O início da 2ª Guerra por Marques Rebelo

13 09 2013

Britishers,_enlist_today

[1940]

30 de agosto

Os ataques aéreos contra a Inglaterra, que haviam se reintensificado em grande escala, após aliviante atenuamento, cessaram subitamente. Há dois dias que as sirenes londrinas não lançam seu estertor, há dois dias que o sono pode ser usufruído pela heróica população. Que poderá haver sob esta trégua? É exaustão ou armadilha? Mas os ingleses, como bons buldogues, é que perseveram na contracarga e Berlim foi bombardeada pesadamente durante três horas. Pela primeira vez – diz o rádio-jornal – a capital germana sentiu em toda a sua plenitude os horrores da guerra moderna.

31 de agosto

Esta guerra não é um assunto como a de 1914. E o jogo do nosso destino – o mundo tornou-se uma coisa só, coisa que precisa ser liberada e expurgada. Enchendo-nos de receio ou de esperança, de fervor ou desespero, pelo jornal, pelo rádio, pelo cinema, acompanhamos a sua marcha com a alma em riste. Se como na outra decoramos, rápidos, a sua nomenclatura e a sua terminologia, ganham elas nesta um significado transcendental, e é com a meticulosidade duma observação clínica que traçamos cada dia, cada hora, cada minuto, em permanente sofrimento e incerteza, o gráfico do seu desenrolar, pois que o seu desenlace nos atingirá de forma decisiva. É como se observássemos a evolução da nossa própria enfermidade. Anotamos os acessos e as astenias, os focos de resistência ou de depauperamento, discutimos cada sintoma, cada erupção, cada infrutífero medicamento. Armamos idealmente os planos duma eficaz terapêutica. Que importa o que tenha sido a Inglaterra se hoje encarna para nós o anticorpo que poderá nos salvar da infecção?

1º de setembro

Hoje completamos um ano de guerra, aniversário que ninguém ousará comemorar com bolo de velinhas. Os alemães mantém quase todo o continente europeu nas suas unhas, dominam toda costa que vai do cabo Norte ao golfo de Biscaia, além do qual se encontra a companheira das castanholas e zarzuelas, envolta na sua mantilha milico-clerical e renovando, como guerra de nervos, a campanha em prol de um ataque a Gibraltar. Hitler fez em dez anos o que Filipe de Espanha, e mais tarde Napoleão, não conseguiram realizar após largos anos de campanhas bélicas e diplomáticas. Já é alguma coisa – e de assustador!

No Mediterrâneo e na África, a Itália pode atacar os trigais do Egito e os terrenos petrolíferos do litoral da Palestina. Portugal não é só um Jardim da Europa à beira-mar plantado, é um eficiente consulado nazista também. No Extremo Oriente, o Japão pode ameaçar  Hong-Kong e Singapura, ou as colônias francesas e holandesas. Cá na América do Sul, a Argentina vende a sua carne para quem puder pagar,mas tende simpaticamente ao Eixo.

Amigos, o panorama é negro, mas a Inglaterra esperneia e os Estados Unidos estão de olho, certa será sua participação na luta se as coisas se agravarem, conquanto seja necessário primeiramente vencer as correntes isolacionistas que os republicanos tanto defendem, mais comerciantes do que cegos.

E aqui, seu moço?”

Em: A mudança, Marques Rebelo, 2º volume de O Espelho Partido, São Paulo, Martins: 1962, pp, 313-314.





Quadrinha das máscaras

13 09 2013

máscara, Emiliano PonziIlustração Emiliano Ponzi.

Vê-se máscaras de tudo,
de toda forma e matiz:
papel, borracha e veludo,
e até de gente feliz…

(Péricles Gonçalves)





Você lê ficção brasileira?

10 09 2013

benoît van innisIlustração de Benoît van Innis.

Na semana passada foi divulgado na imprensa carioca, durante a Bienal do Livro no Rio de Janeiro, que a literatura estrangeira foi o segmento editorial que mais cresceu em vendas no Brasil. 33% de livros vendidos no primeiro semestre deste ano  foram livros de ficção estrangeira.   Isso reflete um crescimento de 42%, sobre o ano passado, enquanto o mercado de vendas de livros de um ano para o outro cresceu muito menos, só 11%.

Os 30 livros de ficção mais vendidos no Brasil representam 36% das vendas. O poder de um best-seller internacional é bem forte, na pesquisa, feita pela companhia multinacional alemã GFK, ficou claro que sem as vendas do livro Cinquenta tons de cinza, da editora Intrínseca, a venda de ficção estrangeira teria vendido muito menos só 23% em vez de 42%.  Não há falta de leitores no país.  Não é uma questão de preço, porque os livros estrangeiros em geral são mais caros porque custam mais (considere-se direitos autorais e de publicação pagos em outra moeda e despesas com tradução).  O problema não é nem falta de leitores, nem falta de dinheiro.  Então, há uma pergunta que se faz necessária:

Por que os autores brasileiros de ficção não conseguem vender tão bem quanto os estrangeiros?

Fonte: Jornal O Globo, 27 de agosto de 2013.





Quadrinha do artista

9 09 2013

???????????????????????????????Pato Donald decide ser pintor, ilustraçãao Walt Disney.

A inspiração se assemelha

à luz da graça divina.

O artista toca a centelha

e a si mesmo ilumina.

(Álvaro Faria)





Língua portuguesa, poesia de Raquel Naveira

8 09 2013

Erico Santos (Brasil) Sala de Estar, 1988, ost, 40x 50 cm, wwwericosantos.comSala de estar, 1988

Érico Santos (Brasil, 1952)

óleo sobre tela, 40 x 50 cm

Acervo pessoal do artista

www.ericosantos.com

Língua Portuguesa

Raquel Naveira

Língua Portuguesa,

Tuas regras são as cordas da minha harpa,

Duras e firmes,

Que procuro dedilhar

Desde a infância.

Que prazer reconhecer tuas notas graves e agudas!

Ata-me nos teus laços afinados,

Na tua lei tensa

E criarei poemas

Como pássaros.

Que delícia o esforço de cortar,

Esticar,

Retesar!

Livra-me da frouxidão,

Da lassidão de cometer pecados

Contra ti.

Língua Portuguesa,

Tuas regras são as cordas de minha harpa,

Torna meu canto angélico,

Feito de forma e beleza,

Oferenda consagrada a ti,

Ao Tejo,

Às espumas do mar.

Em: Casa e Castelo, Raquel Naveira, São Paulo, Escrituras: 2002, p.71





Viagem de trem, texto de Geraldo Brandão em “Café Amargo”

4 09 2013

ARMÍNIO PASCUAL (1920) Trem, óleo sobre madeira industrializada - 49 x 64.Trem, s/d

Armínio Pascual (Brasil, 1920-2006)

óleo sobre madeira, 49 x 64 cm

“Como lagarta sonolenta o trem vinha de Mato Grosso. Corumbá , Campo Grande, Três Lagoas.  O sol estava a pino. O trem em linha sinuosa como uma serpente. Não tinha pressa de chegar. O sol entrava ora de um lado, ora de outro, queimando, torrando. Que linha… A gente pensava que ia parar numa cidade e o trem se afastava, depois vinha novamente. E o sol torrando aquela gente. Não podiam fechar as janelas por causa do calor, abafado. “É antigamente os engenheiros ganhavam por quilômetro construído, quanto mais comprida a linha, mais ganhavam, então faziam a linha cheia de curvas…” Alguém falou. Os vagões atulhados de gente sonolenta que tentava dormir, que esticava as pernas, tirava os sapatos, virava a cabeça. Gente branca, gente amarela, gente preta. Profusão de malas, trouxas e pés. Cheiro de suor, chulé, budum, morrinha. Miséria.

Uma família de gente loira. Quanta criança! Deve ter vindo do Báltico tentar a sorte na América, mas, está voltando pobre. Filhos, trouxas e ossos marcando sob a pele. A cada tranco do vagão um olho se abre e volta a fechar-se vencido. A perna estica, a cabeça se ajeita na trouxa imunda. A criança do colo geme. Sonolenta, a mãe abre o corpete, dá-lhe o seio murcho e volta ao sono, incapaz… Nos solavancos, de sono ou fraqueza o menino solta o bico que a mãe lhe pusera na boca. O seio enorme, pendurado, balança, balança no ritmo inconsciente do vagão. Passa o chefe-do-trem apregoando as estações. Passam jovens soldados que vão buscar água no vagão de primeira. O seio está balançando, balançando…mas ninguém olha para ele com olhar profano.

E o trem prossegue nas curvas que não acabam mais com apitos que não têm sentido. O sol queimando, queimando, só curvas e cafezais, roças e mais roças.

Uma moça dorme com os pés no banco da frente. O cabelo em desalinho é como uma cortina a defender a beleza mal formada. A mala de papelão, toda esfolada, amarrada com corda para não estourar. Por que deixou sua terra natal? Seria da Bolívia ou do Paraguai? Fugiria da miséria ou da maldade da gente que não lhe perdoou ter amado um dia? Talvez procurasse a cidade, onde a vida é mais fácil, mais fácil esconder e esquecer…

Outro é mascateador. É o único que fala, que fala do seu bairro distante. É de Vila Maria, e com orgulho repete o nome. Tem malas e pacotes além do número permitido. Espalha-as pelo vagão. O chefe passa, percebe a fraude e finge não entender. Deixa o mascate mascatear…”

Em: Café amargo, Geraldo Brandão, São Paulo, Brasiliense: 1968, pp,225-6





Anedota sobre Alexandre Dumas Pai na revista O Espelho de 1859

4 09 2013

Eileen, c1949. Anne Redpath (Scottish, 1895-1965)

Eileen, c. 1949

Ann Redpath (Escócia, 1895-1965)

óleo sobre madeira

Ferens Art Gallery, Hull Museums, Grã Bretanha

“Na noite da primeira representação da Dama das Camélias, de A. Dumas filho, um folhetinista encontrando A. Dumas pai junto à escada do vaudeville, disse-lhe com ar malicioso:

— Ora confesse que o Sr. entrou nesta peça, que toma nela alguma parte.

— Pois não! respondeu o espirituoso romancista: fui eu que fiz o autor.”

***

Em:  O Espelho: revista de literatura, modas, indústria e artes, n. 17,  25 de dezembro de 1859, p.11. da edição em facsímile, Rio de Janeiro, MEC:2008, p. 218.





Quadrinha do novo ninho

3 09 2013

passarinhos, ninho, andrew loomis. the dionne quintuplets. 001Passarinho no ninho, ilustração de Andrew Loomis. [Dionne quintupletos]

Com singela perfeição

um pequeno passarinho

faz uma linda mansão

da construção do seu ninho.

(Eva Garcia)





Quadrinha da faladora

1 09 2013

fofoca, Arthur_Sarnoff_Womens_Home_Companion_Have_You_Heard_Illustration“Você sabia… [Have you heard…?]” ilustração Arthur Sarnoff.

Quem à língua não põe freio,

depois não deve estranhar

a desgraça que lhe veio,

porque se pôs a falar.

(Trova popular espanhola)





Quadrinha da chegada da primavera

25 08 2013

Inverno, gaston-marechaux-1918-the-departure-elegant-hprints-comIlustração Gaston Maréchaux, 1918.

É Inverno … mas, que importa ?
Estou sempre à tua espera.
Quando chegas e abro a porta,
entra junto a Primavera…

(Déspina Athanásio Perusso)