Casario e igrejas em Ouro Preto, MG, 1963
Luiz de Almeida Júnior (Brasil, 1894-1970)
óleo sobre tela, 50 x 60 cm
Delatando os insurgentes,
Joaquim Silvério, o vilão,
não traiu só Tiradentes,
traiu toda uma Nação.
(Campos Sales)
Casario e igrejas em Ouro Preto, MG, 1963
Luiz de Almeida Júnior (Brasil, 1894-1970)
óleo sobre tela, 50 x 60 cm
Delatando os insurgentes,
Joaquim Silvério, o vilão,
não traiu só Tiradentes,
traiu toda uma Nação.
(Campos Sales)
Modesto Brocos (Espanha/Brasil, 1852-1936)
óleo sobre tela, 199 x 166 cm
MNBA [Museu Nacional de Belas Artes], Rio de Janeiro
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“A verdade é que ainda persiste em Portugal uma certa saudade imperial e, sobretudo, uma enorme ignorância no que diz respeito à história do próprio idioma. É sempre bom recordar que antes de Portugal colonizar a África, os africanos colonizaram a Península Ibérica durante oitocentos anos. A língua portuguesa deve muito ao árabe. A partir do século XVI, com a expansão portuguesa, a língua começa a enriquecer-se, incorporando vocábulos bantos e ameríndios, expressões e provérbios dessas línguas, etc.. A minha língua é esta criação coletiva de brasileiros, angolanos, portugueses, moçambicanos, caboverdianos, santomenses, guineenses e timorenses. A minha língua é uma mulata feliz, fértil, generosa, que namorou com o tupi e com o ioruba, e ainda hoje se entrega alegremente ao quimbundo, ao quicongo ou ao ronga, se deixando engravidar por todos esses idiomas.”
Em: “Um brinquedo de criar prodígios“, José Eduardo Agualusa, O Globo, 30/03/2015, 2º caderno, página 2.
Caravelas portuguesas ao mar, ilustração sem designação de autoria.A esquadra que descobriu
A nossa Terra Natal
Partiu do Porto do Tejo,
Comandada por Cabral
Em: 1001 Quadrinhas Escolares, Walter Nieble de Freitas, São Paulo, Difusora Cultural:1965
Capa da Revista Para Todos,26 de fevereiro de 1927
J. Carlos (Brasil, 1884-1950)
“Água não era só de chuva e de enchente. Mais abundante era a dos entrudos. Carnaval. Passavam uns escassos mascarados, dominós de voz fina, diabinhos com que o Benjamim Rezende se divertia arrancando o rabos, quebrando os chifres. O Paulo Figueiredo, encantando minha avó com seu Pierrot recamado de lantejoulas. Os primeiros lança-perfumes — Vlan e o Rodo. Mas o bom mesmo era o entrudo. Havia instrumentos aperfeiçoados para jogar água, como os relógios, assim chamados porque esses recipientes imitavam a forma de um relógio fechado, com dois tampo metálicos flexíveis que, quando apertados, deixavam air um delicado esguicho de água perfumada. Havia de todos os tamanhos, desde os pequeninos, que vinham no bolso, aos enormes, que ficavam no chão e eram acionados com o pé. Havia os revólveres — seringas que imitavam a forma da arma — cano metálico e o cabo de borracha que se apertava, apontando quem se queria molhar. Os limões de todos os tamanhos e de todas as cores que eram preparados com semanas de antecedência e em enorme quantidade. Continham água de cheiro, água pura, água colorida, mas os que caíam da sacada do Barão vinham cheios de água suja, de tinta, de mijo podre. Desciam ao mesmo tempo que as cusparadas das moças. Além dos relógios, dos revólveres, dos limões, eram mobilizadas todas as seringas de clister e improvisados seringões com gomos de bambu. Todos os pontos estratégicos da casa eram ocupados com jarras, baldes, latas e bacias para esperar os atacantes. Porque havia os assaltos de porta a porta. Éramos investidos pelos Pinto de Moura e depois do combate, já encharcados, confraternizávamos, para atacar a casa dos Gonçalves. Logo depois já era um grupo maior que avançava sobre as fortalezas fronteiras dos Couto e Silva e do tio Chiquinhorta, onde nos esperavam valorosamente o Antonico e o Mário Horta. Meu pai comandava a refrega protegido nas dobras de um vasto macfarlane, cujas asas davam-lhe gestos de pássaro gigante. Acabava tudo numa inundação de vinho-do-porto, para rebater e cortar o frio. À noite meu Pai penava com asma…”
Em: Baú de Ossos: memórias, Pedro Nava, Rio de Janeiro, Sabiá: 1972, p. 261-62.
Salvador Rodrigues Jr. (Brasil, 1907-1995)
óleo sobre tela, 40 x 50 cm
” A data de fundação de Paraty é motivo para divergências entre historiadores. Alguns pendem para o ano de 1600, quando Paraty era apenas um povoamento de paulistas de São Vicente. Outros preferem a data de 1606, quando se deu a chegada a Paraty dos primeiros sesmeiros, beneficiados com doações feitas em nome do Conde da Ilha do Príncipe, donatário da Capitania de Itanhaém.
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“O primeiro núcleo de povoamento surgiu em um morro distante 25 braças para norte do Rio Perequeaçu, onde foi erecta uma capela em louvor a São Roque”(*). Depois, por volta de 1646, em local mais favorável, se erigiu outra capela em honra de Nossa Senhora dos Remédios, em terreno doado por Maria Jácome de Melo, para ampliação da vila, sob duas condições: a primeira, que a mesma fosse feita em devoção àquela santa, e a segunda, exigindo a segurança dos índios guaianazes moradores naquele local.
Como de hábito, o nome do santo orago foi acrescentado ao topônimo Paratii, vocábulo tupi, que significa “peixe da família das tainhas”, muito encontrado na região.
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(*) Citação no texto referindo-se ao livro do Monsenhor José de Souza Azevedo Pizarro e Araújo, titulado: Memórias históricas do Rio de Janeiro e das Províncias anexas à jurisdição do Vice-Rei do Estado do Brasil.
Em: Paraty, religião e folclore, Thereza Regina de Camargo Maia, Rio de Janeiro, Arte e Cultura (LTC Editora): 1976, pp. 20-21.
Cartaz para a opereta em 3 atos, Arsène Lupin, o banqueiro, 1930.
Os primeiros anos da minha adolescência, dos 12 aos 14, foram preenchidos por muitas leituras detetivescas. Era a leitura mais leve que eu encontrava na biblioteca municipal do meu bairro. Mesmo não tendo livros muito novos, recém-saídos da editoras, essa biblioteca me ajudou a preencher muitos fins de semana pós praia, muitos dias de férias quer no Rio de Janeiro ou na Serra. Assim li todos os livros que pude dos mais famosos detetives de Sherlock Holmes, a Hercule Poirot, a Charlie Chan e sem dúvida Arsène Lupin. Todos, cada qual a seu modo, foram personagens queridos. Qual não é a minha surpresa ao ler A vida literária no Brasil, 1900 e descobrir que, por aqui, Arsène Lupin foi muito popular logo no início do século. A passagem abaixo, sobre os Salões no Rio de Janeiro de então, dá uma ideia.
“Mais mundanos que literários seriam os salões de Sampaio Araújo, na rua Voluntários da Pátria, e o do casal Azeredo, na praia de Botafogo. Não raro via-se ali Caruso ao lado de um poeta estreante; um cronista conversando com figurões da política ou milionários banqueiros, gente da alta finança. Na seção “Cinematógrafo”, de Joe, na Gazeta de Notícias, aparece constantemente o nome de madame Gomensoro, que possuía igualmente um salão, onde procurava oferecer novidades e surpresas aos convivas. Era, às vezes, uma orquestra típica; outras um artista original que ela ia descobrir para dar a nota de sensação da noitada. E muitos escritores consentiam, prazerosamente, em repetir ali as conferências que haviam pronunciado por um vasto auditório a 2$500 (dois mil e quinhentos réis) a cabeça.
Que se conversava, de preferência, em tais ambientes? Antes de tudo, as novidades parisienses, depois o último romance de Anatole France, o fracasso do Chantecler, de Rostand, a peça mais recente de Bataille, etc.
As temporadas francesas tinham grande repercussão nos salões. E quando André Brulé apareceu pela primeira vez no palco do Municipal, encarnando com a mesma desenvoltura o herói de L’enfant de l’amour e o papel de Arsène Lupin, o gentilhomme cambrioleur, conquistou de chofre a simpatia e o culto do alto mundanismo carioca. Nos salões discutia-se o talhe de suas famosas casacas, a elegância insuperável de seus gestos e a dicção macia com que procurava cinzelar as palavras. Lá esteve Brulé, uma noite, no palacete da sra. Santos Lobo, a ouvir a leitura de Roberto Gomes, Berenice, feita pelo próprio autor, na versão francesa.”
Em: A vida literária no Brasil 1900, Brito Broca, Rio de Janeiro, José Olympio:2005, 5ª edição, pp: 61-62
NOTA: A pedidos de leitores, procurei colocar todos os links sobre escritores, personagens e locais, para facilitar a expansão do conhecimento e dar peso à leitura. Mas é extremamente trabalhoso, para cada nome colocar o link necessário. Vou tentar continuar a prática, mas confesso que meu tempo é escasso. A pesquisa na internet é rápida. Se o leitor estiver realmente interessado, um breve digitar deve trazer a informação necessária. Entendo que a GRANDE maioria dos meus leitores — professores — está no interior do Brasil e muitos não têm o acesso fácil e rápido à internet de que desfruto. Mas nem sempre poderei prover estes links. Minhas desculpas.
Aldemir Martins (Brasil, 1922-2006)
óleo sobre tela, 122 x 103cm
A chegada da família real a Salvador, 1952
Cândido Portinari (Brasil, 1903-1962)
Óleo sobre tela
Pinacoteca da Associação Comercial da Bahia.
“O bergantim real, alcatifado de coxins de veludo, com o seu belo toldo de damasco franjado, atracou debaixo do mais quente ribombo de festa. O povo espremia-se no cais. Milhares de espectadores, com avidez mordente, o coração aos saltos, contemplavam, fascinados, a embarcação garrida. Tudo queria “ver o rei”. O Conde dos Arcos, que então governava o Brasil, correu a abrir a portinhola: e do bergantim, muito ataviada de garridices, desceu lustrosamente a família real. Era D. João VI em grande gala. Era D. Carlota Joaquina, com seu fuzilante diadema de predarias. D. Pedro, o herdeiro do trono, principezinho de nove anos, muito vivo, os cabelos crespos e negros, saltou acompanhado de Frei Antônio de Arrábida, o preceptor. Seguia-o o irmão mais moço, o infante D. Miguel, todo de veludo, calças compridas, o gorro apresilhado por um fúlgido broche de pedras. As princesas vinham enfeitadas com primor. Muito lindas. Vestiam sedas dum azul pálido, enevoadas de arminho, com grandes diamantes nas orelhas e altos trepa-moleques nos cabelos. Viera, também, galhardo e belo, um moço arrogante, muito simpático, olhos romanticamente verdes: era o Senhor D. Pedro Carlos de Bourbon e Bragança, infante da Espanha, sobrinho dos regentes.
No cais, fora armado um altar. D. João e D. Carlota, seguidos pelo príncipe e pelos infantes, ajoelharam-se diante dele. O chantre da Sé tomou da água benta e aspergiu ritualmente os reais hóspedes. Tomou do turíbulo de prata e incensou-os por três vezes. D. João, com fervorosa compungência, caiu então por terra: beijou o Santo Lenho. A corte, prosternando-se, acompanhou-o no beijo tradicional. Depois, ao longo do cais, formou-se um séquito de honra. Lá ia a bandeira, lá ia a cruz, lá iam os nobres, lá ia o clero, lá ia a gente da terra. No meio das alas, carregado pelo Senado da Câmara, franjado de ouro, rutilando ao sol, um imenso pálio de seda: e, debaixo dele, com os seus atavios carnavalescamente vistosos, a deslumbrar a colônia, toda a família real.”
Em: As maluquices do Imperador, Paulo Setúbal, São Paulo, Clube do Livro: 1947, pp: 14-15.
Moacyr Alves (Brasil, 1904- 1982)
óleo sobre tela, 115 x 147 cm
“Nunca usava decotes como os das mulheres das Minas, vestia quase sempre saia e casaco pretos. Ás vezes aparecia com pintura e cabeleira, como os sodomas do palácio do governador. Costuma ser distraída e gostava de apreciar o horizonte. Falava com estranhos. Entrava nas igrejas, rezava ajoelhada. Andava com o nariz para o alto e olhava as pessoas nos olhos. Despertava vontade de fornicar, pois tinha carnes; mais dava medo. Às vezes a fidalga ficava olhando um livro de capa preta, que Lourenço não sabia dizer o que era, mas talvez fosse um missal.
Frei Francisco interessou-se especialmente por esta última informação, que poderia esclarecer de vez o caráter de dona Mariana. Muitas pessoas se interessavam pelos livros de poesias e ensaios, abandonando as leituras de obras religiosas; não para adquirirem sabedoria filosófica, mas para se desavergonharem. Buscavam na Arte de amar apenas os trechos obscenos. Ovídio ensinava às esposas como enganar seus maridos em celas alugadas; suas mulheres ostentavam infidelidade e os homens uma complacência cornuda. A obra de Ovídio reduzia uma grande civilização a um galinheiro. A maioria dos livros continha um amontoado de sujeiras, arrotos de desbraguilhamentos. Os poetas costumam ser uma gente de natureza maliciosa. Descreviam príncipes em atividades obscenas nos alcouces, nobres em atitudes indignas nas camas, alcoviteiras ensinando moças a tornarem seus amantes generosos, velhos seduzindo meninas, exoterismo mundano, cumplicidade de salão; cantava-se gente da sarjeta em versos langorosos, padres eram difamados. Filósofos ensinavam como apanhar adolescentes no circo. Imperadores invadiam cidades vestidos como mulheres e deleitavam-se com escravos. O que achavam as pessoas, por acaso, que os poetas escreviam sobre as tendas esfumaçadas de César? Discussões sobre táticas de guerra? Meditações? Preferiam descrever vasos de vinho, coroas de pâmpanos, lascívia as bailarinas orientais e homens deitados na mesma cama.”
O retrato do rei, ANA MIRANDA, São Paulo, Cia das Letras:1991,páginas 87-88