Maria de Sanabria, de Diego Bracco

26 02 2009

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Um bom romance histórico sempre me fascinou, principalmente quando o autor, como o uruguaio Diego Bracco, é um professor de história e tem o cuidado de colocar as fontes, ou a documentação em capítulo à parte como é o caso no livro Maria de Sanabria [ Rio de Janeiro, Record: 2008]. A vantagem destes romances quando são escritos por um historiador é que temos a impressão de aprender mais do que se estivéssemos sentados numa sala de aula atentos às explicações dos cuidados necessários, por exemplo, com a organização de uma expedição à América do Sul no século XVI.

 

E é esta exatamente a história fascinante que nos leva a conhecer bem mais de perto Maria de Sanabria, a organizadora da chamada expedição das mulheres  que atravessou o Atlântico em 1550.  Seis anos são necessários para que o grupo expedicionário tendo  chegado a Santa Catarina, depois de uma estadia muito difícil na costa do Brasil, que durou dois anos, procure, mais ao norte, a proteção dos portugueses na província de  São Paulo e finalmente chegue a Assunção, no Paraguai, um vilarejo ainda diminuto em 1556.  Lá, Maria de Sanabria se estabelece para ficar.  Seu filho do primeiro casamento tornou-se um monge franciscano e mais tarde um “dos grandes protagonistas da vida religiosa e intelectual no Rio da Prata.”  Enquanto que seu filho do segundo casamento, Hernandarias foi três vezes governador e grande protagonista civil e militar no Rio da Prata, uma figura de grande importância na história do Paraguai, da Argentina e do Uruguai.

 

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A vantagem deste romance é que podemos adentrar a vida diária, o desenrolar das tarefas comuns da época e entender as razões e as necessidades destas pessoas, melhor ainda do que se estivéssemos lendo uma tese de mestrado, descrevendo detalhes do dia a dia das limitações e dos compromissos que estavam implícitos numa família burguesa e também o que era ou não prescrito para uma mulher em Sevilha, neste período.  

 

É de grande virtude o fato deste historiador ser um ótimo contador de histórias.  Na verdade, Diego Bracco já foi honrado com o Prêmio de Narrativa da Universidade de Sevilha e com o Prêmio Revelação da Feira do Livro do Uruguai com o seu romance anterior:  El mejor de los mundos.  Digo isto, porque apesar de detalhes interessantíssimos, a narrativa corre suavemente, cheia de aventura e imprevistos, cheia de ação e simpatia para com Maria de Sanabria, de tal forma que as 270 páginas deste livro são lidas rapidamente, como num bom livro de aventuras.  

 

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Escritor e historiador Diego Bracco.

Há no entanto grande cuidado com a verdade histórica.  A descrição por exemplo dos preparativos da saída de Sevilha podem nos dar um gostinho desta preciosa maneira de contar a história:

 

Na última terça-feira de janeiro de 1550, a catedral de Sevilha recebeu com pompa e circunstância os que se preparavam para participar da expedição.  Depois da primeira missa da manhã, todos foram em procissão até o cais, levando uma imagem abençoada de Nossa Senhora das Mercês.  Os poucos que deviam conduzir a nau rio abaixo e os muitos que se juntariam a eles em Sanlúcar de Barrameda despediram-se como quem deixa uma festa e promete se encontrar na seguinte.  Pouco tempo, poucas e precisas manobras e uma única vela foram suficientes para que a embarcação desse início à viagem.  Uma multidão de curiosos fez seu rumor pairar sobre o navio que começava a se afastar em direção à desembocadura do rio.  Atrás da esteira d’ água, como se quisessem alcançar os que se distanciavam, ouviam-se risadas prognosticando infernos e também bênçãos lançadas como beijos no ar; prantos de mães pressentindo o pior e aclamações aos heróis que voltariam distribuindo ouro. [p. 150].

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Mas além de este ser um ótimo romance, além de ser rico em detalhes de época, um outro aspecto que o faz sensacional é justamente o resgate da história desta corajosa mulher, que se rodeou de outras mulheres para ganhar um espaço na história, para fazer, sua, a aventura do século.  Gosto de ver que as gerações de hoje e de amanhã, diferentemente da minha, têm e terão exemplos de mulheres corajosas e aventureiras que existiram de verdade.  Mulheres cujos retratos podem servir de exemplo de vida para todas as meninas e jovens que ainda hoje  vêem seus sonhos de aventura desconsiderados, minados, cerceados por costumes, pela família, por limitações que não lhes pertencem.   Leiam o livro, vale a pena!





Tuareg, romance/aventura de Alberto Vazquez-Figueroa

23 02 2009

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Tuareg, 2007

Mo Skett (Austrália)

Aquarela sobre papel

 

 

 

Minha fascinação com o deserto, com o norte da África, com os bérberes, data de muito tempo.  Foi parcialmente domada pelo ano que morei em Oran, na Argélia.  Foi naquela época que deixei de lado idéias românticas da vida no local, em grande parte feitas robustas pelos escritores e pintores europeus do século XIX, que conseguiram gravar na minha imaginação cenas de maravilhosos banhos públicos, circundados por paredes cobertas de azulejos com desenhos abstratos e colorido especial; ricos ambientes com dezenas de tapetes grossos de lã, cuja arte de fiação local, transformava em sedosos, brilhantes e macias cobertas protetoras para os pés;  adereços de ouro, pulseiras escravas; roupas de odalisca e tudo mais com que a imaginação romântica de uma adolescente poderia se deslumbrar.  Essas idéias foram rapidamente aparadas, reduzidas quando da minha estadia na moderna cidade de Oran nos anos 80.

 

Mas meu interesse por este pedaço do mundo nunca chegou a se apagar.  E, se quando saí da Argélia havia chegado a um ponto saturação com uma cultura radicalmente oposta à minha – a saturação veio na terceira semana do Ramadã, em que os dias são trocados pelas noites –, saí daquele país ciente de que ainda teria que voltar ao norte da África.  Não quis naquela época emendar a minha viagem com a Tunísia ou os Marrocos porque sabia que era preciso fazer jus aos povos que aí habitavam sem trazer comigo preconceitos desenvolvidos ao longo da minha estadia em Oran.  

 

 

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Tipaza, Argélia: teatro romano

 

 

Houve naquele ano na Argélia duas visitas que me marcaram para sempre e que estarão vívidas na minha imaginação até os meus derradeiros dias: a visita às ruínas romanas de Tipaza e a visita ao deserto de Saara, mais particularmente, ao oásis que abriga cinco cidades, inclusive a cidade de Ghardaia, também chamado de Pentápolis.   Esta passagem pelo deserto foi de uma beleza sem igual, um momento em que tudo se cala diante do espetáculo da natureza.  Sempre imaginei voltar.  

 

Com esta dívida à mim mesma foi com grande satisfação que comecei 2009 com a leitura de um livro surpreendente,  Tuareg, do escritor espanhol Alberto Vazquez-Figueroa (LP&M: 1988, reimpressão, 2008).  Este foi o primeiro livro de Vazquez-Figueroa que li.  Não o conhecia.  Fiquei certamente encantada com sua habilidade narrativa, extremamente evocativa.  Sua descrição do deserto, das paisagens inóspitas que fazem parte do dia a dia dos Tuaregs, é absorvente e sedutora.

 

 

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É importante também reconhecer que Vazquez-Figueroa consegue num enredo simples e linear trazer a tona os problemas da colonização de povos anciães, tais como os Tuaregs: Gacel Sayad – personagem principal do romance — é imensamente desonrado quando assassinam uma pessoa que estava protegida, sob seu teto, no deserto.  Não há maior desonra.   Faz-se necessário que ele puna aqueles que cometeram este ato. E assim começa uma aventura no deserto, uma sequência de perseguições, de dissimulações, truques, golpes, tudo parte de uma perseguição da qual ninguém sai vencedor.  

 

Tomando por base o conhecimento dos princípios que regem as ações de Gacel Sayad, é impossível não simpatizar com ele e reconhecer que para aqueles que vivem no deserto nas circunstâncias em que eles vivem o conceito de país, de fronteira, de nacionalidade não só não existe como não faz sentido.   E mesmo que não se aprove os diversos assassinatos que ele conduz, nossa simpatia e lealdade estão com ele até o final, porque sabemos que são ações baseadas num extraordinário senso de justiça, mesmo que esta justiça seja completamente diferente da aceita pelo leitor.  

 

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Tudo isso é particularmente assessorado por uma belíssima prosa, em que as cenas mais corriqueiras conseguem se transformar em imagens poéticas e sonhadoras:

 

A noite se fechara sobre a planície pedregosa, a primeira hiena riu longe e tímidas estrelas piscaram em um céu que, logo, estaria todo tomado por elas, no belíssimo espetáculo que nunca cansava de admirar.  Eram essas estrelas, das noites de paz, talvez, que o ajudavam a persistir, após um longo dia de calor, tédio e desesperança.  “Os tuareg espetam as estrelas com suas lanças para, com elas, iluminar os caminhos…Um belo ditado do deserto, nada mais que uma frase, mas quem a inventou conhecia bem aquelas noites e aquelas estrelas, e sabia também o que significava contemplá-las horas a fio, de tão perto.

 

Descrições detalhadas do deserto, da experiência do deserto, são,  não só essenciais para o comportamento de Gacel Sayad, mas provavelmente parecem verdadeiramente precisas porque o Vazquez-Figueroa, tendo nascido no Tenerife, passou sua infância no Saara, antes de estabelecer residência em Madri.  

 

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O escritor: Alberto Vazquez-Figueroa

Poucos de seus livros estão traduzidos para o português.  Além de Tuareg encontrei O iguana, não obstante, vou fazer um esforço para ler seus outros livros.  O sucesso de Tuareg, que vendeu mais de dois milhões de exemplares na Espanha e na América Espanhola não vem sem motivo.  É um ótimo livro, em que o entretenimento, a aventura, não tiram de foco considerações mais sérias sobre a colonização e o estupro cultural de povos cujas bases culturais são tão antigas quanto a humanidade.  

 





A última aventura de Rumpole

18 01 2009
Escritor Sir John Mortimer, 2006, The Guardian

Escritor Sir John Mortimer, 2006, The Guardian

Sir John Mortimer, um dos meus escritores favoritos, passou desta para a outra aos 85 anos.  O escritor inglês deixa para trás milhares e milhares de seguidores de seus livros e principalmente de seu mais conhecido personagem, Horace Rumpole, of the Bailey, o temível defensor de muitos Zé-niguéns, que só se calava frente à sua impagável esposa Hilda, — “a quem é preciso obedecer”.

 

 

A última publicação

A última publicação

 

 

Sir John Mortimer, escritor e advogado.  Teve uma carreira brilhante como advogado de defesa, em casos importantes, sempre defendendo a liberdade de expressão.  Formado pela Universidade de Oxford, trabalhou a vida inteira como advogado em tribunais britânicos.  Teve uma carreira brilhante.  Ficou conhecido por sua defesa de casos notórios que envolviam a liberdade de expressão.  Entre eles, defendeu a editora Penquin contra acusações de obscenidade, pela publicação de “O Amante de Lady Chatterley na década de 60. Mais tarde, ele representou a revista “Oz em um julgamento sobre obscenidade.  Sempre conciliou a vida de escritor com a de advogado.  Era conhecido por escrever seus livros de manhã, antes de sair para o trabalho no tribunal.

 

Coletânea, volume I

Coletânea, volume I

 

Seu nome passou a ser ainda mais conhecido fora dos círculos ingleses quando a televisão pública nos EUA, a PBS [ Public Broadcasting Service] levou a série inglesa, Rumpole of the Bailey, na televisão, caracterizado pelo ator Leo McKern.

Coletânea, volume 2

Coletânea, volume 2

Mortimer, morre depois de uma longa batalha contra um mal incurável.   Mas até recentemente ainda ia de cadeira de rodas a um grande número de eventos culturais, concertos e teatro na Inglaterra.   Uma de suas filhas é a atriz inglesa: Emily Mortimer.

 

 

Desconheço se seus livros foram alguma vez publicados no Brasil.





Os 6 melhores livros publicados na Espanha

12 01 2009

 

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Alfredo Roldán (Espanha, 1965)

 

O portal espanhol Lomás compilou a lista dos melhores 6 livros publicados na Espanha em 2008.

Em primeiro lugar:

La Hermandad de la Buena Suerte do espanhol Fernando Savater

Fernando Fernández-Savater Martín (São Sebastião, 21 de Junho de 1947) é um escritor e filósofo espanhol, catedrático de Ética na Universidade do País Basco.  Muitos de seus livros de filosofia estão traduzidos para o portugês e publicados no Brasil.

 

2        Fiebre Negra do escritor argentino Miguel Rosenzvit

3        La maravillosa vida breve de Óscar Wao do dominicano Junot Diaz

4       Syngué Sabour  de Atiq Rahimi, escritor afegão

5       — La Soledad de los Números primos, do italiano Paolo Giordano, já traduzido e publicado no Brasil como, A Solidão dos Números Primos: Bertrand

6        — Muerte entre poetas da espanhola Angela Vallvey





Os melhores livros de 2008 na França

12 01 2009

 

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Jovem mulher lendo, sd

Marcel Dyf  (França, 1899 – 1985)

Óleo sobre tela 53 x 65cm

 

 

 

 

 

É melhor ficar de olho!  2009 é o ano da França no Brasil. O primeiro ministro francês estará visitando o Brasil ainda uma vez, para comemorar.  É possível que as nossas editoras se empolguem e publiquem alguns dos livros que vêm movimentando a cena literária na França.  Poderemos, portanto, ficar na expectativa de alguns dos títulos listados abaixo;  pelo menos os que foram escritos originalmente em francês

 

 

Os melhores livros de 2008 na França de acordo com a revista LIRE.

 

1 – O Melhor do ano

 

France: ce que le jour doit à la nuit  de Yasmina Khadra  — ao que eu saiba, este título ainda não está traduzido para o português do Brasil, mas imagino que seja publicado pela Sa Editora que publicou por aqui outros títulos do mesmo autor: O atentado, As andorinhas de Cabul e As sirenas de Bagdá.   Yasmina Khadra é o pseudônimo do escritor argelino, Mohammed Moulessehoul um official do exército da Argélia que adotou um nome de mulher para escapar da censura militar.  Apesar de ter tido sucesso com diversos livros na Argélia, Moulessehoul só veio a revelar sua identidade em 2001, quando deixou o exército e partiu para exílio e reclusão na França. an officer in the Algerian army, adopted a woman’s pseudonym to avoid military censorship. Despite the publication of many successful novels in Algeria, Moulessehoul only revealed his true identity in 2001 after leaving the army and going into exile and seclusion in France.

 

 

2 –  La Route de Cormac McCarthy  — original em inglês; este já se encontra publicado no Brasil,  pela Alfaguara Brasil: A estrada.

 

3 —  Le déferlantes de Claudie Gallay  — original em francês, ainda não traduzido.

 

4 —  La montagne volante de Christoph Ransmayr – original em alemão; ainda não traduzido.

 

5    Les anées de Annie Ernaux – original em francês, nenhum dos livros dela traduzidos para o português.

 

6    Zone de Mathias Enard – original em francês, nenhum dos livros dele traduzidos para o português

 

7 —  La vie em sourdine de David Lodge, original em inglês;  muitos de seus livros já foram traduzidos, mas não este.

 

8 —  Beautiful people. Saint Laurent Leggerfeld.  Splendeurs et misères de la mode   de Alicia Drake – original em inglês, sem tradução

 

9 —  Le soldat et le gramophone de Sasa Stanisic, original em servo-croata, ainda não traduzido no Brasil.  Já publicado em Portugal, Como o soldado conserta o gramofone: Círculo de leitores.

 

10 – La meilleur part des hommes de  Tristan Garcia – original em francês, sem tradução.





O sol dos Scorta de Laurent Gaudé: não deixe de ler!

4 01 2009
Puglia, Alberobello

Puglia, Alberobello

 

 

 

 

Há muitos anos, quando morava em Portugal, fui atrás da aldeia de onde meu avô paterno emigrou para o Brasil. Deveria dizer minha bisavó, já que meu avô era um menino de 10 anos e ela viúva.  Foi nesta época que descobri a pequenez de uma aldeia, perdida nos campos quase áridos de Trás-os-montes.  O lugar não chegava a umas 80 casinhas, mas havia uma igreja, onde por uma vez assisti a uma missa num domingo.  

 

A aldeia, presença constante nos rincões europeus, materializou-se vívida na leitura de O sol dos Scorta,  ( Nova Fronteira: 2005) livro de Laurent Gaudé, que escolhi como leitura neste longo fim de semana da virada do ano.  A Puglia — o salto da bota da Itália — é muito distante dos vilarejos do norte de Portugal.  Mas os seres que habitam ambos os lugares são semelhantes nas suas privações, nos seus encontros com uma Natureza inóspita, no laivo de um sistema de terras medieval, enraizado nas almas de seus habitantes e também na Igreja como personagem ativo, tanto positivo quanto negativo, que se faz presente e interfere no dia a dia de todos.  Estes são aspectos comuns destes vilarejos europeus, incrustados nas partes de mais arredio acesso do território latino.  Talvez a minha imaginação tenha sido vastamente beneficiada pela magnífica narrativa do autor, que com este livro ganhou o Prêmio Goncourt de 2004 assim como pela tradução de Maria Helena Rouanet.

  

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Apesar de a aldeia – chamada Montepuccio —  e a Igreja serem personagens nesta história, não são, contudo, seus principais elementos.  Nas 235 páginas deste romance seguimos a formação e continuação de uma família, os Scorta.  Conhecemos quatro gerações, mas maior ênfase é dada à terceira geração, quando a família incluindo seus agregados, se torna uma entidade de maior importância que seus membros, que suas partes.  

 

A narrativa cobre aproximadamente cem anos da dinastia Scorta, uma família que começa bastarda, resultado de uma vingança e de um engano, mas voluntariamente, desejosamente trazida à luz.  E é neste balanço entre o certo e o errado, entre o que se deseja e o que se consegue, entre o roubo e a honestidade, que esta família sobrevive, vinga e permanece através das gerações.  Seus personagens trançam seus destinos entre um namoro e o desapego do bem com o mal: seres humanos complexos com uma aparência simples.  Só a família, esta sim, é o que importa, personagem central da trama, para ela todos os sacrifícios são válidos. É a seus pés que colocamos nossas oferendas, através dela que realizamos nossos sonhos, e por ela que vivemos, sofremos, bebemos e amamos.  

 

 

O escritor Laurent Gaudé

O escritor Laurent Gaudé

 

  

Este livro me chegou às mãos por acaso.  No entanto é um livro que mereceria maior divulgação.  Não só a narrativa é executada com mestria como a trama parece refletir contos ancestrais, povoados de personagens cujos arquétipos trazemos entre nós no nosso imaginário comum, no nosso inconsciente coletivo.  Lê-lo pede uma reflexão sobre os nossos hábitos e costumes.  Lendo-o podemos conhecer um pouco mais sobre quem somos.  Não pense duas vezes.  Ponha este livro nas suas listas de leitura para 2009.

 

 





O quarto do bispo de Piero Chiara

28 12 2008

 

Neste finalzinho de ano, entre o Natal e o Ano Novo tive a boa idéia de ler O quarto do bispo, (José Olympio: 1986) um pequeno romance de Piero Chiara, publicado originalmente em 1976 com o nome de La stanza del Vescovo.   Um ano depois de sua publicação este romance foi adaptado para o cinema, com direção de Dino Risi.  Em italiano, recebeu o mesmo nome do livro, mas no Brasil o filme ficou conhecido como Venha dormir lá em casa esta noite (1977), e estranhamente classificado como comédia.  

  

 

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Nunca havia lido nada do autor, até mesmo porque depois de sua morte em 1986 pouco foi traduzido para o português.  Localizo, além do livro mencionado acima, só um outro romance de Piero Chiara em português, O Balordo, (Melhoramentos, 1986) com o mesmo nome no original, que aparentemente retrata a vida num pequeno vilarejo italiano. 

 

A narrativa de Piero Chiara, em O Quarto do bispo, com a tradução de Teresa Ottoni, é misteriosamente clara, breve e sedutora.  Não me surpreendi ao ver que este romance havia sido logo transportado para o cinema, porque através de sua leitura não pude deixar de pensar nos grandes filmes italianos da década de 1960, filmes  em que o nefasto se faz presente de maneira oblíqua e cotidiana.  

 

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Lago Maggiore

 

 

 O ritmo da narração é ditado pelo Lago Maior (Lago Maggiore) pano de fundo do romance.   Narrado na primeira pessoa, Piero Chiara nos faz cúmplices do mistério que envolve as águas e os ventos do lago.  Há um ritmo vagaroso, deliberado e sinistro que nos leva a desfrutar com o narrador da calma, da majestade e das belezas do Lago Maggiore, sem, no entanto, perdermos a sensação do nefasto.  Chiara nos deixa perpetuamente à espreita, à espera de um acontecimento fatal, de um evento ameaçador que desconhecemos, mas que sabemos sinistro.  O mistério está onipresente nas águas do lago, nos ventos dos Alpes, nas imagens quase oníricas que nos acompanham.  Algo acontecerá que não sabemos exatamente de onde virá e que forma terá ao se concretizar.  Seu suspense é  soberbo!

 

A ação se passa logo depois da Segunda Guerra, em 1946, durante o período de um ano.  Neste tempo somos levados em pequenas viagens, de um canto ao outro por um barco a vela, sem nenhum propósito além do prazer, como se à deriva, por diversas aldeias italianas, por uma miríade de pequeninos portos particulares e públicos.  A presença constante, onipresente e gigantesca é do Lago Maior, que entre a Itália e a Suíça, não só é um dos principais lagos alpinos, mas o segundo maior lago da Itália.  Suas grandes casas, quintas, sítios revelam uma classe abastada, mal acomodada, sofrida, arcaica e enraizada à beira d’água.  Um grupo social que perdeu a direção, o propósito de sua existência.  

 

Escritor Piero Chiara (1913-1986)

Escritor Piero Chiara (1913-1986)

 

  

 

 O mistério não chega a se resolver completamente quando terminamos com a leitura do livro.  Claro, há uma morte, uma investigação e a descoberta de como alguns eventos se desenvolveram.   Mas muito ainda permanece misterioso, poderia se dizer encantado na bruma das águas lacustres.   A razão é simples: o mistério é nosso.  É o lado humano que nem sempre conhecemos de alguém, é o imponderável do comportamento humano que ocasionalmente se revela e surpreende.  

 

Sinopse: No verão de 1946, no lago Maior, ao qual o fim da guerra devolveu a esperança e a paz, um jovem e sedutor dom-juan arma seu barco e lança-se de uma margem à outra numa navegação repleta de aventuras galantes.  Em Oggebbio, é recebido por um advogado, dr. Orimbelli, que vive com a esposa, mais idosa que ele, e com a cunhada viúva, Matilde.  Após este encontro desenrola-se nos velhos quartos da villa um enredo que envolve numa espiral, entre policial e erótica, com um ligeiro toque de comicidade, as várias personagens: o equívoco Orimbelli, a ingênua Cleofe, a sensual Matilde, um sobrevivente da guerra da Abissínia, emasculado em conseqüência de ferimentos, que será o deus-ex-machina da solução final.

 

Este livro é uma pequena obra prima.  E se você assim como eu ainda não conhecia Piero Chiara, sugiro que vá ao sebo mais próximo de sua casa e compre um volume deste pequenino romance.  Vale a pena. 

 





Um ótimo livro de mistério

27 12 2008

 

 

 

 

Um dos meus presentes de Amigo Oculto deste Natal foi o livro Belas Mentiras de Lisa Unger (Arx:2006).  Gostei bastante.  É um livro de mistério, um thriller, muito bem escrito.  E uma das coisas de que gosto a respeito do livro é que enfoca um problema social, moral, ético que está conosco há muito tempo e que só de vez em quando chega aos noticiários: a venda de crianças para adoção.

 

Acho que é sempre bom quando um livro escrito para entretenimento, sem maiores pretensões literárias, aborda um assunto sério, que deveria estar sempre no nosso horizonte.  E este o faz sem usar a maneira simplista com que nos acostumamos a ver assuntos discutidos nos seriados televisivos americanos ou nas novelas brasileiras.  Quer queira ou não o leitor de Belas Mentiras ao final da leitura terá que parar e pensar sobre a adoção de crianças, assim como a proteção de crianças que sofrem com maus tratos de pais incapazes de lhes dar o carinho e o amor necessários para o seu crescimento.

 

O assunto ganha muito neste livro por ter uma narrativa primorosa, um ritmo de tirar o fôlego.  É um livro sensual, com uma heroína crível, porque como a maioria de nós leitores, ela titubeia, não sabe em quem confiar, morre de medo em ocasiões, mas mesmo assim vai em frente quando necessário, assumindo os diversos papéis que precisa exercer até chegar à verdade.  Ela é uma pessoa comum e como nós parece estar pasma diante de cada mistério de cada reviravolta.

 

 

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Sinopse:

 

Quando Ridley Jones impede que um garotinho seja atropelado em uma rua movimentada de Nova York, ela não imagina que a partir desse momento sua vida nunca mais será a mesma. Registrada por um fotógrafo, a cena ganha as manchetes de todos os jornais, e Ridley se torna celebridade. Mas com a fama vem o horror: um desconhecido começa a lhe mandar antigas fotografias e bilhetes anônimos e a convence de que sua vida é uma farsa e de que ela nada sabe sobre si mesma. Decidida a descobrir a verdade sobre seu passado, Ridley se vê lançada em meio a um grande mistério. Logo percebeu que  não estava lidando com simples segredos de família, mas com uma aterrorizante história de crime…

 

Este é um ótimo livro de entretenimento.  Perfeito para um fim de semana chuvoso ou de férias.  A narrativa e o enredo garantem prender a atenção do leitor.  

Belas mentiras  foi um dos 50 livros ( e 1 de 10 thrillers) escolhidos como melhores livros de 2006 pelos editores da Amazon .com.

 

 

 

Belas mentiras foi nomeado pela Associação Internacional de Escritores de Thrillers para o prêmio de melhor romance em 2007.

 

 

 





Um ano de novas amizades que perdurarão…

22 12 2008

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Recebi este belo cartão virtual, desejando um Feliz Natal de uma das amigas que fiz em 2008: Cris Rose.  Nesta árvore estão alguns, mas não todos, os amigos que fiz no último ano.  Em outubro/novembro de 2007 comecei a participar deste grupo de leitores, que fazem parte da comunidade do LIVRO ERRANTE.  A maioria está no Brasil, ainda que tenhamos alguns membros fora do país.   Somos ao todo, um pouco mais de 275 leitores ativos.  Muito ativos.  Todos procurando bons livros, sugerindo títulos, emprestando-os e sempre prontos para discutí-los.  A princípio não nos conhecemos.  Não da maneira tradicional.  Em pessoa.  Somos amigos virtuais.  E, no entanto, muitas dessas amizades já passaram para o nível pessoal, em 3-dimensões mesmo, pessoalmente, em encontros dentro das maiores cidades do Brasil.  Para mim, este intercambio, tem sido um presente constante e duradouro, sem desapontamentos.   [Ah, isso sim, é uma raridade!] O que nos une?  O prazer de ler; o prazer de se encontrar alguém que goste de ler; o prazer de falar de livros de que gostamos; o prazer de trocar idéias, conhecimentos, opiniões.  O prazer das novas amizades!  Como temos a leitura em comum, e como também escolhemos entrar para o grupo por vontade própria, há já bastante em comum entre os membros para que possam ser  bons amigos.  Mas há mais que isso.

 

A comunidade do LIVRO ERRANTE por si só, sem auxílio governamental, sem incentivo nenhum, a não ser o de saber que a leitura é essencial para o bom desempenho escolar, abraçou em 2007 duas escolas no Brasil que careciam de livros, e através das doações de livros dos membros da comunidade, cada escola, uma na Paraíba a outra no estado de Minas Gerais, pode começar a desenvolver uma pequena biblioteca infantil.  Trata-se de uma parceria entre as diretoras e professoras destas escolas e os membros da comunidade.  Até o fim do ano postarei aqui um artigo sobre este trabalho fenomenal levado adiante pela organizadora do LIVRO ERRANTE, Regina.  

 

Mas hoje, por causa desta bela árvore de Natal que recebi como cartão virtual com as fotos de alguns dos participantes da comunidade vou simplesmente relacionar os livros mais marcantes dos que li através da comunidade e os livros que emprestei para membros da comunidade lerem.  Acredito que isto dê uma idéia da variedade de tópicos e de interesses.

 

Livros que li este ano emprestados por outros membros da comunidade:

 

A história do rei transparente – Rosa Montero

Este é meu corpo – Filipa Melo

A trégua – Mário Benedetti

Memorial de Maria Moura – Rachel de Queiroz

Ulysses entre o amor e a morte – O G Rego de Carvalho

Somos todos inocentes  O G Rego de Carvalho

Um homem de palavra – Nazir Hamad

O amor nos tempos do cólera – Gabriel Garcia Marquez

Manhã Transfigurada – Luiz Antônio de Assis Brasil

O Quatrilho – José Clemente Pozenato

O castelo de vidro – Jeanette Walls

A doçura do mundo – Thrity Umrigar

Nhô Guimarães – Aleilton Fonseca

O retrato do rei – Ana Miranda

Vende-se um vestido de noiva – Denise Assis

A última quimera – Ana Miranda

A máquina de xadrez – Robert Löhr

Escuridão na clareira – Miguel Reale Júnior

Novelário de Donga Novaes – Autran Dourado

 

Ainda li outros livros de mistério de autores brasileiros, incluindo Garcia-Roza, Tony Bellotto, e outros, assim como um número bem maior de escritores de origem africana que escrevem em português.   Li muito mais livros, mas estes foram os que ficaram marcados.  Estes foram os de que mais gostei. 

 

 

 

Livros que emprestei para os membros do LIVRO ERRANTE no ano de 2008 – sem ordem específica

 

O Nariz de Pasquale – Micahel Rips
A elegância do Ouriço – Muriel Barbery
Rio das Flores – Miguel Sousa Tavares
A casa do pó – Fernando Campos
O pescoço de Audrey Hepburn Alan Brown

O homem que colecionava manhãs Liberato Vieira da Cunha

As viúvas das quintas-feiras – Cláudia Piñeiro
Mentiras no Divã – Irvin D, Yalom
Pequenas Infâmias – Carmen Posadas
Paixão Índia Javier Moro
Eu receberia as piores notícias de seus lindos lábios – Marçal Aquino
A Peste — Camus
Não me abandone jamais – Kazuo Ishiguro
Mademoiselle Fifi – Guy de Maupassant
em francês
Blood of Victory – Alan Furst,
em inglês
Kingdom of Shadows – Alan Furst,
em inglês
Dark Star – Alan Furst,
em inglês
Night Soldiers Alan Furst,
em inglês
Informações sobre a Vítima – Joaquim Nogueira
Cabeça do Lobo – J K Mayo
Entre o Lobo e o cão – Julieta Godoy Ladeira
Lobo do planalto – Paulo Dantas
Terra dos lobos – Jack London
O cachorro e o lobo  Antônio Torres
O lobo da estepe Herman Hesse
O lobo do mar Jack London
O último lobo dos Cárpatos — Heinz G. Konsalik
O verão do lobo vermelho – Morris West
Um lobo solitário – Graham Greene
Mulheres viajantes do Brasil (1764-1820) – ed.  Jean Marcel Carvalho França
O testamento do Sr. Napumoceno – Germano Almeida
O vendedor de passados – José Eduardo Agualusa

A casa de papel – Carlos Maria Dominguez

O sussurro da mulher baleia – Alonso Cueto

O despertar – Kate Chopin

Porno Política – Arnaldo Jabor

Na multidão – Luiz Alfredo Garcia-Roza

Restless – William Boyd – em inglês

Le silence de la mer – Vercors – em francês

Dias Pássaros – Stella Leonardos

A viúva Simões – Júlia Lopes de Almeida

Bom dia Camaradas – Ondjaki

Os da minha rua — Ondjaki

Senhora das savanas – Hilton Marques

Rakushisha – Adriana Lisboa

A catedral do mar – Ildefonso Falcones

 

Minha participação no LIVRO ERRANTE foi uma das coisas mais positivas que fiz nos últimos anos.  Obrigada a todos os envolvidos por esta experiência ímpar!





A elegância do ouriço — o melhor do ano para o LIVRO ERRANTE

14 12 2008

 

 

 

 

 

A comunidade do Orkut chamada de LIVRO ERRANTE acaba de publicar a lista dos melhores livros lidos por seus membros no ano de 2008.  Para participar da lista o livro deveria ter sido recomendado por um membro e passado de mão em mão por membros da comunidade, ou seja, “Errado pelo Brasil”.  O que faz a escolha ainda mais interessante é que nem todos os livros são os que acabaram de ser publicados.  Junto com Eu receberia as piores notícias de seus lindos lábios, de Marçal Aquino estava concorrendo este ano, por exemplo, O velho e o mar de Ernest Hemingway.

 

Os vencedores este ano foram:

 

O melhor livro lido em 2008, segundo votação da comunidade Livro Errante:

 

A elegância do Ouriço – Muriel Barbery

 

 

 

A Elegância do Ouriço, Muriel Barbery, Companhia das Letras, Capa.

A Elegância do Ouriço, Muriel Barbery, Companhia das Letras, Capa.

 

 

 

Publiquei uma resenha deste livro aqui, para ler, clique AQUI.

 

 

Empatados em segundo lugar na preferência da comunidade L.E. com o mesmo número de votos:

 

 

A História do Rei Transparente – Rosa Montero

O castelo de Vidro – Jeanete Walls

Memorial de Maria Moura – Raquel de Queiroz

 

 

 

Em terceiro lugar ficaram:

 

A Louca da Casa – Rosa Montero

A Catedral do Mar – Ildefonso Falcones

 

 

 

 

 

Para a lista completa, visite o BLOG do LIVRO ERRANTE.

 

 

O que é a comunidade do Livro Errante?

 

É um grupo, composto por aproximadamente 270 leitores do Brasil inteiro que passa o ano emprestando, trocando e discutindo livros entre seus membros.  Estes são leitores compulsivos, inveterados.  Admitem que aí encontraram um meio de se conectar com pessoas com valores semelhantes, de todas as idades imagináveis e profissões diversas.    É uma das grandes histórias de sucesso deste portal de relacionamento.  Mais tarde, num outro post descreverei outras ramificações de sucesso que fizeram deste grupo de pessoas uma comunidade ímpar.  Eu mesma faço parte do grupo e reconheço sua grande influência na minha vida profissional e pessoal.  Apesar de ser uma leitora assídua, que dava conta em geral de uns 50 livros por ano, desde entrei para o LIVRO ERRANTE minha leitura não só aumentou em número como no leque de interesses.  E a possibilidade de trocar idéias com pessoas que leram os mesmos livros é fascinante.

 

A comunidade está aberta e pública, mas há regras na participação e há compromissos a serem feitos.  Participação é essencial.  Diferente de outras comunidades no Orkut, ninguém pode simplesmente entrar na comunidade para mostrar que aprova a idéia ou para dizer que é membro, ou melhorar o seu perfil.  Sem participação efetiva a comunidade retira o participante do grupo.  Esta é uma das regras.