Minha terra — poesia de Lobo da Costa — para crianças

24 07 2008

 

O Gaúcho, José Lutz Seraph Lutzemberger, (Brasileiro [nascido na Alemanha] 1882-1951, aquarela

O Gaúcho, s.d.

José Lutz Seraph Lutzemberger

(Brasileiro 1882 – 1951)

Aquarela

MINHA TERRA

 

Lá, na minha terra, quando

O luar banha o potreiro,

Passa cantando o tropeiro,

Cantando, sempre cantando;

Depois, avista-se o bando

Do gado que muge, adiante;

E um cão ladra bem distante,

Lá, bem distante, na serra;

Nunca foste à minha terra?!

 

Enfrena, pois, teu cavalo,

Ferra a espora, alça o chicote

E caminha a trote, a trote,

Se não quiseres cansá-lo.

Ainda não canta o galo,

É tempo de viajares.

Deixarás estes lugares,

Iras vendo novas cenas

Sempre amenas, muito amenas.

 

O laranjal reverdece,

E ao disco argênteo da lua,

Logo os olhos te aparece

A estrela deserta e nua.

………………………………………………

 

Lobo da Costa

 

 

Francisco Lobo da Costa (Pelotas, RS 1853 — RS 1888 ) Poeta, jornalista e teatrólogo brasileiro.

 

A obra poética:

 

Esparsa nos jornais:  Eco do Sul, Diário de Pelotas e Progresso Literário.

Espinhos d’alma em (1872)

 

Poesias em edições póstumas:

 

 Dispersas

Auras do Sul.

 

 

 

Do livro:

 

Criança brasileira: terceiro livro de leitura, edição especial para o Rio Grande do Sul, Theobaldo Miranda Santos, Agir: 1950, Rio de Janeiro.  [livro didático para a 3ª série do curso básico].

 





As viúvas das quintas-feiras, de Claudia Piñeiro

23 07 2008

 

 

Nas duas últimas décadas do século XX, a cidade de Raleigh na Carolina do Norte, EUA, vivenciou um grande surto econômico.  Com isto passou a ser um lugar ideal para muitos americanos morarem.  Habitações de todo tipo se fizeram necessárias e especuladores imobiliários assim como construtores juntaram esforços.  De um mês para o outro via-se comunidades inteiras aparecerem, onde antes só havia um sítio ou uma pequena fazenda nos limites urbanos da cidade.  Muitas vezes, lagos foram escavados, enormes, suficientes para uma pequena competição das menores embarcações.  Com freqüência estas comunidades também tinham seu próprio campo de golfe.  No início, estas novas residências apareceram preenchendo os lotes de ruas já existentes, preferencialmente em bons bairros; aqueles já delineados quanto aos seus habitantes.  Mas quando a migração interna do país — do centro-oeste ou norte para Raleigh, — aumentou, comunidades começaram a aparecer, cujo perfil era muito menos democrático do que a cidade havia tido até então.  Comunidades exclusivas, fechadas com muros e portões, com guardas e cercas eletrônicas apareceram; afinal, Raleigh e Cary, seu subúrbio, eram o próprio vale do silício da costa este dos EUA. 

 

Capa da edição brasileira

Capa da edição brasileira

Muitos foram os lagos e campos de golfe criados nesta região. Pertenciam a comunidades com centenas de casas, separadas por tamanhos e preços diferentes.  Não muito diferente do plano original de Brasília.  Casas de um certo preço, de um certo padrão próximas às suas semelhantes.  Edifícios de pequenos apartamentos no canto do terreno dedicado aos edifícios.  Numa área, casas tinham telhas de asfalto, em outra, casas de dois andares.  Tudo dentro das regras do plano urbano de desenvolvimento. Não há como sair da norma nestas comunidades.  Assim disfarça-se, também, a segregação financeira. 

 

Nestas comunidades fechadas, que lembram pequenas aldeias porque têm muitos serviços dedicados a uma pequena população: escolas de ensino básico, creches e até estádios esportivos; o que se vende é a sensação de segurança.   Ninguém questiona a falta de liberdade de mudar a cor do lado de fora da casa ou o tipo de telhado.  Cada uma tem regras específicas e claras estipuladas nas escrituras,  muitas das quais seriam inválidas  em território brasileiro. 

 

Vem à mente neste momento um bairro em Raleigh,  construído à volta de um lago – também escavado pelo homem.  Chamava-se: Rue Sans Famille.   Havia é claro muitas ruas nesta comunidade de centenas de casas.  A diferença deste bairro para outro estava numa única cláusula na escritura: a proibição de crianças morarem neste condomínio.  Assim, se você é jovem e está pensando aumentar a família, tem que primeiro vender a sua casa.  16 anos era a idade mínima para morar neste local.  Não importa se você é divorciado e os filhos vêm visitar.  A regra é clara e leva qualquer infrator à justiça:  sem crianças.

 

Eu me expando em explicações para simplesmente dizer que quando Claudia Piñeiro descreveu em seu livro As viúvas das quintas-feiras [Editora Alfaguara] a comunidade fechada nos arredores de Buenos Aires, pude imaginá-la muito bem.   Como seus semelhantes americanos, as pessoas que decidem morar em Altos de la Cascada  acreditam que não só o ar que respiram é mais limpo, mas que  todos os outros seres humanos não merecem nem o ar e nem o luxo que lhes é servido.  Como na Argentina, no Brasil e nos Estados Unidos, moradores de vizinhanças como essas fogem do crime, do perigo real ou imaginado que acreditam existir nas partes das cidades mais populosas e menos seletivas

Capa da edição argentina.

Capa da edição argentina.

 

 

 

 

Quando, no entanto, a economia local, regional ou mundial muda o perfil dos empregos e das companhias; e o desemprego, nunca antes previsto, começa ser percebido aqui e ali, penetrando até mesmo no território santificado destas comunidades, os habitantes destas ilhas de bem-aventurança, acham difícil manejar a realidade.  E de repente, se descobrem espiando vizinhos, analisando problemas com seus pares, com seus companheiros de golfe. Uma mudança brusca de status social se mostra difícil de ser encarada.  Há imediatamente uma divisão entre os verdadeiros sobreviventes – aqueles que se adaptam às novas circunstâncias – e os que insistem em viver como se nada pudesse os afetar.  A discriminação, no início sutil, chega a níveis impensáveis e a resoluções ainda mais incompreensíveis.

 

Passado na virada do século XXI, na Argentina, época em que aquele país sofria com uma crise econômica, os habitantes de Altos de La Cascada preferem ignorar a realidade fora das cercas de metal que os protege.   O romance, que tem um tempo rápido, maravilhoso, em plena compatibilidade com a época que está retratando, é muito intenso por mais ou menos seus primeiros dois terços.  Depois perde um pouco a mágica para recuperá-la no capítulo final com uma conclusão completamente inesperada.   Este final renasceu o meu interesse pela leitura e “salvou” o romance para mim.   Apesar do título, não são só as mulheres desta comunidade que são retratadas.  Seus maridos, seus filhos são tão parte da história quanto elas.   Diversos assuntos muito atuais são retratados de tal maneira que nos fazem pensar criticamente a respeito da sociedade em que vivemos: anti-semitismo, preconceito de cor, espancamento e abuso de mulheres, preferências sexuais inusitadas.  E para aumentar o nosso interesse há um mistério que precisa ser resolvido.  

 

Alejandra Lopez.

Claudia Piñeiro. Foto: Alejandra Lopez.

Acho que este é um ótimo livro para se levar numa pequena viagem de férias, para um fim de semana prolongado.  Ele mostra com cuidado o mundo em que todos nós vivemos e faz com que se considere: esta é  a maneira como realmente queremos viver nossas vidas?   Será que vale a pena nos isolarmos do mundo à nossa volta?  Vivermos rodeados só daqueles que se parecem conosco?  Perder o contexto, nos exilarmos da nossa textura cultural, é uma maneira plausível de solucionarmos problemas sociais?

Recomendo o livro.  Boa leitura.

 

Este livro ganhou o Prêmio Literário Clarín em 2005.

 

 

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Esta resenha apareceu primeiro em inglês na página: Living in the postcard.





Um avô, poema de Stella Leonardos

23 07 2008

 

 Norman Rockwell, (EUA 1894 – 1978 ), Anúncio para passas secas,  SUNKIST.

 

UM AVÔ

 

 

 

Meu velho avô de alma jovem,

Inda hoje me comovem

As histórias que contavas.

Punhas nelas tanta vida,

Tanta força colorida,

Que tu mesmo as incarnavas.

Nos contos dos bons gigantes.

No Brasil dos bandeirantes.

Na Grécia cheia de glória.

Só não contaste as façanhas

Que tiveste.  As lutas ganhas

E as perdidas com vitória.

E nem grego ou brasileiro

Foi mais esteta e pioneiro

Do que tu quando sonhaste.

Meu velho avô de alma jovem!

Mais que as outras me comovem

As histórias que calaste.

 

 

Stella Leonardos

 

 

Stella Leonardos da Silva Lima Cabassa (Rio de Janeiro RJ, 1923). Poeta, tradutora, romancista, com mais de 70 obras publicadas, em poesia, prosa, ensaios, teatro, romances e literatura infantil.  Considerada membro expoente da 3ª geração de poetas modernistas.  Um dos maiores nomes da poesia contemporânea no Brasil.

 





As Borboletas, poema infantil de Vinícius de Moraes

22 07 2008

 

Professor Pardal.  Ilustração Walt Disney.

Professor Pardal. Ilustração Walt Disney.

AS BORBOLETAS

 

 

Brancas

Azuis

Amarelas

E pretas

Brincam

Na luz

As belas

Borboletas

 

Borboletas brancas

São alegres e francas.

 

Borboletas azuis

Gostam muito de luz.

 

As amarelinhas

São tão bonitinhas!

 

E as pretas, então…

Oh, que escuridão!

 

 

 

Vinícius de Moraes

 

 

Do livro:

 

A arca de Noé, Vinícius de Moraes, Livraria José Olympio Editora: 1984; Rio de Janeiro; páginas 58 e 59. 14ª edição.

 

 

Marcus VINÍCIUS da Cruz DE Melo e MORAES (RJ 1913-RJ 1980), diplomata, jornalista, poeta e compositor brasileiro.

 

Livros:

 

O caminho para a distância (1933)

Forma e exegese (1935)

Ariana, a mulher (1936)

Novos Poemas (1938 )

Cinco elegias (1943)

Poemas, sonetos e baladas (1946)

Pátria minha (1949)

Antologia Poética (1954)

Livro de Sonetos (1957)

Novos Poemas (II) (1959)

Para viver um grande amor (crônicas e poemas) (1962)

A arca de Noé; poemas infantis (1970)

Poesia Completa e Prosa (1998 )

 

 

—-

 
 

Outros poemas de Vinícius de Moraes neste blog:

 

A cachorrinha

 

Veja o vídeo de Denise Shinotuka:



 

 





TÊNIS, poema de Guilherme de Almeida, infantil

21 07 2008

 

TÊNIS

 

A titia

borda e espia

o gato branco, enroscado

no feltro verde da mesa

e acordado,

com certeza.

 

Um novelo

cai.  E, ao vê-lo,

o gato bate na bola

e a bola, branca de neve,

pula e rola,

fofa e leve…

 

Silenciosa,

vagarosa,

 uma duas angolinhas…  

a bola solta uma lenta,

longa linha

que se aumenta.

 

Pouco a pouco,

no mais louco

desnorteante corrupio,

a bola desaparece.

Mas o fio

Cresce… cresce…

 

 

Guilherme de Almeida

 

 

 

Guilherme de Andrade e Almeida – (SP 1890 — SP 1969) foi um advogado, jornalista, poeta, ensaísta e tradutor brasileiro.

 

Principais Obras

Poesia

Nós (1917);

A dança das horas (1919);

Messidor (1919);

Livro de horas de Soror Dolorosa (1920);

Era uma vez… (1922);

A flauta que eu perdi (1924);

Meu (1925);

Raça (1925);

Encantamento (1925);

Simplicidade (1929);

Você (1931);

Poemas escolhidos (1931);

Acaso (1938);

Poesia vária (1947);

Toda a poesia (1953).

Ensaios:

Do sentimento nacionalista na poesia brasileira, (1926);

Ritmo, elemento de expressão (1926)

 





Correspondência de Fernando Pessoa vai ser leiloada

17 07 2008

 

Num artigo publicado ontem, 15/7/2008, no New York Times, por Michael Kimmelman, soube da gritaria, da confusão lusitana ao redor da venda da correspondência de Fernando Pessoa ao escritor britânico Aleister Crowley.  Esta correspondência do poeta português com o místico escritor britânico foi iniciada em 1930.  Sua venda, negociada pelos herdeiros de Fernando Pessoa, está marcada para o período de alta visibilidade na Europa, o outono, que é a estação de abertura dos eventos culturais do ano e será feita em leilão público.  A confusão é gerada pela reclamação de alguns da saída do país de documentos de tal importância.

 

Mas, é justamente de vendas como esta, que a Biblioteca Nacional de Portugal pode se beneficiar, como já o fez no ano passado quando arrematou, para seu acervo, cadernos de notas de Fernando Pessoa.  Como Kimmelman em seu artigo lembra, a maior parte da obra de Pessoa está em manuscritos, nunca tendo sido publicada — diz-se que chegam aos 30.000, ainda guardados em baús na última moradia do escritor. 

 

A decisão dos herdeiros de venderem pelo maior e melhor preço estes documentos é volátil.  Recentemente o ministro da cultura de Portugal, José Antonio Pinto Ribeiro, lembrou, numa conferência aberta ao público na Casa Fernando Pessoa, que o estado português tem o poder de manter dentro de seu território qualquer objeto (e os manuscritos se enquadram aqui) que achar ser necessário para o patrimônio nacional.  A mensagem, bem entendida por Manuela Nogueira, a sobrinha de Fernando Pessoa, que se encontrava na audiência, era de que ela não se sentisse muito confiante, porque a qualquer momento o governo poderia decidir que tais documentos eram do interesse cultural do país e não só proibir sua venda, como também tombar tais documentos, e nada dar aos herdeiros em troca. 

 

Manuela Nogueira já estava preparada para a luta.  Já havia fotografado tudo que pretendia vender de modo que cópias estarão sempre abertas para estudiosos, não importando o destino final dos originais.  Além do que, um contrato já havia sido assinado por ela e pela casa de leilões.

 

O artigo de Michael Kimmelman continua então com considerações sobre Pessoa e sobre a alma portuguesa, inclusive opiniões sobre a última, com uma breve entrevista sublinhando as opiniões de Inês Pedrosa, a escritora que esteve recentemente aqui em Paraty, na FLIP [Feira Literária Internacional de Paraty] deste ano.  O artigo revela também algumas opiniões de Jerônimo Pizarro diretor da Casa Fernando Pessoa, em Lisboa.  Mas, o assunto pelo qual tenho interesse aqui é diferente daquele enfatizado pelo New York Times, que se mostrou mais interessado em mostrar a forma peculiar, culturalmente falando, de pensar dos portugueses – um artigo até bastante irônico. O que me interessa é ponderar sobre os diversos direitos envolvidos neste caso, para que possamos, no futuro, pensar em como resolver situações semelhantes que certamente ocorrerão na tentativa de preservação de uma cultura brasileira:

 

1° – Tanto no Brasil como em Portugal seria necessário tornar mais claras as regras estabelecidas para dar prioridade ao que deve ou não ser preservado dentro do país.

 

2° – Acredito que os herdeiros têm todo o direito de vender os documentos.  Muitos autores, com herdeiros, fazem projetos de vida contando com esta possibilidade de renda para as gerações futuras, assim como os grandes donos de terras o fazem.

 

3° – Também acredito que o governo tem todo o direito de comprar os documentos.  Se são de tamanha importância como se diz, tenho certeza que qualquer governo acharia os meios de comprá-los no leilão, ou seja ao valor estabelecido pelo mercado.

 

4° – Onde há vontade há um meio.  O governo pode se juntar a diversas ONGs culturais para comprar os documentos e mantê-los na Biblioteca Nacional ou em alguma outra instituição pública de acesso livre aos estudiosos.

 

5° – Nada impede que um grupo de intelectuais e outros interessados, que hoje choram e gritam lamentando a perda física dos documentos, não se cotizem para comprá-los e depois doá-los ao país.  Acho que as pessoas têm que aprender a colocar o dinheiro onde insistem ser um bom investimento, quer seja cultural ou econômico.

 

6° – Não há nada mais injusto do que o governo proibir alguém de vender algum objeto ou documento por o haver declarado Patrimônio Nacional, tombá-lo e não indenizar o atual dono do patrimônio ao preço de mercado.

 

7° – Se nenhuma destas possibilidades aparecerem, por que os documentos não podem sair do país e serem velados por uma outra instituição de responsabilidade social como seria o caso de uma biblioteca especializada em manuscritos de grandes autores?

 

8° – Último, estive vendo, no outro dia que a Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro é a 7ª maior biblioteca do mundo.  ALÔ !!!!  Diretores da BN, está na hora de aumentarmos o nosso patrimônio!  Tenho certeza de que Portugal preferiria que nós  brasileiros – da mesma pátria, porque afinal nossa língua é nossa pátria – fossemos os guardiões destes documentos.  Melhor do que qualquer outro país que se interessar possa, não é mesmo?





As Profissões — poema infantil de Nelson Nunes da Costa

16 07 2008

 

AS PROFISSÕES

 

— Sou lavrador — cavo a terra

Para depois semear.

 

— Eu, pescador, passo a vida

Na canoa sobre o mar.

 

                                   — Mitigo as dores da vida

                                   Sou solícita enfermeira.

 

— Eu sou  mecânico perito,

Não sei de melhor carreira.

 

                                   — Operário, desde cedo,

                                   Que começa o meu labor.

 

— Nos incêndios, o bombeiro,

Revela o grande valor.

 

                                   — Eu sou médico excelente,

                                   Tenho curas assombrosas.

 

— Na cozinha, ao fogo ardente,

Faço comidas gostosas.

 

                                   — Comerciante zeloso,

                                   Não me afasto do balcão.

 

— Eu sou modista afamada,

Pois coso com perfeição.

 

                                   — Sacerdote caridoso,

                                   Eu trabalho pela cruz.

 

— Aprendiz de carpinteiro,

Eu sou o que foi Jesus.

 

                                   Toda profissão é nobre

                                   Exercida com carinho,

                                   Só o homem preguiçoso

                                   Acha o trabalho mesquinho.

 

 

Nelson Costa

 

Nelson Nunes da Costa ( RJ 1899 – 1976) Jornalista, professor, Membro da Academia Carioca de Letras.  Estudioso da Historiografia carioca foi diretor do departamento de História e Documentação do Município do Rio de Janeiro.  Cronista, jornalista, professor, contista e escritor.  

 

Algumas obras:

 

Bonecos e bonecas Conto, 1922  

Páginas cariocas Crítica, teoria e história literárias, 1924  

Rio de ontem e de hoje Crítica, teoria e história literárias, 1958  

O Rio através dos séculos: a história da cidade em seu 4° centenário, 1965

 

 

Do livro:

 

Criança brasileira: segundo livro de leitura, Theobaldo Miranda Santos, Agir: 1950, Rio de Janeiro.

 

 

 

 





Manhã na Roça, poesia infantil de Alda Pereira da Fonseca

15 07 2008

 

Fazenda em São Paulo, Lucia de Lima (Brasil, contemporânea), A/T.

Fazenda em São Paulo, Lucia de Lima (Brasil, contemporânea), A/T.

MANHÃ NA ROÇA

 

 

O sol clareia o horizonte,

Canta o galo no poleiro,

Bala a ovelhinha no monte,

Piam pintos no terreiro.

 

A fazenda despertou,

Num ruído alvissareiro.

Na roça o sol já encontrou

O matutino roceiro.

 

Tudo então vibra e se agita,

Nos trabalhos da lavoura,

Enquanto a ave saltita,

Na ramagem que o sol doura.

 

A vaca chama o terneiro,

Que ainda dorme no curral!

Mais longe grunhem cevados,

Grasnam patos no quintal.

 

Eis a vida que desperta,

Para o penoso labor,

Que dará colheita certa

De lucro compensador.

 

Alda Pereira da Fonseca

 

 

Do livro:

Terra Bandeirante: a vida na cidade e na roça no Estado de São Paulo, 2° ano do curso básico, Theobaldo Miranda Santos, Agir: 1954, RJ

 

 

Alda Pereira da Fonseca (RJ, 1882 – ?) — Cientista carioca, especializou-se na área da botânica e representou o Ministério de Agricultura em várias comissões nacionais e também em viagem de estudos ao exterior. Além da área científica, Alda  foi romancista, cronista, contista, poeta, novelista, roteirista, escritora de Literatura Infantil.

 

Lúcia de Lima, (RJ) – professora, arquiteta, pintora, artista plástica, trabalhando no Rio de Janeiro.

http://www.luciadelima.com.br

 

 

 

 





Concerto campestre: Luiz Antonio de Assis Brasil

13 07 2008

 

Kiko Medeiros (RS, Brasil 1955) Músicos, A/T

Kiko Medeiros (RS, Brasil 1955) Músicos, A/T

 

Concerto Campestre é um livro sedutor que permanece na nossa imaginação por muito tempo depois de termos acabado sua leitura.  É uma história que cobre duas das maiores paixões brasileiras:  música e o amor proibido.  Luiz Antonio de Assis Brasil mostra como o preconceito racial funcionava no século XIX;  também retrata eloqüentemente  o vazio da vida levada pelas mulheres da época,  que nascidas e criadas nas fazendas, eram em geral analfabetas.   Elas tinham muito pouco com que se distrair, e como herdeiras de terras, não pertencendo à classe trabalhadora,  não lhes era permitido dedicarem-se a trabalho nenhum.

 

Assis Brasil mostra crenças e preconceitos arraigados no interior, no Rio Grande do Sul rural do século retrasado.   O estado, terra dos gaúchos, solo fértil da grama alta e florida dos pampas, da criação de gado e de grandes fazendeiros — famosos por sua rebeldia e independência — é mostrado com acuidade e poesia nestas páginas, mesmo que vejamos o retrato da educação quase nula, não existente mesmo, rude,  dos donos da terra; e nos familiarizamos com a mentalidade estreita e as regras das tênues diferenças de classes sociais, não só na região austral do país mas também vivenciadas na maior parte do interior do país.

 

A história gira em torno de um senhor da terra que decide ter uma pequena orquestra para concertos ao ar livre.  Ele contrata um conhecido maestro, mulato, que após se estabelecer na fazenda começa a organizar um grupo de músicos, com o objetivo de construir a tão sonhada pequena orquestra do fazendeiro.    Este maestro seduz não só a burguesia do local com sua música, surpreendendo todos os fazendeiros vizinhos, mas também conquista e é conquistado pela filha de seu patrão.    Ela é inteligente, apesar de analfabeta.  E está ciente da vida estéril que a espera, no casamento arranjado pelos pais com o filho de um fazendeiro local.  Ela percebe este casamento como uma das piores coisas que poderiam lhe acontecer.  E aceita o amor do maestro com gosto e reciprocidade.  

 

A história é narrada com muita leveza: o que não é dito pode ser mais importante do que o que se encontra no papel.  É uma história quase escrita nas entrelinhas.  As elipses que ocorrem são não só preocupantes como eloqüentes.  Assim, Assis Brasil mostra a mão do bom escritor que é; controlando ambos texto e história,  sem hesitação.  Este é um romance pequeno, de apenas 176 páginas, que vai muito longe.  É  uma janela descortinando o inconsciente brasileiro.  Certamente sobreviverá no tempo, tornando-se um clássico, porque fala da alma brasileira.

 

 

 

Concerto campestre, Luiz Antonio de Assis Brasil, L&PM: 1997, Porto Alegre

 

 

 

Este texto apareceu primeiro em inglês, há dois anos, no portal: living in the postcard.

Luiz Antonio de Assis Brasil
Luiz Antonio de Assis Brasil





Vozes dos animais, poema de Pedro Diniz

13 07 2008
Animais da fazenda, ilustração de Steve Morrison

Animais da fazenda, ilustração de Steve Morrison

 

 

VOZES DOS ANIMAIS

 

Muge a vaca; berra o touro;

Grasna a rã; ruge o leão;

O gato mia; uiva o lobo;

Também uiva e ladra o cão.

 

Relincha o nobre cavalo;

Os elefantes dão urros;

A tímida ovelha bala;

Zurrar é próprio dos burros.

 

Sabem as aves ligeiras

O canto seu variar:

Fazem às vezes gorjeios

Às vezes põem-se a chilrar.

 

Bramam os tigres, as onças;

Pia, pia o pintinho;

Cucurica e canta o galo;

Late e gane o cachorrinho.

 

A vitelinha dá berros;

O cordeirinho, balidos;

O macaquinho dá guinchos;

A criancinha vagidos.

 

 

Pedro Diniz

 

 

 

Criança brasileira, Theobaldo Miranda Santos, Agir: 1950, Rio de Janeiro