O vaivém, Lindolfo Gomes

22 04 2024

 

 

 

O vaivém

 

Lindolfo Gomes

 

Era um dia um velho chamado Zusa, que trabalhava pelo ofício de carapina. A sua oficina era um brinco, sempre muito asseada, a ferramenta muito limpa, tudo nos seus lugares.

 

Mas a mania do velho era batizar cada ferramenta com um nome apropriado. O martelo chamava-se toc-toc, o formão, rompe-ferro, o serrote, vaivém.

 

Quando um carapina do lugar precisava de uma, corria logo à oficina do Zusa, a pedir-lhe de empréstimo.

 

Mas, tantas lhe fizeram, demorando a entrega ou ficando com as ferramentas algumas vezes, que o velho resolveu parar com os empréstimos.

 

Certo dia foi à oficina um menino, de mando dopai, e disse:

 

— Papai manda-lhe muitas lembranças e também pedir-lhe emprestado o vaivém.

 

Mestre Zusa pôs as cangalhas no nariz e respondeu:

 

— Menino, volta e diz a teu pai que se vaivém fosse e viesse, vaivém ia, mas como vaivém vai e não vem, vaivém não vai.

 

 

 

Em: Contos Populares Brasileiros, São Paulo, Melhoramentos: 1965, p. 36





Trova das lembranças

18 04 2024
Ilustração, Blanche Fisher Wright

 

São, com os ventos passantes,

plantadas como sementes.

Lembranças são diamantes,

eternas em nossas mentes!

 

(Rita Bernardete Sampaio Velosa)





Outono: Elizabeth George Speare

17 04 2024

Paisagem com homem e arado, 1889

Vincent van Gogh  (Holanda, 1853-1890)

óleo sobre tela, 33 x 41 cm

Hermitage, Rússia

 

 

 

 

“Depois dos dias grandiosos de setembro, o sol de outubro encheu o mundo com calor ameno… A árvore de bordo frente à entrada queimava como uma gigantesca tocha vermelha.  Os carvalhos ao longo da estrada brilhavam em amarelo e bronze. Os campos se estendiam como um tapete de joias, esmeralda e topázio e granada.  Para qualquer lado que ela fosse a cor gritava e cantava à sua volta… Em outubro qualquer evento inesperado é possível.”

 

Elizabeth George Speare, The Witch of Blackbird Pond  — tradução deste trecho: Ladyce West

 

 

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“After the keen still days of September, the October sun filled the world with mellow warmth…The maple tree in front of the doorstep burned like a gigantic red torch. The oaks along the roadway glowed yellow and bronze. The fields stretched like a carpet of jewels, emerald and topaz and garnet. Everywhere she walked the color shouted and sang around her…In October any wonderful unexpected thing might be possible.”
― Elizabeth George Speare, The Witch of Blackbird Pond




Veja que boa recomendação!

16 04 2024

 

 





Sobre advogados…

13 04 2024

Escritório de advogados, 1545

Marinus van Reymerswaele (Flandres, 1490-1546)

óleo sobre madeira, 102 x 124 cm

 

 

 

Quantas coisas aprendi no exercício da minha função! Vi um pai morrer num celeiro, sem um tostão, abandonado por duas filhas a quem havia doado quarenta mil libras de renda! Vi testamentos serem queimados; vi mães despojarem seus filhos, maridos roubarem suas mulheres, mulheres matarem seus maridos valendo-se do amor que lhes inspiravam para torná-los loucos ou imbecis, a fim de viver em paz com um amante. Vi mulheres darem ao filho de um primeiro leito gotas que acarretariam sua morte, a fim de enriquecer o filho do amor. Não posso lhe contar tudo o que vi, porque vi crimes contra os quais a Justiça é impotente. Enfim, todos os horrores que os romancistas creem inventar ficam sempre aquém da verdade. O senhor vai conhecer todas essas belas coisas, deixo-as ao senhor; quanto a mim, vou viver no campo com minha mulher, Paris me horroriza.

 

 

(Trecho, que se refere à novela de Honoré de Balzac, titulada Coronel Chabert)

 

 

 

Em: Os enamoramentos, Javier Marías, Rio de Janeiro, Cia das Letras: 2012





Trova do outono

10 04 2024

 

 

Outono, folhas rolando,

amarelas pelo chão,

lembram minh’alma chorando

os sonhos que ao longe vão.

 

(Georgina M. Xavier)





Lugares imaginários: Castelo da Bela Adormecida

3 04 2024
Ilustração de Arthur Rackham (Inglaterra, 1867-1939). Edição de 1925.

 

Nesta ilustração vemos o castelo da Bela Adormecida rodeado pelas rosas silvestres, cheias de espinhos. Arthur Rackham ficou conhecido por suas inúmeras ilustrações de livros para crianças além dos contos de fadas dos irmãos Grimm, mas também ilustrou obras para adultos como Sonhos de Uma Noite de Verão de Shakespeare, contos de Edgar Allan Poe, entre outros.

A descrição original do Castelo da Bela Adormecida retratava um palácio na Europa Central, com inúmeros aposentos, escadas em espiral e torres.  O encantamento da Bela Adormecida, veio no Século XVIII, quando a princesa Rosamunda nasceu.  Para celebrar seu nascimentos doze feiticeiras foram chamadas pelos pais para dar proteção à menina recém-nascida, no entanto uma importante feiticeira foi esquecida na lista de convidados.  Ciumenta, raivosa ela prometeu vingança.  Assim, no dia em que Rosamunda fez quinze anos, feriu seu dedo no fuso da roca, caindo imediatamente em sono profundo.  Cem anos se passariam até que a princesa acordasse.  O castelo nesse meio tempo foi completamente coberto por um emaranhado de roseiras silvestres, o que aumentava ainda mais a dificuldade de se chegar ao castelo.

Uma nota de interesse: o castelo do rei Ludwig da Bavária, foi construído inspirado no conto da Bela Adormecida dos irmãos Grimm. Este por sua vez serviu de modelo para o castelo do desenho animado de Walt Disney.





Busca, poema de Flora Figueiredo

1 04 2024
Ilustração de Yan Nascimbene (França, 1949-2013)
 
 
 
Busca

Flora Figueiredo

Encosta teu sentido

nesse pedaço de céu descolorido

e nota:

esmoreceu o voo da gaivota,

o arrulho do pombo arrefeceu.

Desbotou-se o azul,

sujou-se o branco

e o sol rolou pelo barranco

no último troar do vento sul.

Calou-se o clarim do anjo

e sua lira

pois até mesmo a passarada se retira

por não te ver amante ao meu lado.

E nesse vão de vida devassado

eu me confundo:

vou procurar teu beijo perfumado

num clarão de lua derrubado

além da dobra final do fim do mundo.

Em: Florescência, Flora Figueiredo, Rio de Janeiro, Nova Fronteira: 1987, p.64





Saudade, poesia de Januário dos Santos Sabino

28 03 2024

Leitora no jardim, final da década de 1960

Cesare Peruzzi (Itália, 1894-1995)

óleo sobre tela, 33 x42 cm

 

 

Saudade

 

Januário dos Santos Sabino

 

Quando o sol já no poente

Perde o brilho, a cor desmaia

E louca vaga gemente

Se desenrola na praia;

 

Quando alegre o coleirinho,

No galho da pitangueira,

Trina à beira do seu ninho

Doce canção feiticeira;

 

Quando a flor n’haste pendida,

Mais grato perfume exala,

E a natureza sentida

Como que, cantando fala:

 

Eu sinto, minha alma então

Divagar na imensidade

Dos cismares da paixão,

Levada pela saudade;

 

Lembra-me o tempo encantado,

Que eu a teu lado passei…

Ah!… com então enlevado,

No teu amor me inspirei!

 

Minha vida que então era,

Arruinado jardim,

Transformou-se em primavera,

Teve rosas e jasmim;

 

E as ondas procelosas,

Do mar de minha existência,

Se acalmaram bonançosas,

Ao teu sorrir de inocência;

 

Mas agora, — ave sem ninho,

A doudejar no deserto,

Cego em busca do caminho,

Com passo tardio e incerto;

 

Lembrando esse momento,

De tão venturosa idade,

Só encontro um sentimento,

Uma palavra – saudade!

 

Revista O Cysne, ano I, nª 1, 1864

 

Januário dos Santos Sabino (Brasil, 1836?- 1900)





Livros de viagens e a Rota da Seda…

25 03 2024
Alguns dos meus muitos, dezenas mesmo, de livros de viagem começados pelo interesse na Rota da Seda.  Livros retratados: The Desert Road to Turkestan de Owen Lattimore, The Great Game de Peter Hopkirk, My Life as an Explorer de Sven Hedin, The Roads to Sata:a 2000 miles walk through Japan de Alan Booth e Looking for the Lost: Journeys through a Vanishing Japan, Alan Booth.

 

 

Ontem li um artigo da BBC History Magazine sobre o que era comercializado na Rota da Seda.   A Rota da Seda foi uma das minhas grandes paixões (acho que ainda é), que gerou leituras extravagantes sobre os caminhos do comércio da Antiguidade em diante.  Essa curiosidade sobre esse caminho conhecido muito antes de Cristo foi, provavelmente, o ponto de partida para que um de meus hobbies seja ler sobre o comércio desde a antiguidade, por distração.  Para mim é romântico imaginar os quilômetros aos milhares, a que comerciantes atravessando desertos e terras inóspitas,  se submetiam para que bens de um lado chegassem ao outro lado da terra até então conhecida.

Estabelecida pelos chineses, da Dinastia Han, a Rota da Seda funcionou muito bem até o século XV.  Não tinha o nome de Rota da Seda,  Esse é recente.  Batismo feito pelo geógrafo alemão, grande viajante e cientista Ferdinand von Richthofen, em 1877.

 

 
 

 

 

Muito mais do que seda era comercializado neste longo caminho da Ásia ao Mar Mediterrâneo.   Especiarias, metais preciosos, artesanatos, peles, armas e cavalos estavam entra os principais produtos comercializados neste caminho. Seres humanos também eram vendidos como escravos nessa rota.  A seda acabou sendo a escolhida por von Richthofen por ser um produto conhecido e fabricado unicamente pelos chineses, ou seja o produto único do ponto de partida ou de chegada daqueles que viajavam por essas terras. Sim, a seda era importante para a Europa, era um item de luxo e vastamente comercializada.  Não havia conhecimento de como se fazia seda no mundo ocidental.

Nem todos os itens eram transportados do início ao fim da rota.  Havia itens de interesse mais local.  Assim como nem todos os comerciantes iam de um extremo ao outro da Rota da Seda.  Nada disso. Iam até certo ponto onde comercializavam seus bens com um certo lucro, voltando para o lugar de onde partiram.  Ideias também foram aos poucos sendo trocadas de uma ponta do mundo a outra. Acredito que ainda não tenhamos, apesar de todos os estudos já feitos, ideia da dimensão, da importância desse comércio por muitas culturas e nações que até já não existem mais.  Hábitos, costumes e até religiões se espalharam pelo mundo graças ao comércio contínuo por mais de quinze séculos entres culturas atravessadas pela Rota da Seda.  Vale a pena você conhecer mais sobre esse caminho que levou bens e ideias de um mundo ao outro da Antiguidade à Renascença.

 

E você já leu sobre a Rota da Seda? Gosta de livros de viagem?