Aleijadinho no Museu do Forte de Copacabana

1 06 2009

aleijadinho banner

 

       Felizmente consegui um tempinho para dar uma passada pela exposição de trabalhos de Aleijadinho no Museu do Forte de Copacabana: uma exposição muito melhor do que eu esperava, e por isso corro a sugerir a quem possa ir, que o faça.   A exposição inclui diversas obras pequenas de Antônio Francisco Lisboa,  mas verdadeiras obras-primas.  Um exemplo entre muitos é a imagem de São Francisco de Gusmão, que reproduzo abaixo.

 

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Foto do catálogo da exposição: São Domingos de Gusmão.

 

São Domingos de Gusmão, 1781-1790

Antônio Francisco Lisboa (Brasil, 1730-1814)

Madeira policromada, 17 cm de altura

 

Talvez porque algumas das peças estejam em condições de inusitada conservação, como a peça acima, guardando ainda toda a beleza da pintura e da ornamentação a ouro,  esta exposição  brinca com a nossa imaginação e prima por trazer mais do que as obras do nosso grande escultor, mas a sensação de uma época inteira, mostrando a importância da religiosidade no Brasil setecentista. 

Ao som de música religiosa numa tonalidade bastante atraente ( alta o suficiente para ser apreciada, baixa o suficiente para não atrapalhar), a exposição começa numa sala do primeiro andar com diversas pinturas de mestres do Barroco brasileiro assim como santos, um antar, bancos de capela, e mais…

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 Aspecto da sala no primeiro andar, antes da exposição propriamente dita.

Depois de uma pequena caminhada, onde podemos apreciar a beleza do cenário carioca, olhando-se do Forte para a praia de Copacabana, chegamos ao segundo andar.  Aí sim, a totalidade da força do trabalho de Antônio Francisco Lisboa, nos invade.   Cada peça extremamente bem iluminada e ao alcance de até mesmo dos mais míopes olhos, tem seu lugar de destaque.  A grande maioria é de pequenos santos, pertencendo a altares particulares,  onde o drapeado dos mantos, o encaracolado dos cabelos, a posição dos pés pode ser facilmente apreciada.  Não são obras monumentais, assim podemos estabelecer um relacionamento íntimo com cada qual.    

 

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Santa Bárbara, 1791-1812

Antônio Francisco Lisboa (Brasil,  1730-1814)

Cedro, sem policromia, 68 cm de altura.

 

A exposição é completada por reproduções de documentos do Arquivo Público Mineiro, onde podemos ver a assinatura do mestre escultor;  com anedotas da vida diária e algumas interessantes comparações entre ele e Michelangelo; documentos, um belíssimo catálogo com um preço mais do que amigo. 

Em suma, perderá um boa oportunidade para se enriquecer, quem por qualquer motivo faltar à esta exposição.  Vá!  Não perca!

Serviço:

Museu Histórico do Exército e Forte de Copacabana 

 Av Atlântica,  Posto 6,

 Copacabana Rio de Janeiro-RJ Brasil CEP 22070-020

Tel: +55 21 2521-1032

Exposição: “O Aleijadinho e a Religiosidade Brasileira” — até 14 de junho de 2009.

Curador: José Marcelo Galvão de Souza Lima

Quando: 15/05 a 14/06/09 (terça a domingo)

Horário: 10 às 20h

Entrada

Ingressos: R$ 10,00 (inteira) e R$ 5,00 (meia)

– Meia entrada: estudantes com carteira e maiores de 60 anos;

– Isentos: maiores de 65 anos, crianças até 10 anos, portadores de necessidades especiais e grupos escolares agendados.





O Jardim Botânico em 1904, foto

29 05 2009

Jardim Botânico do Rio de Janeiro, 1904, Revista Kosmos - 2

Jardim Botânico, 1904.  Revista KÓSMOS, Ano I, número 4.  Sem autoria.





A leitura como solução para os problemas nas escolas

27 05 2009

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Menino lendo, ilustração Avelino Guedes.

 Há uma semana mais ou menos, o Ministério da Educação deu mostras de tentar valorizar a leitura no ensino médio, depois das grandes mudanças propostas que deverão ser implementadas ainda neste governo.  Para manter a boa vontade e não duvidar da seriedade do programa eu gostaria de poder evitar dizer que os especialistas do Ministério da Educação parecem estar anunciando que descobriram a pólvora quando se pronunciam como a Sra. Maria Eveline Villar Queiroz, coordenadora geral do ensino médio no ministério, desta maneira: “A leitura dá autonomia no aprendizado, na escola, na universidade e no mundo do trabalho”.  Mas, é verdade.  Sinto um cheirinho de pólvora no ar.  Todos nós que conhecemos o valor da educação, já havíamos cansado de anunciar esta solução.  No entanto o óbvio volta a ser desfraldado como uma nova descoberta…  Mas, vou deixar a crítica de lado, cruzar os meus dedos, bater na madeira,  e mandar vibrações positivas para que, de fato, este programa seja levado a sério.  De acordo com Maria Eveline, colocar a leitura no centro do currículo tem o objetivo de preparar o cidadão para a vida.  

 Infelizmente, acho que estamos esperando mais do que poderá ser feito.  Há um toque de grandiosidade, uma nesguinha megalomaníaca governamental.  Porque o programa não vem sozinho.   Ele será também responsável por solucionar outros problemas que afligem os nossos adolescentes: do abandono escolar à gravidez de adolescentes.   E quando a gente começa a esperar muita coisa de uma solução facílima e óbvia, é  porque todas as nossas idéias já se esgotaram e sabemos que há muito mais a ser corrigido do que o aparente.  Em suma: temos um cobertor curto para muito frio.  

 O  programa também quer oferecer uma escola mais atrativa para o aluno e, assim, reduzir os índices de abandono.  Entre as inovações que o MEC sugere estão a ampliação da carga horária dos três anos do ensino médio para três mil horas (hoje são 2.400 horas); a leitura como elemento central e básico em todas as disciplinas; estudo da teoria aplicada à prática; fomento às atividades culturais; professor com dedicação exclusiva.

 

 

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Nestor e Zé Carioca, ilustração Walt Disney.

 Espero que todos envolvidos nesse trabalho tenham tido um curso de noções básicas de contabilidade para que saibam direitinho de onde estará vindo o dinheiro para tanto.  Espero que tenham feito uma correção nos salários dos professores, pois são muito mal pagos e para exigir dedicação exclusiva o MEC terá que mudar a escala salarial de maneira substantiva.  Mais professores serão necessários para uma nova carga horária de âmbito nacional, assim como os gastos extras com livros, merenda escolar e tudo o  mais que estes programas irão necessitar.  Longe de mim, torcer contra.  Esse não é o caso.  Mas recentemente um jornal local, mostrou fotos de escolas no interior de estados diversos, do nordeste ao norte, centro-oeste e outras regiões com escolas abandonadas e salas de aula cheias de goteiras por falta de verbas e de manutenção.   Que esse não seja o futuro desse programa. 

 Tenho sempre um pé atrás com programas federais que surgem como soluções miraculosas dezoito meses antes das eleições para um novo governo.  Quem acredita, como eu, que a educação é a única coisa que irá nos salvar de um futuro de servidão à China e à Índia, tem esperanças de que pelo menos AGORA o governo esteja sério.  Mas esperanças são sopros vazios principalmente quando baseadas em promessas eleitorais, e tudo indica, no momento, que estamos num processo de sedução: a oferta de um futuro brilhante pelo menos até as próximas eleições. 

 Comentários sobre um artigo do portal UOL.





Pernambuco, Mato Grosso, Espanha: um giro pela Idade Média

25 05 2009

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Artesanato pernambucano, foto: Silnei Laise, Flickr.

 

Em 1986 passei férias em Pernambuco.  Queria mostrar a meu marido, estrangeiro, o Brasil.  Ele já conhecia bem — das viagens anuais que fazíamos ao Rio de Janeiro para visitar a minha família —  alguma coisa do estado do Rio de Janeiro e de São Paulo.  Era hora de apresentá-lo a outras variações da cultura brasileira, com a qual ele havia caído de amores.  Nesta peregrinação acabamos numa quarta-feira, na Feira de Caruaru.  Não sou uma pessoa dada a saudosismos, e quando digo que a feira hoje está diferente do que era então, e já na época muita gente me dizia que “já não era lá essas coisas”, é simplesmente uma afirmação como testemunha.   Mas para nós, naquele ano, a Feira de Caruaru foi uma experiência sem igual.  Como qualquer turista e quase todos os brasileiros radicados fora do Brasil, enchi minhas malas com saudades:  uma banda de pífaros, um jogo de xadrez, um presépio, um grupo de retirantes, e  peças solteiras de cerâmica colorida artesanal.  Para acompanhá-las compramos também dezenas de livretos de cordel — cuja história expliquei cuidadosamente para meu marido — e muitas, muitas mesmo, xilogravuras de J Borges, João Marcelo, Otávio e outros.  

 

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A literatura de cordel conquistou instantaneamente meu cara-metade.  Professor de literatura, ele simplesmente adorou a história toda, dos versos ao dependurar dos livretos nas cordas para secar.  Mas de toda a sua experiência em Caruaru e em Recife, foi sua maneira de sentir o local, o inusitado dos coloridos e dos feirantes, o que mais me surpreendeu, quando o ouvi recontar várias vezes suas aventuras pernambucanas a amigos e colegas de trabalho.  Ele dizia assim: Passei estas férias em Pernambuco. Com esta viagem, hoje posso imaginar como eram as feiras medievais.   Como eram coloridas!  Lá em Caruaru tem de tudo: artistas, livretos, venda de pimentas, de ervas, de produtos de couro, remédios contra veneno de cobra e ungüentos diversos para curar qualquer coisa.  Há saltimbancos, pedintes, equilibristas, contadores de histórias que passam o chapéu.  Cantores de improviso [repentistas] e música por todo lado.  Há muitas representações religiosas e referências constantes ao diabo, ao céu, ao inferno, até ao purgatório!  Enfim, é um mundo quase Felliniano [referência a Federico Fellini o cineasta].  Um mundo de sonhos.”

 

Nunca mais precisei explicar para ele certos hábitos brasileiros, certos problemas: coronéis, capangas, homens de confiança, milícias, posse de terra, analfabetismo, caixeiros viajantes, tropeiros, corrida de jegues e por aí afora.  A imagem da época medieval era ressuscitada e tudo entrava nos eixos.  Para ele foi uma maneira de entender o Brasil, pelo menos enquanto morávamos fora.

 

Adrien Taunay, Vista de Guimarães, 1827, aquarela negra, 33 x 29cm Academia de Ciencias de S Peterburgo, Russia

Vista de Guimarães, 1827

Adrien Taunay

Aquarela monocromática, grisaille.

33 x 29 cm

Academia de Ciências de São Petersburgo

Rússia

 

Lembrei-me deste assunto hoje, porque li à tarde o relato de Hercules Florence, desenhista da expedição chefiada pelo Barão de Langsdorff , sobre a viagem que fez do rio Tietê ao rio Amazonas em 1827.   Trechos de seu texto, com tradução do Visconde de Taunay, foram publicados em As Selvas e o Pantanal: Goiás e Mato Grosso, organizado  por Diaulas Riedel, São Paulo, Cultrix: 1959, na série: Histórias e paisagens do Brasil.  Uma passagem específica me fez parar a leitura e pensar.  Ela relata a visita que a expedição fez a um engenho de açúcar na região da chapada de Guimarães, na, então, província de Mato Grosso.  Quedaram-se no engenho de Domingos José de Azevedo.

 

“Viúvo, tem filhos e filhas, mas com nenhum deles mora.  Vive só com seus escravo em número de trinta, empregados na cultura da cana.  

 

Durante a ceia tornou-se mais comunicativo; contou-nos as canseiras que tivera para fundar o sítio e ganhar algum dinheiro; queixou-se do filho e explicou o modo por que governava sua casa.

 

Depois da comida fomos assistir à ladainha que se reza no alpendre ou sala de entrada, onde para isso se reúnem todos os escravos.  A primeira oração é cantada e começa com estas palavras: Triste coisa é nascer.  Julgo que essa maneira singular de louvar a Deus é composição de nosso anfitrião.  

 

Acabada a reza, mandou por camas sob esse alpendre e deu-nos boas-noites.

 

No dia seguinte disse-nos ao almoço que costumava contar os grãos de café para não ser roubado pelos escravos.

 

Falou-nos na mulher, e ao nos levantarmos da mesa, levou-nos aos seus aposentos, que eram dois quartinhos.  No fundo suspendeu do soalho um alçapão e mostrou-nos uma salinha colocada no primeiro pavimento, escura, úmida e  com uma única janela de grades que dava para o engenho de cana.  “ Aqui em baixo, disse-nos ele, é que eu guardava a mulher, quando tinha que sair de casa.  Ela descia por uma escadinha que eu recolhia, e recebia alimentos pela janela do engenho.

 

Antes de me lembrar de Caruaru, lembrei-me de  A Catedral do Mar, um livro que li há uns dois anos, do escritor espanhol Ildefonso Falcones, lançado no Brasil pela Editora Rocco.  Este é um livro sensacional (depois colocarei aqui algumas notas que fiz sobre sua leitura, em 2007).  Neste livro  seguimos a vida de Arnau Estanyol um homem que nasceu servo e acabou barão na Barcelona do século XIV.  Simultaneamente  acompanhamos a construção da catedral Santa Maria del Mar, na mesma cidade.   Isso mesmo, na idade média.  Nesta narrativa há uma mulher que é presa na propriedade do senhor feudal, e passa a vida num cubículo semelhante ao descrito por Hercules Florence no engenho mato-grossence.  Uma das cenas mais pungentes, que muito me marcou, foi ler como seu filho precisava ficar do lado de fora da casa em que sua mãe se encontrava presa,  chegar próximo à janela com grades,  para  que ela — que mal conseguia alcançá-lo – lhe fizesse um carinho no topo da cabeça, mexendo no seu cabelo de menino.  Em suma, um cafuné era o maior contato a que esta mãe e seu filho tinham o direito.

 

Esta cena voltou vívida à minha memória.  Mas, pensei, isso era na idade média!  E o que Hercules Florence relatou o que viu no Brasil de 150 anos atrás!  E assim, voltei a me lembrar da sensação de ter conhecido a idade média, em pessoa, de conhecê-la por dentro, intimamente, por razões semelhantes as que meu marido sentira  a respeito de sua visita a  Caruaru em 1986.

 

Trajes paulista 1825, aquarela e nanquim, 22 x 18 cm, acad ciencias são petersburgo, russia

Trajes Paulistas, 1825

Adrien Taunay

Aquarela e nanquim

22 x 18 cm

Academia de Ciências de São Petersburgo

Rússia

 

Ao que eu saiba, não temos, ainda, aqui no Brasil, uma visão detalhada e específica do tratamento absurdo que mulheres receberam de seus maridos nos quatro séculos que história que precedem a nossa era.  Mas sabemos que passaram enclausuradas, muitas vezes cobertas da cabeça aos pés, não raro com véus à maneira muçulmana, quase sempre limitadas pelo analfabetismo.  Na nossa literatura contemporânea há alguns autores que parecem ter o cuidado de relatar esta condição:  Ana Miranda e Luiz Antonio de Assis Brasil vêm à mente no momento, mas há outros.  No entanto, é importante que nos lembremos, homens e mulheres, do que já aconteceu, das injustiças cometidas contra mulheres.  Precisamos acabar com qualquer vestígio desses hábitos deploráveis,  para chegarmos com boa consciência ao estado desenvolvido a que aspiramos.  Ainda há muito que fazer para deixarmos de lado de uma vez por todas resquícios da percepção da mulher como propriedade.  

 

——

NOTA sobre Domingos José de Azevedo:

A casa do engenho de Domingos José de Azevedo, que parecia tão modesta com apenas 2 quartinhos, era só lá  “no mato”.   Este senhor de engenho mantinha, como a maioria deles, uma outra casa, na capital da província, esta sim, mostrando para o mundo todos os seus bens, todo o seu valor!  Langsdorff em seu próprio relato comenta sobre a visita, descrita acima por Hercules Florence, em que foi recebido pelo senhor de engenho Domingos José de Azevedo, um dos homens mais ricos da região.  [Poder e cotidiano na capitania de Mato Grosso: uma visita aos senhores de engenho no lugar de Guimarães 1751-1818, Maria Amélia Assis Alves Crivelente, Revista demográfica Histórica XXI, II, 2003, segunda época, PP. 129-152].





Réplica do maior dinossauro carnívoro do país em exposição!

16 05 2009
,Angaturama limai. [Réplica], Foto: Fábio Motta/AE

Réplica, Angaturama limai. Fot0, Fábio Motta/AE

 

O Museu Nacional, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, inaugura na sexta-feira, 15, a exposição permanente Dinossauros no Sertão, com réplicas e fósseis originais encontrados na região do Araripe, no Ceará. O destaque é a maior reconstrução de um dinossauro carnívoro já montado no País: o Angaturama limai. A réplica tem cerca de seis metros de comprimento e foi montada a partir da pélvis e fragmentos ósseos das mãos, fêmur e vértebras. O dinossauro viveu há cerca de 110 milhões de anos, no período Cretáceo Superior, pesava cerca de meia tonelada e se alimentava principalmente de peixes e animais marinhos.

 

Descrevi o Angaturama pela primeira vez na década de 80, a partir de um crânio, mas não havia fragmentos suficientes para montarmos uma réplica”, explicou o paleontólogo Alexander Kellner, curador da exposição. Ele orienta a dissertação da mestranda da UFRJ Elaine Machado, que descreverá os fósseis que estão expostos.  

Segundo Kellner, a ideia da exposição é mostrar dois ecossistemas que existiram em períodos diferentes, numa mesma região. A Chapada do Araripe é um planalto de 160 quilômetros de extensão entre Ceará, Pernambuco e Piauí.

 

Angarutama limai ( Theropoda), Chapada do Araripe, CE.

Angarutama limai ( Theropoda), Chapada do Araripe, CE.

 

Um dos ecossistemas reconstituídos é o de um grande lago de água doce, que teria existido há 115 milhões de anos. Dessa época, estão expostos fósseis de insetos, escorpiões, plantas, pererecas e a réplica do pterossauro Tupandactylus imperator.

 

O outro cenário, onde está montado o Angaturama, retrata o período de 110 milhões de anos, quando havia uma laguna de água salgada na região. “Quisemos retratar um pouco das mudanças que ocorrem na Terra. Nessa época a América do Sul estava se afastando da África e o mar invadiu o continente”, explica Kellner. Nos dias de hoje o Araripe, que é um dos maiores sítios fossilíferos do País, é uma região de sertão. A mostra tem patrocínio da Faperj e do CNPQ.

 

A reconstrução do Angaturama limai representa um grande avanço no estudo desse grupo de dinossauros, os chamados Espinossaurídeos, que viveram há 110 milhões de anos, durante o Cretáceo, e que se caracterizam pelo focinho comprido, uma vela nas costas e uma dentição particular semelhante a dos crocodilos atuais. A réplica, em tamanho real, foi feita a partir de restos fósseis do crânio, perna, coluna cervical, mãos e, principalmente, da pélvis, que impressiona pelo ótimo estado de conservação. Todo esse material também faz parte da mostra.

 

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Angarutama

 

O Museu Nacional/UFRJ é pioneiro no país na reconstituição de dinossauros. Foi lá que, em 1999, paleontólogos apresentaram a primeira réplica de um esqueleto de dinossauro, o Staurikosaurus pricei, que viveu há 225 milhões de anos. De lá pra cá, o público que visita o Paço de São Cristóvão, na zona norte do Rio, já pôde observar a ossada de um Santanaraptor (2000) e, em 2006, se impressionou com o gigante brasileiro Maxakalisaurus topai, de 13 metros de comprimento.

 

Serviço: Exposição: “Dinossauros no Sertão”

Aberta ao público a partir do dia 15 de maio

Horário: de terça a domingo, das 10 às 16h.

Entrada: R$ 3,00. Grátis para crianças até 5 anos e pessoas acima de 60. Crianças entre 06 e 10 anos pagam 01 real.

Local: Museu Nacional – Quinta da Boa Vista, s/n, São Cristóvão.

Tel. (21) 2562-6042

 

TEXTO: Fabiana Cimieri

FONTE: O Estado de São Paulo





5 livros do Romantismo II: O Guarani

15 05 2009

peri e ceci, ilustração de Santa Rosa, O Guarani, RJ, José Olympio,1955Peri e Ceci, ilustração de Santa Rosa, O Guarani, Rio de Janeiro, José Olympio: 1955.

 

Como postei no dia 3 de maio estou elaborando algumas notas sobres as excelentes informações do Professor Vanderlei Vicente  sobre os 5 livros do romantismo necessários para o vestibular, publicado no Portal Terra.  Meu objetivo é ajudar aqueles que precisam destas leituras: não só a entenderem  um pouquinho mais do romantismo no Brasil, mas conseguirem se lembrar de alguns detalhes das obras mencionadas. O artigo original estará sempre em itálico azul. 

 

O Guarani (1857), de José de Alencar – “Este é o primeiro romance de temática indianista publicado pelo autor, que estabelece uma visão idealizada sobre a formação do povo brasileiro através do índio Peri e da portuguesa Cecília. A idealização do indígena fica evidente nas ações de Peri, que, em certo momento da obra, chega a oferecer-se para o sacrifício para salvar sua amada Ceci. No final do romance, a permanência de Ceci com Peri na selva dá um caráter fundador ao texto”.

O guarani, 1a edição, 1857

O romance O Guarani foi o segundo romance publicado por José de Alencar.  Foi originalmente publicado em capítulos, em folhetim para o Diário do Rio de Janeiro entre 1º de janeiro e 20 de abril de 1857.    Em geral esses romances publicados em folhetins  eram traduções de romances de origem inglesa, como as histórias medievais de Walter Scott, ou edições francesas, como as aventuras dos Três Mosqueteiros, de Alexandre Dumas.  Foi com essas publicações em capítulos, que a partir de 1830, um maior número de brasileiros começou a se familiarizar com o mundo da literatura de ficção, em veredas diferentes daquelas já exploradas pelos portugueses.   Assim, brasileiros acompanharam as aventuras de Ivanhoé ou de D’Artagnan e foram apresentados ao romance histórico, ou seja ao romance que detalhava as aventuras de  seus heróis em eras do passado.

Qual não foi a alegria dos leitores dos diários brasileiros de descobrirem que havia um autor brasileiro, muito bom, que também se dedicava à escrita do romance histórico!   E ainda, um romance histórico brasileiro!  Graças à imaginação de José de Alencar e também à sua indiscutível habilidade narrativa, O Guarani em capítulos, proporcionou aos brasileiros, pela a primeira vez, um passatempo em que, como um todo, a sociedade teve a oportunidade de pensar, fantasiar, considerar e discutir sobre a vida no Brasil de 300 anos antes; a vida dos colonizadores portugueses vivendo em 1604.  A revolução cultural deste evento foi enorme.    

 

jose de alencar

José de Alencar, autor de O Guarani.

 

José de Alencar não foi o primeiro escritor brasileiro a publicar seus romances em folhetins.  Três outros autores já o haviam precedido: Teixeira e Sousa, 1843 com  O Filho do Pescador; Joaquim Manuel de Macedo,  com A Moreninha, o primeiro romance nacional, e Manuel Antônio de Almeida que aos 22 anos, publica o seu As suas Memórias de um Sargento de Milícias um livro de aventuras cômicas da vida no Rio de Janeiro no tempo de D. João.  

Em O Guarani, um romance com 54 capítulos divididos em 4 partes: Os Aventureiros, Peri, Os Aimorés e A Catástrofe; leitor é colocado diante de aventuras constantes, que o deixavam em suspense na leitura de um capítulo para o outro, assim mesmo como acontece hoje em dia nas novelas televisivas.   Um romance histórico indianista, que se desenrola na época em que o Brasil estava sob o domínio espanhol [1604], compreende a conquista do sertão brasileiro,  o  confronto de raças e de culturas [européia e indígena],  a imposição do cristianismo,  a assimilação do selvagem na cultura dominante e muito especificamente a idealização da natureza.  

 

 

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Cascata do Conde D’Eu, no Rio Paquequer, no estado do Rio de Janeiro, uma das localizações descritas em O Guarani.

 

CAPÍTULO I

 

 

Cenário

 

 

De um dos cabeços da Serra dos Órgãos desliza um fio d’ água que se dirige para o norte e engrossado com os mananciais, que recebe no seu curso de dez léguas, torna-se rio caudal.

 

É o Paquequer: saltando de cascata em cascata, enroscando-se como uma serpente, vai depois se espreguiçar e se enroscar na várzea e embeber no Paraíba, que rola majestosamente em seu vasto leito.

 

Dir-se-ia que vassalo e tributário desse rei das águas, o pequeno rio altivo e sobranceiro contra os rochedos, curva-se humildemente aos pés do suserano.  Perde então a beleza selvática; suas ondas são calmas e serenas como as de um lago, e não se revoltam contra os barcos e canos que resvalam sobre elas: escravo submisso, sofre o látego do senhor.

 

Não neste lugar que ele deve ser visto; sim três ou quatro léguas acima de sua foz, onde é livre ainda, como filho indômito desta pátria da liberdade.

 

Aí, o Paquequer lança-se rápido sobre o seu leito, e atravessa as florestas como o tapir, espumando, deixando o pelo esparso pelas pontas de rochedo e enchendo a solidão com o estampido de sua carreira.  De repente, falta-lhe o espaço, foge-lhe a terra; o soberbo rio recua um momento para concentrar suas forças e precipita-se de um só arremesso, somo um tigre sobre a presa.

 

Depois, fatigado do esforço supremo, se estende sobre a terra, e adormece numa linda bacia que a natureza formou, e onde o recebe como em um leito de noiva, sob as cortinas de trepadeiras e flores agrestes.  

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Este Rio Paquequer, existe?

O Rio Paquequer nasce no Parque Nacional da Serra dos Órgãos, no estado do Rio de Janeiro e sua bacia cobre uma área aproximada de 290 Km2.  A Cascata do Conde D’ Eu, descrita nas páginas de O Guarani, é a mais alta queda d’ água do estado.  O peso do enorme volume de água em queda livre formou, ao longo dos séculos, uma garganta na parte inferior — um poço com 30 metros de diâmetro — de águas limpas, transparentes e de temperatura fria.  Essa queda d’ água está permanentemente envolvida numa nuvem de partículas de água, que a tornam ainda mais sedutora, que alcançam a altura de 150 m.  É uma das grandes belezas naturais do  estado do Rio de Janeiro. 

 

José de Alencar, estátua, foto de andrepcgeo, Flickr

Estátua de José de Alencar, na Praça José de Alencar no Flamengo, RJ.

 

Qual era a opinião de Machado de Assis sobre José de Alencar?

Machado de Assis teve diversas oportunidades de mostrar sua admiração pelo autor de O Guarani.  Recorto aqui um trecho de suas palavras:

 

No romance que foi a sua forma por excelência, a primeira narrativa, curta e simples, mal se espaçou da segunda e da terceira.  Em três saltos estava O Guarani  diante de nós, e daí  veio a sucessão crescente de força, de esplendor, de variedade.  O espírito de Alencar percorreu as diversas partes de nossa terra, o norte e o sul, a cidade e o sertão, a mata e o pampa, fixando-as em suas páginas, compondo assim com as diferenças da vida, das zonas e dos tempos a unidade nacional da sua obra.

 

Nenhum escritor teve em mais alto grau a alma brasileira. E não é só porque houvesse tratado assuntos nossos.  Há um modo de ver e sentir, que dá a nota íntima da nacionalidade, independente da face externa das coisas.  O mais francês dos trágicos franceses é Racine, que só fez falar a antigos.  Schiller é sempre alemão, quando recompões Felipe II e Joana D’ Arc.  O nosso Alencar juntava a esse dom a natureza dos assuntos tirados da vida ambiente e da história local.  Outros o fizeram também, mas a expressão do seu gênio era mais vigorosa, e mais íntima.  A imaginação que sobrepujava nele o espírito de análise, dava a tudo o calor dos trópicos e as galas viçosas de nossa terra. O talento descritivo, a riqueza, o mimo e a originalidade do estilo completavam a sua fisionomia literária.  

 

Machado de Assis, Discurso proferido na cerimônia do lançamento da primeira pedra da estátua de José de Alencar.  

 

A terra com suas belezas não é o único ponto de idealização no romance de Alencar.  Peri, nosso herói, cujo nome em guarani significa junco silvestre, era da tribo dos índios goitacazeses, honrados nos dias de hoje pelo nome da cidade fluminense: Campos dos Goytacazes.  Peri luta contra os aimorés, contra o homem branco e até contra os elementos naturais,  para agradar e salvar sua Cecília, filha de um nobre português.

 

 

Quem eram os Goitacazes?

 

Os Goitacazes foram um grupo indígena, hoje extinto, que habitava no século XVI a região costeira entre o rio São Mateus, no Espírito Santo e a foz do rio Paraíba, no Rio de Janeiro.   “Goitacaz quer dizer corredor, nadador ou caranguejo grande comedor de gentes.  Fisicamente possuíam pele mais clara, eram mais altos e robustos que os demais índios do litoral. Considerados muito perigosos entre outras características, por sua extraordinária força.

 

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Índio Goytacaz, ilustração no livro Capitães do Brasil, de Eduardo Bueno, Rio de Janeiro, Objetiva:2006, 2a edição.

 

Há 3 contemporâneos das aventuras de Peri e Ceci, cujas descrições dos índios goitacazes mostram como eram violentos.   E como deveriam ter sido inimigos de grande periculosidade.  Aqui estão essas passagens, encontradas no livro de Eduardo Bueno:

De acordo com o relato de frei Vicente do Salvador (1564-1639), os Goitacá mais pareciam ” homens anfíbios do que terrestres”, que nenhum branco era capaz de capturar, pois “ao se verem acossados, metem-se dentro das lagoas, onde ninguém os alcança, seja a pé, de barco ou a cavalo. ”  Ainda conforme frei Vicente, os Goitacá eram capazes de capturar peixes ” a braço, mesmo que sejam tubarões, para os quais levam um pau que lhes metem na boca aberta, que não a pode cerrar com o pau, com a outra mão lhe tiram por ela as entranhas, e com elas a vida, e o levam para terra, não tanto para os comerem, como para dos dentes fazerem as pontas de suas flechas, que são peçonhentas e mortíferas”.

Se não comiam tubarões, os Goitacá eram, segundo o francês Jean de Léry (1534-1611),  “grandes apreciadores da carne humana que comem por mantimento e não por vingança  ou pela antiguidade de seus ódios”.  Para Léry, a tribo deveria ser considerada a mais bárbara, cruel e indomável da Nações do Novo Mundo: selvagens estranhos e ferozes, que não só não conseguem viver em paz entre si como mantêm guerra permanente contra seus vizinhos e contra estrangeiros.

Embora rival de Léry, o cosmógrafo André Thevet ( 1502-1592) confirma o relato de seu desafeto.  Thevet afirmou que, após capturar um inimigo, os Goitacá “imediatamente trucidam e o comem seus pedaços quase crus, como fazem com outras carnes”.

Em: Capitães do Brasil, Eduardo Bueno, Rio de Janeiro, Objetiva:2006, páginas 106 e 107.

O Guarani, a ópera

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Cartaz para a apresentação da ópera do compositor brasileiro Carlos Gomes, inspirada pelo romance do mesmo nome do escritor José de Alencar.

Quem já ouviu a introdução musical do programa de rádio, nacional, A Voz do Brasil, conhece também os primeiros acordes da introdução da  ópera em 4 atos, O Guarani de Carlos Gomes, que estreou em 19/3/1870 no teatro Scala de Milão, Itália, fazendo um grandioso sucesso.

A obra O Guarani de José de Alencar está em domínio público, para obter o texto original, clique AQUI.





Preconceito, poema de Luiz Peixoto

13 05 2009

Fernando P, Mulata Sentada, ost, 24 x 20 cmMulata Sentada, s/d

Fernando P. ( Brasil 1917)

Óleo sobre tela 20 x 24 cm

Preconceito

Luiz Peixoto

A crioula saiu de baiana,

com um  xale bonito.

Parecia

um São Benedito

que tem na Bahia,

que sai num andor.

Quis entrar numa buate da Lapa

pra dançar um samba

que tem  na Bahia,

mas botaram a negra na rua,

que aquilo não era pra gente de cor.

Ela, humilde, baixou a cabeça

chorando, chorando que nem a mãe preta

no dia em que veio lá de Luanda

num barco veleiro

pra São Salvador.

 

Em: Poesia de Luiz Peixoto, Rio de Janeiro, Editora Brasil-América:1964, p.11

Luiz Carlos Peixoto de Castro, ( Niterói, RJ 2/2/1889 – RJ, RJ 14/11/ 1973). Foi poeta, letrista, cenógrafo, teatrólogo, diretor de teatro, pintor, caricaturista e escultor.

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Fernando Clóvis Pereira nasceu a 5 de outubro de 1917 em  São Luís,  MA – Estudou na Escola de Aprendizes Artífices, mais tarde escola técnica.  Por volta de 1939 mudou-se para o Rio de Janeiro, onde foi aluno e ajudante de Santa Rosa (1909-1956).  Nos anos de 1953-54 estudou em Paris graças ao prêmio de viagem ao exterior recebido no Salão Nacional de Arte Moderna. Na França, estudou na Academia André Lhote, fez o curso livre de gravura na Academia Julien e completou seus estudos com o estudo de  mosaico na Academia Gino Severino.





Aniversário da Lei Áurea, todos devemos celebrar!

13 05 2009

princesa IsabelPrincesa Isabel D’ Orléans e Bragança assinava hoje, há 121 anos a Lei Áurea.

 

LEI ÁUREA

Lei nº 3.353, de 13 de Maio de 1888.

DECLARA EXTINTA A ESCRAVIDÃO NO BRASIL

A PRINCESA IMPERIAL Regente em Nome de Sua Majestade o Imperador o Senhor D. Pedro II, Faz saber a todos os súditos do IMPÉRIO que a Assembléia Geral decretou e Ela sancionou a Lei seguinte:

Art. 1º – É declarada extinta desde a data desta Lei a escravidão no Brasil.

Art. 2º – Revogam-se as disposições em contrário.

 

Manda portanto a todas as autoridades a quem o conhecimento e execução da referida Lei pertencer, que a cumpram e façam cumprir e guardar tão inteiramente, como nela se contém.

O Secretário de Estado dos Negócios d’Agricultura, Comércio e Obras Públicas e Interino dos Negócios Estrangeiros Bacharel Rodrigo Augusto da Silva do Conselho de Sua Majestade o Imperador, o faça imprimir, publicar e correr.

Dada no Palácio do Rio de Janeiro, em 13 de Maio de 1888 – 67º da Independência e do Império.

Carta de Lei, pela qual Vossa Alteza Imperial manda executar o Decreto da Assembléia Geral, que houve por bem sancionar declarando extinta a escravidão no Brasil, como nela se declara.

 

 

Para Vossa Alteza Imperial ver.

Lei_Aurea





Dia do Trabalho!

1 05 2009

soneca-36

Zé Carioca, Ilustração Walt Disney.

 

ATIVIDADES PARA O DIA DO TRABALHO!





Uma pequena homenagem ao nosso baixo-clero!

27 04 2009

senado-no-imperioO edifício do Senado Brasileiro, ná época do Segundo Império.

 

 

 

 

Inspirada no picadeiro em que se transformou o debate sobre o desmando no uso da coisa pública no Brasil, ou em outras palavras, no uso sem cabimento do dinheiro público dos nossos legisladores, voando pelo mundo às nossas custas,  voltei-me para um texto delicioso de Joaquim Manuel de Macedo (1820-1882), escrito em 1855, sobre a política no império.  Quem ainda não conhece este romancista brasileiro, ou que só o conhece pelas obras românticas que leu na escola como A moreninha, O moço louro, As mulheres de mantilha, e outros tantos títulos; precisa se dar o presente de consultar seus outros escritos.  Joaquim Manuel de Macedo foi um grande escritor, crítico voraz dos hábitos e costumes brasileiros, muito sarcástico mas também muito bem humorado nas suas críticas.  Foi também um poeta, um teatrólogo, um memorialista e um biógrafo.  Acredito que ainda não tenhamos lhe dado o lugar que merece na história do pensamento brasileiro. 

 

A passagem que se segue é de seu romance A carteira de meu tio, onde ele descreve o político brasileiro da época.  O que parece inacreditável: passados 150 anos e com pouquíssimos ajustes suas descrições vestem como uma luva o que presenciamos no Congresso em Brasília.  Então, vamos lá:

 

 

 

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Ora pois, consideremos ao acaso um de tantos: seja aquele figurão que ali vai repotreado em um magnífico e soberbo carro.

 

Era há poucos anos um miserável diabo, que vivia de suas agências, e mais não disse; não  tinha onde cair morto, e portanto ninguém fazia caso dele: mas não há nada como ter juízo!… O maganão atirou-se ao comércio, e foi de um salto ao apogeu da fortuna; eis o caso: primeiro abriu uma casa de secos, e quebrou; meteu-se logo nos molhados, e quebrou outra vez – excelente princípio!  O quebrado ficou inteiro, e os credores com alguns pedaços de menos; depois, dinheiro a juros, três ou quatro por cento ao mês para servir aos amigos; um pouco mais aos indiferentes; duas dúzias de alicantinas  por ano, e o suor alheio nos cofres do espertalhão: uma terça deixada em testamento por um estranho, e arrancada aos malvados parentes do morto; aqui há anos atrás o comércio de carne humana, que era um negócio muito lícito, negócio molhado e seco ao mesmo tempo, porque se arranjava por mar e por terra, terra marique: vai senão quando, no fim de dez ou doze anos, o pobretão aparece milionário.

 

Mudam-se as cenas; dantes ninguém tirava o chapéu ao indigno tratante, olhavam-no todos com desprezo, era um bicho que causava tédio, além de mau, era pobre; mas, ó milagrosa regeneração!  ó infalível poder do ouro! o antigo malandrim já é um homem de gravata lavada! banhou-se no Jordão da riqueza, e ficou limpo e puro de todas as passadas culpas!…

 

E por onde chegou ele ao cume das prosperidades? – pelos desvios: se tivesse vindo pela estrada real, estava na esteira velha.

 

É verdade que o tal bargante, para se enriquecer, fez a desgraça de muita gente:  mas que tem isso?…  não goza ele agora muito sossegadamente a sua imensa riqueza?…

 

Quebrou fraudulentamente, pregou calotes, ofendeu as leis de Deus, e zombou das leis dos homens; ora viva!  Coisas do tempo da nossa avó-torta; águas passadas não movem moinho; dize-me o que tens, que eu te direi o que vales: bravo o nosso figurão!…

 

Todos o festejam, diplomatas conselheiros, senadores, deputados, ministros, enfim, a fidalguia toda da terra!

 

Dizem que é sedutor e libidinoso; histórias da carochinha! Todas as portas se abrem para ele, todas as famílias o recebem em seu seio!

 

Se dá um baile, não há fidalgo que deixe de ir dançar na casa do ex-velhaco; se é solteiro, ainda que seja feio, velho, e tenha fama de mau e de bruto, as mães metem-lhe as filhas pelos olhos adentro.

 

Quando aparece no teatro, os grandes figurões quase que quebram o espinhaço, fazendo-lhes cortesias.

 

Antigamente era um farroupilha, um trapaceiro desprezível; agora é o amigo de cama e mesa do senhor marquês; é o compadre da senhora viscondessa, é o fidus Achates do senhor conselheiro; é o querido, o nhonhô, o não-me-deixes das moças.  O diabo do dinheiro faz até de um mono um cupidinho, e transforma uma azêmola em um rouxinol

 

Dizem que é estúpido: elegem-no deputado, ou votam nele para senador.  E fica sábio!…

 

Tem fama de gatuno: nomeiam-no tesoureiro.  E fica honrado!

 

Acusam-no de todos os sete pecados mortais, e ainda dos quatro que bradam ao céu: fazem-no juiz ou mordomo das dez irmandades!  E fica santo!…

 

Passa enfim a vida regalada, embora alguns nas costas lhe  mordam; tem tudo quanto deseja e aspira: festas, favores e honras, ainda que pela boca-pequena o abocanhem; e para dizer tudo, fica sendo um senhor da terra, como muitos outros senhores da terra.

 

Viva, pois, o dinheiro, que tudo o mais é história!

 

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Em:  A carteira de meu tio, Joaquim Manuel de Macedo, Porto Alegre, LP&M:2001, 50-52.

 

 

 

Joaquim Manuel de Macedo (Itaboraí, 24 de junho de 1820 — Rio de Janeiro, 11 de abril de 1882) foi um médico e escritor brasileiro: romancista, poeta, cronista literário e dramaturgo.

 

Em 1844, Joaquim Manuel de Macedo, formou-se em Medicina no Rio de Janeiro, e no mesmo ano estreou na literatura com a publicação daquele que viria a ser seu romance mais conhecido, “A Moreninha“, que lhe deu fama e fortuna imediatas.

 

Além de médico, Macedo foi jornalista, professor de Geografia e História do Brasil no Colégio Pedro II, e sócio fundador, secretário e orador do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, desde 1845. Em 1849, fundou, juntamente com Gonçalves Dias e Araújo Porto-Alegre, a revista Guanabara, que publicou grande parte do seu poema-romance A nebulosa — considerado por críticos como um dos melhores do Romantismo. Foi membro do Conselho Diretor da Instrução Pública da Corte (1866).

 

Abandonou a medicina e criou uma forte ligação com Dom Pedro II e com a Família Imperial Brasileira, chegando a ser preceptor e professor dos filhos da Princesa Isabel.

 

Macedo também atuou decisivamente na política, tendo militado no Partido Liberal, servindo-o com lealdade e firmeza de princípios, como o provam seus discursos parlamentares, conforme relatos da época. Durante a sua militância política foi deputado provincial (1850, 1853, 1854-59) e deputado geral (1864-1868 e 1873-1881). Nos últimos anos de vida padeceu de problemas mentais, morrendo pouco antes de completar 62 anos.

 

 

Obras:

 

Romances

 

A Moreninha (1844)

O moço loiro (1845)

Os dois amores (1848)

Rosa (1849)

Vicentina (1853)

O forasteiro (1855)

Os romances da semana (1861)

Rio do Quarto (1869)

A luneta mágica (1869)

As Vítimas-algozes (1869)

As mulheres de mantilha (1870-1871).

 

Sátiras políticas

A carteira do meu tio (1855)

Memórias do sobrinho do meu tio (1867-1868)

 

Dramas

 

O cego (1845)

Cobé (1849)

Lusbela (1863)

 

Comédias

 

O fantasma branco (1856)

O primo da Califórnia (1858)

Luxo e vaidade (1860)

A torre em concurso (1863)

Cincinato quebra-louças (1873)

 

Poesia

 

A nebulosa (1857)

 

 

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Joaquim Manuel de Macedo é o patrono da cadeira número 20 da Academia Brasileira de Letras (ABL).