
A locomotiva e o cavalo
Paula Brito
[ Fábula de Lachambeaudie]
Rival da Locomotiva
Um Cavalo buscou ser,
Supondo que mais do que ela
Ele podia correr.
Num caminho em que tomavam
Ambos igual direção,
Disse ao Vapor o Cavalo,
Brioso escarvando o chão.
Por mais que queiras não podes
A palma ter da vitória,
Nem fazer com que teu nome
Como o meu brilhe na história.
Do fogo que te alimentas
As línguas vejo sair:
É nesse arsenal de guerra,
Que tens que te consumir.
— “ Deveras, tu te apresentas
Como meu competidor?
Pretendes lutar? — lutemos,
Disse ao Cavalo o Vapor.
Malgrado a desproporção
Entre um e outro querer,
Junto da Locomotiva
Põe-se o Cavalo a correr.
Um enche os ares de pó,
Outro de negra fumaça!
Não há triunfo entre os dois,
Pois um ao outro não passa.
Exausto, porém, de forças,
O Cavalo cai e morre;
Que faz a Locomotiva?
Com mais fogo ‘inda mais corre!
—–
Quando a proterva ignorância
Foge do século à luz
No abismo se precipita
A que seu erro a conduz.
Sempre que a velha rotina
Ao progresso der conselho,
Será bom que não te esqueça
De se mirar no espelho.
—–
Em: O Espelho, revista de literatura, modas, indústria e artes, 18 de setembro de 1859, página 8.
Francisco de Paula Brito ( RJ 1809 – RJ 1861) – tipógrafo, editor, jornalista, escritor, poeta, dramaturgo, tradutor e letrista. Foi aprendiz na Tipografia Nacional. Trabalhou em seguida, em 1827 no Jornal do Comércio. Em 1831 passa a livreiro e editor com Tipografia Fluminense de Brito & Cia. Em 1833 lança o jornal O Homem de Cor, primeiro jornal brasileiro contra o preconceito racial. É na sua editora que se forma a “Sociedade Petalógica”, grupo de poetas, compositores, atores, líderes da sociedade, ministros de governo, senadores, jornalistas e médicos que “constituíam movimento romântico de 1840-60” Por outro lado, a tipografia de Paula Brito serviu também de ponto de encontro entre músicos populares [ Laurindo Rabello e Xisto Bahia, por exemplo] e poetas românticos. A combinação produziu muitas parcerias musicais, principalmente no gênero das modinhas, que serviriam de embrião para a música popular urbana, popular no Rio de Janeiro nas primeiras décadas do século XX.
Obras:
Anônimas, poesia, 1859
O triunfo dos indígenas, teatro, sd
Os sorvetes, teatro, sd
O fidalgo fanfarrão, teatro, sd
A revelação póstuma, conto, 1839
A mãe-irmã, conto, 1839
O Enjeitado, conto
A marmota na Corte, periódico humorístico, 1849
A Maxambomba, teatro
A mulher do Simplício, ou A fluminense exaltada, periódico humorístico, 1832
Ao dezenove de outubro de 1854, dia de S. Pedro de Alcântara, nome de S. M. o Sr. D. Pedro II, poesia
Biblioteca das senhoras, 1859
Elegia à morte de Evaristo Xavier da Veiga, poesia, 1837
Fábulas de Esopo para uso da mocidade, arranjadas em quadrinhas, poesia, 1857
Monumento à memória do brigadeiro Miguel de Frias Vasconcellos e de seu irmão Francisco de Paula, 1859
Norma, teatro, 1844
Oferenda aos brasileiros, sd
Os Puritanos, teatro 1845
Poesias de Francisco de Paula Brito, poesia, 1863
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Pierre Lachambeaudie (França, 1807 – 1872) foi um escritor de fábulas francês.