Quanto vale um manuscrito medieval de medicina?

18 02 2014

almanac-topPagina do almanaque comprado pela Biblioteca Wellcome.

Quanto vale um manuscrito medieval de medicina?  100.000 libras esterlinas  aproximadamente R$ 400.000, hoje.

No finalzinho do ano passado, depois do Natal de 2013, a Wellcome Library, biblioteca londrina, especializada na história da medicina,  pagou exatamente essa quantia pelo pequeno almanaque médico medieval. Este volume tem um história interessante além da páginas decoradas à mão. Pertenceu a excêntrica poeta e crítica literária Edith Sitwell.  O almanaque é um calendário combinado a mapa astrológico e também a um  livro de medicina.  E cabe na palma de uma mão.

Nessa época era comum associar-se os signos do zodíaco ao corpo humano.  Na verdade até o final do século XVI médicos anotavam regularmente a posição dos signos, e a fase da lua quando atendiam a seus pacientes.

Medical almanacO mapa do corpo humano ilustrado no manuscrito da Biblioteca Wellcome, em Londres.

Por ter uma função específica, auxiliar o médico em sua tarefa de cura, o almanaque de medicina  era em geral muito manuseado. Além disso muitos deles eram presos ao cinto ou à sacola do médico que o levava para atender seus pacientes.  Por isso mesmo poucos restam da época medieval. Este manuscrito é do século XV.  Só 30 desses almanaques são conhecidos dessa época.  Excepcionalmente, este era um objeto de luxo, iluminado com cores ricas e folha de ouro, e encadernado em brocado de seda.

Não se conhece a história do proprietário original desse manuscrito e nem mesmo de como ele conseguiu chegar em tão boas condições até 1940, quando foi dado de presente à Edith Sitwell. São 600 anos de mistério.  Mas agora ele estará ao alcance do público numa biblioteca especializada.

FONTE: The Guardian





900 anos para um recado de amor!

17 02 2014

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Uma mensagem Viking finalmente foi desvendada.  Criptologistas da Universidade de Oslo chegaram à conclusão de que na frase gravada em um pedaço de madeira tinha a mensagem “Beija-me”, segundo informações do jornal Huffington Post. Depois de muito sono perdido, os cientistas conseguiram entender a mensagem amorosa que demorou quase um milênio para ser decifrada, escrita em código jötunvillur, que remonta à Escandinávia anterior ao século IX.

oslomebeijareproducaoFoto: Jonas Nordby, Bode Museum, na Alemanha, e  Sigtuna Museum, na Suécia.

O código jötunvillur já foi encontrado em mais de oitenta inscrições dos povos nórdicos primitivos, e intrigou os runologistas (criptologistas que estudam o alfabeto viking). No entanto, o runologista da Universidade de Oslo Jonas Norby finalmente conseguiu “unir os pontos” fazendo comparações com outras mensagens escritas no código e chegou à mensagem de amor.

Fonte: TERRA





Perucas: a vaidade dos homens não é de hoje!

14 02 2014

117375-004-F79CE7D4Retrato do rei Luis XIV, c. 1655

Charles Le Brun (França, 1619-1690)

óleo sobre tela,

Museu do Louvre

Quando pensamos em porta-bandeiras de escolas de samba, no Carnaval carioca, imaginamos um casal em roupagem do século XVIII, ambos usando perucas brancas. Em geral, o século XVIII é associado às perucas.  Mas esquecemos que elas eram usadas ​​principalmente por  homens.

As perucas foram introduzidas na corte francesa, no século XVII, quando o rei Luís XIII da França (1610-1643), que tinha deixado seu próprio cabelo crescer em longos cachos, começou a ficar careca, muito cedo ainda com 23 anos de idade.

Os cortesãos logo, logo imitaram a moda, usando perucas que se assemelhassem às do rei da França.  E com isso estabeleceram uma moda que se espalhou para além das fronteiras francesas, atravessou o Canal da Mancha e se estabeleceu na Inglaterra durante o período da Restauração de Charles II (1660s-80s).

As perucas usadas por Luís XIV da França, que tinham bastante cabelo próximo aos ombros, precisavam do cabelo de aproximadamente dez cabeças para completar uma única peruca. O custo dessas perucas era considerável.  E o uso diário de uma peruca bem cheia como as do rei era  proibitivo.  Mas os homens precisavam ter muito cuidado para não perder as perucas e, sobretudo para evitar que elas fossem roubadas.  Havia golpes típicos a homens andando na rua: um ladrão distraía o portador da peruca enquanto outro passava rapidinho e arrancava a peruca e saía correndo.

Com o passar do tempo diferentes estilos de peruca começaram a ser associados com diferentes profissões.  E o uso da peruca passou a ser norma para os homens das classes alta e média.

A peruca masculina tornou-se um grande negócio, no século XVIII. Não era mais uma afetação aristocrática, ou usada apenas por determinados grupos profissionais não-aristocráticos, como juízes, advogados e clérigos.  A peruca não se limitava aos homens na cidade, mas se espalhou pelas aldeias e vilarejos.  Cada cidade passou a ter um ou mais mestres peruqueiros.

 

 Em compensação, as mulheres do século XVIII raramente usavam perucas inteiras.





Curiosidade: o tamanho das cidades na Era Medieval

9 02 2014

carcassonne_cite2Entrada para a cidade medieval francesa, Carcassone.

Por volta de 1200 as maiores cidades do norte da Europa eram Londres, Paris e Ghent.  Cada qual tinha uma população que variava entre 30.000 a 40.000 habitantes.  No entanto, na mesma época, no sul da Europa,  cidades como Veneza e Florença tinham populações acima de 100.000 pessoas.

No século XIV, calcula-se 1/3 de toda a população europeia tenha morrido através da Peste Bubônica, que durou quatro anos.  Mas a Europa precisou dos 150 anos seguintes para recuperar a população que havia tido na primeira metade do século XIV.





Brasil Holandês: mulheres com direitos quase iguais!

23 01 2014

azulejo holandês no RecifeAzulejo holandês no Recife. Fonte: Archief

As mulheres brasileiras não eram bobas.  Escolhiam, quando podiam, maridos nórdicos que as tratavam com maior respeito e independência. Quem mostra isso é Gilberto Freyre no artigo Arte de cavalgar no tempo dos flamengos, originalmente publicado no Diário de Pernambuco em 4/7/1948, sob o título de Mulheres, cavalos e civilizações.  Reproduzo aqui na integra ainda que a minha fonte seja o livro Pessoas, coisas e animais, de Gilberto Freyre, — ensaios e artigos reunidos e apresentados por Edson Nery da Fonseca,  São Paulo, edição especial MPM Casablanca-Propaganda: 1979.

Arte de cavalgar no tempo dos flamengos

Gilberto Freire

Em seu Valeroso Lucideno e o triumpho da Liberdade (Lisboa, 1648) frei Manuel  do Salvador, ou Manuel Calado descreve as festas que o Conde Maurício de Nassau promoveu em Pernambuco para celebrar a Restauração de Portugal em 1640. Houve banquete. Música. O rio encheu-se de batéis e barcas. Armaram-se palanques. Senhoras exibiram jóias finas.

Mas a parte mais interessante das comemorações foi a que hoje chamaríamos esportiva, com duas quadrilhas de cavaleiros a darem demonstrações de perícia na arte então mais nobre e viril que havia: a de cavalgar. Uma quadrilha era de nórdicos: holandeses, ingleses, alemães e franceses. A outra era de portugueses e brasileiros. A primeira tinha por chefe o próprio Nassau. A outra o fidalgo pernambucano Pedro Marinho.

Primeiro os cavaleiros, com suas lanças, desfilaram de dois em dois pelas ruas do Recife: um português (ou brasileiro) e um nórdico. E pela simples maneira de cavalgarem, parece que se tornaram  de início evidentes os contrastes entre as duas civilizações – a nórdica e a lusitana – que a astúcia política de Nassau, aproveitando-se da notícia da Restauração de Portugal, conseguiu fazer que ostentassem, numa festa quase fraternal, os seus característicos diferentes. Os de uma civilização já burguesa e os de uma civilização ainda feudal. Donde o reparo do padre ainda cronista – o bom frei Manuel dos Óculos – de que animais cavalgados à bastarda pelos homens do Norte não sabiam senão dar saltos. Os cavaleiros se descompunham ao picar os cavalos. Faltava-lhes a arte dos portugueses de irem sobre os animais “à gineta” e “fechados nas selas”.

azu1Azulejo holandês em residência no Recife. Fonte: Ceci

Segundo o cronista, foram os cavaleiros portugueses de Pernambuco que atraíram o melhor entusiasmo das damas, embora ortodoxo inflexível, não se esqueça de observar que “nenhumas se poderiam gabar que português algum de Pernambuco se afeiçoasse à mulher das partes do Norte; não digo para casar com ela, mas nem ainda epara tratar amores, ou para alguma desenvoltura; como por contrário o fizeram quase vinte mulheres portuguesas que se casaram com os homens holandeses ou, para melhor dizer, amancebaram, pois se casaram com hereges e por os predicantes hereges porquanto os holandeses as enganaram, dizendo-lhes que eram católicos romanos; e também porque, como eles eram senhores da terra, faziam as coisas como lhes parecia, e era mais honroso e proveitoso; e se os pais das mulheres se queixavam, não eram ouvidos, antes os ameaçavam com falsos testemunhos e castigos”. Observação que lança alguma luz sobre os casamentos entre católicos e acatólicos que então se realizaram no Brasil, a despeito do clamor dos padres e da Igreja contra eles.

Ao desfile dos cavaleiros, seguiram-se as carreiras em torno das argolinhas e depois o jogo de “aptos à mão”. E a ser exata a notícia que dá dos festejos o padre-cronista, as vitórias foram quase todas dos portugueses de Pernambuco, sempre muito “compostos e airosos” nos seus cavalos e capazes das façanhas mais espantosas como a de, no meio da carreira, passar-se um cavaleiro ao cavalo do outro, nas ancas. O que padre não estranha, pois, que, em Pernambuco, havia então, segundo ele, muitos e mui bons homens de cavalos.

As damas estrangeiras é que ficaram maravilhadas com tais façanhas dos homens de Pernambuco. Frei Manuel informa que houve “inglesas e francesas” que tiraram os anéis dos dedos e os mandaram oferecer aos cavaleiros de Pedro Marinho, “só por os ver correr”. No dia seguinte houve banquete aos cavaleiros, e ceias até de madrugada, com a presença de tais damas “Holandesas, Francesas, Inglesas” e muita abundância de bebidas. Banquetes em que as mulheres bebiam “melhor que os homens”, arrimando-se a bordões, como era costume em suas terras.

54. recife 2 263.jpgAzulejos holandeses no Recife, século XVII. Fonte: Archief

Os festejos promovidos pelo conde de Nassau em Recife, em abril de 1641, parecem ter tornado claros dois contrastes: o contraste entre os cavalos adestrados e cavalgados por homens de uma civilização ainda feudal e os adestrados e cavalgados por homens de civilizações já burguesas e o contraste entre as mulheres daquela civilização não só feudal como católica e não só católica como ainda um tanto mourisca, e as mulheres das civilizações protestantes ou neo-católicas do norte da Europa. Dentro destas civilizações protestantes já havia, no século XVII, damas de tal modo desembaraçadas dos pudores católicos e dos recatos mouriscos, que bebiam melhor que os homens nos banquetes, participavam de suas festas e enviavam ostensivamente presentes a cavaleiros cujas façanhas na arte de cavalgar mais admiravam. Estes é que esquivavam-se ao casamento com mulheres dos países reformados do norte, menos, talvez, por preconceito de ordem rigorosamente doutrinária ou teológica do que moral ou social.

Homens habituados a mulheres doces e passivas, parece que os modos desembaraçados das inglesas, das holandesas, das francesas e das alemãs não os atraíam as mesmas mulheres senão para namoros efêmeros: nunca para o casamento ou o amor conjugal.

O mesmo não sucedeu com as mulheres da terra com os hereges. Foram várias as que aceitaram hereges para esposos. É que das mulheres da terra, algumas parecem ter descoberto ou adivinhado nos mesmos hereges cavalheiros menos airosos que os portugueses ou brasileiros – senhores quase feudais –porém homens menos tirânicos no seu trato com o belo sexo no qual a civilização burguesa-protestante fazia-os ver pessoas quase iguais as deles homens. Daí casos como da bela viúva D. Ana Pais, que se casou ou uniu com mais de um holandês, escandalizando a sociedade patriarcal, católica e quase feudal que era o Pernambuco de sua época.

Em: Pessoas, coisas e animais de Gilberto Freyre, — ensaios e artigos reunidos e apresentados por Edson Nery da Fonseca,  São Paulo, edição especial MPM Casablanca-Propaganda: 1979, pp.233-34.





1200 anos atrás já se sabia da necessidade de uma boa educação!

13 01 2014

learning-to-readAprendendo a ler, s/d

Iluminura.

Desconheço a identificação do manuscrito.

Carlos Magno, também chamado de “O Pai da Europa”, unificou grande parte do território da Europa Ocidental, que estava subdividida em pequenos domínios desde a queda do império romano.  Além de ser um grande guerreiro e administrador, Carlos Magno acreditava na boa educação.  Durante o seu reinado fomentou a melhoria da educação e patrocínio nas artes, literatura, e arquitetura, o que levou seu reinado a ser mais tarde denominado de Renascimento Carolíngio. [final do século VIII ao século IX].  Em suas diversas campanhas entrou em contato com a cultura e observou a qualidade do ensino em outros lugares, na Espanha visigótica, na Inglaterra anglo-saxã, e na Itália lombarda. Vendo o progresso do ensino em outras culturas fez questão de aumentar a oferta de escolas e de scriptorias monásticas, lugar dedicado às cópias de livros, nos rincões do seu reino. Sua contribuição para a cultura ocidental não foi pequena já que a maioria das obras sobreviventes hoje do latim clássico foram copiadas e preservadas por estudiosos no reino carolíngio.

A falta de alfabetização latina na Europa Ocidental do século VIII causou problemas para os governantes carolíngios, limitando severamente o número de pessoas capazes de servir como escribas da corte em sociedades onde o latim era valorizado. Ainda mais preocupante para alguns governantes foi o fato de nem todos os párocos possuírem a habilidade de ler a Bíblia Vulgata. Um problema adicional é que o latim vulgar do Império Romano do Ocidente  tardio começou a divergir abrindo portas para os dialetos regionais, os precursores das línguas latinas de hoje, e estavam se tornando mutuamente ininteligíveis, prevenindo estudiosos de uma parte da Europa se comunicarem  com pessoas de outra parte da Europa.

Carlos Magno ordenou a criação de escolas no documento chamado Carta de Pensamento Moderno, emitido em 787.  Seu programa de reforma tinha como objetivo atrair muitos dos principais estudiosos cristãos para sua corte.  Chamou primeiro os italianos: Pedro de Pisa, Paulino de Aquileia e Paulo, o Diácono. Mais tarde chamou o espanhol Teodolfo de Orléans, Alcuíno de York e Joseph Scottus, irlandês.  Entre os esforços principais do reino carolíngio está a organização de um currículo padronizado para uso nas escolas recém-criadas; o desenvolvimento da minúscula carolíngia, um “livro de mão” [cartilha] que introduziu uso de letras minúsculas. A versão padronizada do latim também foi desenvolvida, permitindo a cunhagem de novas palavras ao mesmo tempo que mantinha as regras gramaticais do latim clássico. Este latim medieval tornou-se uma linguagem comum de bolsa de estudos e administradores,  permitindo que viajantes pudessem se fazer entender em várias regiões da Europa. Carlos Magno tornou o sistema educacional um pouco mais acessível, ainda que não abrangesse a sociedade inteira. As escolas carolíngias foram organizadas de acordo com o princípio de sete artes liberais, com os estudos divididos em dois níveis: o Trivium (gramática, retórica e lógica) e o Quadrivium (aritmética, astronomia, geometria e música).

Carlos Magno criou bolsas de estudos, incentivou as artes liberais na corte, providenciou para que seus filhos e netos fossem educados com esmero. Seguindo a tradição de igualdade entre os sexos, comum nas culturas germânicas, Carlos Magno tratou com o mesmo cuidado da educação das mulheres de sua família (3 filhos e 5 filhas). Já rei, dedicou-se à sua própria educação, tendo como tutor Pedro de Pisa, com quem aprendeu gramática; Alcuíno, com quem estudou retórica, dialética (lógica) e astronomia (era muito curioso sobre o movimento das estrelas), e Einhard, que o ajudou em seus estudos de aritmética.





Veneza do século XIII: os primórdios do capitalismo e da globalização

9 01 2014

Marco Polo sailing from Venice in 1271, detail from an illuminated manuscript, c. 15th century; in the collection of the Bodleian Library, Oxford, Eng.Marco Polo saindo em navio de Veneza, em 1271.  Detalhe de iluminura de um manuscrito do século XV, na Biblioteca Bodleian, na Universidade de Oxford.

QUASE TODOS em Veneza dedicavam-se ao comércio. As viúvas investiam em atividades mercantis e qualquer jovem desprovido de meios podia intitular-se “mercador” simplesmente aventurando-se no negócio. Apesar dos riscos enormes, riquezas inimagináveis atraíam os mais arrojados, os empreendedores e os bobos. Fortunas surgiam e evaporavam da noite para o dia, e muitas fortunas familiares venezianas provinham do êxito de uma única expedição comercial a Constantinopla.

Os mercadores venezianos desenvolveram todo tipo de estratagema para lidar com mudanças bruscas em seu meio de vida, o comércio mundial. Na ausência de padrões para o câmbio, as diversas moedas em uso eram um pesadelo na hora da conversão. O Império Bizantino tinha os seus besantes, as terras árabes seus dracmas, Florença seus florins. Confiando na proporção entre ouro e prata numa moeda para determinar o seu valor, Veneza tentava acomodar todas. Mercadores como os Polo evitavam o difícil sistema monetário, com sua inevitável confusão e depreciação e negociavam, com gemas tais como rubis, safiras e pérolas.

Para resolver suas necessidades financeiras sofisticadas e exóticas a cidade desenvolveu o sistema bancário mais avançado na Europa Ocidental. Bancos de depósito do continente são originários de Veneza. Em 1156, a República de Veneza tornou-se o primeiro estado desde a Antiguidade a obter um empréstimo público. Ela também emitiu as primeiras leis bancárias da Europa, com o fim de regulamentar a nascente indústria bancária. Como resultado dessas inovações, Veneza dispunha das mais avançadas práticas de negócios da Europa.

Veneza adaptou os contratos romanos às necessidades dos mercadores que negociavam com o Oriente. Sofisticados contratos marítimos de empréstimo ou de troca estipulavam as obrigações entre armadores e mercadores inclusive faziam seguro – obrigatório em Veneza a partir de 1253. O tipo de acordo mais comum entre os mercadores era o comenda ou, no dialeto veneziano, collegantia, um contrato baseado em modelos antigos. Numa tradução aproximada, o termo significava “negócio de risco” e, mais que um conjunto de princípios legais consistentes, era um reflexo dos costumes prevalecentes no comércio. Apesar de esses contratos do século XII e XIII pareceram antiquados suas exigências de precisão contável são surpreendentemente modernas. Eles exprimiram e respaldaram uma forma rudimentar de capitalismo muito antes do surgimento do conceito.

Para os venezianos, o mundo era assombrosamente moderno de outra maneira: ele era “plano”, isto é, mundialmente ligado para além das fronteiras e dos limites, fossem estes naturais ou artificiais. Eles viam o mundo como uma rede de rotas comerciais e oportunidades constantemente em mutação que se estendiam por terra e mar. Por barco ou em caravanas, os mercadores venezianos viajavam aos quatro cantos do mundo em busca de especiarias, gemas e tecidos valiosos. Graças à sua iniciativa, minerais, sal, cera, remédios, cânfora, goma-arábica, mirra, sândalo, canela, noz-moscada, uvas, figos, romãs, tecidos (especialmente seda), peles, armas, marfim, lã, penas de avestruz e papagaio, pérolas, ferro, cobre, pó de ouro, barras de ouro,  barras de prata e escravos asiáticos chegavam à Veneza, provenientes da África, do Oriente Médio e da Europa Ocidental, por meio de complexas rotas comerciais.

Itens ainda mais exóticos chegavam à cidade a bordo de galés estrangeiras. Imensas colunas de mármores, pedestais, painéis e blocos, arrancados de templos ou edifícios em ruínas em Constantinopla ou alguma cidade grega ou egípcia, amontoavam-se no cais. Esses restos da antiguidade, lápides de civilizações mortas ou moribundas, terminavam em uma esquina qualquer da Piazza San Marco, ou na fachada de um palazzo ostentoso habitado por algum duque ou rico mercador.

A diversidade de mercadorias levou Shakespeare a comentar por meio da personagem Antônio em O Mercador de Veneza, que “o lucro e o comércio da cidade/dependem de todas as nações”. O comércio veneziano era sinônimo de globalização – outro conceito embrionário da época. Para estender seu alcance, os venezianos formavam parcerias com governos e mercadores distantes que desconsideravam as divisões raciais e religiosas. Árabes, judeus, turcos, gregos e, mais tarde, mongóis faziam parcerias comerciais com Veneza, mesmo quando pareciam ser seus inimigos políticos…

Em: Marco Polo: de Veneza a Xanadu, Laurence Bergreen, tradução Cristina Cavalcanti, Rio de Janeiro, Objetiva: 2009, pp 28-30.





Tumba de mestre-cervejeiro descoberta em Luxor

4 01 2014

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Um mestre-cervejeiro da corte certamente tinha um bom status social no antigo Egito.  Podemos concluir isso depois que especialistas japoneses descobriram em Luxor, no sul do Egito, uma tumba de um chefe cervejeiro, da época de Ramsés II, ou seja, dos séculos XII a XI antes da Era Comum.  Sua cervejaria era dedicada à deusa Mut.   Sabemos disso graças às descobertas anunciadas no dia 2 de janeiro, pelo ministro egípcio de Antiguidades, importantes detalhes da vida cotidiana do dono da cervejaria, identificado como Junsu-Im-Heb, [ou Khonso Em Heb] é um passo importante para se reconstruir a vida diária dos cidadãos da civilização do Nilo.  A família do mestre cervejeiro, que também está retratada, viveu a 3.200 anos atrás.

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Jiri Kondo, chefe da equipe da universidade japonesa de Waseda, explicou que o sepulcro foi descoberto enquanto faziam trabalhos de limpeza para um estudo da tumba TT-47, pertencente a um alto funcionário da época do rei Amenhotep III.

As pinturas murais encontradas mostram diversos aspectos da vida diária da época e da família de Junsu-Im-Heb. Mostram com naturalidade a relação entre um marido, sua esposa e seus filhos, e também como faziam suas práticas religiosas. Seu estudo trará valioso conhecimento sobre o cotidiano da vida a mais de 3.000 anos passados.

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A tumba, repleta de pinturas murais, foi construída numa planta em formato de T, tem dois salões além da câmara mortuária e mostra curiosas cenas do dia a dia, retratando inclusive a admiração de diferentes pessoas antes de um ritual funerário, conhecido como “Abrir a Boca” da época.  Curiosamente esta tumba está ligada à câmara mortuária de uma pessoa chamada Houn, mas ainda não identificada. Além das paredes laterais internas, o teto da tumba também mostra imagens pintadas com delicadeza, imagens precisas e de grande beleza.  Há também a uma pintura representando o pôr do sol.

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Se você está intrigado com essa tumba, e se pergunta por que um mestre cervejeiro teria o status de importância para justificar tanto luxo, talvez seja bom lembrar que uma das primeiras bebidas feitas pelo homem foi a cerveja, que era na antiguidade consumida por todos, jovens, velhos e crianças. Era bebida por ricos e pobres e a cerveja fazia parte dos rituais religiosos diários e em grandes cerimônias. No Egito antigo a cerveja era mais doce e mais grossa do que a bebida que conhecemos hoje.

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Para evitar o saque o governo egípcio aumentou a segurança em torno da tumba até que sejam analisadas todas suas partes. Eventualmente o público terá acesso aos achados nessa tumba. Luxor é uma cidade de 500.000 habitantes, localizada às margens do Nilo, no sul do Egito. É considerada um museu ao ar-livre por causa do grande número de templos e tumbas faraônicas encontradas lá.

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Fontes: The Atlantic, Terra — Fotos: Luxor Times e France Press.





Mulheres da história: Matilda de Canossa (1046-1115)

30 11 2013

Matilda_of_TuscanyMatilda da Toscana

Michelangelo Buonarroti  acreditava ser descendente da heroína medieval Condessa de Canossa.  Essa era uma tradição oral da família do escultor renascentista que nunca conseguiu ser provada.  Não importa.  Não faz diferença quando julgamos o valor do legado deixado pelo artista.  Mas foi importante para ele e para sua família acreditar que seriam descendentes dessa mulher, uma das poucas que se distinguiram na Idade Média e passar para a história com nome, sobrenome e até retratos.  No século XI, época em que viveu, a distinção de identidade individualizada era rara até mesmo para rainhas.  Mulheres nessa época se autoapagavam, submetendo qualquer ato de individualismo ao anonimato social, trabalhando na maior parte das vezes como eminências pardas na política local.

Mas Matilda de Canossa  foi diferente.  Conhecida também como Matilda da Toscana por causa das terras que herdou aos 8 anos de idade.  Filha de Bonifácio III, duque de Toscana, assassinado em 1052, que até então havia sido o mais poderoso príncipe de sua época, natural da Lombardia e  Conde de Brescia, Canossa, Ferrara, Florença, Luca, Mântua, Modena, Pisa, Pistóia, Parma, Reggio, e Verona a partir de 1007 e nomeado Marquês da Toscana  de 1027 até sua morte.  Seu poder se enraizava principalmente na província região de Emília, nordeste da Itália de hoje.  A mãe de Matilda de Canossa foi Beatrix de Lorraine, filha de Frederico II Duque da Alta Lorraine.  O castelo residência da família era o Castelo de Canossa, uma verdadeira fortificação, não só pela construção mas sobretudo por sua localização, no topo de um penhasco.

Hugo-v-cluny_heinrich-iv_mathilde-v-tuszien_cod-vat-lat-4922_1115adHenrique IV pede a Matilde e a Hugo de Cluny intercessão junto do Papa.

Matilda é lembrada até hoje por sua coragem e firmeza no poder.  Também é considerada por sua habilidade de estrategista militar que colocou à disposição dos Papa Gregório VII. Uma rara habilidade administrativa  ajudou-a  a manter-se  no poder até a morte aos 69 anos.  Seu maior inimigo foi o rei germânico Henrique IV e a luta entre eles é o tema principal da peça de Luigi Pirandello chamada Henrique IV.  Matilda de Canossa também foi a personagem principal do livro The Book of Love de Katheleen McGowan publicado nos Estados Unidos em 2009.

Matilda de Canossa foi uma das três mulheres enterradas na Basílica de São Pedro no Vaticano, onde há uma bela escultura de Bernini representando a heroína medieval.





15 de novembro — Dia da República

15 11 2013

Delfim da Câmara (1834–1916)Retrato de D. Pedro II, 1875, ost, 127 × 95 cm, Museu Histórico Nacional (MHN)Rio de JaneiroRetrato de D. Pedro II, 1875

Delfim da Câmara (Brasil, 1834- 1916)

óleo sobre tela, 127 x 95 cm

Museu Histórico Nacional, Rio de Janeiro

“Em visões de luz, de paz, de glória
aguardarei sereno no meu jazigo,
a justiça de Deus na voz da História.”

(Pedro de Alcântara, [D. Pedro II], no poema, Terras do Brasil)