Tânger, a cidade vista por Tahar Ben Jelloun

7 05 2016

 

 

Henri_Matisse,_1911-12,_La_Fenêtre_à_Tanger_(Paysage_vu_d'une_fenêtre_Landscape_viewed_from_a_window,_Tangiers),_oil_on_canvas,_115_x_80_cm,_Pushkin_MuseumVista de Tânger pela janela, 1912

Henri Matisse (França, 1869-1954)

óleo sobre tela, 115 x 80 cm

Museu Pushkin, Moscou

 

 

“Cidade enfeitiçadora, ela amarra qualquer um contra um eucalipto com velhas cordas que marinheiros distraídos esqueceram no cais do porto; ela segue como uma perseguição; fica-se obcecado por ela como em uma paixão para sempre inacabada; fala-se dela; acredita-se que sem ela toda vida é enfadonha; tem-se necessidade de se saber o que está acontecendo, persuadido de que nada de essencial acontece.

Tânger é como um encontro ambíguo, inquieto, clandestino, uma história que esconde outras histórias, uma revelação que não diz toda verdade, um ar de família que envenena a sua existência desde que você se afasta; e você sente, então, que tem necessidade dela sem jamais conseguir saber por quê.”

 

 

Em:O último amigo, Tahar Ben Jelloun, Rio de Janeiro, Bertrand:2006, p.43

 





Resenha, “Isso também vai passar” de Milena Busquets

6 05 2016

 

 

andré derain landscape-at-cadaques, 1913, ostPaisagem de Cadaqués, 1913

André Derain (França, 1880-1954)

óleo sobre tela

Coleção Particular

 

 

Sempre admirei a capacidade dos escritores ingleses de escrever histórias de muito interesse nem sempre repletas de dramas, de questões filosóficas, mas centradas em ações enraizadas no dia a dia, que refletem as pequenas frustrações cotidianas e dão uma sensação de satisfação ao leitor que se reconhece, que entende o drama emocional contido numa indecisão, num gaguejar, na dúvida excruciante.  Os britânicos são mestres da insinuação, das reticências carregadas de emoção ou frustração. Essa maneira de retratar os pequenos dramas diários humaniza os personagens. Parte-se do pequeno gesto para se encontrar a verdade universal.

A escritora catalã Milena Busquets dedica-se também à literatura “do nada”, ao relatar do corriqueiro aparentemente sem propósito ou sem pertinência na vida de Blanca personagem principal de Isso também passará, que se encontra no processo de luto por sua mãe recentemente falecida.  Vamos com ela à cidade praiana de Cadaqués, acompanhados de suas amigas, das crianças, dos dois ex-maridos e do amante. Conhecemos o cachorro do passado. Memorizamos os nomes de uma enormidade de personagens que a rodeia. Todos bebem, fumam, namoram, flertam, dormem mostrando um comportamento de grupo semelhante ao de adolescentes tardios, ainda que estejam aproximadamente na quarta década de suas vidas.

 

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Milena Busquets tenta trazer para a ficção a difícil arte de Woody Allen no cinema, como uma citação na própria capa do livro rotula. Mas Blanca se diferencia das personagens de Allen  porque não parece nem complexa nem particularmente inteligente. E não tem nada a dizer.  Ao contrário, demonstra não ter pleno desenvolvimento psicológico.  Enquanto a acompanhamos em seu processo de luto somos convidados a testemunhar os não-eventos de sua vida, num interminável rosário do corriqueiro. Mas para quê?  O que ela ou nós leitores retiramos dessa festa de detalhes?

O livro que chegou ao Brasil repleto de boas apresentações: “Melhor Livro de 2015” de acordo com o jornal espanhol La Vanguardia; “Comovente…o retrato de uma geração” diz o jornal francês Le Monde —, desaponta. As credenciais da autora no mundo editorial talvez tenham ajudado na tradução de sua primeira obra de ficção para 32 línguas.  Mas por mais que tente Milena Busquets não chega a amadurecer a personagem principal.  Perde-se o fio condutor, o eixo emocional, que leve Blanca a encontrar a verdade anunciada no título da obra.

 

milena busquetsMilena Busquets

 

Cada um de nós lida com a perda de um ente querido de maneira diferente. Blanca aos quarenta anos, ainda não amadureceu emocionalmente. Procura e encontra no sexo seu único momento de alívio pela perda emocional. Não é lá que irá encontrar o abrigo para sua alma ferida.  Falta a Blanca um mínimo de reflexão, uma pequena luz que a leve à descoberta de si mesma, algo que também permita o leitor a ter interesse sobre seu destino; que faça com que ele se interesse pelo futuro: chegará Blanca ao outro lado da crise ou será absorvida por ela?  O dito “isso também passará” não proporciona uma resolução satisfatória.

Pena que haja quem descreva a personagem e suas falhas como características de uma geração.  Pois esse é o retrato do vazio do lugar comum. A geração nascida há quarenta anos merece uma caracterização mais rica e complexa. A obra deixa a desejar. Não recomendo.





Resenha: “O último amigo” de Tahar Ben Jelloun

5 05 2016

 

 

CPH60817Dois amigos, com texto de Cícero sobre amizade, c. 1522

Jacopo Pontormo (Itália, 1494-1557)

óleo sobre madeira, 88 x 68 cm

Fondazione Giorgio Cini, Veneza, Itália

 

 

Aviso aos leitores: nem sempre o tema de um livro é aquele abertamente citado pelo autor ou sugerido pelo título. O último amigo é uma joia, uma obra prima, de narrativa em espiral, um quase ensaio sobre a ilusão, sobre a autoilusão, sobre amizade, traição, ciúme e inveja. É um livro muito mais complexo do que suas poucas 120 páginas poderiam sugerir.

Trata-se do retrato de uma dessas amizades que nasce nos anos de escola, que se desenvolve através da juventude, que assim como seus componentes ela também amadurece, sobrevive a percalços, casamentos, exílio, e nos re-encontros através do anos parece se fortalecer, se solidificar. Sua base está na franqueza, na compreensão do outro, no conhecimento do passado em comum, no desejo generoso de que o outro seja bem sucedido, que desfrute do melhor.

 

 

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Tahar Ben Jelloun divide sua obra em três partes. Começa com uma longa e detalhada descrição de Ali, que na primeira pessoa relata o caminho percorrido pela amizade dele por Mamed. Nossa identificação com o narrador é imediata.  Sentimos que o conhecemos e por isso mesmo nos chocamos tanto quanto ele, quando seu amigo de infância o surpreende com um corte irremediável na amizade de vida inteira. Na segunda parte, temos a versão de Mamed sobre essa mesma amizade.  Também descrita na primeira pessoa e curiosamente mostrando outros fatos outro enfoque nos eventos que marcaram o relacionamento desses dois amigos. É aí que sabemos de sua decisão de cortar os vínculos fraternais entre ele e Ali. Na terceira parte temos o testemunho de Ramon, uma amigo dos dois protagonistas, mas não tão chegado a eles.

A amizade é o tema. Tanto Ali quanto Mamed professam profundos sentimentos um pelo outro.  Nas narrativas de ambos sabemos dos gestos magnânimos e sacrifícios que cada um fez em nome dessa amizade. Mas no tecido do texto, no forro desse longo relacionamento encontra-se outro sentimento: a inveja.  Inveja que Mamed chama ciúmes. E é ela que acaba por corroer o laço entre eles. Mamed não esconde esses sentimentos rasteiros em seu depoimento: “Acontecia de eu ficar com ciúmes de Ali também, porque ele era mais culto do que eu, porque vinha de uma família quase aristocrática, porque era mais bonito e que, graças a seu casamento, tinha ficado rico.” [96-7]. E mesmo que ao cortar os laços de amizade que tem com Ali imagine, ou diga tratar-se de generosidade, essa ação não esconde a fraude de seus próprios sentimentos.  Pois só a ilusão de uma boa ação poderia justificar para si mesmo a traição que comete, interferindo na amizade de longa data. A desculpa é fraca.

 

Tahar Ben JellounTahar Ben Jelloun

 

Jean Cocteau é conhecido por ter dito que “A felicidade de um amigo deleita-nos. Enriquece-nos. Não nos tira nada. Caso a amizade sofra com isso, é porque não existe.”  Acredito que este seja o retrato do que se passa aqui. Mamed tinha emocionalmente uma estatura pequena e não conseguiu honrar os sentimentos de seu único e exclusivo amigo.

Este é um grande livro numa pequena aparência.  Tornou-se um de meus favoritos, e por isso recomendo a todos que gostam de pensar um pouco, de explorar a natureza humana, de se envolver num debate interno e julgar se o ato de Mamed é um gesto de amizade ou de traição.  Aqui esta a minha opinião.  Talvez você tenha uma opinião diversa.  Leia-o.





Resenha: “O pescoço da girafa” de Judith Schalansky

27 04 2016

 

 

GrandvillefullAs metamorfoses do dia, 1829, ilustração de Grandville.

 

 

No livro “Jokes and their relation to the unconscious”, Sigmund Freud explana sua teoria do humor como expressão do sublime. Sublime neste contexto tem o sentido de assombroso, supramundano, semelhante ao seu sentido na literatura gótica da virada do século XVIII para o XIX.  Os surrealistas, quase cem anos atrás, usaram o conhecimento das teorias de Freud para justificar o que se convencionou chamar humor negro: a porta de entrada para o inconsciente. Um estudo sobre o surrealismo por Anna Balakian mostra que o humor negro era um canal para retratar uma realidade ou uma crise incompreensível.  E é justamente assim, através de um humor de justaposições irracionais e de gosto duvidoso, que somos apresentados à realidade de Inge Lohmark, professora de biologia no Colégio Charles Darwin, na antiga Alemanha Oriental.

Inicialmente nos dobramos de rir ao perceber as comparações que Frau Lohmark faz entre o mundo animal e o comportamento de seus alunos.  Baseando-se na teoria da evolução de Darwin, Inge Lohmark cativa a atenção do leitor, por explicar de modo claro, como o comportamento das crianças na sala de aula espelha aquele dos animais na eterna busca pela sobrevivência do mais forte.  Aos poucos, no entanto, começamos a perceber o desequilíbrio emocional da mestra.  A mudança é sutil.  Só quando o leitor já se vê cansado das teorias de Lohmark sobre o mundo, ele percebe, de repente, que entrou no fluxo de pensamento dela, como se testemunhasse a escrita automática que André Breton e seus cúmplices do movimento surrealista advogavam.

 

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O humor era entendido pelos surrealistas como uma crítica implícita aos mecanismos mentais convencionais. O conhecimento da obra de Freud lhes deu o ponto de partida para explorar o humor negro, ignorando a lógica como uma maneira de pensar, a fim de recuperar a verdade encontrada na percepção sensorial.  Este parece ser mais ou menos o caminho escolhido por Judith Schalansky para levar avante esta obra da qual qualquer escritor que tivesse assinado o Manifesto Surrealista de 1924 se sentiria justificado. Humor, ironia, chiste são os recursos usados para que o véu que esconde a verdadeira natureza da professora de biologia seja levantado. E o que se encontra, pode não ser tão bonito assim.

Inge Lohmark é uma professora idosa, amarga, infeliz, que passa a narrativa ruminando sobre o sistema escolar na antiga Alemanha Oriental, lugar onde havia nascido, crescido e estudado.  Suas ruminações são por vezes hilárias.  Mas as mudanças vindas com a unificação do país se mostram difíceis de abraçar no âmbito profissional, político e pessoal.  Sua interpretação baseada na sobrevivência das espécies que explica quase tudo à sua volta é inicialmente  interessante, por ser inesperada,  mas logo se torna cansativa.  À medida que vislumbramos a solidão e amargura da professora, à medida que ela parece mais humana, a narrativa perde a força, ainda que se possa ver com maior claridade a inépcia de Frau Lohmark em se adaptar às mudanças que a vida requer.  E o argumento, a crítica mordaz desencadeada pelas observações da mestra, perde força e claridade com o desenrolar da trama.

 

Judith Schalansky1Judith Schalansky

 

Tenho a impressão de essa obra, essa crítica ao sistema escolar e ao ensino na Alemanha Oriental, pode ser repassada para outras escolas e sistemas de ensino em países diversos, mas não consigo deixar de sentir que esta narrativa é mais significativa para os alemães e talvez para alguns europeus.  Há muito que se perde na mudança de uma cultura para a outra. É uma obra que qualquer escritor surrealista estaria feliz em ter assinado.

É um livro difícil de recomendar. Pode-se entender seu objetivo.  Mas duvido da qualidade de sua mensagem para um público estrangeiro.





Resenha: Bonita Avenue, de Peter Buwalda

21 04 2016

 

 

photoLigações Perigosas, 1935

René Magritte (Bélgica, 1898-1967)

óleo sobre tela

LACMA, Los Angeles County Art Museum

 

 

 

Siem Sigerius é um grande matemático especializado na teoria dos nós e reitor de uma universidade holandesa.  É também um dos narradores de Bonita Avenue, assim como seu principal personagem.  Ainda que ele divida com Joni, sua enteada e Aaron o namorado dela a apresentação ao leitor dos eventos que levaram ao colapso da família, é seu o papel principal dessa obra.

Diz a teoria dos nós que : “O artesão que faz uma trança, uma rede, ou alguns nós estará preocupado, não com questões de medidas, mas com aquelas de posição: o que ele vê ali é a maneira na qual os fios estão entrelaçados”. [Wikipédia] Como um bom entendedor de nós, e de seus emaranhados, Siem, na segunda metade da obra quando começa a perceber a teia em que ele se encontrava, começa a desatar um a um os nós que estruturavam as relações familiares.  Até o momento em que precisa ele mesmo desaparecer.  Desse ponto de vista seu suicídio é previsível.  E para os que acham que posso estar revelando segredos, acalmem-se: o suicídio é contado logo no início do livro.  Pois não só a narrativa é baseada em três vozes, como ela é apresentada no presente e no passado sem qualquer ordem que possa ser detectada pelo leitor.

 

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Bonita Avenue não é para o leitor de coração fraco, ou do que gosta de uma narrativa linear.  Nem é para o leitor que deseja simplesmente se divertir.  Temos que trabalhar o cérebro para seguir essa trama espetacular, confusa, estranha e, sobretudo questionadora dos comportamentos modernos, pós-internet.  No coração dessas questões está o hábito do consumo de pornografia na rede, assim como a questão curiosa sobre a imagem das mulheres e homens que se expõem em sites pornográficos: são ou não profissionais da prostituição?  Os atores pornográficos são exibicionistas? E suas identidades podem de fato se manter desconhecidas?  A identidade na rede é uma das questões levantadas nessa obra abrangente sobre a vida moderna.

A história circula em volta da família Sigerius entre os anos de 1980 e 2000. É uma família moderna. Segundo casamento de ambas as partes com filhos dos compromissos anteriores. Também é uma família disfuncional. Seus personagens são fascinantes e incluem além do matemático conhecido mundialmente, um fotógrafo, uma marcineira e uma  atriz pornô.  Há referências ao judô, a doenças mentais e sobretudo à indústria pornográfica na internet.  A família não é feliz.  A época em que foi mais feliz se resume aos anos passados na Califórnia, em Berkeley, num endereço na Bonita Avenue.

 

Peter BuwaldaPeter Buwalda

 

Peter Buwalda tem uma maneira singular de narrar.  Paga seus tributos à literatura do século XIX dando-se ao trabalho de apresentar personagem por personagem logo no início da obra.  Mas são poucos. Isso contribui para a sensação de claustrofobia, e também para dar a impressão de que o enredo não progride.  O que lembra de novo as obras do século XIX, em particular a afirmação da escritora inglesa Geoge Eliot em relação à linha do tempo de uma obra:  “O melhor fogo não é o que se acende mais rapidamente.” Buwalda toma seu tempo e diferente da literatura mais tradicional apresenta seus personagens com viés:  todos parecem caracterizados pelos seus piores aspectos, como se os víssemos só pelo lado B de suas personalidades. Outro artifício é a apresentação de um enredo simples centrado na família, mas contado com tantas interferências de fatos irrelevantes, anedotas, histórias paralelas que parece chegar ao essencial paulatinamente, comendo pelas beiradas.

Uma história espetacular, em que personagens fora da norma nos convidam a reflexões nem sempre fáceis. É violenta. Ocasionalmente bastante gráfica, inclusive na pornografia.  Mas não é para qualquer um. Você precisa gostar de uma história apresentada de maneira complexa, não linear e com final em aberto.  Fora isso, magistral.





A companhia de um cão, texto de William Boyd

14 04 2016

 

393.0LJovem homem e seu cão, 2005

Mihail Aleksandrov (Rússia/EUA, 1949)

óleo sobre tela,  55 x 65 cm

 

 

“Senti uma espécie de aflição tão intensa e pura, que achei que fosse morrer. Uivei feito um bebê com meu cachorro nos braços. Então coloquei-o em uma caixa de vinho, e o levei para o jardim onde o enterrei debaixo de uma cerejeira.

Ele é só um cachorro velho, digo para mim mesmo, e viveu uma vida de cachorro plena e feliz. Mas o que me deixa indescritivelmente triste, é que, sem ele, fico sem amor na vida. Pode parecer estúpido, mas eu o amei e sei que ele me amou. Isso significou que houve um fluxo descomplicado de amor recíproco na minha vida e acho difícil admitir que terminou. Olhe só para mim, murmurando, mas é verdade, é verdade. E, ao mesmo tempo, sei que uma parte da  minha tristeza é apenas autopiedade disfarçada. Precisei daquela troca e estou preocupado por não saber como viverei sem ela nem se conseguirei arranjar um substituto — quem dera fosse tão fácil quanto comprar um novo cachorro. Sinto muita pena de mim mesmo — é isso que é aflição.”

 

Em: As aventuras de um coração humano, William Boyd, Rio de Janeiro, Rocco: 2008, tradução de Antônio E. de Moura Filho, p. 503-4.





Um ser urbano, texto de William Boyd

8 04 2016

 

walsh_CENTRALCAMERA1webCentral Camera, 2012

Nathan Walsh (GB, 1972)

óleo sobre tela, 60 x 103 cm

Coleção Particular

 

 

“Minha natureza é essencialmente urbana e, embora Los Angeles seja indubitavelmente uma cidade, de algum modo seus costumes não são. Talvez seja o clima que confira um eterno ar suburbano e provinciano: as cidades precisam de extremos de climas, de forma que você almeje  fugir delas. Acho que eu poderia morar em Chicago — gosto quando viajo para lá. Além disso, tem de haver algo brutal e descuidado sobre a verdadeira cidade — o habitante precisa se sentir vulnerável — e não se encontra isso em Los Angeles, ou pelo menos, não vi nada disso no curto espaço de tempo que passei no lugar. Sinto-me muito à vontade aqui, muito aninhado. Essas não são experiências da verdadeira cidade: sua natureza entra por baixo da porta e pelas janelas — não dá para se ver livre. E o sujeito genuinamente urbano é sempre curioso — curioso sobre a vida nas ruas. Isso definitivamente não se aplica ao caso de Los Angeles: o cara mora em Bel Air e não se pergunta o que está acontecendo em Pacific Palisades — ou se ele está perdendo alguma coisa.”

 

 

Em: As aventuras de um coração humano, William Boyd, Rio de Janeiro, Rocco: 2008, tradução de Antônio E. de Moura Filho, p. 373





Matilda da Toscana, o peixe e o anel

4 04 2016

 

 

Hugo-v-cluny_heinrich-iv_mathilde-v-tuszien_cod-vat-lat-4922_1115adMatilda da Toscana, início do século XII

Iluminura do manuscrito Vita Mathildis

de autoria de Donizo.

[Aqui, Matilda no papel de interventora a favor da absolvição de Henrique IV, junto ao abade Hugo de Cluny].

 

É curioso como histórias que aprendemos há tempos às vezes retornam, assim do nada, trazidas por um fio puxado dos confins da memória, de tal modo que nem nós mesmos entendemos como viemos a nos lembrar dessa ou daquela informação.  Estou lendo o livro Bonita Avenue do autor holandês Peter Buwalda e encontrei logo no primeiro capítulo referência ao conto do peixe e do anel, que neste romance é atribuído a uma passagem (uma anedota) de Vladimir Nabokov.  Essa atribuição me deixou surpresa.  Eu a conheço como parte do folclore belga.

Todos os meus caminhos me levaram ao estudo da Bélgica e da Holanda.  Se houve um território na Europa que mais mudou de mãos através dos séculos, esse foi um deles.  Foi francês, flamengo, espanhol, holandês, alemão, católico e protestante.   Deu-nos não só as raízes do capitalismo, do mercantilismo, da classe média, da bolsa de valores, da tolerância religiosa, assim como nos deu Bosch, Bruegel, de Rubens, Rembrandt e Vermeer a Ensor, van Gogh e Mondrian, de René Magritte a Delvaux e Folon.

Pois a história do peixe e do anel também aparece na Bélgica e está ligada à fundação da Abadia de Nossa Sra. de Orval, fundada em 1132.  Matilda da Toscana ou Matilda de Canossa era uma poderosa rainha medieval que visitando as terras da região de Gaume [Florenville], quando já se encontrava viúva, perdeu o belo anel de casamento em uma fonte. Matilda ficou muito contrariada e em desespero rezou fervorosamente para que o anel fosse encontrado.  Eis que uma truta, de repente, salta da água segurando em sua boca o anel da Rainha Matilda.  Grata pela resposta aos seus pedidos a rainha então exclamou: “Este é um verdadeiro Vale de Ouro” [Val d’Or], batizando, naquele momento, a região que veio a ser conhecida como Orval. E foi lá que os monges cisterciences decidiram construir um monastério.





Resenha: “Memórias de um casamento” de Louis Begley

3 04 2016

 

Konstantin Razumov (Russia,1974)Elégante sur la terrasse, ost, 33 x 22 cmElegante no terraço

Konstantin Razumov (Rússia, 1974)

óleo sobre tela, 33 x 22 cm

 

 

Na capa de trás da edição brasileira de Memórias de uma casamento, somos  informados de que aqui encontraremos “um olhar profundo sobre uma classe e seus privilégios, numa trama que se desenvolve entre Paris e Nova York, Long Island e Newport”. Coroando essa apresentação, como que para justificá-la temos uma citação atribuída ao Washington Post: “Entre os escritores contemporâneos, Begley talvez seja o crítico mais sagaz e devastador do sistema de classes da sociedade americana”.  Nada mais ilusório.  Ainda que os personagens dessa narrativa sejam pessoas da classe social mais alta nos EUA, o foco está no retrato de uma mulher, complexa, vazia, intolerante, fútil, provavelmente ninfomaníaca, certamente  desequilibrada emocionalmente.  Como ela, existem centenas de outras em qualquer classe social. Ela causa danos a qualquer grupo familiar. Não importa, na verdade, onde nasceu, em que família, com quem casou.  Tipos como o dela não precisam ser da mais alta sociedade.  Eles existem em todo canto.

 

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Louis Begley é fiel a dois de seus predecessores: Henry James, grande mestre da literatura americana de final de século, também produziu, como mandava o seu tempo, romances  retratando tipos de mulher: Portrait of a Lady; Daisy Miller vêm à mente;  enquanto  Louis Auchincloss, já em pleno século XX,  também se esmerou nesse gênero como o fez em Sybil, The Dark Lady e outros. No Brasil, deste autor, encontramos em tradução:  A infinita variedade dessa mulher mais um de seus perfis de mulher.  Curiosamente, ambos Henry James e Louis Auchincloss se especializaram nos retratos de mulheres das classes sociais mais altas dos EUA.  No Brasil, a tradição literária dos perfis de mulher,  não se limita às classes mais altas, mas, como nos EUA, começa no século XIX, com Machado de Assis [Helena] e sobretudo com José de Alencar [Senhora, Diva, Lucíola, entre outros].

 

louis begleyLouis Begley

 

Ficam por aí as comparações. Ainda que a prosa de Louis Begley  seja agradável e os olhos corram sem obstáculos pelo texto, a apresentação da personagem principal Lucy De Bourgh, herdeira de mais de uma família importante da Nova Inglaterra,formada por pessoas  vindas no Mayflower e no Arabella, portanto entre os primeiros a chegar no continente americano, é monótona. Não há diálogos nestas 194 páginas. Há monólogos  de Lucy, de Jane.  Há cartas.  Em suma, falta dinamismo no texto. Temos diversos relatos, por diferentes pessoas. Contudo o texto flui.  Não só por habilidade do autor, mas também pela malévola e mórbida curiosidade despertada no leitor para saber sobre os detalhes, tintim por tintim, do malfadado casamento, onde o respeito pelo próximo é inexistente.

Tivesse Louis Begley usado de outros meios para narrar talvez pudesse ter despertado maior interesse nesta leitora.  Como está, trata-se de uma obra um tanto medíocre se comparada às suas anteriores, principalmente Sobre Schmidt e Schmidt Recua.





Resenha: “O Rouxinol”, de Kristin Hannah

19 03 2016

 

 

Corporal Elspeth Henderson and Sergeant Helen Turner, 1941 by Laura KnightCabo Elspeth Henderson e Sargento Helen Turner, 1941

Laura Knight (G.B. 1877-1979)

óleo sobre tela, 125 x 95 cm

Royal United Services Institute

 

 

O Rouxinol, de Kristin Hannah é um livro de leitura rápida, com uma história que engaja o leitor. O livro perfeito para a semana da Páscoa, para um feriado prolongado. Explora a Resistência Francesa durante a Segunda Guerra Mundial. É um quase thriller, com uma boa dose de sentimentalidade, o que agradará aos corações românticos. Além disso, tem uma característica rara dos livros dos meus anos formativos, mas que nesse século se tornou comum: mulheres fortes que por temperamento ou por necessidade desempenham papeis importantes em situações de extremo perigo.

Muito se tem escrito sobre a Segunda Guerra. A enormidade do agravo que dominou a humanidade por anos seguidos no século passado, afetando muitos países dentro e fora da Europa, diversas etnias, religiões, minorias e acima de tudo demonstrando o que há de pior no ser humano, não pode deixar de ser escrito, descrito, relembrado, analisado, esmiuçado, quer por historiadores, quer pelos descendentes daqueles que foram perseguidos e assassinados, por poetas, escritores, artistas sob pena de um dia ainda encontrarmos monstros capazes de repetir a dose. É item obrigatório na consciência humana.

O livro de Kristin Hannah situado na França sob domínio alemão traz à tona alguns aspectos nem sempre mostrados nas obras sobre a guerra. O papel essencial da mulher na luta de todos é um desses tópicos. Boa parte do movimento feminista da década de 1960-70 teve raízes na guerra. Com os homens indo para o front, restou às mulheres o trabalho que anteriormente havia sido designado como “trabalho de homem”. Elas descobriram que podiam fazer aquilo que antes pertencia exclusivamente ao mundo masculino. Isso aconteceu não só nos países europeus, mas em todos os países envolvidos no conflito. No total cerca de 1 bilhão e 900 milhões de pessoas se envolveram na guerra, dos quais estima-se que 72 milhões morreram. E em todos os países envolvidos, quer entre os Aliados ou entre os países do Eixo, quer no Oriente, na Austrália ou no Brasil, a mulher adquiriu postos de trabalho originalmente delegados aos homens.

 

 

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Na França do governo Vichy (França ocupada) formou-se um movimento de resistência ao domínio alemão, formado por pessoas comuns que em um circuito secreto passavam informações, liberavam prisioneiros, protegiam perseguidos, salvavam vidas e lutavam de maneira secreta, correndo risco de vida diariamente, na maioria das vezes sem o uso de armas. Historiadores ainda estão se debruçando sobre os dados desse movimento oculto. Suspeita-se que não tenha sido tão difundido quanto a imaginação dos sobreviventes da guerra o faz. No entanto, o movimento existiu e seus membros correram riscos verdadeiros, diários e muitos foram assassinados pelas tropas alemãs, quando descobertos. Nessa guerra oculta, onde o segredo, as relações de amizade, família e confiança se mostraram essenciais, as mulheres se sobressaíram. A Resistência Francesa não teria tido o sucesso que teve sem a contribuição das mulheres. Kristin Hannah mostra muito bem como isso aconteceu e explora ainda mais intensamente como as mulheres acabavam se envolvendo nesse contexto de guerra, fora dos parâmetros conhecidos do embate. Ela explora o assunto dedicando-se às duas irmãs que retrata, Isabelle e Vianne Rossignol. Duas irmãs, de diferentes personalidades, idades, com maneiras diversas de encarar a vida, que na guerra da França sob a governança de Philippe Pétain e Pierre Laval, se mostram igualmente lutadoras e corajosas, ainda que cada qual se aproxime dessa decisão por diferentes meios. Mas vale lembrar que todos os que lutaram na Resistência precisaram de uma enorme coragem moral e resistência física, quer elas sejam requeridas nos meios escolhidos por Isabelle, quer naqueles encontrados por Vianne.

A rebelde Isabelle se vê desde os dezenove anos envolvida na Resistência, travando batalhas pessoais, salvando vidas. Vianne é muito mais insegura, com uma filha para cuidar e o marido na guerra, acha-se em situação precária depois que soldados alemães ocupam sua casa. Cada qual enfrenta seus próprios demônios, quase todos originários de um relacionamento insatisfatório com o pai e ausência da mãe falecida. Vianne representa um lado dessa guerra que também é pouco explorado na literatura: o papel do colaborador. A pergunta que não cala: qual é o ponto de virada num ser humano, quando ele deixa de lado valores tradicionais como honra e lealdade e passa a ser um colaborador com o inimigo.

 

kristin-hannah4Kristin Hannah

 

Philippe Pétain que havia sido um herói nacional da França durante a Primeira Guerra Mundial justificou sua subserviência ao regime nazista dizendo que menos franceses morreriam nessas circunstâncias. Errou. Auxiliado por Pierre Laval ambos fizeram um grande mal ao cidadãos franceses. A questão dos colaboradores e dos resistentes tem ocupado um bom número de estudiosos. Rab Burnet com seu livro Under the Shadow of the Swastika: the moral dilemmas of Resistance and Collaboration in Hitler’s Europe, talvez seja o mais recente estudo do fenômeno. Mas Michael Gross, Idith Zaital e outros têm-se dedicado ao tema. A vida de Vianne se desenrola no início fazendo um paralelo à política nacional de Pétain. Quando Laval coordena a deportação de judeus nascidos fora do território francês, encorajando a deportação de crianças, as coisas começam a mudar para Vianne. Esses atos repercutem diretamente em sua vida, porque ela vê sua melhor amiga Rachel levada pelos nazistas, com um dedo de sua própria e até então inocente colaboração. Kristin Hannah não chega a explorar o dilema moral de Vianne. Passa por cima. Perde uma boa oportunidade de transformar a personagem em elemento mais rico e complexo. A contaminação moral, causada pelas execuções em massa, pela tortura, deportações, pelos trabalhos forçados é fato conhecido. Essas ações criaram desconfiança e subverteram a confiança cultural coletiva dos franceses. Colaboradores em geral não se apresentavam voluntariamente, mas o faziam como consequência de coerção. O dilema de Vianne, que tinha um membro do exercito nazista em sua própria casa, e sua melhor amiga, uma judia na casa ao lado, poderia ter sido mais bem explorado.

E é justamente por essa escolha, digamos assim, mais popular, mais democrática no entendimento, que O Rouxinol não recebe todo o meu apoio. Não me surpreenderia ver esse livro rapidamente transformado em um filme. Há elementos que traem essa intenção. No início, quando a bela cidadezinha francesa é descrita, bucólica com gerânios nas janelas em vasos de barro, tive a sensação de estar num mundo perfeito demais, próprio para um set Hollywoodiano. Depois vem a hipérbole narrativa. Os sofrimentos são enormes, as alegrias também, os amores profundos. O ressentimento de ambas as irmãs com o pai é extremo e duvido muito que na época, nos anos 30-40 do século passado tenham sido tão fora do comum quanto nos parece hoje. A educação era diferente. Era mais dura, menos dada às emoções enunciadas hoje pela cultura popular. Há também o mito romântico sobre a Resistência, que é uma Rainha de Sabá cultural, ganhando sedução justamente pelo numero que véus que a encobre. Kristin Hannah não conseguiu se deslindar de muitos lugares comuns, como mensagens comunicadas pelas cortinas abertas ou fechadas em uma janela, por exemplo. O final melodramático, em que só faltamos ouvir uma trilha sonora de violinos para acompanhar as lágrimas barateia um tema tão rico.

Dou quatro estrelas de cinco a esse livro principalmente porque estou ciente de que ele pode servir de porta entreaberta para o conhecimento, para um leitor mais jovem que nunca tenha ouvido falar desse outro lado da guerra. Talvez grande parte do meu desapontamento se deva à experiência como leitora. Por via das dúvidas ficam aqui quatro estrelas. Mas eu não hesitaria em ler essa obra ou em dá-la de presente a um jovem leitor. Francamente, comprei-o de presente para uma sobrinha.