Resenha: “A mulher desiludida” de Simone de Beauvoir

26 05 2016

 

 

corot, interrupted readingLeitura interrompida, 1870

Jean-Baptiste Emile Corot (França, 1796-1875)

óleo sobre tela colado  em madeira, 92 x 65 cm

The Art Institute of Chicago, EUA

 

 

 

Fui à luta pelos direitos da mulher quando ainda morava nos Estados Unidos, membro da NOW [National Organization for Women] por alguns anos, participei de passeatas e de outras formas de protestos que pediam a igualdade de direitos e de salários entre homens e mulheres.   É surpreendente, portanto, até mesmo para mim, só agora vir a ler Simone de Beauvoir, a grande feminista francesa, que revolucionou o pensamento de milhares de mulheres do mundo inteiro, no período logo  após a Segunda Guerra Mundial.

Não sei quem tomou a decisão inicial de traduzir pela primeira vez esta série de três contos de Beauvoir e batizá-la com o título insípido de “Mulher desiludida” no lugar de “Mulher destruída” [La femme rompue] do original.  Quem quer que tenha sido cometeu um desserviço ao mundo literário e, sobretudo às leitoras brasileiras, diminuindo mais uma vez a mulher, a leitora, com a suavização da própria denúncia feita pela autora.  Vale lembrar que os portugueses não fizeram isso em suas edições, lá manteve-se o poder conotativo da palavra ‘destruída’.

 

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Quase cinquenta anos nos separam dessa publicação. É natural esperar que a realidade feminina tenha mudado, que alguns dos assuntos abordados nas  histórias pareçam distantes da nossa  realidade. É perturbador olhar à volta e constatar que ainda há um número desconcertante de comportamentos destrutivos no cotidiano feminino, semelhantes aos demonstrados nos contos de Beauvoir.  Talvez pareçam mais atenuados, disfarçados por outros rótulos, com viés moderno, mas lá estão, vivos na maneira de pensar feminina.

A heroína de “A idade da discrição”, primeiro conto da obra, não consegue aceitar que seu filho adulto pense diferente dela. Ela perdeu o poder sobre o jovem profissional.  Mas sua perda é muito maior e bem mais profunda. Seus medos são vários, o pior deles é o preconceito contra o envelhecimento.  É uma intelectual que agora duvida de sua capacidade intelectual porque sua última publicação não tem o sucesso esperado.  Também seu corpo, assim como o filho a trai, não é mais jovem: “um corpo de velho, apesar de tudo, é menos feio que um corpo de velha, disse a mim mesma… [49]. Tudo contribui para seu desequilíbrio.

O terceiro conto que dá título ao livro mostra o desequilíbrio emocional de uma mulher cujo marido, o centro de sua vida, tem um relacionamento extraconjugal. Mas a traição serve como alavanca para sua destruição.  Subitamente Monique percebe que outros aspectos de sua vida não podem mais sustentá-la no mundo idealizado em que vivia. Há a perda da juventude e a realização do tempo que passa.  Há o esvaziamento do ninho e a surpresa ao perceber que seu marido teria gostado que ela tivesse trabalhado, que ainda fosse uma profissional. “As mulheres que não fazem nada não suportam as que trabalham.”, ele diz [107]. A observação a fere.  O fracasso do casamento ela chega a atribuir à maneira como educou as filhas. E ainda perpetua o sofrimento, pois àquela que segue seus passos, que se torna a dona de casa que ela foi, Monique não poupa:  ela a vê com o mesmo filtro com que concebe sua própria imagem.  É um momento revelador e profético sobre a perpetuação do preconceito na próxima geração.

 

simone-de-beauvoirSimone de Beauvoir

 

Infelizmente, A mulher desiludida ainda é atual. À primeira vista parece que já atravessamos um longo caminho: temos maior liberdade sexual;  grande número de mulheres é profissional.  Muitas mantêm trabalho fora de casa, mesmo que, por vezes, só o façam por necessidade, mesmo que casadas.  Mas basta aprofundar este olhar para perceber que ainda precisamos de uma variedade de mudanças na sociedade, sobretudo na maneira de encarar a vida.  Os três contos de Beauvoir são histórias complexas e ambíguas, principalmente a segunda história, “Monologo”, que é um vômito verbal das frustrações de uma mulher contra tudo e contra todos.  Mas todos os contos apontam para uma mudança de rumo para as mulheres, e do papel que os homens exercem em nossas vidas.  De fato, os homens nos contos não são particularmente fortes.  Há em todos um comportamento covarde,  inábil, anêmico, vacilante.  Para que uma mulher nova exista, há de haver também um novo parceiro mais preparado, eficaz e decisivo. Os dois precisam mudar.  Talvez seja por isso que as mudanças não tenham sido mais radicais nos últimos cinquenta anos.

Esta não é uma leitura leve. Bastante deprimente.  Revoltante muitas vezes.  Mas importante:  uma lembrança do caminho percorrido e uma perspectiva sobre aquele por vir. Ainda há muito trabalho pela frente.

 





Resenha: “A caderneta vermelha” de Antoine Laurain

24 05 2016

 

 

Christine Reilly (Austrália, contemporânea)-StGermain, o+acr. sobre telaSt. Germain

Christine Reilly (Austrália, contemporânea)

óleo e acrílica sobre tela,  40 x 60 cm

www.christinereillyartist.com

 

 

Está precisando de um momento de descanso?  Precisa acreditar que a vida é boa, que no fim tudo vai dar certo, não importa os percalços do caminho? Quer passar um fim de semana tranquilo, sorridente e inconsequente?  Esse livro é para você.  Ele lhe trará sorrisos, encantamento e refúgio.  Trará luz num dia chuvoso.  Aquecerá seu coração como um chocolate quente tomado em casa de pijama e meias, com seu gatinho enrolado no colo. Porque este é um delicioso conto de fadas, uma história que acaba bem.  Não me surpreenderia se aparecesse em versão cinematográfica.  Aliás, só me surpreenderei se não se tornar um filme.  Eu colocaria Pio Marmaï como ator principal fazendo Laurent, livreiro, dono da Le Cahier Rouge e Laetitia Casta seria Laure, nossa heroína, possuidora de uma profissão singular – douradora.

 

 

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Trata-se da história de uma mulher que ao ser assaltada perde tudo: sua bolsa, carteira com documentos e dinheiro, o celular. É madrugada e o assalto acontece na porta de seu edifício.  Sua bolsa com todo o conteúdo menos o celular e a carteira são encontrados pelo livreiro Laurent Letellier, que próximo dos quarenta anos, divorciado, com uma filha adolescente, acha-se fascinado pelo conteúdo da bolsa lilás.  Resolve descobrir a quem ela pertencia. Mas é uma tarefa difícil que lhe dará bastante trabalho. O resto ficará para o leitor apreciar. Há reviravoltas e incompreensões.  Mas tudo acaba bem.

Recentemente muitos dos livros franceses traduzidos aqui no Brasil, não sei se por escolha dos editores ou se por preferência nacional do país europeu, têm sido leves, poéticos, românticos no escopo mais largo da palavra.  Refúgios para o caos do dia a dia, cheios de certa ternura, repletos de personagens sensíveis, inteligentes, amorosos, carinhosos, com  respeito pelo outro além de grande interação entre gerações nem sempre vista na vida ou literatura de outros países.  Incluo nesta lista os livros de Anna Gavalda, Muriel Barbery, Benoîte Groult, Katherine Pancol, Denis Tillinac, Jean-Paul Didierlaurent, e agora Antoine Laurain. É claro que aqui há o viés da leitora, assim como a consciente eliminação de outros autores de sucesso da ficção francesa como Laurent Gaudé, Michel Houellebecq, Marc Levy e outros. Mas esse lado suave da vida me parece mais frequente nas obras francesas contemporâneas. Em termos de cinema, esses livros se classificariam em comédias românticas.

 

 

antoinelaurain_bymbtoffoli_p10907661Antoine Laurain.  Foto de Marissa Bell Toffoli (2013)

 

A caderneta vermelha é uma dessas obras.  Bem escrita, com capítulos pequenos, um número reduzido de personagens, traz à tona um romance previsível desde os primeiros capítulos ainda que sua resolução seja mais complexa e criativa do que se poderia esperar.  Não chega a ser chick-lit, mas é romântico, doce; reconfortante, uma ilha de bem-estar num mundo insensato.





Resenha: “O ruído das coisas ao cair”, de Juan Gabriel Vásquez

15 05 2016

 

 

David PadwornySem título

David Padworny (EUA, contemporâneo)

 

 

 

É bem apropriado que agora na segunda década do século XXI quando a Colômbia já está equilibrada na guerra ao narcotráfico, que obras literárias, filmes e séries televisivas surjam dando a seus leitores uma melhor ideia do mundo de  Pablo Escobar e seus companheiros.  A grande surpresa é que O ruído das coisas ao cair, conta a história situada nos anos 70 do século passado, mas sem muita violência. O enredo é simples, Antonio Yammara, professor universitário faz conhecimento no salão de bilhar com Ricardo Laverde que acabou de sair da prisão.  Têm uma ou outra conversa, mas não chegam a ser próximos. Um dia, quando a amizade começava a se desenvolver, quando os dois andam na rua, Ricardo é assassinado, sem razão aparente. Antonio, ao seu lado, também é vítima de um tiro, é hospitalizado e leva muito tempo para se recuperar física e emocionalmente.  Nesse processo, de alguns anos, resolve descobrir as razões para Ricardo Laverde ter sido alvo dos assassinos.

O processo da descoberta é lento e tortuoso. E o leitor acompanha passo a passo e só consegue segui-lo graças à voz narrativa de Juan Gabriel Vásquez que se destaca como um bom contador de histórias, à maneira dos clássicos do século XIX, que pausada e detalhadamente volta duas gerações na narrativa.

 

 

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Na tradição das narrativas de causos voltamos aos avós de Ricardo Laverde, seus pais, sua esposa e filha, que, inacreditavelmente também se encontra numa procura semelhante à de Antonio, pois precisa descobrir detalhes da vida de seu pai.  Há grande mérito na habilidade de escrita de Vásquez, pois sem ela, a história poderia se perder na sequência de evento após evento.  A fascinação de Antonio Yammara pelo parceiro de bilhar não me pareceu forte o suficiente para justificar praticamente o livro inteiro de procura sobre mais detalhes; mesmo tendo ele sofrido um tiro que lhe abalou a saúde.  Faltava um comprometimento emocional maior do professor universitário em relação ao companheiro de jogo, para justificar a caça aos fatos, ainda que Antonio Yammara pareça mesmo uma pessoa distante, sem grande habilidade de conexão emocional, como mostra sua relação com Aura e Letícia, sua mulher e filha.

 

juan gabriel vásquezJuan Gabriel Vásquez

 

Eu gostaria de ter tido maior simpatia pelos personagens com quem passei essas horas de leitura.  Mas nenhum deles, nem do núcleo do professor quanto do núcleo de Ricardo Laverde foram capazes de aprisionar meus sentimentos.  A linguagem de Vásquez é bastante refinada e há momentos de grande  beleza, principalmente nas descrições da natureza colombiana. É um livro de leitura rápida e de temática muito interessante.  Ótimo enfoque.  Mas ele me deixou fria.

 

 





Tânger, a cidade vista por Tahar Ben Jelloun

7 05 2016

 

 

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Henri Matisse (França, 1869-1954)

óleo sobre tela, 115 x 80 cm

Museu Pushkin, Moscou

 

 

“Cidade enfeitiçadora, ela amarra qualquer um contra um eucalipto com velhas cordas que marinheiros distraídos esqueceram no cais do porto; ela segue como uma perseguição; fica-se obcecado por ela como em uma paixão para sempre inacabada; fala-se dela; acredita-se que sem ela toda vida é enfadonha; tem-se necessidade de se saber o que está acontecendo, persuadido de que nada de essencial acontece.

Tânger é como um encontro ambíguo, inquieto, clandestino, uma história que esconde outras histórias, uma revelação que não diz toda verdade, um ar de família que envenena a sua existência desde que você se afasta; e você sente, então, que tem necessidade dela sem jamais conseguir saber por quê.”

 

 

Em:O último amigo, Tahar Ben Jelloun, Rio de Janeiro, Bertrand:2006, p.43

 





Resenha, “Isso também vai passar” de Milena Busquets

6 05 2016

 

 

andré derain landscape-at-cadaques, 1913, ostPaisagem de Cadaqués, 1913

André Derain (França, 1880-1954)

óleo sobre tela

Coleção Particular

 

 

Sempre admirei a capacidade dos escritores ingleses de escrever histórias de muito interesse nem sempre repletas de dramas, de questões filosóficas, mas centradas em ações enraizadas no dia a dia, que refletem as pequenas frustrações cotidianas e dão uma sensação de satisfação ao leitor que se reconhece, que entende o drama emocional contido numa indecisão, num gaguejar, na dúvida excruciante.  Os britânicos são mestres da insinuação, das reticências carregadas de emoção ou frustração. Essa maneira de retratar os pequenos dramas diários humaniza os personagens. Parte-se do pequeno gesto para se encontrar a verdade universal.

A escritora catalã Milena Busquets dedica-se também à literatura “do nada”, ao relatar do corriqueiro aparentemente sem propósito ou sem pertinência na vida de Blanca personagem principal de Isso também passará, que se encontra no processo de luto por sua mãe recentemente falecida.  Vamos com ela à cidade praiana de Cadaqués, acompanhados de suas amigas, das crianças, dos dois ex-maridos e do amante. Conhecemos o cachorro do passado. Memorizamos os nomes de uma enormidade de personagens que a rodeia. Todos bebem, fumam, namoram, flertam, dormem mostrando um comportamento de grupo semelhante ao de adolescentes tardios, ainda que estejam aproximadamente na quarta década de suas vidas.

 

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Milena Busquets tenta trazer para a ficção a difícil arte de Woody Allen no cinema, como uma citação na própria capa do livro rotula. Mas Blanca se diferencia das personagens de Allen  porque não parece nem complexa nem particularmente inteligente. E não tem nada a dizer.  Ao contrário, demonstra não ter pleno desenvolvimento psicológico.  Enquanto a acompanhamos em seu processo de luto somos convidados a testemunhar os não-eventos de sua vida, num interminável rosário do corriqueiro. Mas para quê?  O que ela ou nós leitores retiramos dessa festa de detalhes?

O livro que chegou ao Brasil repleto de boas apresentações: “Melhor Livro de 2015” de acordo com o jornal espanhol La Vanguardia; “Comovente…o retrato de uma geração” diz o jornal francês Le Monde —, desaponta. As credenciais da autora no mundo editorial talvez tenham ajudado na tradução de sua primeira obra de ficção para 32 línguas.  Mas por mais que tente Milena Busquets não chega a amadurecer a personagem principal.  Perde-se o fio condutor, o eixo emocional, que leve Blanca a encontrar a verdade anunciada no título da obra.

 

milena busquetsMilena Busquets

 

Cada um de nós lida com a perda de um ente querido de maneira diferente. Blanca aos quarenta anos, ainda não amadureceu emocionalmente. Procura e encontra no sexo seu único momento de alívio pela perda emocional. Não é lá que irá encontrar o abrigo para sua alma ferida.  Falta a Blanca um mínimo de reflexão, uma pequena luz que a leve à descoberta de si mesma, algo que também permita o leitor a ter interesse sobre seu destino; que faça com que ele se interesse pelo futuro: chegará Blanca ao outro lado da crise ou será absorvida por ela?  O dito “isso também passará” não proporciona uma resolução satisfatória.

Pena que haja quem descreva a personagem e suas falhas como características de uma geração.  Pois esse é o retrato do vazio do lugar comum. A geração nascida há quarenta anos merece uma caracterização mais rica e complexa. A obra deixa a desejar. Não recomendo.





Resenha: “O último amigo” de Tahar Ben Jelloun

5 05 2016

 

 

CPH60817Dois amigos, com texto de Cícero sobre amizade, c. 1522

Jacopo Pontormo (Itália, 1494-1557)

óleo sobre madeira, 88 x 68 cm

Fondazione Giorgio Cini, Veneza, Itália

 

 

Aviso aos leitores: nem sempre o tema de um livro é aquele abertamente citado pelo autor ou sugerido pelo título. O último amigo é uma joia, uma obra prima, de narrativa em espiral, um quase ensaio sobre a ilusão, sobre a autoilusão, sobre amizade, traição, ciúme e inveja. É um livro muito mais complexo do que suas poucas 120 páginas poderiam sugerir.

Trata-se do retrato de uma dessas amizades que nasce nos anos de escola, que se desenvolve através da juventude, que assim como seus componentes ela também amadurece, sobrevive a percalços, casamentos, exílio, e nos re-encontros através do anos parece se fortalecer, se solidificar. Sua base está na franqueza, na compreensão do outro, no conhecimento do passado em comum, no desejo generoso de que o outro seja bem sucedido, que desfrute do melhor.

 

 

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Tahar Ben Jelloun divide sua obra em três partes. Começa com uma longa e detalhada descrição de Ali, que na primeira pessoa relata o caminho percorrido pela amizade dele por Mamed. Nossa identificação com o narrador é imediata.  Sentimos que o conhecemos e por isso mesmo nos chocamos tanto quanto ele, quando seu amigo de infância o surpreende com um corte irremediável na amizade de vida inteira. Na segunda parte, temos a versão de Mamed sobre essa mesma amizade.  Também descrita na primeira pessoa e curiosamente mostrando outros fatos outro enfoque nos eventos que marcaram o relacionamento desses dois amigos. É aí que sabemos de sua decisão de cortar os vínculos fraternais entre ele e Ali. Na terceira parte temos o testemunho de Ramon, uma amigo dos dois protagonistas, mas não tão chegado a eles.

A amizade é o tema. Tanto Ali quanto Mamed professam profundos sentimentos um pelo outro.  Nas narrativas de ambos sabemos dos gestos magnânimos e sacrifícios que cada um fez em nome dessa amizade. Mas no tecido do texto, no forro desse longo relacionamento encontra-se outro sentimento: a inveja.  Inveja que Mamed chama ciúmes. E é ela que acaba por corroer o laço entre eles. Mamed não esconde esses sentimentos rasteiros em seu depoimento: “Acontecia de eu ficar com ciúmes de Ali também, porque ele era mais culto do que eu, porque vinha de uma família quase aristocrática, porque era mais bonito e que, graças a seu casamento, tinha ficado rico.” [96-7]. E mesmo que ao cortar os laços de amizade que tem com Ali imagine, ou diga tratar-se de generosidade, essa ação não esconde a fraude de seus próprios sentimentos.  Pois só a ilusão de uma boa ação poderia justificar para si mesmo a traição que comete, interferindo na amizade de longa data. A desculpa é fraca.

 

Tahar Ben JellounTahar Ben Jelloun

 

Jean Cocteau é conhecido por ter dito que “A felicidade de um amigo deleita-nos. Enriquece-nos. Não nos tira nada. Caso a amizade sofra com isso, é porque não existe.”  Acredito que este seja o retrato do que se passa aqui. Mamed tinha emocionalmente uma estatura pequena e não conseguiu honrar os sentimentos de seu único e exclusivo amigo.

Este é um grande livro numa pequena aparência.  Tornou-se um de meus favoritos, e por isso recomendo a todos que gostam de pensar um pouco, de explorar a natureza humana, de se envolver num debate interno e julgar se o ato de Mamed é um gesto de amizade ou de traição.  Aqui esta a minha opinião.  Talvez você tenha uma opinião diversa.  Leia-o.





Resenha: “O pescoço da girafa” de Judith Schalansky

27 04 2016

 

 

GrandvillefullAs metamorfoses do dia, 1829, ilustração de Grandville.

 

 

No livro “Jokes and their relation to the unconscious”, Sigmund Freud explana sua teoria do humor como expressão do sublime. Sublime neste contexto tem o sentido de assombroso, supramundano, semelhante ao seu sentido na literatura gótica da virada do século XVIII para o XIX.  Os surrealistas, quase cem anos atrás, usaram o conhecimento das teorias de Freud para justificar o que se convencionou chamar humor negro: a porta de entrada para o inconsciente. Um estudo sobre o surrealismo por Anna Balakian mostra que o humor negro era um canal para retratar uma realidade ou uma crise incompreensível.  E é justamente assim, através de um humor de justaposições irracionais e de gosto duvidoso, que somos apresentados à realidade de Inge Lohmark, professora de biologia no Colégio Charles Darwin, na antiga Alemanha Oriental.

Inicialmente nos dobramos de rir ao perceber as comparações que Frau Lohmark faz entre o mundo animal e o comportamento de seus alunos.  Baseando-se na teoria da evolução de Darwin, Inge Lohmark cativa a atenção do leitor, por explicar de modo claro, como o comportamento das crianças na sala de aula espelha aquele dos animais na eterna busca pela sobrevivência do mais forte.  Aos poucos, no entanto, começamos a perceber o desequilíbrio emocional da mestra.  A mudança é sutil.  Só quando o leitor já se vê cansado das teorias de Lohmark sobre o mundo, ele percebe, de repente, que entrou no fluxo de pensamento dela, como se testemunhasse a escrita automática que André Breton e seus cúmplices do movimento surrealista advogavam.

 

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O humor era entendido pelos surrealistas como uma crítica implícita aos mecanismos mentais convencionais. O conhecimento da obra de Freud lhes deu o ponto de partida para explorar o humor negro, ignorando a lógica como uma maneira de pensar, a fim de recuperar a verdade encontrada na percepção sensorial.  Este parece ser mais ou menos o caminho escolhido por Judith Schalansky para levar avante esta obra da qual qualquer escritor que tivesse assinado o Manifesto Surrealista de 1924 se sentiria justificado. Humor, ironia, chiste são os recursos usados para que o véu que esconde a verdadeira natureza da professora de biologia seja levantado. E o que se encontra, pode não ser tão bonito assim.

Inge Lohmark é uma professora idosa, amarga, infeliz, que passa a narrativa ruminando sobre o sistema escolar na antiga Alemanha Oriental, lugar onde havia nascido, crescido e estudado.  Suas ruminações são por vezes hilárias.  Mas as mudanças vindas com a unificação do país se mostram difíceis de abraçar no âmbito profissional, político e pessoal.  Sua interpretação baseada na sobrevivência das espécies que explica quase tudo à sua volta é inicialmente  interessante, por ser inesperada,  mas logo se torna cansativa.  À medida que vislumbramos a solidão e amargura da professora, à medida que ela parece mais humana, a narrativa perde a força, ainda que se possa ver com maior claridade a inépcia de Frau Lohmark em se adaptar às mudanças que a vida requer.  E o argumento, a crítica mordaz desencadeada pelas observações da mestra, perde força e claridade com o desenrolar da trama.

 

Judith Schalansky1Judith Schalansky

 

Tenho a impressão de essa obra, essa crítica ao sistema escolar e ao ensino na Alemanha Oriental, pode ser repassada para outras escolas e sistemas de ensino em países diversos, mas não consigo deixar de sentir que esta narrativa é mais significativa para os alemães e talvez para alguns europeus.  Há muito que se perde na mudança de uma cultura para a outra. É uma obra que qualquer escritor surrealista estaria feliz em ter assinado.

É um livro difícil de recomendar. Pode-se entender seu objetivo.  Mas duvido da qualidade de sua mensagem para um público estrangeiro.





Resenha: Bonita Avenue, de Peter Buwalda

21 04 2016

 

 

photoLigações Perigosas, 1935

René Magritte (Bélgica, 1898-1967)

óleo sobre tela

LACMA, Los Angeles County Art Museum

 

 

 

Siem Sigerius é um grande matemático especializado na teoria dos nós e reitor de uma universidade holandesa.  É também um dos narradores de Bonita Avenue, assim como seu principal personagem.  Ainda que ele divida com Joni, sua enteada e Aaron o namorado dela a apresentação ao leitor dos eventos que levaram ao colapso da família, é seu o papel principal dessa obra.

Diz a teoria dos nós que : “O artesão que faz uma trança, uma rede, ou alguns nós estará preocupado, não com questões de medidas, mas com aquelas de posição: o que ele vê ali é a maneira na qual os fios estão entrelaçados”. [Wikipédia] Como um bom entendedor de nós, e de seus emaranhados, Siem, na segunda metade da obra quando começa a perceber a teia em que ele se encontrava, começa a desatar um a um os nós que estruturavam as relações familiares.  Até o momento em que precisa ele mesmo desaparecer.  Desse ponto de vista seu suicídio é previsível.  E para os que acham que posso estar revelando segredos, acalmem-se: o suicídio é contado logo no início do livro.  Pois não só a narrativa é baseada em três vozes, como ela é apresentada no presente e no passado sem qualquer ordem que possa ser detectada pelo leitor.

 

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Bonita Avenue não é para o leitor de coração fraco, ou do que gosta de uma narrativa linear.  Nem é para o leitor que deseja simplesmente se divertir.  Temos que trabalhar o cérebro para seguir essa trama espetacular, confusa, estranha e, sobretudo questionadora dos comportamentos modernos, pós-internet.  No coração dessas questões está o hábito do consumo de pornografia na rede, assim como a questão curiosa sobre a imagem das mulheres e homens que se expõem em sites pornográficos: são ou não profissionais da prostituição?  Os atores pornográficos são exibicionistas? E suas identidades podem de fato se manter desconhecidas?  A identidade na rede é uma das questões levantadas nessa obra abrangente sobre a vida moderna.

A história circula em volta da família Sigerius entre os anos de 1980 e 2000. É uma família moderna. Segundo casamento de ambas as partes com filhos dos compromissos anteriores. Também é uma família disfuncional. Seus personagens são fascinantes e incluem além do matemático conhecido mundialmente, um fotógrafo, uma marcineira e uma  atriz pornô.  Há referências ao judô, a doenças mentais e sobretudo à indústria pornográfica na internet.  A família não é feliz.  A época em que foi mais feliz se resume aos anos passados na Califórnia, em Berkeley, num endereço na Bonita Avenue.

 

Peter BuwaldaPeter Buwalda

 

Peter Buwalda tem uma maneira singular de narrar.  Paga seus tributos à literatura do século XIX dando-se ao trabalho de apresentar personagem por personagem logo no início da obra.  Mas são poucos. Isso contribui para a sensação de claustrofobia, e também para dar a impressão de que o enredo não progride.  O que lembra de novo as obras do século XIX, em particular a afirmação da escritora inglesa Geoge Eliot em relação à linha do tempo de uma obra:  “O melhor fogo não é o que se acende mais rapidamente.” Buwalda toma seu tempo e diferente da literatura mais tradicional apresenta seus personagens com viés:  todos parecem caracterizados pelos seus piores aspectos, como se os víssemos só pelo lado B de suas personalidades. Outro artifício é a apresentação de um enredo simples centrado na família, mas contado com tantas interferências de fatos irrelevantes, anedotas, histórias paralelas que parece chegar ao essencial paulatinamente, comendo pelas beiradas.

Uma história espetacular, em que personagens fora da norma nos convidam a reflexões nem sempre fáceis. É violenta. Ocasionalmente bastante gráfica, inclusive na pornografia.  Mas não é para qualquer um. Você precisa gostar de uma história apresentada de maneira complexa, não linear e com final em aberto.  Fora isso, magistral.





A companhia de um cão, texto de William Boyd

14 04 2016

 

393.0LJovem homem e seu cão, 2005

Mihail Aleksandrov (Rússia/EUA, 1949)

óleo sobre tela,  55 x 65 cm

 

 

“Senti uma espécie de aflição tão intensa e pura, que achei que fosse morrer. Uivei feito um bebê com meu cachorro nos braços. Então coloquei-o em uma caixa de vinho, e o levei para o jardim onde o enterrei debaixo de uma cerejeira.

Ele é só um cachorro velho, digo para mim mesmo, e viveu uma vida de cachorro plena e feliz. Mas o que me deixa indescritivelmente triste, é que, sem ele, fico sem amor na vida. Pode parecer estúpido, mas eu o amei e sei que ele me amou. Isso significou que houve um fluxo descomplicado de amor recíproco na minha vida e acho difícil admitir que terminou. Olhe só para mim, murmurando, mas é verdade, é verdade. E, ao mesmo tempo, sei que uma parte da  minha tristeza é apenas autopiedade disfarçada. Precisei daquela troca e estou preocupado por não saber como viverei sem ela nem se conseguirei arranjar um substituto — quem dera fosse tão fácil quanto comprar um novo cachorro. Sinto muita pena de mim mesmo — é isso que é aflição.”

 

Em: As aventuras de um coração humano, William Boyd, Rio de Janeiro, Rocco: 2008, tradução de Antônio E. de Moura Filho, p. 503-4.





Um ser urbano, texto de William Boyd

8 04 2016

 

walsh_CENTRALCAMERA1webCentral Camera, 2012

Nathan Walsh (GB, 1972)

óleo sobre tela, 60 x 103 cm

Coleção Particular

 

 

“Minha natureza é essencialmente urbana e, embora Los Angeles seja indubitavelmente uma cidade, de algum modo seus costumes não são. Talvez seja o clima que confira um eterno ar suburbano e provinciano: as cidades precisam de extremos de climas, de forma que você almeje  fugir delas. Acho que eu poderia morar em Chicago — gosto quando viajo para lá. Além disso, tem de haver algo brutal e descuidado sobre a verdadeira cidade — o habitante precisa se sentir vulnerável — e não se encontra isso em Los Angeles, ou pelo menos, não vi nada disso no curto espaço de tempo que passei no lugar. Sinto-me muito à vontade aqui, muito aninhado. Essas não são experiências da verdadeira cidade: sua natureza entra por baixo da porta e pelas janelas — não dá para se ver livre. E o sujeito genuinamente urbano é sempre curioso — curioso sobre a vida nas ruas. Isso definitivamente não se aplica ao caso de Los Angeles: o cara mora em Bel Air e não se pergunta o que está acontecendo em Pacific Palisades — ou se ele está perdendo alguma coisa.”

 

 

Em: As aventuras de um coração humano, William Boyd, Rio de Janeiro, Rocco: 2008, tradução de Antônio E. de Moura Filho, p. 373