gessner Pompílio Pompêo de Barros (MT 1896 – RJ 1960), Itapetininga, SP,  página 129, em referência à Revolução Constitucionalista de 1932.





BASTOS TIGRE, poema infantil: Os Dentes

17 07 2008

 

OS DENTES

 

Devemos os nossos dentes

Zelar com o maior rigor.

Ser, com eles, negligentes,

Causa sempre dissabor.

 

            Deles tudo se remova

            Que os possa prejudicar,

            Limpando-os com água e escova

            Pela manhã e ao deitar.

 

E toda atenção é pouca

No cuidá-los muito bem.

Se entra a vida pela boca,

Entra a moléstia também.

 

            A cárie apenas começa?

            Não se dê parte de fraco:

Vá-se ao dentista depressa

Que sempre a cárie é um “buraco”.

 

Dos dentes mantendo o asseio

Podemos ficar contentes,

Pois quase não há receio

De chorar com dor de dentes.

 

 

 

Bastos Tigre

 

 

Manuel Bastos Tigre (PE 1882 – RJ 1957) — foi um bibliotecário, jornalista, poeta, compositor, humorista e destacado publicitário brasileiro.

 

Obras publicadas:

 

Saguão da Posteridade, 1902.

Versos Perversos, 1905.

O Maxixe, 1906.

Moinhos de Vento, 1913.

O Rapadura, 1915.

Grão de Bico, 1915.

Bolhas de Sabão, 1919.

Arlequim, 1922.

Fonte da Carioca, 1922.

Ver e Amar, 1922.

Penso, logo… eis isto, 1923.

A Ceia dos Coronéis, 1924.

Meu bebê, 1924.

Poemas da Primeira Infância, 1925.

Brinquedos de Natal, 1925.

Chantez Clair, 1926.

Zig-Zag, 1926.

Carnaval: poemas em louvor ao Momo, 1932.

Poesias Humorísticas, 1933.

Entardecer, 1935.

As Parábolas de Cristo, 1937.

Getúlio Vargas, 1937.

Uma Coisa e Outra, 1937.

Li-Vi-Ouvi, 1938.

Senhorita Vitamina, 1942.

Recitália, 1943.

Martins Fontes, 1943.

Aconteceu ou Podia ter Acontecido, 1944.

Cancionário, 1946.

Conceitos e Preceitos, 1946.

Musa Gaiata, 1949.

Sol de Inverno, 1955.

 

 

Do livro:

 

Criança Brasileira: segundo livro de leitura, Theobaldo Miranda Santos, Agir: 1950, Rio de Janeiro.





Luta ao sul, na fronteira com o Paraná, Revolução de 1932

17 07 2008

 

Laire Jorge Giraud.

                Soldados Paulistas embarcam na Estação da Luz em São Paulo.

 

Sábado, 17 de julho de 1932

 

 

Chegam notícia de grandes combates em Ribeira e Itararé.  As tropas paulistas mantêm porem, as suas posições.  Chovem boatos sobre a cidade.

 

 

Transcrição do Diário de Gessner Pompílio Pompêo de Barros (MT 1896 – RJ 1960), Itapetininga, SP,  página 128, em referência à Revolução Constitucionalista de 1932.

 

 

NOTA Peregrina:

 

Meu avô se refere à Ribeira, significando Capela da Ribeira, localizada ao sul do Estado de São Paulo, onde o 2° Grupo de Artilharia de Dorso lutou.





Correspondência de Fernando Pessoa vai ser leiloada

17 07 2008

 

Num artigo publicado ontem, 15/7/2008, no New York Times, por Michael Kimmelman, soube da gritaria, da confusão lusitana ao redor da venda da correspondência de Fernando Pessoa ao escritor britânico Aleister Crowley.  Esta correspondência do poeta português com o místico escritor britânico foi iniciada em 1930.  Sua venda, negociada pelos herdeiros de Fernando Pessoa, está marcada para o período de alta visibilidade na Europa, o outono, que é a estação de abertura dos eventos culturais do ano e será feita em leilão público.  A confusão é gerada pela reclamação de alguns da saída do país de documentos de tal importância.

 

Mas, é justamente de vendas como esta, que a Biblioteca Nacional de Portugal pode se beneficiar, como já o fez no ano passado quando arrematou, para seu acervo, cadernos de notas de Fernando Pessoa.  Como Kimmelman em seu artigo lembra, a maior parte da obra de Pessoa está em manuscritos, nunca tendo sido publicada — diz-se que chegam aos 30.000, ainda guardados em baús na última moradia do escritor. 

 

A decisão dos herdeiros de venderem pelo maior e melhor preço estes documentos é volátil.  Recentemente o ministro da cultura de Portugal, José Antonio Pinto Ribeiro, lembrou, numa conferência aberta ao público na Casa Fernando Pessoa, que o estado português tem o poder de manter dentro de seu território qualquer objeto (e os manuscritos se enquadram aqui) que achar ser necessário para o patrimônio nacional.  A mensagem, bem entendida por Manuela Nogueira, a sobrinha de Fernando Pessoa, que se encontrava na audiência, era de que ela não se sentisse muito confiante, porque a qualquer momento o governo poderia decidir que tais documentos eram do interesse cultural do país e não só proibir sua venda, como também tombar tais documentos, e nada dar aos herdeiros em troca. 

 

Manuela Nogueira já estava preparada para a luta.  Já havia fotografado tudo que pretendia vender de modo que cópias estarão sempre abertas para estudiosos, não importando o destino final dos originais.  Além do que, um contrato já havia sido assinado por ela e pela casa de leilões.

 

O artigo de Michael Kimmelman continua então com considerações sobre Pessoa e sobre a alma portuguesa, inclusive opiniões sobre a última, com uma breve entrevista sublinhando as opiniões de Inês Pedrosa, a escritora que esteve recentemente aqui em Paraty, na FLIP [Feira Literária Internacional de Paraty] deste ano.  O artigo revela também algumas opiniões de Jerônimo Pizarro diretor da Casa Fernando Pessoa, em Lisboa.  Mas, o assunto pelo qual tenho interesse aqui é diferente daquele enfatizado pelo New York Times, que se mostrou mais interessado em mostrar a forma peculiar, culturalmente falando, de pensar dos portugueses – um artigo até bastante irônico. O que me interessa é ponderar sobre os diversos direitos envolvidos neste caso, para que possamos, no futuro, pensar em como resolver situações semelhantes que certamente ocorrerão na tentativa de preservação de uma cultura brasileira:

 

1° – Tanto no Brasil como em Portugal seria necessário tornar mais claras as regras estabelecidas para dar prioridade ao que deve ou não ser preservado dentro do país.

 

2° – Acredito que os herdeiros têm todo o direito de vender os documentos.  Muitos autores, com herdeiros, fazem projetos de vida contando com esta possibilidade de renda para as gerações futuras, assim como os grandes donos de terras o fazem.

 

3° – Também acredito que o governo tem todo o direito de comprar os documentos.  Se são de tamanha importância como se diz, tenho certeza que qualquer governo acharia os meios de comprá-los no leilão, ou seja ao valor estabelecido pelo mercado.

 

4° – Onde há vontade há um meio.  O governo pode se juntar a diversas ONGs culturais para comprar os documentos e mantê-los na Biblioteca Nacional ou em alguma outra instituição pública de acesso livre aos estudiosos.

 

5° – Nada impede que um grupo de intelectuais e outros interessados, que hoje choram e gritam lamentando a perda física dos documentos, não se cotizem para comprá-los e depois doá-los ao país.  Acho que as pessoas têm que aprender a colocar o dinheiro onde insistem ser um bom investimento, quer seja cultural ou econômico.

 

6° – Não há nada mais injusto do que o governo proibir alguém de vender algum objeto ou documento por o haver declarado Patrimônio Nacional, tombá-lo e não indenizar o atual dono do patrimônio ao preço de mercado.

 

7° – Se nenhuma destas possibilidades aparecerem, por que os documentos não podem sair do país e serem velados por uma outra instituição de responsabilidade social como seria o caso de uma biblioteca especializada em manuscritos de grandes autores?

 

8° – Último, estive vendo, no outro dia que a Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro é a 7ª maior biblioteca do mundo.  ALÔ !!!!  Diretores da BN, está na hora de aumentarmos o nosso patrimônio!  Tenho certeza de que Portugal preferiria que nós  brasileiros – da mesma pátria, porque afinal nossa língua é nossa pátria – fossemos os guardiões destes documentos.  Melhor do que qualquer outro país que se interessar possa, não é mesmo?