A Inveja em texto de Teolinda Gersão

11 09 2014

 

 

Talbot Hughes - The New DressO vestido novo, s/d

Talbot Hughes (Inglaterra, 1869-1942)

óleo sobre tela, 57 x 41 cm

 

 

“Por sorte, logo no início tinha havido um acaso que viera dar força à versão que lhe convinha: Dora Flávia mandara-lhe coser um pedaço da bainha de um vestido, no lugar onde o fio rebentara. Era já tarde e ela tinha perguntado se podia fazer esse trabalho em casa. Dora encolhera os ombros, era-lhe indiferente, não precisava do vestido agora.

Assim, levara-o consigo, deixara-o toda a semana pendurado no quarto da costura. E no meio das provas, mencionava sempre que tinha que acabá-lo, antes de quarta-feira. Era da dona da casa no Sommershild.

Em geral nem sequer era ela a puxar a conversa. O vestido falava por si, atraía logo os olhos das freguesas.

Deixara-o ali como um talismã que a livrasse, e ela do mundo dos armazéns baratos d’ A Feira ou do Lorenzo Marques Mercantil, na rua dos Irmãos Roby. Como se o vestido, suspenso da cruzeta, fosse o sinal exterior de uma mudança.

Só na terça-feira seguinte, à noite, lhe coseu a bainha. Difícil, porque a mousselina parecia desfazer-se nas mãos. Mas era também um prazer tocar-lhe — suave, leve, se havia tecido vaporoso era aquele.

Vestiu-o da própria depois de pronto. Um corpo tão parecido, as medidas iguais, ficava-lhe até melhor a ela, achava-se tão mais bonita do que Dora. Mas os vestidos pertenciam a umas, e não a outras mulheres. Mesmo quando uma mulher os talhava e cosia com as suas mãos eles pertenciam a outra. As vidas não se trocavam.

Dora nunca lhe pagaria o preço justo por nada, soube. Ninguém lhe pagaria. Nem ela poderia explicar. Se tentasse, neste caso, enumerar os problemas em volta do vestido, falaria da textura tão leve que parecia areia movediça, onde os alfinetes e a agulha escorregavam sempre, e Dora assentaria, distraída, com um movimento de cabeça, julgando que ela queria justificar um acréscimo no preço por esse trabalho extra,  diria, sim, sim, impaciente, sem ouvir, porque tanto lhe fazia pagar um pouco menos ou um pouco mais, e no fundo essa conversa aborrecia. Nunca poderia dizer-lhe que o problema não tinha sido o trabalho, mas aquele nó na garganta, como uma mão de ferro, que a deixava sem ar.

Podia fazer um vestido assim, pensou ainda, rodando levemente sobre si própria no espelho. Saberia fazê-lo, tal e qual, nem um ponto a menos. Mas o que parecia uma coisa próxima, concreta, era ao mesmo tempo impossível, irreal.  Mesmo que houvesse ali à venda aquele tecido e ela tivesse dinheiro para comprá-lo (duas coisas já de si improváveis), nunca teria ocasião de vesti-lo, porque não tinha acesso aos lugares onde esse tipo de roupa se usava.

Despiu-se devagar, no espelho. Como pudera, alguma vez, ter-se alegrado,  com as idas a  Sommershild, com o que dentro de si, na euforia do primeiro momento, chamara “a época do Sommershild”. Como pudera ser tão louca. Acreditar que uma mudança acontece só porque alguém passa a ir regularmente a um lugar.”

 

Em: A árvore das palavras, Teolinda Gersão, São Paulo, Planeta: 2004, pp 86-87.

 

 





O virador de páginas de David Leavitt – Resenha

4 09 2014

 

 

caillebotte-gustave-jovem tocando piano, 1876, ost, col partJovem tocando piano, 1876

Gustave Caillebotte (França, 1848-1894 )

óleo sobre tela

Coleção Particular

 

Nas mãos de Guy de Maupassant esse romance teria sido exemplar. Levaria todas as cinco estrelas que tenho direito a dar. Digo isso porque há algo de Maupassant na leveza com que a narrativa se desenrola e na intenção sócio-realista. Infelizmente falta a David Leavitt o cuidado com a estrutura da trama e com os diálogos, características em que o escritor francês se esmerava. Assim como está, esse romance dá a impressão de uma obra feita às pressas, na coxa, sem finesse. Por vezes a narrativa muda de ponto de vista abruptamente e ênfase é dada a personagens secundários em detrimento de um aprofundamento nas emoções e nas razões do comportamento dos que identificamos como principais. Por que certos detalhes são acentuados roubando o vigor à história? Toda a narrativa, da estrutura ao diálogo, do ritmo ao desfecho – e este é inconcluso — poderia ter sido trabalhada e como resultado O virador de páginas seria uma obra de impacto. Falta conteúdo psicológico e emocional.

 

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David Leavitt é um desses nomes que aparecem em conversas literárias aqui e ali, um nome com peso social, amplamente divulgado nos círculos gays e literários. É possível que eu tenha escolhido para minha apresentação ao autor um de seus livros mais fracos. Pena, porque vou custar a abrir outra publicação dele.

Os temas, os assuntos, são de primeira linha. Todos são temas universais, tratando das dificuldades por que passam os seres humanos. Em primeiro plano: a difícil, frustrante, aniquiladora descoberta das nossas limitações. Saber que sonhos afagados por anos, por uma vida inteira, não poderão jamais se concretizar, porque sonhamos além das nossas habilidades. Em segundo: a apresentação, quando ainda se é muito jovem, aos desencontros amorosos, para os quais a vida parece ser terreno fértil — o dar-se a quem não merece, a quem não dá valor; e o ser desejado por quem não temos atração; assunto explorado por muitos e tão sucintamente colocado no esplêndido poema Quadrilha de Carlos Drummond de Andrade. Esses dois temas recheiam o que há de melhor na produção literária há séculos e permanecem em pauta porque falam de condições inerentes ao ser humano. Falam da paixão.

 

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As ideias centrais em O virador de páginas são boas, mas pobremente executadas. Como está, o livro é medíocre. Sérgio Viotti que fez a tradução, escreve na orelha: “Ouvido de uma precisão teatral, que suas cenas dialogadas podem facilmente ser diálogos para ver e escutar…” Infelizmente Viotti numa tentativa de exaltar o romance, se concentrou justamente no que achei de mais leviano na obra. Os diálogos são sim, como falamos. E nossa fala é repetitiva, muitas vezes vazia, sem qualquer intenção de criatividade. Obrigar o leitor a ler diálogos que não levam a nada é desmerecer a atenção que o leitor lhe dá. Não é estofo para uma obra literária. Vamos a um exemplo de muitos:

“– Alô?
— Alden?
— Não, Paul.
— Paul, aqui é Joseph Mansourian. Como vai?
— Estou bem. – Sentando-se, Paul tirou o som da televisão, ajeitou o cabelo para trás, com a mão.” [p.156]

Sinto não poder recomendar O virador de paginas. Sei que em breve o terei esquecido, porque ainda há obras literárias que merecem o  cuidado da minha atenção.





Minutos de sabedoria — Eça de Queiroz

26 08 2014

 

 

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David Emile Joseph de Noter (Bélgica, 1818-1892)

óleo sobre tela, 77 x 64 cm

Coleção Particular

 

 

“O homem põe tanto do seu caráter e da sua individualidade nas invenções da cozinha, como nas da arte.”

 

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Aguapés, de Jhumpa Lahiri, sem prumo

31 07 2014

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Paul Olson (EUA, contemporâneo)

 

 

Aguapés é um romance de leitura fácil, mais ou menos engajante, com uma história de pouco interesse e completamente sem prumo.  É chocho. Quem escreveu a sinopse que aparece no site da editora Biblioteca Azul, selo da Editora Globo, não leu o livro que eu li. É a história de um homem e sua família, indiano, radicado em Providence, no estado de Rhode Island (EUA), engenheiro ambiental . Sua vida é tão comum quanto a de qualquer um: sem grandes eventos, sem grandes emoções, exceto pela sua retidão de caráter.

É sim, uma história de dois irmãos próximos, de temperamentos diferentes. Dois irmãos muito diferentes: Udayan é um revolucionário maoísta, ativo em Calcutá, nos anos 60. Subhash seu irmão mais velho nada tem a ver com política, sai da Índia para os EUA. Mas, apesar de vidas diversas, não há um embate, onde temperamentos opostos se confrontem. Subhash, por sair da Índia, parece, no início, se revoltar contra as tradições ancestrais. Enquanto Udayan, ainda morando na casa dos pais, dá a impressão de ser aquele mais perto do ideal familiar. Um dia seus destinos se unem por imprevisto inevitável. A partir daí, Subhash, cuja vida acompanhamos até os 70 anos, se transforma no mantenedor da família, reformulando todos e quaisquer objetivos e gols em sua existência em favor da próxima geração. Seu sacrifício é imenso. Abnegação total. O dever sempre falando mais alto.

 

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Mas a figura central do romance não é nenhum dos irmãos. Eles são a moldura. A força motora é a enigmática esposa de Subhash cujo comportamento inimaginável permeia toda trama. Uma figura sem qualquer carisma que acaba ditando a vida de todos à sua volta.

O período de setenta anos cobertos nesse romance passa superficialmente pelos marcos da época, no ocidente. Uma ou outra menção ao presidente do EUA é o que situa a passagem de tempo. Há muita coisa que não é necessária nessa história e muita coisa que deveria aparecer e não está lá. Todos os personagens, talvez por serem tratados superficialmente, são incompreensíveis e não ganham a simpatia do leitor. Há foco demorado no que não é importante – como o “affair” de Subhash com uma americana – ou o final passado na Irlanda, que me pareceu “product placement” [anúncio] da agência de turismo do país.

 

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Fraco. Não recomendo. Foi a escolha do meu grupo de leitura para este mês em homenagem a autora que participa da FLIP [Festa Literária Internacional de Paraty] agora em julho. Pena.





1Q84 de Haruki Murakami, 1.280 páginas de sedução!

28 07 2014

 

 

1133271241496be8felGaleria labiríntica, 2008

Ai Suijyo (Japão, contemporâneo)

acrílica

 

 

1Q84 foi uma das mais envolventes leituras que fiz nos últimos tempos, uma experiência rica e extravagante, li 1280 páginas em 17 dias, e ainda me encontro sob seu feitiço. Boa literatura permite ser lida em diversos níveis e esta obra de Haruki Murakami não é exceção. É difícil rotular esse romance, é um thriller, mas é muito mais. Há fantasia e dimensões além da nossa realidade. Há mistérios por toda parte e os personagens têm que superar barreiras físicas e psicológicas para sobreviverem. Não é um romance distópico, como alguns caracterizaram, nem pertence ao mundo da ficção científica. Mas aborda a existência de realidades paralelas.  Os principais personagens têm que vir a termos com essa realidade paralela onde, se não tiverem cuidado poderão se perder por lá, para sempre. As aventuras e incessantes perseguições são envolventes e é fácil o leitor se identificar com os personagens sem se preocupar com as questões filosóficas levantadas pelo autor. A mais central pode ser delineada pela pergunta: quando uma ação “do mal” é ou pode ser justificada?

O mundo de Murakami, em qualquer dimensão, relativiza a questão da moralidade. Todos os retratados têm aspectos de retidão e ética, mas ficamos ambivalentes porque todos eles, sem exceção, agem de maneira questionável. O leitor se encontra em um dilema: identifica-se com todos eles, porque são retratados como pessoas que entendemos, que conhecemos intimamente, com falhas e qualidades, muitas delas semelhantes às nossas. Mas há um viés do mal em cada um deles, mesmo nos mais angélicos. As perguntas sobre ética se proliferam à medida que a história se desenvolve: planejar um assassinato é justificável desde que a vítima seja uma pessoa perversa? Há ocasiões em que participar, com pleno conhecimento, de uma fraude pode ser perdoado? Qual é exatamente o ponto em que a cobrança de uma dívida deixa de ser cobrança e passa a ser perigosa perseguição e assédio? Pode uma crença religiosa abonar a prática do incesto? Há outras perguntas relevantes, cada qual acompanhando um personagem diferente.

Essas perguntas adquirem urgência quando se busca soluções à medida que a trama se abre, como um leque oriental mostrando, em cada varinha uma vida, um drama pessoal. Em todas nos perguntamos, à maneira de Malcolm Gladwell, qual é o “Ponto de Virada”, como e em que circunstâncias isso ou aquilo pode ser aceito? Há no capítulo 15, vol. 1,  por exemplo, um excelente diálogo entre Aomame, a personagem feminina  principal e sua empregadora, onde Murakami claramente faz um alerta sobre o perigo da arrogância, quando imaginamos que certas de nossas ações podem ser justificadas, já que nossos sentimentos são puros.  É por isso que aceitamos pagamento, para nos enraizarmos na realidade. Fato é que ninguém em 1Q84 passou pela vida incólume, sem ter à flor da pele as cicatrizes dos maus-tratos infringidos por progenitores, por família, por suicídios, por abandono, por maridos, por orfandade, por fanatismo religioso e pobreza.  E, no entanto, nenhuma dessas perguntas é respondida. Fica para o leitor a procura da resposta e a ponderação sobre a diferença das éticas entre as realidades de 1Q84 e 1984.  Isso poderia ser expandido em um ensaio muito maior, envolvendo até mesmo a obra de George Orwell.  Murakami nos deixa refletir, menciona a Ética a Nicômaco de Aristóteles, no capítulo 11 do primeiro volume, em uma longa passagem de página e meia, mas não impõe uma resposta, exceto pelo vago aceno à espiritualidade nas páginas finais do romance. Murakami organiza o livro com referências éticas no primeiro e no terceiro volumes, salpicando observações sobre as diferença entre o bem e o mal através de toda a obra.

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1Q84 é um romance de poucos personagens, retratados a fundo. Nos dois primeiros volumes a história é alternadamente contada pelo cotidiano de Aomame e Tengo, que formam o casal romântico da trilogia. No terceiro volume mais um personagem, Ushikawa, um detetive, passa a ter nossa atenção, somos guiados a conhecê-los todos a fundo. É justamente através desses personagens que nos envolvemos em questões de ética. Tamaru, o chefe de segurança da Senhora, coreano e gay, fala por Murakami. É com ele que percebemos a visão do autor, principalmente no terceiro volume. Ele é sábio. Conhece a vida e conta histórias que a fazem relevante. Ele é o ponto de equilíbrio e quem soluciona os problemas. Personagem importante, que não ganha capítulos com seu nome, mas sua presença e poder de decisão são essenciais. Tem muitas características do herói. Eu certamente me apaixonei por ele, mas nem ele é um exemplo de ética. Todos, como nós, têm seus calcanhares de Aquiles.

Muitas críticas a essa obra falam de repetição e do final fraco. Não achei repetitivo. Cada vez que voltávamos a um assunto ele era expandido e novas camadas de conhecimento adquiridas. A cada repetição mais se firmaram os pontos importantes.  O final não poderia ser diferente. De fato, ainda no primeiro volume, Murakami, no capítulo 14, ao descrever como o mundo da ficção se tornara relevante para Tengo adolescente, estabelece que ela, a ficção, não acha soluções para a vida real, no máximo ela pode apontar para o caminho a ser tomado. Assim como aceitamos os elementos fantásticos da trama, sem questioná-los devemos aceitar também o seu abandono. De fato, é o estilo de Murakami que mais contribui para essa aceitação do que não é comum na nossa realidade. Ele estabelece o misterioso, o fantástico com uma precisão tão eloquente que não nos deixa espaço para dúvida. Tanto que nos momentos mais aterrorizantes sentimos com os personagens o terror que eles sentem. Confesso que em alguns momentos tive reações físicas à narrativa: pés e mãos gelados, aumento do batimento cardíaco. Se isso não é um sinal de uma prosa convincente e admirável, não sei o que é.

Murakami, HarukiHaruki Murakami

Só consigo me lembrar de duas ocasiões em que tive semelhante dedicação a uma leitura. Foram livros bem escritos e de aventuras. Aos quatorze anos passei pela primeira vez uma noite em claro para não parar de ler As minas do rei Salomão, de H. Rider Haggard, publicado em 1885, em brilhante tradução de Eça de Queiroz. Uns dez anos depois o mesmo aconteceu com The Once and Future King, de T.H. White, originalmente publicado em 1958. Li na edição de bolso, avidamente, mais de 600 páginas que não couberam em uma única sentada, precisando de uma noite e mais um dia. Com 1Q84 fiquei acordada algumas noites até as quatro da manhã, ignorando o trabalho que me esperava nas manhãs seguintes… Falta de juízo. Isso não é costumeiro… Por que? Por que esse livro? Esse autor? Porque é uma obra espantosa, brilhante e inesperada.





Os livros favoritos de Ariano Suassuna

27 07 2014

 

Livros usados, David Carson Taylor, acrilicaLivros Usados

David Carson Taylor (EUA, contemporâneo)

acrílica sobre tela, 35 x 28 cm

 

 

A jornalista Simone Magno, colocou no seu blog a  lista as obras favoritas de Ariano Suassuana.  A informação é parte de uma entrevista que se encontra no portal da CBN.  Não deixe de ouvir o escritor na gravação da rádio.  Mas para matar a curiosidade, aqui estão:

 

AUTORES BRASILEIROS

As obras de Monteiro Lobato para crianças

Tesouro da Juventude — enciclopédia

Através do Brasil de Olavo Bilac e Manoel Bonfim

Os sertões, Euclides da Cunha

O triste fim de Policarpo Quaresma, Lima Barreto

O cortiço, Aluísio Azevedo

A carne, Júlio Ribeiro

 

Garotos_estudando_01Crianças estudando, ilustração do Tesouro da Juventude.

 

AUTORES ESTRANGEIROS

Scaramouche, Rafael Sabatini

Memórias de um médico, Alexandre Dumas

O Conde de Monte Cristo, Alexandre Dumas

Crime e castigo, de Fiódor Dostoiévski

O idiota, de Fiódor Dostoiévski

Os irmãos Karamazov, de Fiódor Dostoiévski

Os demônios, de Fiódor Dostoiévski

Almas mortas, Nicolai Gogol

Ana Karenina, Liev Tolstoi

Guerra e Paz, Liev Tolstoi

O vermelho e o negro, Stendhal

 

Então, quais desses livros você já leu?  Que tal colocar os outros na lista de leitura para os próximos dois anos?

 





Lembranças da adolescência: Ponson du Terrail

19 07 2014

 

 

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Stefan Eckert (Alemanha, contemporâneo)

guache sobre papel

 

 

Hoje, graças a um pequeno texto de Ary Band na página do Movimento por um Brasil Literário para o painel Ler, levar a ler, defender o direito de ler literatura, da Feira de Livros de Santa Teresa [FLIST] aqui no Rio de Janeiro, eu me encontrei sorrindo. Não é sempre que isso acontece quando se trata de um texto sobre o incentivo à leitura, mas nessa ocasião pude relembrar algumas leituras minhas que estavam esquecidas nas gavetinhas da memória da pré-adolescência. Assim como eu, Ary Band se encantou com as aventuras de Rocambole, herói adolescente do escritor francês Pierre Alexis, Visconde de Ponson Du Terrail.

Minha introdução a Rocambole foi feita através da Biblioteca Municipal do bairro onde morávamos aqui no Rio de Janeiro, um local que foi uma eterna fonte para as surpresas mais extravagantes no campo da leitura. Essa biblioteca não tinha na época muitos livros novos, mas tinha uma enorme quantidade de livros usados, com 10 a 20 anos de existência ou mais, muito bem conservados, que podíamos pegar emprestado por 15 dias. Ela foi uma mina inesgotável de aventuras literárias para mim, meus primos e alguns amigos, todos nós conhecidos frequentadores. Hoje, um supermercado ocupa o espaço dessa antiga biblioteca, que foi para um local de menor trânsito pedestre e moribunda, encontra-se dirigida por alguém que se encostou no emprego esperando a chegada da aposentadoria pelo governo. Pena…

 

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Foi só muito mais tarde, mais de uma década à frente, que vim saber da importância de Ponson Du Terrail no desenvolvimento dos romances de aventuras e de mistério;  e que seu personagem Rocambole havia sido tão influente no mundo das letras que sozinho gerara uma palavra que hoje existe em muitas línguas: rocambolesco, uma aventura cheia de peripécias.

Mais alguém por aqui, fã de Ponson Du Terrail?





A árvore das palavras de Teolinda Gersão

28 06 2014

 

 

Acacias-in-Flower-Moralana-Scenic-Drive-800x531Kevin watersAcácias em flor na estrada cênica Moralana [Austrália]

Kevin Waters (Austrália, contemporâneo)

 

 

A leitura de A árvore das palavras me fascinou pela linguagem na primeira parte do romance, quando vemos o mundo através das impressões de Gita, menina crescendo em Moçambique nos anos anteriores à independência. Filha de uma portuguesa que se casa por conveniência com Laureano Capítulo, moçambicano, Gita, branca, de olhos claros, tem um relacionamento de cumplicidade com seu pai, de distanciamento com a mãe e de aproximação emocional com os negros do país.  O romance dividido em três partes com diferentes narradores, nesta primeira voz narrativa é de grande apelo emocional, fascinante mesmo, sobretudo quando percebemos a aproximação da menina aos africanos e seus costumes.

Na segunda parte conhecemos o mundo de Amélia, a portuguesa, que ganha a vida em Lourenço Marques [hoje Maputo] como costureira.  Sabemos suas ambições e frustrações. Os sonhos. A amargura. A desilusão financeira e emocional.  Descobrimos como decide se casar e ir de encontro ao desconhecido.  Mas, sobretudo somos apresentados à sua enorme inveja, aos ciúmes do sucesso dos outros, de qualquer outro.  Nessa parte também aprendemos, em menor detalhe é verdade, sobre os sonhos de Laureano Capítulo, quando procura uma esposa para formar uma família, com uma mulher decente, e que por ela se apaixonou simplesmente pela fotografia mandada de Portugal.

 

 

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Na terceira parte vemos Gita jovem adulta, resolvendo sua vida da melhor maneira que lhe é possível, re-avaliando o papel de Amélia em sua vida, tentando entendê-la. Seus primeiros romances e frustrações amorosas são pinceladas impressionistas. Moçambique cresce. É hora da independência.  O poder de Lisboa está desgastado, não vale nada. Voltamos a saber dos personagens secundários que fizeram parte de sua vida de criança. Tudo indica que eles aparecem unicamente para que se feche o ciclo narrativo e para que se vislumbre o futuro de um país descolonizado. Eles não fizeram parte ativa da trama nem na primeira parte nem na ultima.

O romance prende a atenção. É uma lição de prosa poética. Mas a narrativa oblíqua,  ainda que belíssima, fica sem direção. Há um único conflito que se resolve na segunda parte.  A história peca pela falta de diálogos, pela caracterização indireta dos personagens, com exceção de Amélia.  Essa sim, é um verdadeiro camafeu, um loquaz perfil de mulher, principalmente quando se apresenta com toda a pequenez de pensamento e emoção, e com toda sua aversão à verdade.  De fato, é justamente Amélia que é a personagem complexa da história,  a mais interessante. Todos os outros,  de Laureano a Gita, de Roberto a Loia não são desenvolvidos o suficiente para que se entenda suas angústias, suas frustrações no plano emocional.  Fazem parte de um pano de fundo.  Se éramos para saber tanto de Amélia e das possíveis frustrações e preconceitos do português vivendo na colônia, porque então ela praticamente não aparece na primeira parte e definitivamente não se encontra na terceira e última parte do romance?

Teolinda-Gersao2Teolinda Gersão

Por esses motivos, pela falta de tensão na trama, pela falta de resolução não posso considerar este romance uma obra prima de Teolinda Gersão. Desconheço suas outras publicações. Sei que é autora que já ganhou uma dezena de prêmios de literatura em Portugal. Mas fora sua prosa poética, pouco restou para mim de A árvore das palavras.





Harry Quebert, um suspense multifacetado

20 06 2014

 

 

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Edward Hopper (EUA, 1882-1967)

óleo sobre tela, 66 x 101 cm

Museu de Belas Artes de San Francisco

 

Semana de férias. Nada melhor do que um livro de suspense! Apesar de recomendado por quase toda a imprensa internacional, comecei a leitura desconfiada: não é fácil para um autor prender minha atenção por 570 páginas. Em geral, um bom livro, uma boa trama, não precisa de tantas horas da minha atenção. Mas neste caso, valeu a pena!

O mais surpreendente em A verdade sobre o caso Harry Quebert são os diversos níveis de tramas, de segredos e de suspense que, por causa da constância com que aparecem e reaparecem na narrativa, deixam o leitor descobrir novidades até a última página. Todos os detalhes são importantes na narrativa. Até mesmo aqueles que nos parecem parte do pano de fundo. Um mestre, o autor suíço, Joel Dicker, usa uma grande variedade de gêneros de texto: epistolar, narrativa, entrevistas, descrições, relatórios, trechos de romances, tudo bem dosado, para desenvolver uma trama complexa e fascinante.

 

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A história, que começa simples e quase clichê, com um escritor de sucesso que se encontra sem escrever vendo os meses passarem e nenhuma ideia se firmar para o próximo romance contratado pela editora, logo logo prende a atenção e deixa de lado qualquer dúvida sobre a qualidade da trama.  Torna-se um romance policial, um romance de suspense,  de grande intensidade.  Com o narrador Marcus Goldman vamos e voltamos no tempo na tentativa de solucionar um crime acontecido mais de 30 anos atrás; acompanhamos seu esforço para salvar seu único amigo da cadeia e ainda testemunhamos sua tentativa de dar a volta por cima na própria carreira literária, que se encontra prestes a desabar. Aos poucos a leitura que já tem um grande ritmo desde o início, começa a pegar velocidade e é tão repleta de reviravoltas, de pistas que levam a lugar nenhum, surpresas inconcebíveis que o que resta ao leitor é, simplesmente, se entregar à manipulação do autor e deixar o texto correr pela montanha russa de altos e baixo das aventuras apresentadas. Totalmente cativante.

 

joel dickerJoël Dicker

Este é um thriller.  Um romance de mistério, uma história de suspense escrita por um jovem advogado, que faz desse texto um mostruário de suas muitas habilidades.  Se continuar assim teremos no futuro thrillers e suspenses de qualidade invejável. Excelente entretenimento.





“A valise do professor”, de Hiromi Kawakami

8 06 2014

 

 

NicolasChaperonhermesVenus & Hermes; painting by Nicolas ChaperonHermes e Vênus

Nicolas Chaperon (França, 1612-1656)

óleo sobre tela, 110 x 134 cm

Museu do Louvre, Paris

 

 

Meu conhecimento da tradição literária japonesa é nula. Conheço alguns escritores contemporâneos, mas não o suficiente para poder colocar a obra de Hiromi Kawakami em contexto. Assim, minha leitura de A valise do professor é feita pelos padrões e associações ocidentais. A história de uma simplicidade cativante, contada de modo direto sem rebuscados, de fácil leitura, retrata a vida de duas pessoas solitárias, que se reconhecem, que mantêm um relacionamento morno, e que encontram, no final, uma maneira mais íntima de se relacionarem. Elas são: Tsukiko uma mulher de 38 anos, solteira, que passa muitas de suas noites em um bar, sozinha, bebendo e comendo, sem grandes amigos e o Professor, de quem ela havia sido aluna, que viúvo, também, leva uma vida semelhante, só. Encontram-se em um bar e aos poucos desenvolvem uma amizade, fortemente enraizada na alimentação e na bebida. Apesar dos mais de 30 anos de idade que os separam, Tsukiko e o professor desfrutam de uma relação satisfatória para ambos.

 

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Este é um romance delicado de grande sensibilidade às diferentes exigências que cada um tem para se relacionar com o mundo. Por trás dessa simples história há algo que nos preenche, que nos fascina. Talvez seja porque corresponde ao que trazemos no seio da cultura ocidental: o arquétipo de Mercúrio ou Hermes como psicopompo, um ser que guia a nossa percepção sobre o mundo que nos cerca e media os nossos desejos inconscientes. Neste romance o professor exerce esse papel, o de guia, o papel de psicopompo, abrindo o caminho para que uma nova Tsukiko apareça e saia de seu casulo, que bata asas e viva a vida. E o ponto alto dessa instrução vem com introdução dela ao amor. O professor como um bom guia da alma, oferece novas oportunidades para que Tsukiko aprimore seus sentidos. Ele a acompanha e a ensina a transitar entre os extremos que a vida lhe apresenta. E oferece também uma passagem segura para o conhecimento de sua própria alma. Até mesmo na lida com o submundo ele a guia — dos sonhos e pesadelos à aceitação da morte.

 

Hiromi-Kawakami-c-Tomohiro-Muta-1013x1024Hiromi Kawakami

O título, que se refere à valise que o professor leva consigo a todos os lugares, corresponde ao arquétipo, pois trabalha com o símbolo da transição, o levar algo de um lugar ao outro. Não importa o conteúdo dessa valise, o que importa é que é o símbolo da viagem, da transição entre dois mundos esteja presente. Quando Tsukiko finalmente recebe a valise e a preserva, sabemos que ela entendeu e está pronta para assumir o papel do professor. Está, de agora em diante, incumbida em ser a facilitadora entre mundos, para quem dela necessite.