Os dez maiores pensadores do mundo? Você concorda?

26 04 2013

The_Thinker__1876-1877, Pierre AUguste Renoir, ost

Jovem sentada ou A reflexão, 1876-77

Pierre-Auguste Renoir (França, 1841-1919)

óleo sobre tela, 66 x 55 cm

Barber Institute of Fine Arts, Birmingham,

Inglaterra

A revista Prospect acabou de contabilizar sua enquete – feita a cada cinco anos – para eleger os maiores pensadores do momento. A lista traz nomeações de todos os caminhos, de diversas partes do mundo. Há um único brasileiro entre os 65 selecionados.  Para minha surpresa, esse foi Roberto Mangabeira Unger, classificado em 40º lugar.

Considerando-se que a maior parte dos leitores da Propect são fluentes em inglês,  usuários assíduos da internet e tem uma educação bem acima da média, acho que a lista é muito mais eclética do que eu teria imaginado se houvesse ponderado a respeito.  Teria  uma enorme predominância de americanos.  E no entanto, apesar de  estarem fortemente presentes – são 22 de 65 – um terço portanto não chegam à maioria e são  seguidos pela Inglaterra, país que aparece com 10 eleitos.

 Foram 10.000 eleitores  de mais de 100 países.  Interessante: em literatura há poucos mencionados, mas a grande potência nesse ramo é a Inglaterra.  Arundhaty Roy dentre os escritores é a melhor colocada, nativa da Índia, ganhou o Booker Prize, com  um dos mais interessantes romances do final do século passado: O Deus das pequenas coisas. Um dos meus favoritos de todos os tempos.  Ela é a primeira mulher a aparecer, colocada em nº 15 na lista.  Mas aparece aqui  por seu trabalho como ativista, já que o romance mencionado acima foi seu primeiro e único romance.   Outros escritores listados são David Grossman – que só conheço por seus trabalhos para adolescentes – lembro-me de ter lido Alguém para correr comigo;  Hilary Mantel, que conheço de seu trabalho anterior a  Wolf Hall sobre a Inglaterra de Thomas Cromwell, aclamado pela excelência em romance histórico e Zadie Smith, também inglesa cujos livros Dentes brancos e Sobre a beleza, foram excepcionalmente marcantes na minha lista de favoritos da década passada.  Não conheço o trabalho de Andrew Solomon.

Será que você conhece algum deles?

1. Richard Dawkins (UK), biólogo

2. Ashraf Ghani (Afeganistão) economista

3. Steven Pinker (Canada)psicólogo e linguista

4. Ali Allawi (Iraque)economista

5. Paul Krugman (EUA)economista e jornalista

6. Slavoj Žižek (Eslovênia) filósofo

7. Amartya Sen (Índia)economista

8. Peter Higgs (UK) físico teórico

9. Mohamed ElBaradei (Egito)diplomata

10.Daniel Kahneman (Israel)teórico da finança comportamental

736px-Almeida_Júnior_-_Moça_com_Livro

Moça com livro, 1879

José Ferraz de Almeida Júnior (Brasil, 1850-1899)

óleo sobre tela

Museu de Arte de São Paulo

11. Steven Weinberg,  (EUA), físico
12. Jared Diamond, (EUA) biólogo,antropólogo
13. Oliver Sacks, (UK) psicólogo
14. Ai Weiwei, (China)  artista plástico
15. Arundhati Roy, (Índia) escritora e ativista
16. Nate Silver, (EUA) estatístico
17. Asgar Farhadi, (Irã) cineasta
18. Ha-Joon Chang,(Coréia)  economista
19. Martha Nussbaum,(EUA), filósofa
20. Elon Musk, (África do Sul) empresário
21. Michael Sandel,(EUA) filósofo
22. Niall Ferguson,(UK) historiador
23. Hans Rosling, (Suécia) médico-estatístico
24. Anne Applebaum,(EUA), jornalista
25. Craig Venter, (EUA) biólogo
26. Shinya Yamanaka, (Japão)médico-biólogo
27. Jonathan Haidt, (EUA) psicólogo
28. George Soros, (EUA) filantropo
29. Francis Fukuyama, (EUA) cientista político
30. James Robinson e Daron Acemoglu, (EUA) cientista político e economista
31. Mario Draghi,(Itália) economista
32. Ramachandra Guha,(Índia) historiador
33. Hilary Mantel, (UK) escritora
34. Sebastian Thrun, (Alemanha) ciências informáticas
35. Zadie Smith, (UK) escritora
36. Hernando de Soto, (Peru) economista
37. Raghuram Rajan, (Índia) economista
38. James Hansen, (EUA) cientista do clima
39. Christine Lagarde,(França) economista
40. Roberto Unger,(Brasil) filósofo-economista
41. Moisés Naím,(Venezuela) cientista político
42. David Grossman, (Israel) escritor
43. Andrew Solomon, (UK) escritor
44. Esther Duflo,(França) economista
45. Eric Schmidt,(EUA)empresário
46. Wang Hui, (China) cientista político
47. Fernando Savater, (Espanha) filósofo
48. Alexei Navalny,(Rússia)advogado e ativista
49. Katherine Boo, (EUA) jornalista
50. Anne-Marie Slaughter (EUA), cientista político
51. Paul Collier,(UK) esconomista

Amberg, Wilhelm (1822-1899)

Jovem ao largo do regato, [Contemplação], antes de 1886

Wilhelm Anberg (Alemanha, 1822-1899)

óleo sobre tela, 82 x 61 cm

Museu de Arte da Filadélfia, EUA

52. Margaret Chan, (China) médica
53. Sheryl Sandberg,(EUA) empresária
54. Chen Guangcheng,(China) ativista
55. Robert Shiller,(EUA) economista
56.  Ivan Krastev,(Bulgária) cientista política
56. Nicholas Stern,(UK) economist
58. Theda Skocpol, (EUA)socióloga
59. Carmen Reinhart,(Cuba) economista
59. Ngozi Okonjo-Iweala,(Nigéria) economista
61. Jeremy Grantham, (UK)estrategista de investimentos
62. Thomas Piketty e Emmanuel Saez, (EUA)economista
63. Jessica Tuchman Mathews, (EUA) cientista política
64. Robert Silvers, (EUA) editor
65. Jean Pisani-Ferry, (França) economista





Imagem de leitura — Chantal Poulin

26 04 2013

chantal poulin, (Canada, contemp) suas meninas lendo,

Era uma vez, s/d

Chantal Poulin (Canadá, contemporânea)

gravura, 50 x 65 cm

www.chantalpoulin.com





Palavras para lembrar — Charles “Tremendous” Jones

25 04 2013

Paul Signac, In the Time of Harmony- The Golden Age Is Not in the Past, It Is in the Future, 1893-95 (Montreuil, Mairie)

Em tempos de harmonia: a alegria de viver — domingo à tarde, 1895-6

Paul Signac (França, 1863-1935)

Litografia a cores, 38 x 50 cm

Museu de Belas Artes de Houston, EUA

“Você é o mesmo hoje que será em cinco anos, exceto por pelas pessoas que conheceu e pelos livros que leu.”

Charles “Tremendous” Jones

 





Mal d’Afrique, texto de Francesca Marciano

24 04 2013

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Cânion do Rio Blyde,  s/d

Mabel Withers (África do Sul, 1870-1956)

aquarela, 16 x 25 cm

Le mal d’Afrique

Tanta gente tentou definir o sentimento que os franceses chamam de Mal d’Afrique, que de fato é uma doença. Os ingleses nunca tiveram uma definição para ele, acho que porque jamais gostaram de admitir que, de algum modo, estavam sendo ameaçados por este continente. Obviamente porque preferiam a idéia de governá-lo a de ser governados por ele.

Só agora compreendo como esse sentimento é uma forma de deteriorização. É como uma rachadura na madeira que vai avançando lentamente. Pouco a pouco ele se torna mais e mais profundo, até finalmente separar você do resto. Um dia você acorda e descobre que está flutuando sozinho, virou uma ilha independente arrancada de sua terra natal, de sua base moral. Tudo já aconteceu enquanto você dormia, e agora é tarde demais para tentar qualquer coisa: você está aqui fora não há retorno. Essa é uma viagem só de ida.

Contra sua vontade, você é obrigado a experimentar o horror eufórico de flutuar no vazio, suas amarras rompidas para sempre. É uma emoção que corroeu lentamente todos os seus vínculos, mas é também uma vertigem constante a que você nunca vai se acostumar.

É por isso que um dia você tem de voltar. Porque agora você não pertence mais a lugar nenhum. A nenhum endereço, casa ou número de telefone de nenhuma cidade. Porque uma vez que tenha estado aqui, pairando solto ao Grande Nada, você nunca mais vai ser capaz de encher seus pulmões com ar suficiente.

A África o observou e o arrancou do que você era antes.

É por isso que fica querendo fugir, mas sempre terá de voltar.

Depois,  é claro, há o céu.

Não há céu tão grande quanto este em nenhum outro lugar do mundo. Ele paira sobre você, como uma espécie de guarda-chuva gigantesco e lhe tira o fôlego. Você fica achatado entre a imensidão do ar sobre sua cabeça e o chão sólido. Ele cerca você por todos os lados, 360 graus, céu e terra, um o reflexo aéreo do outro. O horizonte aqui não é mais uma linha plana, mas um círculo sem fim, que faz sua cabeça rodopiar. Tentei descobrir que artifício existe por trás deste mistério, porque não vejo razão alguma para haver mais céu num lugar que noutro. Não fui capaz, contudo, de descobrir qual é a ilusão de óptica que torna o céu africano tão diferente de qualquer outro céu que você tenha visto na vida. Poderia ser o ângulo particular do planeta no Equador, ou quem sabe o modo como as nuvens flutuam, não acima da sua cabeça, mas bem diante de seu nariz, pousadas na borda mais baixa do guarda-chuva, logo acima do horizonte. Essas nuvens à deriva, que redesenham constantemente o mapa: num relance você pode ver uma tempestade se armando no norte, o sol brilhando no leste e, no oeste, um céu cinzento, que fatalmente vai azular-se a qualquer minuto. É como se centrar diante de uma gigantesca tela de televisão, assistindo a uma previsão do tempo cósmica.

Você está viajando para o norte, rumo ao NFD, o legendário North Frontier District, e de repente é como se estivesse olhando a paisagem com um binóculo virado ao contrário. As últimas lentes grandes-angulares, que comprimem o infinito dentro de seu campo de visão. Seus olhos nunca lançaram um olhar tão amplo. Terra plana que se estende por todo o caminho até o distante perfil púrpura do Matthews Range e depois, exatamente quando você pensava que o espaço terminara, precisamente quando imaginava que a paisagem iria se fechar de novo à sua volta, que você iria se sentir menos exposto, uma outra cortina se ergue para revelar mais vastidão, e seus olhos ainda não conseguem divisar o seu fim.

Mais terra se estirando obedientemente sob seus pneus, oferecendo-se para ser trilhada. As maracás das suas rodas tornam-se a bandeira interminável de sua conquista. Você enche os pulmões com o cheiro seco de pedras quentes e poeira e tem a impressão de estar aspirando o universo.

Você se vê enquanto entra nessa geometria grandiosa, absoluta: você não passa de um pontinho diminuto, uma partícula minúscula que avança muito lentamente. Agora você se afogou no espaço, é obrigado a redefinir todas as proporções. Uma palavra que não lhe ocorria há anos lhe vem à mente. Ela brota de algum lugar dentro de você.

Você se sente humilde. Porque a África é o começo.

Não há abrigo aqui: nenhuma sombra, nenhuma parede, nenhum teto sob os quais se esconder. O homem nunca se deu ao trabalho de deixar sua marca na terra. Só choupanas minúsculas feitas de palha, como ninhos de aves que o vento vai varrer facilmente.

Você não pode se esconder.

Aqui está você,  sob esse sol causticante, exposto. Você percebe que tudo com que pode contar agora é o seu corpo. Nada do que aprendeu na escola, com a televisão, com seus amigos brilhantes, com os livros que leu, vai ajudá-la.

Só agora você se dá conta de que suas pernas não são fortes o bastante para correr, suas narinas não são capazes de cheirar, sua vista é fraca demais. Percebe que perdeu todos os seus poderes originais. Quando o vento sopra o cheiro acre de búfalo no seu nariz, um cheiro que você nunca tinha sentido antes, você reconhece o instantaneamente. Você sabe que o cheiro sempre esteve aqui. O seu, por outro lado, é o resultado de muitas coisas diferentes, de filtro solar a dentifrício.

Le mal d’Afrique é vertigem, é corrosão e, ao mesmo tempo, é nostalgia. É um desejo de retornar à infância, à mesma inocência e o mesmo  horror, quando tudo ainda era possível e cada dia poderia ter sido o dia da sua morte.

Em: As leis da selva, de Francesca Marciano, tradução de Maria Luiza X. de A. Borges, Rio de Janeiro, Record: 2001, pp: 20-23





Os livros que definiram primeira década do século

15 04 2013

Marta Astrain (Espanha, contemp) Marta lendo na camaMarta lendo, 2010

Marta Astrain (Espanha, 1959)

óleo sobre tela, 38 x 46 cm

www.martaastrain.com

The Telegraph of London publicou esta semana uma lista dos cem livros que definiram a primeira década do século XXI.  Gosto de ver essas listas. Todas as listas sempre mostram falhas e são criações da cultura que as criou.  Mas fiquei surpresa ao constatar que concordo com um grande número dos livros citados.  Não vou repetir aqui a lista.  Isso vocês poderão ver consultando o jornal diretamente.  Coloco aqui os livros com que concordo.  Importante lembrar que a lista não pretende listar o que há de melhor na literatura.  Mas os livros que marcaram a década.  Primeiro listo aqueles mencionados pelo jornal, cuja importância é inegável.  São 13 dos 100 que eles listaram.    Depois coloco sete adições à lista, que ficou reduzida a 20 livros.

Selecionei 13 livros de acordo com o THE TELEGRAPH, mas não na ordem do jornal, e adicionei outros 7 que marcaram a minha década:

1 – Harry Potter – a série, de J.K. Rowland. O fenômeno da série de livros Harry Potter foi colocado em primeiríssimo lugar.  Concordo com essa classificação.  Será impossível no futuro desassociar  essas aventuras dos primeiros anos no século XXI.

2 – O código Da Vinci, Dan Brown.  Foi realmente um dos maiores livros virais da década.

3 —  Os detetives selvagens, Roberto Bolaño.

4 —  Deus, um delírio, Richard Dawkins

5 —  Dentes Brancos,  Zadie Smith

6 – Reparação, Ian McEwan

7 – Os homens que não amavam as mulheres,  Stieg Larsson

8 – O ponto da virada, Malcolm Gladwell

9 – O caçador de pipas, Khaled Hosseine

10 – Freakonomics,  Steven Levitt &  Stephen J Dubner

11 — A linha da beleza de Alan Hollinghurst

12 – Não me abandone jamais,  de Kazuo Ishiguro

13 – Agência nº 1 de Detetives – Alexander Mc Call-Smith

Minhas adições:

14 – O universo numa casca de noz, Stephen Hawkins

15 – Seis Graus, Mark Lynas

16 – A louca da casa, Rosa Montero

17 – 1421: o ano em que a China descobriu o mundo, Gavin Menzies

18 – Equador, Miguel Sousa Tavares

19 – Budapeste, Chico Buarque de Holanda

20 – A catedral do mar, Ildefonso Falcones





Palavras para lembrar — Oscar Wilde

13 04 2013

Albert Lynch - 1851-1912 - A Quiet ReadAlbert Lynch - Peru , 1851-1912Leitura silenciosa, s/d

Albert Lynch (Peru, 1851-1912)

óleo sobre tela, 61 x 50 cm

Christie’s Auction House (Londres), 2003

“Não há isso de livro moral ou imoral. Livros são bem ou mal escritos”.

Oscar Wilde





Quermesse, poema de Mário Mauro Matoso

13 04 2013

Bonaventura Cariolato (Itália 1894-Brasil, 1989) -Festa na aldeia,aquarela ,1965,Bairro da Boa Vista em Franca, 33 x 40 cm.

Festa na aldeia, 1965

Bonaventura Cariolato (Itália/Brasil, 1894-1989)

[Bairro da Boa Vista, em Franca]

óleo sobre tela, 33 x 40 cm

Quermesse

Mário Mauro Matoso

Recordo uma quermesse em Santa Rita…

A praça principal, ornamentada,

A Banda no coreto, entusiasmada,

Executando a marcha favorita…

Defronte a uma barraca, a petizada

De olhos fitos na prenda mais bonita…

O Correio elegante… a senhorita

Que outrora fora minha namorada.

A barraca do Bar e do Café,

O bloco do catira, o bate-pé

Sobre um tablado, rústico e bisonho…

Assim é que relembro nossa terra,

A cidade feliz que se descerra

Na perpétua quermesse do meu sonho!

Em: 232 Poetas Paulistas:antologia,  ed. e col. Pedro de Alcântara Worms, São Paulo, Conquista: 1968, p. 473.

Mário Mauro Matoso [Mattoso] (SP, 1902- ?) . Poeta.

Obra:

Flâmulas e Flores, poesia, 1964





Criando um grupo ou uma comunidade

12 04 2013

Théo (Théophile) van Rysselberghe (Bélgica, 1862 –1926) Tarde de verão, 1900-1902, ost, 98 x 130cm, Musee d'Ixelles, BélgicaTarde de verão, 1900-1902

Théo van Rysselberghe (Bélgica, 1862-1926)

óleo sobre tela, 98 x 130 cm

Musée d’Ixelles, Bélgica

Sou gregária.  Provavelmente isso explica estar quase sempre envolvida em uma ou outra organização, e ter amigos bastante diversos. Ainda no colégio fui organizadora de um jornalzinho de turma.  Depois cresceram as obrigações.  Fui escoteira.  Fui presidente da Associação de Estudantes de Pós-Graduação na universidade onde estudei nos EUA; fui membro participante da NOW, organização pelos direitos da mulher, nos EUA; organizei os comerciantes de um quarteirão para eventos em comum, quando abri minha galeria de arte/antiquário também nos EUA; participei de grupos de leitura: um de história e outro literatura; participei por três anos de um grupo de culinária; me encontrei regularmente para jogar bridge uma vez por semana, com o mesmo grupo; reuni por alguns anos (até mudar de cidade) um encontro entre amigos todos os domingos à noite para quem quisesse aparecer, num open-house, e assim por diante.

Por isso, fico sempre surpresa quando converso com conhecidos aqui no Rio de Janeiro e vejo que as pessoas, quando pensam em organizações ou em grupos, primeiro pensam nas obrigações, na seriedade, no fardo do comprometimento, como se o ato de se dar, o ato de se desprender a favor de um bem intangível fosse algo estranho.  Mas, sobretudo, as pessoas parecem pensar primeiro em começar pela parte burocrática.  Querem títulos, um presidente, um secretário e quanto de dinheiro?  Como pagamos? Mas não há nada a se ganhar?  Tenho conhecidos que toda vez que os encontro me perguntam se ainda mantenho o blog.  E por que ainda não ganho dinheiro com isso?  Como se tudo que fazemos na vida tem a ver com o dinheiro. Como se o convívio, a amizade, o companheirismo, a troca, não valessem o sacrifício.  Engano.  Talvez a minha experiência americana tenha colorido a minha maneira de ver o mundo, talvez tenha me servido para simplificar o processo, porque eles, os americanos, são pessoas muito pragmáticas e gregárias.  Quer participar de um grupo?  Comece-o.  É simples.  Mãos na massa.  Não pense na burocracia.  Comece-o pelo fazer…  Essa tem sido a minha resposta a muitos que chegam ao blog querendo participar do meu grupo de leitura, que não está aberto ao público.

Mabel Frances Layng (Inglaterra, 1881-1937)) Under the trees,c. 1920, ost, 39x 57cmDebaixo da árvore, c. 1920

Mabel Frances Layng (Inglaterra, 1881-1937)

óleo sobre tela, 39 x 57 cm

No início desta semana um artigo na revista digital UTNE me chamou atenção por justamente endereçar suas conjecturas  à proposta de fundar organizações.  A autora é uma psicoterapeuta Linda Buzzell, que concluiu ao final do artigo que “qualquer encontro comunitário, organização ou evento para ter sucesso necessita que haja empenho de corpo, mente, alma e espírito”.  E para isso listou aquilo que considera necessário.  Adapto sua lista dando ênfase às características que, na minha experiência, acho importantes, para um grupo de leitura.  Mas se a sua intenção é formar outro tipo de grupo ou associação sugiro que leia o artigo na íntegra. É muito bom. O link está AQUI.

1 – Ache um interesse em comum.  Alguma coisa que atraia as pessoas.  Se você quer um grupo de leitura, por exemplo, ache a linha de atividade que atrairá as pessoas que você quer conhecer. Exemplo: Grupo de Leitura Vida – dedicado a leitura de biografia e memórias;  Grupo de leitura de autores lusófonos; Grupo de leitura sobre executivos de sucesso; Grupo de Leitura sobre desportistas. O meu grupo de leitura, não inclui biografias, não inclui história.  É um grupo de leitura de ficção literária atual.  Nem os clássicos incluímos.  Isso nós decidimos nos primeiros encontros.  Fomos refinando, digamos assim os nossos interesses, as nossas necessidades.

2 – Seja flexível com a época do ano.  Se é mês de Carnaval, ou Natal, sugira um livro leve, uma novela, coisa de poucas páginas, reconhecendo que nem todos terão muito tempo para ler.  Mas não deixe de ter o encontro mesmo que nem todas as pessoas possam estar presentes.

3 – Novos membros do grupo. Faça um esforço para conhecer fora daquele encontro mensal o novo membro do grupo. Marque um café, um encontro informal para fazer essa pessoa se sentir parte do grupo.

4 – Celebrar — uma celebração anual digamos no aniversário do grupo ou no Natal, ou em ambas as ocasiões, onde se possa trazer algo de espiritual, uma referência ao reconhecimento de que aqueles encontros se tornam algo maior do que cada indivíduo.  O todo é sempre melhor do que as partes.

5 – Decisões –– qualquer problema a ser  resolvido deve ser feito em comum acordo, durante as reuniões.  Todos devem participar, dar suas opiniões e então votar. Nada de grupinhos, de fofoquinhas divisivas.

6 – Inclusão – inclua pessoas de todas as idades. A leitura de um livro depende muito da experiência pessoal de cada um além é claro da experiência de leitura.  Inclua os mais idosos com prazer, eles têm muito a dar e sempre surpreendem.

7 – Surpresa – encontros podem e devem ocasionalmente ter uma surpresa.  Sorteie um livro, combine uma visita a uma Feira do Livro.

8 – Não comprometa os seus encontros mensais. Temos tido a sorte e a oportunidade de ter como visitas ao nosso grupo de leitura, escritores cujos livros já lemos e discutimos.  É sempre muito excitante, uma ocasião muito especial conhecer em plano físico aquela pessoa que escreveu um livro de que gostamos.  No entanto, essas sempre foram ocasiões únicas, em que marcamos uma data específica e dividimos igualmente qualquer custo envolvido na ocasião: comes e bebes, flores e demais mimos.  Mas não comprometemos os nossos encontros.  Porque eles são OS NOSSOS ENCONTROS e de ninguém mais.  É uma questão de respeitar o nosso horário juntos, respeitar a nossa amizade.

jean-georges-ferry(França, 1851-1926) dua mulheres lendo em casaDuas senhoras lendo em casa

Jean-Georges Ferry ( França, 1851-1926)

óleo sobre tela

Coleção Particular

Lembre-se que amizades só se formam com tempo, com o encontro regular entre pessoas.  Ler e discutir livros é uma excelente maneira de se conhecer alguém, porque quando falamos do que nos impressionou, do que não gostamos ou do que foi importante para nós a respeito de um livro, mostramos quem somos e entendemos o outro com facilidade.

Aqui no blog em outra ocasião já dei o passo a passo para a gestão de um grupo de leitura.  Para maiores informações clique nesse link: Grupo de leitura:como fazer. Esta postagem marca — no próximo domingo — os 10 anos de encontros do grupo de leitura Papa-livros, cuja página, com a listagem de todos os livros que lemos nesses anos encontra-se aqui no blog. Fizemos boas amizades entre nós — somos 17.  E continuaremos a manter esses amigos por muitos e muitos anos.





Imagem de leitura — Paul Cauchie

11 04 2013

suzanne, paul cauchie

Suzanne, 1923

Paul Cauchie (Bélgica, 1875-1952)

Guache, 50 x 60 cm

Paul Cauchie nasceu em 1875 em Ath, na Bélgica.  Foi uma das figuras marcantes do Art Nouveau na Bélgica, sobretudo por seu trabalho em esgrafito na fachada de residências.  Foi arquiteto, pintor e  decorador.  Estudou na Academia de Belas Artes de Anvers  e depois estudou com Constant Montald em Bruxelas.  Passou grande parte da vida trabalhando na Holanda onde se encarregou da decoração de casas pré-fabricadas.  Faleceu em Etterbeek na Bélgica.





O caboclo, o padre e o estudante conto folclórico do Brasil, Luiz da Câmara Cascudo

10 04 2013

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Padre, 1977

Fernando Botero (Colômbia, 1932)

Óleo sobre tela

O caboclo, o padre e o estudante

Um estudante e um padre viajavam pelo sertão, tendo como bagageiro um caboclo. Deram-lhe numa casa um pequeno queijo de cabra. Não sabendo como dividí-lo, mesmo porque chegaria um pequenino pedaço para cada um, o padre resolveu que todos dormissem e o queijo seria daquele que tivesse, durante a noite, o sonho mais bonito, pensando engabelar todos com os seus recursos oratórios. Todos aceitaram e foram dormir. À noite, o caboclo acordou, foi ao queijo e comeu-o.

Pela manhã, os três sentaram à mesa para tomar café e cada qual teve de contar o seu sonho. O frade disse ter sonhado com a escada de Jacob e descreveu-a brilhantemente. Por ela, ele subia triunfalmente para o céu. O estudante, então, narrou que sonhara já dentro do céu à espera do padre que subia. O caboclo sorriu e falou:

– Eu sonhei que vi seu padre subindo a escada e seu doutor lá dentro do céu, rodeado de amigos. Eu ficava na terra e gritava:

Seu doutor, seu padre, o queijo! Vosmincês esqueceram o queijo.

Então, vosmincês respondiam de longe, do céu:

– Come o queijo, caboclo! Come o queijo, caboclo! Nós estamos no céu, não queremos queijo.

O sonho foi tão forte que eu pensei que era de verdade, levantei-me, enquanto vosmincês dormiam, e comi o queijo…

Em: Contos Tradicionais do Brasil (folclore) de Luís da Câmara Cascudo, Rio de Janeiro, Ediouro:1967