Os dois irmãos, poesia infantil de Maria Alberta Menéres

4 02 2011

Meninos jogando bilboquê,  sd

Belmiro de Almeida ( Brasil, 1858-1935)

óleo sobre tela, 40x30cm

Museu de Arte de São Paulo

 Os dois irmãos

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Maria  Alberta Manéres

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Eu conheço dois meninos

que em tudo são diferentes.

Se um diz: “Dói-me o nariz!”

o outro diz: “Ai, meus dentes!”

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Se um quer brincar em casa,

o outro foge para o monte;

e se este a casa regressa,

já o outro foi para a fonte.

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É difícil conviver

com tanta contradição.

Quando um diz: “Oh, que calor! “,

Que frio!” – diz o irmão.

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Mas quando a noitinha chega

com suas doces passadas,

pedem à mãe que lhes conte

histórias de Bruxas e Fadas.

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E quando o sono esvoaça

por sobre o dia acabado,

dizem “Boa noite, mãe!”

e adormecem lado a lado.

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Maria Alberta Rovisco Garcia Menéres de Melo e Castro (Portugal, 1930)  nasceu na cidade de Vila Nova de Gaia.  É professora, jornalista e escritora.  Sua obra inclui poesia, contos,  hisstórias em quadrinhos,  teatro, novelas, e adaptação de clássicos da literatura.

Obras

Ficção

O Poeta Faz-se aos 10 Anos, 1973

A canção do vento, 1975

Hoje há Palhaços , 1977

Primeira Aventura no País do João, 1977

À Beira do Lago dos Encantos, 1995

Intervalo, 1952

Cântico de Barro, 1954

A Palavra Imperceptível, 1955

Oração de Páscoa, 1958

Água – Memória, 1960

Os poemas Escolhidos, s/d

A Pegada do Yeti, 1962

Poemas Escolhidos, 1962

Os Mosquitos de Suburna, 1967

Conversas em Versos , 1968

O poema O disse ao poema, 1974

O Robot Sensível, 1978

Antologia da Novíssima Poesia Portuguesa, 1982

Semana sim,semana não,semana pumbas,1998

Clarinete

Figuras Figuronas, 1969

A Pedra Azul da Imaginação, 1975

A Chave Verde ou os Meus Irmãos, 1977

Semana Sim, Semana Sim, 1979

O Que É Que aconteceu na Terra dos Procópios, 1980

Um Peixe no Ar, 1980

O Trintão Centenário, 1984

Dez Dedos Dez Segredos, 1985

À Beira do Lago dos Encantos, 1988

Quem faz hoje anos, 1988)

Colecção “1001 Detectives– 15 volumes (em colaboração com Natércia Rocha e Carlos Correia), entre 1987/92

Sigam a Borboleta, 1996

100 Histórias de Todos os Tempos, 2003

Passinhos de Mariana, Edições Asa, 2004

“Camões, o Super Herói da Língua Portuguesa” 2010

Outra vez não!





Imagem de leitura — Léon Augustin L’hermitte

3 02 2011

A lição de leitura, 1912

Léon-Augustin L’Hermitte ( França, 1844 -1925)

óleo sobre tela

Coleção Particular

Léon Augustin L’hermitte, nasceu em Mont-Saint-Père em 1844.  Foi pintor e gravador.  Estudou com Horace Lecoq de Boisbaudran.   Ganhou reconhecimento depois de expor no Salão de Paris de 1864, sempre com suas telas realistas, dedicadas à vida rural,  repletas de detalhes do dia a dia da vida dos camponeses.  Seu grande trunfo foi o uso inovador do óleo pastel em suas pinturas.  Entre as distintas honrarias que recebeu durante sua vida está a Legião de Honra, 1884 e o Grande Prêmio na Exposição Universal de Paris de 1889.  Ele morreu em 1925 em Paris





Não faça pouco de uma paixão! Lembre-se de Vladimir Nabokov.

3 02 2011
Ilustração, Hervé.

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O hábito não faz um monge, assim como um diploma em direito não faz um advogado ou um diploma em história faz um historiador.  Recentemente, uma leitora respondeu a uma de minhas postagens, criticando-a porque o livro em consideração, apesar de ser de história do Brasil, não havia sido escrito por um historiador formado.  Isso é o que eu chamo de burocracia da mente.  Não publiquei o comentário porque era uma crítica desleal a um autor de grande responsabilidade.  Além do mais, não acredito na premissa de que um diploma seja necessário para que um produto de pesquisa seja de qualidade.   Hoje, então, dando uma vista d’olhos na rede, tive a minha teoria comprovada e ainda por cima uma bela história de interesse para contar.

Em 25 de janeiro deste ano, o jornal americano The New York Times, publicou um artigo assinado por Carl Zimmer, titulado Nonfiction: Nabokov Theory on Butterfly Evolution Is Vindicated , onde aprendemos que o famoso escritor americano de origem russa, Vladimir Nabokov, além de excelente escritor, autor do romance Lolita, entre muitos outros títulos, era um grande estudioso amador dos lepidópteros.  E que suas teorias, a respeito da migração de borboletas da Ásia para as Américas, através de milhões de anos em pequenos vôos, acabam de ser verificadas corretas, como foi demonstrado na semana passada por cientistas dedicados aos estudos de DNA, que publicaram suas conclusões na revista científica The Proceedings of the Royal Society of London.

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Há mais nessa notícia do que o fato de Nabokov saber do que falava quando se referia a borboletas.  Há mais nela do que aprender que sua paixão por borboletas teve as sementes fertilizadas pelo amor de seus pais a esses insetos e que Nabokov era um colecionador sério desses insetos, participando de expedições para a captura de variados espécimes de borboletas.  Ficamos sabendo também que Nabokov provavelmente teria se transformado num cientista, dedicado aos lepidópteros, se a Revolução Russa de 1912, não tivesse motivado a família Nabokov a emigrar.  Durante a estadia na Europa, ainda muito antes de sua ida para os Estado Unidos, Vladimir Nabokov continuou os estudos (autodidatas) das borboletas, visitando as mais diversas coleções e tomando notas detalhadas sobre o que via.    Essa paixão viva é demonstrada, ainda em 1928, quando dedica o dinheiro ganho pela publicação do romance Rei, Valete, Dama, ao financiamento de uma excursão aos Pireneus, em que ele e sua esposa, Vera, conseguiram capturar mais de 100 espécimes.

Nos Estados Unidos, Vladimir Nabokov foi o curador de lepidópteros no Museu de Zoologia Comparada da Universidade de Harvard – o que demonstra que mesmo para instituições com o prestígio da Universidade de Harvard, competência e não diplomas é o que importa.  [ Há uns três dias atrás falei das vantagens do pragmatismo americano, esse episódio demonstra em parte o de que eu falava.]

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Ilustração: Borbolera 21, de Rana Sadat Aghili.

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A descoberta de que a teoria de Nabokov estava certa é sensacional.  E nos lembra de alguns pontos importantes sobre as coisas a que nos dedicamos.

—  uma mente criativa consegue imaginar soluções para problemas.  Uma mente criativa pensa fora dos padrões estabelecidos, “fora da caixa”.  Nabokov com conhecimento e dedicação conseguiu superar a falta de dados precisos – que não existiam na época – para chegar a conclusões corretas sobre a evolução das borboletas nas Américas!

—  se alguém, você ou seu filho, ou alguma outra pessoa no círculo de influência ama um assunto, ou uma atividade incentive-o.  Dê corda.  É essa paixão que lhe dará asas nos momentos difíceis e que lhe dará raízes para crescer.

Refletindo sobre o artigo das borboletas de Nabokov eu me lembrei de um programa SEM CENSURA, com Lwdwig Waldez, em que ele dizia, muito corretamente “seu filho detesta história e adora matemática.”   Você colocaria o seu filho com aulas particulares em que matéria?  História?  Não!   Não!   Deve colocá-lo para ter aulas em matemática e assim ele se transformará no melhor que existe naquele campo.

É disso, na verdade que precisamos.  Precisamos incentivar as paixões, como a de Nabokov por borboletas,  precisamos adubar os interesses daqueles que nos rodeiam.  Porque só com dedicação e amor, muito amor ao que se faz, pode-se deixar uma marca, uma marca indelével para a posteridade, pode-se contribuir para o mundo que nos rodeia.   Pensem nisso!

©Ladyce West, Rio de Janeiro: 2011

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VEJA O VÍDEO DE LWDWIG WALDEZ,

e abaixo os links para as duas primeiras partes dessa entrevista.

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1 — http://www.youtube.com/watch?v=l8u27KE2gvs&feature=related

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2 — http://www.youtube.com/watch?v=M22hVEMQVLs&feature=related

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Um olho na Serra do Mar e outro na China: devastação e replantio

30 01 2011
Tecido estampado com paisagem chinesa.

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Dois eventos nesse início de ano deveriam nos fazer redobrar os cuidados com o meio ambiente —  imediatamente!   As chuvas devastadoras na Serra do Mar, e o anúncio do governo da China admitindo que seus esforços no combate à desertificação do país  (muito maiores do que os que fazemos por aqui) estão simplesmente colocando o avanço do deserto em cheque e que serão necessários pelo  menos 300 anos para que a China consiga recuperar a área perdida para o deserto de terra produtiva e de florestas. 

O programa chinês para retomada do deserto é a maior campanha de replantio do mundo.  Mesmo assim,  serão necessários mais de três séculos  para que o equilíbrio ambiental volte a se estabelecer.   Não será para a geração dos nossos filhos, nem dos nossos netos, nem bisnetos.  Estamos a 15 gerações de um equilíbrio ecológico na China, se eles mantiverem os esforços ambientais nos termos que têm hoje.

Mais de um quarto do território chinês está coberto por deserto ou terra sob os efeitos de desertificação, enquanto que só 14% da China está coberta de florestas, a maioria destes territórios em zonas montanhosas. As últimas grandes extensões de floresta estão no nordeste da Manchúria.

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Tecido com estampado oriental.

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O processo de desertificação foi causado por uma série de fatores, alguns deles conhecidos nossos: excesso de pastagem e de técnicas agrícolas inadequadas, exploração agrícola e madeireira ilegais e queimadas.  Estes fatores consumiam até 5.000 quilômetros quadrados de floresta virgem, na China, a cada ano.   A indústria de móveis também tem seu papel de responsabilidade no desastre ecológico chinês: ela engole grandes quantidades de madeira chinesa, assim como madeira cortada ilegalmente da floresta tropical da Indonésia e em outros lugares vizinhos.

De 1990 a meados dos anos 2000 a China passou de importadora de produtos de madeira,  para um dos principais exportadores mundiais de madeira, móveis e piso.  O custo foi o meio ambiente.  Além disso, a China é um grande consumidor de papel.  Apesar de muito do papel usado na China já ser reciclado, a demanda é muito maior do que a oferta. 

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Papel de parede com cena oriental.

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O desmatamento chinês já é responsável pelo declínio de 4% das chuvas naquele país inteiro e de 15% no período da estiagem, na área de Xishuangbanna de Yunnan, onde 50% da floresta já desapareceu. 

No entanto, esses imensos esforços nos últimos 10 anos ainda não são o suficiente para a recuperação ambiental da China e do mundo.  Como o Sr. Liu Tuo, responsável pelo programa de reflorestamento do país explicou: “Há cerca de 1.730.000 quilômetros quadrados de terras degradadas na China, além de cerca de 530.000 quilômetros quadrados que deveriam ser tratados.”  Para nossa referência: 1.730.000 Km²  é um território maior do que estado do Amazonas.  O replantio tem sido de 1.717 km² por ano.

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 O processo recente de desmatamento na China, trouxe consequências severas para a população, e examinando o caminho chinês talvez possamos aprender a meio caminho, o que não fazer, e o que não deixar fazerem. 

O corte das florestas para uso da madeira e do pastoreio transformou  grandes áreas da província de Qinghai em deserto. Nesse meio tempo, grandes extensões de floresta também foram cortadas nas províncias de Sichuan e Shaanxi.  O corte das árvores e conseqüente destruição da floresta trouxe como resultado a erosão da bacia do rio Yangtze, que por sua vez foi responsável por inundações devastadoras, desabamentos e deslizamentos de terra que já mataram milhares de pessoas, destruíram estradas além de causar bilhões de dólares de danos. O desmatamento sem freios tornou até os mais delicados regatos de água doce em rios de água marrom enlameada.   Deslizamentos das encostas montanhosas já desarborizadas tem sido um dos mais importantes fatores para a inundação excessiva do rio Yangtze.

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Tecido com estamparia de cena chinesa.

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Desde 1998 grandes projetos de reflorestamento estão sendo implantados. A China proibiu a indústria madeireira em florestas naturais, destinou US $ 10 bilhões para projetos de reflorestamento e planejou gastar US $ 1 bilhão por ano durante 30 anos para expandir as áreas protegidas. Para reduzir o consumo de madeira a China impôs uma taxa de 5% ao piso de madeira e até mesmo aos pauzinhos, tradicionais objetos no consumo das refeições.  Cortadores das indústrias madeireiras foram treinados para plantar árvores enquanto que exploração da madeira foi completamente proibida em algumas áreas das províncias de Sichuan e Hubei.

O esforço governamental não é de hoje.  Começou  na década de 1970 quando o plantio de milhões de árvores transformou em florestas muitas áreas que já estavam estéreis.  Foram as enchentes anuais  e a erosão do terreno os principais motivos dessa empreitada governamental.  O que foi ótimo, porque  fez também uma contribuição significante contra o aquecimento global, já que as florestas plantadas são responsáveis por re-absorverem um boa quantidade de gás carbônico.   Foram 35 bilhões de árvores plantadas  ao longo de 4.500 km no norte da China que formaram um cinturão verde.  O plantio tem sido feito em faixas de terreno de um quilômetro e meio de largura e tem tido 70% de sucesso de sobrevivência das plantas nas áreas de reflorestamento.  Outro cinturão de árvores foi plantado no sudoeste da China, como medida de proteção aos tufões.  

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Tecido para estofado com estamparia oriental.

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O plano original, e alcançado, era cobrir 20% das áreas devastadas até 2010, através do programa de plantio de árvores.  O plantio de árvores é considerado um dever cívico na China, que deve ser realizado por todas as pessoas.   Depois das enchentes do Yangtze, em 1998, uma proibição do corte de florestas naturais foi imposta e o reflorestamento maciço na bacia hidrográfica do Yangtze foi levado adiante.  Terraços em declives superiores a 25º foram plantados com gramíneas, arbustos e árvores.  Grandes extensões de terras aráveis foram convertidas em pastagens, florestas e lagos típicos de zonas úmidas.  

 Como funciona?  —  Parte do trabalho de reflorestamento é feito por garimpeiros que cavam os buracos, e que recebem como pagamento por um dia de trabalho, quatro ou cinco pacotes de macarrão instantâneo, que eles consomem ao seco, porque não há água potável disponível.

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Tecido com estamparia de paisagem com flores e passarinho.

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Acho um absurdo o que o governo chinês paga aos seus conterrâneos para o plantio de mudas. E não estou aqui defendendo que se faça no Brasil, semelhante exploração de outro ser humano.  Mas acredito que temos que fazer muito mais do que estamos fazendo.

Temos culturalmente duas características que nos levam a perder muito tempo: queremos agradar a todos  (mãe, pai, avô, cachorro e periquito) e adoramos teorizar.  A primeira característica é difícil de ser contornada.  Podemos dar uma olhada no nosso código civil para vermos porque muitos criminosos conseguem não serem punidos.  Há sempre mais uma chance a ser dada, há sempre um aspecto que os inocenta (da infância pobre à falta de conhecimento da lei).  Somos um país de “coitadinhos”.  É difícil para o brasileiro ser durão, porque precisa ser querido por todos.  Haja visto a nossa preocupação com o que os outros países pensam de nós.  Tivemos um presidente da República que personificou essa característica ao extremo e o povo o adora, talvez até mesmo por isso.

O segundo traço do nosso caráter é tão arraigado quanto o primeiro, pois vem de uma tradição luso-francesa, acadêmica, em que tudo precisa ser teorizado, estudado, debatido.  E quando finalmente chegamos a alguma conclusão, o tempo já nos passou para trás.  Somos excelentes debatedores desde que saibamos nossas teorias, é claro.  Tendemos a ver tudo sob a luz de perfis políticos, sociais e filosóficos e perdemos muito, muito tempo com blá, blá, blá, com debates sem importância, equivalentes à descoberta de quantos anjos cabem na cabeça de um alfinete.  Isso é um resquício de uma aristocracia  do saber,  formada por  uma meia-dúzia de gatos pingados que tinham alguma educação e por uma nobreza que deixava os intelectuais entrarem nos seus salões para divertí-la e para que ela também se sentisse culta.  Uma atitude que não cabe numa democracia, numa sociedade com a nossa,  que hoje, mesmo com as falhas que temos na educação, é muito mais pluralista de pensamentos, experiência e saber.  Essa habilidade de discutir, de debater teorias, só satisfaz ao ego dos debatedores, que acreditam que o debate em si, já é alguma coisa.  E saem das discussões felizes com a impressão de que fizeram algo, qua contribuiram, mas que deixam para os outros, os  menos intelectuais, a tarefa de sujar as mãos, ou melhor, de colocar as mãos na massa.  

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Tecido estampado com araras no ninho.

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Cresci aqui no Brasil, me formei numa das melhores escolas brasileiras, o Colégio Pedro II, grande incentivador de debates. Fiz aqui, também, alguns anos de faculdade, mas saí do Brasil, me formei lá fora e vivi no estrangeiro mais de duas décadas: em mais de um país e em três continentes.  Posso dizer que invejo o pragmatismo americano e o orgulhoso espírito empreendedor espanhol.  E desejaria que pudéssemos aprender com ambos um pouco mais:  que fôssemos mais à luta, de maneira pragmática do que simplesmente com debate; que fôssemos mais rápidos no gatilho, mais ambiciosos por soluções.  E finalmente menos apegados à burocracia da mente. 

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Tecido para estofado com araras.

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Então, o que precisamos fazer para que não aconteça com o Brasil, com a Serra do Mar, com a Mata Atlântica, o que aconteceu na China?  O que precisamos fazer para que não tenhamos que esperar 15 gerações — pode ser até que os humanos já não possam viver Nesta Terra — para que haja um equilíbrio ecológico?  Quais são os próximos passos para que as cenas bucólicas da natureza em paz com o ser humano não existam unicamente na pintura de tecidos de hoje ou dos séculos passados? 

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Veja a enchente de 1998 no Rio Yangtze:
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Fontes: ItamaratyUSGS, BBC, Facts and details





Jacques-Louis David e Vik Muniz, unidos pelo lixo

27 01 2011

A morte de Marat, 1793

Jacques-Louis David ( França, 1748-1825)

óleo sobre tela 165 x 128 cm

Museu Real de Belas Artes, Bruxelas

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O noticiário da semana tem-se dedicado ao documentário Lixo Extraordinário, de Lucy Walker, codirigido por Karen Harley e João Jardim.  Uma produção anglo-brasileira que se tornou candidata ao Oscar de 2011.  Apesar de as estrelas do documentário serem os próprios catadores do Lixão em Jardim Gramacho, o filme está centrado na obra do artista plástico brasileiro Vik Muniz junto aos catadores.

Ainda não vi o documentário.  Mas fui atraída para o assunto: primeiro, se entendi bem, pelo caráter de denúncia ambiental e a preocupação com as 7.000 pessoas que dependem do trabalho no lixão, que está programado para fechar em 2012.  E segundo, a obra de Vik Muniz em si, responsável pela imagem que se tornou símbolo do documentário.

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Marat (Sebastião)

Vick Muniz (São Paulo, 1961)

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Em nenhum artigo sobre esse documentário consegui ver  alguma menção estabelecendo que a cena retratada por Vik Muniz parodia o trabalho de Jacques-Louis David.  Esse pintor francês retratou em grande estilo, o revolucionário Jean-Paul Marat, seu amigo pessoal,  no momento de sua morte.  Marat foi assassinado por Charlotte Corday —  na banheira em que permanecia boa parte do tempo cheia de água com sais minerais para a imersão que o ajudava a controlar o desconforto causado pela doença de pele que o afligia.   É verdade que esse quadro está entre os mais conhecidos no mundo, mas isso não justifica a falta de menção.   O fato de Marat estar no título não exonera as publicações de mencionarem o original, principalmente porque jornais e revistas têm que assumir que nem todos que os lêem saberão da referência.

Em se tratando de Vik Muniz, seria de se esperar a referência:  afinal este é um artista plástico brasileiro conhecido pelas citações visuais.  São exemplos disso: as Mona Lisas de geléia de uva e de manteiga de amendoim, 1999 e também, a reinterpretação de diversos quadros de Monet e da Última Ceia de Leonardo Da Vinci, entre outros.  Mas precisamos saber por que?  Por que A Morte de Marat, de Jacques-Louis David e não, digamos,  O grito de Edward Munch, ou qualquer outra obra?   Na verdade, por que fazer essa alusão?

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Mona Lisa de Geléia de Uva e Mona Lisa de Manteiga de Amendoim, 1999

Vik Muniz (Brasil, 1961)

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Jean Paul Marat (1743-1793) foi médico, filósofo, cientista , ensaísta, jornalista e panfletário, que ficou mais conhecido por sua participação nos eventos políticos e que na companhia de Danton e de Robespierre levaram a França à Revolução.  Marat advogou reformas básicas a favor dos pobres, e perseguição constante aos Inimigos do Povo.  Foi assassinado por Charlotte Corday, que disfarçada de colaboradora do movimento, chegou à sua casa e o esfaqueou.

Com isso, a alusão que Vik Muniz faz em seu trabalho no Lixão de Caxias passa a ter uma conotação muito mais forte de engajamento político.  No eco visual de um líder revolucionário, que foi assassinado justamente por causa de suas posições em defesa do povo, Vik Muniz faz o seu próprio panfleto revolucionário, seu próprio discurso político.

É por isso que é necessário se prestar atenção às imagens.  Artistas plásticos, pintores, escultores, não chegam ao ápice de uma carreira — como Vik Muniz chegou — sem terem um vocabulário visual bem cultivado, sem terem guardados na memória o impacto das obras de arte que os precederam e seus significados.  A julgar pelas imagens que consegui ver das fotos de Vik Muniz no lixão esse deve ser, de fato, um documentário extraordinário e  rico em citações visuais.  Gostarei de vê-lo.

©Ladyce West, Rio de Janeiro: 2011

Uma boa análise do quadro de Jacques-Louis David pode ser encontrada no blog Abstração Coletiva.





O trenzinho da infância leva a Maceió, poesia de Oliveiros Litrento

19 01 2011

Fumareira na estação da Ribeira, em Itapemirim, ES, s/d

Mauro Ferreira ( Brasil, 1958)

óleo sobre tela

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O trenzinho da infância leva a Maceió

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Oliveiros Litrento

Teu namorado pela vida afora,

vou viajando agora pelas matas,

com usinas de cana bordejante

o caminho que vai para Alagoas.

No trenzinho da infância vou chegando

às vilas alagoanas encantadas.

E São José da Lage vai ficando

longe. Logo trem pára em União,

a terra onde nasceu Jorge de Lima.

Satuba, Rio Largo, Fernão Velho:

cidades embalando Bebedouro,

bairro dos pastoris, do Bonifácio

da antiga Maceió, formosa e lírica.

No trenzinho da infância vai passando

o bairro proletário  da Levada

com sururus e cheiro de canoas.

O trem vomita a praia do Sobral

na viagem agora terminando.

Quero rever São Luis, Camaragibe

e conhecer a cidade de Penedo.

Mas fico na Manguaba e o Mundaú.

A meninice, alada como um pássaro,

lâmpada azul de sonho e litoral,

ondula em águas verdes das lagoas

o chão da infância, o meu país natal.

Em:  O Leopardo Azul, Oliveiros Litrento, Rio de Janeiro, Livraria São José: 1965

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Oliveiros Litrento nasceu em S. Luis de Quitunde, Alagoas, em 1923.





A moda:o papel em nossas vidas, na Fashion Week do Rio de Janeiro

13 01 2011

Sally Rosembaum, (EUA, contemporânea), Kathleen minha melhor amiga, óleo.

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Há momentos em que tudo o que fazemos parece convergir numa determinada direção, como se certos assuntos ou ações fossem inevitáveis.  Costumo respeitar essas coincidências e ver o que elas podem me oferecer.   Domingo, na semana em que a Fashion Week começa no Rio de Janeiro, me encontrei lendo com bastante gosto o artigo de  Ulinka Rublack, Renaissance Fashion: The Birth of Power Dressing [Moda na Renascença: o nascimento do vestir para o poder] que foi publicado na revista History Today, de dezembro.

Mathäus Schwarcz com Jakob Fugger, nos escritórios bancários de Fugger, 1517.

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Ulinka Rublack – que é professora na Universidade de Cambridge,  na Inglaterra, de História Européia Moderna — procura apontar para o momento em que a moda passou a ser um item de importância pessoal, que nos distingue e que reforça o status social de cada um.  No processo, ela  nos lembra de uma ou outra figura interessante dos séculos XV e XVI, como Matthäus Schwarz (Augsburgo,1497 – c. 1574).  Esse senhor, cidadão alemão, que trabalhou como contador na famosa firma de Jakob Fugger – [ lembram-se dele?  O primeiro homem a investir no Brasil, em 1503, mandando seu agente Fernão de Noronha para cá? ] —  passou para a história, não por ser um contador extraordinário, mas por ser um apreciador das artes e acima de tudo um dândi.

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Retrato de Mathäus Schwarcz, 1526

Hans Maler ( Alemanha, 1480-1529)

óleo sobre tela, 41 x 33 cm

Museu do Louvre, Paris

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Observando o retrato de Matthäus, mesmo de bandolim na mão, não temos idéia do tamanho de sua vaidade.  Mas o que ele fez de extraordinário, e pelo qual estamos gratos, hoje, cinco séculos mais tarde, foi contratar um artista em 1526 para fazer um livro com todas as roupas que possuía.  Uma espécie de catálogo de suas indumentárias através da vida, que mais tarde ele compilou no que é chamado Klaidungsbüchlein [ O Livro de Roupas].    Foram ao todo 135 aquarelas mostrando suas roupas.  A maioria dessas ilustrações foram feitas por Narziss Renner ( Alemanha 1502-1536) e detalhadamente descritas por Matthäus, de próprio punho.

O livro de roupas de Matthäus Schwarcz.

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Mas Matthäus não ficou só por aí: encomendou duas imagens de si mesmo nu, quando estava no auge de sua boa forma física, dando-se ao trabalho de anotar com precisão a medida de sua cinturinha de vespa.  Ele se preocupava em não ganhar peso que, na sua opinião, era uma indicação de velhice.   Em 1992, o historiador Philippe Braunstein editou a publicação  na França, da autobiografia de Matthäus em um volume, que me parece estar esgotado, mas cuja capa reproduz uma dessas imagens de Matthäus Scwarcz: Un banquier mis à nu : Autobiographie de Matthäus Schwarz, bourgeois d’Ausbourg, Gallimard Jeunesse. [Um banqueiro nu: autobiografia de MatthäusSchwarcz, um burgês de Augsburgo].

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Há detalhes interessantíssimos nas aquarelas e nas descrições: numa das páginas vemos Matthäus com meias vermelhas, acompanhado de um menino, aprendiz de bobo da corte, com um macacão amarelo, com listras pretas.  E  aprendemos também, um pouquinho  sobre nós mesmos, sobre a nossa cultura brasileira: Ulinka Rublack menciona no seu artigo, quando Matthäus saía para cortejar uma donzela levava consigo uma bolsa no formato do coração e da cor verde da esperança.  Portanto a expressão em português usada aqui no Brasil e em Portugal “verde é a cor da esperança” já era usada na Europa no século XVI.

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O livro de roupas de Matthäus Schwarcz.

E foi nesse momento que percebi que os ventos estavam me levando na direção dessa postagem, porque uns dias antes, eu havia relido algumas passagens do livro Magdalena and  Balthazar: an intimate portrait of  life in the 16th century Europe revealed in the Letters of a Nuremberg husband and wife [ Madalena e Baltazar: um retrato íntimo da vida na Europa do século XVI revelado nas cartas de um casal de Nuremberg]; editado e ilustrado por Steven Ozment, Nova York, Simon & Schuster: 1986.  Quem me conhece não deve se surpreender porque sabe que um dos meus passatempos favoritos é a leitura de diários e cartas de pessoas mais ou menos desconhecidas na história.  Não necessariamente as cartas dos reis, mas aqueles diários e cartas de pessoas comuns.

O livro das Boas Maneiras, 1410, De Jacques Legrand, dado a Jean du Berry em 1410, Paris, Bibliothèque nationale, fr. 1023

Passagens das cartas de Madalena para Baltazar vieram à mente.  Numa carta, Madalena escreve para Baltasar que era um comerciante com negócios na Itália e que se encontrava por lá.  Ela mostra os desejos de seu filho: “Você tem que mandar fazer uma bolsa de seda para o Pequeno Baltasar”. Mais tarde:  “O Pequeno Baltasar lhe cumprimenta  e pede a você que lhe traga um par de meias vermelhas e uma bolsa”.  Ainda mais adiante, vemos que o Pequeno Baltasar precisa se sentir à altura de seus colegas ou amigos, porque sua mãe escreve:  “Ele quer  dois pares de meias, um dos quais um precisa ser igual às meias usadas pelos alunos em Altdorf” [ o editor anota que isso queria dizer, meias da cor da pele ou da cor do açafrão].  Como podemos ver pela iluminura do Livro de Boas Maneiras de Jacques Legrand, datado de 1410,  as meias de seda coloridas eram lugar comum na Europa do século XV e XVI.

Retrato de Federico da Montefeltro,  1472

Piero della Francesca ( Toscana, 1416 — 1492)

Óleo sobre madeira, 47 x 33 cm

Galeria Uffizi, Florença

Assim como meias coloridas, chapéus específicos eram objetos de desejo.  O Pequeno Baltasar pede que seu pai lhe traga,  para  a passagem do Ano Novo de 1592, um chapéu.  O pedido demonstra como era importante para ele o uso específico de um determinado modelo de chapéu:  “Querido Pai:  eu imploro que me mande um chapéu coroa italiano para usar na passagem do Ano Novo, prometo que serei bonzinho o tempo todo e que rezarei pelo senhor”.  Não sei como eram os tais chapéus coroa.  Procurei bastante, tanto na internet quanto nas minhas referências em casa, e não encontrei nada específico.  Mas acredito que possa ter sido algo semelhante ao que oDuque de Urbino, Federico da Montefeltro, usava quando retratado por Piero della Francesca em 1472.

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Retrato de jovem, c. 1515

Piero degli Ingannati (Veneza, ativo 1529-1548)

Retrato de Paola Priuli Querini, 1527/28

Palma Vecchio ( Itália, 1480-1528)

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Meias vermelhas, cor de açafrão, casaco de damasco branco, negro, amarelo todos esses detalhes refletiam sim o início de uma grande preocupação com a moda que não estava  limitada ao comportamento janota de Matthäus, da casa Fugger.  Assim como hoje, — e nós aqui  na semana Fashion Week do Rio de Janeiro, ouvimos muito isso  – entre as facetas da moda mais interessantes para o publico em geral, estão as cores da estação.  O mesmo acontecia na época de Mathäus Schwarcz; todos queriam saber da cor da moda.    Ulinka Rublack lembra que amarelo se tornou a cor da moda no início do século XVI, sendo adotada primeiramente pelas pessoas mais abastadas. Por volta de 1520 já quase toda a população de Basel, na Suiça, cidade usada como exemplo, tem itens de vestuário dessa cor.

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Fernando I, de Habsburgo, s/d

Hans Bocksberger, o Velho (Áustria 1510 -1561]

óleo sobre tela, 206 x 109 cm

Museu de  História [Kunsthistorisches Museum], Galeria de Arte

Viena, Áustria

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Assim como hoje, a moda na virada do século XVI também era usada para impressionar.  Acompanhando as peripécias de Matthäus Schwarcz vemos que ele emagreceu alguns quilinhos para estar em forma quando soube que teria a oportunidade de conhecer o Arquiduque Fernando I de Habsburgo, Santo Imperador Romano [1503-1560].  Além disso, ele usou de perspicácia e de psicologia (se bem que essa disciplina não existisse na época) e deixou crescer uma barba, barbeando-se à semelhança do Imperador.  Hoje diríamos que Matthäus usava da técnica de espelhar o imperador, técnica que arrogantemente imaginamos  ser uma “novidade” do mundo da linguagem corporal.  Matthäus conseguiu seu objetivo: o arquiduque gostou e confiou nele.

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Retrato de um homem [ Supeita-se que seja Jan Jacobsz Snoeck],  circa 1530

Jan Gossart, conhecido como Mabuse, (Países Baixos, c. 1478–1532)

National Gallery of Art, Washington DC

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Fez tão boa impressão que o Imperador lhe deu um título, em 1541.  Para comemorar este novo patamar social, teve o seu retrato pintado com um casaco forrado com pele de marta, semelhante ao casaco na pintura de Mabuse, acima.  Este detalhe, a pele de marta, era estritamente reservado às elites: principalmente uma pele como a dele inteiriça, que sabemos medir 60cm e ser toda castanha, por igual, sem manchas.  Como Ulinka Rublack lembra, uma pessoa de menos posses teria um casaco forrado de peles diversas, pequenas, retalhos emendados de diferentes procedências, tamanhos e cores.

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THOMAS_COUTURE_-_Los_Romanos_de_la_Decadencia_(Museo_de_Orsay,_1847._Óleo_sobre_lienzo,_472_x_772_cm)Os Romanos durante a decadência, 1847

Thomas Couture (1815-1879)

Óleo sobre tela,  4,72m x 7,72 m

Paris, Museu d’Orsay

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Na minha época de estudante do Colégio Pedro II a Idade Média era tratada como um grande bloco de séculos sobre os quais se sabia muito pouco.  Estudávamos os feudos como entidades quase estacionárias, cruéis e desumanas.  Essa percepção não era só nossa, brasileira.  Em inglês, por muito tempo, a expressão Dark Ages [Eras Sombrias] era usada para explicar os séculos compreendidos pela queda do Império Romano [476 aD] até a Renascença [1492].  Mais ou menos 1.000 anos.  E a Renascença, esta sim, aparecia milagrosamente, como uma fênix, seus contemporâneos verdadeiros heróis que sozinhos recompunham o universo, ressuscitavam valores e conhecimentos do nada ou do quase nada.

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A universidade medieval.  Desconheço a origem dessa iluminura.

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Mas assim como houve grande avanço nas ciências, na segunda metade do século XX, houve também um avanço enorme no conhecimento sobre esse período obscuro da civilização ocidental, graças às pesquisas e descobertas de estudiosos que garimparam um número enorme de manuscritos; e arqueólogos que não se deixaram levar pela percepção de que não havia nada a ser descoberto.  E aos poucos muito foi trazido à tona. Hoje vislumbramos um período de dez séculos, que não era de todo estagnado, mas um conjunto de sociedades bastante complexas, e muito menos rígidas do que se imaginava quando falávamos dos feudos no período que antecede à Renascença.

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Vendedores de tecidos, em O livro das Boas Maneiras, 1410, de Jacques Legrand, dado a Jean du Berry em 1410, Paris, Bibliothèque nationale, fr. 1023

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O que aconteceu com Matthäus Schwarcz, sua ascensão social,  não foi um resultado exclusivo do investimento que fez em roupas, ou em moda.  Este tipo de marketing pessoal ajudou.  Mas ele provou ter sido um competente contador, pois trabalhava para um dos maiores banqueiros da Europa, Jakob Fugger.  Era também um conhecedor da alma humana, como já vimos, e das artes.  Contrário ao que se acreditava no passado, a mudança de status social era possível no mundo medieval e talvez nem tão rara, principalmente na Idade Média tardia, a partir do século XIV.  O exemplo mais conhecido e documentado de ascensão social é o de Gregório Dati (1362- ?), um homem comum, comerciante de seda, linho, fazendas em geral e pérolas, em Florença.  A leitura de seu diário ajuda a compreensão da ascensão social e econômica  no período da Proto-Renascença, principalmente em se tratando de um homem  sem quaisquer laços com a nobreza ou com as famílias de importância de Florença.  Seu diário, por menor que seja, é repleto de informações curiosas a respeito dos negócios da época e da maneira como ele foi, ao longo da vida, saindo do obscurantismo até obter uma posição social de respeito.  Quantos outros não terão tido semelhante sorte em outras localidades, sem terem deixado lastro?

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Barraca de peixes em feira medieval no Concelho de Constance, na Alemanha, por Ulrich von Richenthal, [1350-60? – 1467], pintada na década de 1460.

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O que notamos da efervescência social no final da Idade Média, digamos de 1350 em diante, são as pequenas amostras de individualidade que pululam aqui  e acolá.  Há um maior número de pessoas que sabe ler e escrever e o comércio, este grande fomentador das mudanças sociais, se intensifica entre pequenos aglomerados, povoados, aldeias e cidades–estado,  incluindo maior contato de todos com produtos diversos e até estrangeiros.  Os não-nobres, os homens comuns, passam a medir a possibilidade de serem apreciados pelas suas próprias características, ao invés de estarem sujeitos exclusivamente aos mandantes da igreja ou do rei.  A ilustração acima, por exemplo, de Ulrich von Richenthal  ( c. 1360- 1467) é um exemplo:  contrário aos costumes da época, Richenthal produziu por conta própria, sem nenhum patrocínio, uma série de desenhos mostrando a vida diária em Constance, como explica Albrecht Classen, no livro Urban Space in the Middle Ages and the Early Modern Age [O espaço urbano na Idade Média e no início da Era Moderna]. E seu orgulho em fazer isso está evidenciado nas linhas de apresentação: “como cidadão e residente de Constance, eu, Ulrich Richenthal, coletei tudo isso.  Eu ou testemunhei tudo isso em pessoa ou ouvi as descrições de religiosos ou pessoas comuns. [a tradução livre, é minha].

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Auto-retrato, 1493

Albrecht Dürer ( Nuremberg 1471 — 1528)

óleo sobre tela, 57 x 45 cm

Museu do Louvre, Paris

Uma outra pista para o aparecimento do “indivíduo” separado da classe social a que pertence é a popularidade do retrato,  da vontade de se ser retratado, para o presente e para a posteridade.  O retrato, como gênero de pintura, havia sido corriqueiro na Roma antiga, seu uso desaparecendo durante a Idade Média.  Mas volta com bastante força, justamente nessa época em que o “indíviduo” começa a se salientar na sociedade que habita, nessa hora em que se começa a dar espaço para exploração dos próprios dotes, das habilidades únicas de cada um.  Albrecht Dürer, o maior pintor da Renascença alemã, é um dos primeiros da classe artesã (essa era a classe dos pintores) a se retratar, uma ato circunscrito aos nobres e abastados.  E se dá a esse luxo diversas vezes na vida, fato até então anômalo no período medieval.

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Retrato de homem, 1500

Ambrogio di Pedris ( Itália, 1455-1508)

óleo sobre madeira, 60x 45 cm

Galleria degli Uffizi, Florença

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Foi justamente nesse período de final do século XV e início do século XVI,  que pessoas comuns, que haviam adquirido mais educação, mais recursos financeiros, que podiam deixar algo para gerações seguintes, com mais tempo de lazer começaram a se preocupar com a noção de posteridade: deixar algo pessoal para seus herdeiros, para as futuras gerações.  Este conceito de posteridade, de perpetuação de uma linha familiar de quem não era nobre  entrou sutilmente, aos pouquinhos, comendo pelas beiradas, no conceito de individualização do período.  E com isso voltamos a Matthäus Schwarcz.  Nos anos de sua adolescência ele foi perguntando aos mais velhos o que vestiam quando eram jovens.  Foi também nesse período que  iniciou um caderno com seus próprios sketches, registrando  suas indumentárias, como um documento para o futuro, para sua própria lembrança.

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Vestimentas na Idade Média.
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Matthäus Schwarcz, apesar do sucesso financeiro e social que obteve,  numa outra época não teria sido uma pessoa importante o suficiente para ter retratos a óleo feitos por artistas habilidosos.  Filho de um comerciante de vinhos, ele estava bem enraizado na classe mercantil.  O que o diferenciou, foi saber fazer um marketing pessoal, usando entre outros meios, o vestuário como ferramenta de ascensão social.   É importante notar que trajes, fora do necessário e funcional, eram dispendiosos.   Mas o vestuário era sempre, como o é hoje, um cartão de visitas.  Os nobres usavam roupas como símbolos de poder e status.  O povo comum se esforçava para “melhorar a aparência” a todo custo, isso não é novidade.   A maioria das pessoas tecia em casa e sabia usar tinturas naturais à base de plantas e minerais para conseguir tonalidades variadas.  Em alguns centros urbanos, as leis suntuárias, que proibiam o uso de excessivo luxo nas vestimentas do homem comum, proibiram  também o uso de certas cores, permitidas só aos nobres.  Na Inglaterra, por exemplo, o uso do tecido escarlate, era prerrogativa da nobreza.  Em toda a Europa, o linho e a lã eram tecidos comuns; algodão e seda eram caros, e mais raros, só aparecendo  com a descoberta de produtos estrangeiros, graças às Cruzadas.  Fazendas aveludadas também eram bastante usadas.  À medida que a classe média aparecia, — como Matthäus Schwarcz demonstra, entre outros — as linhas divisórias entre a nobreza e a classe mercantil se embaralharam, permitindo brechas nessas restrições.

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Matthäus Schwarcz, 1542

Christoph Amberger, (Nurembergue, c. 1500-1562)

óleo sobre tela, 74 x 60 cm

Thyssen-Bornemisza, Madri

Mas Matthäus Schwarcz eventualmente teve que se render aos costumes da época e à medida que envelheceu, fez como todas as pessoas de alguma idade o faziam, vestiu-se de preto e branco, pois não cabia bem a um senhor “brincar” com cores e modelos.  Ele engordou, como podemos ver no retrato de Christofer Amberger.  A Reforma na Alemanha também o afetou e a partir de 1550 o comércio entrou em crise, nos concelhos da Alemanha. Matthäus  Schwarcz, um grande exemplo de homem moderno, que confiou no marketing pessoal, sobreviveu a um derrame [AVC] mas, não temos notícias da data específica de seu falecimento.  Muito devemos a ele, que é lembrado hoje pela extravagância de um catálogo de roupas.  Mas ele também é exemplo da vitalidade econômica e social do início da Renascença, que levará à ascensão da classe média ao poder, logo na segunda metade do século XVI.





Filhotes fofos — Puma

11 01 2011

Um filhote de puma, com oito semanas de idade, brinca do colo de uma tratadora do Zoológico de Cincinnati, nos Estados Unidos.





Nem tudo acaba em pizza…

10 01 2011

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… às vezes acaba em samba!

Música é uma linguagem universal! 

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Divirtam-se!

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NOTA:   Brasil Symphony – Andre Rieu – Live at the Royal Albert Hall, em Londres.





Imagem de leitura — Carlos Ygoa

6 01 2011

Caixa de Entrada, s/d

Carlos Ygoa ( Espanha, 1963)

óleo sobre tela, 73 x 60 cm

Carlos Ygoa (Espanha, 1963) pintor realista especializado em arte sacra tanto para altares como para capelas.  Seu trabalho figurativo inclui naturezas mortas, retratos, paisagens e gênero.  Reside e trabalha em Madri.

http://www.carlosygoa.com/