Uma cadeira vazia…

4 10 2013

Edward Alfred CucuelChá no parque

Edward Alfred Cucuel (EUA,1875-1954)

óleo sobre tela

A vida é um sopro.  Disseram-me isso na semana passada quando passei uns dias um pouco desorientada: uma amiga de muitos anos morreu subitamente, em casa. Olga tinha idade.  Era uma senhora. Cabeça e corpo em ótimo estado.  Só a asma crônica dava trabalho de vez em quando. Mas estava de viagem marcada para Inhotim daqui a umas semanas e no início deste ano já havia passeado pela América Latina, em uma de suas inúmeras viagens com membros da família.

 Já conheci Olga aposentada. Havia trabalhado usando seu maravilhoso senso estético:  havia sido designer de azulejaria para uma grande companhia brasileira. Mas era uma artista fora do trabalho também, tendo se dedicado à pintura por muitos e muitos anos. Grande senso estético.  Tudo que resolvia fazer com as mãos saía bonito.  Equilibrado.  No meu aniversário, este ano, fez uma toalha de mesa para mim, belíssima, colorida, uma combinação elegante de variados chitões.  Em boutiques de cama e mesa  seria vendida por uma pequena fortuna. Era audaciosa no design. Cores vibrantes. Ideias destemidas.  Como no quadro/escultura em que ripas pintadas e espaçadas, brincavam com o espaço nulo entre elas. Que efeito!

Olga era uma das mulheres que entrou para o grupo de leitura há dez anos.  Era das mais antigas.  Veio pelas mãos de uma amiga em comum.  A amiga foi embora.  Olga ficou.  E nos deu, a todos nós, grandes lições.  Ensinou pelo exemplo.  A independência era um de seus traços mais marcantes. Além da generosidade, do senso de humor e da impaciência com os que se dedicavam às lamentações.   No grupo de leitura primava por opiniões sinceras, complexas e invariavelmente certeiras. Tinha uma maneira única de interpretar. Lembro-me de algumas ocasiões em que defendeu um livro mesmo quando dezesseis outras pessoas o criticaram.  O cemitério de Praga, de Umberto Eco, foi um desses.

Estava sempre disposta a fazer algum programa cultural.  Ávida por visitar exposições de arte, por participar de uma palestra. Colocava-se em situações que favoreciam falar inglês e francês, para não perder a fluência em ambas as línguas. E generosa, dispunha-se a dividir conosco sua bela residência.  E nós adorávamos.  Foi lá que celebramos alguns encontros do grupo.  Foi lá que recebemos escritores para um bate-papo com o grupo. Foi uma real participante do Papa-livros.  Deixa 16 amigas que sentirão muito sua falta.  Estou entre elas.

olga abramson 1927-2013Olga Abramson

1927-2013





Inspirações certeiras de Jonathan Swift e Voltaire?

3 10 2013

523px-J._VERMEER_-_El_astrónomo_(Museo_del_Louvre,_1688)

O astrônomo, 1668

Johannes Vermeer (Holanda,1632-1675)

Óleo sobre tela, 50 x 45 cm

Museu do Louvre, Paris

Jonathan Swift  em 1726 publicou o livro Viagens de Gulliver, hoje considerado uma das obras precursoras da ficção científica. Nesse romance picaresco  no capítulo III, intitulado Viagem a Laputa, astrônomos, personagens de Swift, descrevem duas luas em Marte, mencionando seu tamanho e órbita. A descrição foi bastante próxima da realidade encontrada 150 anos mais tarde, quando  Asaph Hall em 1877 descobriu as luas Phobos e Deimos circulando em volta de Marte.

Mas Swifft não foi o único a escrever sobre as duas luas de Marte.  Voltaire, 24 anos depois de Swift, em 1750, publicou o conto Micromégas, onde também descrevia essas duas luas de Marte.  Teria ele sido influenciado por Swift?  Teriam ambos tido uma ajuda externa?  De algum visitante extra-terrestre?

Hoje há duas crateras em Deimos chamadas de Swift e Voltaire em homenagem a esses dois escritores.





Sinfonia cotidiana, poema de J. G. de Araújo Jorge

29 09 2013

Reynaldo Fonseca, Senhora ao piano, 1985, óleo sobre papel, 70x 70 cmSenhora ao piano, 1985

Reynaldo Fonseca (Brasil, 1925)

óleo sobre papel, 70 x 70 cm

Sinfonia cotidiana

J. G. de Araújo Jorge

A manhã surge

aos sons do Concerto nº 1 de Grieg

no rádio madrugador de meu vizinho.

A tarde chega

acampanhada pelo Prelúdio  nº 24 de Chopin,

num piano sem lugar.

A madrugada se embala

com a música do mar.

Em: A outra face: poesia, J. G. de Araújo Jorge, Rio de Janeiro, Editora Vecchi: 1957, p. 157





Quadrinha das pernas

27 09 2013

menina com pintinhos nas cestasMenina do campo, cartão postal antigo.

Muita perna tenho visto,

Perna fina, perna grossa…

Mas as pernas mais bonitas

São as das moças da roça.

(Anônima)

Em: Trovas Brasileiras: populares e popularizadas, Afrânio Peixoto, Rio de Janeiro, W.M. Jackson Inc: 1944, nº.536





Palavras para lembrar — Francesco Petrarca

24 09 2013

Giuseppe Mascarini, (Itália) A leitoraLeitora, s/d

Giuseppe Mascarini (Itália, 1877-1954)

óleo sobre tela,

“Livros têm levado algumas pessoas ao saber, outras à insânia.”

Francesco Petrarca





Um galgo, poema de José Paulo Moreira da Fonseca

23 09 2013

Mulher com cachorro galgo, ilustração da década de 1920, sem autoria.

Um galgo

José Paulo Moreira da Fonseca

Mesmo quando imóvel, vemo-lo correr

Como se aquelas formas sonhassem

Com uma inaccessível distância.

Em: Antologia Poética, José Paulo M. F., Rio de Janeiro, Leitura: 1968





Quadrinha do sapato

18 09 2013

Sapatos Ilustração 1914, revista dinamarcaDesconheço a autoria dessa ilustração, mas é de 1914 tirada de revista dinamarquesa.

Não quero ser flor, nem fita,

Enfeites, brincos ou anéis,

Queria ser teu sapato,

Para viver aos teus pés.

(Anônima)

Em: Trovas Brasileiras: populares e popularizadas, Afrânio Peixoto, Rio de Janeiro, W.M. Jackson Inc: 1944, nº.539





Saindo da livraria, texto de Permínio Asfóra

17 09 2013

bookstore-img_3635

Livraria, 2012

John Farnsworth (EUA, contemp.)

Óleo sobre tapel colado em madeira, 21 x 21 cm

John Farnsworth

“A livraria era frequentada por curiosos que passavam as tardes remexendo livros, anotando cadernos e abrindo gavetas; desencavavam edições esgotadas, gozavam da intimidade do patrão, cuspinhavam literatura, falavam mal dos outros e galanteavam Teresa, — galanteios de esporas.

Ela se acostumara, só fazia sorrir. Fechou o decote e desceu as mangas, mas os seios empinados desafiavam os fregueses. Impossível disfarçá-los, primeiro lugar para onde espiavam.

Uma tarde quase caía da cadeira alta junto à maquina: a mão que se estendia pedindo-lhe o troco era a mesma que lhe fizera carinhos. Não mudara: o asseio de sempre, a camisa bem alva, o bigode certo, a roupa cinzenta.  Estranhou-lhe a calma; surgia tão sereno, tão sem surpresa que parecia mentira. Jamais pensou que fosse assim, um tipo sem alma, lembrou-se de um livro que lera. Na livraria havia facilidade de obter, emprestados, romances da moda; quase todos contavam histórias de amores infelizes, de pobres mocinhas que sonhavam com príncipes encantados.

Afável, cordial e alheio, como se nada entre eles houvesse ocorrido. Num minuto atravessava Teresa um mundo de recordações: noites de lágrimas, a perseguiçã ao vidro de formicida, tudo por ele, que estava ali calmo e distante, sorriso incolor, sem um aperto de mão. Sujeito ordinário, pensou em dizer-lhe. Noivo? Teria casado? Os olhos cinzentos iam dominá-la; seu rancor tropeçava, fraquejava. O mesmo rapaz, nem alto nem baixo, roupa nova, a gravata escura, o cabelo cortado. Por ele sofrera, esquecida e apagada; se não fosse o emprego, teria morrido de tédio. Andaria iludindo outras tolas, sujeito ordinário, quase dizia. Soçobrava nas recordações tumultuadas, o ódio adormecia, o desejo imperava. Fraqueza. Cadê o amor-próprio? Não devia ceder. Seria capaz de repetir a loucura? Loucura não houvera. O coração de Teresa perdendo o compasso, subia e descia, não havia o que falar.  Se falasse, iria se render, iria adular, iria chorar. Que coisa trágica, o amor. Os homens não amavam, aproveitavam a fraqueza das pobres para se divertir.

— Quem quiser se divertir, compre macaco — proclamava Viriato.

Mas Viriato também fazia sofrer a irmã de um amigo.

Coração descompassado, alegria e horror.

— Quase não a reconhecia — falou. Cada vez mais bonita.”

Em: O amigo Lourenço, Permínio Asfóra, Rio de Janeiro, José Olympio: 1962, pp, 96-97





Uma biblioteca sem livros

15 09 2013

interior-2_wide-a0198747ec52a55b2e37f2207b4a50fa3a3e9829-s40-c85Ilustração da página da NPR.

Uma biblioteca pública totalmente digital abriu nesta semana no Texas. A unidade oferece cerca de 10 mil e-livros gratuitamente para os 1.700.000 moradores do município, que inclui a cidade de  San Antonio. Os  clientes podem acessar eBooks gratuitos e livros de áudio. Para ler um e-book em seu próprio dispositivo, os usuários devem ter o aplicativo 3M Biblioteca-nuvem,  para se conectar com a biblioteca.  O aplicativo inclui uma contagem regressiva de dias que o leitor tem  para terminar um livro — são 14 dias no total.

A biblioteca tem uma presença física, com 600 e-readers e 48 estações de computadores, além de laptops e tablets. As pessoas também podem vir para a hora de contação de histórias para crianças ou para aulas de informática.

O projeto de uma biblioteca sem livros já foi tentado antes.  Talvez, 2002 tenha sido cedo demais, quando a Biblioteca Santa Rosa do Arizona abriu uma filial também só digital.  Mas,  anos mais tarde, os moradores – fatigados pela eletrônica – pediram que livros reais fossem adicionados à coleção, e hoje, desfrutam de uma biblioteca de acesso completo com computadores.

NPR





Anedota sobre Fontenelle na revista O Espelho de 1859

14 09 2013

charles-henry-tenre-the-interval-at-the-theatre-145479Intervalo no teatro

Charles Henry Tenré (França, 1864-1926)

óleo sobre tela

Fontenelle estava na Ópera, em Paris, e tinha nessa ocasião cem anos. Um inglês entra-lhe pelo camarote e diz:

— Vim de propósito de Londres para ver o autor de Thetis e Peleu.

— Pois, senhor, respondeu Fontenelle; dei-lhe bastante tempo para isso.”

Em:  O Espelho: revista de literatura, modas, indústria e artes, n. 17,  25 de dezembro de 1859, p.11. da edição em facsímile, Rio de Janeiro, MEC:2008, p. 230.