Bolhas de sabão, poesia de Oliveira Ribeiro Neto, contribuição da leitora Leda Meira

15 03 2011

As bolhas de sabão, s/d

Charles Joshua Chaplin ( Inglaterra, 1825-1891)

óleo sobre tela

Quem acompanha este blog sabe que faz muito tempo que alguns leitores pedem essa poesia.  Coube a leitora Leda Meira descobrí-la e passá-la para mim.  Coloco essa postagem com muito prazer por saber que irá satisfazer a muitos que têm a poesia na lembrança. 

Bolhas de Sabão

                                  Oliveira Ribeiro Neto

—-

Queima o sol do meio-dia.
Feitas de espuma fria
sobem bolhas de sabão
luzentes como estrelas…
E vendo o neto fazê-las,
chora-lhe de saudades o coração.

——

Em tempos há muito passados,
quando era pequenina,
seus olhitos espantados
viam as bolhas amarelas
como as asas daquelas
borboletas dos prados.

E a bolha refletia
os seus sonhos de pequena:
—  um gato branco (que mia),
e uma boneca morena
com grandes olhos de louça…

—-
Mais tarde, quando era moça,
a bolha maravilhosa
não tinha a cor amarela
das borboletas de ouro;
— era toda cor-de-rosa
qual seus sonhos de donzela…


Então via um príncipe bem loiro
de brilhantes coroado
e um castelo encantado!

Depois,  já cansada a vista
e a cabeleira prateada,
a bolha de sabão triste ela via
da cor saudosa da ametista…


… Não mais uma boneca ela queria,
ou um príncipe armado duma espada:
—  Hoje, o espelho de ametista refletia
um céu azul e mais nada…

—-

—-

—-

Pedro Antônio de Oliveira Ribeiro Netto (SP, 1908 – SP, 1989) jornalista, crítico literário, escritor, poeta e tradutor.  Diplomado em letras e em ciências jurídicas e sociais pela Faculdade do Largo de São Francisco, promotor público, juiz, adido cultural do Itamarati, membro.  Foi membro e secretário-geral da Academia Paulista de Letras por 35 anos, tendo sido por três vezes eleito presidente.

União Brasileira de Escritores  —  http://www.ube.org.br/biografias-detalhe.asp?ID=993

Obras:

Dia de sol, poesia, 1928

A Festa do amor, poesia, 1929

Luiz Gama, o libertador, ensaio, 1931.

Vida, poesia, 1932

A Confederação dos Tamoios, ensaio, 1934

Estrela d’Alva, poesia, 1937

A Vida continua, romance, 1939

Canções das sete cores, poesia, 1941

Cantos de glória, poesia,  1946.

Sol na montanha, poesia, 1949

O Natal de Jesus, 1950

Barrabás, o Enjeitado, 1954

Cinco Capítulos das Letras Brasileiras, crítica literária, 1962

O Rei Dom Carlos de Portugal, ensaio, 1964

As Árvores do vale, poesia, 1964

O Romance de Maria Clara, romance, 1965

Arco triunfal,  poesia, 1968

Sicília Poesia, poesia, 1970.

Pastor do Tédio, poesia, 1970

Eu Canto a América, poesia, 1976





O verde do meu bairro: abricó de macaco

14 03 2011

Abricó de Macaco Couroupita guianensis Aubl.; Lecythidaceae]

—-

Uma das grandes vantagens de se morar fora da nossa terra natal é ter olhos diferenciados na volta, olhos “quase estrangeiros” que se deliciam com as coisas que os nativos nem sempre percebem ser tão singulares.  A minha visão do Brasil e do Rio de Janeiro, certamente voltou diferente, e contrário ao que muitos pensam, quase tudo, que nos faz o que somos, é positivo.  O negativo é menor e felizmente corrigível.  Ou seja com uma boa educação conseguiremos resultados ímpares.

A nossa flora, não só a nativa, mas a importada há muitos séculos, como a mangueira, está entre as coisas mais extraordinárias que temos.  E esses exemplos de tropicalismo verde nos enchem os olhos sem que notemos, sem nos darmos conta de que são raros os lugares do mundo com a abundância de variedades de verde presentes  no nosso dia a dia.  Assim sendo, começo hoje pequenas postagens sobre a nossa exuberância tropical, me concentrando nas plantas, nas árvores, naquilo verde que encontro no meu bairro e ruas periféricas que percorro nas caminhadas matutinas.  

—-

Abricó de macaco

Sem dúvida uma árvore esdrúxula.  Não há como negar.  Prestem atenção: é uma árvore alta,  pode chegar aos 30 metros quando em seu habitat natural [as cultivadas são mais baixas],  que dá flores e frutos, não em sua copa, mas em seu tronco.  Florida é um assombro da natureza.  Flores grandes, carnudas e perfumadas: rosadas, com lustro como se fossem enceradas…  As abelhas as adoram.  As mamangabas também.  Ainda bem, porque sem elas, não haveria polinização.   O abricó de macaco dá frutos ao alcance das mãos.  Poderíamos imaginar ser uma árvore de um mítico paraíso, de uma “terra em que se plantando tudo dá”, de um local onde não se precisa nem subir num tronco para colher um fruto.  Mas… nem sempre é assim…  Apesar de serem comestíveis, seus frutos em geral são apreciados só pelos pássaros e animais:  quando maduros, a polpa exala um cheiro muito desagradável aos seres humanos.  Assim os frutos, que são bem grandes, redondos com quase 20 cm de diâmetro, e podem pesar 3 kg, são deixados ao léu.  O fruto tem uma casca meio dura, como uma casquinha de árvore e tem a mesma cor,  mas a polpa é bastante apreciada por pássaros e … macacos.   Daí o nome:  abricó de macaco.

É nativa do Brasil.  Da Amazônia.  Pensem bem, que outro lugar do mundo poderia ter tanto charme?  Porque ela é amazônica,  também é nativa dos nossos vizinhos:  Peru, Equador, Colômbia, Guiana, Suriname,  e Venezuela.

—-

Por causa de seus frutos pesados e do mau cheiro das polpas maduras, não é recomendado o uso dessas árvores para calçadas, para lugares próximos às residências.  Mesmo assim o Rio de Janeiro tem um número muito grande dessas árvores ladeando ruas.  A da foto está na Praça Santo Dumont, na Gávea.

De acordo com FLORES NA WEB, para produção de mudas:

Recolher os frutos no chão logo após sua queda natural, quebrando-os manualmente para a retirada das sementes imersas na polpa suculenta. Para isso, lava-se a polpa em água corrente dentro de uma peneira, separando-se as sementes e deixando-as secar a sombra. Um kg de sementes contém aproximadamente 3500 unidades. Sua viabilidade em armazenamento é inferior a 120 dias. Para obtenção de mudas, colocar as sementes para germinação logo que colhidas e preparadas em canteiros semi-sombreados ou diretamente em embalagens individuais contendo substrato organo-argiloso (solo vegetal argiloso com esterco bem curtido). Cobri-las com uma camada de 1 cm do mesmo substrato peneirado e irrigar duas vezes ao dia. A emergência ocorre em 8-15 dias e a taxa de germinação é geralmente superior a 80%. Após 5-7 meses com as mudas alcançando 6-10 cm de altura já podem ser levadas para o plantio no local definitivo. O desenvolvimento das plantas no campo é rápido, podendo atingir 3,5 m de altura aos 2 anos.





Para uma estátua — poesia de Gracia Levine

13 03 2011

Mulher sentada, cerca de 1890

Jean-Léon Gerome ( França 1824-1904)

Mármore policromado

Museu do Instituto de Arts de Detroit

—–

—–

Para uma estátua

                                           Gracia Levine

—-

Acorda!

É meia-noite!

A lua brilha no teu mármore branco.

—-

Nua,

teu rosto deitado

nos braços

dobrados sobre os joelhos erguidos,

ninguém está aqui, agora,

para olhar-te

em teu pedestal.

—-

Em: Poesia Simplesmente, [coletânia de diversos poetas] com prefácio de Roberto Pontes, 1999





Notas familiares: Revolução de ’32

12 03 2011
Batalhão de Pouso Alegre, MG

FOTO: Empório de notícias.

—-

—-

Quem visita este blog já sabe que tenho predileção por ler diários e publicações de pessoas comuns;  quero saber como viviam, do seu dia a dia, e se possível, ter a noção de como reagiram a eventos históricos.  Acho que qualquer período ganha tridimensionalidade, quando conseguimos ter muitas visões de como as coisas aconteceram; quando usufruimos da interpretação das mais diversas fontes…  Foi com essa intenção que em 2008, coloquei aqui as anotações sobre a Revolução de 1932, que meu avô, Gessner Pompílo Pompêo de Barros, fizera quando trabalhava nos Correios e Telégrafos de Itapetininga, SP.     Hoje volto ao assunto, mas com as observações do Diário de Vera, um capítulo do livro A família de Guizos: história e memórias de Ivna Thaumaturgo [ Ivna Thaumaturgo Mendes de Moraes Duvivier].  Nascida em 1915, ela é neta do marechal Gregório Thaumaturgo de Azevedo, primeiro chefe de uma comissão mista Brasil-Bolívia encarregada de demarcar a fronteira entre esses países e neta, por parte de pai, do general Feliciano Mendes de Moraes.  A família era toda de militares sendo Ivna filha do futuro marechal Miguel Salazar Mendes de Moraes.   Como as observações de meu avô aqui postadas anteriormente,  essas também não dão qualquer informação de fatos históricos além do que já se conhece, mas dão um “gosto” da época.  

Em 1932, Miguel Salazar  Mendes de Moraes,  estava em Itajubá como comandante do 4º Batalhão do Exército.   Assim a família eventualmente se muda para essa pequena cidade mineira de grande importância geográfica.  A descrição abaixo acontece nessa cidade.

—-

—-

Antiga Itajubá, foto: Bruno Casarini/Flicker.  Bruno Casirini Grillo

—–

—-

9 de Julho de 1932

Estive hoje na praça com Moraes e presenciamos um pequeno meeting ocasionado pelo falatório que partia de um café.  Aproximando-me, pude notar a voz aguda de um locutor que avisava ao Brasil inteiro que São Paulo fizera uma revolução.  O tenente Valença e sua mulher Amália estavam em frente, num banco da praça, e ouviram atentos, enquanto ele tomava notas de tudo que ouviam.  No entusiasmo que se apossou dela, dizia: “Vai, Valença, vai, se você morrer fica um herói. “

À noite esteve em nossa casa dona Luiza Lebon, nora do Dr. Wenceslau Braz, com o marido, dr. Mário Braz.  Trouxeram um convite para irmos à sua fazenda em Campos do Jordão.  Papai, que não é muito dado a passeios resolvidos por outros, não prometeu aceitar, não mostrou mesmo nenhuma vontade de aderir ao tal convite, apesar dos nossos pedidos para que fosse.  Por fim, para que não o amolássemos mais, disse que não iria e nem nos deixaria ir.

Não falamos mais no assunto e fomos dormir.

De madrugada veio um soldado trazendo para papai um telegrama.  Imediatamente ele saiu, depois de ter se fardado apressadamente.

De manhã, soubemos, pela mamãe, que ele fora chamado no quartel porquanto rompera uma revolta em São Paulo, sendo necessária a presença do comandante e oficiais no quartel, para as mais urgentes providências.

Tomamos café sem papai, que não virá em casa enquanto não se normalizar a situação.  O mesmo está acontecendo com os outros oficiais, cujas esposas vêm todas para nossa casa à procura de conforto, pois somos calmas e otimistas.  Desde já vemos os governistas vencendo os paulistas, apesar de dizerem que estes são valentes e estão armados até os dentes.

Hoje vi um oficial amigo do papai que disse que seguirá breve para São Paulo para combater as forças do general Klinger, que avançam.  Apareceu também aqui pela manhã a Luiza Lebon, que se mostrou muito penalizada por não poder levar avante o passeio e entrou logo no assunto da revolução.  Vimos logo que era uma “revolta”, assim como o seu sogro e todo o povo mineiro.  Encheu-nos de boatos e afirmou que os paulistas avançavam, dispostos a tomar os quartéis de Minas.  Mamãe ficou aflita e tocou o telefone oficial para o papai, que se limitou a dizer para não acreditarmos em boatos, pois ia tudo muito bem.  Luiza Lebon, vendo que nada arranjava, começou a diminuir suas visitas, até que desapareceu.  Ela queria ver se conseguia “sublevar” o batalhão.  E o tal convite feito às pressas?  Não seria para afastar o papai daqui e colocá-lo na boca do lobo?

—-

—-

Itajubá, Estação de trens.

FOTO: ESTAÇÕES FERROVIÁRIAS

—–

—-

No terceiro dia da revolta, começaram a chegar tropas do Rio e de Juiz de Fora.  Os trens passavam repletos de soldados muito bem equipados que, apesar de irem para o front, mostravam grande indiferença e sangue-frio dizendo adeus todos risonhos.  Dirigiam-se para o B/E, onde ficarão alojados até seguir viagem para as linhas de frente. O 28º B.C. desembarcou aqui pela manhã e o 4º R.C.D. à tarde, ficando alojados no Grupo Escolar recentemente acabado de construir.  Os mineiros estão furiosos…  Inventam horrores dos soldados governistas, dizendo que roubam nas horas vagas.  O mais engraçado é que o dr. Wenceslau não cumprimenta a família Mendes de Moraes.  Os boatos continuam cada vez mais ferozes.  Vovó, lá do Rio, anda aflita, pois, conforme nos mandou dizer, ouviu o rádio anunciar a prisão do major Mendes de Moraes em São Paulo, quando saía de um café…  Fala-se no embarque do B/E para Itapira, a fim de construir pontes rapidamente, pois os paulistas estão bombardeando tudo para impedir a passagem dos governistas.  Diariamente chegam tropas de todas as partes do Brasil.  Até do Norte chegaram duas companhias do Batalhão de Caçadores.  Vemos sempre o trem chegando, pois a estrada passa bem atrás da nossa casa.  Agora estamos ficando mais tristes porque a viagem para Itapira está senda marcada para muito breve.

Papai já chegou a Itapira e de lá escreveu duas cartas cheias de novidades.  Recebemos também um retrato ótimo tirado pelo tenente Braga, onde ele aparece no novo QG. 

Sempre que se apresenta um portador, mandamos os melhores petiscos feitos em casa.  Os tijolinhos de milho da mamãe vão em primeiro lugar.   Da mesma forma, sabemos, quando os oficiais vêm de lá gozando um período de férias, das novidades do front.   Há dias tivemos a visita do Arquimedes, filho do subcomandante Masson Jacques, que contou haver tomado parte num feroz combate.  Disse que os paulistas jogaram um canhão dos governistas pela ribanceira abaixo e mais tarde, quando foi iniciado o tiroteio, eles gritavam do morro onde  estavam entrincheirados.

— Vem pra cá, seus tolos!  Lutem por São Paulo!

20 de julho de 1932

Este mês tem sido bastante difícil para mamãe, que anda assustadíssima porque papai partiu para Campinas com o fim de reconstruir uma linda ponte bombardeada pelos revoltosos paulistas e causou a morte de seis soldados, entre os quais um do batalhão que tinha sido promovido a cabo por merecimento. 

Papai mandou  por um mensageiro apetrechos dos soldados prisioneiros durante um combate em Mogi-Mirim.  Capacetes de aço novinhos, cinturões, cantis etc. e uma caixa de papelão que continha um pão de forma, uma lata de carne em conserva e um papel escrito em letras vermelhas:  Refeição de emergência para a trincheira.

Papai brevemente estará de volta, graças a Deus.  Romualdo e Morato passaram por aqui, trouxeram boas notícias.  Os dois estavam barbados, gozadíssimos!

………

Em:  A família de guizos: história e memória, de Ivna Thaumaturgo, Rio de Janeiro, Ed. Civilazação Brasileira, 1997.





Pirilampos, poesia infantil de Henriqueta Lisboa

12 03 2011

Ilustração, Vagalumes, de Leslie Harrington.

—-

—-

Pirilampos

—-

Henriqueta Lisboa

—-

Quando a noite

vem baixando,

nas várzeas ao lusco-fusco

e na penumbra das moitas

e na sombra erma dos campos,

piscam piscam pirilampos.

São pirilampos ariscos

que acendem pisca-piscando

as suas verdes lanternas,

ou são claros olhos verdes

de menininhos travessos,

verdes olhos semitontos,

semitontos mas acesos

que estão lutando com o sono?

—-

—–

—-

—-

Henriqueta Lisboa (MG 1901- MG 1985), poeta mineira. Escritora, ensaísta,  tradutora professora de literatura,  Com Enternecimento (1929), recebeu o Prêmio Olavo Bilac de Poesia da Academia Brasileira de Letras.  Em 1984, recebeu o Prêmio Machado de Assis da Academia Brasileira de Letras pelo conjunto de sua obra.

Obras:

Fogo-fátuo (1925)

Enternecimento (1929)

Velário (1936)

Prisioneira da noite (1941)

O menino poeta (1943)

A face lívida (1945) — à memória de Mário de Andrade, falecido nesse ano

Flor da morte (1949)

Madrinha Lua (1952)

Azul profundo (1955);

Lírica (1958)

Montanha viva (1959)

Além da imagem (1963)

Nova Lírica ((1971)

Belo Horizonte bem querer (1972)

O alvo humano (1973)

Reverberações (1976)

Miradouro e outros poemas (1976)

Celebração dos elementos: água, ar, fogo, terra (1977)

Pousada do ser (1982)

Poesia Geral (1985), reunião de poemas selecionados pela autora do conjunto de toda a obra, publicada uma semana após o seu falecimento.





A Batalha de Confete de 1907 — fotos da Revista Kósmos

8 03 2011

Batalha de Confete, Avenida Beira-Mar, Rio de Janeiro, sem indicação de autor, Revista Kósmos, fevereiro de 1907. 

—-

—-

Esta postagem é baseada nas fotografias de uma das Batalhas de Confete  ( a de 1907) – essa era uma das festividades do  Carnaval no Rio de Janeiro do início do século XX.    O costume de nomear alguns festejos de Momo como Batalha de Confete,  ou ainda de Batalha de Flores, deriva do carnaval francês da cidade de Nice (sul da França), onde, há mais de duzentos anos, se realiza a Batalha de Flores, hoje em dia no sábado que antecede a Terça-feira Gorda.  Lá, o costume de desfilarem carros alegóricos cobertos de flores no Carnaval resiste até hoje.  Duas dezenas de carros desfilam pela Promenade des Anglais cobertos por diferentes flores numa homenagem antecipada à chegada da primavera no hemisfério norte. 

Batalha de Confete, Avenida Beira-Mar, Rio de Janeiro, Baía de Guanabara, ao fundo o Morro da Urca e o Pão de Açúcar.  Foto sem indicação de autor, Revista Kósmos, fevereiro de 1907.

—-

—-

No Rio de Janeiro as Batalhas de Confete mais documentadas foram em sua maioria organizadas no passeio da Avenida Beira-Mar, ao longo da Baía de Guanabara, nos primeiros anos do século passado.    Era um evento que proporcianava aos mais abastados a possibilidade de também participarem dos 3 dias de folia, demonstrando que,  desde então, o Carnaval era  universal e que o verdadeiro espírito carnavalesco contagiava a todos, cada qual brincando e interpretando a folia à sua maneira.   A Batalha de Confete, seguia de perto o ritual estabelecido na França:  carruagens,  e mais tarde carros motorizados,   desfilavam enfeitadas com flores e bonecos.  Era um evento totalmente familiar, sem as características licensiosas e mordazes de outras manifestações do Carnaval carioca.

—-

—-

Carruagens enfileiradas, trançadas pelas centenas de serpentinas, desfilam na Batalha de Confete do Carnaval de 1907, na  Avenida Beira-Mar, Rio de Janeiro.  Foto sem indicação de autor, Revista Kósmos, fevereiro de 1907.

—-

—-

Em fila, ao longo do bairro da Glória, tendo o Pão de Açúcar como pano de fundo, ainda sem bondinho, carruagens e carros particulares passeavam enfeitados, como se fossem pequenas prévias dos grandes carros alegóricos de carnavais futuros.   Nessas carruagens, as famílias – em geral fantasiadas – iam de um ponto ao outro da avenida, cumprimentando-se de uma maneira “carnavalesca”:  jogavam confete uns nos outros, flores em pequenos ramos ou até mesmo serpentinas.   

—-

—-

Carruagens perfiladas na Batalha de Confete do Carnaval de 1907,  organizada pelo jornal Gazeta de Notícias, na  Avenida Beira-Mar, Rio de Janeiro.  Foto sem indicação de autor, Revista Kósmos, fevereiro de 1907.

Apesar de o costume das Batalhas de Confete já existir antes de 1907, data das fotografias aqui  mostradas, foi a inauguração da Avenida Beira-Mar, se unindo, próximo ao Passeio Público com a Avenida Central [ hoje avenida Rio Branco] , em 1906, que deu maior ímpeto ao evento. 

Duas observações de interesse: 

1 —  Hoje, a Batalha das Flores em Nice, na França, sofre uma influência ao inverso.  A música tocada na sua abertura é em geral brasileira, assim como muitas das belas mulheres desfilando dentro dos carros alegóricos e floridos são brasileiras.

2 — A  tradição dos carnavais de Nova Orleans, nos EUA, também evolve das Batalhas de Flores francesas.  Na cidade americana, até hoje, carros alegóricos passam por entre a multidão na rua e ao invés de flores, são distruibdos,  jogados aos traseuntes,  pequenos colares de contas coloridas.





Tradições, Mário Pederneiras, texto integral, Revista Kósmos, 1907

8 03 2011
Carnaval na Avenida Central, hoje Avenida Rio Branco no centro da cidade do Rio de Janeiro, 1907.  Sem autoria, em: Kósmos, revista artística, científica e literária, Ano IV, número 2, Fevereiro de 1907, Rio de Janeiro. [Apesar da autoria não estar registrada na revista, o leitor Felipe P. Rissato, ajudou na identiicação, a foto é de Augusto Malta].

Tradições

Mário Pederneiras

—  Vem daí, meu velho carioca impenitente, vamos dar a perna por esta linda Avenida, na súcia barulhenta dessa desafogada multidão que se diverte;  vem daí.

Ampara-te à suave elegância do meu braço feminino, junta-te à minha alegre companhia de mulher galante, e vamos apreciar o Carnaval nas Avenidas novas e nas novas Ruas largas.  Talvez, temas comprometedoras  apreciações à tua consideração de homem sério e  ponderado, talvez…  Mas, com todos os diabos, não estamos no Carnaval?  Na época da loucura clássica, do disfarce, do riso e da bela pândega?  Vem daí …  Demais, através do lindo disfarce deste pequeno “loup” de seda branca e desta provocadora fantasia guizalhante de “clowness”,  ninguém reconhecerá a incorrigível companheira das tuas antigas troças, nos teus áureos tempos de moço e folgazão.  Vem daí, que te vou mostrar coisas novas e civilizadas, nunca vistas por ti, nunca imaginadas por aqueles que, como tu, emperraram na ferrugem das Tradições e das Saudades incompreensíveis.

Daqui deste ponto extremo, junto do Mar, ao lado da tradição encantadora do teu lindo Passeio Público, sob a esquisita exclamação invertida deste obelisco, rola o teu olhar, eternamente saudoso, tristonhamente contemplativo, por toda a larga extensão de toda a linda Avenida e repara, repara bem, na delícia dessa perspectiva.

Que coisa linda já viste, que este povo em festa, feliz e despreocupado, percorrendo esta encantadora rua larga e iluminada?

O ar não sufoca; circula livre e fartamente de Mar a Mar, de extremo a extremo, e a multidão não se comprime, não se esmaga, não se fere, como nos detestáveis apertos da tua celebrada rua do Ouvidor, quente da luz asfixiante daqueles celebérrimos arcos de gás, embaciada da poeira imunda da rua e dos confetes.

Era assim, no teu tempo, o Carnaval?  Não, não era.  Tinha sempre a nota desagradável dos apertos, a tristeza lúgubre das iluminações incompletas e o incômodo detestável das ruas estreitas.

—-

—-

Batalha de Confete na Avenida Beira-Mar, no Rio de Janeiro, em 1907.  Foto sem autoria, em: Kósmos, revista artística, científica e literária, Ano IV, número 2, Fevereiro de 1907, Rio de Janeiro.

—-

Dos confins do Distrito, dos extremos pitorescos da Gávea, dos limites rurais de Inhaúma, todo uma festiva massa de povo, abalava para os suadores inevitáveis das nossas velhas ruas.

Lembras-te, meu velho carioca, da tristeza tormentosa desse espetáculo?  Era um povo inteiro que se martirizava, que se machucava, que se feria, que brigava para se divertir, apertado e sufocado entre as altas paredes rijas do nosso detestável casario.

E do meio da voz estrídula dos cornetins carnavalescos, dos falsetes dos mascarados, quantas e quantas vezes, partiam gritos de dor, guinchos nervosos de faniquitos femininos, trovões de vozerio paterno em ralho à troça garota dos mal educados…

E hoje?  Repara; é toda uma enorme Multidão festiva que se estende desafogadamente pelo vasto caminho da Avenida, que se espraia pelas ruas largas, sem apertos, sem incômodos, sem suor.

Tudo mudou, tudo.  Na rajada destruidora da nossa Civilização rápida, lá se foram os velhos hábitos do teu imundo Rio aldeão e primitivo.  Há roupas claras, cassas leves e transparentes, escondendo carnações alarmantes.  Os “Panamás” triunfam e os leves chapéus de palha ganharam, vitoriosamente, todo o terreno.

As manhãs não vestem mais a seda custosa dos grandes dias e os papás no comando supremo das legiões familiares, não têm mais a temer a insolência das vaias, o ataque agressivo às “jacas” e à integridade moral de sua venerável figura de funcionário.

Nem uma sobrecasaca, repara, nem uma cartola.  Ficaram ambas no descanso feliz das moradias, prontas apenas para as solenidades das missas fúnebres e dos enterros dos considerados e dos medalhões; e em breve, tu mesmo, hás de ver, sem espanto, sem mágoa, que esses dois elementos supremos da estética burguesa dos vestuários, passarão para o rol das coisas fantásticas, e, talvez, quem sabe, tu mesmo, à noite, no descanso caseiro, a acalentar teus filhos, hás de acrescentar às lendas encantadoras da família, as histórias espantosas de homens que andavam, em pleno Sol, sob o mais lindo Céu azul, “envoltos na tristeza venerável de uma sobrecasaca preta, cobertos pelo cilindro lustroso de uma cartola espelhante”.  E os teus pequenos hão de arregalar os olhos, trêmulos de medo, e de espanto, diante daquele horror, e daquele… tormento.

—-

E como tudo muda, meu velho carioca, também mudou o Carnaval e a própria alegria de hoje, nestes três dias loucos, é mais franca, mais sonora, mais sadia.

Bem sei.  Não temos hoje o luzimento fantástico daqueles préstitos custosos das nossas Sociedades carnavalescas.  Não temos, bem sei; mas temos a alegria no Povo e o bom humor de toda uma População desafogada e feliz.  Sentes a falta daquele luxo oriental, daquele desperdício fabuloso de lantejoulas e fogos de bengala, daquela luxuriosa exposição de Carne, da luxúria tentadora dos “maillots”, das largas pinceladas de bistre daquelas olheiras profundas, e da profusa orgia dos carmins.   Tens razão, tens razão.  O Carnaval mudou, mas tu ganhaste, na comodidade, no bom calçamento e na boa iluminação.  Aqui estamos, a palestrar, vai para uma hora, comodamente, sem encontrões e sem apertos, sem suor e sem rolos.  Pois, não é tão bom?  No íntimo, na intimidade do teu velho sentimento, das tuas recordações arcaicas, eu percebo, meu velho, a tua grande e imorredoura das apoteoses frenéticas de aplausos, com que tu, e os teus camaradas d’antanho, saudavam os “Democráticos”, os “Fenianos”, os “Tenentes”, a “Peruana”, a “Phrynéa”, afogados num delírio de um entusiasmo vermelho, bufando de calor e pó, grupados, apertadamente, às portas estreitas do “Castelões” e do “Londres”, ou às esquinas tortuosas de Gonçalves Dias e Uruguaiana.

Deves também sentir a falta incompreensível do teu saudoso Zé Pereira, atordoando os ares com aquele incansável  zabumbar alegre e forte.  O Zé Pereira era a sinfonia do Carnaval.  Punha formigueiros às pernas trêfegas dos cariocas, remexia-lhes o corpo em desengonço e bamboleios e acendia-lhes no olhar a chama rubra do prazer.

Meses antes, tu já o ouvias, a maior parte das vezes, pelos morros em passeatas de ensaio, e o rufo miúdo daquelas caixas, o bater compassado e seco daqueles bombos, era o sinal da alegria que vinha, da loucura que se aproximava, da florescência vermelha das festas clássicas de Momo.

Hoje, tens a te consolar a infindável série dos nossos melancólicos  “cordões”, de todas as cores, de todos os nomes.

Sim.  Deves achá-los tristes, com a eterna melopéia da suas toadas, a primitividade das suas danças, a Musa desengonçada dos seus Versos e a incompreensível fantasia dos seus vestuários.

Pois, meu caro, são os dominadores do Carnaval e o torneio dos Poetas.

Contenta-te com a alegria do Povo, que é mais franca, mais sadia do que nos teus chorados tempos que lá vão.

Vês?  Há máscaras pelas ruas, tétricos e aborrecidos, como se estivessem a cumprir a mais solene das obrigações.  Mas isso sempre foi assim; o máscara avulso foi sempre em todos os tempos, a expressão mais exata da insipidez e do desalento.

Bem sei, que a figura rubra dos travessos “diabinhos” antigos, tinha mais graça, mais vida, do que a palhaçada grotesca desses “clowns” de agora, repisando pilhérias de circo de lona.

E os teus “velhos”, os mestres inigualáveis da agilidade das letras, com seus “carões” enormes fantasticamente enrugados e feios, o luxo das suas vestes de veludo e lantejoulas e o seu longo bastão de papel dourado?

E o “pai João”, imundamente ridículo, pintado a piche, falando no arreveso da linguagem africana, agarrado à vassoura tradicional.

São tipos que passaram para o domínio da Tradição, para o esbatimento saudoso das boas recordações.

Em compensação, tu hoje tens…, tu tens… tens o… tens a Avenida, o fon-fon dos automóveis, a luz elétrica, o bom calçamento, as ruas largas, enfim, todo este suntuoso Carnaval que estamos apreciando.

 —-

—-

Vem daí.  Faz-se tarde e ambos devemos estar cansados .  Vem daí, que por hoje já nos divertimos regaladamente e eu, com franqueza, sinto-me cheia de Sono e de insipidez.

E aflautando a voz, a linda companheira de troças e loucuras do meu tempo de moço e folgazão, perguntou, num falsete desembidamente carnavalesco e cansado:  “Você me conhece?  Eu sou a Folia”.

 —

A Cidade começava a repousar, exausta das loucuras do dia.

De longe, por aquela hora calada de noite alta, vinha o rumor sonolento e sentimental do reco-reco de um “cordão” em retardo.

— Que coisa lúgubre!  — E abalei para casa.

2 – 907

[Texto integral, mas com grafia atualizada para facilitar a leitura.  A ilustração inicial, seguia o texto de Mário Pederneiras sem, no entanto,  estar ligada ao texto.  Foto em preto branco, sem autoria.  As outras fotos são do mesmo número da Revista Kósmos, mas pertencem a outros ensaios fotográficos, que tampouco aludem a um fotógrafo O espaçamento irregular dos parágrafos está de acordo com o texto original.]

Em:  Kósmos, revista artística, científica e literária, Ano IV, número 2, Fevereiro de 1907, Rio de Janeiro.

 —

Mário Veloso Paranhos Pederneiras (Rio de Janeiro, 1867 — Rio de Janeiro, 1915), conhecido com Mário Pederneiras, escritor, ensaista, poeta e teatrólogo.  Sua obra sempre chegada às situações da vida diária, o colocam próximo dos cronistas de época, ainda que seu verso tenha proximidade do simbolismo.  Estreou na imprensa por volta de 1878, como colaborador  do jornal (estudantil)  O Imparcial, do Grêmio Literário Artur de Oliveira, no Rio de Janeiro.  Foi fundador, com Gonzaga Duque e Lima Campos, diretor e redator das revistas:  Rio Revista, Galáxia, Mercúrio e Fon-Fon.

Obras:

Agonias, poesia, 1900

Rondas noturnas, 1901

Histórias do meu Casal, 1906

Ao léu do sonho e à mercê da vida, 1912

Outono, 1914 (póstuma)





O coração, poesia infantil de Walter Nieble de Freitas

2 03 2011

Crianças e coração, s/d

Romero Britto ( Brasil, 1963)

—-

—-

O coração

                             Walter Nieble de Freitas

—-

Trago no peito uma joia

Pequenina, delicada,

Tão pequenina que lembra

Esta mãozinha fechada.

Nela se aninha a bondade,

O carinho, a gratidão;

O seu nome tem poesia,

Pois se chama coração.

Não pensem que ele foi feito

Com gemas de alto valor:

É um presente de Deus

Esta obra prima de amor!

—–

Numa cadência de marcha,

Bate sempre sem parar,

Como se fosse um pandeiro

Que não para de vibrar.

Mas se eu faço travessuras,

Meu coração contrafeito,

Muda o compasso e transforma

Em batucada o meu peito!

—-

Em: Barquinhos de Papel: poesias infantis,  de Walter Nieble de Freitas, São Paulo, Editora Difusora Cultural: 1961

—-

—–

Walter Nieble de Freitas ( Itapetininga, SP)  Poeta e educador, foi diretor do Grupo Escolar da cidade de São Paulo.

Obras:

Barquinhos de papel, poesia, 1963

Mil quadrinhas escolares, poesia, 1966

Desfile de modas na Bicholândia, 1988

Simplicidade, poesia, s/d

Chico Vagabundo e outras histórias, 1990





Papa-livros, leitura para março: O Africano, de J. M. G. Le Clézio

28 02 2011

 

Meio-dia, s/d

Adrian Deckbar ( EUA, contemporânea)

Pastel,  100 x 130 cm

www.adriandeckbar.com

—-

—-

Leitura para MARÇO,  discussão a partir do dia 21.

—–

—–

—–

—-

SINOPSE

—-

Neste livro, o escritor françês Le Clézio (1940) tenta capturar a enigmática figura do pai através das lembranças de uma infância ao mesmo tempo cheia de deslumbramentos, libertações e dureza.   Ele nos leva para uma longa viagem à África, de 1928 até muito além do final da Segunda Grande Guerra.  A história é narrada por um homem que, pelas lembranças, refaz o caminho de seu pai durante as mais de duas décadas em que este trabalhou como médico militar nas colônias inglesas do continente africano. O livro também é uma tentativa do narrador de compreender sua infância dividida entre a Europa e a África e o difícil primeiro encontro com o pai aos oito anos de idade. A narrativa que, como outras do autor, mescla traços autobiográficos e ficcionais, une as emoções desse pai e desse filho num curto e profundo relato sobre a herança que invariavelmente nos é transmitida, como afirma o próprio autor na primeira frase do livro: “todo ser humano é resultado de pai e mãe”.

Editora Cosac & Naif

Ano: 2007

ISBN: 8575035894

Páginas – 136

—-

Nota: o autor recebeu o Prêmio Nobel de literatura em 2008.





Minha cama — poesia infantil de Sérgio Capparelli

26 02 2011

Hipopótamo na banheira

Adam Fryda  (Inglaterra, contemporâneo)

gravura 20 x 16,5 cm

www.adamfryda.co.uk

Minha cama

                                                 Sérgio Capparelli

Um hipopótamo na banheira

molha sempre a casa inteira.

A água cai e se espalha

molha o chão e a toalha.

E o hipopótamo: nem ligo

estou lavando o umbigo.

E lava e nunca sossega,

esfrega, esfrega e esfrega

a orelha, o peito, o nariz

as costas das mãos, e diz:

Agora vou dormir na lama

pois é lá a minha cama!

Sérgio Capparelli (MG, 1947) é um escritor de literatura infanto-juvenil, jornalista e professor universitário.

VEJA O PORTAL DO AUTOR:  http://www.capparelli.com.br/