Estória, poema de Martins d’ Alvarez — [para o dia da vovó]

26 07 2009

 vovó conta histórias

 

 

Estória

 

( para pequenos e grandes)

 

                                        Martins d’ Alvarez

 

 

À sombra do tamarindo,

vovozinha, bem sentada,

vai de alfinetes cobrindo

o papelão da almofada.

 

O neto deixa o brinquedo,

chega-se de alma curiosa,

nos bilros buscando o enredo

da renda maravilhosa.

 

Sutil, entre dois extremos,

uma conversa se agita:

— Vovó, como é que aprendemos

Fazer renda, assim, bonita?

 

— Ora, benzinho, aprendendo…

Aprendendo devagar…

Até acabar sabendo,

até um dia acertar.

 

— Pois me ensine, vovozinha!

Garanto que hei de aprender.

— Ensinarei, calunguinha,

quando aprenderes a ler.

 

— Mas vovó não disse, um dia,

que vovozinho morreu

pelo muito que sabia…

Por que demais aprendeu?

 

— Morreu porque foi ferido

No amor próprio, meu bebê!

— Então, o vovô querido

não só amava a você?

 

Vovó fez cara de chiste,

mas, sua fronte pendeu…

Soltou um suspiro triste,

quedou-se … e não respondeu!

 

(Fortaleza, Ceará, 1932)

 

Em: Poesia do cotidiano, Fortaleza, Ceará, Editora Clã: 1977

 

 

 

José Martins D’Alvarez   (CE 1904)  Poeta, romancista, jornalista, diplomado em Farmacia e Odontologia, professor, membro da Academia Cearense de Letras. Nasceu na cidade de Barbalha, Estado do Ceara, em 14 de setembro de 1904.  Filho de Antonio Martins de Jesus a de Antonia Leite da Cruz Martins. Fez os estudos primários na sua cidade natal, os secundários, no Liceu do Ceará.  Depois de formado em Odontologia. Transferiu em 1938 sua residência para o Rio de Janeiro, onde exerceu, além de atividades na imprensa, atividades no magistério superior.

 

 

 

Obras:

 

“Choro verde: a ronda das horas verdes”, 1930, poesia

“Quarta-feira de cinzas”, 1932, novela

 “Vitral”, 1934, poesia

“Morro do moinho” 1937, romance

“O Norte Canta”, 1941,  poesia popular

“No Mundo da Lua”, 1942, poesia para crianças

“Chama infinita, 1949,  poesia

“O nordeste que o sul não conhece 1953, ensaio

“Ritmos e legendas” 1959, poesias escolhidas

“Roteiro sentimental: geopolítica do Brasil” 1967, poesias escolhidas

“Poesia do cotidiano”, 1977, poesia





Imagem de leitura — Gerard Dou

26 07 2009

gerard dou

Velha senhora lendo, (Retrato da Mãe de Rembrandt), 1630

Gerard Dou ( 1613-1675)

Óleo sobre madeira 71 x 55,5 cm

Museu Rijksmuseum, Amsterdã

 

 

Gerard Dou —  Filho de um gravador e pintor em vidro, Gerard Dou começou sua vida de artista plástico pintando sobre vidro.  Em 1628 começou a estudar com Rembrandt, onde aprendeu a arte dos contrastes de luz, a arte do claro-escuro.   Sua especialidade acabou sendo as cenas iluminadas a luz de vela que o fizeram bastante popular  na Holanda do século XVII.    Pintou principalmente pintura de gênero, em que pessoas são retratadas no seu ambiente do dia a dia.  Ficou conhecido pela meticulosa maneira de pintar, pela acurada precisão da representação de texturas diversas.  Gozou de uma excelente reputação internacional e diversos monarcas europeus colecionaram seus trabalhos.  Morreu em Leiden, onde nasceu, e de onde nunca se sentiu tentado a sair.





Chocolate de leite de camela ?!?

26 07 2009

egyptian-camel,steven noble (EUA)

Camelo, ilustração de Steven Noble (EUA).

 

Quando morei em Oran, na Argélia, tive a oportunidade de me familiarizar um pouco mais com os camelos, que até então só conhecia de zoológicos.  Ou seja, passei a vê-los no dia a dia, não dentro do perímetro urbano, afinal Oran era uma cidade moderna de mais de um milhão de habitantes.  Mas como animal de carga, vi muitos camelos nos arredores da cidade, assim como nas aldeias.  Eles não me deram uma boa impressão.  São muito altos, grandes mesmo, e têm um odor peculiar tão intimidante quanto sua altura. Alguns poderiam dizer uma inhaca, uma catinga que penetra nas narinas de visitantes – como eu — e não quer mais largar…   Ruminantes que são, parecem em perpétuo comer, e enquanto mastigam, seus lábios se embabadam para os lados e para a frente de uma maneira pouco atraente.   Cospem com freqüência e seu relincho (camelo relincha?) é sofredor, dá pena.  Não quero desmoralizar esse animal.   Sei da importância que tem para a sobrevivência do ser humano em condições extremas e reconheço seu enorme valor para os moradores do deserto.  Estou simplesmente dando a minha impressão, reiterando os meus preconceitos de cidadã urbana, do mundo ocidental, quando confrontada com tamanha besta.  Por isso mesmo fiquei surpresa de ver que a Al Naasma – uma companhia de Dubai, especializada em chocolates feitos com o leite do camelo, que começou tal produção em 2008 —  tem planos de expansão de mercado incluindo entre seus futuros parceiros outros países árabes, a Europa, o Japão e os Estado Unidos.  E não pretende vender chocolate para qualquer um.  Seus chocolates poderão ser adquiridos, se as negociações em progresso se cristalizarem, na famosa loja Harrods em Londres, ou na conhecida Chocolate Covered, boutique de chocolate da cidade de  São Francisco.  

 

chocolate

 

Procurei ir um pouquinho mais a fundo nesse plano para saber das razões que levariam alguém a comprar chocolate de leite de camela.  Por que, além do simples modismo, alguém se daria ao trabalho de procurar adquirir mais de uma vez, ( não há negócio que possa sobreviver sem o comprador que repete a sua compra) esse singular produto?  E descobri coisas incríveis:  o leite de camela tem 5 vezes mais vitamina C do que o  leite de vaca, tem muito mais ferro do que o leite de vaca, menos gordura, menos lactose e mais insulina.  Além disso é rico nas vitaminas que fazem o complexo B.   Talvez mais importante que tudo já mencionado é que o leite de camela leva a fama de ser um ótimo restituidor de forças, recuperador de ânimo para doenças sérias, recuperador da virilidade masculina e grande afrodisíaco.  Isso o faz um produto excepcional.  O leite de camela aparece como um ótimo produto para diabéticos assim como para aqueles que apresentam intolerância à lactose.   Os chocolates produzidos com o leite de camela, pela companhia Al Naasma, não têm conservantes ou aditivos químicos.   São adocicados com mel e produzidos com coquinhos e especiarias do Oriente Médio.  

Não.  Não pense que esse discurso é um anúncio pago pela companhia de Dubai.  Minha influência não é tão grande, mas a minha curiosidade sobre novos projetos de auto-sustentação é grande.  

 

camel, niles shmistry

Camelo, ilustração de Nilesh Mistry.

 

No meio dessas descobertas li que é muito difícil tirar o leite de camelas.  De acordo com um artigo de 22/7/2009 do Wall Street Journal, Uma fã de leite de camela sofre para começar uma fazenda de gado camelo [A Fan of Camel Milk Struggles to Start a Drome-dairy], as camelas sentem cócegas nas regiões próximas às tetas, movem-se muito e podem de repente se deitar no chão, no meio do processo de tirar o leite.  Além disso preferem dar leite quando há cria por perto.  Sem um bebê camelo é mais difícil a camela dar leite.  Até hoje poucas são as fazendas leiteiras que usam maquinaria na extração do leite de camelo.  A mais conehecida é a companhia The Camelicious [O Camelicioso], uma companhia de Dubai, que desde 2006 vende leite de camela com sabores açafrão ou tâmara.   Outra característica do leite de camela para os produtores é que em média a camela produz 7,5 litros de leite por dia.  Quando se compara com a produção de uma vaca leiteira, em média 26,5 litros/dia, poderíamos dizer que não parece um investimento atraente.

No entanto, isso não está desanimando novos criadores rurais.  Principalmente quando há grande demanda tanto para o leite como para o chocolate feito com o leite de camela.  Essa procura vem dos países ricos do Oriente Médio, do Japão e da Europa.  Por isso mesmo, pessoas como Millie Hinkle, entrevistada pelo Wall Street Journal em Raleigh, Carolina do Norte, estão à cata de aprovação pela FDA [Food and Drug Admnistration] para poderem vender o leite de camelo dentro dos EUA.  A produção de seu rebanho de 40 camelos já estaria toda vendida caso o leite de camelo já tivesse sido aprovado para comércio nos EUA.  Há muito interesse.  Há muita procura.    Em 2006, a ONU projetou  em 10 bilhões de dólares o total de vendas globais de leite de camela e recomendou que o Oriente Médio se dedicasse a essa atividade para melhoria econômica.  Evidentemente não só os habitantes do Oriente Médio estão com os olhos abertos para a oportunidade.  Já há interesse na produção de leite de camela nos EUA, que como o Brasil, não têm camelos naturalmente.  Será que haverá alguém, aqui no Brasil, interessado em se dedicar à produção de leite de camela?   Fica aqui a idéia e os votos de sucesso.  Quanto a mim, a não ser que o meu médico recomende, acho que ficarei com os meus próprios preconceitos.  Vai ser difícil esquecer de onde vem esse leite.  Rs…

FONTES: 

Reuters

The Wall Street Journal





Um momento Glória Perez

25 07 2009

Eugène Delacroix, WomenofAlgiers

Mulheres de Argel, 1834

Eugène Delacroix ( França, 1798-1863)

Óleo sobre tela,  180 x 229 cm

Museu do Louvre, Paris

 

Há tempos não acompanho novelas televisivas.  “O Clone” foi a última novela que acompanhei, vendo os capítulos sentada lado a lado com minha mãe, que corajosamente resistia a uma doença terminal.  Naquela época, fiquei impressionada com a facilidade com que alguns personagens transitavam do Norte da África para o Brasil, encontrando-se aqui ou lá como que por acaso.  Sei que o mesmo fenômeno ocorreu em outra novela passada em Miami e Rio de Janeiro assim como está acontecendo nos dias de hoje com a novela Caminho das Índias.   

 

Hoje, tive o meu momento Glória Perez.  E também um momento em que testemunhei por mim mesma, o poder da internet:  como ainda não estou cozinhando na minha nova residência, saímos, eu e meu marido, para tomar café no bar/restaurante mais próximo, que oferece uma generosa média quentinha.  Sentamos nas mesas da calçada, como bons cariocas, mesmo que a chuvinha de inverno insistisse em molhar a rua.  Debaixo do toldo apreciávamos a manhã tranqüila.  Depois de uns dez minutos, quando já contemplávamos  uma segunda xícara, passa uma senhora simpática. Anda adiante e depois volta.  Se aproxima.  De repente fala comigo: 

 

— Você não é Ladyce?

— Sim.

— Ah, que bom que a reconheci….

— ?!!???

 

Em outras palavras: ela era um “conhecimento” da internet, uma pessoa que eu nunca havia visto, nem em fotografias, já que meu contato com ela havia sido através de seu filho.  E ela me reconheceu.  Por foto!   Foto que viu num site, diferente do site de relacionamentos no qual eu e seu filho havíamos trocado algumas palavras a respeito de nomes de famílias em Mato Grosso.   Mas o mais interessante.  Ela não mora no Rio de Janeiro.  Está aqui por dois dias.  Chegou ontem, vai embora amanhã.  E num desses dias, numa manhã chuvosa, no Rio de Janeiro, uma cidade de 7 milhões de pessoas, ela passou por uma calçada de Copacabana, viu uma pessoa que reconheceu de uma foto na internet e se conectou.  As possibilidades disso acontecer são muito remotas. E se aparecesse em novela, eu iria reclamar dizendo que  falta credibilidade no texto.  Pois, engulo minhas palavras, engulo a minha desconfiança, o meu ceticismo.   Glória Perez está certa!





Passarinhos, quadrinha para uso escolar

24 07 2009

primavera Mabel Rollins Harris

Ilustração: Mabel Rollins Harris

 

Como é belo ver a planta

que abre flores nos caminhos,

nas horas em que Deus canta

pela voz dos passarinhos!

 

(José Lucas de Barros)

 





Tesouros

23 07 2009

Tesouro, willy pogany, Tisza Tales

Tesouro encontrado, ilustração de Willy Pogány para os Contos Tisza, publicados em 1928.

 

A grande vantagem desta mudança ( e eu prometo parar de falar nela) foi a descoberta de pequenos tesouros que irei aos poucos colocando aqui no blog.  Quadrinhas esquecidas, observações guardadas em livros que estavam na estante mais alta e por isso mesmo quase nunca manuseados…  Enfim, um verdadeiro tesouro de imagens e textos com os quais nos deliciaremos assim como a lembrança que tive hoje desta imagem do grande ilustrador amricano Willy Pogány. 

 

Willy Pogány (1882-1955) grande  ilustrador americano, nascido na Hungria.  Ilustrou tanto livros infantis como de adultos.  Fez capas das mais famosas revistas e assim como a série de ilustrações para o sabonete Palmolive.  Mas ficou famoso precisamente pela ilustração de contos folclóricos, irlandeses, das mil e uma noites e muitos outros.





Reflexões…

22 07 2009

28caixas

MUDANÇA…

 

Há mais do que a troca de endereços numa mudança.  Há uma mudança interna, emocional que acompanha o processo de reajuste a uma nova residência.  Pode até mesmo se transformar  numa experiência catártica quando emoções variadas vindas do passado próximo ou de mais-que-passado voltam à tona, apresentando-se subitamente, sem pedir licença, e exigindo que se considere fatos que pensávamos há muito tempo devidamente sepultados. 

Nunca fugi de mudanças, por mais trabalhosas e fisicamente difíceis que elas tenham sido.  Mas todas elas, desde a minha primeira ao sair da casa de meus pais, até a desta semana, todas, têm em comum a re-avaliação do que se é, do que se pensa ser e do que imaginamos poder virmos a ser.  Somos confrontados com um espelho real, quase cruel, de quem somos.  Nem sempre é bonito.  Às vezes é prazeroso.  Mas as emoções rolam a cada caixa que se abre, a cada decisão do que se deve manter ou jogar fora.

Pandora,jw Waterhouse, 1896

Pandora, 1896

J W Waterhouse ( Inglaterra, 1849-1917)

Óleo sobre tela, 91 x 152 cm

 

Confesso que tenho me visto como Pandora, ao abrir as caixas de meus pertences. Cada caixa traz novas decisões.  Não só onde colocar o conteúdo.  Mas tenho que responder a pergunta interna: será que agora usarei este conteúdo com mais ou menos freqüência?  Pra que mesmo que guardei estas ilustrações?  E esses slides?  Jogo fora?  Terei tempo de digitalizá-los?  Para quem? E por quê? São tão bons assim?  E lá vou eu na rotina diária há 7 dias das perguntas incessantes que definem, fazem o perfil e demonstram para mim mesma meus sonhos passados, minhas esperanças.  O que deu certo, o que não era para ser.  O que tinha tudo para dar certo mas não deu.  Esta reavaliação é e tem sido constante, e às vezes me leva das lágrimas às gargalhadas.  Mas é uma reavaliação que faz bem à alma.  E deste caos, desta incrível bagunça em que minha vida se transformou, como Pandora, guardo a esperança.  A esperança de dias, de idéias, de paixões ainda muito mais gratificantes.  

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NOTA:  Tenho tido muitos comentários nesses últimos dias e prometo respondê-los amanhã.  Hoje, a exaustão não deixa.  Muito obrigada!





Brasil que lê: fotografia tirada em lugar público

17 07 2009

Brasileiro lendo dando espaço no banco para outros 1610Não me interrompam a leitura está boa.  Já deixei espaço no banco, não precisa pedir permissão para sentar!” — Praça Serzedelo Correia, Copacabana, RJ.





Ainda numa selva caótica!

15 07 2009

moving

Mas, prometeram ligar o VELOX amanhã!!!!!

E as caixas de livros estão desocupando a sala.

Faltam ainda as novas estantes.

E descobri que precisamos de uma broca elétrica mais potente.

Faltam ainda detalhes de organização doméstica, pequenas coisinhas que no fundo fazem a vida funcionar mais tranquilamente do que sem elas. 

O gás precisa ser ligado.  Temos comido fora.  Já está velha esta experiência de feijão com arroz que outros fazem…  rs..

Mas é tudo controlável, principalmente se se espera ficar neste local por algum tempo…

Fora  isso cansaço.  Gripe indo embora com remédios do médico amigo.  Energia voltando …  Antes do fim de semana volto com toda a corda…





Um fim de semana muito trabalhoso!

12 07 2009

mudanças 2

 Ilustração:  Walt Disney

 

Aos meu leitores:

Desculpas!  Mas, a partir de ontem, tenho uma nova residência.  Estou no processo de abrir caixas e mais caixas.  E esperar que a linha de internet rápida seja instalada no novo local.  Então estarei apenas dando uma passadinha por aqui, breve, até que aos pouquinhos a vida se normalize.  Deve ser logo!  Um abraço!