Uma biblioteca sem livros

15 09 2013

interior-2_wide-a0198747ec52a55b2e37f2207b4a50fa3a3e9829-s40-c85Ilustração da página da NPR.

Uma biblioteca pública totalmente digital abriu nesta semana no Texas. A unidade oferece cerca de 10 mil e-livros gratuitamente para os 1.700.000 moradores do município, que inclui a cidade de  San Antonio. Os  clientes podem acessar eBooks gratuitos e livros de áudio. Para ler um e-book em seu próprio dispositivo, os usuários devem ter o aplicativo 3M Biblioteca-nuvem,  para se conectar com a biblioteca.  O aplicativo inclui uma contagem regressiva de dias que o leitor tem  para terminar um livro — são 14 dias no total.

A biblioteca tem uma presença física, com 600 e-readers e 48 estações de computadores, além de laptops e tablets. As pessoas também podem vir para a hora de contação de histórias para crianças ou para aulas de informática.

O projeto de uma biblioteca sem livros já foi tentado antes.  Talvez, 2002 tenha sido cedo demais, quando a Biblioteca Santa Rosa do Arizona abriu uma filial também só digital.  Mas,  anos mais tarde, os moradores – fatigados pela eletrônica – pediram que livros reais fossem adicionados à coleção, e hoje, desfrutam de uma biblioteca de acesso completo com computadores.

NPR





Natureza maravilhosa — Peixe mandarim

15 09 2013

mandarin fish7Peixe Mandarim.  Foto: Life of Sea.

O peixe-mandarim (Synchiropus splendidus) vive na água salgada em lugares de clima tropical. Mede de 6 a 10 centímetros de comprimento. Vive escondido em fendas nos recifes de coral e alimenta-se de pequenos animais marinhos que passam próximo de seu esconderijo; também come pequenas quantidades de algas e outros flocos que possam lhe servir de alimento. Vive no Pacífico.





Flores para um sábado perfeito!

14 09 2013

Bernardo Cid, Flores, ost, 100x80Vaso de flores, s/d

Bernardo Cid (Brasil, 1925-1982)

óleo sobre tela, 100 x 80 cm

Coleção Particular





Anedota sobre Fontenelle na revista O Espelho de 1859

14 09 2013

charles-henry-tenre-the-interval-at-the-theatre-145479Intervalo no teatro

Charles Henry Tenré (França, 1864-1926)

óleo sobre tela

Fontenelle estava na Ópera, em Paris, e tinha nessa ocasião cem anos. Um inglês entra-lhe pelo camarote e diz:

— Vim de propósito de Londres para ver o autor de Thetis e Peleu.

— Pois, senhor, respondeu Fontenelle; dei-lhe bastante tempo para isso.”

Em:  O Espelho: revista de literatura, modas, indústria e artes, n. 17,  25 de dezembro de 1859, p.11. da edição em facsímile, Rio de Janeiro, MEC:2008, p. 230.





O início da 2ª Guerra por Marques Rebelo

13 09 2013

Britishers,_enlist_today

[1940]

30 de agosto

Os ataques aéreos contra a Inglaterra, que haviam se reintensificado em grande escala, após aliviante atenuamento, cessaram subitamente. Há dois dias que as sirenes londrinas não lançam seu estertor, há dois dias que o sono pode ser usufruído pela heróica população. Que poderá haver sob esta trégua? É exaustão ou armadilha? Mas os ingleses, como bons buldogues, é que perseveram na contracarga e Berlim foi bombardeada pesadamente durante três horas. Pela primeira vez – diz o rádio-jornal – a capital germana sentiu em toda a sua plenitude os horrores da guerra moderna.

31 de agosto

Esta guerra não é um assunto como a de 1914. E o jogo do nosso destino – o mundo tornou-se uma coisa só, coisa que precisa ser liberada e expurgada. Enchendo-nos de receio ou de esperança, de fervor ou desespero, pelo jornal, pelo rádio, pelo cinema, acompanhamos a sua marcha com a alma em riste. Se como na outra decoramos, rápidos, a sua nomenclatura e a sua terminologia, ganham elas nesta um significado transcendental, e é com a meticulosidade duma observação clínica que traçamos cada dia, cada hora, cada minuto, em permanente sofrimento e incerteza, o gráfico do seu desenrolar, pois que o seu desenlace nos atingirá de forma decisiva. É como se observássemos a evolução da nossa própria enfermidade. Anotamos os acessos e as astenias, os focos de resistência ou de depauperamento, discutimos cada sintoma, cada erupção, cada infrutífero medicamento. Armamos idealmente os planos duma eficaz terapêutica. Que importa o que tenha sido a Inglaterra se hoje encarna para nós o anticorpo que poderá nos salvar da infecção?

1º de setembro

Hoje completamos um ano de guerra, aniversário que ninguém ousará comemorar com bolo de velinhas. Os alemães mantém quase todo o continente europeu nas suas unhas, dominam toda costa que vai do cabo Norte ao golfo de Biscaia, além do qual se encontra a companheira das castanholas e zarzuelas, envolta na sua mantilha milico-clerical e renovando, como guerra de nervos, a campanha em prol de um ataque a Gibraltar. Hitler fez em dez anos o que Filipe de Espanha, e mais tarde Napoleão, não conseguiram realizar após largos anos de campanhas bélicas e diplomáticas. Já é alguma coisa – e de assustador!

No Mediterrâneo e na África, a Itália pode atacar os trigais do Egito e os terrenos petrolíferos do litoral da Palestina. Portugal não é só um Jardim da Europa à beira-mar plantado, é um eficiente consulado nazista também. No Extremo Oriente, o Japão pode ameaçar  Hong-Kong e Singapura, ou as colônias francesas e holandesas. Cá na América do Sul, a Argentina vende a sua carne para quem puder pagar,mas tende simpaticamente ao Eixo.

Amigos, o panorama é negro, mas a Inglaterra esperneia e os Estados Unidos estão de olho, certa será sua participação na luta se as coisas se agravarem, conquanto seja necessário primeiramente vencer as correntes isolacionistas que os republicanos tanto defendem, mais comerciantes do que cegos.

E aqui, seu moço?”

Em: A mudança, Marques Rebelo, 2º volume de O Espelho Partido, São Paulo, Martins: 1962, pp, 313-314.





Quadrinha das máscaras

13 09 2013

máscara, Emiliano PonziIlustração Emiliano Ponzi.

Vê-se máscaras de tudo,
de toda forma e matiz:
papel, borracha e veludo,
e até de gente feliz…

(Péricles Gonçalves)





Boa sexta-feira 13 a todos vocês!

13 09 2013

Bereny_Robert-Black_cat.normalO gato preto, s/d

Robert Berény (Hungria, 1887-1953 )

óleo sobre tela, 87 x 100 cm

Galeria Nagy István





Ilustrando os entraves para uma boa educação

12 09 2013

amorepsicheEros e Psiquê, 1787-1793

Antonio Canova (Itália, 1757-1822)

Mármore

155 x 168 cm

Museu do Louvre, Paris

A lenda grega de Eros e Psiquê está entre as mais conhecidas por todos aqueles que se dedicam aos estudos humanistas,  das  artes visuais à psicologia. É uma história deliciosa, constantemente  referenciada na pintura, na escultura.  Também serve de pano de fundo ou de base de estudo para a psicologia – Freud, Carl Jung, James Hillman entre outros fizeram uso extensivo do mito para o entendimento do ser humano.

A versão mais difundida dessa lenda é de autoria de Apuleio, autor latino do século II  que escreveu o romance picaresco Metamorfose, ou como é mais popularmente conhecido O asno de ouro. Psiquê e Eros é na verdade uma das histórias contadas no livro de Apuleio, em que um homem, transformado em burro, precisa passar por diversos obstáculos a ele impostos para receber a graça de voltar à forma humana.  Mas sabemos que a lenda de Eros e Psiquê data dos tempos áureos da Grécia antiga.  Há representações desse romance por volta de 400 a.C.  Platão e Plotino entre outros pensadores de longa data também fazem referências à essa história.  Em suma, trata-se de um clássico da cultura ocidental, texto essencial para melhor conhecimento dos princípios humanísticos.

ZEUGMA MOSAICS (1st to 2nd century C.E.) in Gaziantep Museum, Gaziantep, Turkey The winged god Eros (Love) sits on a throne beside his wife Psykhe (Soul), or mother Aphrodite

Eros sentado ao lado de sua esposa Psyquê, séc. I-II d.C.

Mosaicos Zeugma

Museu de Gaziantep, Turquia

De todos os clássicos que li na minha formação como historiadora da arte O asno de ouro foi um dos pude ler sem quaisquer dificuldades de entendimento graças à belíssima tradução de E.F. Kennedy.  Sim, como estudei fora do país, fiz a leitura desse clássico, em inglês, The Golden Ass, na edição Penguin de bolso.  O meu volume, com anotações a lápis, com marcas em tinta amarela para ressaltar partes do texto, está caindo aos pedaços e subsiste preso com um forte elástico que mantém capas e recheio juntos.  Desfazer-me dele?  Nunca.  Este volume tem a história das minhas leituras.  Sendo uma edição de bolso, de custo mínimo, nunca pensei que poderia estar tratando casualmente demais uma obra que pudesse ser um dia tratada como rara. Era e é uma ferramenta de trabalho.

Fiquei escandalizada quando ao preparar minhas notas para a discussão em aula do quadro Primavera, 1478-82, de Sandro Botticelli [acervo da Galleria degli Uffizi, Florença] e procurei nas livrarias cariocas O asno de ouro de Apuleio.  Não existe.  Há no momento duas edições em português que, se interessada, eu poderia encomendar em Portugal.  Há a edição simplificada do romance original titulada: Conto de Amor e Psiquê, que reduz o livro de Apuleio justamente à história que dá nome à esta edição, publicada pela Biblioteca dos Editores Independentes, 128 páginas.  Para essa compra teria que esperar 70 dias para a entrega.  Esta beleza, sem custo de transporte, me custaria R$23,90.  Não gosto de clássicos reduzidos.  Perde-se a beleza do texto, ainda mais quando o texto já é traduzido [nesse caso traduzido do latim]. É como ler as notas chamadas BURRO, notas de resumos de obras clássicas para se dar a impressão se ser mais erudito do que se é.  Essas edições me lembram os anos em que eu estudava piano e no afã de mostrar que fazia progresso, muitas vezes tentei  as  “peças facilitadas” que nunca soaram bem: uma idiotice que não engana ninguém.

goldenassbO asno de ouro, c. 1530

Anônimo

afresco

Salle delle Gesta Rossiane

Rocca dei Rossi,  San Secondo, Itália

Há também a possibilidade de comprar O Burro de Ouro [sic] [Por que trocar o nome de um clássico?  No mundo inteiro a palavra usada é ASNO.]  da editora portuguesa Cotovia, 250 páginas, também levando 70 dias no mínimo para entrega.  Esta beleza leva o preço de R$113,90.  Ou seja, não é só o burro que é de ouro, as letras impressas também devem ser.  R$113,90 equivalem a 17% do salário mínimo brasileiro, sem o custo de transporte de Portugal para o Brasil.

ga30O asno de ouro, 1905

Henry Justice Ford (1860-1941)

Agora vamos a algumas considerações.  Portugal tem 10.000.000 – dez milhões de habitantes, o Brasil tem 198.000.000 – cento e noventa e oito milhões. Portugal tem duas edições do romance de Apuleio. O Brasil tem ZERO. Há algo de errado.  O Brasil tem 19 vezes mais habitantes do que Portugal.  Mesmo que tenhamos uma percentagem pequena que letrados, não se justifica que não tenhamos a possibilidade de acesso a um clássico de importância em diversos campos de estudos universitários, em português.  É inadmissível  que não se possa comprar por um preço razoável esse texto; que não haja uma única editora dedicada ao nicho dos clássicos; é bom lembrar que se trata de uma publicação do século IV, ou seja, em domínio público.  A tradução pode não estar em domínio público, mas quanto custa re-editar, quanto custa o pagamento de uma revisão da tradução já feita?

AWB1895

O rapto de Psiquê, 1883

Adolphe-William Bouguereau (França, 1825-1905)

óleo sobre tela, 209 x 120 cm

Coleção Particular

Porque eu  só tinha acesso ao meu texto em inglês, continuei querendo uma edição em que pudesse colocar as mãos sem ter que ir à Biblioteca Nacional.  Eu queria poder fazer uma citação em português para meus alunos e vendo-me exasperada com os 70 dias de espera e com o preço exorbitante, fui ao portal da Estante Virtual,  e as surpresas continuaram: há muitas publicações na seção infanto-juvenil – as tais facilitadas.  Há uma até na seção de Genealogia (essa eu também não entendi). Mas  só uma única publicação do texto integral à venda nesse consórcio de sebos brasileiros.  É de 1963, da editora Cultrix.  E pasmem: está classificada como LIVRO RARO, e custa a bagatela de R$99,90 + R$4,63 de frete de São Paulo para o Rio de Janeiro. E tem mais, não está lá em boas condições, segue a descrição no portal: Livro com sinais de uso, fitas adesiva na lombada devido a rasgos, manchas no miolo, lombada levemente descolando, manchas no verso da capa e da contracapa, sinais de desgastes, sinal de dobra na lombada, 235p. O livro Asno de Ouro é o único romance a ter sobrevivido inteiro da época do Império Romano, foi escrito em no século II d. C e conta a história de um rapaz chamado Lucius que foi transformado em asno por uma feiticeira. Esse livro serviu como inspiração para muitos autores clássicos como Boccaccio, Cervantes e Shakespeare.[o negrito é meu] Ah, eles também tem uma edição em italiano…

Para ter certeza de que não estava me revoltando sem razão fui a Amazon, onde encontrei um clássico de bolso, edição integral, igual ao meu volume, tradução de E.F. Kennedy,  por USD$ 10.89 [no câmbio de hoje, R$26,00]; encontrei também outras edições, um mundo de opções a preços muito tentadores: uma com a tradução de Sarah Ruden, a USD$ 12.60 [R$30,00], pela Yale University Press; uma edição com tradução do grande Robert Graves, da editora Farrar, Straus and Giroux, a USD $ 11.08 [R$ 26,00]; uma edição da Oxford University Press, tradução de P. G. Walsh ao custo de USD$ 10.45 [R$25,00]; Jack Lindsay é o tradutor na edição da Indiana University Press USD$ 14.40 [35,00];  a edição da Hackett Pub Co, com tradução Joel C. Relihan tem o preço de USD$ 13,30 [R$32,00], isso sem me ater ao livros que eu poderia baixar da internet, para leitura digital.

Cupid and Psyche (1st century, painting, Pompeii)Eros e Psiquê, século I

afresco

Pompéia

São muitas as edições a preços populares encontradas nos Estados Unidos.  Não devemos portanto nos surpreender da preferência que nossos alunos têm pelo uso constante do inglês; nem nos surpreender pelo desenvolvimento na maior parte das áreas de humanas e das ciências do nosso vizinho no norte.  Porque é de detalhes como esse, é da facilidade de se poder acessar informação que se faz uma cultura, que se distribui conhecimento.

Essa experiência demonstra uma das muitas dificuldades encontradas na educação brasileira. É lamentável.  É um exemplo pequenino que ilustra eloqüentemente as razões do nosso constante subdesenvolvimento intelectual.  Se esses volumes de obras clássicas não trazem lucro para as editoras, seria o caso de se abrir uma ONG com o intuito de publicar e distribuir clássicos no Brasil?  De cuidar que eles estivessem sempre nas prateleiras das nossas livrarias para venda?   Não tenho a solução. Tampouco acredito em soluções governamentais porque no Brasil elas não parecem ter continuidade.  Nossa salvação será a Penguin brasileira, talvez.  Mas deixaremos as decisões do que faz a cultura brasileira nas mãos de estrangeiros, mais uma vez. Pena.





Minutos de sabedoria — Pearl S. Buck

12 09 2013

Auguste de Chatillon, Auguste de Chatillon ( França 1808-1881) Leopoldina com o livro das horasLeopoldina Hugo, no dia de sua Primeira Comunhão*, 1835-6

[Filha do escritor francês Victor Hugo]

Auguste de Chatillon ( França,1808-1881)

óleo sobre tela, 60 x 73 cm

Museu Victor Hugo, Paris

* Esta tela também pode ser encontrada pelo nome: Leopoldina e o Livro das Horas.

“Quando cessa a vigilância e os esforços dos bons, os maus predominam”.

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Pearl S. Buck





Você lê ficção brasileira?

10 09 2013

benoît van innisIlustração de Benoît van Innis.

Na semana passada foi divulgado na imprensa carioca, durante a Bienal do Livro no Rio de Janeiro, que a literatura estrangeira foi o segmento editorial que mais cresceu em vendas no Brasil. 33% de livros vendidos no primeiro semestre deste ano  foram livros de ficção estrangeira.   Isso reflete um crescimento de 42%, sobre o ano passado, enquanto o mercado de vendas de livros de um ano para o outro cresceu muito menos, só 11%.

Os 30 livros de ficção mais vendidos no Brasil representam 36% das vendas. O poder de um best-seller internacional é bem forte, na pesquisa, feita pela companhia multinacional alemã GFK, ficou claro que sem as vendas do livro Cinquenta tons de cinza, da editora Intrínseca, a venda de ficção estrangeira teria vendido muito menos só 23% em vez de 42%.  Não há falta de leitores no país.  Não é uma questão de preço, porque os livros estrangeiros em geral são mais caros porque custam mais (considere-se direitos autorais e de publicação pagos em outra moeda e despesas com tradução).  O problema não é nem falta de leitores, nem falta de dinheiro.  Então, há uma pergunta que se faz necessária:

Por que os autores brasileiros de ficção não conseguem vender tão bem quanto os estrangeiros?

Fonte: Jornal O Globo, 27 de agosto de 2013.