São Paulo perde de cabeça erguida! Revolução 1932

23 10 2008

4 de outubro de 1932

 

 

Eu não sei fazer um juízo exato do móvel da revolução de 9 de julho.

 

A revolução encabeçada por São Paulo e seguida por Mato Grosso, dizia-se constitucionalista.  Entretanto, também o governo provisório dizia-se constitucionalista e o Brasil todo o é inegavelmente, e, apesar de tudo, o Brasil todo veio combater São Paulo e Mato Grosso, ao lado do governo central.  Para mim, como expliquei na nota do dia 11 de julho, a revolução foi precipitada pelo Gal Klinger e não foi um movimento constitucionalista no seu íntimo.  São Paulo não podia nem devia pegar em armas pela constitucionalização do país, no dia 9 de julho, uma vez que na época da eleição já se achava marcada pelo governo para 3 de maio do ano vindouro, data com a qual São Paulo já tinha concordado.  O governo provisório, por seu turno, fez mal em aceitar a luta com São Paulo, sem parlamentar com ele, ou ceder um pouco no  prazo do pleito eleitoral, pois, se ele governo, é constitucionalista, não lhe ficava bem tentar abafar pelas armas, um movimento que se dizia ser pela restauração da constituição e da lei eleitoral.  A luta armada só poderia retardar o advento da lei.  Empenhando-se nela, São Paulo, que se dizia constitucionalista, retardava a constitucionalização do país; tentando abafá-la pelas armas, o governo federal que se diz também pela volta da constituição ao país, prolongava o regime ditatorial e prolongava-o com sérios prejuízos ao país, morais, materiais e de vidas preciosas que se iam tombando na guerra entre irmãos.  Logo, nem o governo federal é pela constituição, nem São Paulo fez revolução de caráter constitucionalista.  O motivo da revolução deve ser outro.

 

São Paulo é um povo que cultua um justo orgulho do seu valor cívico, moral, material, intelectual.  Rico, poderoso, populoso, o maior estado do Brasil, que tinha no seu escudo o famoso – non ducor, ducoˡ – achava-se humilhado pela sua ocupação militar desde outubro de 1930.  Essa humilhação prolongava-se e seu orgulho crescia dia a dia.  Sua ira transbordou-se; e, sem motivo plausível, sem uma justificativa séria, pegou em armas, resoluto, para ver se abreviava a constitucionalização do país pela força.

 

A luta armada foi cruenta.  São Paulo todo se mobilizou, e pode dizer-se que o Brasil teve a 9 de julho sua primeira revolução.  Foi uma verdadeira guerra.  Guerra de trincheira, encarniçada, feroz, violenta, demorada.  Guerra de aviões, medonha, implacável.  Guerra verdadeira, na extensão da palavra, porque todos se prontificaram para os combates e tudo foi mobilizado: civis, militares, velhos, crianças, mulheres, índios de Mato Grosso, comerciantes, professores, industriais, alunos, funcionários, etc.  Fábricas trabalhavam dia e noite confeccionando fardamentos, pólvoras, balas, munições em geral.  Fabricaram-se granadas, tanques, carros blindados.  E São Paulo mobilizou cerca de 120.000 homens para a luta e mandou-os para as trincheiras.  O comércio e o povo ajudaram muito.  Subscrições populares se abriram para a compra de tudo.  E o soldado paulista tinha de tudo: roupas, fardamento completo, coletes de lã, cache-cols, capas impermeáveis, capacetes de aço, cobre-capacetes, capacetes de cortiça, cobre-orelhas, bom passadio, alimentação abundante, tudo que se possa imaginar. 

 

E o mais notável em tudo foi a elevação moral do soldado.  Os paulistas iam para as trincheiras, cantando!  Os lares se abriam para soltarem os voluntários, principalmente no norte do estado (aqui em Itapetininga reinou mais o desânimo).  As cartas todas (pela censura se via) eram, com raríssimas exceções, cartas de coragem.  O povo dava dinheiro, jóias, alianças para a vitória de São Paulo. 

 

Vivemos em São Paulo, como anotei no outro dia, o tempo pretérito da antiga e aguerrida Sparta.  Tal qual a espartana que não queria saber se o filho morrera, mas unicamente se Sparta vencera, a paulista em geral recomendava ao marido, ao filho, ao irmão que partia: não voltes sem a vitória de São Paulo!

 

Essa luta foi mantida pelo orgulho do paulista.  São Paulo lutou quase três meses.  Cedia terreno pouco a pouco, quando já não podia resistir o inimigo muito mais numeroso e melhor armado.  Sabia que ia perder a campanha.  Sabia-o, mas atirava-se novamente à sangrenta guerra.  Era um delírio.  Havia qualquer coisa de louco no procedimento do povo paulista, ou qualquer laivo de suicídio em massa.

 

Formavam-se batalhões e batalhões de voluntários.  Fabricavam-se granadas de mão.  Mobilizaram-se batalhões de granadeiros.  Inventaram-se aparelhos lança-chamas e canhões lança-minas, e dizem que fabricaram gases lacrimogêneos, asfixiantes e mais uma outra espécie de invenção paulista que não chegou a ser usada. 

 

Foi a primeira revolução do Brasil, porque as anteriores não se comparam com dois dias desta de 9 de julho.  A verdade é que São Paulo forneceu à historia pátria uma página que pode traduzir leviandade de conduta, precipitação e orgulho, mas também traduz no seu reverso, um exemplo edificante de união, coesão e força. 

 

Apesar de ter havido uma série de traições à causa que São Paulo defendia, traições à coesão, em parte justificadas pela ausência de motivo plausível para semelhante luta fratricida, apesar disso, pode dizer-se que o povo esteve na sua grande maioria unido, nos dias mais amargos e tétricos, sentindo prazer dessa união na desgraça, parecendo repetir aquela frase de Hugo: S’aimer dans l’affliiction, c’est le bonheur du malheur!²

 

♦♦♦♦♦♦♦♦♦♦♦

 

NOTAS:

 

1 – NON DUCOR DUCO = expressão em latim: não sou conduzido, conduzo.  Presente na bandeira de São Paulo

 

2 – [Tradução da frase de Vitor Hugo: Amar-se nos momentos dolorosos é a felicidade da infelicidade].

 

 

 

Transcrição do Diário de Gessner Pompílio Pompêo de Barros (MT 1896 – RJ 1960), Itapetininga, SP, página 151-156 em referência à Revolução Constitucionalista de 1932.

 

 

 

 





O engenho do ovo… poesia infantil de Wilson W Rodrigues

22 10 2008
Engenho de açúcar, MEC

Engenho de açúcar, MEC

 

O Engenho do Ovo…

 

                        Wilson W Rodrigues

 

A madrinha era pobre,

tão pobre, que no batizado,

um ovo bem pequenino

deu de presente ao afilhado.

 

Do ovo nasceu uma pintinha,

que de pinta se fez franga,

e de franga se fez galinha

com olhinhos de sapiranga.

 

A galinha deu ninhada,

que encheu o galinheiro,

e vendendo essa ninhada

o rapaz ganhou dinheiro.

 

Com o dinheiro comprou um porco,

que matou para vender;

então comprou uma bezerra

que como ele estava a crescer.

 

A bezerra se fez vaca

e no rapaz a barba cresceu.

A vaca deu tanto filho,

que o rapaz enriqueceu.

 

E agora já bem taludo

dono de grande criação,

o rapaz comprou Engenho

como era sua ambição.

 

De um ovo de batizado,

dado com todo empenho,

um felizardo afilhado

acabou senhor de engenho.

 

Wilson R. Rodrigues

 

Vocabulário:

 

Olhos de sapiranga – olhos sem pestanas

Nunhada – todos os pintos que nascem de uma vez

Taludo – crescido, forte

Ambição – desejo

Empenho – boa vontade

Senhor – dono

 

Em:

 

Leituras Infantis, 2° livro, Theobaldo Miranda Santos, Agir:1962, Rio de Janeiro

 

Wilson Woodrow Rodrigues, nasceu em 1916 em Salvador, BA.  Foi poeta, folclorista e jornalista.

 

 

Obras:

 

A caveirinha do preá,  Arca ed.: s/d, Rio de Janeiro

Desnovelando, Arca ed., s/d, Rio de Janeiro

O galo da campina, Arca ed,: s/d, Rio de Janeiro

O pintainho, Arca ed.: s/d, Rio de Janeiro

Por que a onça ficou pintada, Arca ed:s/d, Rio de Janeiro

A rãzinha, Arca ed:s/d, Rio de Janeiro

Três potes, Arca ed:s/d, Rio de Janeiro

O bicho-folha, Arca ed:s/d, Rio de Janeiro

A carapuça vermelha, Arca ed:s/d, Rio de Janeiro

Bahia flor, 1948 (poesias)

Folclore Coreográfico do Brasil, 1953

Contos, s/d

Contos do Rei-sol, s/d

Contos dos caminhos, s/d

Pai João, 1952

 





Alguns exemplos de bibliotecas comunitárias de sucesso

18 10 2008

Ilustração: Maurício de Sousa

Exemplo I

Biblioteca Comunitária Cidadania Ativa

São Paulo, Brazil

 

Montagem de uma biblioteca pública na região do bairro do Jabaquara, São Paulo-SP, por um grupo de 4 escoteiros.

 

Tudo começou com uma campanha de arrecadação de livros relâmpago em 2005 por 17 grupos escoteiros onde foram arrecadados cerca de 4000 livros. Os 4 jovens escoteiros que formam a equipe, sendo 3 voluntários e 1 funcionário do Instituto Cidadania Ativa, observaram a falta de bibliotecas na região eo incentivo à leitura, e a quantidade imensa de escolas e comunidades carentes nos arredores. Então tiveram a iniciativa de montar uma biblioteca comunitária, onde além de acesso a leitura houvessem atividades diversificadas para estimular a leitura.

 

A bibliteca situa-se no Parque Ecológico Fontes do Ipiranga (antiga Febem Imigrantes, situado no início da Rodovia dos Imigrantes). Contamos com o apoio da União dos Escoteiros do Brasil através do Instituto Cidadania Ativa (braço de projetos sociais da UEB), Rede Record (que reformou a sala da biblioteca e outras coisas mais), entre outros apoios.

Fonte: clique AQUI

Exemplo II

Ruy Ohtake Cria Biblioteca Comunitária em Heliópolis

 

 

Paredes coloridas, almofadas no chão, prateleiras cheias de gibi e livro infantil são elementos perfeitos para que as crianças saiam de suas casa e vão fazer a tarefa escolar no ambiente descontraído da Biblioteca Comunitária UNAS Heliopólis.

 

Desenvolvida para atender a comunidade, a biblioteca faz parte do programa Identidade Cultural de Heliopólis, idealizado pelo arquiteto Ruy Ohtake. Para isso, ele contou com o apoio da bibliotecária Elisa Machado, do professor José Castilho, ex-diretor da Biblioteca Municipal de São Paulo e do professor e critico literário Antônio Cândido.

 

Espero que seja o ponto de cultura de Heliopólis, de subsidio pedagógico, cultural e social para os projetos de cultura já existentes. Só tem sentido se a biblioteca for fomentadora de projetos já existentes em Heliopólis, declara Elisa Machado. Ruy Ohtake conta que criou pensando na formação do jovem que será o futuro líder da comunidade e precisa estar mais sensível aos acontecimentos do mundo. Quero que a biblioteca seja o ponto de convergência para quando o garoto, o adolescente e o adulto irem procurar um livro, uma revista, emprego. Seja um ponto de ventilação das idéias, vendo o que está acontecendo dentro e fora de Heliopólis pelo jornal, diz. O resgate da identidade Cultural de Heliopólis é o primeiro passo para a inclusão espacial -fazer com que a comunidade seja um bairro.

 

Inaugurada no começo do mês a biblioteca já disponibiliza cerca de 1700 livros, dos mais variados títulos como Shakespeare, Luis Fernando Veríssimo, Jorge Amado, Eça de Queiroz, Mario Prata, Ariano Suassuna, Agatha Chirstie, além de livros de legislação, direito, artes, humor entre outros. Os grandes clássicos também dividem espaço com revistas, jornais e diversos periódicos. Tomamos o cuidado com o público, de suprirmos a demanda da comunidade colocando também jornal com classificados para os desempregados, explica Elisa.

 

A fundamental importância da construção é que fosse dentro das ruelas da favela, ao lado do boteco e da lojinha, no local em que o adulto e a criança passam, para isso, foi reformada duas casinhas na rua da mina, região central de Heliopólis, esclarece Ohtake. A proximidade é um dos elementos que ajudou a população, as bibliotecas que existem por aqui são muito longe, leva uma meia hora para chegar, fala Felipe Garcia, 18 anos, um dos monitores da biblioteca.

 

Os funcionários também são da comunidade, no total de cinco monitores, estudantes do ensino médio que recebem bolsa – auxilio de um salário mínimo pela Lei do Aprendiz. Eles estão sendo capacitados para auto-gerirem o espaço. Espero que a biblioteca resgate o pessoal para dentro desse ambiente, porque a gente já não tem muito no que se apegar, diz o monitor José Augusto de Oliveira, 18 anos.

 

Há planos para que o ambiente cultural se integre ainda mais com a comunidade, escritores, poetas e artistas locais irão promover leitura nas ruas. Os moradores também iram sugerir as novas aquisições de livros, com base no gosto literário deles. A Biblioteca Comunitária de UNAS está servindo de referência para estudiosos de outros países. Professores de Madri, Barcelona, e um grupo de franceses já visitaram o local.

 

Escrito por: Erika Vieira

Fonte:  clique AQUI





A borboleta — poesia infantil de Olavo Bilac

17 10 2008

A borboleta

 

Olavo Bilac

 

 

Trazendo uma borboleta,

Volta Alfredo para casa.

Como é linda!  É toda preta,

Com listas douradas na asa.

 

Tonta, nas mãos da criança,

Batendo as asas, num susto,

Quer fugir, porfia, cansa,

E treme, e respira a custo.

 

Contente, o menino grita:

“É a primeira que apanho,

“Mamãe vê como é bonita!

“Que cores e que tamanho!

 

“Como voava no mato!

“Vou sem demora pregá-la

“Por baixo do meu retrato,

“Numa parede da sala”.

 

Mas a mamãe, com carinho,

Lhe diz: “Que mal te fazia,

“Meu filho, esse animalzinho,

“Que livre e alegre vivia?

 

“Solta essa pobre coitada!

“Larga-lhe as asas, Alfredo!

“Vê como treme assustada…

“Vê como treme de medo…

 

“Para sem pena espetá-la

“Numa parede, menino,

“É necessário matá-la:

“Queres ser um assassino?”

 

Pensa Alfredo…  E, de repente,

Solta a borboleta…  E ela

Abre as asas livremente,

E foge pela janela.

 

“Assim, meu filho!  Perdeste

“A borboleta dourada,

“Porém na estima cresceste

“De tua mãe adorada…

 

“Que cada um cumpra a sorte

“Das mãos de Deus recebida:

“Pois só pode dar a Morte

“Aquele que dá a Vida.”

 

Em: Poesias Infantis, Olavo Bilac, Livraria Francisco Alves: 1949, Rio de Janeiro, 17ª edição, pp. 21-23

 

 

Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac (RJ 1865 — RJ 1918 ) Príncipe dos Poetas BrasileirosJornalista, cronista, poeta parnasiano, contista, conferencista, autor de livros didáticos.  Escreveu também tanto na época do império como nos primeiros anos da República, textos humorísticos, satíricos que em muito já representavam a visão irreverente, carioca, do mundo.  Sua colaboração foi assinada sob diversos pseudônimos, entre eles: Fantásio, Puck, Flamínio, Belial, Tartarin-Le Songeur, Otávio Vilar, etc., e muitas vezes sob seu próprio nome.  Membro fundador da Academia Brasileira de Letras. Criou a cadeira 15, cujo patrono é Gonçalves Dias.  Sem sombra de duvidas, o maior poeta parnasiano brasileiro. 

 

 

Obras:

 

Poesias (1888 )

Crônicas e novelas (1894)

Crítica e fantasia (1904)

Conferências literárias (1906)

Dicionário de rimas (1913)

Tratado de versificação (1910)

Ironia e piedade, crônicas (1916)

Tarde (1919); Poesia, org. de Alceu Amoroso Lima (1957), e obras didáticas.





Crianças se divertem na Biblioteca Comunitária de São Gonçalo, RJ

16 10 2008

A iniciativa de uma professora transformou a vida do bairro de Guaxindiba. Os meninos e meninas não tinham nenhuma opção de lazer. Agora, passam o tempo em uma biblioteca, criada só para eles.

As ruas do bairro sequer são asfaltadas. Mesmo com chuva, Thaynara anda meia hora quase todos os dias para chegar à biblioteca. Nas prateleiras está o motivo do esforço. “É por causa dos livros“, afirma a menina.

“Eu gosto de ficar lendo os livros de poesia. Antes, eu ficava parado e sem fazer nada. Agora, eu venho para cá e fico lendo e estudando”, conta Kenedy de Oliveira, de 10 anos.

Há dois anos, a pedagoga Alessandra Honorata começou a recolher livros entre os amigos. Ela montou e uma biblioteca na varanda de casa para as crianças do bairro. As doações eram tantas que já não cabiam mais na casa da Alessandra.

Há dois meses, a biblioteca foi para uma loja. Foi mais um passo que ela não deu sozinha. Muitos vizinhos a ajudam a pagar o aluguel e a conta de luz. “Eu nunca conseguiria fazer isso aqui sozinha. À medida que outras pessoas do bairro também estão conscientizadas da importância de a criança ter acesso à cultura, à leitura e ao lazer, elas se somam às minhas forças e nos tornamos mais fortes”, afirma a pedagoga Alessandra Honorata.

Com a biblioteca, o meu filho ficou uma criança mais alegre. Ele chega da escola e fala ‘quero ir para a biblioteca’. Para mim, está sendo muito bom e para ele também”, comenta a dona de casa Maria Aparecida Guimarães.

 





Cessou o movimento revolucionário!

16 10 2008

                    Aos que morreram na Revolução.

3 de outubro de 1932

 

Cessou definitivamente o movimento revolucionário.  As tropas paulistas se renderam, incondicionalmente dizem os jornais.  As tropas federais, ocupam Itapetininga e Sorocaba.  Regressei para Itapetininga e, no regresso vim só, de trem, observando a paisagem tristonha do São Paulo vencido.  

 

Vinha de Sorocaba, de trem, sem saber o que se estava passando em Itapetininga, sabedor apenas de que tinha havido ocupação militar da cidade.  Parecia-me que o trem não saía do lugar.  E eu vinha com a imagem de São Paulo vencido a brincar na minha imaginação.  Tudo, no caminho, para mim, assemelhava-se a um ser vencido, mesmo as coisas inanimadas.  E quase do alto da entrada eu avistei a cidade meio metida no mato, ao longe, a matriz de Itapetininga com suas duas torres erguidas sobre o mato, afigurou-se que gritava como um soldado vencido, de braços para cima: não me matem!

 

♦♦♦♦♦♦♦♦♦♦♦

 

Vargas

 

Transcrição do Diário de Gessner Pompílio Pompêo de Barros (MT 1896 – RJ 1960), Itapetininga, SP, página 150-151 em referência à Revolução Constitucionalista de 1932.

Soldados Revolucionários

 





Poeminha para crianças, Manoel de Barros

16 10 2008

 

O cachorro vira-lata

queria que queria

entrar dentro de um inseto.

Mas a lata não deu inteira

dentro do inseto.

O rabo ficou de fora.

 

Em: Cantigas por um passarinho à toa, Manoel de Barros, Ed. Record:2003, Rio de Janeiro.

 

Manoel Wenceslau Leite de Barros, (Cuiabá, MT 1916) é advogado, fazendeiro e poeta.

 

 

 

Obras

 

1937 — Poemas concebidos sem pecado

1942 — Face imóvel

1956 — Poesias

1960 — Compêndio para uso dos pássaros

1966 — Gramática expositiva do chão

1974 — Matéria de poesia

1982 — Arranjos para assobio

1985 — Livro de pré-coisas (Ilustração da capa: Martha Barros)

1989 — O guardador  das águas

1990 — Poesia quase toda

1991 — Concerto a céu aberto para solos de aves

1993 — O livro das ignorãças

1996 — Livro sobre nada (Ilustrações de Wega Nery)

1998 — Retrato do artista quando coisa (Ilustrações de Millôr Fernandes)

1999 — Exercícios de ser criança

2000 — Ensaios fotográficos

2001 — O fazedor de amanhecer

2001 — Poeminhas pescados numa fala de João

2001 — Tratado geral das grandezas do ínfimo (Ilustrações de Martha Barros)

2003 — Memórias inventadas – A infância (Ilustrações de Martha Barros)

2003 — Cantigas para um passarinho à toa

2004 — Poemas rupestres (Ilustrações de Martha Barros)

 





15 de outubro, Dia do Mestre! Parabéns e Obrigado!

15 10 2008

Hoje é o dia de pararmos para pensar naqueles que nos guiaram nos estudos, na escola e na vida, muitas vezes ensinando o certo e o errado não só nas matérias escolares como no comportamento fora da escola.  Todos nós, se pensarmos, tivemos aquele professor que nos influenciou, aquela professora que percebeu a nossa diferença,  o poder da nossa futura contribuição à sociedade.  A eles um agradecimento!





Araraquara, a cidade das calçadas jurássicas *

14 10 2008
* Este post é uma compilação de 4 artigos sobre o assunto.  Seus links encontram-se no fim deste post.

 

 

Muitos não sabem, mas as calçadas da área central de Araraquara, no interior de São Paulo, escondem evidências da existência de mamíferos e de outros dinossauros maiores do período jurássico e cretáceo no Brasil, há cerca de 140 milhões de anos. As pegadas podem ser facilmente encontradas em placas de arenito usadas na cidade .  O Arenito Botucatu, extraído das pedreiras da região do Ouro, no Município de Araraquara, desde o século XIX, teve suas lajes utilizadas para a construção de calçadas e guias de sarjetas, em grande espaço do centro histórico da cidade, além de aproveitamento em revestimentos de paredes, quintais, jardins de residências, entradas, etc.  Foi também comercializado para muitas cidades da região. 

 

Rua Voluntários da Pátria em Araraquara

Rua Voluntários da Pátria em Araraquara

 

A história da paleontologia da região tem uma data marcante: 1976.  Mesmo sabendo-se desde 1911 que o engenheiro de minas Jovino Pacheco, encontrou nas calçadas em São Carlos 18 pegadas impressas na rocha arenito (extraída na região do Ouro, em Araraquara).  Mas foi só em 1976 que o paleontólogo Giuseppe Leonardi foi até Araraquara.

 

O padre Giuseppe Leonardi, um dos maiores paleontólogos do mundo, viajava pelo interior paulista em 1976 quando uma súbita dor de dente o obrigou a fazer uma parada em Araraquara- Ao pisar nas lajes cor-de-rosa usadas como calçamento na cidade, reparou em algo estranho. Ficou tão entusiasmado que até se esqueceu de ir ao dentista. A análise das marcas confirmou o seu palpite. Ali estavam impressas pegadas de répteis que habitaram a região de Araraquara 180 milhões de anos atrás. As lajes tinham sido arrancadas das rochas de uma pedreira, nos arredores da cidade. Lá ficaram gravados os únicos registros de dinossauros brasileiros do período jurássico. Leonardi explicou ao prefeito que precisava arrancar os trechos de calçadas com pegadas de dinos. 0 prefeito riu da cara dele e negou o pedido. Mas o padre-cientista não se abalou. Esperou o Carnaval, quando a cidade inteira estava muito ocupada em se divertir, para meter a picareta no calçamento e levar o tesouro para o Departamento Nacional da Produção Mineral, no Rio de Janeiro, que o guarda até hoje.

Padre paleontólogo Giuseppe Leonardi

Padre paleontólogo Giuseppe Leonardi

Fascinado, José Leonardi, acabou voltando para Araraquara dezenas de outras vezes, por um período de dez anos, sempre estudando esses vestígios.   Hoje, esta pesquisa já encerra três décadas de dedicação. 

 

Os  icnofósseis  (pegadas e vestígios de seres pré-históricos deixados em rochas fossilizadas)  são estudados por um setor ainda pouco conhecido da paleontologia e surpreendem os visitantes de Araraquara porque ainda são encontrados em vários pontos da cidade.  São vestígios e pistas de pegadas fósseis com uma idade média de 130 -140 milhões de anos: do final do período jurássico ao início do cretáceo.  A região de Araraquara fez parte do maior deserto de areia da história geológica do planeta e desfrutava deum clima muito quente e seco.  Dunas como as que encontramos, hoje, no deserto do Saara, abundavam cobrindo uma área de 1,5 milhão de quilômetros quadrados,  do Sul de Minas Gerais até o Uruguai.  Os rastros pesquisados  indicam povoamento local tanto de vertebrados quanto de invertebrados, como a equipe do paleontólogo Marcelo Fernandes demonstra.

 

Marcelo Adorna Fernandes, morador de Araraquara, professor e paleontólogo do Departamento de Ecologia e Biologia Evolutiva da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), já reconheceu em alguns pontos pegadas do ornitópodo, um dinossauro com até cinco metros de comprimento e cerca de três metros de altura.  Muitas vezes, diz Adorna Fernandes, é difícil de se reconhecer esses vestígios porque  como as placas foram utilizadas como calçamento  há um desgaste muito grande e chegam a sumir com o tempo. Uma pegada com marcas de unha ao lado de uma praça quase foi destruída para a instalação de um orelhão. Em outro ponto, vestígios de um mamífero quase foram cobertos pelo cimento por uma moradora desavisada. “As pessoas acham que esse buraco na pedra é um defeito”, comentou o pesquisador.  Mas. “há marcas até de escorpiões pré-históricos.”

 

Araraquara, Pedreira de São Bento

Araraquara, Pedreira de São Bento

As pedreiras da região do Ouro foram largamente exploradas para obtenção das lajes, sem que se soubesse da presença das pegadas e outros vestígios de formas de vida existentes naquele período da história.  Os estudos geológicos da região vêm ganhando importância pelo fato da rocha sedimentar ser a formadora do Aqüifero Guarani, fundamental como reserva de água doce subterrânea.

 

O estudo destes vestígios, levou o paleontólogo Marcelo Fernandes, que procurava em Araraquara rastros de animais pré-históricos na pedreira São Bento, de onde vem o calçamento das ruas da cidade à uma outra descoberta que respondeu a uma pergunta sobre a vida dos dinossauros que ainda não havia sido respondida: como os dinossauros eliminavam os resíduos líquidos de seu corpo?

 

Até bem pouco tempo atrás não havia evidências de que esses animais urinavam: pensava-se que eles excretavam apenas materiais sólidos, a exemplo da maioria das aves, consideradas seus parentes mais próximos.  Mas recentemente  Marcelo Fernandes, que desenvolveu esta pesquisa em sua tese de doutorado na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) mostrou, através de rastros fossilizados de líquidos, que pelo menos alguns dos gigantes pré-históricos acumulavam reservas de água no corpo.

 

Os dois urólitos ( urina de pedra) não apresentam componentes da urina. “Estimamos que eles tenham cerca de 145 milhões de anos, e a matéria orgânica depositada não sobrevive tanto tempo assim”, explica Marcelo Fernandes.  Estes urólitos foram encontrados na pedreira São Bento, de onde se extrai material para o calçamento das ruas de Araraquara, quando Fernandes procurava rastros de animais pré-históricos.

 

Paleontólogo Marcelo Adorna Fernandes

Paleontólogo Marcelo Adorna Fernandes

O pesquisador e sua equipe – formada pela bióloga Luciana Fernandes, da Universidade Federal de São Carlos, e pelo geólogo Paulo Souto, da UFRJ – se surpreenderam ao encontrar duas formas completamente diferentes de qualquer rastro descoberto anteriormente. “Eram rochas com sulcos em forma de elipse e um longo fluxo escorrido de areia, em um plano inclinado”, conta.  Já que a região formava o maior  deserto de areia do planeta, Marcelo Fernandes lembra que para se adaptar a um meio tão árido, os animais precisavam armazenar água no corpo. “Ocasionalmente, quando havia maior disponibilidade de água no ambiente, eles poderiam eliminar o excesso na forma de urina”, esclarece Fernandes.

 

Araraquara, rastro fossilizado

Araraquara, rastro fossilizado

O ambiente, chamado de paleodeserto, também ajudou a equipe do paleontólogo a imaginar que tipo de dinossauro eliminou os líquidos. Como as poucas aves que urinam (o avestruz, a ema e o casuar australiano) vivem em locais áridos ou semi-áridos, acredita-se que os resíduos sejam de um ornitópode (dinossauro herbívoro com pés semelhantes aos de pássaros), devido ao seu grau de parentesco com essas aves de grande porte. As pegadas desses animais são facilmente visualizadas em Araraquara, até mesmo nas calçadas das ruas.

 

Além de comparar os urólitos encontrados com os rastros deixados pela urina de um avestruz vivo, Fernandes realizou experimentos que simulavam a eliminação de líquidos em solo arenoso. “A semelhança entre as marcas (do fóssil, do avestruz e do experimento) não deixa dúvidas de que encontramos registros de urina”, diz. Assim, ele conseguiu provar que pelo menos os dinossauros que viviam em áreas desérticas eram capazes de urinar.  

Araraquara Iguanadonte

Araraquara Iguanadonte

 

 

 

A prova foi encontrada durante a retirada de placas de arenito da pedreira São Bento, em Araraquara. A descoberta ocorreu quando o pesquisador fazia um trabalho no local buscando icnofósseis – pegadas e vestígios de seres pré-históricos deixados em rochas fossilizadas. As camadas sobrepostas de arenito – que mantém os icnofósseis – eram retiradas na utilização de placas em calçadas em uma cidade vizinha.

 

A região de Araraquara era habitada por um dinossauro denominado Ornitópode, batizado de pés de aves. Acreditava-se que o animal medisse até 5 m de comprimento com cerca de 3 m de altura. “Achamos que esse Ornitópodo foi que deu origem ao urólito”, diz o paleontólogo.  

 

A prova da urina trata-se de duas estruturas, cada uma com 34 cm de comprimento – com pequenas crateras elípticas de escavação – provocadas pelo impacto de líquido em queda, com sedimentos depositados pela ação da gravidade em um plano inclinado. Para o pesquisador, não há como confundi-las com pegadas que têm como marca uma elevação semelhante a uma meia-lua nas bordas. Além disso, o material pode ter sido conservado porque os dinossauros Ornitópodes (herbívoros bípedes) e terópodes (carnívoros) caminhavam pelas dunas do paleodeserto compactando a areia.

 

O teste feito com a areia da própria pedreira mostra claramente que a marca encontrada é um líquido. Mas como provar que esse líquido era urina? Para Fernandes, é muito simples. A chuva não acumulava em um ponto único dessa maneira na areia e, naquela época, não existiam árvores com folhas capazes de reter a água da chuva possibilitando essa queda brusca ao chão. “Estudos referentes à ‘palcofauna’ da região atestam a presença de pequenos mamíferos e de dinossauros. Assim, o urólito só poderia ter sido provocado por animais de médio ou grande porte como os dinossauros”.

 

Pedra com imagem de urina de dinossauro

Pedra com imagem de urina de dinossauro

Antes, os paleontólogos acreditavam que os dinossauros excretassem em forma sólida. Agora, existe prova de que eles urinavam líquido. Segundo o paleontólogo, biologicamente também já fora comprovado que alguns dinossauros evoluíram para as aves. “Se os compararmos com um avestruz, que é uma ave e urina, o processo faz sentido. É que o avestruz tem uma espécie de bexiga que armazena uma estrutura para absorção de líquido. Quando tem abundância de água, ele elimina esse excesso em forma de urina. Pode ser que esses dinossauros, em um ambiente desértico, poderiam ter a mesma capacidade”.

 

 

 

Com a descoberta dos urólitos, Araraquara ganha mais um argumento a favor do reconhecimento da importância de seu acervo paleontológico. Conhecida pelos especialistas como ‘a cidade das calçadas jurássicas’, ela conta com o apoio da Companhia de Pesquisa de Recursos Minerais (CPRM) e das universidades italianas de Gênova e Pisa para alavancar a construção de um museu paleontológico, que promete estimular o turismo na região.

 

“Esse é o único lugar do Brasil onde são encontrados vestígios da existência de dinossauros e de mamíferos do final do período Jurássico”, conta Fernandes. Por enquanto, o projeto, que faz parte do plano de metas da prefeitura, ainda não tem data certa para sair do papel.

 

Atualmente, o lar permanente dos dois urólitos é o Museu Histórico de Araraquara, mas uma das placas poderá ser vista até o dia 30 de abril na Oca do Parque Ibirapuera, na capital paulista, onde está em cartaz uma exposição sobre dinossauros e outros animais pré-históricos. Lá também estão expostos outros icnofósseis encontrados na formação Botucatu: uma coleção de 45 peças, com pegadas de dinossauros, de mamíferos e de animais invertebrados, como escorpiões e besouros.

 

 

 

 

 

 

http://www.visiteararaquara.com.br/index.php?id=117

 

http://cienciahoje.uol.com.br/45751

 

http://www.angelfire.com/ar/paccanaro/dinobrasil2.html

 

http://noticias.terra.com.br/ciencia/interna/0,,OI1404590-EI319,00.html

 

 





COMPENSAÇÃO — poema de Cyra de Queiroz Barbosa

13 10 2008

 

COMPENSAÇÃO

 

Cyra de Queiroz Barbosa

 

Ao meu irmão Celso

 

 

Couve mineira

picada fininha

me lembra Vovó.

Sentada no mocho

de saia cobertos

só a ponta se via

dos pés pequeninos.

As mãos enrugadas

cortavam cortavam

a couve fininha.

 

Colhida na horta

que antes plantara

a couve verdinha

que agora picava

iria pra mesa

em travessa esmaltada.

Comida sadia

de gente mineira

arroz com feijão

que era tropeiro

torresmos sequinhos

lingüiça de lombo

farinha torrada

com ovos mexidos.

 

“Menina gulosa

tira a mão do torresmo!

Só quer escolher

o mais tenro e carnudo

aquele que o Celso

mais gosta e aprecia!”

— Couve mineira

picada fininha

me lembra a Vovó.

 

Café ralo e bem doce

com leite e farinha

que era de milho

torrada em fogão.

 Os netos gostavam

e ela sorria,

pra todos, é certo

mas um era neto

a quem mais queria.

 

— Só filhas criara

E nele beijava

o filho menino

que sempre sonhara.

 

Em: Moenda:painéis e poemas interiorizados, Cyra de Queiroz Barbosa, Rocco:1980, Rio de Janeiro