Cochilo Darwiniano: a teoria da evolução em Star Trek

26 09 2010

Nada como um fim de semana chuvoso, um excelente livro de umas 500 páginas – cuja leitura precisa de algumas pausas para não cansar.  E a minha mente vagueia pelo espaço…  Com essa combinação sempre acho a desculpa de “realmente não posso fazer mais nada” para flanar pelos locais mais extravagantes da rede com uma displicência convincente, uma pausa justificada como bem-merecida.   Hoje foi o dia de me perguntar sobre ficção científica e acabar num artigo delicioso na revista MAD SCIENCE, sobre que ficção científica mais se aproxima da realidade intelectual dos cientistas [ Six scientists tell us about the most accurate science fiction in their fields] e mais tarde na mesma revista um artigo também fascinante sobre os mais estranhos conceitos de evolução na ficção cientíca [The most ludicrous depictions of evolution in science fiction history] cujo primeiro parágrafo traduzo livremente, porque me levou a chorar de rir, depois que refleti sobre o assunto.

Há um monte de exemplos em Star Trek, sobre a duvidosa compreensão dos princípios básicos da biologia, da genética e da evolução.  Mas provavelmente o problema mais generalizado se apresenta na explicação de todos os híbridos alienígenas. Há o meio-vulcano: Spock;  a meia-Betazed: Deanna Troi;  a meia-Klingon: B’Elanna Torres … e isso é apenas a partir das principais castas. Quase toda espécie de humanóide alienígena foi capaz de cruzamento, e até mesmo os híbridos puderam se acasalar sem problemas, principalmente quando Worf e o meio-humano/ meio-Klingon K’Ehleyr se tornaram pais do filho Alexander, que era 75% Klingon. Nada disso deveria ser remotamente possível, e no mínimo todos os híbridos deveriam ter sido estéreis.

Claro, tecnicamente tudo isso tem mais a ver com genética do que com evolução.  O problema aparece mais claramente no episódio Da Próxima GeraçãoThe Chase“, que procurou explicar por que todos os diferentes alienígenas pareciam serem praticamente o mesmo (e, por extensão, porque é possível manter o cruzamento com tamanho sucesso). O episódio apresenta uma antiga raça de humanóides que foi extinta bilhões de anos atrás, mas não antes de semearem a galáxia inteira com seu DNA, fazendo com que todas as raças atuais — de seus descendentes– e, portanto, uns primos distantes de outros. Agora, poderia até explicar por que todas as espécies inteligentes são humanóides – embora deva ser salientado que, se os precursores tentavam orientar a evolução da Terra para a criação de uma raça semelhante a eles próprios, a sua intromissão foi incrivelmente sutil. Deveríamos imaginar, para início de conversa, que eles gerenciariam a evolução de tal maneira que não se perdesse tantos milhões de anos com dinossauros dominando do planeta.

Mesmo assim o problema dos híbridos não é resolvido.  A raça precursora explica que eles semearam os oceanos primordiais de mundos onde a vida estava apenas começando a emergir, o que significa que os seres humanos, Klingons, os Vulcanos, e todo o resto deles haviam tido caminhos totalmente separados até então,  já que eram organismos unicelulares. (E, a julgar pela explicação dos precursores, os cientistas só deram mesmo uns petelecos em  alguns genes das foromas nativas do planeta). Isso significaria que os seres humanos seriam muito mais relacionados aos cavalos, lagartos, formigas … e até  mesmo bananas seriam muito mais próximas geneticamente aos seres humanos do que os Vulcanos, e, no entanto, ainda estamos à espera de um meio-humano, banana-meia Sr. Spock.

Para outras considerações sobre a ciência da evolução em outras conhecidas ficções leia o artigo no link abaixo.

FONTE:  MAD SCIENCE





Aos chorões, poema de Augusto Meyer

26 09 2010

Vitórias Régias e chorões em lago, 1916

Claude Monet ( França, 1840-1926)

óleo sobre tela, 160 x 180 cm

Lycée Claude Monet, Paris

Aos Chorões

                        Augusto Meyer

Chorões da praia de Belas

Molhando as folhas no rio.,

sois pescadores de estrelas

ao crepúsculo tardio.

O mais velhinho, já torto

ao peso de tantas mágoas

lembra um pensamento absorto

debruçado sobre as águas.

Salgueiros trêmulos, belos,

meus camaradas tão bons,

diz o poeta, violoncelos

onde o vento acorda os sons.

Sois, à beira da enseada,

um bando de poetas boêmios,

e fitais na água espelhada

vossos companheiros gêmeos…

Mas se alguma brisa agita

a copa descabelada,

ondula, salta, palpita

vossa imagem assustada…

Augusto Meyer Júnior (Porto Alegre,1902 — Rio de Janeiro,1970) Pseudônimo: Guido Leal, Jornalista, ensaísta, poeta, memorialista e folclorista brasileiro. Em 1935 assumiu a direção da Biblioteca Pública de Porto Alegre. Em 1938, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde passou a colaborar em jornais e revistas com poemas e ensaios críticos. Fez parte do Modernismo gaúcho, quando dá à poesia um toque regionalista. Membro da Academia Brasileira de Letras e da Academia Brasileira de Filologia.

Obras:

A Chave e a Máscara,  1964  

A Forma Secreta, 1965  

À Sombra da Estante, 1947  

Camões, o Bruxo e Outros Estudos, 1958  

Cancioneiro Gaúcho, 1952  

Coração Verde, 1926  

Duas Orações, 1928  

Gaúcho, História de uma Palavra, 1957  

Giraluz, 1928  

Guia do Folclore Gaúcho, 1951  

Ilusão Querida, 1923   

Le Bateau Ivre. Análise e Interpretação, 1955  

Literatura e Poesia, 1931  

Machado de Assis, 1935  

No Tempo da Flor, 1966  

Notas Camonianas, 1955  

Poemas de Bilu, 1929  

Poesias (1922-1955), 1957  

Preto e Branco, 1956  

Prosa dos Pagos, 1943  

Segredos da Infância, 1949  

Seleta em Prosa e Verso, 1973  

Sorriso Interior, 1930  

Últimos Poemas, 1955





O aranhol, poema infantil de Menotti del Picchia

20 09 2010

O aranhol

                                Menotti del Picchia

No tear dos juncos aquáticos

à beira do lago de opala

D. Aranha uma artista

abriu sua oficina de modista.

Urde um tecido de gala

rico e decorativo

tendo como motivo

os raios geométricos de uma estrela.

Tela fina com botões de orvalho

que refulgem como pérolas

dependurou-a num galho

para que através do ar diáfano venha vê-la

com sua couraça de ábano e de ouro

o príncipe etíope D. Besouro

seguido por sua corte de libélulas.

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Em: Entardecer, MPM Propaganda, Edição Especial, Natal 1978.

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Paulo Menotti Del Picchia (São Paulo, 1892 — 1988) foi um poeta, escritor e pintor modernista brasileiro. Foi deputado estadual em São Paulo.   Foi também advogado, tabelião, industrial, político entre outras funções assumidas durante sua vida.

Com Oswald de Andrade, Mário de Andrade e outros jovens artistas e escritores paulistas, participou da Semana de Arte Moderna de Fevereiro de 1922 no Teatro Municipal de São Paulo. Em 1943, foi eleito para a cadeira 28 da Academia Brasileira de Letras, tendo sido suas principais obras Juca Mulato (1917) e Salomé (1940). Um livro seu de elevada popularidade é Máscaras (1920), pela sua nota lírica.

Obras:

A “Semana” Revolucionária Crítica, teoria e história literárias, 1992  

A Angústia de D. João, Poesia 1922  

A Crise Brasileira: Soluções Nacionais Crítica, teoria e história literárias 1935  

A Crise da Democracia Crítica, teoria e história literárias 1931  

A Filha do Inca, Romance e Novela 1949  

A Longa Viagem Crítica, teoria e história literárias 1970  

A Mulher que Pecou Romance e Novela 1922  

A Mulher que Pecou Romance e Novela 1923  

A Outra Perna do Saci Romance e Novela 1926  

A República 3000, 1930  

A Revolução Paulista Crítica, teoria e história literárias 1932  

A Revolução Paulista Através de um Testemunho do Gabinete do Governador Crítica, teoria e história literárias 1932  

A Tormenta, Romance e Novela 1932  

A Tragédia de Zilda, Romance e Novela 1927  

Angústia de João, Poesia 1925  

As Máscaras, Poesia 1920  

Chuva de Pedra, Poesia 1925  

Curupira e o Carão, Conto 1927  

Flama e Argila, Romance e Novela 1919  

Homenagem aos 90 anos, Outros 1982  

Jesus: Tragédia Sacra Teatro 1933  

Juca Mulato Poesia 1917  

Juca Mulato Poesia 1924  

Kalum, o Mistério do Sertão Romance e Novela 1936  

Kummunká Romance e Novela 1938  

Laís Romance e Novela 1921  

Máscaras Poesia 1924  

Moisés Poesia 1924  

Moisés: Poema Bíblico Poesia 1917  

Nacionalismo e “Semana de Arte Moderna” Discursos e sermões (textos doutrinários e moralizantes) 1962  

Nariz de Cleópatra Crônicas e textos humorísticos 1923  

No país das formigas Literatura Infanto-juvenil   

Novas Aventuras de Pé-de-Moleque e João Peralta Romance e Novela   

O Amor de Dulcinéia Romance e Novela 1931  

O Árbrito Romance e Novela 1959  

O Crime daquela Noite Romance e Novela 1924  

O Curupira e o Carão Crítica, teoria e história literárias   

O Dente de Ouro Romance e Novela 1924  

O Despertar de São Paulo Crítica, teoria e história literárias 1933  

O Deus Sem Rosto Poesia 1968  

O Gedeão do Modernismo Crítica, teoria e história literárias 1983  

O Governo de Júlio Prestes e o Ensino Primário Crítica, teoria e história literárias   

O Homem e a Morte Romance e Novela 1922  

O Homem e a Morte Romance e Novela 1924  

O Momento Literário Brasileiro Crítica, teoria e história literárias   

O Nariz de Cleópatra Romance e Novela 1922  

O Nariz de Cleópatra Conto 1924  

O Pão de Moloch Miscelânea 1921  

Pelo Amor do Brasil, Discursos Parlamentares Crítica, teoria e história literárias   

Pelo Divórcio, s/d   

Poemas Poesia 1946  

Poemas do Vício e da Virtude Poesia 1913  

Poemas Sacros: Moisés e Jesus Poesia 1958  

Poesias Poesia 1933  

Poesias (1907-1946) Poesia 1958  

Por Amor do Brasil Discursos e sermões (textos doutrinários e moralizantes) 1927  

Recepção do Dr. Menotti Del Picchia na Academia Brasileira de Letras Discursos e sermões (textos doutrinários e moralizantes) 1944  

República dos Estados Unidos do Brasil Poesia 1928  

Revolução Paulista, 1932  

Salomé Romance e Novela 1940  

Seleta em Prosa e Verso Poesia 1974  

Sob o Signo de Polumnia Crítica, teoria e história literárias 1959  

Soluções Nacionais,  1935  

Suprema Conquista Teatro 1921  

Tesouro de Cavendish: Romance Histórico Brasileiro Crítica, teoria e história literárias 1928  

Toda Nua Romance e Novela   

Viagens de João Peralta e Pé-de- Moleque Literatura Infanto-juvenil





Ave pré-histórica do Chile maior do que se imaginava

17 09 2010

 

Desenho indicando como seria o Pelagornis chilensis

Novo estudo por arqueólogos que conseguiram reconstruir 70% do esqueleto do Pelagornis chilensis, uma ave marinha que viveu cerca de 10 milhões de anos atrás no Chile, constata a gigante envergadura de suas asas de  no mínimo, 5 metros.

O cálculo é baseado na análise de ossos das asas preservados. Estudos anteriores apontavam que a maior envergadura de um pássaro chegava a mais de 6 metros, porém eram baseados em fósseis fragmentados, não inteiros, como neste caso.

A evolução dos pássaros largos, por assim dizer, tinha como objetivo evitar a competição com outros pássaros“, disse Gerald Mayr, líder da equipe e paleontólogo alemão do Instituto de Pesquisa e Museu de História Natural Senckenberg. “Pássaros com asas maiores voavam mais longe e caçavam suas presas mais facilmente no oceano“, completou.

Embora estes animais se pareçam com criaturas de Jurassic Park, eles são aves verdadeiras, e seus últimos representantes podem ter coexistido com os primeiros seres humanos na África do Norte“, disse Gerald Mayr.

Bico serrilhado.

A ave pertence a um grupo conhecido como pelagornithids, informalmente chamado de pássaro ósseo-dentado. Eles são caracterizados por seu longo bico fino e dentado, como se tivesse dentes. Esses “dentes” provavelmente teriam sido usados para capturar presas escorregadias em mar aberto, tais como peixes e lulas.

Uma das causas de sua extinção, apontam os especialistas, pode ser seu peso, já que com envergadura tão grande seu peso aumentava e sua velocidade e capacidade de voo eram prejudicadas.

O conhecimento do tamanho máximo que pode ser atingido por um pássaro é importante para compreender a física por trás de como os pássaros voam. Este novo fóssil, portanto, pode ajudar cientistas a avaliar melhor as limitações físicas e anatômicas em aves muito grande.

Fontes: Revista Galileu, Terra.





Minha terra, poema de Luiz Peixoto

17 09 2010

Tropical, 1994

Carlos H. Sörensen ( Brasil 1928-2008)

Encáustica sobre tela

40 x 50 cm

Minha terra

Luiz Peixoto

Minha terra

tem uma índia morena,

toda enfeitada de penas,

que anda caçando ao luar.

Minha terra

tem também uma palmeira,

parece a rede maneira,

ao vento, a se balançar.

Minha terra,

que tem do céu a beleza,

que tem do mar a tristeza,

tem outra coisa  também:

Minha terra,

na sua simplicidade,

tem a palavra saudade,

que as outras terras não têm.

Em: Poesia de Luiz Peixoto, Rio de Janeiro, Editora Brasil-América:1964, p.17

Luiz Carlos Peixoto de Castro, ( Niterói, RJ 2/2/1889 – RJ, RJ 14/11/ 1973). Foi poeta, letrista, cenógrafo, teatrólogo, diretor de teatro, pintor, caricaturista e escultor.





Vida no campo, vídeo, desenho musicado

11 09 2010







Como ajudar seus filhos a conseguirem um bom resultado no Enem?

10 09 2010

 

Interior da Escola Vértice II, São Paulo.  Foto:  Revista VEJA.

Se você está preocupado o suficiente com a educação de seu filho e chegou até aqui, neste blog, nesta postagem, acredite-me você já percorreu metade do caminho necessário para o sucesso escolar de seus filhos.

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O resultado do ENEM de 2009 trouxe uma grande curiosidade sobre a escola Vértice II que ficou colocada em primeiro lugar.  Poeira assentada, coloco aqui uma compilação de diversos artigos encontrados sobre a escola.  Meu objetivo é mostrar que algumas facetas desse sucesso podem ser adaptadas à vida familiar,  pequenas mudanças certamente auxiliariam no sucesso escolar.  Uma família pode fazer bastante para compensar uma escola menos bem avaliada.  A dedicação dos responsáveis pelo estudante pode incentivar e levá-los a um melhor nivel escolar independentemente do colégio ou da cidade onde você se encontre.  Em itálico e  letras coloridas estão algumas sugestões minhas.  O resto em letra normal e em negro estão partes dos artigos compilados que podem ser acessados na íntegra nos links no final do texto.  

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O campeão do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) de 2009 está  localizado numa área menor que um quarteirão, em um conjunto de casinhas amarelas no bairro Campo Belo, na zona sul de São Paulo.  O colégio Vértice II tem orgulho de ser pequeno e de educar de forma quase individualizada seus cerca de 900 alunos. As turmas jamais ultrapassam 50 alunos.  E mesmo com mensalidades que chegam a R$ 2.756, [um aluno de 3° ano paga hoje 13 mensalidades anuais de R$ 2.756] o Vértice II possui uma longa lista de espera para novos alunos, que só termina em 2014.  

Mas como pode uma escola só ter BONS ALUNOS?  Bem, há um sistema de seleção que é um pouco diferente daqueles usados por outras escolas.  Aqui estão alguns  dados que podem servir de guia para sua assistência aos seus filhos ou crianças sob sua guarda.

1 – Ao contrário de boa parte dos colégios particulares, o Vértice II não realiza vestibulinho para escolher seus estudantes. Os candidatos a uma vaga nos ensinos médio e fundamental, porém, são submetidos a uma entrevista, passam um dia na escola e devem mostrar cadernos e apostilas utilizados no passado. Aspirantes com histórico de notas ruins e que não costumam fazer lições de casa ou anotações durante as aulas costumam ser recusados.

1 — Incentive seu filho a manter bons cadernos com deveres de casa e notas de aula, limpos, bem escritos e organizados. 

Faça para ele um outro caderno que acompanhe seus estudos.  Nele, incentive-o a recortar partes de artigos do jornal, de revistas, da internet, fotografias, desenhos, informações, desenhos, letras de música, poesias, referências a livros, ditados, reações pessoais, que estejam relacionados à matéria que está sendo estudada.   Ajude-o a fazer nesse caderno pelo menos uma contribuição diária.  Assim ele estará sempre revendo as matérias já aprendidas em outros contextos, e adicionando suas próprias contribuições ao assunto. 

Arranje um local seguro e limpo para que as apostilas dadas nas escolas sejam guardadas em ordem, fácilemente acessadas, livres de restos de balas, de manchas de refrigerantes.   

2 — Nunca deixe de corrigir também a maneira de falar de seu filho.  Não aceite uma maneira incorreta “só porque muita gente fala assim”.    Não o deixe comer os “s” no final das palavras no plural.  Corrija-o na conjugação verbal, na pronúncia clara.  Aos poucos, consciente de falar bem, seu filho pode se desembaraçar para falar com estranhos, em público e também se expressar numa conversa ou numa entrevista como essa escola faz com seus pretendentes.  Lembre-se  de que ele será julgado por isso, pelo resto da vida, não só nessa escola, mas nas empresas, na procura de uma bolsa de estudos, nas companhias que entrevistam  para selecionar seus candidatos.

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2 – Além de provas bimestrais, os alunos precisam realizar testes semanais, conhecidos como “verificações de aprendizagem”, feitos oralmente ou através de seminários e debates. O objetivo é estimular hábitos regulares de estudo e não apenas nos dias próximos ao período de provas. “Assim, os estudantes deixam de entrar em pânico ao ser avaliados”, afirma Adilson Garcia, um dos diretores. Quem apresenta resultados insatisfatórios é convocado para aulas de reforço fora da jornada escolar.

3 — Converse constantemente com seu filho sobre os assuntos já estudados na escola.  Acompanhe as lições e procure empregar aquilo aprendido de uma outra maneira.  Exemplo: a)  seu filho acaba de aprender como calcular uma área.  Veja com ele quantos quadras de basquete caberiam dentro de um campo de futebol.  b) e quantos pés de café poderiam ser plantados no mesmo campo de futebol de fossem espaçados a cada 5 metros.  Seu filho acabou de aprender uma figura de linguagem?  use exemplos, de alguma figura de linguagem na tarde seguinte, em conversa.    Faça o que está sendo aprendido na escola ter significado fora dela.    Foi a Chegada da Família Real ao Brasil que derrubou a nota do aluno?  Que tal contar quem foi Napoleão?  Como se lutava naquela época sem foguetes e sem bombas atômicas … Procure o desenho de um navio da época, mostre um navio um semelhante ao que trouxe a Família Real.  Como esses navios diferem dos grandes veleiros de hoje?  Todas essas informações são de fácil acesso na internet. 

Se você não sabe a lição, aprenda-a com seu filho.  Acompanhe-o.  Troquem experiências.  Se você está aqui, usando a internet, você tem uma imensa variedade de informações à sua espera,  informações que ajudarão a ambos, você e seu filho.

 

Resultado das provas, ilustração Maurício de Sousa.

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3 – A cada dois meses, os pais recebem um boletim com as notas de seus filhos. Até aqui, nenhuma novidade. Ocorre que, para atribuí-las, os professores também levam em consideração aspectos como comprometimento e respeito aos colegas. “Preparar os alunos para ingressar em boas faculdades é uma de nossas metas”, explica Garcia. “A outra é formar cidadãos responsáveis, que saibam refletir sobre suas atitudes.”

4 — Verifique as notas de seu filho e tente entender porque certas notas podem ter baixado.  Não faça guerra a ele.  Faça dele um aliado. 

5 — Cobre comprometimento do seu filho.  Não só dele.  Seu também.  Tenha sempre o material do aluno pronto para o dia seguinte, não se atrase ao levá-lo à escola.  Não aceite desculpas forjadas, inconsequentes, para faltar as aulas.  Não aceite faltas.  Não aceite desrespeito aos professores.  Nem aos outros alunos.  Se ele tem um compromisso, os pais também têm que ter esse compromisso de mantê-lo na escola.  Você também precisa mostrar com o seu exemplo comprometimento com a escola, com o seu trabalho, com o país, com os outros. 

4 – Para garantir o bom desempenho em sala de aula, os diretores do colégio se desdobram para promover atividades fora dela. Há desde esportes tradicionais, como basquete, judô e futebol de salão, até oficinas de artes, teatro, sapateado e xadrez. Visitas a museus e exposições são organizadas duas vezes por ano para cada série. Algumas atividades são cobradas à parte e realizadas depois do período escolar. “Livros e apostilas não são as únicas ferramentas de aprendizagem”, diz a fundadora do colégio, Walkiria Gattermayr.

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Um passeio no Jardim Zoológico.

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6 – Uma vez por mês faça um passeio em família com um comprometimento cultural.  Vá a um museu, a uma galeria de arte.   Vá a uma biblioteca municipal.  Visite um lugar significativo na história da sua cidade.  Procure um contador de histórias.  Há muitas livrarias que hoje em dia têm programas onde contadores de histórias divertem o público infantil.  Se não há livrarias na sua cidade, procure na internet uma história e conte-a a seu filho. 

Não se acanhe ou se avexe de ir a esses lugares  mesmo que na sua infância você não o tenha feito.  Lugares públicos são para isso mesmo, abertos ao público.  Até um passeio no parque local pode ser fonte de muita instrução.  Em que época o parque foi feito?  No governo de quem?  Quem era o presidente da república naquele tempo?  Que árvores estão plantadas?  Como se reconhece uma mangueira, um jatobá, uma bananeira? 

Faça com que seu filho já comece sua vida familiarizado com livros, bibliotecas, livrarias, museus de história, das ciências, de arte.  É seu dever como pai/educador abrir as portas do mundo para os seus filhos.   Faça um passeio numa noite enluarada.  Mostre-lhe as estrelas no céu.  Pegue um mapa do céu no nosso hemisfério na internet, imprima-o e nesse passeio ajude-o a reconhecer as estrelas, nomeá-las, ajude-o a colocá-las em suas respectivas constelações.  Volte para casa e tente desenhar a posição das estrelas vistas.  Mais tarde procure na internet o significado dos nomes de cada constelação.  Na semana seguinte leia uma história da mitologia grega que tenha alguma referência às constelações.  Tudo está interligado: escola, vida, estudo, profissão, sucesso. 

7  — Incentive seu filho a colecionar alguma coisa.  Um colecionador aprende a história dos objetos que coleciona, as épocas de suas criações,  quer eles sejam selos ou conchas.  Podemos colecionar um número enorme de coisas que estão constantemente nos ensinando sobre o mundo em que vivemos: pedras, penas de pássaros, cantos de pássaros, semementes.  Folhas de árvores, bolinhas de gude, insetos, carrinhos de plástico.  Fotografias velhas, revistinhas em quadrinhos.   Um colecionador de figurinhas aprende sobre o assunto de suas figurinhas, quer elas sejam de jogadores de futebol, flores tropicais ou até de animais em extinção. 

8 — Procure com o seu filho um vídeo na internet que mostre seu poema favorito, seu carro preferido, o animal de estimação mais fofo.  Mostre a ele um vídeo com idéias sobre seu passatempo favorito: esporte, crochê, robôs, costura, pipas, bordado, luta de judô. Aprofundem-se em qualquer assunto.  Há muitas maneiras de se aprender sobre o mundo, com cada uma delas a informação do que está sendo aprendido se reforça.

9 — Incentive a curiosidade natural de seu filho.   

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 Uma coleção de pratos.

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5 – Desde o ensino fundamental, os alunos do Vértice estão habituados a estudar os conteúdos de forma interdisciplinar. A cada ano, um grande tema é selecionado para ser debatido em todas as disciplinas. Em 2009, atividades relacionadas ao continente africano foram incluídas nas aulas de geografia, filosofia e música. Em 2010, o assunto escolhido foi a Copa do Mundo. O objetivo é trazer para a sala de aula assuntos do cotidiano, cada vez mais comuns em vestibulares.

10 — Isso você também pode fazer em casa.   Basta decidir sobre um assunto, um tema a ser abordado, alguma coisa que tenha a ver com a vida na sua cidade, no seu estado, no país ou no mundo.  Por exemplo em 2011, o Paraguai completa 200 anos de independência.  E se você e seus filhos escolhessem alguns assuntos que fazem o Paraguai importante para o Brasil?  Afinal, foi o único país no século XIX contra quem o Brasil esteve em guerra.  Temos uma fronteira importante com esse país…  E assim por diante. 

Outro exempolo  em fevereiro, os chineses comemoram o início de seu ano.  Que tal naquele semestre selecionar diversos assuntos sobre os chineses, o ano lunar, a muralha da China, que outros povos usam o calendário lunar? E há mais, muito mais a ser descoberto.

 11 — É claro que a medida que seus filhos crescem esses projetos e programas devem ir se sofisticando de acordo com a idade de cada um.  mas o mais importante é estabelecer desde cedo o hábito do estudo, o hábito da leitura, o prazer de aprender.

6 – Nem todos os pais costumam participar da rotina escolar de seus filhos. Para reverter esse quadro, o Colégio Vértice promove todos os anos cerca de oito palestras sobre temas ligados à educação para pais e professores. A presidente da Associação Brasileira de Psicopedagogia, Quézia Bombonatto, foi uma das convidadas recentes. “Com essa interação, nossos alunos se sentem mais motivados a estudar, pois o apoio familiar aumenta”, afirma Walkiria.

12 — Agora, então é hora de você fazer o seu dever de casa.  É o momento de você mostrar comprometimento com a educação dos seus filhos.  Reserve um momento na internet para procurar novos assuntos relacionados a educação.   Telefone ou marque uma visita com um professor de seu aluno.  Não espere ser chamado pelo professor para mostrar interesse pela educação de seu filho.  Converse com o diretor da escola, com o coordenador de educação física.  Com a pessoa que ensina trabalhos manuais.  Procure saber como eles acham que você poderia auxiliar no melhor aproveitamento das aulas, da experiência escolar pelo seu filho.  Quanto mais familiarizado com a escola você estiver, seu filho se sentirá mais envolvido e comprometido com a educação que recebe.

 Dá trabalho?   — Dá.  Mas por outro lado você não estará pagando de R$1.300,00 a R$2.700, 00 13 vezes por ano!

Luizinho, Huguinho e Zezinho na escola, ilustração Walt Disney.

 

 

Sobre a escola

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A consequência das boas colocações foi a migração de alunos de diversos colégios particulares da cidade para os bancos de suas salas de aula. Atualmente, para cada vaga nova oferecida pelo colégio (apenas 100 a cada começo de ano, sendo 40 para educação infantil e as outras 60 distribuídas entre todas as séries do ensino fundamental I, II e ensino médio), existem entre oito e dez interessados. “Daria para montar mais um colégio e meio com a lista de espera que temos”, conta o diretor, Adilson Garcia.

Segundo ele, a procura está tão acirrada que alguns pais estão inscrevendo filhos que ainda nem nasceram na lista. “Verificamos que temos procura para o ensino infantil, que começa aos 3 anos, para o ano de 2014, ou seja, são mães que estão grávidas hoje e que já estão reservando vaga para a criança entrar quando completar essa idade. Nessas fichas não tem nem o nome da criança”, admite.

 O segredo do sucesso do colégio, na opinião de Garcia, é a criação do hábito de estudo nos alunos. “A principal preocupação da escola é criar o hábito do estudo no estudante.  Não queremos que eles deixem para aprender a matéria apenas na véspera da prova, por isso, aplicamos avaliações semanais, corrigimos todas as lições junto com eles, tanto as feitas em sala de aula quanto as de casa. Nunca deixamos que uma dificuldade do aluno se arraste para o bimestre seguinte”, garante.  A ênfase do colégio é para a leitura e para o entendimento dos conteúdos. Segundo o diretor, o desafio é que o aluno consiga sair do Vértice com autonomia para buscar seus conteúdos. Para ajudar, aulas extracurriculares que vão da culinária ao xadrez, passando por sapateado e a música. “Esta autonomia é algo que o indivíduo vai levar para a vida toda, não é só para o colégio“, disse.

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Aula de matemática, ilustração de renato Silva, do livro CAZUZA de Viriato Corrêa.

Em busca dos bons resultados do Vértice, pais de estudantes que entram para o colégio para focar seus estudos no vestibular, vêem seus filhos, muitas vezes bons alunos em outros lugares, terem que ir atrás de reforço — de aulas complementares —  para  poderem se encaixar bem na escola.   às vezes em outras escolas alunos que querem se esforçar, estudando mais do que os outros para atingirem o objetivo de passarem no vestibular, são criticados pelos amigos, por estudarem mais e se esforçarem.  “Aqui, quem não estuda é estranho“, admitem os alunos.

Com aulas das 7h às 19h, de segunda a sexta e meio período aos sábados, estes estudantes no Vértice encontraram o que buscavam.  A escola adota apostilas de um sistema de ensino terceirizado e complementa as aulas com materiais próprios. Segundo os alunos, simulados surpresa fazem parte da rotina de estudos para o vestibular, que tem como base os processos seletivos da USP, Unicamp e das universidades federais de São Paulo.  Mas nem sé de vestibular vive o colégio,  os alunos têm atividades extracurriculares também que vão do  sapateado, culinária, coral, leitura interpretativa, xadrez às aulas de alemão.

Fundada por uma psicóloga e pedagoga, a escola não se contenta com o índice de 30% a 40% de aprovação em escolas públicas no vestibular. Segundo o diretor, o projeto pedagógico do colégio não tem o vestibular como objetivo. “Nós preparamos os alunos para os desafios da vida e o vestibular está entre eles, mas não focamos nosso trabalho nisso, não separamos os alunos por área de aptidão para trabalhar melhor, tratamos todos do mesmo jeito”, diz.  Segundo Garcia, cada professor tem a orientação de procurar distinguir entre seus alunos qualquer variação de comportamento entre seus alunos que indique algum problema emocional e chamá-lo para uma conversa particular, se necessário. “Nós exigimos que conheçam o máximo que podem dos seus alunos“, diz o diretor.

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Mas como fazer isso sem invadir a privacidade do aluno na adolescência, fase em que este valor é tão precioso? O diretor esclarece: “Só no olhar. Se o aluno está cabisbaixo, isso pode indicar alguma dificuldade em casa como uma separação dos pais, a morte de um avô ou do animal de estimação“, exemplifica o educador. As medidas podem incluir uma conversa particular, a sugestão de alguma atividade especial como teatro ou uma reunião entre professores e pais.

O trabalho de participação da família no aprendizado é levado a sério e a negligência dos pais é considerada grave e passível da expulsão do aluno. “Nossa relação com os familiares precisa ser de confiança, se percebemos que os pais não são nossos parceiros sugerimos que procurem outra escola para o próprio bem de seus filhos“, diz o diretor.  O colégio oferece também uma escola para os pais, que em encontros mensais ou semanais recebem noções de pedagogia e psicologia aplicada no cotidiano, e devem acompanhar as tarefas dos filhos em casa e funcionar como parceiras dos professores.

Antes de o professor iniciar o ensino de um tema, o aluno deve ter feito uma leitura prévia e uma pesquisa do vocabulário em casa. É o pontapé inicial para o processo de aprender“, explica Adilson Garcia. “Perseguimos a criação desses hábitos“, conta ele.

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Colégio Vértice
Fundação: 1976
Número de professores: 86
Área da escola: 4.500 metros quadrados
Mensalidade: de R$ 1.330 (1º ano do Ensino Fundamental) a R$ 2.756
Endereço: Rua Vieira de Morais, 172

Fontes:

Portal Terra

Último segundo

Veja

Estadão





Tombo, poesia infantil de Maria Dinorah

8 09 2010
Pato Donald leva um tombo, ilustração Walt Disney.

Tombo

                                             Maria Dinorah

 

A rua ri

de meu tombo.

Henrique

ri que se rola.

João se rola de rir.

Levanto

meio sem jeito

e rio

riso sem graça,

enquanto,

de tanto riso

se sacode toda a praça!

Em: Poesia fora da estante, Ed. Vera Aguiar e Simone Assumpção, Porto Alegre, Projeto: 2007

 

 

 

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Maria Dinorah Luz do Prado (Porto Alegre, 1925 — Porto Alegre, 2007) professora e escritora de livros infanto-juvenis.  Escreveu aproximadamente cem títulos.

Algumas obras:

Alvorecer

Boi Boá

Bom-dia, Maria

A caranguejola do Zeca e outras estórias

O Cata-vento

Chapéu de vento

O coelho Dim-dim

Coração de papel

A coragem de crescer

Coragem de sonhar

O desafio da liberdade

Dobrando o silêncio

Dom Gato

Ensinando com poesia

A Fábrica das gaiolas

Felpudo e olhogrande

Festa no Parcão

A flauta do silêncio

A flautinha do Pirulin

O galo superdotado

A gaitinha do sseu Zé

Os gêmeos

Geometria de sombra

Giroflê giroflá

Guardados de afeto: repensando a alfabetização

Histórias de fadas e prendas

Hora nua

Iara Aruana

A lagoa encantada

O livro infantil e a formação do leitor

O livro na sala de aula

O macaco preguiçoso e outras estórias

Mata-tira-tirarei

A medida do sorriso

Menino na avenida

Meu verde mar azul

O ontem do amanhã

Um pai para Vinícius

Panela no fogo, barriga vazia

Piá também conta causo

Pinto verde e outras estórias

Pitangas e vaga-lumes

O poema da flor

Poesia Sapeca

Pra falar de amor

Quando explodem as estrelas

Que falta que ela nos faz

A Semente Mágica

Seu Zé

Simplesmente Maria

Solidão e mel

Tem que dar certo

O Território da infância

Três voltas de ciranda

Uma e una

O ursinho azul

Ver de ver

Verso e reverso: poemas de Natal

Vinte pontos de uma vez

O vôo do pássaro e  outras histórias





Lembranças de alguns SETES de SETEMBRO

6 09 2010

 3º REGIMENTO DE CARROS DE COMBATE levando o pavilhão nacional. Parada de 7/09/1969 em frente ao Ministério do Exército, antigo Ministério da Guerra, Rio de Janeiro. Foto: Exército Brasileiro. [http://www.defesanet.com.br/history/m-3.htm]

Até os meus nove anos, o feriado da Independência do Brasil trazia a invariável recordação de muito calor, sol a pino, uso obrigatório de chapeuzinho de palha, fome, sede, irritação, nervos a flor da pele e grande incômodo ao chegar em casa, com a minha pele muito clara, queimada, vermelha, a pinicar pelo resto do dia.  Não era conseqüência de uma ida à praia.  Não. Praia era coisa corriqueira aqui no Rio de Janeiro, para os fins-de-semana comuns do resto do ano, gastos com manhãs no Arpoador, onde o mar, com ondas baixinhas, era próprio para crianças.  As memórias do incômodo apontam para papai que sempre nos levava para ver a parada de Sete de Setembro, no centro da cidade.

Todo ano era a mesma coisa: garrafa térmica com água e lanchinho na merendeira escolar: uma caixinha miniatura de passas sem caroço.  E lá partíamos nós para observar o interminável desfilar de soldados, militares, ex-combatentes, tropas da Marinha, do Exército, da Aeronáutica.  Vinham canhões.  Passavam sobre nossas cabeças aviões fazendo malabarismos.  Do desfile eu só gostava mesmo da cavalaria e principalmente dos Dragões da Independência.  Ah, como eram bonitos!  E elegantes!  E o pelo de seus cavalos tinha um lustre dourado, um brilho cuidadosamente obtido pelo escovar e tratar do pelo.  Eram magníficos.  Mas custavam a chegar, se não me engano eles fechavam o desfile…

Meu pai deveria ter ido à guerra.  À Segunda Guerra Mundial.   Mas era muito míope, demais mesmo.  Ficou por cá.  Trabalhou na censura de cartas dos Correios e Telégrafos,  já que lia fluentemente o alemão, além do inglês e francês.  Na minha imaginação, ele trabalhou muito bem, como parte da “resistência brasileira.”  Mas pai é sempre herói para filha encantada…   Hoje, no entanto, olhando para trás, acho que sua empolgação com a parada de Sete de Setembro tinha muito a ver com isso.  O não ter ido lutar na Itália.  O saber de amigos e companheiros perdidos em solo europeu. 

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Periscópio de papelão e espelhos.

De todo o evento, no entanto, o que mais me atraía, e acabava me seduzindo a voltar no próximo ano, eram os periscópios que levávamos.  Eu era fascinada com o objeto.  Como uma caixa de papelão, comprida, aberta nas pontas, com um espelho em cada lado, podia me mostrar o que se passava lá na frente, além daquele mundaréu de gente que obstruía a visão das tropas desfilando?  Como funcionava?   Eu gostava tanto da peça que já maiorzinha, abdicava em favor do meu irmão do meio, a montaria nos ombros de papai, para melhor me posicionar para o desfile.  A grande fascinação vinha ao descobrir que a caixa era vazada, e não tinha motor!   E eram bonitos os nossos periscópios, provavelmente comprados em camelôs especializados na data, porque tinham uma bandeirinha do Brasil colada em duas faces diferentes das caixas…  Eram especiais! 

De volta à casa, depois das paradas, os periscópios rolavam ainda por aqui e ali, ao longo do dia, antes que mamãe — que nunca nos acompanhava — desaparecesse com eles, sabe-se lá para onde.  Mas nesse ínterim brincávamos de guerra — eu e meu irmão —  cada qual com seu submarino imaginário, escondidos por trás do caimento da toalha, ao redor da mesa  ainda posta do almoço, enquanto os adultos, pai, mãe, avós se deliciavam com um cafezinho e jogavam conversa fora.   Lembrei-me dessas brincadeiras quando vi há uns poucos dias a ilustração abaixo, que trouxe essa enorme onda de memórias…  Ah! o poder das imagens!

©Ladyce West, Rio de Janeiro: 2010

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O medo, poesia de Henrique Simas

3 09 2010

O grito, 1893

Edward Münch ( Noruega, 1863 – 1944 )

óleo, têmpera e pastel sobre papelão

91 x 74cm

Galeria Nacional, Oslo, Noruega

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O medo

Henrique Simas

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É o gigante da alma que me segue

Marcando-me por dentro, todo e sempre

(Como os sonhos, os donos de mim mesmo).

Não consigo afastá-lo do caminho;

Pergunto-me, duvido, adio, fujo

Conhecendo-me nunca intimamente.

São dezenas de sonhos, são projetos

De rasgos voluntários sem começo,

São estrelas perdidas no escuro

De uma infância culpada do presente,

Cordilheira dos Andes do futuro.

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Em: Horizonte vertical, Rio de Janeiro, Olimpica: 1967, p.25

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Henrique Simas ( Belém, PA, 1922) poeta, diplomado em direito, professor e advogado.

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Obras:

Instabilidade do canto, poesia, 1963

Horizonte Vertical, poesia, 1967

1949 não terminou, prosa, 1977

Cresce menino cresce, prosa, 1989

Encantamentos, 1994

Branca de Neve, prosa, 1999