DIA DOS PAIS — poesia de Giuseppe Artidoro Ghiaroni

6 08 2009

pai e filho

DIA DOS PAIS 

Giuseppe Artidoro Ghiaroni

Meu pai está tão velhinho,

tem a mão branca e comprida,

parecendo a sua vida,

longa vida que se esvai.

E eu o lembro quando moço

de uma atlética altivez.

Ah! Tinha força por três!

Você se lembra, papai?

Menino, ouvia dizer

que você era um gigante.

Eu ficava radiante

e também me agigantava.

Porque toda madrugada,

eu quentinho do agasalho,

ao sair para o trabalho

o gigante me beijava.

Sua grande mão de ferro

parecia leve, leve

naquela carícia breve

que da memória não sai.

Depois… um beijo em mamãe

e o meu gigante partia.

E a casa toda tremia

com os passos de papai.

Mas agora o seu retrato

muito moço, muito antigo,

se parece mais comigo

do que mesmo com você.

Você já lembra vovô

e, à medida que envelhece,

papai, você se parece

com mamãe, não sei por quê.

Você se lembra, papai?

Quando mamãe, de repente,

caiu de cama, doente,

era o pai quem cozinhava.

Tão grande e desajeitado

a varrer… Quando eu o via

de avental, papai, eu ria;

eu ria e mamãe chorava.

Eu quis deixar o ginásio

para ganhar ordenado,

ajudar meu pai cansado,

mas tal não aconteceu.

Papai disse estas palavras:

Sou um operário obscuro,

mas você terá futuro,

será melhor do que eu.

Eu? Melhor que este velhinho

a quem devo o pão e o estudo?

Que é pobre porque deu tudo

à Família, à Pátria, à Fé?

Meu pai, com todo o diploma,

com toda a universidade,

quisera eu ser a metade

daquilo que você é.

E quero que você saiba

que, entre amigos, conversando,

meu assunto vai girando

e no seu nome recai.

Da sua força, coragem,

bondade eu conto uma história.

Todos vêem que a minha glória

é ser filho de meu pai.

“Um dia eu fui tomar banho

no rio que estava cheio.

Quando a correnteza veio,

vi a morte aparecer.

Papai saltou dentro d’água

nadando mais do que um peixe,

salvou-me e disse:_ Não deixe!

Não deixe mamãe saber!”.

Assim foi meu pai, o forte

que respeitava a fraqueza.

Nunca humilhou a pobreza,

nunca a riqueza o humilhou.

Estava bem com os homens

e com Deus estava bem.

Nunca fez mal a ninguém

e o que sofreu perdoou.

Perdoa então se lhe falo

Daquilo que não se esquece.

E a minha voz estremece

e há uma lágrima que cai.

Hoje sou eu o gigante

e você é pequenino.

Hoje sou eu que me inclino.

Papai… a bênção, papai.

Giuseppe Artidoro Ghiaroni – Nasceu em Paraíba Do Sul, (RJ), no dia 22 de fevereiro de 1919. Jornalista, poeta, redator e tradutor;  Depois de ter sido ferreiro, “office-boy” e caixeiro, passou a redator do “Suplemento juvenil ” iniciando-se assim no jornalismo de onde passou para o Rádio distinguindo-se como cronista e novelista.  Faleceu em 2008 aos 89 anos.

Obras:

O Dia da Existência, 1941

A Graça de Deus, 1945

Canção do Vagabundo, 1948

A Máquina de Escrever, 1997





Quadrinha para o dia do Papai

5 08 2009

pai, brincadeiras, Helen PrickettIlustração Helen Prickett.

 

Pai — nome bem pequenino

Que encerra tanto valor:

Traduz confiança, carinho,

Força,  Bondade e  Amor.

 

(Walter Nieble de Freitas)





Poesia do pai, no dia dos Pais — Gentil Camargo

4 08 2009

Fisk371925SEP

Ilustração de Paul Hesse.  Anúncio para pneus FISK.

 

Vocês

 

                            Gentil Camargo

 

 

É ele sim: conheço o seu passinho;

E o suave cheiro que ele tem, conheço;

Mas fecho os olhos, finjo que adormeço:

Quero sentir melhor o seu carinho.

 

O livro em que da vida inglória esqueço,

Retira-me das mãos, tão de mansinho,

—  “Papai…” me chama; e dá-me o seu beijinho,

Compensação de tudo o que padeço.

 

Depois se afasta.  Deixa-me pensando

Em quando ele for grande; e mesmo quando

Todos forem crescidos de uma vez,

 

Continuarei a vê-los bem pequenos,

Buscando até, em coisas de somenos,

A maior alegria de vocês.

 

 

 

———

 

Gentil  Eugênio de Camargo Leite (Taubaté, SP 1900- SP1983) , professor e jornalista, folclorista colaborou para jornais e revistas de  São Paulo,  do Rio de Janeiro e  do interior do estado de São Paulo: “O Norte”, “Correio de Taubaté”, “O Momento”. Recebeu por sua valiosa participação jornalística, o Diploma de Honra da A.P.I. (Associação Paulista de Imprensa) concedido em 01.05.1958.  Um dos fundadores da “Sociedade de História e Folclore de Taubaté.   Compôs várias músicas, entre elas “Taubaté tem visgo” e “Hino a Santa Terezinha”.





O lobo e o cão, fábula de Esopo, recontada por Olavo Bilac e ilustrada por diversos artistas

1 08 2009

 

 Hoje, selecionei uma fábula de Esopo, recontada por La Fontaine entre outros.  Aqui, em versos magistrais de Olavo Bilac.  Por ser uma fábula popular, tenho muitas ilustrações, através dos séculos, que se referem diretamente a ela.   Coloquei algumas por entre o texto de Bilac.   No entanto, tenho ainda algumas outras ilustrações.  Para não corromper o texto completamente, [mais do que já o fiz] vou colocar outras ilustrações separadas, no final assim como repetir o texto original de Olavo Bilac. 

 

dog and wolf

Ilustração Harrison Weir (Inglaterra 1824-1906).

 

O lobo e o cão

 

                                  Olavo Bilac

 

 

Encontraram-se na estrada

um cão e um lobo.  E este disse:

— Que sorte amaldiçoada!

Feliz seria, se um dia

como te vejo me visse.

 

dog & wolf Eleanor Grosch

Ilustração Eleanor Grosch (EUA, contemporânea).

 

Andas gordo e bem tratado,

vendes saúde e alegria;

ando triste e arrepiado,

sem ter onde cair morto!

 

loup-chien-esope, moyen age

O cão e o lobo, ilustração em manuscrito francês, Idade Média.

 

 

Gozas de todo conforto,

e estás cada vez mais moço;

e eu, para matar fome,

nem acho às vezes um osso!

 

DOG AND WOLF BENNET

Ilustração Charles H Bennet (Inglaterra, 1829-1867).

 

 

Esta vida me consome…

Dize-me tu, companheiro:

onde achas tanto dinheiro?

Disse-lhe o cão: — Lobo amigo!

Serás feliz, se quiseres

Deixar tudo e vir comigo:

vives assim porque queres…

 

dog & wolf

 Ilustração, André Quellier (França, 1925)

 

Terás comida à vontade,

terás afeto e carinho,

mimos e felicidade,

na boa casa em que vivo!

Foram-se os dois.  Em caminho,

disse o lobo, interessado:

— Que diabo é isto?  Por que motivo

tens o pescoço esfolado?

 

dog and wolf,george fairpont

Ilustração Georges Fraipont (França, 1873-1912).

 

— É que às vezes amarrado

Me deixam durante o dia…

— Amarrado?  Adeus, amigo!

(disse o lobo) Não te sigo!

Muito bem me parecia

Que era demais a riqueza…

 

loupetchien, henri morin

Ilustração Henry Morin (França, 1873-1961).

 

Adeus!  Inveja não sinto:

quero viver como vivo!

Deixa-me com a pobreza!

Antes livre, mas faminto,

Do que gordo, mas cativo!

 

 

 

 

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Amanhecer, quadrinha para uso escolar

28 07 2009

acordar  com as galinhas

Amanhecer, ilustração Maurício de Sousa.

 

Cantagalo…  O galo canta

e, na campina louçã,

desprende  a voz na garganta,

saudando a luz da manhã.

(Álvaro Faria)





Bandeja de madeira, de Ladyce West

27 07 2009

 

 

bandeja de madeira, turística, marqueteria

Ontem à noite Gisela, minha prima e amiga, lembrou-me deste poema que publiquei em 2007.  Numa conversa familiar decidimos que eu  iria re-colocá-lo na web, apesar de já ter aparecido no meu antigo blog:  A Meia Voz.  Agradeço aos fãs da peripécia aqui revelada.

 

 

Bandeja de madeira

 

Ladyce West

 

 

Comprei uma bandeja de madeira,

No mercado de usados da cidade.

O preço alto, verdadeiro assalto,

Testava a minha vontade…

Invocada reclamei:

“Preço muito apimentado!”

O feirante desfiou, então,

A ladainha da ocasião:

Uma cascata de palavras

E de muitas abobrinhas.

Listadas de um modo simples,

Em fileira memorizada,

Uma tabuada de dados,

Sem nexo e sem sentido,

Qual jovem guia turístico

Treinado para repetir,

Sem nenhuma compreensão,

História de monumentos,

Batalhas, guerra ou ação.

Um rol de características,

Uma lista de preciosismos,

Que turistas escutam em vão.

No caso do comerciante,

Era manobra astuta,

Artimanha obstrucionista,

Inspirada na política

Do partido oposicionista,

Com intenção de impedir

Barganhas, regateio, pechincha.

Mas não me dei por vencida

E esbocei, na medida,

Uma ensaiada choradeira

De compradora matreira,

Desconfiada confessa.

Mas para meu desagrado,

A manobra desta vez

Não deu nenhum resultado.

E o vendedor perturbado,

Não se fazendo de rogado,

Disse em português claro:

O preço é este e está acabado!

Era esperteza, eu sabia.

Manha de ressabiado

Recalque de gato escaldado.

Experiente e esperta,

Também lhe disse umas tantas,

Questionei ainda uma vez

Os dados da tal bandeja

Que sabia muito bem

Não ser uma antiguidade.

“Mas minha senhora veja,

Já não se faz trabalho

Detalhado como este.

Marqueteria finíssima,

Olhe a delicadeza

Deste desenho aqui em cima!”

Mantive meu ar incrédulo

De pessoa que conhece:

Reclamei do acabamento,

Das alças, das bordas, do centro,

Do verniz barato – opaco.

“Não sou caloteiro!

Nem tampouco pirateio.

A Sra. pode confirmar

Nos antiquários da cidade!

Vai ver que é coisa boa,

Que tem uma certa idade!”

Pus-me a andar, dando o fora,

No velho ardil de negócios

Fazendo-lhe acreditar

Que era fácil ir embora.

Ele veio correndo atrás,

É vintage, minha senhora,

É vintage, repetia!

Como se a palavra,

A denominação,

A expressão estrangeira,

Respondesse às perguntas

Corriqueiras que lhe fiz.

Mas parei.  E voltei.

Queria muito a bandeja

Rica em marqueteria.

“Não pode ser”, eu dizia,

“Eu me lembro dessas bandejas,

Dessas lembranças para turistas,

Vendidas nas barraquinhas

Da Quinta da Boa Vista…”

De súbito ele parou.

De cima abaixo me olhou.

E puxando lá do fundo

De sua sabedoria, perguntou:

“– Mas quantos anos a senhora tem?”

Num breve momento de pausa,

Disse para mim mesma:

“Que história!  Traída pela memória!”

Olhei para a bandeja de novo

E ainda uma vez mais…

E paguei.

 

 

© Ladyce West, 2007,  Rio de Janeiro





Estória, poema de Martins d’ Alvarez — [para o dia da vovó]

26 07 2009

 vovó conta histórias

 

 

Estória

 

( para pequenos e grandes)

 

                                        Martins d’ Alvarez

 

 

À sombra do tamarindo,

vovozinha, bem sentada,

vai de alfinetes cobrindo

o papelão da almofada.

 

O neto deixa o brinquedo,

chega-se de alma curiosa,

nos bilros buscando o enredo

da renda maravilhosa.

 

Sutil, entre dois extremos,

uma conversa se agita:

— Vovó, como é que aprendemos

Fazer renda, assim, bonita?

 

— Ora, benzinho, aprendendo…

Aprendendo devagar…

Até acabar sabendo,

até um dia acertar.

 

— Pois me ensine, vovozinha!

Garanto que hei de aprender.

— Ensinarei, calunguinha,

quando aprenderes a ler.

 

— Mas vovó não disse, um dia,

que vovozinho morreu

pelo muito que sabia…

Por que demais aprendeu?

 

— Morreu porque foi ferido

No amor próprio, meu bebê!

— Então, o vovô querido

não só amava a você?

 

Vovó fez cara de chiste,

mas, sua fronte pendeu…

Soltou um suspiro triste,

quedou-se … e não respondeu!

 

(Fortaleza, Ceará, 1932)

 

Em: Poesia do cotidiano, Fortaleza, Ceará, Editora Clã: 1977

 

 

 

José Martins D’Alvarez   (CE 1904)  Poeta, romancista, jornalista, diplomado em Farmacia e Odontologia, professor, membro da Academia Cearense de Letras. Nasceu na cidade de Barbalha, Estado do Ceara, em 14 de setembro de 1904.  Filho de Antonio Martins de Jesus a de Antonia Leite da Cruz Martins. Fez os estudos primários na sua cidade natal, os secundários, no Liceu do Ceará.  Depois de formado em Odontologia. Transferiu em 1938 sua residência para o Rio de Janeiro, onde exerceu, além de atividades na imprensa, atividades no magistério superior.

 

 

 

Obras:

 

“Choro verde: a ronda das horas verdes”, 1930, poesia

“Quarta-feira de cinzas”, 1932, novela

 “Vitral”, 1934, poesia

“Morro do moinho” 1937, romance

“O Norte Canta”, 1941,  poesia popular

“No Mundo da Lua”, 1942, poesia para crianças

“Chama infinita, 1949,  poesia

“O nordeste que o sul não conhece 1953, ensaio

“Ritmos e legendas” 1959, poesias escolhidas

“Roteiro sentimental: geopolítica do Brasil” 1967, poesias escolhidas

“Poesia do cotidiano”, 1977, poesia





Passarinhos, quadrinha para uso escolar

24 07 2009

primavera Mabel Rollins Harris

Ilustração: Mabel Rollins Harris

 

Como é belo ver a planta

que abre flores nos caminhos,

nas horas em que Deus canta

pela voz dos passarinhos!

 

(José Lucas de Barros)

 





Quadrinha sobre o Brasil, uso escolar

9 07 2009
Ilustração, Maurício Sousa

Ilustração, Maurício Sousa

 

Vemos no verde esperança,

No azul, nosso céu de anil,

No perfil de uma criança

O futuro do Brasil!

 

(Oscar Crepaldi)





A cigarra e a formiga, em versos por Bocage

6 07 2009

A Cigarra bate à porta da formiga, no inverno

 

A cigarra e a formiga

 

Bocage

 

Tendo a cigarra em cantigas

Folgado todo o Verão

Achou-se em penúria extrema

Na tormentosa estação.

 

Não lhe restando migalha

Que trincasse, a tagarela

Foi valer-se da formiga,

Que morava perto dela.

 

Rogou-lhe que lhe emprestasse,

Pois tinha riqueza e brilho,

Algum grão com que manter-se

Té voltar o aceso Estio.

 

«Amiga, diz a cigarra,

Prometo, à fé d’animal,

Pagar-vos antes d’Agosto

Os juros e o principal.»

 

A formiga nunca empresta,

Nunca dá, por isso junta.

«No Verão em que lidavas?»

À pedinte ela pergunta.

 

Responde a outra: «Eu cantava

Noite e dia, a toda a hora.»

«Oh! bravo!», torna a formiga.

– Cantavas? Pois dança agora!»

 

———-

 

bocage

Bocage

 

Manuel Maria de Barbosa l’Hedois du Bocage (Setúbal, 15 de Setembro de 1765 — Lisboa, 21 de Dezembro de 1805), Poeta português, possivelmente, o maior representante do arcadismo lusitano.  Árcade e pré-romântico, sonetista notável, um dos precursores da modernidade em seu país.