Expectativas frustradas, texto de Marcel Proust

11 03 2026

À beira-mar em Trouville, 1870

Claude Monet (França, 1840-1926)

óleo sobre tela, 48 x 74 cm

Wadsworth Atheneum Museum of Art, Hartford, Connecticut

 

 

 

Anoitecia e era preciso voltar; ia eu acompanhando Elstir até a sua residência, quando de repente, tal como surge Mefistófeles diante de Fausto, assomaram ao fundo da avenida — como simples objetivação irreal e diabólica do temperamento oposto ao meu, daquela vitalidade cruel e quase bárbara que faltava à minha fraqueza e ao meu excesso de dolorosa sensibilidade e de intelectualismo — alguns flocos dessa matéria impossível de confundir com qualquer outra, algumas espórades do grupo zoofítico de raparigas, as quais pareciam não me ver, mas na verdade deviam estar pronunciando irônicos juízos sobre a minha pessoa. Ao ver que era inevitável o encontro entre elas e nós, e pensando que Elstir me chamaria, voltei-me de costas, como faz o banhista para receber a onda; estaquei e, deixando que meu ilustre companheiro seguisse o seu caminho, deixei-me ficar para trás, afetando súbito interesse, a olhar a vitrina da loja de antiguidades que ali havia; agradou-me essa possibilidade de parecer que estava pensando em outra coisa diversa das tais moças; e já pressentia vagamente que quando Elstir me chamasse para apresentar-me a elas mostraria eu esse olhar interrogativo que revela não a surpresa, mas o desejo de fazer-se de surpreendido (e isso porque somos todos muito maus atores ou porque o próximo é sempre muito bom fisionomista) e talvez chegasse até a levar o dedo ao peito, como que dizendo: “É a mim que está chamando?”, para logo acorrer com a cabeça docilmente inclinada, muito obediente e dissimulando com fria atitude o incômodo que me causava o verme arrancado à contemplação de umas faianças antigas para que me apresentassem a umas pessoas que não me interessava conhecer. Enquanto isso, continuava a olhar a vitrina, à espera de que meu nome, lançado a gritos por Elstir, viesse ferir-me como uma bala esperada e inofensiva. A certeza de ser apresentado às moças teve como resultado não só fazer-me simular indiferença, mas senti-la realmente. O prazer de conhecê-las, como agora já era inevitável, comprimiu-se, reduziu-se, se, pareceu-me muito menor do que o de falar com Saint-Loup, jantar com a minha avó e fazer pelos arredores excursões que decerto lamentaria abandonar pelo convívio com pessoas que pouco deviam interessar-se pelos monumentos históricos. Além disso, o que diminuía o prazer que eu ia fruir não era só a iminência, senão também a incoerência de sua realização. Leis tão precisas como da hidrostática mantêm a superposição de imagens que formamos numa ordem fixa e que se transforma quando se aproxima o acontecimento. Elstir ia chamar-me. Mas não era da maneira como muitas vezes imaginei na praia ou em meu quarto que eu havia de conhecer as moças. O que ia suceder era outro acontecimento para o qual não estava preparado. Agora não reconhecia nem meu desejo nem seu objeto; quase sentia haver saído com Elstir. Mas, sobretudo, devia-se a contração daquele prazer que eu esperava à certeza de que não mo podiam tirar. E voltou a recuperar toda a sua dimensão quando, como em virtude de uma força elástica, não mais sofreu a pressão dessa certeza, no momento em que, resolvendo voltar a cabeça, vi que Elstir, parado a alguns passos dali, estava a despedir-se das moças.

 

 

Em: À sombra das raparigas em flor, Marcel Proust, tradução de Mário Quintana

 

 

NOTA: continuo com a leitura, em grupo, de Proust: Em busca do tempo perdido.  Estamos no segundo volume de sete: À sombra das raparigas em flor.  Logo chegaremos ao final desse volume. O grupo é pequeno, mas ao longo das semanas (uma vez por semana) fomos nos conhecendo melhor. A camaradagem logo se estabeleceu.  Acho que posso falar pelo grupo: Proust surpreende em muitos aspectos.  Aquele que sempre me surpreende são cenas como essa, das frustrações, dos erros de julgamento, que causam sorrisos e risos. O grupo riu muito quando passamos por aqui.

 

Proust não está nessa praia da Normandia, retratada por Monet.  Mas ele se encontra em balneário semelhante, à beira-mar.





Hoje é dia de feira: frutas e legumes frescos!

20 09 2017

 

 

PEDRO ALEXANDRINO - Metal, cristais e abacaxi - Óleo sobre tela - 73 x 87 - Coleção particularCobre, cristais e abacaxi

Pedro Alexandrino ( Brasil, 1864-1942)

óleo sobre tela, 73 x 87 cm

Coleção Particular





A intrigante primeira frase…

6 03 2017

 

 

VICENTE ROMERO (Espanha, 1956) Leitura - Pastel - 60 x 81.Leitura

Vicente Romero (Espanha, 1956)

Pastel,  69 x 80 cm

 

 

“Meu irmão é adotado, mas não posso nem quero dizer que meu irmão é adotado.”

 

 

Julián Fuks em A resistência, São Paulo, Companhia das Letras:2015, página 9, primeiro capítulo, primeira página.

 

 

 





Alguns favoritos do desafio de escrita, Dia 2 — #PHpoemaday

3 06 2014

 

 

michael j downs (Canada)Leitura

Michael J. Downs (Canadá, contemporâneo)

www.michaeldowns.com

 

 

O Céu de Hoje

Ariadne Cavalcante

 

O céu de hoje
Tem cor de melancolia
Tem a cara do poeta
Tem nuvens repletas de poesia
E um sol tímido entre frestas.

 

Pelada na cama

 

Marina Lobo

 

De uma fresta do edredom, vejo a moça peladona da previsão do tempo sorrir ao dizer: “Hoje teremos a madrugada mais fria do ano!” Ela deve ter algum problema, claro. Só pinguins, piriguetes e donos de restaurantes de fondue sorriem com o frio. Olho pro céu cinza e espirro. De novo. Para enfrentar o inverno, é preciso mau-humor e um tanto de roupa! Tirar tudo isso e entrar no chuveiro é coisa pra macho! Lavar o cabelo comprido à noite, é só pra quem é corajoso ou feliz de mais! Trocar o pijama e sair pra trabalhar, é atestado de coragem insana profunda. Eu sigo aqui nada pelada, equipada com três casacos, uma rinite, meia gripe e muitas saudades do cara que grita “Olha o mate!” no verão pelado de Ipanema.

 





Feliz Ano Novo!

31 12 2013

Reynaldo Manzke ( Noite na praia) aquarela com votosLago à noite, sem data

Reynaldo Manzke (Brasil, 1906-1980)

aquarela e guache sobre papel

Coleção Particular





Palavras para lembrar — Thomas B. Macaulay

13 09 2012

Um autor esquecido, 1890

Joseph Skelton (Inglaterra, 1821-1901)

óleo sobre madeira, 20 x 31 cm

“Prefiro ser pobre em um casebre cheio de livros do que rei sem o desejo de ler”.


Thomas B. Macaulay





O poder da imaginação: deixe Calcutá o surpreender — vídeo

4 02 2012




Agradeço à minha amiga Silvinha pela referência… Gostei imensamente e espero que os nossos amigos do blogue também se divirtam com essa apresentação





Com o Brasil na cabeça…

30 10 2010

Com o Brasil na cabeça…

[variação sobre o quadro do pintor espanhol]

O ouro do azul, 1967

Juan Miró (Espanha, 1893 – 1983)

óleo sobre tela

Fundação Juan Miró, Barcelona





Um passeio pelos jardins do Palácio do Catete

30 03 2010
Jardim do Palácio do Catete,  Rio de Janeiro.  Foto: Ladyce West

Neste verão que não acaba, em que fritamos todos os dias os nossos corpos a 38º C,  tenho procurado andar na areia da praia só no fim das tardes, e nos fins de semana visitar alguns dos belos jardins do Rio de Janeiro, a cata de  sombra, frescor, natureza e equilíbrio mental.   No sábado passado passei uma hora e pouco à sombra das árvores nos jardins do Palácio do Catete, antiga residência presidencial quando no século XX esta cidade ainda era a capital do Brasil.

Há uma característica desse jardim que sempre me intrigou e que dessa vez procurei saber o porquê.  Fato que salta aos olhos de quem quer que visite o local é a estranha distribuição de terra em relação à casa.  Os jardins são imensos.  Mas a casa fica não no centro dos jardins como seria de se esperar, mas no canto, dando de frente para a Rua do Catete.  Nem sei quantas vezes esse jardim é maior do que a área coberta por essa residência neo-clássica, construída entre 1858 e 1866, trabalho do arquiteto alemão Carl Friedrich Gustav Waehneldt, mas tem lago, tem gruta, tem esculturas e árvores gigantescas, e parece fora do comum que a casa ficasse assim num cantinho com as janelas paralelas à calçada.

Coreto, nos jardins do Palácio do Catete.  Foto:  Ladyce West

Finalmente descobri a razão:  a casa fora construída originalmente para residência na corte dos Barões de Nova Friburgo.  E a Baronesa havia exigido que este local fosse diferente de suas duas outras residências, a do Cantagalo e a de Nova Friburgo ambas as construções em centro de terreno.  A Baronesa de Nova Friburgo queria sentir o calor humano, a movimentação da corte, as carruagens passando, os vendedores cantando suas ofertas, seus pregões individualizados, quando chegasse à janela da residência citadina.  Daí o uso do cantinho esquerdo do terreno de esquina entre as ruas do Catete e a rua Silveira Martins [agradeço ao leitor Pedro Henrique pela correção do nome desta rua, que hoje, 29/9/2013 modifiquei no texto].  Os fundos da casa, dão para os jardins que se prolongam até  a Praia do Flamengo.  

Oceania, escultura em ferro fundido de Mathurin Moreau [França, 1822-1912], 1876.  Foto:  Ladyce West

Espalhadas pelos deliciosos recantos do jardim há uma série de esculturas em ferro fundido, de Mathurin Moreau (1822-1912), afamado escultor francês do século XIX, representando os continentes.  [Só uma dessas esculturas tem identificação numa tabuletinha próxima.  É a escultura cuja foto coloquei acima].  Ela representa a Oceania: um menino, abraça um pequeno canguru.  Infelizmente, a identificação dessas esculturas, está — como quase tudo que é patrimônio cultural no Rio de Janeiro —  deixada ao léu. É uma vergonha que o patrimônio cultural que temos a nosso alcance não exerça nenhuma fascinação sobre aqueles encarregados de preservar o nosso legado cultural (seria muito, pergunto, se um empregado do museu fizesse as mesmas tabuletinhas para cada uma das esculturas do palácio?  E se roubassem, fizesse de novo?  O custo é próximo a ZERO).   Mesmo nos jardins do Palácio do Catete, um museu carioca, temos o descuido de não identificar as peças, como se elas de nada valessem.  É uma pena.  Não pude, por causa do grande contraste entre a luz do sol e a sombra, nesse sábado, fotografar razoavelmente bem nenhuma das outras esculturas.  Uma delas na verdade, está longe, na frente de uma ilhota do lago, e terei que levar uma outra lente para isso.  Mas prometo aos leitores desse blogue que voltarei ao Palácio do Catete para registrar esses tetéias.  Sim porque essas esculturas são de um tamanho pequeno, certamente feitas para uso em jardins particulares  de importância.   Não há tampouco qualquer cartão postal com a foto das mesmas que se possa comprar e levar para casa como uma lembrança da arte encontrada no museu.  Vergonhoso.  Temos que melhorar isso antes de nos candidatarmos a eventos como Olimpíadas e Copa do Mundo,  porque esses eventos trazem pessoas que além dos esportes gostariam de conhecer a base cultural da cidade.  Garanto, que não há muitas cidades no mundo que têm o patrimônio artístico nacional e estrangeiro, em lugares públicos ou privados, que nós temos.

Os seis continentes, ferro fundido, Museu d’Orsay, Paris.

Mathurin Moreau foi um grande escultor francês do século XIX.  E nada melhor, para aqueles que gostariam de se dedicar às artes no Brasil e à escultura, que visitar essas pequenas representações dos continentes.  Mathurin Moreau criou outra escultura representando a Oceania, mais conhecida,  para a série de trabalhos representando  os  continentes.  A série foi organizada em 1878, e  seis dos mais importantes escultores franceses do final do século XIX  foram convidados a fazer uma escultura que representasse um continente:   América do Sul , por Aimé Millet (1819-1891); Ásia por  Alexandre Falguière (1831-1900); Oceania por  Mathurin Moreau (1822-1912);  Europa  por Alexandre Schoenewerk (1820-1855); América do Norte por  Ernest-Eugene Hiolle (1834-1886) e  África por Eugène Delaplanche (1831-1891).  Esse grupo permaneceu  no mesmo  local, Palácio Trocadéro, desde 1878 até a Segunda Guerra Mundial, quando em 1935 foi  transportado para Nantes.  Lá esteve  por cinquenta anos, até 1985, ano em que ” os seis continentes” retornaram a Paris, encontrando um lar na esplanada do Museu d’ Orsay. 

Oceania, 1878, Mathurin Moreau (França, 1822-1912), ferro fundido, Museu d’Orsay, Paris

Achei por bem postar, a título de curiosidade, uma foto da representação do mesmo continente, na versão de 1878, ou seja na versão de Mathurin Moreau para a Exposição Universal.  As que se encontram no Palácio do Catete são de 1876, ou seja, de 2 anos antes das  esculturas encontradas no Museu d’ Orsay.  Teriam sido elas um exercício do artista para o projeto mais monumental?  O que tanto a peça do Palácio do Catete quanto a encontrada no Museu d’Orsay têm em comum é o toque do exotismo, com a presença com canguru em ambas.  Detalhes exóticos seriam quase de obrigatoriedade nessas representações – afinal estamos falando dos últimos 25 anos do século XIX —  onde o exotismo foi explorado em todos os meios.  Mas as diferenças entre as duas mostram que suas funções foram determinantes na escolha da representação.  Enquanto a escultura feita para a Exposição Universal se mostra grandiosa, maior que a vida, as esculturas encontradas nos jardins do Catete, todas com meninos com animnais,  são mimosas e delicadas, no mesmo material (ferro fundido), mas definitivamente peças feitas para jardins menores, para o prazer do colecionador particular.

 

 Patos, Palácio do Catete, Rio de Janeiro.  Foto:  Ladyce West

Em outra ocasião dedicarei algumas palavras sobre o prédio, suas pinturas e decoração.   Sei que os jardins foram reformados sob a direção do engenheiro Paulo Villon,  em 1896,  quando a propriedade foi eletrificada para abrigar a Presidência da República, que até então usava o Palácio do Itamaraty.  Acredito que essas estátuas de Mathurin Moreau possam ter sido adquiridas na época para pontuar a reforma.    Há nesse jardim também um belíssimo chafariz, — que sábado passado não tinha água .  Esse chafariz, certamente entrou para o Palácio do Catete na reforma de 1896, pois era o chafariz do Largo do Valdetaro, que foi removido do local onde havia sido colocado em 1854 para este jardim em 1896.

Jardim do Palácio do Catete, Rio de Janeiro.  Foto:  Ladyce West

O charme do jardim desse palácio está certamente no romantismo de final de século tão bem retratado na combinação das palmeiras imperiais com árvores frutíferas;  nos lagos bucólicos com patinhos a nadar, e na construção da pequena e romântica gruta, além é claro, do delicado coreto.  É sem dúvida um dos lugares mais prazerosos do Rio de Janeiro.  E,  já que hoje circunda o Museu da República – porque com a mudança da capital para Brasília esse palácio passou a ser o Museu da República — nada mais natural que o tratemos bem e que muito mais atenção seja dada às informações do local.  Vamos esperar que a secretaria de turismo do estado abra os olhos e nos gratifique com um material digno sobre o que estamos vendo.    A falta de informações é um desrespeito com o visitante brasileiro, porque lhe rouba a educação de seu patrimônio cultural, lhe rouba o aprendizado de seu passado; é também um desrespeito com o visitante estrangeiro que procurou nos conhecer melhor, ver  quem somos e de onde viemos.   Dizem os psicólogos que o desleixo, que o desrespeito consigo próprio, é sinal de baixa auto-estima.  Não é isso o que merecemos no Brasil, e não é isso o que eu gostaria de passar para as gerações futuras.

Árvores centenárias do Palácio do Catete.  Foto:  Ladyce West




Revolução artística na Casa Branca? Deixe-me rir!!!

26 05 2009

arte moderna e donald

Pato Donald e Margarida,  ilustração de Walt Disney.

 

Na postagem anterior, com a tradução do artigo publicado pelo Wall Street Journal podemos testemunhar um traço marcante da cultura americana que é com freqüência ignorado no Brasil: o grande conservadorismo naquele país.

 

Sempre me choca a demonstração de brasileiros, principalmente jovens, que acreditam que o radicalismo encontrado nas palavras de músicas populares; que a revolução da forma, das cores e dos materiais nas artes plásticas; que a tendência de revolta contra o passado, é predominante nos EUA.  Há a expectativa de que todos ajam dessa maneira radical, que todos estejam cientes dos modismos, das radicalizações.  Das drogas aos palavrões.  Esta visão que temos da cultura americana é muito míope e bastante limitada a pequenos grupos nos grandes centros do país. Nova York (8.274.527 h.), Los Angeles (3.834.340 h.), Chicago (2.836.658 h.), Houston (2.208.180 h.) e Filadélfia (1.449.634 h.), as cinco mais populosas cidades, juntas não chegam a representar nem 7% da população do país de aproximadamente 306.000.000 de habitantes em 2008.  E todo o radicalismo cultural nestes centros populacionais não chega a envolver nem 20% desta população urbana.  Nossa visão, muito baseada nas imagens de Hollywood, corriqueiramente se engana ao ver hábitos representados no telão, como hábitos de um país inteiro. 

 

alien-tattoo-whole-body- cool optical illusions

 

Lembrei-me desta imagem que leva o título: Alien,  da página: cool optical illusions. 

 

O que esquecemos, porque a nossa tendência no Brasil é oposta, é que os EUA são um país de pequenas cidades.  Miami, a Meca de tantos brasileiros, o lugar chamado a Capital da América Latina, não chega a contar com meio milhão de pessoas, sua população em 2007 era de 409.719 e é a 43ª cidade americana em termos de população.  Não vou falar aqui de violência urbana, principalmente porque não gostaria de dar a impressão de que estou achando desculpas para a violência que encontramos nos grandes centros do Brasil. Mas, com franqueza, é mais fácil manter uma cidade de meio milhão de habitantes, como Miami, sem violência do que São Paulo ou Rio de Janeiro. Culturalmente, no entanto, pequenas cidades não se prestam a grandes radicalismos, porque nelas é mais fácil a sociedade exercer sua influência; é mais fácil para os que não querem se adaptar à cultura dominante de serem empurrados muito a contragosto para o ostracismo social local. 

 small town, example, Marietta, Ohio

Volto então ao radicalismo nas artes plásticas atribuído ao casal Obama na Casa Branca.  É risível!  Grande parte dos “radicais” abstratos que eles escolheram para decorar a residência enquanto moram na Casa Branca, são grandes nomes da arte mundial, cujos trabalhos (pinturas, esculturas) já se encontram em dezenas de museus através do mundo, como exemplos sim de uma revolução cultural, mas de meados do século passado.  Na verdade, é difícil imaginar hoje em dia, que ainda possamos considerar os trabalhos de Jasper Johns, de Rauschenberg, de Nicolas de Staël e certamente de Joseph Albers, como radicais.  Eles são os acadêmicos do século XX.  Francamente, eles já estavam nos currículos de História da Arte – por natureza um dos cursos de formação mais conservadores do mundo – quando eu entrava para pós-graduação.   Grande parte dos “revolucionários”, dos “extremistas” escolhidos pelo casal Obama para a Casa Branca, já morreu e já têm seguidores de segunda e terceira geração!  O auê causado pela escolha de abstratos chega à Casa Branca com 100 anos de atraso!  Vamos lembrar que Kasimir Malevich, — líder do Suprematismo, e um dos primeiros pintores a trabalhar com o puro abstracionismo, já pintava um quadrado negro sobre um quadrado branco em 1915!   O que os Obama estão fazendo, radical até pode vir a ser, é fazer a Casa Branca, finalmente aceitar um século inteiro de mudanças nas artes plásticas.  A meu ver, um pouco tarde, para todos os efeitos. 

 

Quadrado Negro, 1915

Quadrado Negro, 1915

Kasimir Malevich ( Rússia, 1878-1935)

Óleo sobre tela, 53,5 x 53, 5 cm

Museu Hermitage, São Petersburgo

Rússia