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Um dos três porquinhos, ilustração Walt Disney.
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Se desejas ser feliz,
seja qual for tua crença,
pratica o bem todo dia
sem esperar recompensa.
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(Carlos Torres de Faria)
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Um dos três porquinhos, ilustração Walt Disney.–
Se desejas ser feliz,
seja qual for tua crença,
pratica o bem todo dia
sem esperar recompensa.
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(Carlos Torres de Faria)
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Jovem preceptora, 1885
John Dawson Watson (Inglaterra, 1832-1892)
aquarela e guache, 19 x 14 cm
Coleção Particular
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John Dawson Watson nasceu em 1832. Estudou na Manchester School of Design e na Royal Academy. Estabeleceu-se em Londres em 1860, onde trabalhou como ilustrador e aquarelista seguindo os passos de seu cunhado e de Myles Birket Foster, um amigo também artista. Contribuiu para revistas tais como Good Words e London Society. Foi também o ator de uma esplêndida edição de O Peregrino para o editor George Routledge em 1861 além de contribuir com desenhos e ilustrações para a antologia English Sacred Poetry em 1862. Em 1877, uma retrospectiva de sua obra foi organizada em Manchester. Viveu em Conway em North Wales, e lá morreu em 1892.
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A New York Review of Books de domingo passado trouxe um artigo de James Gleick [Wikipedia’s Women Problem] sobre o sistemático desaparecimento dos nomes femininos das listas de escritores americanos, na Wikipedia. Melhor explicando: alguém, ou mais de uma pessoa, estava editando a Wikipedia, retirando cuidadosamente os nomes de mulheres das listas de escritores americanos em geral e passando esses mesmos nomes para uma lista específica de ‘Escritoras Americanas Mulheres’. Ou seja, as escritoras do sexo feminino não seriam encontradas na lista titulada ‘Escritores Americanos’, mas unicamente na lista ‘Escritoras Mulheres Americanas’, como se uma nota em separado, como se houvesse dois pesos e duas medidas. Haveria então um “teto de vidro” ou uma separação de qualidade nas listas encontradas na Wikipedia? Aparentemente sim. Houve é claro uma grande reação a respeito do assunto.
Esse incidente traz ao debate a questão se em algumas áreas ainda se faz necessária a separação das conquistas femininas daquelas feitas por homens. A discriminação contra o sexo feminino se fez por quase toda a história da humanidade. O estudo em separado das conquistas femininas foi essencial para descobrirmos valores esquecidos, para dar às mulheres exemplos dignos de serem seguidos, nas carreiras profissionais que escolhem. A introdução da mulher educada no mercado de trabalho, característica do século XX, quando a mulher ganhou também o controle da natalidade, abriu uma enormidade de questões relacionadas à identidade e a auto-estima para mais da metade da população mundial. Essas novas circunstâncias que trouxeram poder de controle para cada mulher sobre como gostaria de construir sua vida, fizeram necessária uma total reconsideração da história e reavalições direcionadas exclusivamente às mulheres.
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Foi justamente por causa desses estudos femininos que pudemos descobrir pintoras como Artemisia Gentileschi e Lavínia Fontana; escritoras como Charlotte Perkins Gilman e Kate Chopin [ é interessante lembrar que ainda no século XIX, mulheres de talento se sentiam na obrigação de se esconder sob cognomes masculinos para poderem ser publicadas, como aconteceu com George Sand ( Amandine Aurore Lucile Dupin) e George Elliot — (Mary Ann Evans)]. Por que seria importante descobrirmos esses valores? Porque as novas gerações, de mulheres, essas que tomam conta de suas próprias vidas, como qualquer outro ser humano, precisam de exemplos em que se mirar, de sentir que fazem parte de um todo, de uma comunidade, de uma continuidade. Deixar obscuro o passado de pessoas exatamente como elas seria roubá-las de um contexto histórico universal.
Mas recentemente, quando foi anunciada a lista dos livros finalistas para o prêmio Woman Prize for Fiction [ex-Orange Prize] a restrição, a ênfase no gênero dos escritores concorrentes, me pareceu anacrônica. Seria ainda necessária tal segmentação na literatura? Parecia, na minha opinião, que já estávamos alguns passos além dessa questão. Dei uma olhadela rápida nos premiados dos últimos 25 anos do Man Booker Prize e encontrei 9 prêmios para escritoras, sendo que desde 2000 as mulheres ganharam 4 vezes (Hilary Mantel levando o prêmio duas vezes). O resultado é pobre. Sim, ainda precisamos dar estímulo às mulheres. Porque somos mais da metade da população mundial. Se considerarmos todos os autores finalistas para o mesmo prêmio as estatísticas mudam. Um pouco. As mulheres ainda não chegam a ser metade dos autores finalistas. A cada ano são seis autores finalistas. De 2000 para 2012 então tivemos 72 nomeações, das quais só 24 autoras diferentes sendo que quatro delas Hilary Mantel (2), Sarah Waters (3) Ali Smith (2) e Margaret Atwood (2) foram nomeadas mais de uma vez. Mas estamos progredindo.
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É um erro comum vermos a Wikipedia como autoridade máxima do saber, atribuir a ela a mesma correção de dados que assumimos haver numa Enciclopédia Britânica ou num Larousse. Não é. É diferente. É um conquista, sem dúvida. Se eu não acreditasse nela, não seria uma contribuinte ocasional para o seu conteúdo. Gosto de saber que ela democratiza o conhecimento, fato importante para países como o Brasil em que a educação formal é precária mesmo nos grandes centros urbanos. Ela democratiza porque a educação, o conhecimento, é uma barreira à ascensão social. Mas aconselho a todos que a consultem de verificar por outros meios a veracidade dos fatos lá listados, pois há erros. Não poucos. Alguns significantes. E há também preconceitos.
Por exemplo, a Wikipedia em português com entradas no Brasil tem um viés de esquerda na escolha de verbetes comum nos meios universitários locais. Basta, por exemplo, vermos o verbete sobre Fidel Castro onde apesar de uma substancial página com diversas informações, em nenhum local, em absolutamente nenhum parágrafo, descreve-se o sistema de governo implantado em Cuba e não se faz referência à falta de eleições no país. E se clicamos no link Anticastrismo, vemos pérolas tais como “Segundo os anticastristas, Castro converteu Cuba numa ditadura, onde as liberdades fundamentais são negadas (inclusive o direito de associação e expressão).” Yoani Sánchez, a blogueira que nos visitou recentemente, cubana, moradora da ilha, educada pelo regime Castrista teria grande dificuldade em reconciliar o verbete sobre Fidel Castro com o que sabe ser a realidade de seu país; assim como a dúvida gerada na descrição do anticastrismo da falta de liberdade de expressão em Cuba, inferindo a existência de um preconceito, essa mesma blogueira teria dificuldade em aceitar tendo tido sua liberdade posta em risco, mais de uma vez, justamente por tentar exercer esse direito.
Assim, usar as informações da Wikipedia deve ser feito com cautela. Como no resto do mundo digital, fica o aviso: todo cuidado é pouco. Examine, procure outras fontes.
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Beleza italiana vendo livro no ateliê, 1886
Pieter Oyens (Holanda, 1842-1894)
óleo sobre tela, 101 x 77 cm
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Carlo Dossi
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Cidade Maurícia em Pernambuco, c. 1640
Zacharias Wagener (Holanda, 1614-1668)
Aquarela sobre papel, fonte para a:
Prancha 107 do Thierbuch
Kupferstich-Kabinet em Dresden
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O boi do Melchior Álvares foi, naqueles primeiros tempos do governo de Nassau, um dos seres mais célebres de Pernambuco.
Talvez nunca tivesse havido no mundo um boi mais manso, mais dócil, mais vagabundo e mais garoto.
Por onde o dono andava, andava ele também. Se o Melchior entrava em uma casa, lá ficava o boi à porta, à espera, como um cachorrinho.
As crianças amavam-no, as moças davam-lhe guloseimas à janela. Um mimo! Se alguém lhe pronunciava o nome, lá ia o bicho muito contente a seguir quem lhe fazia agrados.
O boi do Melchior devia ter nascido boi por engano; havia na sua maneira de ser os traços característicos de um legítimo rafeiro.
E foi realmente um escândalo no Recife e na cidade de Maurícia quando a notícia rebentou. Anunciava-se que , na noite da inauguração da ponte que Nassau concluía, ligando Maurícia ao Recife, haveria um número do programa absolutamente sensacional – o boi do Melchior voaria das janelas de um sobrado para outro sobrado fronteiro.
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Tereza Costa Rêgo (Brasil, 1929)
acrílica sobre madeira, 440 x 160 cm
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A gente de Pernambuco conhecia o bovino afamado como uma figura amável e boêmia. Mas todo mundo o tinha como boi; ninguém podia acreditar que, de uma hora para outra, tivesse ele adquirido virtudes de andar pelos ares como os pássaros. Seria algum milagre, algum truque ou logro?
O príncipe Maurício de Nassau foi realmente o homem mais extraordinário que pisou no Brasil.
Com aquela imensa cultura que se pode dizer superior à época, aquela penetração de espírito que nenhum homem público teve ainda, com uma lucidez acima do tempo, o gosto pelas artes e por tudo o que era idéia avançada, nascera evidentemente para reformador de povos.
Ao chegar a Pernambuco para cuidar dos negócios da Companhia das Índias Ocidentais, ferviam os ódios dos brasileiros contra os holandeses. Os partidos traziam ainda as armas nas mãos. Nassau teve a felicidade de compreender o momento. E compreendeu-o colocando os interesses populares acima dos interesses da empresa mercantil a que servia.
Em pouco tempo Pernambuco era seu até o fundo do coração.
Alma de artista, fibra de homem de estado, fidalgo até o âmago da alma, a sua ação em Pernambuco foi a mais generosa e rutilante. A terra dos heróis do arraial de Bom Jesus deu a impressão de que a tocara a varinha de uma fada. Tudo se fazia como nas mágicas e nos contos azuis.
Era uma febre de crescer. Nos areais e nos pântanos da ilha de Antonio Vaz o bom gosto do príncipe erguera, como por encanto, a suntuosidade do palácio das Torres. Em pouco tempo, a ilhota até então imprestável, cresceu e brilhou como a mais linda cidade holandesa do Brasil.
Desde os tempos de Petrônio que sempre foi prova de inteligência dar festas ao povo. Nassau era homem de uma suprema agudeza de espírito. O parque magnífico do palácio das Torres vivia aberto ao público em festas fulgurantes. Dentro daquele pomar cheiroso em que se erguiam mais de setecentos coqueiros, com um laranjal trescalante, romãzeiras e flores, aves vistosas, regatas e esguichos de água, o povo esquece de que estava sendo explorado por uma companhia mercantil, para lembrar-se apenas de que tinha a governá-lo a alma generosa de um grande artista.
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Maurício de Nassau e a lenda do boi voador, s/d
André Cunha (Brasil, 1972)
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Erguido o palácio das Torres, florescendo da noite para o dia a cidade de Maurícia, era necessário uma ponte que ligasse o Recife à nova cidade. O transporte por meio de canoas era um sinal de atraso.
A ponte é orçada em 240.000 florins. O engenheiro mete mãos à obra mas só três pilares consegue erguer. Antes de chegar ao maio do caminho desanima. Parece-lhe inexeqüível a ponte pela imensa largura do braço de mar que separa as duas cidades. Para Nassau não há impossíveis. A engenharia fizera-se justamente para vencer dificuldades. E, ele próprio toma conta dos trabalhos. Em dois meses a armadura da ponte estende-se e avança unindo a velha cidade à nova.
Pernambuco inteiro preparava-se para a grande festa da inauguração. O Brasil flamengo estava em paz. A habilidade do príncipe tinha feito o milagre de congraçar os dominados e os dominadores. Os mais altos vultos da resistência pernambucana viviam já no Recife em contato e uma boa amizade com os membros do Conselho Administrativo. No palácio das Torres, Nassau recebia à sua mesa, os mais heróicos defensores do arraial de Bom Jesus. Já o bom bendizia a ocupação holandesa na figura fidalga e gentil do príncipe.
Nassau queria dar à festa um cunho de intensa popularidade. A sua maior preocupação em Pernambuco foi ser bem querido do povo.
Aquele anúncio de que o boi do Melchior iria voar era justamente para interessar o grande publico.
E interessou. O recife encheu-se da gente dos arredores e dos engenhos longínquos.
Seria possível um boi voar?! O boi do Melchior era um boi diferente dos outros bois e quem sabia lá se o demônio do bicho não tinha a habilidade das aves?
A festa da inauguração da ponte que ligava a cidade nova `velha tivera o brilho que sempre caracterizara as festas de Nassau.
Tanta gente passou de uma margem à outra que, só naquela tarde, a ponte rendeu 1.800 florins ao preço de dois soldos – ida e volta, por cabeça.
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Bruno Matos (Brasil, contemporâneo)
Xilogravura, 15 x 20 cm
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À beira da praia ergueram-se palanques para as damas e gente grada; músicas tocavam em coretos; sob toldos multicores distribuíam-se refrescos e guloseimas. O Capiberibe fulgia, refletindo as luminárias.
O vôo do boi do Melchior era o último número do programa.
Às dez horas da noite sentia-se o rumor da ansiedade do povo.
— O boi, o boi!!
E o boi não aparecia.
Eram quase onze horas quando se ouviu na multidão um longo clamor. Era o Melchior que aparecia seguindo o bovino manso.
A onda popular deslocou-se fervilhando.
O Melchior parou à porta de um sobrado. A multidão acompanhou-o. Era dali que o boi ia voar.
O povo acotovelava-se. O Melchior entrou. O animal, a um sinal do dono, entrou também. A porta fechou-se.
Lá em cima, na janela do sobrado o Melchior surgiu olhando para o alto, como que a sondar os ares em que o seu boi ia voar.
E sumiu-se.
Embaixo a multidão silenciosa esperava premida.
Passam-se muitos minutos. Nas varandas do sobrado não aparece mais ninguém.
O povo inquieta-se.
— O boi! o boi !!
O Melchior tornou a vir à janela, espalmando a mão direita para baixo. Que esperassem, era um instante!
Momentos depois o chavelhos de um boi surdiram na janela e depois do chavelhos o pescoço e depois do pescoço o resto. Toda a gente reconheceu:… era o bovino do Melchior. E o diabo do bicho foi subindo, subindo e caminhando devagarinho no ar, como se tivesse voando na direção do sobrado fronteiro.
A multidão, de olhos erguidos, silenciara num estatelamento.
Mas de súbito, uma gargalhada estalou. Uma outra e outra, num segundo toda a rua e toda a gente era um gargalheiro desabalado.
Todos tinham compreendido o truque. O boi voador o do Melchior. Era um boi empalhado, admiravelmente feito, imitando na cor e no tamanho do boi garoto e boêmio. Voava, mas preso por arames invisíveis à noite.
E foi uma pândega. Não houve um desgosto naquela noite. Nassau teve o prazer de ter dado uma festa tão ao sabor do povo, o povo a alegria de a ter gozado, o Melchior a ventura de passar à história com o seu boi.
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Em: Terra de Santa Cruz: contos e crônicas da História Brasileira, de Viriato Corrêa, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira:1956
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Senhoras elegantes e homens na praia, 1926
Gerardus Hendrik Grauss (Holanda, 1882-1929)
óleo sobre tela, 73 x 98 cm
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Gerardus Hendrik Grauss nasceu em Middelburg em 1882 e faleceu em Den Haag em 1929.
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Menina do espelho, 2008
Inha Bastos (Brasil, 1949)
óleo sobre tela, 50 x 50 cm
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Vaidade e status social de uma mulher que viveu há aproximadamente 4.500 anos, no que hoje é a Inglaterra, são provavelmente as causas das joias encontradas com seu esqueleto em Windsor na Inglaterra. Carinhosamente chamada de “Rainda de Kinsmeade” — Kingsmead é o local próximo a Windsor onde foi descoberta — esta mulher, foi encontrada em sítio explorado por arqueólogos de Wessex. Suas joias, como lembram os cientistas, devem ter sido símbolos de sua afluência e importância para a sociedade em que vivia.
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Domínio do Povo dos Copos.–
O pouco que restou de seus ossos, aparentemente corroídos pela acidez do solo, deixou que se concluísse ser uma mulher de aproximadamente 35 anos. Foi enterrada usando um colar com contas de ouro intercaladas com contas de lignite. No túmulo também foram encontradas contas de âmbar, perfuradas, que podem ter sido botões da vestimenta que usava quando enterrada. E parece ter usado também um bracelete de contas negras.
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Copos de barro encontrados no túmulo do arqueiro de Amesbury.–
Por causa de um copo encontrado ao seu lado, é possível que “a rainha de Kinsmead” tenha pertencido ao Beaker Folk [Povo dos Copos] uma cultura com raízes na península ibérica que dominava com grande técnica a manufatura de artefatos de cobre e de ouro. O Povo dos Copos era assim chamado por fazer uso de copos, provavelmente para beber cerveja ou outra bebida fermentada. Por volta de 2400 a.C. o Povo dos Copos dominou toda a península ibérica, parte do sul e do norte da França, a Alemanha, as terras onde hoje encontramos a Holanda e a Bélgica, a costa da Sardenha e Sicília, a Irlanda e o sul da Inglaterra. Pessoas desse povo eram frequentemente enterradas com todo tipo de pertences incluindo copos de barro. É quase certo que esse senhora fosse de fato mulher de prestígio pois tinha pertences que seriam raros e exóticos.
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Contas de ouro encontradas no local.
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Análise de seus pertences colocam a origem do ouro provavelmente na Irlanda, a do lignite no leste da Inglaterra e o âmbar podendo ser de um lugar tão longínquo quanto o Báltico.
Recentemente o sítio em Kingsmead tem sido fonte de grandes descobertas para a arqueologia britânica. Em março de 2013 noticiou-se a existência de um pequeníssimo vilarejo – um grupo de quatro casas vizinhas — algumas das casas mais antigas já descobertas na Inglaterra, construído aproximadamente há 6.000 anos. Essas casas, cujas grossas e pesadas fundações sobreviveram, algumas com pilastras de apoio, assim como a fonte para o fogo do lar – local da lareira – sugerem casas substanciais, altas com um mezanino provavelmente para a estocagem de grãos e outros alimentos durante o inverno. Devem ter sido construídas por volta de 3.800 a 3640 a.C. e todas tinhas subdivisões em cômodos internos. A maior dessas casas mede 17 x 7 m. E todas tinham telhado de sapê.
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Estudo mais detalhado dos objetos encontrados com a “rainda de Kingsmead” certamente trarão mais detalhes sobre o povoamento da Inglaterra na Idade do Bronze.
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FONTES: GUARDIAN — “Rainha de Kinsmead”; GUARDIAN — Casas de sapê ; WSHC
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O Circo chinês, publicação póstuma, c. 1820-30
Gaetano Zancon (Itália, 1771-1816)
gravura
Publicada em: Le Costume Ancien et Moderne
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Eça de Queirós
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Fomos até as entradas das pontes sobre os canais, onde saltimbancos seminus, com máscaras simulando demônios pavorosos, fazem destrezas dum picaresco bárbaro e sutil; e muito tempo estive a admirar os astrólogos de longas túnicas, com dragões de papel colocados às costas, vendendo ruidosamente horóscopos e consultas de astros. Oh! cidade fabulosa e singular! De repente ergue-se uma gritaria! Corremos: era um bando de presos, que um soldado, de grandes óculos, iam impelindo com o guarda-sol, amarrados uns aos outros pelo rabicho! Foi aí nessa avenida que em vi o estrepitoso cortejo de um funeral de Mandarim, todo ornado de auriflamas e de bandeirolas; grupos de sujeitos fúnebres vinham queimando papéis em fogareiros portáteis; mulheres esfarrapadas uivavam de dor, espojando-se sobre tapetes; depois erguiam-se, galhofavam e um cule vestido de luto branco servia-lhes logo chá, de um longo bule em forma de ave. Ao passar junto ao Templo do Céu, vejo apinhada num largo uma multidão de mendigos, as mulheres com os cabelos entremeados de velhas flores de papel, roíam ossos tranquilamente; e cadáveres de crianças apodreciam ao lado, sob o vôo dos moscardos. Adiante topamos com uma jaula de grades, onde um condenado estendia, através das grades, as mãos descarnadas à esmola… Depois Sá-Tó mostrou-me respeitosamente uma praça estreita; aí sobre pilares de pedra, repousavam pequenas gaiolas contendo cabeças decapitadas; e, gota a gota, ia pingando deles um sangue espesso e negro…
– Uf! – exclamei, fatigado e aturdido. – Sá-Tó, agora quero o repouso, o silêncio, e um charuto caro…
Ele curvou-se: e, por uma escadaria de granito, levou-me às altas muralhas da cidade, formando uma esplanada que quatro carros de guerra a par podem percorrer durante léguas.
E enquanto Sá-Tó, sentado num vão de ameia, bocejava, num desafogo de cicerone enfastiado, eu fumando contemplei muito tempo aos meus pés a vasta Pequim…
É como uma formidável cidade da Bíblia, Babel ou Nínive, que o profeta Jonas levou três dias a atravessar. O grandioso muro quadrado limita os quatro pontos do horizonte, com as suas portas de torres monumentais, que o ar azulado, àquela distância, faz parecer transparentes. E na imensidão do seu recinto aglomeram-se confusamente verduras de bosques, lagos artificiais, canais cintilantes como aço, pontes de mármore, terrenos alastrados de ruínas, telhados envernizados reluzindo ao sol; por toda a parte são pagodes heráldicos, brancos terraços de templos, arcos triunfais, milhares de quiosques saindo de entre as folhagens dos jardins; depois espaços que parecem um montão de porcelanas, outros que se assemelham a monturos de lama; e sempre a intervalos regulares o olhar encontra algum dos bastiões, de um aspecto heróico e fabuloso…
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Imperador Ch’Ien Lung carregado em triunfo, publicação póstuma, c. 1820-1830
Gaetano Zancon (Itália, 1771-1816)
gravura
Publicada em: Le Costume Ancien et Moderne
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A multidão, junto a essas edificações grandiosas, é apenas como grãos de areia negra que um vento brando vai trazendo e levando…
Aqui está o vasto palácio imperial, entre arvoredos misteriosos, com os seus telhados de um amarelo de ouro vivo! Como eu desejaria penetrar-lhe os segredos, e ver desenrolar-se pelas galerias sobrepostas, a magnificência bárbara dessas dinastias seculares!
Além ergue-se a torre do Templo do Céu, semelhando três guarda-sóis sobrepostos: depois a grande Coluna dos Princípios, hierática e seca como o gênio mesmo da raça: e adiante branquejam numa meia-tinta sobrenatural os terraços de jaspe do Santuário da Purificação…
Então interrogo Sá-Tó: e o seu dedo respeitoso vai-me mostrando o Templo dos Antepassados, o Palácio da Soberana Concórdia, o Pavilhão das Flores das Letras, o Quiosque dos Historiadores, fazendo brilhar, entre os bosques sagrados que os cercam, os seus telhados lustrosos de faianças azuis, verdes, escarlates e cor de limão. Eu devorava, de olho ávido, esses monumentos da Antiguidade asiática, numa curiosidade de conhecer as impenetráveis classes que os habitam, o princípio das instituições, a significação dos cultos, o espírito das suas letras, a gramática, o dogma, a estranha vida interior de um cérebro de letrado chinês… Mas esse mundo é inviolável como um santuário…
Sentei-me na muralha, e os meus olhos perderam-se pela planície arenosa que se estira para além das portas até aos contrafortes dos montes mongólicos; aí incessantemente redemoinham ondas infindáveis de poeira; a toda a hora negrejam filas vagarosas de caravanas… Então invadiu-me a alma uma melancolia, que o silêncio daquelas alturas, envolvendo Pequim, tornava de um vago mais desolado: era como uma saudade de mim mesmo, um longo pesar de me sentir ali isolado, absorvido naquele mundo duro e bárbaro: lembrei-me, com os olhos umedecidos, da minha aldeia do Minho, do seu adro assombreado de carvalheiras, a venda com um ramo de louro à porta, o alpendre do ferrador, e os ribeiros tão frescos quando verdejam os linhos…
Aquela era a época em que as pombas emigram de Pequim para o Sul. Eu via-as reunirem-se em bandos por cima de mim, partindo dos bosques dos templos e dos pavilhões imperiais; cada uma traz, para a livrar dos milhafres, um leve tubo de bambu que o ar faz silvar; e aquelas nuvens brancas passavam como impelidas de uma aragem mole, deixando no silêncio um lento e melancólico suspiro, uma ondulação eólica, que se perdia nos ares pálidos…
Voltei para casa, pesado e pensativo.
Ao jantar, Camilloff, desdobrando o seu guardanapo, pediu-me com bonomia as minhas impressões de Pequim.
– Pequim faz-me sentir bem, general, os versos de um poeta nosso:
Sôbolos (*) rios que vão
Por Babilônia me achei …
– Pequim é um monstro! – disse Camilloff oscilando refletidamente a calva. – E agora considere que a esta capital, à classe tártara e conquistadora que a possui, obedecem trezentos milhões de homens, uma raça subtil, laboriosa, sofredora, prolífica, invasora… Estudam as nossas ciências… Um cálice de Médoc, Teodoro!… Têm uma marinha formidável! O exército, que outrora julgava destroçar o estrangeiro com dragões de papelão donde saíam bichas de fogo, tem agora táctica prussiana e espingarda de agulha! Grave!
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Em: O Mandarim, Eça de Queirós, publicado em 1880, em domínio público.
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(*) Nota da peregrina: sôbolos é uma contração de ‘sobre os’, encontrada em Camões, de onde são estes versos citados por Eça de Queirós – mas a palavra também aparece mais recentemente no título do livro de Antônio Lobo Antunes, Sôbolos rios que vão, publicado em 2010, que é uma citação direta dessa redondilha de Camões (**).
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(**) A redondilha de Camões:
“Sobolos rios que vão
Por Babilônia m’achei,
Onde sentado chorei
As lembranças de Sião,
E quanto nela passei.
Ali o rio corrente
De meus olhos foi manado;
E tudo bem comparado,,
Babilônia ao mal presente
Sião ao tempo passado.”
(Versos 1-10)
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Cânion do Rio Blyde, s/d
Mabel Withers (África do Sul, 1870-1956)
aquarela, 16 x 25 cm
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Tanta gente tentou definir o sentimento que os franceses chamam de Mal d’Afrique, que de fato é uma doença. Os ingleses nunca tiveram uma definição para ele, acho que porque jamais gostaram de admitir que, de algum modo, estavam sendo ameaçados por este continente. Obviamente porque preferiam a idéia de governá-lo a de ser governados por ele.
Só agora compreendo como esse sentimento é uma forma de deteriorização. É como uma rachadura na madeira que vai avançando lentamente. Pouco a pouco ele se torna mais e mais profundo, até finalmente separar você do resto. Um dia você acorda e descobre que está flutuando sozinho, virou uma ilha independente arrancada de sua terra natal, de sua base moral. Tudo já aconteceu enquanto você dormia, e agora é tarde demais para tentar qualquer coisa: você está aqui fora não há retorno. Essa é uma viagem só de ida.
Contra sua vontade, você é obrigado a experimentar o horror eufórico de flutuar no vazio, suas amarras rompidas para sempre. É uma emoção que corroeu lentamente todos os seus vínculos, mas é também uma vertigem constante a que você nunca vai se acostumar.
É por isso que um dia você tem de voltar. Porque agora você não pertence mais a lugar nenhum. A nenhum endereço, casa ou número de telefone de nenhuma cidade. Porque uma vez que tenha estado aqui, pairando solto ao Grande Nada, você nunca mais vai ser capaz de encher seus pulmões com ar suficiente.
A África o observou e o arrancou do que você era antes.
É por isso que fica querendo fugir, mas sempre terá de voltar.
Depois, é claro, há o céu.
Não há céu tão grande quanto este em nenhum outro lugar do mundo. Ele paira sobre você, como uma espécie de guarda-chuva gigantesco e lhe tira o fôlego. Você fica achatado entre a imensidão do ar sobre sua cabeça e o chão sólido. Ele cerca você por todos os lados, 360 graus, céu e terra, um o reflexo aéreo do outro. O horizonte aqui não é mais uma linha plana, mas um círculo sem fim, que faz sua cabeça rodopiar. Tentei descobrir que artifício existe por trás deste mistério, porque não vejo razão alguma para haver mais céu num lugar que noutro. Não fui capaz, contudo, de descobrir qual é a ilusão de óptica que torna o céu africano tão diferente de qualquer outro céu que você tenha visto na vida. Poderia ser o ângulo particular do planeta no Equador, ou quem sabe o modo como as nuvens flutuam, não acima da sua cabeça, mas bem diante de seu nariz, pousadas na borda mais baixa do guarda-chuva, logo acima do horizonte. Essas nuvens à deriva, que redesenham constantemente o mapa: num relance você pode ver uma tempestade se armando no norte, o sol brilhando no leste e, no oeste, um céu cinzento, que fatalmente vai azular-se a qualquer minuto. É como se centrar diante de uma gigantesca tela de televisão, assistindo a uma previsão do tempo cósmica.
Você está viajando para o norte, rumo ao NFD, o legendário North Frontier District, e de repente é como se estivesse olhando a paisagem com um binóculo virado ao contrário. As últimas lentes grandes-angulares, que comprimem o infinito dentro de seu campo de visão. Seus olhos nunca lançaram um olhar tão amplo. Terra plana que se estende por todo o caminho até o distante perfil púrpura do Matthews Range e depois, exatamente quando você pensava que o espaço terminara, precisamente quando imaginava que a paisagem iria se fechar de novo à sua volta, que você iria se sentir menos exposto, uma outra cortina se ergue para revelar mais vastidão, e seus olhos ainda não conseguem divisar o seu fim.
Mais terra se estirando obedientemente sob seus pneus, oferecendo-se para ser trilhada. As maracás das suas rodas tornam-se a bandeira interminável de sua conquista. Você enche os pulmões com o cheiro seco de pedras quentes e poeira e tem a impressão de estar aspirando o universo.
Você se vê enquanto entra nessa geometria grandiosa, absoluta: você não passa de um pontinho diminuto, uma partícula minúscula que avança muito lentamente. Agora você se afogou no espaço, é obrigado a redefinir todas as proporções. Uma palavra que não lhe ocorria há anos lhe vem à mente. Ela brota de algum lugar dentro de você.
Você se sente humilde. Porque a África é o começo.
Não há abrigo aqui: nenhuma sombra, nenhuma parede, nenhum teto sob os quais se esconder. O homem nunca se deu ao trabalho de deixar sua marca na terra. Só choupanas minúsculas feitas de palha, como ninhos de aves que o vento vai varrer facilmente.
Você não pode se esconder.
Aqui está você, sob esse sol causticante, exposto. Você percebe que tudo com que pode contar agora é o seu corpo. Nada do que aprendeu na escola, com a televisão, com seus amigos brilhantes, com os livros que leu, vai ajudá-la.
Só agora você se dá conta de que suas pernas não são fortes o bastante para correr, suas narinas não são capazes de cheirar, sua vista é fraca demais. Percebe que perdeu todos os seus poderes originais. Quando o vento sopra o cheiro acre de búfalo no seu nariz, um cheiro que você nunca tinha sentido antes, você reconhece o instantaneamente. Você sabe que o cheiro sempre esteve aqui. O seu, por outro lado, é o resultado de muitas coisas diferentes, de filtro solar a dentifrício.
Le mal d’Afrique é vertigem, é corrosão e, ao mesmo tempo, é nostalgia. É um desejo de retornar à infância, à mesma inocência e o mesmo horror, quando tudo ainda era possível e cada dia poderia ter sido o dia da sua morte.
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Em: As leis da selva, de Francesca Marciano, tradução de Maria Luiza X. de A. Borges, Rio de Janeiro, Record: 2001, pp: 20-23